Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 1 de 8 · parte 2/3

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Os Filhos de Duna

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ainda de outro modo diferiam de seus ancestrais: servo-estimuladores haviam sido implantados em seus cérebros enquanto eram filhotes. Esses estimuladores os transformavam em marionetes de qualquer um que possuísse um transmissor.

Estava frio e quando os felinos pararam, examinando o terreno, sua respiração condensou-se em vapor sobre o ar. Em torno deles se estendia uma árida e estorricada região de Salusa Secundus, lugar que abrigava umas poucas trutas da areia contrabandeadas de Arrakis e mantidas precariamente vivas no sonho de que um dia o monopólio da melange pudesse ser quebrado. No lugar onde os felinos se encontravam, a paisagem era marcada por rochas cor de cobre e alguns arbustos esparsos, de um verde prateado às longas sombras do sol nascente.

Com o mais leve dos movimentos, os grandes gatos ficaram subitamente alertas. Seus olhos voltaram-se lentamente para a esquerda e então suas cabeças se viraram. Lá embaixo, no terreno desolado, duas crianças subiam de mãos dadas por um leito seco de aluvião. Pareciam ter uma idade em torno de nove ou 10 anos-padrão. Ambas tinham cabelos ruivos e usavam trajes-destiladores parcialmente cobertos por ricos mantos bourka de cor branca, que exibiam em torno da bainha e no capuz a crista do falcão da Casa Atreides, delineada com fio de gema flamejante.

Enquanto caminhavam, as crianças conversavam alegremente e suas vozes eram levadas com clareza até os felinos. Os tigres Laza conheciam esse jogo, já o haviam jogado antes, mas permaneciam imóveis, aguardando o disparo do sinal de perseguição em seus servo-estimuladores.

Agora, um homem surgiu no topo do penhasco, acima dos felinos. Ele parou e observou a cena: tigres, crianças. Usava o uniforme de trabalho dos Sardaukar, cinza e negro, com a insígnia de um Levenbrech, ajudante de um Bashar. Um arreio passado por trás do pescoço e sob os braços prendia a seu peito o servo-transmissor, uma embalagem de pouca espessura em que as chaves de controle podiam ser alcançadas facilmente com ambas as mãos.

Os felinos não se voltaram com sua aproximação. Conheciam esse homem pelo cheiro e pelo som. Ele desceu até se colocar a dois passos dos tigres e limpou o suor da testa. O ar estava frio, mas o trabalho era quente.

Novamente seus olhos pálidos esquadrinharam a cena: tigres, crianças.

Endireitou um fio de cabelo úmido e louro sob o negro capacete de trabalho e tocou o microfone implantado em sua garganta.

— Os gatos já os avistaram.

A resposta chegou através de receptores implantados atrás de cada orelha.

— Podemos vê-los.

— Agora? — indagou o Levenbrech.

— Será que eles o farão sem o comando de perseguição? — retrucou a voz.

— Eles estão prontos — disse o Levenbrech.

— Muito bem, vejamos se quatro sessões de condicionamento já são suficientes. Diga-me quando estiver pronto.

— Quando quiser.

— Agora, então — disse o Levenbrech.

Tocou o botão vermelho do lado direito de seu servo-transmissor, primeiro soltando a barra que protegia a chave. Agora, os felinos encontravam-se livres de qualquer impulso inibidor transmitido. Manteve a mão sobre um botão preto, abaixo do vermelho, pronto a deter os animais, caso se voltassem contra ele.

Mas eles nem o notaram, agachando-se e começando a descer a encosta em direção às crianças. Suas grandes patas resvalavam em movimentos suaves.

O Levenbrech agachou-se para observar, sabendo que em algum lugar perto dele um trans-olho oculto transmitia toda a cena para um monitor secreto dentro do castelo onde vivia o Príncipe.

Dentro em pouco os felinos começaram a trotar e depois a correr.

As crianças, sua atenção voltada para a subida através do terreno rochoso, ainda não haviam percebido o perigo. Uma delas riu, um som alto e agudo no ar límpido. A outra tropeçou e, ao recuperar o equilíbrio, viu os tigres. Apontou, dizendo:

— Olhe!

Ambas pararam, olhando para essa interessante intrusão em suas vidas. E

ainda estavam de pé, imóveis, quando os tigres as atingiram, um sobre cada criança.

As crianças morreram abruptamente, com os pescoços quebrados. Então, os felinos começaram a devorá-las.

— Devo Chaniá-los de volta? — indagou o Levenbrech.

— Deixe que terminem. Eles agiram bem. Sabia que o fariam. Esse par é soberbo.

— Os melhores que já vi — concordou o Levenbrech.

— Então está bem. Já estamos enviando o transporte para buscá-lo.

— Desligando agora.

O Levenbrech levantou-se e se espreguiçou. Conteve o impulso de olhar diretamente para a elevação à sua esquerda, onde uma cintilação reveladora indicaria a localização do trans-olho que transmitira essa esplêndida performance ao seu Bashar, lá longe, nas terras verdejantes do Capitólio. O Levenbrech sorriu.

Esse dia de trabalho ia valer-lhe uma promoção. Já podia sentir a insígnia de Bator em seu colarinho e um dia.

