Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 5 de 8 · parte 3/3

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Os Filhos de Duna

Quem seria a mulher, então? Não importava.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Quão bem ele conhecia os “cães de guarda do deserto”, aquela linha de pássaros empoleirados no alto do penhasco em Tabr, primitivos agentes funerários esperando por carne. Como os Fremen diziam, “nossos competidores”. Mas eles diziam isso sem qualquer mágoa, pois os pássaros vigilantes frequentemente alertavam quando estranhos se aproximavam.

“E se este Fondak foi abandonado até mesmo pelos contrabandistas?”

Leto parou para beber de um de seus tubos de recolhimento.

“E se não houver realmente água por lá?”

Reviu sua posição. Havia cavalgado dois vermes pela areia até chegar ali, dirigindo-os através da noite até deixá-los meio mortos. Esse era o Deserto Interior, onde se devia encontrar o refúgio dos contrabandistas.

Se existia vida ali, se ela pudesse existir, teria de ser na presença de água.

“E se não houver água? E se este lugar não é Fondak/Jacurutu?”

Uma vez mais, apontou o binóculo para a armadilha de vento. Suas bordas externas estavam marcadas pela areia e precisando de manutenção, mas o suficiente dela permanecia. Devia haver água.

“Mas e se não houver?”

Um sietch abandonado poderia perder sua água para o ar, em algum tipo de catástrofe. Por que não havia pássaros carniceiros? Teriam sido mortos por sua água? Por quem? Como todos eles teriam sido eliminados? Veneno?

“Agua envenenada.”

A lenda de Jacurutu não incluía qualquer menção a uma cisterna envenenada, mas isso podia ter acontecido. Se os bandos originais tivessem sido eliminados, já não estariam renovados a essa altura? Os Iduali tinham sido exterminados gerações atrás, e as histórias nunca mencionavam veneno. Examinou as rochas com o binóculo. Como um sietch inteiro podia ter sido eliminado?

Certamente, alguns de seus membros deviam ter escapado. Raramente todos os habitantes de um sietch se encontravam no lar. Grupos percorriam o deserto, viajavam até as cidades.

Com um suspiro de resignação, Leto guardou o binóculo. Escorregou pela face oculta da duna, tendo um cuidado extra em enterrar sua tenda-destiladora e ocultar qualquer indício de sua presença, enquanto se preparava para passar ali as horas mais quentes do dia. Vagarosas correntes de fadiga tomavam conta de seus membros enquanto ele se fechava na escuridão. Dentro do espaço suarento da tenda, passou a maior parte do dia, dormitando e imaginando os enganos que poderia ter cometido. Seus sonhos eram defensivos, mas não podia haver autodefesa nesse teste que ele e Ghanima havia escolhido. Uma falha escaldaria

suas almas. Comeu biscoitos de especiaria e dormiu, acordando para comer uma vez mais, beber e voltar a dormir. Fora uma longa jornada até esse lugar, um teste severo para músculos de criança.

Próximo do anoitecer, ele despertou, sentindo-se renovado, e escutou em busca de sinais de vida, depois, arrastou-se para fora de sua cobertura de areia.

Havia poeira alta no céu, soprada em uma direção, mas ele podia sentir a areia picando seu rosto, vinda de outra direção. Indício certo de que haveria mudança de tempo. Podia sentir uma tempestade se aproximando.

Cautelosamente, subiu na crista de sua duna e olhou uma vez mais para aquelas rochas enigmáticas. O ar entre os dois lugares estava amarelo. Os sinais indicavam a aproximação de uma tempestade Coriolis, o vento que trazia a morte em seu interior. Haveria um grande lençol de areia impulsionada pelo vento que poderia estender-se por quatro graus de latitude. O vazio desolado da depressão de gipsita era agora uma superfície amarela, refletindo as nuvens de poeira. A falsa paz do entardecer o envolveu, e então o dia se acabou e já era noite, a noite que caía rapidamente no Deserto Interior. Nela, as rochas tornaram-se picos angulosos, prateados pela luz da Primeira Lua. Sentia espinhos de areia picando-lhe a pele. Um ribombo de trovão seco soou como um eco de distantes tambores, e no espaço entre o luar e a escuridão ele percebeu um movimento súbito: morcegos. Podia ouvir o bater de suas asas, seus pequenos guinchos.

