Os Filhos de Duna
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Leto... — ela sacudiu a cabeça, os olhos úmidos. — Para nosso pai, eles vieram bem mais tarde. Não acha que pode ser...
— Em sonho me vi usando uma armadura e correndo através das dunas.
E já estive em Jacurutu.
— Jacurutu... — ela limpou a garganta. — Aquele velho mito!
— Um lugar real, Gham! Devo encontrar esse homem que chamam o Pregador. Devo encontrá-lo e interrogá-lo.
— Acha que ele é... nosso pai?
— Faça a si mesma essa pergunta.
— Seria bem típico dele — concordou ela. — Mas...
— Não gosto das coisas que sei que terei de fazer. Pela primeira vez em minha vida, eu entendo meu pai.
Ela se sentiu excluída de seus pensamentos, e disse:
— O Pregador é, mais provavelmente, apenas um velho místico.
— Rezo para que seja — sussurrou ele. — Oh, como rezo por isso!
Inclinou o corpo para a frente e se levantou, o baliset soando em sua mão enquanto se movimentava. Será que ele era apenas um Gabriel sem a trombeta?
Olhou em silêncio para o deserto iluminado pelo luar.
Ela voltou-se para olhar na mesma direção e viu o brilho fluorescente da vegetação que apodrecia na extremidade das plantações do sietch. Depois, a suave transição para as linhas das dunas. Lá estava um lugar cheio de vida. Mesmo enquanto o deserto dormia, alguma coisa nele permanecia desperta. Ela podia sentir isso, ouvindo animais bebendo no qanat abaixo.
A revelação de Leto havia transformado a noite: esse era um momento vivo, um tempo para descobrir regularidades na perpétua mudança, um instante para sentir aquele longo movimento de seu passado terrânico, todo ele embrulhado em suas memórias.
— Por que jacurutu? — ela indagou, e a uniformidade de seu tom de voz perturbou aquela atmosfera.
— Por quê?... Não sei. Da primeira vez que Stilgar nos contou como eles mataram as pessoas que havia por lá e tornaram o lugar tabu, eu pensei... o mesmo que você. Mas agora o perigo vem de lá... E do Pregador.
Ghanima não replicou nem exigiu que ele compartilhasse mais de seus sonhos prescientes. Sabia o quanto isso revelava a ele o terror que ela sentia.
Aquele caminho levava à Abominação, ambos sabiam. A palavra pairou impronunciada entre eles, enquanto ele se virava e liderava a caminhada de volta, sobre as rochas da entrada do sietch. “Abominação.”
O Universo pertence a Deus. É uma coisa só, um todo sobre o qual todas as divisões podem ser identificadas. A vida transitória, mesmo aquela vida racional e autoconsciente a que Chaniamos sensitiva, mantém apenas frágil domínio sobre qualquerporção do todo.- Comentários da CET (Comissão de Tradutores Ecumênicos) Halleck usava sinais manuais para transmitir a verdadeira mensagem enquanto falava sobre outros assuntos. Não gostara da pequena ante-sala que os sacerdotes haviam destinado para seu relatório, sabendo que devia estar pululando de aparelhos de espionagem. Deixem que eles tentem decifrar o código dos pequenos sinais manuais, pensou. Os Atreides usavam esse meio de comunicação há séculos sem que ninguém conseguisse ser mais esperto.
A noite caíra lá fora, mas a sala não tinha janelas. Sua iluminação ficava a cargo de globos luminosos situados nos cantos.
Muitos daqueles que pegamos eram gente de Alia sinalizou Halleck, observando o rosto de Jessica enquanto falava alto, dizendo-lhe que os interrogatórios ainda continuavam.
Foi como previu respondeu Jessica com movimentos de seus dedos. Ela acenou com a cabeça e respondeu verbalmente:
— Aguardarei um relatório completo assim que estiver satisfeito, Gurney.
— É claro, Minha Senhora — ele disse, e seus dedos acrescentaram: Há outra coisa muito perturbadora. Sob a ação de drogas profundas, alguns de nossos prisioneiros falaram em jacurutu e, ao pronunciarem esse nome, morreram.
Paralisação cardíaca condicionada? indagaram os dedos de Jessica. E ela disse:
— Já libertou algum dos cativos?
— Uns poucos, Minha Senhora. Os simplórios mais óbvios. E seus dedos relampejaram.
Suspeitamos de compulsão cardíaca, mas ainda não temos certeza. As autópsias não foram concluídas. Mas, como devia saber sobre essa coisa de Jacurutu, vim imediatamente.
Meu Duque e eu sempre pensamos em jacurutu como uma lenda interessante, provavelmente baseada num fato real disseram os dedos de Jessica, e ela ignorou a mágoa que normalmente a acometia quando falava de seu amor há muito falecido.
— Tem alguma ordem? — perguntou Halleck em voz alta.
Jessica respondeu do mesmo modo, dizendo-lhe que retornasse ao campo de pouso e relatasse qualquer informação positiva que surgisse.
Mas com os dedos ela transmitiu outra mensagem:
Restabeleça contato com nossos amigos entre os contrabandistas. Se jacurutu existe, eles terão que se manter à custa da venda de especiaria.E não haverá outro mercado para eles, exceto os contrabandistas.