Burseg... Talvez mesmo Bashar. As pessoas que serviam bem no exército de Faradin, neto do falecido Shaddam IV, recebiam belas promoções. E um dia, quando o Príncipe estivesse sentado no trono que lhe pertencia por direito, haveria promoções ainda maiores. O posto de Bashar não seria o ponto final. Ainda havia baronatos e condados para serem exercidos nos muitos mundos desse reino...

quando os gêmeos Atreides tivessem sido eliminados.

Os Fremen devem retornar à sua fé original, ao seu gênio em formar comunidades humanas. Eles devem retornar ao deserto, onde sua lição de sobrevivência foi a prendida na luta contra Arrakis. O único negócio dos Fremen devia ser a tarefa de abrir sua alma aos ensinamentos interiores. Os mundos do Império, a Landsraad e a Confederação CHOAM não lhes trazem nenhuma mensagem. Apenas roubam suas almas.

- O Pregador de Arrakeen

Por todas as direções à volta de Lady Jessica, estendendo-se pela monótona uniformidade da planície de pouso, sobre a qual seu transporte repousava, chiando e estalando após o mergulho desde o espaço, se erguia um oceano de humanidade. Ela estimava que meio milhão de pessoas ali se encontrassem e apenas um terço delas fosse de peregrinos. Mantinham-se em espantoso silêncio, a atenção fixa na plataforma de descarga do transporte, onde as sombras da comporta escondiam Jessica e seu séquito.

Faltavam duas horas para o meio-dia, mas o ar acima da multidão já refletia uma ondulação poeirenta, prenunciando o calor que viria.

Jessica levou a mão aos cabelos cor de cobre, riscados de prata no ponto em que emolduravam seu rosto oval, abaixo do capuz aba de Reverenda Madre.

Sabia não estar com sua melhor aparência após uma viagem tão longa, e o negro do manto não era sua cor favorita. Entretanto, já havia usado esse traje antes e a significação do manto aba não seria despercebida pelos Fremen. Suspirou. As viagens espaciais não eram coisa que se harmonizasse com ela, e havia ainda a carga extra de suas memórias aquela outra viagem de Caladan para Arrakis, quando seu Duque fora forçado a aceitar esse feudo contra sua vontade.

Lentamente, sondando com suas habilidades de Bene Gesserit para detectar minúcias significativas, ela esquadrinhou o mar de gente. Havia capuzes de trajes-destiladores cinzentos, vestimentas dos Fremen do deserto profundo, havia peregrinos em mantos brancos, com as marcas da penitência sobre seus ombros, e bolsões dispersos de ricos mercadores, com roupas leves e sem os capuzes para exibirem seu desdém pela perda da umidade no ar ressequido de Arrakeen... e lá estava a delegação da Sociedade dos Fiéis, com mantos verdes e cabeças cobertas por capuzes pesados, destacados na santidade de seu próprio grupo.

Somente quando ela erguia o olhar acima da multidão é que a cena adquiria alguma similaridade com aquela que a recebera em sua chegada, junto de seu amado Duque. Há quanto tempo isso ocorrera? “Mais de 20 anos.” Não gostava de pensar no tempo transcorrido entre essas duas ocasiões. O tempo era como um peso morto dentro dela, como se os anos longe desse planeta nunca houvessem existido.

“Uma vez mais na boca do dragão”, pensou.

Aqui, sobre essa mesma planície, seu filho havia arrebatado o Império das mãos do falecido Shaddam IV. Uma convulsão na história que imprimira esse lugar nas mentes e nas crenças dos homens.

Ouviu os movimentos inquietos de seu séquito lá atrás, e novamente suspirou. Eles deviam esperar por Alia, que se atrasara. O grupo de Alia já podia

ser visto aproximando-se pela extremidade mais distante da multidão, criando uma onda humana enquanto a cunha de Guardas Reais abria passagem.

Jessica esquadrinhou a paisagem mais uma vez. Muitas diferenças submetiam-se a seu olhar inquiridor. Uma sacada para preces fora acrescentada à torre de controle do campo. E bem distante, à esquerda, do outro lado da planície, erguia-se a assombrosa pilha de plasteel que Paul construíra como sua fortaleza seu

“sietch acima da areia”. Era a maior construção integrada individual que já se erguera pela mão do homem.

Cidades inteiras poderiam ter sido alojadas entre suas paredes, e ainda teria sobrado espaço.

Agora, abrigava a mais poderosa força de governo em todo o Império, a

“Sociedade dos Fiéis” de Alia, que esta erguera sobre o corpo do irmão.

“Esse lugar deve desaparecer”, pensou Jessica.

A delegação de Alia alcançara o pé da rampa de desembarque e lá permanecia na expectativa. Jessica reconheceu as feições vincadas de Stilgar. E

Deus nos livre! Lá estava a Princesa Irulan, escondendo sua selvageria naquele corpo sedutor, com sua touca de cabelos dourados revelando-se ao capricho de uma brisa. Irulan parecia não ter envelhecido um dia sequer. Isso era uma afronta.

E lá, na ponta da cunha, encontrava-se Alia, com as feições imprudentemente juvenis, os olhos voltados para cima, na direção das sombras da comporta. A boca de Jessica comprimiu-se numa linha reta enquanto ela observava o rosto da filha.