“Morcegos.”

Por intenção ou acidente, esse lugar transmitia um sentimento de abandonada desolação. Encontrava-se onde deveria estar a semi-lendária fortaleza dos contrabandistas: Fondak. Mas e se não fosse Fondak? E se o tabu ainda permanecesse e essa fosse apenas a concha vazia do fantasmagórico Jacurutu?

Leto agachou-se a sotavento de sua duna e aguardou que a noite assumisse seus ritmos próprios. Paciência e cautela, cautela e paciência. Por algum tempo, ele se divertiu, relembrando o percurso de Chaucer, de Londres a Canterbury, enumerando os lugares a partir de Southwark: duas milhas até o bebedouro em St.

Thomas, cinco milhas até Deptford, seis milhas até Greenwich, 30 milhas até Rochester, 40 milhas para chegar a Sittingbourne, 55 milhas até Boughton under Blean, 58 milhas até Harbledown e 60 milhas até Canterbury. Saber que poucos nesse universo se lembrariam de Chaucer ou conheceriam uma Londres exceto o vilarejo de Gensireed dava-lhe o sentimento de flutuar além do Tempo. St. Thomas fora preservada na Bíblia Universal Laranja e no livro de Azhar, mas Canterbury se fora das memórias dos homens, assim como o planeta que a conhecera. Lá estava a carga de sua memória, de todas aquelas vidas que ameaçavam engolfá-lo.

Ele próprio fizera aquela viagem a Canterbury, uma vez.

Sua presente viagem, entretanto, era mais longa, e mais perigosa.

Daí a pouco ele subiu para a crista da duna e seguiu em direção às rochas iluminadas pelo luar. Tentou confundir-se com as sombras, escorregando através das cristas sem fazer qualquer som que pudesse assinalar sua presença.

A poeira se fora, como frequentemente acontecia antes de uma tempestade, e a noite estava brilhante. O dia não revelara movimento algum, mas agora ele podia ouvir pequenas criaturas correndo na escuridão, à medida que se aproximava das rochas.

Na depressão entre duas dunas, encontrou uma família de gerbos que correram ante sua aproximação. Arrastou-se sobre a crista seguinte, suas emoções tomadas pela ansiedade. Aquela fenda que vira, será que conduziria a uma entrada?

E havia outras preocupações: os antigos sietches sempre eram guarnecidos por armadilhas: fossos com farpas envenenadas, plantas com espinhos venenosos.

Sentia-se dominado pela expressão Fremen: “A noite volta-se para os ouvidos.” E

pensando nisso aguçava os ouvidos em busca dos menores sons.

Agora, as rochas cinzentas elevavam-se acima dele, parecendo gigantescas em sua proximidade. Enquanto ouvia, escutou pássaros invisíveis no penhasco, o suave Chamado de uma presa alada. Eram sons de pássaros diurnos, mas ouvidos à noite. Que teria virado do avesso o mundo desses animais? Predadores humanos?

De súbito, Leto gelou de encontro à areia. Havia fogo no penhasco, um bale de jóias brilhantes e misteriosas contra o tecido negro da noite, o tipo de sinal que um sietch enviaria a caminhantes através do bled. Quais seriam os ocupantes desse lugar? Esgueirou-se para a frente nas profundas sombras da base do penhasco, tateando a rocha com a mão e escorregando o corpo para trás, enquanto buscava a fenda que vira à luz do dia.

Localizou-a no oitavo passo e então retirou de seu estojo o snorkel da areia, sondando com ele a escuridão. Ao caminhar, sentiu alguma coisa cair sobre seus ombros, apertando-o e enlaçando-o pelos braços para imobilizá-lo.

“Trepadeira-prendedora!”

Resistiu ao impulso de lutar: isso só faria a trepadeira apertar ainda mais.

Deixou cair o snorkel e flexionou os dedos da mão direita, tentando alcançar a faca na cintura. Sentia-se um inocente indefeso por não ter jogado alguma coisa naquela fenda, a distância, a fim de testar os perigos na escuridão. Sua mente estivera ocupada com o fogo sobre o penhasco.

