Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 5 de 8 · parte 2/3

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Os Filhos de Duna

Quem seria a mulher, então? Não importava.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Faradin sabia que fazia um jogo sutil e mortal. Entretanto, preparara-se para essa possibilidade durante anos, sempre, desde que perceberá que era mais inteligente, mais sensível que as pessoas a seu redor. Fora uma descoberta assustadora para uma criança, e a biblioteca constituíra seu refúgio, assim como seu professor.

As dúvidas o incomodavam agora, e ele se perguntava se estaria apto para esse jogo. Afastara sua mãe, perdendo seus conselhos, mas as decisões dela sempre tinham sido perigosas para ele. Tigres! Seu treinamento tinha sido uma atrocidade e seu uso, uma estupidez. Como era fácil descobrir-lhes a origem! Ela devia ser grata por não ter sofrido nada mais que o banimento. Nesse ponto, o conselho de Lady Jessica ajustara-se às suas necessidades com uma precisão adorável. Ela devia ser levada a revelar o método daquele pensamento Atreides.

Suas dúvidas começaram a se apagar. Pensou em seus Sardaukar, novamente duros e adaptáveis através do treinamento rigoroso e da negação do luxo, segundo suas ordens. Suas legiões permaneciam pequenas, mas eram uma vez mais equivalentes, homem-a-homem, aos Fremen. Elas quase não serviriam a propósito algum enquanto os limites impostos pelo Tratado de Arrakeen restringissem o tamanho relativo de suas forças. Os Fremen ainda podiam derrotá-las pela superioridade numérica a menos que estivessem contidos e enfraquecidos por uma guerra civil.

Ainda era muito cedo para uma batalha dos Sardaukar contra os Fremen.

Ele precisava de tempo. Precisava de novos aliados entre as Casas Maiores descontentes e os novos governantes das Casas Menores. Necessitava de acesso ao financiamento da CHOAM. Precisava de tempo para que seus Sardaukar se tornassem fortes e os Fremen se enfraquecessem.

Novamente Faradin prestou atenção à tela que revelava o paciente ghola.

Por que Idaho desejaria ver Lady Jessica a essa hora? Devia saber que eram espionados, que cada palavra, cada gesto seriam gravados e analisados.

“Por quê?”

Faradin desviou o olhar da tela para a saliência ao lado de seu painel de controle. À pálida luz eletrônica, podia perceber os rolos contendo os últimos relatórios de Arrakis. Seus espiões eram meticulosos, tinha de lhes dar crédito.

Havia muito para lhe dar prazer e esperança naqueles relatórios. Fechou os olhos e os pontos altos dos relatórios passaram através de sua mente numa forma curiosamente editorial, à qual ele reduzia esses carretéis para seu próprio uso:

“À medida que o planeta se torna fértil, os Fremen se libertam das pressões da terra e suas novas comunidades perdem sua característica tradicional de sietch-fortaleza. Desde a infância, na velha cultura dos sietches, os Fremen eram ensinados pela máxima: “Como o conhecimento de seu próprio ser, o sietch forma uma base sólida a partir da qual você caminhará em direção ao mundo e ao universo.”

“O Fremen tradicional diz: “Olhe para o Maciço”, querendo dizer com isso que a principal ciência é o Direito. Entretanto, a nova estrutura social está enfraquecendo essas velhas restrições legais, a disciplina se afrouxa. Os novos líderes Fremen conhecem apenas o Baixo Catecismo dos ancestrais, mais a história que se encontra camuflada na estrutura mítica de suas canções. As pessoas das novas comunidades são mais frívolas, mais abertas, discutem com maior frequência e são menos suscetíveis à autoridade. O velho povo dos sietches era mais disciplinado, mais inclinado a agir em grupo, e tinha uma tendência a se esforçar no trabalho, tendo mais cuidado com a preservação de seus recursos. Essa gente antiga acreditava que uma sociedade ordeira era a realização do indivíduo. Os jovens afastaram-se dessa crença. E os remanescentes da velha cultura olham para a juventude e dizem: “O vento da morte apagou-lhes o passado!”

Faradin gostava da precisão de seu sumário. A nova diversidade de Arrakis só poderia trazer a violência. Ele tinha os conceitos essenciais firmemente gravados nos carretéis.

“A religião do Muad'Dib baseia-se firmemente na velha tradição cultural Fremen dos sietches, enquanto que a nova cultura se afasta cada vez mais dessas disciplinas.”

Não pela primeira vez, Faradin se perguntava por que Tyekanik abraçara essa religião. Era curioso o modo como Tyekanik acreditava nessa nova moral.

Parecia inteiramente sincero, mas se portava como se agisse contra a própria

vontade. Parecia uma pessoa que penetrara num redemoinho para testá-lo e fora apanhada por forças além de seu controle. A conversão de Tyekanik aborrecia Faradin pelo caráter dessa mudança. Era uma reversão a costumes muito antigos dos Sardaukar. Ele advertira que os jovens Fremen poderiam sofrer um tipo semelhante de reversão e que as tradições inatas, enraizadas, poderiam prevalecer.

Uma vez mais, Faradin pensou naqueles rolos de relatórios. Eles revelavam uma coisa inquietante: a persistência de um resíduo cultural Fremen dos tempos mais antigos “A Agua da Concepção.” O fluido amniótico dos recém-nascidos era recolhido no parto e destilado para ser a primeira água servida à criança. O costume tradicional exigia uma madrinha para servir a água, dizendo: “Aqui está a água da tua concepção.” Mesmo os jovens Fremen ainda seguiam essa tradição com seus próprios recém-nascidos.

“A água da tua concepção.”

Faradin sentia-se repugnado ante a idéia de beber água destilada do fluido amniótico em que nascera. E pensou a respeito da gêmea sobrevivente, Ghanima, sua mãe morta quando ela tomara aquela estranha água. Teria ela refletido posteriormente sobre esse estranho elo com seu passado? Provavelmente não. Ela fora criada como Fremen. O que fosse natural e aceitável para os Fremen seria natural e aceitável para ela.