Uma sensação desagradável pulsou através de seu corpo e ela ouviu o bater de ondas de sua própria vida soando em seus ouvidos. Os rumores eram verdadeiros.

Horrível! Horrível! Alia mergulhara no caminho proibido. A evidência lá estava para que qualquer iniciada pudesse ler. Abominação!

Nos poucos momentos que levou para se recobrar, Jessica percebeu o quanto desejara concluir que os rumores eram infundados.

“E quanto aos gêmeos?”, perguntou-se. “Estarão perdidos também?”

Lentamente, como convinha à mãe de um deus, Jessica caminhou para fora das sombras, chegando à borda da rampa. Seu séquito permaneceu atrás, conforme as instruções recebidas. Os momentos seguintes seriam cruciais.

Jessica encontrava-se sozinha, plenamente visível pela multidão. Ouviu Gurney Halleck tossir nervosamente lá atrás. Gurney fizera objeções:

— Não vai usar nem mesmo um escudo? Por deus, mulher! Está louca!

Entretanto, entre as características mais valiosas de Gurney estava um núcleo de obediência. Ele daria sua opinião, mas depois obedeceria. Como agora obedecia.

Quando Jessica surgiu, o mar humano emitiu um som semelhante ao assovio de um gigantesco verme da areia. Ela ergueu os braços no gesto de bênção com que o clero condicionara o Império. Com perceptíveis bolsões de retardatários, mas ainda assim como um único e gigantesco organismo, as pessoas caíram de joelhos. Até mesmo o cortejo oficial acompanhou esse movimento.

Jessica marcara bem os grupos que se haviam atrasado na genuflexão e sabia que outros olhos além dos seus, atrás dela e entre seus agentes disseminados

na multidão, haviam memorizado um mapa temporário, marcando as posições dos retardatários.

E enquanto Jessica caminhava com os braços erguidos, Gurney e seus homens saíram. Eles se moveram com rapidez, passando por ela rampa abaixo e ignorando os olhares de espanto do cortejo oficial. Uniram-se aos agentes, que se identificaram por meio de sinais manuais. Rapidamente, dispersaram-se por entre o mar humano, saltando por sobre grupos de figuras ajoelhadas, correndo através de passagens estreitas entre os fiéis. Alguns de seus alvos perceberam o perigo e tentaram fugir. Esses foram os mais fáceis: uma faca atirada ou o laço de um garrote e os fugitivos tombaram. Os outros foram levados para fora da aglomeração, mãos amarradas, pés acorrentados.

Enquanto tudo isso acontecia, Jessica permanecia com os braços estendidos, abençoando a multidão com sua presença e mantendo-a submissa.

Ela percebia o indício dos rumores se espalhando e sabia qual seria o boato predominante, pois este fora plantado: “A Reverenda Madre volta para estirpar os negligentes. Abençoada seja a mãe de nosso Senhor!”

Quando tudo terminou alguns corpos sem vida estendidos na areia, prisioneiros conduzidos para as celas debaixo da torre de controle , Jessica abaixou os braços. Apenas três minutos haviam transcorrido. Sabia ser pouco provável que Gurney e seus homens houvessem atingido alguns dos lideres da oposição, aqueles que representavam a ameaça maior. Estes seriam alertas e perspicazes. Mas os cativos poderiam revelar alguns peixes interessantes, ao lado da quota normal de inúteis e simplórios.

Jessica abaixou os braços e as pessoas avançaram, aclamando-a a seus pés.

Como se nada de extraordinário houvesse acontecido, ela desceu a rampa sozinha, evitando a filha e concentrando sua atenção em Stilgar. A barba negra, que se espalhava sobre o colarinho do capuz do traje-desolador num turbulento delta, já mostrava algumas marcas cinzentas. Seus olhos, entretanto, mantinham aquela mesma intensidade com que se haviam apresentado em seu primeiro encontro no deserto. Stilgar sabia o que acabara de acontecer, e o aprovara. Ali estava um verdadeiro Naib Fremen, um líder de homens capaz de tomar decisões sangrentas.

Suas primeiras palavras foram inteiramente adequadas.

— Bem-vinda ao lar, Minha Senhora. É sempre um prazer testemunhar uma ação direta e efetiva.

Jessica se permitiu um pequeno sorriso.

— Feche o porto, Stil. Ninguém sai até termos interrogado aqueles que apanhamos.

— Já está feito, Senhora. Planejei tudo isso com o homem de Gurney.

— Aqueles que ajudaram, então, eram seus homens.

— Alguns deles, Minha Senhora.

Ela notou a reserva oculta e assentiu com a cabeça.

— Você me observou muito bem naqueles dias, Stil.

— Como um dia se esforçou para me ensinar, Minha Senhora, a gente observa os sobreviventes e aprende com eles.

Alia deu um passo à frente e Stilgar se colocou de lado, enquanto Jessica confrontava sua filha.

Sabendo que não havia modo de esconder o que descobrira, Jessica nem mesmo tentou disfarçar. Alia podia ler minúcias quando era preciso, como qualquer adepta da Irmandade. Ela já saberia, pelo comportamento de Jessica, o que fora visto e interpretado. Elas eram inimigas para as quais o termo mortal seria apenas superficial.