Cada movimento fazia a trepadeira apertar ainda mais, mas afinal seus dedos tocaram o cabo da faca. Furtivamente, fechou a mão em torno do cabo, começando a retirar a faca.

Uma luz cegante o envolveu, imobilizando seus movimentos.

— Ahh, uma ótima pescaria em nossa rede.

Era uma voz grossa, masculina, vinda de trás, com alguma coisa vagamente familiar em seu tom. Tentou virar a cabeça, consciente da perigosa propensão da trepadeira a esmagar um corpo que se movesse com muita liberdade.

Uma mão tomou-lhe a faca antes que pudesse ver seu captor. Depois, moveu-se com habilidade através de seu corpo, retirando todos os pequenos artefatos que ele e Ghanima carregavam para a sobrevivência. Nada escapou à revista, nem mesmo o garrote de shigafio escondido em seu cabelo.

E Leto ainda não pudera ver o homem.

Dedos fizeram alguma coisa à trepadeira-prendedora e ele percebeu que podia respirar com mais facilidade. Entretanto, o homem avisou:

— Não resista, Leto Atreides. Tenho sua água em minha xícara.

Com um supremo esforço, Leto permaneceu calmo, e disse:

— Sabe meu nome?

— É claro! Quando se prepara uma armadilha é para um propósito específico.

— Uma presa específica, não?

Leto permaneceu em silêncio, mas seus pensamentos giravam.

— Sente-se traído! — disse a pesada voz. Mãos viraram seu corpo de modo gentil, mas com óbvia demonstração de força. Um adulto estava mostrando a essa criança quais eram as suas chances.

Leto olhou para o clarão de duas tochas flutuadoras e viu os negros contornos de uma face mascarada pelo traje-destilador, um capuz. À medida que seus olhos se ajustavam ao brilho, percebeu uma tira escura de rosto, os olhos inteiramente sombreados pelo vício da especiaria.

— Imagina por que nos demos a todo esse trabalho — disse o homem, sua voz partindo da parte inferior do rosto, coberta, de modo curiosamente abafado, como se ele quisesse esconder o sotaque.

— Há muito deixei de me admirar com o número de pessoas que desejam ver mortos os gêmeos Atreides — respondeu Leto. — Suas razões são óbvias.

Enquanto falava, a mente de Leto lançava-se de encontro ao desconhecido como se este fosse as barras de uma jaula. Buscava loucamente por respostas. Uma armadilha com isca? Mas quem teria conhecimento, exceto Ghanima? Impossível!

Ghanima não trairia o irmão. Então, alguém o conhecia tão bem a ponto de prever suas ações? Quem? Sua avó? Como poderia?

— Você não podia ter permissão de continuar da maneira que é — disse o homem. — Muito ruim. Antes de ascender ao trono, precisa ser educado. E os olhos sem branco o fitaram diretamente. Está imaginando como alguém poderia ter a presunção de educar uma pessoa como você? Você, que tem o conhecimento de multidões em suas memórias? Mas é exatamente isso, percebe? Você se julga instruído, mas não passa de um depósito de vidas mortas. Ainda não possui vida própria. É apenas um excesso ambulante de outras vidas, todas com um único objetivo buscar a morte. Isso não é bom num governante, ser um perseguidor da morte. Você encheria de cadáveres o mundo à sua volta. Seu pai, por exemplo, nunca entendeu...

— Como se atreve a falar dele desse modo?

— Muitas vezes me atrevi. Ele era apenas Paul Atreides, apesar de tudo.

Bem, garoto, bem-vindo à sua escola.

O homem ergueu a mão que estivera debaixo do manto e tocou a face de Leto. Ele sentiu a sacudidela de um disparo e se viu girando numa escuridão onde ondulava uma bandeira verde. Era a bandeira verde dos Atreides, com seus símbolos da noite e do dia, seu bastão de Duna que ocultava um tubo de água.

Ouviu a água gorgolejando enquanto a inconsciência o envolvia. Ou seria a risada de alguém?