Momentaneamente, Faradin lamentou a morte de Leto II. Teria sido interessante discutir essa questão com ele. Talvez houvesse uma oportunidade de discuti-la com Ghanima.

“Por que Idaho cortou o pulso?”

A pergunta persistia cada vez que olhava para a tela de espionagem. Novas dúvidas o assaltavam. Ele ansiava pela capacidade de mergulhar naquele misterioso transe da especiaria, como fizera Paul Muad'Dib, a fim de vasculhar o futuro e conhecer as respostas para suas perguntas. No entanto, não importando quanto de especiaria ele tivesse ingerido, sua consciência comum persistia no fluxo singular do agora, a refletir um universo de incertezas.

A tela espiã mostrou uma serva abrindo a porta de Lady Jessica. A mulher fez sinal para que Idaho entrasse, ele se levantou do banco e atravessou a porta. A serva preencheria um relatório completo depois, mais a curiosidade de Faradin, uma vez mais totalmente despertada, o fez tocar outro botão no painel, observando Idaho entrar na sala de estar dos aposentos de Jessica.

Como ele parecia, calmo e contido. E quão insondáveis eram os olhos do ghola.

Acima de tudo, o mentat deve ser um generalista, não um especialista. É sábio ter decisões de grande importância conduzidas por generalistas. Os expert levam a pessoa rapidamente ao caos. Eles são uma fonte de busca inútil de coisas insignificantes, a discussão a respeito de uma vírgula. O mentat-generalista, por outro lado, deve levar o processo decisório a um saudável senso comum. Não se deve isolar da amplidão do que está acontecendo no universo. Deve permanecer capaz de dizer. “Não existe mistério algum quanto a este momento. Isso é o que nós testamos agora. Pode mostrar-se errado posteriormente, mas então nós o corrigiremos quando chegar a hora.

“O mentat-generalista deve compreender que qualquer coisa que possamos identificar como sendo o nosso universo é meramente parte de um fenómeno maior. O especialista, por outro lado, olha para trás, para dentro dos padrões estreitos de sua própria especialidade. O generalista olha para fora: busca os princípios vitais, sabendo muito bem que tais princípios mudam e desenvolvem. São as características da própria mudança que o mentat generalista deve procurar. Não pode haver catálogo ou manual permanente para tais mudanças. Deve-se procurá-las com o mínimo de preconceitos possível, perguntando-se a si mesmo:

“Agora, o que essa coisa está fazendo?”

- Manual do Mentat

Era o dia do Kwisatz Haderach, o primeiro dia santo para os que seguiam o Muad'Dib. Com ele se reconhecia Paul Atreides endeusado como aquela pessoa que estava em toda parte simultaneamente. O Bene Gesserit macho que misturava a ancestralidade masculina e a feminina num poder inseparável para se tornar o Uno-com-Tudo. Os fiéis chamavam esse dia de Ayil, o Sacrifício, para comemorar a morte que fizera a presença dele “real em todos os lugares”.

O Pregador escolheu o início da manhã desse dia para aparecer uma vez mais na praça abaixo do templo de Alia, desafiando a ordem de prendê-lo, que todos sabiam ter sido emitida. Uma delicada trégua prevalecia entre o clero de Alia e as tribos do deserto que se haviam rebelado, mas sua presença podia ser sentida como uma coisa tangível, que deixava inquietos a todos em Arrakeen. O Pregador não dissipou esse clima.

Era o 28.° dia de luto oficial pelo filho do Muad'Dib, seis dias após os ritos comemorativos da Velha Passagem, que haviam sido retardados pela rebelião. A própria luta, contudo, não detivera o Hajj. O Pregador sabia que a praça estaria apinhada nesse dia. A maioria dos peregrinos tentava coincidir sua estada em Arrakis com a passagem do Anil, “para sentir então a Sagrada Presença do Kwisatz Haderach no Seu dia”.

O Pregador entrou na praça com a primeira luz do dia, encontrando o lugar já atravancado de fiéis. Manteve a mão levemente apoiada no ombro de seu jovem guia, sentindo o cínico orgulho nos passos do rapaz. Agora, quando o Pregador se aproximava, as pessoas sentiam cada nuança de seu comportamento.

Tal atenção não era inteiramente desagradável para o jovem guia. E o Pregador meramente a aceitava como necessidade.

Tomando posição no terceiro degrau do Templo, o Pregador esperou que se fizesse silêncio. E quando o silêncio se havia propagado como uma onda através

da multidão, e os passos apressados de outros, chegando para escutar, podiam ser ouvidos nos limites da praça, ele pigarreou. O frio da manhã ainda permanecia ao redor dele e a luz ainda não se derramara sobre a praça a partir dos topos dos prédios. Sentiu a pálida quietude da grande praça enquanto começava a falar:

— Eu vim para prestar homenagem e pregar em memória de Leto Atreides II, — disse ele com aquela voz forte, tão reminiscente de um cavaleiro dos vermes do deserto. — Faço isso em compaixão por todos aqueles que sofrem. E

lhes digo o que o jovem Leto aprendeu: que o amanhã ainda não se realizou e talvez nunca se realize. Este momento aqui é o único lugar e o único tempo observáveis por nós em nosso universo. Eu lhes peço que saboreiem este momento e compreendam o que ele lhes ensina. Eu lhes digo que aprendam que o crescimento e a morte de um governo têm sua evidência no crescimento e na morte de seus cidadãos.

Um murmúrio de perturbação atravessou a praça. Será que ele zombava da morte de Leto II? Eles imaginavam se agora os Guardas-Sacerdotes correriam para prender o Pregador.