Alia preferiu a raiva como reação mais fácil e adequada.

— Como se atreve a planejar uma ação como essa sem me consultar? —

quis saber, levando o rosto para perto do de Jessica.

Jessica falou com brandura:

— Como acaba de ouvir, Gurney nem ao menos me participou o plano todo. Era como se...

— E você, Stilgar? — disse Alia, voltando-se para ele. — A quem você dedica sua lealdade?

— Meu juramento é para com os filhos do Muad'Dib — respondeu Stilgar rapidamente. — Ainda não eliminamos a ameaça que paira sobre eles.

— E por que a ação não a encheu de alegria... filha?

Alia piscou os olhos, olhou para a mãe, contendo a tempestade interior, e até mesmo conseguiu abrir um sorriso direto.

— Eu estou cheia de alegria... mãe.

Para sua própria surpresa, Alia descobriu-se feliz, experimentando um terrível prazer que se derramava, afinal, entre ela e sua mãe. O momento temido se passara e a balança do poder não se alterara.

— Discutiremos isso com maiores detalhes em ocasião mais conveniente

— acrescentou Alia, falando para a mãe e para Stilgar.

— Mas é claro — respondeu Jessica, voltando-se para Irulan com um movimento que indicava o encerramento da entrevista.

Durante umas breves batidas do coração, Jessica e a Princesa ficaram em silêncio, uma diante da outra duas Bene Gesserit que haviam rompido com a Irmandade pela mesma razão: o amor... Ambas pelo amor de homens que agora estavam mortos. A Princesa amara Paul em vão, tornando-se sua esposa, mas não sua mulher. E agora vivia unicamente para as crianças que Paul ganhara de sua concubina Fremen, Chani.

Jessica foi a primeira a falar:

— Onde estão meus netos?

— No Sietch Tabr.

— É muito perigoso para eles aqui. Eu compreendo.

Irulan permitiu-se um fraco aceno com a cabeça. Observara o diálogo entre Jessica e Alia, mas o interpretara da maneira pela qual Alia a havia preparado:

“Jessica retornou à Irmandade e ambas sabemos que elas têm planos para os filhos de Paul.” Irulan nunca fora a adepta mais dedicada da Bene Gesserit, sendo mais valiosa pelo fato de ser filha de Shaddam IV do que por qualquer outra razão.

Frequentemente orgulhosa demais para se esforçar, aperfeiçoando suas

capacidades, agora tomava partido com uma rapidez que lhe desmerecia o treinamento.

— Realmente, Jessica — disse Irulan. — O Conselho Real devia ter sido consultado. Foi errado de sua parte trabalhar somente através de...

— Devo acreditar que nenhuma de vocês confia em Stilgar? — indagou Jessica.

Irulan tinha suficiente sagacidade para saber que não podia haver resposta a essa pergunta. Ficou feliz quando os delegados do clero, incapazes de conter sua impaciência, abriram caminho, aproximando-se.

Trocou um breve olhar com Alia, pensando: “Jessica continua arrogante e confiante como sempre.” Entretanto, um axioma Bene Gesserit brotou em sua mente: “Os que são arrogantes erguem muralhas atrás das quais tentam ocultar seus medos e suas dúvidas.” Seria esse o caso de Jessica?

Certamente que não. Então, devia ser pose. Mas com que propósito? Essa questão perturbava Irulan.

Os sacerdotes foram ruidosos ao tomarem conta da mãe do Muad'Dib.

Alguns limitaram-se a lhe tocar os braços, outros curvaram-se e lhe dirigiram saudações. Afinal, os lideres da delegação tiveram sua vez com a Mais Sagrada Reverenda Madre, aceitando os papéis preestabelecidos “Os últimos serão os primeiros” com sorrisos ensaiados e dizendo-lhe que a cerimônia oficial de Purificação a aguardava no Castelo, a velha fortaleza de Paul.

Jessica observou o par, achando-o repelente. Um deles Chamava-se Javid, jovem de feições carrancudas e face arredondada, com olhos sombrios que não ocultavam as suspeitas que habitavam suas profundezas. O outro era Zebataleph, o segundo filho de um Naib que ela conhecera durante seus dias como Fremen, como ele não demorou a lhe lembrar. Este era fácil de classificar: a jovialidade unida à crueldade, rosto magro com barba loura e um ar de secreta excitação e profundo conhecimento. Considerou Javid o mais perigoso dos dois, um conselheiro particular, simultaneamente magnético e não conseguia encontrar palavra melhor, repelente. Achou seu sotaque estranho, cheio de velhas pronúncias Fremen, como se originário de algum bolsão isolado.

— Diga-me, Javid — perguntou. — De onde você vem?

— Não sou mais que um simples Fremen do deserto — respondeu, cada sílaba desmentindo sua declaração.

Zebataleph introduziu-se na conversa com uma deferência agressiva, quase zombeteira.

— Temos muito a discutir sobre os velhos dias, Minha Senhora. Fui um dos primeiros, como sabe, a reconhecerem a sagrada natureza da missão de seu filho.

— Mas você não era um dos Fedavkin — disse ela.

— Não, Minha Senhora. Eu tinha uma inclinação mais filosófica, de modo que estudei para o sacerdócio.