Halleck inclinou a cabeça levemente e disse com os dedos: Já coloquei em movimento esse curso de ação, Minha Senhora. E como não pudesse ignorar o treinamento de uma vida inteira, acrescentou: Tenha muito cuidado neste lugar. Alia é sua inimiga e a maior parte do clero está com ela.
Javid não está, responderam os dedos de Jessica. Ele odeia os Atreides. Duvido que outra pessoa que não uma adepta pudesse detectar isso, mas sou positiva a esse respeito. Ele conspira e Alia não sabe.
— Estou colocando guardas extras para protegê-la disse Halleck, falando novamente e evitando a centelha de desprazer nos olhos de Jessica. — Há riscos, disso estou certo. Vai passar a noite aqui?
— Mais tarde iremos para o Sietch Tabr — disse ela, e hesitou, a ponto de lhe dizer que não mandasse mais guardas, mas manteve o silêncio. Os instintos de Gurney mereciam confiança. Mais de um Atreides aprendera isso, para seu prazer ou mágoa. — Tenho mais uma reunião... com o Mestre dos Noviços, — desta vez ela disse. — Esse é o último encontro e eu partirei deste lugar com alegria.
E eu vi outra besta saindo das areias, e ela tinha dois chifres, como um carneiro, mas sua boca era cheia de presas e quente como a de um dragão, e seu corpo tremulava e queimava com grande calor enquanto ela silvava como uma serpente.
- Bíblia Católica Laranja Revisada
Ele chamava a si mesmo “o Pregador” e provocava grande temor entre muitos em Arrakis de que pudesse ser o Muad'Dib voltando do deserto, vivo, afinal.
O Muad'Dib ainda podia estar vivo, já que ninguém vira seu corpo, levado pelo deserto. Ainda assim, seria o Muad'Dib? Era possível estabelecer pontos de comparação, embora ninguém que tivesse vivido nos velhos tempos se apresentasse para dizer:
— Sim, percebo que esse é o Muad'Dib. Eu o conheço.
E no entanto... tal como o Muad'Dib, o Pregador era cego, suas órbitas negras e marcadas com cicatrizes de um modo que só poderia ter sido provocado por um queima-pedra. E sua voz transmitia aquele caráter elétrico, penetrante, a mesma força compulsiva que exigia uma resposta de algum lugar profundo dentro de você. Muitos notaram isso. Era magro, esse Pregador, a face coriácea cheia de vincos, os cabelos grisalhos. Mas o deserto profundo fazia isso a muitas pessoas.
Você só tinha que olhar para si próprio e ver a comprovação disso. E havia outro fator de controvérsia. O Pregador era conduzido por um jovem Fremen, um rapaz
cujo sietch não se conhecia, e que dizia, quando lhe indagavam, que trabalhava sob pagamento. Argumentava-se então que o Muad'Dib, conhecendo o futuro, não necessitara de guias, exceto perto do fim, quando a dor o dominara.
Mas então ele precisara de um guia, todos sabiam disso.
O Pregador aparecera nas ruas de Arrakeen durante uma manhã de inverno, com a mão bronzeada e marcada de veias sobre o ombro de seu jovem guia. O rapaz, que dizia chamar-se Assan Tariq, caminhou através da poeira cheirando a pedra da manhã turbulenta, levando seu protegido com a agilidade prática dos que nasceram num sietch e nunca perderam o contato.
Observou-se que o cego usava um manto bourka tradicional sobre um traje-destilador que trazia a marca daqueles que haviam sido confeccionados, um dia, nas cavernas dos sietches do deserto mais profundo. Não era como os trajes ordinários, feitos atualmente. O tubo do nariz, que capturava a umidade da respiração para as camadas recicladoras embaixo do bourka, estava amarrado com fio trançado, feito da trepadeira negra, tão raramente vista hoje em dia. A máscara do traje, sobre a metade inferior do rosto, tinha manchas esverdeadas produzidas pela areia soprada com o vento. Em tudo e por tudo, esse Pregador era uma figura saída do passado de Duna.
Muitos entre as multidões madrugadoras daquele dia de inverno notaram sua passagem. Afinal, um Fremen cego permanecia uma raridade. A Lei Fremen ainda remetia os cegos para o Shai-Hulud. As palavras da Lei, embora menos respeitadas nesses tempos modernos, amortecidos pela água, permaneciam imutáveis desde os primeiros dias. Os cegos eram uma dádiva para o Shai-Hulud.
Eram expostos ao bled aberto para que os grandes vermes os devorassem. Quando isso ocorria e havia histórias conhecidas nas cidades , sempre era feito no lugar em que dominavam os vermes maiores, chamados os Velhos do Deserto. Um Fremen cego, portanto, era uma curiosidade, e as pessoas paravam para ver a passagem desse par estranho.
O garoto aparentava 14 anos-padrão, um membro da nova geração que usava trajes-destiladores modificados, deixando o rosto exposto ao ar que roubava a umidade. Tinha feições esguias, os olhos totalmente tingidos de azul pela especiaria, nariz protuberante e aquela aparência de inocência inócua que tão frequentemente mascara, entre os jovens, um conhecimento cínico. Em contraste com ele, o cego era uma lembrança de tempos quase esquecidos. Com as passadas longas e aquela magreza rija que falava de muitos anos sobre a areia, tendo apenas os pés ou um verme capturado para carregá-lo. Mantinha a cabeça erguida naquela rigidez de pescoço que alguns cegos não podem evitar, movendo-a apenas ao inclinar o ouvido na direção de algum som interessante.