Ainda podemos nos lembrar dos dias áureos antes de Heisenberg, que mostrou aos seres humanos as muralhas que encerram nossas discussões pré-destinadas. As vidas dentro de mim acham isso divertido. O conhecimento, como podem ver, não tem utilidade se não tiver um propósito, mas é o propósito que constrói as muralhas que nos tolhem.

- Leto Atreides II. Sua Voz

Alia estava falando asperamente aos guardas que confrontara no vestíbulo do Templo. Havia nove deles nos uniformes verdes poeirentos da patrulha suburbana, e todos ainda estavam ofegando e suando pelo esforço feito. A luz do final da tarde entrava pela porta atrás deles. A área fora evacuada dos peregrinos.

— Assim, minhas ordens não significam nada para vocês? — ela perguntou.

Admirava-se com sua própria raiva, não tentando contê-la, mas deixando que prosseguisse. Seu corpo tremia com tensões não-liberadas. Idaho se fora... e Lady Jessica... nenhum relatório... somente rumores de que ambos estavam em Salusa. Por que Idaho não enviara uma mensagem? Que teria feito ele? Teria finalmente descoberto a respeito de Javid?

Alia usava o amarelo do luto em Arrakeen, a cor do sol flamejante da história Fremen. Dentro de alguns minutos, estaria liderando a segunda e derradeira procissão à Velha Fenda, para completar o marco de pedra em honra ao sobrinho perdido. O trabalho seria terminado à noite, homenagem adequada a uma pessoa que fora destinada a liderar os Fremen.

Os guardas sacerdotais pareciam desafiantes em face de sua raiva, e nem um pouco envergonhados. Enfileiravam-se diante dela, delineados pela luz decrescente. O odor da transpiração era facilmente identificável através de seus leves e ineficientes trajes-destiladores de habitantes da cidade.

Seu líder, um rapaz alto e louro, com símbolos da família Cadelam em sua bourka, lançou para o lado a máscara do traje, de modo a poder falar mais claramente. Sua voz era cheia das entonações orgulhosas que seriam de se esperar em um descendente da família que um dia governara o Sietch Abbir.

— É claro que tentamos capturá-lo!

O homem estava obviamente ofendido com o ataque de Alia.

— Ele fala blasfêmias! Nós conhecemos suas ordens, mas o ouvimos com nossos próprios ouvidos!

— E falharam em capturá-lo — disse Alia, a voz baixa e acusadora.

Outro guarda, uma mulher baixa e jovem, tentou defendê-los.

— A multidão é compacta por aqui! Juro que as pessoas nos atrapalharam!

— Vamos continuar a persegui-lo — disse o Cadelam. — Nem sempre fracassamos.

Alia olhou, furiosa.

— Por que não me entendem e obedecem?

— Minha Senhora, nós...

— Que vai fazer, filho de Cadelam, se o capturar e descobrir que, na verdade, é meu irmão?

Ele obviamente não percebera a ênfase especial que ela colocara em seu nome, embora não pudesse ser um guarda sacerdotal sem alguma instrução e a inteligência para usá-la. Será que ele desejava sacrificar-se?

O guarda engoliu em seco e disse:

— Devemos matá-lo nós mesmos, pois ele traz a desordem.

Os outros pareceram aterrorizados ao ouvirem isso, mas ainda assim desafiantes. Sabiam o que tinham ouvido.

— Ele convoca as tribos para se unirem contra a senhora — disse o Cadelam.

Alia sabia como lidar com ele agora. Falou em tom calmo e trivial:

— Percebo. Então, você deverá sacrificar-se desse modo, atingindo-o abertamente para que todos vejam quem você é e o que fez. Aí, creio que deve...

— Sacrificar-me...

Ele interrompeu-se, olhando para os companheiros. Como aza desse grupo, seu líder nomeado, ele tinha o direito de falar por eles, mas mostrava indícios de desejar que tivesse ficado calado. Os outros guardas se remexiam, desconfortáveis. No calor da perseguição, haviam desafiado Alia. Só podiam refletir agora a respeito de tal desafio ao “Ventre Celestial”. Com óbvio desconforto, os guardas abriram um pequeno espaço entre si mesmos e seu aza.