“E assim assegurou a preservação de sua pele”, pensou ela. Javid lembrou:

— Eles esperam por nós no Castelo, Minha Senhora.

Novamente ela considerou o estranho sotaque como questão em aberto, a exigir resposta.

— Quem aguarda por nós? — indagou.

— A Assembleia da Fé. Todos aqueles que mantêm brilhantes o nome e os feitos de seu sagrado filho — respondeu Javid.

Jessica olhou à sua volta, viu Alia sorrindo para Javid e perguntou:

— Esse homem é um dos que você nomeou, filha?

Alia assentiu com a cabeça.

— Um homem destinado a grandes feitos.

Mas Jessica notou que Javid não sentia prazer por receber essa atenção, e marcou-o para um estudo especial a ser feito por Gurney. E lá vinha Gurney, com cinco homens de confiança, assinalando que tinham varios suspeitos sob interrogatório. Caminhava com o passo gingado de um homem poderoso, o olhar relampejando à esquerda e à direita, cada músculo fluindo na tranquila vigilância que ela lhe ensinara a partir do manual prana-bindu das Bene Gesserit. Gurney era uma feia montanha de reflexos treinados, um matador aterrorizante para alguns, mas Jessica o amava e valorizava acima de qualquer outro homem vivo. A cicatriz de um chicote inkvine ondulava em sua mandíbula, dando-lhe uma aparência sinistra, mas um sorriso suavizou-lhe a face quando ele viu Stilgar.

— Muito bem feito, Stil — disse. E seguraram os braços um do outro à maneira Fremen.

— A Purificação — disse Javid, tocando o braço de Jessica.

Jessica recuou, escolhendo as palavras cuidadosamente através do poder controlador da Voz, o tom e a pronúncia calculados para obter um preciso efeito emocional sobre Javid e Zebataleph.

— Eu voltei a Duna para ver meus netos. Devemos perder tempo com essa tolice sacerdotal?

Zebataleph reagiu com um choque, o queixo caído, os olhos arregalados olhando para ver quem tinha pronunciado essas palavras. E marcando cada uma delas. “Tolice sacerdotal!” Que efeito isso teria, vindo da mãe do messias?

Javid, contudo, confirmou a avaliação de Jessica. Sua boca assumiu uma expressão cruel, e ele sorriu. Os olhos não corresponderam ao sorriso nem se desviaram para marcar os outros ouvintes.

Javid conhecia cada membro desse grupo. Tinha um mapa mental assinalando todos aqueles que, de agora em diante, deviam ser vigiados com cuidado especial. Somente segundos depois Javid parou de sorrir com uma brusquidão que já revelava ter percebido que se traíra.

Ele não falhara no trabalho de casa: conhecia os poderes de observação de Lady Jessica. Com um breve aceno da cabeça, reconheceu-os.

Num lampejo de avaliação, Jessica pesou as necessidades. Bastaria um sutil sinal com a mão para Gurney, e Javid seria morto. Isso poderia ser feito ali mesmo, para causar impacto, ou mais tarde, de modo a parecer um acidente.

Pensou: “Quando tentamos ocultar nossos impulsos mais internos, todo o ser grita, revelando-nos.” Seu treinamento Bene Gesserit voltou-se para essa

revelação, que elevava as adeptas acima dessa fraqueza e lhes ensinava a ler a carne aberta dos outros. Ela via a inteligência de Javid como valiosa, um peso temporário na balança. Se ele pudesse ser conquistado, seria o elo de que necessitava, a brecha dentro do clero de Arrakeen. E era um dos homens de Alia.

Então, Jessica disse:

— Minha delegação oficial deve permanecer pequena. No entanto, temos espaço para mais um. Javid, você se unirá a nós. Sinto muito, Zebataleph. E Javid...

eu comparecerei a essa... cerimônia, se assim insistir.

Javid tomou fôlego e disse em voz baixa:

— Se a mãe do Muad'Dib assim ordena. — Olhou para Alia, para Zebataleph e de volta para Jessica. — É doloroso para mim atrasar seu encontro com seus netos, mas existem, ahh, razões de Estado...

Jessica pensou: “Bom. Ele é, acima de tudo, um homem de negócios. Uma vez determinado o seu preço, poderemos comprá-lo.”

Encontrou-se apreciando o fato de ele insistir em sua preciosa cerimônia.

Essa pequena vitória lhe daria poder entre os companheiros, e ambos sabiam disso. Aceitar sua Purificação podia ser um preço baixo a pagar por serviços posteriores.

— Presumo que já tenha providenciado o transporte — disse ela.

Eu lhes dou o camaleão do deserto, cuja habilidade em se confundir com o terreno lhes revela tudo que precisam saber a respeito das raízes da ecologia e dos alicerces de uma identidade pessoal.

- Livro de Diatribes, das Crônicas de Havt

Leto estava sentado, tocando um pequeno baliset que lhe fora enviado, em seu quinto aniversário, por um artista consumado naquele instrumento: Gurney Halleck. Em quatro anos de prática, Leto conseguira certa fluência, embora as duas cordas graves laterais ainda lhe causassem problema. Ele achava o baliset tranquilizador, contudo, quando seus sentimentos o perturbavam, fato que não passara despercebido a Ghanima.