Alia sabia que não haveria tal interrupção. Era ordem sua que o Pregador não fosse molestado nesse dia. Ela se disfarçara com um bom traje-destilador e uma máscara captadora de umidade para lhe esconder a boca e o nariz, mais um manto e um capuz para lhe ocultar os cabelos. Encontrava-se no segundo degrau logo abaixo do Pregador, observando-o cuidadosamente. Seria Paul? Os anos poderiam tê-lo mudado desse modo. E ele sempre fora soberbo com a Voz, o que tornava difícil identificá-lo pela fala. E esse Pregador dominava sua voz, fazendo dela o que queria.

Paul não teria feito melhor. Alia sentia que tinha de conhecer a identidade desse homem antes de poder agir contra ele. Como suas palavras a deslumbravam!

Não sentira ironia nas declarações do Pregador. Ele estava usando a atração sedutora das frases definidas, pronunciadas com forte sinceridade. As pessoas podiam tropeçar apenas momentaneamente em seus significados, percebendo que ele desejara que elas titubeassem assim, aprendendo desse modo.

De fato, ele captara a reação da multidão, dizendo:

— A ironia frequentemente mascara a inabilidade de raciocinar além dos próprios pressupostos. Não estou sendo irônico. Ghamina tem dito a vocês que o sangue de seu irmão não pode ser lavado. Eu concordo. E eu lhes direi que Leto foi para onde seu pai foi, e fez aquilo que seu pai fez. A Igreja do Muad'Dib diz que ele escolheu, em benefício de sua própria humanidade, um caminho que pode parecer absurdo e tolo, mas que a história irá validar. Que a história está sendo reescrita neste exato momento. Eu lhes digo que há outra lição a ser aprendida com essas vidas e seus términos.

Alia, alerta a cada nuança, se perguntou por que o Pregador dissera términos em vez de mortes. Estaria querendo dizer que um deles ou ambos não estavam verdadeiramente mortos? Como poderia ser? Uma Reveladora da Verdade havia confirmado a história de Ghamima. O que estava fazendo esse Pregador, então? Sua afirmação diria respeito ao mito ou à realidade?

— Prestem muita atenção nesta outra lição — trovejou o Pregador, erguendo os braços. — Se vocês possuem sua humanidade, abandonem o universo.

Abaixou os braços e apontou as órbitas vazias diretamente para Alia.

Parecia estar falando intimamente com ela, uma ação tão óbvia que várias pessoas a seu redor se voltaram para olhar indagadoramente em sua direção. Alia estremeceu ante o poder que emanava dele. Esse homem podia ser Paul! Sim, podia!

— Mas percebo que seres humanos não podem suportar muito bem a realidade — continuou. — Muitas vidas são uma fuga interior. A maioria prefere as verdades fixas. Vocês esticam suas cabeças nos estábulos e ruminam, contentes, até morrerem. Outros os usam para seus propósitos. E nenhuma vez vocês se afastam do estábulo para erguerem a cabeça e serem vocês mesmos. O Muad'Dib veio para lhes dizer isso. Sem entenderem sua mensagem, não podem reverenciá-lo!

Alguém na multidão, possivelmente um sacerdote disfarçado, não pôde aguentar mais. Sua rouca voz masculina elevou-se para gritar:

— Você não viveu a vida do Muad'Dib! Como se atreve a ditar aos outros o modo como devem reverenciá-lo?

— Porque ele está morto! — rugiu o Pregador.

Alia voltou-se para ver quem havia desafiado o Pregador. O homem permanecia oculto de sua vista, mas sua voz veio de entre as cabeças que o ocultavam num outro grito:

— Se acredita que ele está verdadeiramente morto, então você está sozinho daqui para a frente!

Certamente era um sacerdote, pensou Alia. Mas não conseguia reconhecer-lhe a voz.

— Eu vim apenas para fazer uma pergunta simples — disse o Pregador.

— Será que a morte do Muad'Dib deve ser seguida pelo suicídio moral de todos os homens? Será esse o resultado inevitável da vinda de um Messias?

— Então admite que ele é o Messias! — gritou a voz no meio do povo.

— Por que não, sendo eu o profeta dos seus tempos? — respondeu o Pregador.

Havia uma confiança tão calma em seu tom de voz e em suas maneiras que até mesmo o provocador ficou em silêncio. A multidão respondeu com um murmúrio de desconforto, um som baixo e animal.

— Sim — repetiu o Pregador. — Sou um profeta destes tempos. Alia, concentrando-se nele, detectou as sutis inflexões da Voz. Ele certamente controlava a multidão. Teria sido treinado pela Bene Gesserit?

Seria ele outro instrumento da Missionária Protetora? Não verdadeiramente Paul, apenas outra parte daquele interminável jogo de poder?

— Eu articulo o mito e o sonho! — gritou o Pregador. — Sou o médico que faz o parto e anuncia que a criança nasceu. E no entanto venho até vocês num tempo de morte. Será que isso não os perturba? Eu devia sacudir suas almas!

Mesmo sentindo-se irritada com essas palavras, Alia compreendia o modo dirigido do discurso. Com os outros, percebeu que se aproximava nos degraus, comprimindo-se na direção desse homem alto em trajes do deserto.

Seu jovem guia captou-lhe a atenção: como parecia insolente e esperto!

Teria o Muad'Dib se utilizado de um jovem tão cínico?

— Eu quero perturbar vocês! — gritou o Pregador. — Essa é a minha intenção! Vim aqui para combater a fraude e as ilusões de sua religião convencional e institucionalizada. Como todas as religiões desse tipo, sua instituição caminha em direção à covardia. Em direção à mediocridade, à inércia e à presunção.

Murmúrios furiosos começaram a se elevar no centro da multidão.

Alia sentiu as tensões e, exultante, se perguntou se não haveria conflito.

Será que o Pregador poderia manipular essas tensões? Se não pudesse, era capaz de morrer ali mesmo!

— Aquele sacerdote que me desafiou! — O Pregador apontou em direção à multidão.