O estranho par atravessou as multidões que se reuniam no início do dia, chegando afinal aos degraus que levavam para cima, por hectares de terraços, até a escarpa que constituía o Templo de Alia, companhia adequada ao Castelo de Paul.
O Pregador subiu os degraus até que seu jovem guia chegou à terceira plataforma, onde os peregrinos do Hajj esperavam pela abertura matinal das gigantescas portas acima deles. Eram portas suficientemente grandes para deixarem passar toda uma
catedral de uma das antigas religiões. Passar através delas, costumava-se dizer, reduzia a alma do peregrino a uma partícula suficientemente pequena de modo a poder penetrar através do fundo de uma agulha e assim entrar no céu.
Na extremidade da terceira plataforma, o Pregador se voltou e foi como se olhasse à sua volta, vendo, com as órbitas vazias, os afetados residentes da cidade, alguns deles Fremen com roupas que simulavam trajes-destiladores, mas não passavam de tecidos decorativos, ao lado dos ávidos peregrinos, recém-desembarcados dos transportes espaciais da Corporação, esperando pelo primeiro passo na devoção que lhes asseguraria um lugar no paraíso.
A plataforma era um lugar barulhento: havia os Cultores do Espírito do Mahdi, vestindo mantos verdes e carregando falcões vivos treinados para gritarem o
“Chamado do céu”. Vendedores apregoavam sua comida. Muitas coisas eram postas à venda, com vozes gritando em competitiva evidência. Ali estava um dos impressos em estilo de Duna, com seus folhetos de comentários I shigawire.
Um vendedor tinha pedaços de roupa exótica, que ele “garantia terem sido tocados pelo próprio Muad'Dib!”. Outro trazia frascos de água com o “certificado de terem vindo do Sietch Tabr, onde viveu o Muad'Dib”. E, através de tudo isso, conversas em mais de 100 dialetos de Galach entremeavam-se com sons guturais e guinchos de linguagens estranhas reunidas sob o “Sagrado Império”. Dançarinos Faciais e gente pequena, oriundos dos suspeitos planetas de artesãos dos Tleilaxu, saltavam e giravam através da multidão em trajes berrantes. Havia rostos magros e rostos gordos, ricos em água. Um sussurro de passadas nervosas chegava do plasteel áspero que formava os amplos degraus. E ocasionalmente uma voz aguda se elevaria da cacofonia de preces: “Muaa-a-aad'Dib! Mua-a-a-ad'Dib! Receba as súplicas de minha alma! Tu, que és o ungido de Deus, receba minha alma! Mua-a-a-ad'Dib!”
Próximos, entre os peregrinos, atores mascarados recitavam, em troca de algumas moedas, os versos da atualmente popular Controvérsia entre Armistead e Leandgra.
O Pregador inclinou a cabeça para ouvir.
Os atores eram homens da cidade, de meia-idade, com vozes entediadas.
Sob o comando de uma palavra, o guia os descreveu para o Pregador. Estavam vestidos com mantos folgados, nem mesmo se dignando a simular trajes-destiladores para seus corpos ricos em água. Assan Tariq achou isso divertido, mas o Pregador o repreendeu.
O ator que fazia o papel de Leandgraph estava terminando uma fala:
— Bah! O Universo só pode ser apreendido pela mão de um ser sensível.
Essa mão é que move seu precioso cérebro, e que impulsiona tudo mais que dele deriva. Você vê aquilo que criou, tornando-se consciente, só depois que a mão fez o seu trabalho!
Aplausos saudaram o desempenho.
O Pregador cheirou, inalando os ricos odores desse lugar: ésteres escapando de trajes-destiladores mal-ajustados, almíscares de origens diversas, a onipresente poeira de pedra, hálitos de incontáveis dietas exóticas, e os aromas de
raros incensos que já começavam a ser queimados dentro do Templo de Alia e agora flutuavam sobre os degraus, numa corrente de ar habilmente dirigida. Os pensamentos do Pregador refletiam-se em seu rosto enquanto ele terminava de perceber tudo à sua volta: “Nós chegamos a isto, nós, os Fremen!”
Uma súbita distração ondulou pela multidão na plataforma. Dançarinos da Areia tinham chegado à praça ao pé dos degraus, meia centena deles, amarrados uns aos outros por cordas de elacca. Obviamente, haviam dançado assim durante dias, buscando um estado de êxtase. Suas bocas espumavam enquanto eles se moviam em espasmos, batendo os pés em sua música secreta. Um terço deles pendia das cordas, inconsciente, puxado para a frente e para trás pelos outros, como marionetes em arames. Um desses bonecos despertara, entretanto, e a multidão aparentemente sabia o que esperar.
— Eu viii! — gritou o dançarino recém-desperto. — Eu úú! — Ele resistiu aos puxões dos outros dançarinos, seu olhar esgazeado lançando-se para a direita e a esquerda. — Onde se ergue esta cidade, restará apenas areia! Eu úú!