Ele estava sentado, à luz do poente, numa saliência rochosa situada na extremidade sul de um afloramento de rochas escarpadas que protegiam dos ventos o Sietch Tabr. Suavemente, dedilhava o baliset.

Ghanima encontrava-se atrás dele, sua pequena figura irradiando protesto.

Ela não quisera ir até ali, um espaço aberto, depois de saber, através de Stilgar, que a avó se atrasara em Arrakeen. Em particular, fazia objeções ao fato de ir àquele lugar perto do cair da noite. Tentando apressar o irmão, indagou.

— Bem, como é?

Como resposta, ele começou outra melodia.

Pela primeira vez, desde que aceitara o presente, Leto, sentia-se intensamente cônscio do fato de que esse baliset era obra de um mestre artesão de Caladan. Leto tinha memórias herdadas capazes de afligi-lo com uma profunda nostalgia pelo lindo planeta onde governara a Casa Atreides.

Bastava relaxar suas barreiras interiores na presença dessa música para ouvir as memórias daqueles tempos, quando Gurney empregara o baliset para divertir seu amigo e aluno Paul Atreides. Com o baliset soando em suas mãos, Leto sentia-se uma vez mais dominado pela presença psíquica do pai.

Ainda assim, continuou tocando, relaxando cada vez mais ao som do instrumento, a cada segundo que passava. Sentia a absoluta e idealizada união dentro de seu ser, que sabia como tocar esse baliset, embora seus músculos de nove anos de idade ainda não estivessem condicionados a essa consciência interior.

Ghanima bateu o pé, impaciente, sem perceber que acompanhava o ritmo da música tocada pelo irmão.

Fazendo uma careta de concentração, Leto interrompeu a música conhecida e tentou uma canção mais antiga que qualquer outra jamais tocada por Gurney. Uma canção que já era velha quando os Fremen emigraram para seu quinto planeta. As palavras ecoavam um tema Zensunni, e ele as ouvia em sua memória, enquanto seus dedos produziam uma vacilante versão da melodia.

A bela forma da Natureza

Contém uma essência adorável

Chaniadapor alguns de... decomposição.

Por essa adorável presença

A nova vida encontra seu caminho.

Lágrimas derramadas silenciosamente

São apenas água para a alma

Elas trazem nova vida.

Para a dor dos seres...

Uma reparação daquela cena

Que a morte torna completa.

Ghanima falou por trás dele, enquanto ele tocava a nota final.

— Eis uma música velha e sórdida. Por que logo essa?

— Porque é adequada.

— Vai tocá-la para o Gurney?

— Talvez.

— Ele vai Chamá-la de tolice melancólica.

— Eu sei.

Leto olhou para Ghanima por sobre o ombro. Não lhe surpreendia que ela conhecesse a canção e a letra, mas sentiu súbita admiração pela singularidade de suas vidas gêmeas. Um deles podia morrer e no entanto permanecer vivo na consciência do outro, cada memória compartilhada permanecendo intacta, tão próximos estavam um do outro. Sentiu-se assustado pela teia atemporal daquela

proximidade, e afastou o olhar da irmã. A teia continha fendas, disso ele sabia, e seu medo surgia das fendas mais recentes. Sentia suas vidas começando a se separar e se admirava: “Como posso contar-lhe a respeito dessa coisa que aconteceu somente comigo?”

Olhou para longe no deserto, vendo as sombras profundas atrás das barachans: aquelas dunas móveis, altas, em forma de crescente, que ondulavam ao redor de Arrakis. Era o Kedem, o deserto interior, e suas dunas raramente eram marcadas, nesses dias, pelas irregularidades provocadas com o avanço de um verme gigante. O poente desenhou traços sangrentos sobre as dunas, emprestando uma luz belicosa às bordas de sombra. Mergulhando do céu carmesim, um falcão capturou sua consciência, assim como um perdiz-das-rochas em pleno voo.

Diretamente abaixo dele, no leito do deserto, plantas cresciam numa profusão de verdes, irrigadas por um qanat que fluía parcialmente a céu aberto, parcialmente em túneis por sob o solo. A água provinha de gigantescas armadilhas de vento situadas atrás dele, no ponto mais elevado das rochas. A bandeira verde dos Atreides ondulava abertamente ali.

“Água e verde.”

Os novos símbolos de Arrakis: a água e o verde.

Um oásis de dunas plantadas na forma de um diamante estendia-se abaixo de seu elevado posto de observação, fazendo-o focalizar sua atenção na aguda consciência dos Fremen. O som de sino de um pássaro noturno ressoou no penhasco abaixo, ampliando a sensação de estar vivendo momentos de um passado selvagem.

“Nous avons chanué tout cela' , pensou, usando com facilidade um dos antigos idiomas que ele e Ghanima empregavam em particular. “Nós alteramos tudo isto.”

Suspirou. “Oublier je ne puir.” “Não posso esquecer.