“Ele sabe!”, pensou Alia. Uma sensação percorreu-lhe o corpo, quase sexual em suas nuanças. Esse Pregador fazia um jogo perigoso, mas o fazia com perfeição.

— Você, sacerdote, em seu mufti! — Chamou o Pregador. — Você é um capelão dos presunçosos. Não vim aqui para desafiar o Muad'Dib, mas para desafiar vocês! Será verdadeira a sua religião quando nada lhes custa, nem implica riscos?

Será verdadeira a sua religião quando engordam à custa dela? Será verdadeira a sua religião quando cometem atrocidades em seu nome? De onde vem a total degeneração que vocês causaram à revelação original? Responda-me, sacerdote!

Mas o provocador permaneceu calado. E Alia reparou que a multidão ouvia uma vez mais com ávida submissão, atenta a cada palavra do Pregador.

Atacando o clero, conquistava-lhe a simpatia! E se seus espiões estavam corretos, a maioria dos peregrinos e Fremen de Arrakis acreditava que esse homem fosse o Muad'Dib.

— O filho do Muad'Dib se arriscou! — gritou o Pregador, e Alia percebeu que havia lágrimas em sua voz. — O Muad'Dib se arriscou! Eles pagaram seu preço!

E o que o Muad'Dib conseguiu? Uma religião que o está abandonando!

“Como essas palavras seriam diferentes se viessem do próprio Paul”, pensou Alia. “Devo descobrir!” Aproximou-se mais, subindo os degraus, e outros a seguiram. Espremeu-se na multidão até quase lhe ser possível estender a mão e tocar no profeta misterioso. Sentiu nele o cheiro do deserto, uma mistura de especiaria e pó de pedra. Ambos, o Pregador e seu jovem guia, estavam empoeirados, como se tivessem chegado recentemente do bled. Ela podia ver as veias grossas na mão do Pregador, ao longo da pele que saía dos fechos do punho do traje-destilador. Podia notar que um dedo de sua mão esquerda havia usado um anel, a marca permanecia. Paul usara um anel naquele dedo: o Falcão Atreides, que agora repousava no Sietch Tabr.

Leto o teria usado se vivesse... ou se ela lhe tivesse permitido ascender ao trono.

Novamente o Pregador voltou suas órbitas vazias para Alia e falou de modo pessoal, embora com sua voz que se propagava através da multidão.

— O Muad'Dib mostrou duas coisas a vocês: um futuro certo e um futuro incerto. Com uma percepção total, ele confrontou a incerteza final de um universo maior. Caminhou cegamente para fora de sua posição neste mundo. Ele nos mostrou o que os homens devem fazer sempre: escolher o incerto em lugar do certo.

Sua voz, Alia notou, assumiu um tom suplicante no final dessa declaração.

Alia olhou à sua volta e levou a mão ao cabo da faca cristalina. “Se eu o matasse agora mesmo, o que eles fariam?” Novamente sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. “Se eu o matasse e me revelasse, denunciando o Pregador como impostor e herege?”

Mas e se eles provassem que ele era Paul?

Alguém empurrou Alia para mais perto dele. Sentia-se cativada por sua presença, mesmo enquanto lutava para controlar sua raiva. Seria Paul?

Deus! O que ela poderia fazer?

— Por que outro Leto foi tirado de nosso convívio? — perguntou o Pregador. E havia mágoa verdadeira em sua voz. — Respondam-me se puderem!

Ahhh, a mensagem deles é clara: abandonem a certeza! — E repetiu num grito estentóreo: — Abandonem a certeza! Essa é a ordem mais profunda da vida. É

disso que se trata a vida. Nós somos uma sonda rumo ao desconhecido, à incerteza.

Por que não ouvem o Muad'Dib? Se a certeza significa conhecer absolutamente um futuro absoluto, então é apenas a morte disfarçada! Tal futuro transforma-se no agora! Ele lhes mostrou isso!

Com uma precisão terrível, o Pregador estendeu a mão e agarrou o braço de Alia. Sem a menor hesitação, sem a necessidade de apalpar. Ela tentou fugir, mas ele a segurou com dolorosa firmeza e falou diretamente para o rosto dela, enquanto os outros ao redor recuavam em confusão.

— O que Paul Atreides lhe disse, mulher? — perguntou ele, exigindo resposta.

“Como ele sabe que sou uma mulher?”, ela se perguntou. Queria mergulhar em suas vidas interiores, pedir-lhes proteção, mas seu mundo interior permanecia assustadoramente silencioso, hipnotizado por essa figura do passado.

— Ele lhe disse que a consumação é igual à morte! — gritou o Pregador.

— Previsão absoluta é consumação... é morte!

Alia tentou libertar seus dedos. Queria agarrar a faca e feri-lo para que a soltasse, mas não se atrevia. Nunca sentira tanto medo em toda a sua vida.

O Pregador ergueu o queixo para falar por sobre ela, dirigindo-se à multidão. Gritou:

— Eu lhes dou as palavras do Muad'Dib. Vou esfregar-lhes nos rostos as coisas que tentam evitar. Não acho estranho que só desejem acreditar naquilo que lhes conforta. De que outro modo os seres humanos criam as armadilhas que nos enganam na mediocridade? De que outro modo definimos a covardia? Isso é o que o Muad'Dib lhes contou!

De repente, soltou o braço de Alia, empurrando-a na multidão. Ela teria caído, não fosse a massa de gente para suportá-la.

— Existir é destacar-se, sobressair na paisagem. Vocês não estão pensando ou realmente existindo, a menos que se disponham a arriscar, até mesmo sua sanidade mental, no julgamento de suas próprias existências.

Descendo o degrau, o Pregador segurou uma vez mais o braço de Alia sem hesitar nem vacilar. Contudo, foi mais gentil dessa vez. Inclinou-se para perto dela, modulando a voz para que apenas seus ouvidos o captassem:

— Pare de tentar me empurrar uma vez mais para os bastidores, irmã.