— Pelo bem da Igreja, nossa reação oficial terá de ser severa — disse Alia.

— Compreende isso, não?

— Mas ele...

— Eu mesma o ouvi — ela disse. — Mas este é um caso especial.

— Ele não pode ser o Muad'Dib, Minha Senhora!

“Quão pouco você sabe!”, pensou ela, e disse:

— Não podemos nos arriscar atingindo-o em campo aberto, ferindo-o onde outros possam ver. Mas, é claro, se alguma outra oportunidade se apresentar...

— Ele está sempre cercado por multidões atualmente.

— Então, temo que deva ser paciente. É claro que, se insiste em me desafiar... — Ela deixou as consequências em suspenso, sem verbalizá-las, mas bem entendidas. O Cadelam era ambicioso, com uma carreira brilhante pela frente.

— Não pretendemos desafiá-la, Minha Senhora. — O homem se controlara agora. — Agimos apressadamente, posso ver isso. Perdoe-nos, mas ele...

— Nada aconteceu, nada há para se perdoar — ela disse, usando a fórmula Fremen habitual nessas situações.

Era um dos muitos modos pelos quais uma tribo mantinha a paz em suas fileiras, e esse Cadelam ainda era bastante Fremen Antigo para se lembrar disso.

Sua família tinha longa tradição de liderança. A culpa era o chicote do Naib, a ser usado com parcimônia. Os Fremen serviam melhor quando livres da culpa e do ressentimento.

Ele demonstrou compreender o julgamento dela, inclinando a cabeça e dizendo:

— Pelo bem da tribo, eu compreendo.

— Vão refrescar-se — ela disse. — A procissão começa dentro de alguns minutos.

— Sim, Minha Senhora. — Saíram apressados, cada movimento revelando o alivio que sentiam nessa escapada.

Dentro de Alia, uma voz grave roncou:

— Ahhh, você lidou habilmente com isso. Um ou dois deles ainda acreditam que você quer o Pregador morto. Eles encontrarão um meio.

— Cale-se! — sussurrou ela. — Cale-se! Eu nunca devia tê-lo escutado!

Olhe o que você fez...

— Coloquei-a no caminho da imortalidade — disse a voz grave. Ela sentia aquilo ecoar em seu crânio como uma dor distante, e pensou: “Onde posso me esconder? Não há lugar para onde fugir!”

— A faca de Ghanima é afiada — disse o Barão. — Lembre-se disso.

Alia piscou os olhos. Sim, essa era uma coisa boa de se lembrar. A faca de Ghanima era afiada, e essa faca ainda poderia cortar as amarras representadas pelos atuais problemas.

Se a pessoa acredita em certas palavras, então acredita nas idéias que lhes são subjacentes. Quando se acredita que alguma coisa é certa ou errada, verdadeira ou falsa, então se crê nos pressupostos contidos nas palavras que expressam essa coisa. Tais pressupostos são frequentemente repletos de erros, mas permanecem muito preciosos para os que deles estão convencidos.

- “A Prova Aberta” da Panóplia Profética

A mente de Leto flutuava num vapor de fortes odores. Ele reconheceu o cheiro carregado de canela da melange, o suor confinado de corpos trabalhando, o cheiro acre de um alambique da morte descoberto, mais muitos tipos de poeira, com a predominância de pó de pedra. Esses odores formavam uma trilha através da areia dos sonhos, criando formas na neblina de uma terra morta. Ele sabia que esses cheiros deviam revelar-lhe alguma coisa, mas parte dele ainda não podia ouvir.

Pensamentos flutuavam como espectros através de sua mente: “Neste tempo, eu ainda não tenho feições determinadas, sou todos os meus ancestrais. O

sol se pondo na areia é o sol se pondo em minha alma. Um dia, essa multidão dentro de mim foi grande, mas isso terminou. Sou um Fremen e terei a morte de um Fremen. O Caminho Dourado terminou antes de ter começado. Não é nada mais que pegadas apagadas pelo vento. Nós Fremen conhecemos todos os truques para nos ocultarmos: não deixamos fezes, nem água, nem rastros... Agora, veja como meus rastros se apagam.”