Por trás do oásis, podia ver, sob a luz que diminuía, aquela terra que os Fremen Chamavam “O Vazio”. A terra onde nada cresce, a terra que nunca foi fértil. A água e o grande plano ecológico estavam mudando isso. Agora havia lugares em Arrakis onde se podia enxergar o verde tapete de pelúcia das colinas cobertas de florestas. Florestas em Arrakis! Alguns, dentre os membros da nova geração, achavam difícil imaginar que houvesse dunas debaixo daquelas verdes colinas ondulantes. Para esses olhos jovens, não havia choque algum em ver a folhagem plana das árvores de climas chuvosos. Mas Leto se encontrava agora pensando à velha maneira dos Fremen, cauteloso com as mudanças, temeroso ante a presença do novo.

Ele disse:

— As crianças me contaram que raramente encontram a truta da areia aqui, próximo à superfície.

— Que se supõe que isso indique? — perguntou Ghanima com petulância em sua voz.

— As coisas estão começando a mudar muito rapidamente — respondeu ele.

Novamente, o pássaro cantou nos penhascos e a noite caiu sobre o deserto, tal como o falcão caíra sobre a perdiz. A noite frequentemente o submetia a um assalto de memórias. Todas aquelas vidas interiores clamando por seu próprio momento. Ghanima não fazia objeção a esse fenómeno do modo como ele fazia.

Sabia de sua inquietação, e ele sentiu sua mão sobre o ombro num gesto de simpatia.

Fez soar uma corda raivosa no baliset.

— Como lhe poderia contar o que lhe estava acontecendo?

Dentro de sua cabeça havia guerras e vidas incontáveis parcelando memórias ancestrais: acidentes violentos, langores de amor, as cores de muitos lugares e de muitos rostos... as mágoas enterradas e a saltitante alegria das multidões. Ele ouviu elegias à primavera em planetas que não mais existiam, danças ao verde e à luz de fogueiras, gritos, saudações e uma quantidade inumerável de conversas.

— Esse ataque era mais duro de suportar ao cair da noite, ao ar livre.

— Não devíamos entrar? — perguntou ela.

Ele sacudiu a cabeça e ela sentiu o movimento, percebendo, afinal, que seus problemas eram mais profundos do que havia suspeitado.

“Por que é tão frequente que eu assista ao cair da noite aqui fora?”, indagou a si próprio. Não sentira Ghanima retirar a mão.

— Você sabe por que se atormenta desse modo — ela disse.

Ele ouviu a leve repreensão na voz da irmã. Sim, sabia. A resposta estava lá, óbvia em sua consciência: “Porque aquele grande conhecido-desconhecido dentro de mim me movimenta como uma onda.” Sentia o ondular de seu passado como se cavalgasse uma prancha de surfe. Tinha as memórias da presciência de seu pai espalhando-se através do tempo, sobrepostas sobre tudo mais, e ainda assim queria todos aqueles passados. Ele os queria! E eles eram tão perigosos. Agora tinha total consciência disso, com essa nova coisa que teria que contar a Ghanima.

O deserto começava a brilhar sob a luz da Primeira Lua que surgia. Ele observou a falsa imobilidade das dobras de areia, a se estenderem para o infinito. À

sua esquerda, a curta distância, encontrava-se o Criado, um afloramento de rocha que o impacto dos ventos carregados de areia reduzira a uma forma baixa e sinuosa, como um verme negro golpeando através das dunas. Algum dia, a rocha embaixo dele estaria aplainada de forma semelhante e o Sietch Tabr não mais existiria, exceto nas memórias de alguém como ele. Não duvidava de que nessa época haveria alguém como ele.

— Por que está olhando para o Criado? — perguntou Ghanima.

Ele deu de ombros. Em desafio às ordens de seus guardiães, ele e Ghanima iam com frequência até o Criado. Haviam descoberto ali um esconderijo secreto, e Leto agora sabia por que o lugar os atraía.

Embaixo dele, a uma distância reduzida pela escuridão, a extensão aberta de um qanat brilhava ao luar, sua superfície ondulava com os movimentos dos peixes predadores, que os Fremen sempre colocavam em suas reservas de água para evitar a truta da areia.

— Eu me coloco entre o peixe e o verme — murmurou ele.

— O quê?

Ele repetiu mais alto.

Ghanima levou a mão à boca, começando a suspeitar daquilo que o impulsionava. Seu pai havia agido assim, ela só tinha que consultar sua memória e comparar.

Leto estremeceu. Memórias que o prendiam a lugares que sua carne nunca conhecera apresentavam-lhe respostas a perguntas que nunca fizera. Via relacionamentos e acontecimentos desdobrando-se numa gigantesca tela interior. O

verme da areia de Duna não atravessaria a água, um veneno para ele. E no entanto a água existira ali em tempos pré-históricos. Depressões de gipsita natural atestavam a existência de mares e lagos que haviam desaparecido. Poços, perfurados profundamente, encontravam água, mas eram logo selados pela truta da areia. Tão claramente como se houvesse testemunhado os acontecimentos, ele viu o que acontecera a esse planeta, e isso o encheu de um terrível presságio com relação às mudanças cataclísmicas que a intervenção humana estava trazendo.

Com a voz quase transformada num sussurro, ele disse:

— Eu sei o que aconteceu, Ghanima.

Ela inclinou-se para junto dele.

— Sim?

— A truta da areia...

Ele ficou em silêncio e ela se perguntou por que Leto continuava se referindo à fase embrionária do gigantesco verme da areia desse planeta, mas não se atreveu a perguntar.