E então, com a mão no ombro de seu jovem guia, ele desceu para o meio do povo. O caminho foi aberto para o estranho par. Mãos estenderam-se para tocar o Pregador, mas as pessoas tentavam alcançá-lo com incrível delicadeza, temerosas do que pudessem encontrar embaixo daquele poeirento manto Fremen.

Alia permaneceu sozinha, em estado de choque, enquanto a multidão se afastava atrás do Pregador.

Agora estava cheia de certeza. Era Paul. Não restavam dúvidas. Era seu irmão. Sentia o que a multidão sentia. Havia estado em sua sagrada presença e agora seu universo desabava em torno dela. E queria correr atrás dele, implorando para que a salvasse de si mesma, mas não conseguia se mover. Enquanto os outros se comprimiam para seguir o Pregador e seu guia, ela permanecia atordoada em desespero absoluto, uma aflição tão profunda que só podia tremer com ela, incapaz de controlar os próprios músculos.

“Que eu vou fazer? Que vou fazer?”, perguntava a si mesma.

Agora não tinha nem ao menos Duncan para se apoiar, nem sua mãe. As vidas interiores permaneciam em silêncio. Havia Ghanima, mantida sob guarda segura dentro do Castelo, mas Alia não podia transmitir sua aflição à gêmea sobrevivente.

“Todos se voltaram contra mim. Que poderei fazer?”

A visão monocular de nosso universo diz que não devemos olhar muito longe à procura de problemas. Tais problemas talvez nunca cheguem. Em vez disso, preocupem-se com os lobos dentro de suas cercas. As matilhas circulando lá fora podem nem existir.

- O Livro de Al har, Shamra 1:4

Jessica esperou por Idaho diante da janela de sua sala de estar. Era um lugar confortável, com divãs macios e cadeiras antigas. Não havia uma suspensora em qualquer um de seus aposentos e os globos luminosos eram feitos de cristal de outra era. Sua janela abria-se acima do jardim de um pátio interno, um andar abaixo.

Ela ouviu a serva abrira porta, o som dos passos de Idaho no piso de madeira, depois sobre o tapete. Ouviu sem se voltar, mantendo o olhar na luz mosqueada do solo verde do pátio. O silencioso e trêmulo estado de guerra em

suas emoções devia ser eliminado agora. Respirou fundo várias vezes, de acordo com o treinamento prana-bindu, e sentiu fluir a calma forçada.

O sol alto lançava no pátio um facho de luz poeirenta, destacando a roda prateada de uma teia de aranha esticada sobre os ramos de uma árvore que chegava quase à sua janela. Fazia frio ali dentro, mas fora da janela selada o ar tremia com o calor. O Castelo Corrino colocava-se num lugar estagnado, que negava a presença do verde em seu pátio.

Ouviu Idaho parar diretamente atrás dela.

Sem se voltar, disse:

— O dom das palavras é o dom do engano e da ilusão, Duncan. Por que deseja trocar palavras comigo?

— Pode ser que apenas um de nós sobreviva — ele disse.

— E você deseja que eu faça um bom relatório de seus esforços?

Jessica se virou, notando quão calmamente ele permanecia ali, observando-a com aqueles olhos de metal cinzento que não possuíam centro de foco.

Como eram vazios!

— Duncan, será possível que esteja com ciúme de seu lugar na história?

Falava em tom acusador e lembrava-se de como se expressara naquela outra vez em que confrontara esse homem. Ele estava bêbado na ocasião, dividido por obrigações conflitantes ao receber a ordem de espioná-la. Mas aquele havia sido o Duncan pré-ghola. Esse não era o mesmo homem. Não estava dividido em suas ações, nem angustiado.

Ele provou o julgamento dela ao sorrir.

— A história tem seu próprio tribunal e faz seus próprios julgamentos —

comentou. — Duvido que eu esteja preocupado quando do meu julgamento.

— Por que está aqui? — perguntou ela.

— Pela mesma razão pela qual está aqui, Minha Senhora. — Nenhum indício exterior traiu o poder chocante dessas simples palavras, mas Jessica refletiu a um ritmo furioso. “Será que ele realmente sabe por que estou aqui?” Como poderia? Somente Ghanima sabia.

Teria ele dados suficientes para uma computação mentat? Isso era possível.

E se ela dissesse alguma coisa que a denunciasse? Teria ele agido desse modo se compartilhasse sua razão para estar ali? Ele devia saber que cada movimento seu, cada palavra, estava sendo observado por Faradin ou seus servos.

— A Casa Atreides chegou a uma amarga encruzilhada — disse Jessica. —

A Família voltou-se contra si mesma. Você estava entre os homens mais leais de meu Duque, Duncan. Quando o Barão Harkonnen...

— Não vamos falar dos Harkonnen — ele disse. — Isso foi em outra era e seu Duque está morto. — E ele imaginou: “Será que ela não é capaz de perceber que Paul revelou o sangue dos Harkonnen nos Atreides?” Que risco fora isso para Paul, mas ligara Duncan Idaho ainda mais firmemente a ele. A confiança em tal revelação fora uma moeda quase grande demais para ser concebida. Paul sabia o que a gente do Barão tinha feito a Idaho.

— A Casa Atreides não está morta — disse Jessica.

— Que é a Casa Atreides? — ele perguntou. — Será a senhora a Casa Atreides? Será Alia? Ghanima? Serão as pessoas que servem a essa Casa? Olho para essas pessoas e elas trazem a marca do trabalho árduo, além das palavras! Como podem ser os Atreides? Seu filho falou com razão: perseguição e trabalho árduo é a sina de todos aqueles que me seguem. Eu me separaria disso, Minha Senhora.

— Realmente se aliou a Faradin?

— E não foi isso o que fez, Minha Senhora? Não veio aqui para convencer Faradin de que um casamento com Ghanima resolveria todos os nossos problemas?