Uma voz masculina falou junto de seu ouvido:

— Eu poderia matá-lo, Atreides, eu poderia matá-lo, Atreides. — Isso foi repetido interminavelmente, até perder o significado, até se tornar uma coisa muda que trazia para os sonhos de Leto uma litania do tipo: “Eu poderia matá-lo, Atreides.”

Leto pigarreou e sentiu a realidade desse simples ato sacudir-lhe os sentidos. Sua garganta seca conseguiu perguntar:

— Quem...

A voz ao lado dele respondeu:

— Eu sou um Fremen instruído e já matei homens. Vocês nos tiraram nossos deuses, Atreides. Por que vamos nos importar com seu fedorento Muad'Dib? Seu deus está morto!

Seria essa a verdadeira voz de um Ouraba ou seria outra parte do sonho?

Leto abriu os olhos e se viu livre, deitado sobre um leito duro. Olhou para cima e viu rocha, globos luminosos de pouca intensidade e um rosto sem máscara olhando para ele, tão perto que podia sentir-lhe o hálito, com os odores familiares de uma dieta de sietch. O rosto era o de um Fremen. Não havia engano: pele escura, feições severas e carne carente de água. Não era um gordo habitante da cidade. Ali estava um Fremen do deserto.

— Sou Namri, pai de Javid — disse o Fremen. — Agora você me conhece, Atreides.

— Conheço Javid — respondeu Leto com a voz rouca.

— Sim, sua família conhece meu filho muito bem. Tenho orgulho dele.

Você, Atreides, poderá conhecê-lo melhor muito em breve.

— O que...

— Sou um de seus mestres, Atreides. Só tenho uma função: sou aquele que pode matá-lo. E farei isso com satisfação. Nesta escola, ser aprovado significa viver, fracassar é ser entregue às minhas mãos.

Leto percebeu a implacável sinceridade daquela voz. Isso o deixou arrepiado. O homem era um gom jabbar humano, um inimigo arrogante destinado a testar seu direito de entrada no gênero humano. Leto sentia nisso a mão de sua avó, e por trás dela as multidões sem face das Bene Gesserit s. Ele estremeceu ante esse pensamento.

— Sua educação começa comigo — disse Namri. — Isso é justo. É

adequado. Porque ela pode terminar comigo. Escute-me com cuidado, agora. Cada palavra minha traz consigo a sua vida. Tudo em mim contém a sua morte.

Leto deu uma olhada em direção à sala ao redor: paredes de rocha nua somente o sofá, os globos luminosos mortiços e uma passagem escura por trás de Namri.

— Você não passaria por mim — ele advertiu, e Leto acreditou nele.

— Por que está fazendo isso?

— Isso já foi explicado. Pense nos planos que estão em sua cabeça! Você está aqui e não pode ter um futuro em sua presente condição. Os dois não se ajustam: o agora e o futuro. Mas se realmente conhecer seu passado, se olhar para trás e vir onde já esteve, talvez haja razão uma vez mais. Senão, haverá sua morte.

Leto notou que o tom de voz de Namri não era inteiramente inamistoso, mas era firme e não negava a possibilidade de morte.

Namri apoiou-se nos calcanhares, olhando para o teto de rocha.

— Em tempos antigos, os Fremen fitavam o leste durante a aurora. Você sabia? Isso significa aurora em um dos antigos idiomas.

Com um orgulho amargo em sua voz, Leto disse:

— Eu falo esse idioma.

— Você não me escutou, então — disse Namri, e havia o gume cortante de uma faca em sua voz. — A noite era o tempo do caos. O dia era o tempo da ordem. Era assim na época desse idioma que você diz que fala: escuridão-desordem, luz-ordem. Nós Fremen mudamos isso. Eos era a luz na qual não confiávamos. Preferíamos a luz da lua ou das estrelas. A luz significava ordem em demasia, e isso pode ser fatal. Percebe o que vocês Atreides fizeram? O homem é uma criatura que pertence apenas à luz que o protege. O sol era nosso inimigo em Duna. — E Namri fez o olhar retornar para Leto. — Qual a luz que prefere, Atreides?