— A truta da areia — repetiu ele. — Foi introduzida aqui a partir de algum outro lugar. Este era um planeta úmido, então. Elas proliferaram além da capacidade dos ecossistemas existentes. Enquistaram toda a água livre disponível, transformando este planeta num deserto... e fizeram isso para sobreviver. Num planeta suficientemente seco, elas poderiam passar à fase de vermes da areia.

— As trutas da areia? — Ghanima sacudiu a cabeça, não porque duvidasse dele, mas porque não desejava sondar as profundezas onde ele colhera tais informações. E pensou: “Trutas da areia?” Muitas vezes, na encarnação atual ou nas outras, ela participara daquele jogo infantil de espetar paus em busca da truta da areia, estimulando-as a entrar numa fina membrana de luva antes de levá-las ao alambique da morte, para tirar-lhes a água.

Era difícil pensar nessas pequenas criaturas irracionais como agentes de importantes eventos.

Leto assentiu para si mesmo. Os Fremen sempre haviam tido o conhecimento da necessidade de colocar peixes predadores em suas cisternas. A truta resistia ativamente às grandes acumulações de água junto à superfície do planeta. Peixes predadores nadavam naquele qanat lá embaixo. Os vetores do verme da areia podiam encarregar-se de pequenas quantidades de água, como aquela existente nas células da carne humana, por exemplo.

Confrontadas com grandes corpos de água, porém, suas fábricas químicas enlouqueciam, explodindo na transformação mortal que produzia a perigosa melange concentrada, a droga final para a ampliação da consciência, empregada em frações diluídas durante as orgias dos sietch. O concentrado puro que levara Paul Muad'Dib através das muralhas do Tempo, rumo às profundezas do poço de dissolução em que nenhum outro ser humano do sexo masculino se atrevera a mergulhar.

Ghanima sentiu o irmão tremendo no lugar onde se sentava, diante dela.

— O que você fez? — ela quis saber.

Mas ele não estava disposto a abandonar sua própria cadeia de revelações.

— Poucas trutas da areia, a transformação ecológica do planeta...

— Elas resistem a isso, é claro — disse Ghanima, agora começando a entender o medo na voz dele, atraída para aquela coisa contra a própria vontade.

— Quando as trutas da areia acabarem, com elas acabarão todos os vermes

— ele concluiu. — As tribos precisam ser advertidas.

— Não haverá mais especiaria — disse ela.

As palavras meramente tocavam os pontos mais elevados de um perigo sistémico que ambos viam suspenso acima da intrusão humana nas antigas cadeias de relacionamento de Duna.

— É isso que Alia sabe — ele disse. — É por isso que ela se regozija.

— Como pode ter certeza disso?

— Eu tenho.

Agora ela sabia com certeza o que o perturbava, e sentia que esse conhecimento a deixava arrepiada.

— As tribos não acreditarão em nós se ela nos desmentir — ele disse.

Essa declaração tocava no problema principal de suas existências: que Fremen esperaria sabedoria da parte de uma criança de nove anos? E Alia, adquirindo cada vez mais experiência a partir de sua própria quota de memórias, jogava com isso.

— Devemos convencer Stilgar — disse Ghanima.

Como se fossem apenas uma, suas cabeças se voltaram e ambos fitaram o deserto iluminado pelo luar. Era um lugar diferente agora, transmutado por aqueles poucos instantes de compreensão. A interferência humana sobre o ambiente nunca lhes fora mais evidente. Sentiam-se partes integrantes de um sistema dinâmico, mantido numa ordem delicadamente equilibrada. A nova perspectiva envolvia uma mudança real de consciência que lhes inundava de observações. Como Liet-Kynes dissera, o universo era o local de conversação constante entre populações animais.

E a truta da areia falara a eles, como animais humanos.

— As tribos entenderiam uma ameaça à água — observou Leto.

— Mas é uma ameaça a mais do que a água. É uma... — e ela ficou em silêncio, compreendendo a profunda significação de suas palavras.

A água era o derradeiro símbolo do poder em Arrakis. Em suas raízes, os Fremen permaneciam como animais extremamente aplicados, sobreviventes do deserto, especialistas em manter o controle em condições de tensão. E ha medida

em que a água se tornava abundante, uma estranha transferência simbólica lhes ocorria, mesmo ao perceberem as antigas necessidades.

— Quer dizer uma ameaça ao poder — ela corrigiu.

— É claro.

— Mas será que vão acreditar em nós?

— Se o virem acontecendo, compreenderão o desequilíbrio.

— Equilíbrio — disse Ghanima, repetindo as palavras do pai, muito tempo atrás. — É isso que distingue um povo de uma turba.

Essas palavras fizeram com que as memórias do pai fluíssem sobre ele.

— Fatores econômicos versus beleza, uma história mais velha do que a Rainha de Sabá. — Suspirou, olhando para ela por sobre o ombro. — Estou começando a ter sonhos prescientes, Gham.

Um soluço de espanto escapou da boca da irmã. Ele acrescentou:

— Quando Stilgar nos disse que nossa avó se atrasaria, eu já sabia disso.

Agora, meus outros sonhos são duvidosos.

Continuar: parte 3 de 3