“Será que ele realmente pensa isso?”, perguntou-se ela. “Ou estará falando para os espiões que nos vigiam?”

— A Casa Atreides sempre foi essencialmente uma idéia. Você sabe disso, Duncan. Nós compramos lealdade com lealdade.

— A serviço do povo — disse ele, sarcástico. — Ahh, quantas vezes ouvi seu Duque dizer isso. Ele deve estar inquieto em sua sepultura, Minha Senhora.

— Realmente acha que descemos tão baixo?

— Minha Senhora, não sabe que existem rebeldes Fremen que Chamam a si próprios de “Marqueses do Deserto Interior”, amaldiçoando a Casa Atreides e até mesmo o Muad'Dib?

— Ouvi o relatório de Faradin — respondeu ela, tentando imaginar para onde ele estava levando essa conversa e com que objetivo.

— Mais que isso, Minha Senhora. Mais que o relatório de Faradin. Ouvi a maldição deles por mim mesmo. É assim que ela é pronunciada: “Que o fogo os consuma, Atreides! Não deverão ter nem almas, nem espírito, nem corpos, nem sombras, nem mágica, nem ossos, nem cabelos, nem fala, nem palavras. Não deverão ter nem sepultura, nem casa, nem buraco, nem tumba. Não deverão ter nem jardim, nem árvore, nem arbusto. Não deverão ter água, nem pão, nem luz, nem fogo. Não deverão ter filhos, nem família, nem herdeiros, nem tribo. Não deverão ter cabeças, nem braços, nem pernas, nem andar, nem sementes. Não deverão ter assento em planeta algum. Não se deverá permitir que suas almas se ergam das profundezas, e nunca deverão estar entre aqueles que tiveram permissão para viver sobre a terra. Em nenhum dia deverão fitar o Shai-Hulud, mas devem ser presos e algemados na mais profunda abominação, e suas almas nunca deverão penetrar na gloriosa luz para todo o sempre.” Essa é a maldição, Minha Senhora.

Consegue imaginar tamanho ódio partindo dos Fremen? Eles reservam a todos os Atreides um lugar à mão esquerda dos malditos, ao lado da Mulher-Sol, que é cheia de fogo.

Jessica permitiu-se um estremecimento. Idaho indubitavelmente pronunciara aquelas palavras com a mesma voz em que ouvira a maldição original.

Por que revelava isso à Casa Corrino? Ela podia imaginar um Fremen irado, terrível em sua fúria, diante de sua tribo a enunciar a antiga maldição.

Por que Idaho queria que Faradin a ouvisse?

— Você cria um forte argumento em favor do casamento de Ghanima e Faradin — disse Jessica.

— A senhora sempre teve uma abordagem simples para os problemas —

comentou ele.

— Ghanima é uma Fremen. Só pode casar-se com quem não pague o fai, a taxa de proteção. A Casa Corrino entregou toda a sua parte nas ações da CHOAM

a seu filho e seus herdeiros. Faradin existe sob a tolerância dos Atreides. Lembra-se de quando seu Duque fincou em Arrakis a bandeira do Falcão? Lembra-se do que ele disse? “Aqui estou, aqui permaneço!” E seus ossos ainda estão lá. Faradin teria de viver em Arrakis, levando consigo seus Sardaukar.

Idaho sacudiu a cabeça ante a simples idéia de tal aliança.

— Diz o velho ditado que descascamos um problema como uma cebola

— disse ela, a voz fria. “Como ele se atreve a falar comigo desse modo. A não ser que esteja desempenhando um papel ante os olhos vigilantes de Faradin...”

— De algum modo, não consigo ver os Fremen e os Sardaukar compartilhando um planeta — comentou Idaho. — Essa é uma camada que não vai sair da cebola.

Ela não gostava dos pensamentos que as palavras de Idaho iriam despertar em Faradin e seus assessores, e falou asperamente.

— A Casa Atreides ainda representa a lei deste Império! — E pensou:

“Será que Idaho deseja que Faradin acredite poder obter o trono sem os Atreides?”

— Oh, sim — respondeu Idaho. — Quase me esqueci. A lei dos Atreides!

Tal como é traduzida, é claro, pelos sacerdotes do Elixir Dourado. Só tenho de fechar os olhos para ouvir seu Duque me dizer que a terra é sempre conquistada e mantida pela violência, ou por sua ameaça. A sorte passa em toda parte, como Gurney costumava cantar. O fim justifica os meios? Ou será que misturei os provérbios? Bem, não importa se o punho coberto pela malha é brandido abertamente pelas legiões Fremen ou Sardaukar, ou se fica escondido na Lei dos Atreides o punho permanece lá. E a camada não sairá da cebola, Minha Senhora.

Sabe, imagino qual o punho que Faradin lhe vai exigir...

“O que ele está fazendo?”, perguntou-se Jessica. A Casa Corrino iria sugar esse discurso e se banquetear com ele!

— Assim, você acha que os sacerdotes não permitirão que Ghamima se case com Faradin? — sondou Jessica, tentando perceber para onde conduziam as palavras de Idaho.

— Deixá-la? Deus! Os sacerdotes deixarão que Alia faça o que quiser decretar. Poderia casar-se com Faradin, ela própria.

“É isso que ele está sondando?”, imaginou Jessica.

— Não, Minha Senhora continuou Idaho. Essa não é a questão. O povo deste Império não pode distinguir entre o Governo dos Atreides e o Governo de Rabba, a Besta. Todo dia morrem homens nas masmorras de Arrakeen. Eu parti porque não podia oferecer meu braço ao serviço dos Atreides por mais uma hora que fosse. Não compreende o que estou dizendo, por que vim à sua presença como o representante mais próximo dos Atreides? O Império Atreides atraiçoou seu Duque e seu filho. Eu amava sua filha, mas ela seguiu um caminho e eu segui

outro. E se chegarmos a determinado ponto, eu aconselharei Faradin a aceitar a mão de Ghanima ou de Alia mas somente sob seus próprios termos.