Uma grande gargalhada elevou-se da platéia. Até mesmo os novos peregrinos uniram-se a ela.
Isso era demais para o Pregador. Ele ergueu ambos os braços e rugiu numa voz que certamente comandara cavalgadas sobre grandes vermes:
— Silêncio! — E toda a multidão na praça ficou imóvel ante aquele grito de batalha.
O Pregador apontou a mão magra em direção aos dançarinos, e a ilusão de que realmente os via era sinistra.
— Não estão ouvindo aquele homem? Idólatras e blasfemos! Todos vocês!
A religião do Muad'Dib não é o Muad'Dib. Ele a rejeitou, tal como rejeitou a vocês!
A areia vai cobrir este lugar. A areia vai cobrir vocês!
Dizendo isso, abaixou os braços, colocou a mão sobre o ombro de seu guia e ordenou:
— Leve-me para longe deste lugar.
Talvez houvesse sido a escolha das palavras pelo Pregador. “Ele a rejeitou, tal como rejeitou a vocês!” Talvez fosse o tom de sua voz, certamente algo mais que humano, uma vocalização treinada, com certeza, nas artes da Voz das Bene Gesserit, que comandavam por meras nuanças de sutil inflexão. Ou talvez tivesse sido apenas o misticismo inerente a esse lugar, onde o Muad'Dib vivera, caminhara e governara. Alguém gritou do alto da plataforma, chamando pelo Pregador com uma voz que tremia de assombro religioso:
— É o Muad'Dib que volta para nós?
O Pregador parou, enfiou a mão na sacola embaixo de seu bourka e retirou um objeto que só os que estavam mais próximos reconheceram. Era uma mão humana mumificada pelo deserto, uma das ironias do planeta em relação à mortalidade que apareciam por vezes na areia e eram consideradas universalmente como mensagens do Shai-Hulud.
A mão fora dissecada até se converter num punho fechado que terminava em ossos brancos, marcados por rajadas de areia levadas pelo vento.
— Eu trago a Mão de Deus, e isso é tudo que eu trago! — gritou o Pregador. — Eu falo pela Mão de Deus. Eu sou o Pregador.
Alguns entenderam com isso que aquela mão era do Muad'Dib, mas outros se fixaram naquela presença de líder e em sua voz terrível e foi assim que Arrakis veio a conhecer o seu nome. Mas não foi a última vez que ouviram sua voz.
Relata-se comumente, meu caro Georad que existe uma grande e natural virtude na experiência da melange.
Talvez isso seja verdade. Contudo, permanecem dentro de mim dúvidas quanto ao fato de o uso da melange trazer consigo a virtude. Parece-me que certas pessoas corromperam o uso da melange em desafio a Deus. Nas palavras do Ecúmeno, elas desfiguraram a alma. Elas roem a supercie da melange e acreditam com isso terem obtido o grau. Elas ridicularizam seus companheiros, fazem grande mal à religiosidade e distorcem maliciosamente o significado dessa dádiva abundante, o que é decerto uma mutilação que ultrapassa a capacidade humana de restauração. Para estar em verdadeira sintonia com a virtude da especiaria, sem ser corrompido de modo algum, para ser cheio de honra divina, o homem deve permitir que suas palavras correspondam a suas ações. E quando suas ações representam um sistema de consequências malignas, você deve ser julgado por essas consequências, não por suas explicações. É desse modo que devemos julgar o Muad'Dib.
- A Heresia Formalista Era uma sala pequena, marcada pelo odor de ozônio, reduzida a uma iluminação crepuscular, acinzentada, pelos globos luminosos enfraquecidos e pela luz azul-metálica de um único monitor trans-olho. A tela tinha aproximadamente um metro de largura e apenas dois terços disso de altura.
Revelava com detalhes o panorama de um vale rochoso e inóspito onde dois tigres Laza se alimentavam com os restos sangrentos de uma presa recentemente abatida. No penhasco acima dos tigres, podia-se ver um homem magro, usando um uniforme Sardaukar de trabalho, com a insígnia de Levenbrech no colarinho. Usava um quadro de servo-controle preso ao peito.
Uma cadeira suspensora veriforme fora colocada de frente para a tela, sendo ocupada por uma mulher de cabelos louros e idade indeterminada. Ela tinha a face em forma de coração e mãos delgadas que agarravam os braços da cadeira enquanto observava. Seu manto branco debruado de dourado ocultava-lhe a figura.
Um passo à sua direita encontrava-se um homem corpulento, vestido com o uniforme cor de ouro e bronze de um auxiliar Bashar dos antigos Sardaukar imperiais. Seu cabelo grisalho fora aparado sobre feições quadrangulares e destituídas de emoção.
A mulher tossiu e disse:
— Foi como havia previsto, Tyekanik.
— Certamente, Princesa — respondeu o Auxiliar Bashar com sua voz rouca.
Ela sorriu ante a tensão em sua voz e indagou:
— Diga-me, Tyekanik, como meu filho irá receber o som do título de Imperador Faradin I?
— O título lhe é bem adequado, Princesa.
— Não foi isso que perguntei.
— Ele pode não aprovar algumas das coisas feitas para lhe conceder esse, ah, título.