Pela atitude séria de Namri, Leto sentiu que essa pergunta era muito importante. O homem iria matá-lo se deixasse de dar a resposta correta?

Era possível. Leto viu a mão de Namri repousando junto ao cabo polido de uma faca cristalina. Um anel em forma de tartanzga mágica brilhava na mão do Fremen.

Leto apoiou-se nos cotovelos e pôs a mente a sondar as crenças dos Fremen. Eles confiavam na Lei e adoravam ouvir suas lições expostas em forma de analogia. Esses velhos Fremen... A luz da lua?

— Eu prefiro... a luz do Lisanu Lhagg — disse Leto, vigilante quanto a reações sutis da parte de Namri. O homem pareceu desapontado, mas sua mão se afastou da faca. — É a luz da verdade, a luz do homem perfeito no qual a influência do al-Mutakallim pode ser vista claramente — prosseguiu Leto. — Que outra luz um homem preferiria?

— Você fala como quem recita, não como quem acredita.

E Leto pensou: “Eu realmente recitei.” Mas começava a sentir o rumo dos pensamentos de Namri, como suas palavras se filtravam através de um treinamento precoce no antigo jogo de enigmas. Milhares dessas charadas eram usadas no treinamento de um Fremen, e Leto só tinha de focalizar sua atenção nesse costume para inundar sua mente com exemplos. “Desafio: Silêncio? Resposta: O amigo dos perseguidos.”

Namri assentiu para si mesmo, como se tivesse compartilhado desse pensamento, e disse:

— Existe uma caverna que é a caverna da vida para os Fremen. É uma verdadeira caverna que o deserto ocultou. Shai-Hulud, o grande bisavô de todos os Fremen, selou a entrada dessa caverna. Meu tio Ziamad contou-me a respeito disso, e ele nunca me mentiu. Tal caverna existe.

Leto ouviu o silêncio desafiador quando Namri acabou de falar. “A caverna da vida?”

— Meu tio Stilgar também me falou a respeito dessa caverna — disse ele.

— Foi fechada para evitar que os covardes se ocultassem nela.

O reflexo dos globos luminosos brilhou nos olhos sombreados de Namrin.

Ele indagou:

— Vocês Atreides abririam essa caverna? Vocês buscam controlar a vida através de um ministério, que Chamam de Ministério Central de Informação, Auqaf e Hajj. O Maulana encarregado Chama-se Kausar. Ele percorreu um longo caminho desde as origens de sua família nas minas de sal de Niazi. Diga-me, Atreides, o que está errado em seu ministério?

Leto sentou-se, consciente agora de estar em meio a um jogo de charadas com Namri, no qual errar era morrer. O homem dava todos os indícios de que usaria a faca cristalina ante a primeira resposta incorreta.

Namri reconheceu essa compreensão em Leto e disse:

— Creia-me, Atreides. Eu sou o esmagador dos tolos. Sou o Martelo de Ferro.

Agora Leto compreendia. Namri via a si mesmo como Mirzabah, o Martelo de Ferro com que os mortos são espancados quando não respondem satisfatoriamente às perguntas que devem responder antes de entrarem no paraíso.

“Que haveria de errado com o ministério central que Alia e seus sacerdotes haviam criado?”

Leto pensou nos motivos que o haviam levado ao deserto, e reacendeu-se nele uma pequena esperança de que o Caminho Dourado ainda pudesse aparecer em seu universo. O que a pergunta de Namri implicava não era nada mais que o motivo que levara o próprio filho do Muad'Dib ao deserto.

— Deus deve mostrar o caminho — respondeu Leto.

O queixo de Namri moveu-se bruscamente para baixo e ele olhou severamente para Leto.

— É verdade que acredita nisso? — ele quis saber.

— É por isso que estou aqui — disse Leto.

— Para encontrar o caminho?

— Para encontrá-lo para mim mesmo. — Leto colocou os pés sobre a borda do catre. O piso de rocha não tinha tapete, era frio. — Os sacerdotes criaram seu ministério para ocultar o caminho.