“Ahh, ele armou o palco para uma demissão formal, com honra, do serviço dos Atreides”, pensou Jessica. Mas aquelas outras questões sobre as quais falara, teria ele possibilidade de saber o quanto favoreciam o trabalho dela? Jessica olhou para ele aborrecida.

— Você sabe que os espiões estão escutando cada palavra, não sabe?

— Espiões? — Ele riu. — Eles ouvem como eu ouviria no lugar deles.

Não sabe como minha lealdade se coloca de modo diferente? Muitas noites eu passei sozinho no deserto, e os Fremen estão certos quanto àquele lugar. No deserto, especialmente à noite, a gente enfrenta os perigos de pensar demasiado.

— Foi lá que ouviu os Fremen nos amaldiçoarem?

— Sim. Entre os al-Ourouba. A pedido do Pregador, eu me juntei a eles, Minha Senhora. Chamamos a nós mesmos de Zarr Sadus, os que se recusam a se submeter aos sacerdotes. Estou aqui para fazer a um Atreides meu anúncio formal de que estou passando para o território inimigo.

Jessica o observou, procurando minúcias reveladoras, mas Idaho não dava indicação de estar fingindo ou ocultando planos. Seria realmente possível que ele tivesse passado para o lado de Faradin? Ela se lembrou de uma máxima de sua Irmandade: “Em assuntos humanos, nada é duradouro, todos os assuntos humanos giram em espiral, movendo-se em torno e para fora.” Se Idaho tinha realmente abandonado o serviço dos Atreides, isso explicaria seu atual comportamento. Ele estava se movendo em torno e para fora. Ela tinha de considerar essa possibilidade.

“Mas por que tinha ele enfatizado que o fizera a pedido do Pregador?”

A mente de Jessica acelerava-se e, tendo considerado as alternativas, ela percebeu que poderia ser obrigada a matar Idaho. O plano em que colocara todas as suas esperanças permanecia tão delicado que nada devia ser deixado que pudesse interferir com ele. Nada. E as palavras de Idaho indicavam que ele poderia conhecer seu plano. Ela avaliou suas posições relativas na sala, caminhando e se virando a fim de se colocar em posição para um golpe mortal.

— Sempre achei que o efeito normalizador das faufreluches era o pilar de nossa força — ela disse. Que ele se perguntasse por que ela mudara a conversa para o sistema de distinção de classes. O Conselho das Grandes Casas na Landsraad, os Sysselraads regionais, todos merecem nossa...

— Não está conseguindo desviar minha atenção — disse ele.

E Idaho ficou admirado com a transparência que as ações dela haviam adquirido. Será que ela se tornara negligente na dissimulação, ou teria finalmente rompido as muralhas de seu treinamento como Bene Gesserit? A última hipótese, concluiu ele, era a verdadeira, mas parte estava nela mesma a mudança provocada pelo envelhecimento. Ele se entristecia por notar que os pequenos hábitos dos novos Fremen diferiam dos antigos. O esquecimento do deserto era o esquecimento de alguma coisa preciosa para os seres humanos, e ele não era capaz de descrever essa coisa, tal como não poderia descrever o que acontecera a Lady Jessica.

Jessica olhava para Idaho com evidente perplexidade, sem tentar ocultar esse sentimento. Será que ele podia registrá-lo tão facilmente?

— A senhora não vai me matar — ele disse, usando as palavras Fremen de advertência: — Não jogue seu sangue sobre minha faca. — E então pensou:

“Tornei-me demasiado Fremen.” Dava-lhe um amargo sentido de continuidade perceber com que profundidade havia aceito os costumes do planeta que abrigara sua segunda vida.

— Acho melhor que você saia — disse ela.

— Não, até que aceite minha demissão do serviço dos Atreides.

— Está aceita! — disse ela bruscamente.

Só após pronunciar essas palavras é que ela percebeu o quanto essa discussão girara em torno de puros reflexos. Precisava de tempo para pensar e reconsiderar. Como Idaho podia saber o que ela iria fazer? Não o julgava capaz de saltar o Tempo, como no transe da especiaria.

Idaho recuou, sem lhe voltar as costas, até sentir a porta atrás de si. Então fez uma mesura.

— Uma vez mais a chamo de Minha Senhora, e então nunca mais. Meu conselho a Faradin será que a mande de volta a Wallach, rápida e silenciosamente, na primeira oportunidade que surgir. Você é um instrumento muito perigoso para se manter. Embora eu não acredite que ele a considere um instrumento. Você está trabalhando para a Irmandade, não para os Atreides. E agora me pergunto se algum dia trabalhou para os Atreides. Vocês bruxas percorrem um caminho muito profundo e obscuro para que os meros mortais possam confiar.

— Um ghola se considera um mero mortal, — zombou ela.

— Comparado a você — replicou ele.

— Saia! — ela ordenou.

— Essa era minha intenção.

Ele deslizou por entre a porta, passando pelo olhar curioso da serva, que obviamente estivera escutando.

“Está feito”, pensou ele. “E eles só podem compreendê-lo de um único modo Somente no reino da matemática se poderá compreender a precisa visão de futuro do Muad'Dib. Assim, primeiro postularemos qualquer número de pontos-dimensões no espaço (esse é o clássico agregado de n-dobras estendido a n-dimensões). Nessa estrutura, o Tempo, tal como comumente entendido, se torna um agregado de propriedades unidimensionais.

Aplicando isso ao fenômeno do Muad'Dib, descobrimos que, ou somos confrontados com novas propriedades do Tempo, ou então (através da redução pelo cálculo infinitesimal) estamos lidando com sistemas distintos que contêm n-propriedades corporais. Com relação ao Muad'Dib, vamos assumir como verdadeira a última hipótese. Como foi demonstrado através da redução, os pontos-dimensões de n-dobras só podem ter existências distintas em diferentes molduras do Tempo.