— Então, novamente... — Ela voltou-se, olhando através da sombra em direção a ele. — Você serviu bem ao meu pai. Não foi sua a culpa de ele perder o trono para os Atreides. Mas por certo a picada daquela perda deve ter sido sentida tão agudamente por você quanto por qualquer...
— Será que a Princesa Wensicia tem alguma tarefa especial para mim? —
indagou Tyekanik. Sua voz permanecia rouca, mas agora havia uma tonalidade aguda.
— Você tem o mau hábito de me interromper — ela disse. Agora ele sorria, exibindo dentes espessos que brilhavam à luz emanada da tela.
— Às vezes me lembra seu pai — disse ele. — Sempre esses circunlóquios antes da solicitação de alguma delicada... ah, missão.
Ela virou o rosto para lhe ocultar sua fúria e indagou:
— Acredita realmente que aqueles tigres Laza colocarão meu filho no trono?
— É uma verdadeira possibilidade, Princesa. Deve admitir que os filhos bastardos de Paul Atreides não serão mais do que bocados suculentos para aqueles dois. E uma vez eliminados os gêmeos...
Encolheu os ombros.
— O neto de Shaddam IV torna-se o sucessor lógico — disse ela. — Isso se pudermos eliminar as objeções dos Fremen, da Landsraad e da CHOAM, para não mencionar qualquer Atreides sobrevivente que...
— Javid me assegurou que sua gente pode se encarregar de Alia com facilidade. Não conto Lady Jessica como Atreides. Portanto, quem mais permanece?
— A Landsraad e a CHOAM ficarão onde estiver o lucro respondeu ela.
Mas e quanto aos Fremen?
— Nós os afogaremos em sua religião do Muad'Dib.
— Mais fácil dizer do que fazer, meu querido Tyekanik.
— Vejo que voltamos à velha discussão.
— A Casa Corrino fez coisas piores para obter o poder — disse ela.
— Mas aderir a essa... religião do Mahdi!
— Meu filho o respeita.
— Princesa, eu anseio pelo dia em que Casa de Corrino retornará ao trono que lhe é de direito. Assim pensa cada Sardaukar remanescente aqui em Salusa. Mas se...
— Tyekanik! Este é o planeta Salusa Secundu. Não caia nas maneiras indulgentes que se espalham pelo nosso Império. Nome completo, título completo, atenção a cada detalhe. Esses atributos mandarão o sangue dos Atreides para as areias de Arrakis. Todos os detalhes, Tyekanik!
Ele sabia a razão desse ataque. Era parte dos truques astutos que ela aprendera com sua irmã, Irulan. Mas ele se sentia perdendo terreno.
— Você me ouviu, Tyekanik?
— Eu a ouço, Princesa.
— Quero que você se converta à religião do Muad'Dib.
— Princesa, eu caminharia no fogo pela senhora, mas isso...
— Essa é uma ordem, Tyekanik!
Ele engoliu em seco e olhou para a tela. Os tigres Laza haviam acabado de se alimentar e agora estavam deitados na areia, terminando de se limpar, as línguas compridas movendo-se sobre as patas dianteiras.
— Uma ordem, Tyekanik. Você me entende?
— Eu ouço e obedeço, Princesa.
Sua voz não mudara de tom. Ela suspirou.
— Oh, se meu pai ao menos estivesse vivo...
— Sim, Princesa.
— Não zombe de mim, Tyekanik. Sei como isso é desagradável para você.
Mas se der um exemplo a ser seguido...
— Ele pode não seguir, Princesa.
— Ele seguirá. — Apontou para a tela. — Mas me ocorre que aquele Levenbrech pode ser um problema.
— Um problema? Como?
— Quantas pessoas sabem desse negócio dos tigres?
— Aquele Levenbrech, que foi o treinador... um piloto de transporte, a senhora e, é claro... — Ele bateu no próprio peito.
— E quanto aos fornecedores?
— Eles não sabem de nada. O que teme, Princesa?
— Meu filho é, bem, muito sensível.
— Os Sardaukar não revelam seus segredos — disse ele.
— Nem os mortos o fazem. — Ela se inclinou para a frente e acionou um botão vermelho embaixo da tela iluminada.
Imediatamente os tigres Laza ergueram as cabeças. Levantaram-se, olhando colina acima para o Levenbrech. Movendo-se como se fossem apenas um, voltaram-se e começaram a subir o penhasco.
Aparentando calma a princípio, o Levenbrech apertou a chave em seu console. Seus movimentos eram seguros, mas, como os felinos continuassem a avançar sobre ele, o homem tornou-se mais agitado, apertando a chave seguidas vezes e com mais firmeza. Uma expressão de surpresa surgiu em suas feições, sua mão moveu-se num movimento brusco em direção à faca de trabalho sobre a cintura. Mas esse movimento chegou muito tarde. Uma garra atingiu-lhe o peito e o
atirou para trás. Quando ele caía, o outro tigre o pegou pelo pescoço de uma única bocada e o sacudiu. A coluna vertebral partiu-se.
— Atenção aos detalhes — repetiu a Princesa. Ela se voltou e ficou rija quando Tvekanik sacou de sua faca. Mas ele a ofereceu a ela, com a lâmina voltada para si mesmo.
— Talvez queira usar a minha faca para cuidar do outro detalhe — disse ele.
— Coloque essa faca de volta na bainha e não aja como um tolo! — disse ela, furiosa. — Algumas vezes, Tyekanik, você me tenta a...
— Aquele era um bom homem, Princesa. Um dos meus melhores.
— Um dos meus melhores — ela corrigiu.
Ele inspirou profundamente, trémulo, e embainhou a faca.
— E quanto ao meu piloto de transporte?
— Será considerado um acidente — respondeu ela. — Você irá instruí-lo para que tenha o maior cuidado quando trouxer aqueles tigres de volta para nós. E, é claro, depois que ele houver entregue nossos bichanos ao pessoal de Javid no transporte... — ela olhou para a faca.
— Isso é uma ordem, Princesa?
— É.
— Devo então cair sobre minha faca na ocasião, ou também vai cuidar desse, ahhh, detalhe?
Ela falou com uma calma forçada, a voz pesada:
— Tvekanik, se eu não estivesse absolutamente convencida de que cairia sobre sua faca ao meu comando, você não estaria aqui, ao meu lado, armado.
Ele engoliu em seco novamente e olhou para a tela. Os tigres estavam se alimentando uma vez mais. Ela se recusava a olhar para a cena, continuando a fitar Tvekanik enquanto dizia:
— Você também dirá aos nossos fornecedores que não tragam mais qualquer par combinado de crianças que se encaixem na descrição necessária.
— Às suas ordens, Princesa.
— Não use esse tom de voz comigo, Tvekanik.
— Sim, Princesa.
Com os lábios comprimindo-se em linha reta, ela acrescentou:
— Quantos pares daqueles trajes nos restam?
— Seis conjuntos de mantos completos com trajes-destiladores e sapatos para areia, todos com a insígnia dos Atreides trabalhada sobre eles.
— Tecidos tão ricos quanto os que estavam naquele par? — ela acenou em direção à tela.
— Adequados à realeza, Princesa.
— Atenção aos detalhes. Os trajes serão enviados para Arrakis como presente aos nossos primos reais. Serão presentes de meu filho, está me entendendo, Tvekanik?
— Plenamente, Princesa.
— Faça com que ele escreva uma nota adequada. Deve dizer que ele envia aqueles pobres trajes como prova de sua devoção à Casa Atreides. Alguma coisa dessa ordem.
— E a ocasião?
Deve ser um aniversário, dia santificado ou alguma coisa do gênero, Tvekanik. Deixo isso por sua conta. E confio em você, meu amigo.
Ele olhou para ela em silêncio. O rosto dela endureceu.
— Certamente deve saber disso. Em quem mais posso confiar, desde a morte de meu marido?
Ele encolheu os ombros, pensando no quanto ela se parecia com uma aranha. Não seria bom tornar-se muito íntimo dela, como ele agora suspeitava de que tivesse ocorrido com seu Levenbrech.
— E, Tvekanik — ela disse , — mais um detalhe.
— Sim, Princesa?
— Meu filho está sendo treinado para governar. Tempo virá em que ele deverá tomar a espada em suas próprias mãos. Você saberá quando chegar esse momento. Desejo ser informada imediatamente.
— Ao seu comando, Princesa.
Ela se inclinou para trás, olhando para Tvekanik com perspicácia.
— Você não aprova minhas ações, sei disso muito bem. Não tem importância, desde que se lembre sempre da lição do Levenbrech.
— Ele era muito bom com animais, mas dispensável, sim, Princesa.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Não? Então... não entendo.
— Um exército — ela explicou — é composto de partes dispensáveis, totalmente substituíveis. Essa é a lição do Levenbrech.
— Partes substituíveis — repetiu ele. — Incluindo o comandante supremo?
— Sem um comando supremo dificilmente haverá razão para um exército, Tvekanik. É por isso que você irá aderir imediatamente a essa religião do Mahdi e ao mesmo tempo começar a campanha para converter o meu filho.
— Imediatamente, Princesa. Presumo que não deseja que eu limite a educação dele nas outras artes marciais à custa dessa, ahh, religião?
Ela ergueu-se da cadeira, caminhou à volta dele e parou na porta, falando sem olhar para trás.
— Um dia você vai tentar a minha paciência em demasia, Tvekanik. E com isso saiu.
Ou nós abandonamos a Teoria da Relatividade, há tanto tempo aceita, ou paramos de acreditar que possamos nos envolver numa contínua e precisa previsão do futuro. De fato, conhecer o futuro levanta um conjunto de questões que não podem ser respondidas sob os parâmetros normais, a não ser que alguém, à princípio, projete um observador para fora do Tempo, e em segundo lugar anule todo o movimento. Se você aceita a Teoria da Relatividade, pode então demonstrar que o Tempo e o Observador devem permanecer imóveis, um em relação ao outro, do contrário surgirão imperfeições. Isso parece indicar ser impossível realizar uma previsão precisa do futuro.
Como então podemos explicar a contínua busca desse objetivo visionário por parte de cientistas respeitados? E como então explicar o Muad'Dib?
- Palestras sobre a Presciência por Harq al-Ada
— Devo lhe dizer uma coisa — disse Jessica, — embora saiba que, ao lhe dizer isso, farei com que se lembre de muitas experiências de nosso passado mútuo, o que a colocará em perigo.