Demonstra-se desse modo que coexistem dimensões distintas do Tempo. Sendo essa uma realidade inescapável, as previsões do Muad'Dib exigiam que ele percebesse n-dobrar, não como um amplo agregado, mas como uma operação dentro de uma única estrutura. Com efeito, ele congelou seu universo dentro de uma única moldura, que era a sua visão do Tempo.

- Palimbasha: Palestras no Sietch Tabr

Leto encontrava-se deitado na crista de uma duna, observando, através de uma extensão de areia, um sinuoso afloramento de rochas. Elas eram como um imenso verme sobre a areia, chato e ameaçador ao sol da manhã. Nada se movia lá.

Nenhum pássaro circulava acima, nenhum animal saltitava entre as rochas. Ele podia ver as fendas das armadilhas de vento, quase no centro das costas do

“verme”. Devia haver água ali. O verme de pedra tinha aquela aparência familiar de um abrigo sietch, exceto pela ausência de criaturas vivas. Leto permaneceu quieto, confundindo-se com a areia e observando.

Uma das melodias de Gurney Halleck insistia em fluir através de sua mente, com uma persistência monótona:

Abaixo da colina onde as raposas correm.

Um rol mosqueado brilha fulgurante

Onde meu único amor parou.

Abaixo da colina, na moita de erva-doce,

Eu espiono meu amor que não pode despertar.

Abaixo da colina.

Onde ficaria a entrada para aquele lugar? Leto imaginava.

Sentia a certeza de que ali devia ser Jacurutu/Fondak, mas alguma coisa estava errada, além da ausência do movimento de animais. Alguma coisa tremulando nas bordas da percepção consciente o avisava.

Que se esconde abaixo daquela colina?

A ausência de animais era incomoda. Despertava seu senso Fremen de cautela: “Com relação à sobrevivência no deserto, a ausência revela mais que a presença.” Entretanto, havia uma armadilha de vento e, portanto, devia existir água potável. Esse era um lugar tabu que se ocultava atrás o nome de Fondak, sua outra

identidade perdida até mesmo na memória da maioria dos Fremen. E nem pássaros nem outros animais podiam ser vistos por lá.

Nenhum ser humano e no entanto ali começava o Caminho Dourado.

Seu pai dissera certa vez:

O desconhecido nos cerca a cada momento. É aí que você busca o conhecimento.

Leto olhou à sua direita, por sobre os topos das dunas. Ocorrera uma tempestade muito grande recentemente. O lago Azrak, a planície de gesso, ficara exposto sem a sua cobertura de areia. A superstição Fremen dizia que quem quer que visse as Bivan, as Terras Brancas, teria direito a um desejo de dois gumes, um desejo que poderia destruí-lo. Leto via apenas uma planície de gesso ou gipsita, revelando-lhe que um dia houvera água ao ar livre em Arrakis.

Como ia existir uma vez mais.

Olhou para cima, observando em torno, em busca de algum movimento.

O céu estava turvo após a tempestade. A luz que passava através dele gerava a sensação de uma presença leitosa, de um sol prateado perdido em algum ponto acima do véu de poeira que persistia nas altitudes elevadas.

Mais uma vez, Leto voltou sua atenção para a rocha sinuosa. Tirou o binóculo do estojo Fremen, focalizando suas lentes móveis e perscrutando aquela nudez cinzenta, o afloramento rochoso em que um dia viveram os homens de Jacurutu. A ampliação da imagem revelou um arbusto espinhoso, do tipo Chamado Rainha da Noite. O arbusto abrigava-se nas sombras de uma fenda que poderia conter a entrada para o velho sietch. Leto esquadrinhou o rochedo ao longo de seu comprimento. O sol prateado tornava cinzentos os vermelhos, produzindo uma aparência plana e difusa na longa extensão de rocha.

Leto girou, voltando as costas para Jacurutu, e observou a região à sua volta através do binóculo. Nada nessa desolação preservava as marcas da passagem humana. O vento já apagara sua trilha, deixando apenas uma vaga elevação arredondada no lugar onde ele saltara de seu verme durante a noite.

Novamente, olhou para Jacurutu. Exceto pela armadilha de vento, não havia sinal de que homens houvessem passado por aquele caminho. E sem aquela sinuosa extensão de rocha, nada restava ali para se subtrair da areia descorada, uma vastidão que se estendia de um horizonte a outro.

Leto sentiu subitamente que estava naquele lugar porque se tinha recusado a permanecer confinado ao sistema que seus ancestrais lhe haviam legado.

Pensou em como as pessoas olhavam para ele, aquele engano universal em cada olhar, exceto no de Ghanima.

“Exceto por aquela multidão esfarrapada de memórias, essa criança nunca foi criança.”

“Devo assumir a responsabilidade pela decisão que tomamos”, pensou.

Uma vez mais, esquadrinhou a extensão de rocha. Por todas as descrições, isso tinha de ser Fondak, e nenhum outro lugar poderia ser Jacurutu.

Sentia uma estranha relação ressonante com o tabu desse lugar. Ao modo Bene Gesserit, abriu a mente para Jacurutu, buscando não saber nada a seu respeito.

Saber era uma barreira que dificultava o aprendizado. Por alguns momentos, permitiu-se apenas ressoar, sem fazer exigências ou perguntas.

O problema residia na falta de vida animal, mas havia algo especial que o alertava. Percebeu o que era, então: não havia pássaros carniceiros nada de águias, abutres ou falcões. Mesmo quando outro tipo de vida se ocultava, essa aparecia.

Cada lugar com água nesse deserto tinha sua cadeia de vida. E no final da cadeia estavam os onipresentes comedores de carniça. Nada viera investigar sua presença.

Continuar: parte 3 de 3