Fez uma pausa para notar como Ghanima recebia suas palavras.
As duas estavam sentadas sozinhas, sobre almofadas baixas, numa câmara do Sietch Tabr. Fora necessário um talento considerável para conseguir esse encontro e Jessica não estava certa de que estivera sozinha em suas manobras.
Ghanima parecera antecipar-lhe cada passo, colaborando com ela.
Já se passavam quase duas horas desde o raiar do dia e toda a excitação dos cumprimentos e reconhecimentos. Jessica forçou o pulso de volta a um ritmo uniforme e focalizou sua atenção na sala de paredes de rocha, com suas cortinas escuras e almofadas amarelas. Para controlar as tensões acumuladas, encontrou-se, pela primeira vez em anos, relembrando a Litania contra o Medo do ritual Bene Gesserit.
“Eu não temerei. O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena morte que traz a total obliteração. Eu enfrentarei meu medo, permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. E quando houver passado, voltarei meu olhar interior para ver sua trilha. Para onde o medo se foi, não haverá nada. Só eu restarei.”
Fez isso em silêncio e respirou fundo para se acalmar.
— Ela ajuda, às vezes — disse Ghanima. — A Litania, quero dizer.
Jessica fechou os olhos para ocultar o choque dessa percepção. Fazia muito tempo que alguém fora capaz de registrá-la tão intimamente. A conscientização era desconcertante, principalmente quando acionada por seu intelecto oculto por trás de uma máscara de infância.
Tendo enfrentado seu medo, entretanto, Jessica abriu os olhos e conheceu a fonte de sua inquietação: “Eu temo por meus netos.” Nenhuma dessas crianças apresentava os estigmas da Abominação que Alia ostentava, embora Leto demonstrasse todos os sinais de estar ocultando alguma coisa terrível. Por essa razão, ele fora habilmente excluído desse encontro.
Agindo num impulso, Jessica colocou de lado suas máscaras emocionais mais enrustidas, sabendo que seriam de pouca utilidade aqui, apenas barreiras à comunicação. Desde aqueles momentos adoráveis com seu Duque que ela não abaixava essas barreiras, e por isso achou o ato ao mesmo tempo doloroso e aliviador. Ali permaneciam fatos que nenhuma maldição, prece ou litania poderia lavar da existência. A fuga não deixaria tais fatos para trás, eles não poderiam ser ignorados. Elementos da visão de Paul haviam sido realinhados e os tempos haviam alcançado seus filhos. Eles eram um imã no vazio, o mal e todos os usos daninhos do poder acumulavam-se em torno deles.
Observando o efeito das emoções no rosto da avó, Ghanima admirou-se de que Jessica tivesse abandonado seu autocontrole.
Movendo suas cabeças de modo extraordinariamente sincronizado, ambas se voltaram, seus olhos se encontrando enquanto se fitavam profundamente. Os pensamentos passaram entre elas sem a necessidade de palavras.
Jessica: “Queria que você visse meu medo. ”
Ghanima: “Agora sei que me ama. ”
Foi um rápido momento de total confiança.
E Jessica disse:
— Quando seu pai era apenas um garoto, eu trouxe uma Reverenda Madre a Caladan para testá-lo.
Ghanima acenou afirmativamente com a cabeça. A memória era extremamente nítida.
— Nós Bene Gesserit s sempre fomos cautelosas em nos certificarmos de que as crianças que criamos sejam humanas e não animais. Nem sempre se pode verificar isso pela aparência externa.
— É por causa do modo como foi treinada — disse Ghanima, e a memória inundou- lhe a mente.
Aquela velha Bene Gesserit, Gaius Helen Mohian. Ela viera ao Castelo Caladan com seu gom jabbar envenenado e a caixa de dor cauterizante. A mão de Paul (que se tornava a de Ghanima na memória compartilhada) gritava na agonia daquela caixa, enquanto a velha falava calmamente a respeito de morte imediata se a mão fosse aliviada daquela dor. E não havia dúvida alguma quanto à morte na agulha mantida de encontro ao pescoço da criança, enquanto a voz da anciã recitava monotonamente seu raciocínio: “Você já ounu falar em animais roendo uma perna para escaparem de uma armadilha? Esse é um truque animal. Um ser humano permaneceria na armadilha, suportando a dor, fingindo-se de morto, de modo a poder matar aquele que colocara a armadilha e assim eliminar a ameaça à sua vida.
Ghanima sacudiu a cabeça ante a recordação da dor. A sensação de queimadura! A queimadura! Paul imaginara que sua pele se soltava, negra, sobre aquela mão em agonia dentro da caixa. A carne torrando e se desprendendo até que só restavam ossos queimados. E tudo fora apenas um truque, a mão permanecia ilesa. Mas o suor escorreu da testa de Ghanima ante essa lembrança.
— É claro que se lembra disso de um modo que eu não posso — concluiu Jessica.
Por um momento, Ghanima, influenciada pela memória, viu a avó sob ótica diferente: o que essa mulher poderia fazer impulsionada pelas necessidades impostas naqueles condicionamentos iniciais das escolas Bene Gesserit! Isso obrigava a novas perguntas quanto ao retorno de Jessica a Arrakis.
— Seria estúpido repetir tal teste em você ou em seu irmão — disse Jessica. — Vocês já conhecem o modo como ele transcorre. Devo presumir que são humanos e que não usarão de maneira errada os poderes que herdaram.
— Mas a senhora não faz realmente essa suposição — disse Ghanima.
Jessica piscou os olhos, percebendo que as barreiras haviam deslizado de volta, e baixou-as uma vez mais. Então indagou:
— Vai acreditar em meu amor por você?
— Sim. — Ghanima ergueu a mão quando Jessica ia começar a falar. —
Mas esse amor não a impediria de nos destruir. Oh, eu conheço o raciocínio: melhor que o animal-humano morra do que recrie a si mesmo. E isso é especialmente verdadeiro se o animal-humano traz o nome Atreides.
— Você pelo menos é humana — deixou escapar Jessica. — Confio em meus instintos quanto a isso.
Ghanima percebeu a sinceridade e disse:
— Mas não está certa quanto a Leto.
— Não, não estou.
— Abominação?
Jessica conseguiu apenas acenar. Ghanima esclareceu:
— Não ainda, pelo menos. Ambos conhecemos o perigo. Pudemos ver isso progredindo em Alia.
Jessica colocou as mãos sobre os olhos e pensou: “Nem mesmo o amor pode nos proteger de fatos indesejáveis.” E sabia que ainda amava a filha, chorando silenciosamente ante seu destino: “Alia, ó Alia! Sinto pela minha parte em sua destruição.”
Ghanima pigarreou alto.
Jessica abaixou as mãos, pensando: “Posso lamentar minha pobre filha, mas existem outras necessidades agora.” Depois, disse:
— Assim, você reconhece o que aconteceu com Alia.
— Leto e eu observamos acontecer. Não tínhamos poder para evitá-lo, embora tivéssemos discutido muitas possibilidades.
— Tem certeza de que seu irmão está livre dessa maldição?
— Tenho.
A calma segurança dessa declaração não podia ser negada e Jessica se viu aceitando-a. Depois, perguntou:
— Como foi que escaparam?
Ghanima explicou a teoria que ela e Leto tinham desenvolvido, de que evitar o transe da especiaria, no qual Alia entrava com tanta frequência, fazia toda a
diferença. Chegou mesmo a revelar seus sonhos e os planos que haviam discutido...
Até mesmo Jacurutu.
Jessica assentiu:
— Alia é, contudo, uma Atreides, e isso coloca problemas enormes.
Ghanima ficou em silêncio ante a súbita percepção de que Jessica ainda chorava a morte de seu Duque como se ela tivesse ocorrido ontem, encontrando-se com isso disposta a guardar seu nome e sua memória contra qualquer ameaça.
Memórias pessoais da época do Duque passaram pela consciência de Ghanima, reforçando essa avaliação e suavizando-a com a compreensão.
— Agora — disse Jessica com a voz mais alegre, — e quanto a esse Pregador? Ouvi alguns relatórios alarmantes, ontem, depois daquela maldita Purificação.
Ghanima encolheu os ombros.
— Ele poderia ser...
— Paul?
— Sim, mas ainda não o vimos para examiná-lo.
— Javid ri anti esses rumores — disse Jessica. Ghanima hesitou, depois fez a pergunta:
— Você confia nesse Javid?
Um sorriso amargo tocou os lábios de Jessica.
— Não mais que você.
— Leto diz que Javid ri das coisas erradas.
— Chega de falar do riso de Javid. Mas vocês têm realmente a idéia de que meu filho ainda está vivo, tendo retornado sob esse disfarce?
— Nós dizemos que é possível. E Leto... — Ghanima sentiu a boca subitamente seca, e relembrou temores segurando o peito. Forçou-se a dominá-los, narrando as outras revelações de Leto em seus sonhos prescientes.
Jessica moveu a cabeça de um lado para o outro, como que ferida.
Ghanima concluiu:
— Leto diz que precisa encontrar esse Pregador e se certificar.
— Sim... é claro. Eu nunca devia ter saído daqui. Foi covardia de minha parte.
— Por que se culpar? A senhora atingira um limite. Sei disso. Leto sabe, e até mesmo Alia sabe.
Jessica colocou a mão na garganta e a esfregou brevemente. Depois acrescentou:
— Sim, o problema é Alia.
— Ela exerce estranha atração sobre Leto — disse Ghanima. — Foi por isso que eu a ajudei a conseguir este encontro a sós comigo.
Ele concorda em que ela se encontra perdida, sem qualquer esperança de recuperação, mas ainda assim arranja maneiras para estar com ela... e estudá-la... é muito perturbador. Quando tento falar contra isso, ele cai no sono. Ele...
— Ela o está drogando?
— Não. — Ghanima sacudiu a cabeça. — Mas ele tem essa estranha empatia com ela. E... em seu sono, ele frequentemente murmura Jucurutu.
— Novamente isso! — Jessica logo se achou relatando o depoimento de Gurney sobre os conspiradores revelados no campo de pouso.
— Às vezes tenho medo de que Alia deseje que Leto procure jacurutu —
disse Ghanima. — Sempre pensei nisso apenas como uma lenda. A senhora a conhece, é claro.