— Você fala como um verdadeiro rebelde — disse Namri, e esfregou o anel de tartaruga no dedo. — Veremos. Ouça com cuidado uma vez mais. Você conhece a elevada Muralha Escudo em Jalalud-Din? Aquela Muralha tem as marcas de minha família, gravadas lá nos primeiros dias. Javid, meu filho, já viu essas marcas. Abedi Jalal, meu sobrinho, as viu. Mujahid Shafqat, dos outros, também viu nossas marcas. Na estação das tempestades, perto de Sukkar, eu desci com meu amigo Yakup Abad próximo daquele lugar. Os ventos eram terríveis, como os redemoinhos dos quais aprendemos nossas danças. Não tivemos tempo de ver as marcas porque a tempestade bloqueava o caminho. Mas quando a tormenta passou tivemos a visão do Thatta sobre a areia soprada. A face do Shakir Ali estava lá por

um momento, olhando para baixo sobre sua cidade das tumbas. A visão se foi num instante, mas nós todos a tivemos. Diga-me, Atreides, onde poderei encontrar a cidade das Tumbas?

“Os redemoinhos dos quais aprendemos nossas danças”, pensou Leto. “A visão de Thatta e Shakir Ali.” Essas eram palavras dos Viajantes Zensunni, aqueles que se consideravam os únicos e verdadeiros homens do deserto.

“E os Fremen eram proibidos de ter tumbas.”

— A cidade das tumbas encontra-se no final da trilha que todos os homens seguem — disse Leto. E enumerou as beatitudes Zensunni: — Fica num jardim com mil passos quadrados. Há um lindo corredor de entrada com 233

passos de comprimento e 100 passos de largura, todo pavimentado com mármore da antiga Jaipur. Lá se encontra ar-Razzaq, aquele que fornece alimento a todos que lhe pedem. E no Dia do julgamento, todos aqueles que se erguerem e procurarem a cidade das tumbas não deverão encontrá-la. Pois está escrito: Aquilo que conheces num mundo, não deverás encontrar em outro.

— Novamente você recita sem acreditar — zombou Namri. — Mas vou aceitar isso por enquanto, pois creio que sabe por que está aqui. — Um frio sorriso tocou-lhe os lábios. — Eu lhe concedo um futuro provisório, Atreides.

Leto estudou o homem cautelosamente. Seria isso outra pergunta disfarçada?

— Ótimo! — exclamou Namri. — Sua consciência foi preparada. Eu atingi os alvos. Mais uma coisa, então: ouviu dizer que eles usam imitações de trajes-destiladores na distante Kadrísh?

Enquanto Namri esperava, Leto movimentou sua mente em busca de um significado oculto. “Imitações de trajes-destiladores? Eram usadas em muitos planetas.”

— Os hábitos afetados de Kadrish são uma velha história, frequentemente repetida. Sábio é o animal que se confunde com seu ambiente.

Namri assentiu lentamente, depois disse:

— Aquele que o aprisionou e o trouxe aqui virá vê-lo dentro em breve.

Não tente sair deste lugar. Seria sua morte. — Levantando-se enquanto falava, Namri saiu pela passagem escura.

Por muito tempo depois que ele se fora, Leto continuou olhando para aquela passagem. Podia ouvir sons vindos de lá, as vozes abafadas de homens em trabalho de guarda. A história de Namri a respeito de uma visão-miragem permanecia em sua mente. Relembrava-lhe a longa travessia do deserto até aquele lugar. E não mais importava se era ou não Jacurutu/Fondak. Namri não era contrabandista, mas alguém muito mais poderoso. E o jogo que ele fazia cheirava a Lady Jessica, recendia a Bene Gesserit. Percebendo isso, Leto sentiu o perigo fechando-se sobre si. Mas aquela passagem escura por onde Namri se fora era a única saída do aposento. E lá fora havia um sietch estranho, com o deserto adiante.

A dura severidade desse deserto, seu caos ordenado com miragens e intermináveis dunas, surgia para Leto como parte da armadilha em que fora apanhado. Ele

poderia tornar a atravessar aquela areia, mas aonde isso o levaria? Esse pensamento era como água estagnada. Não lhe saciava a sede.

Devido à consciência unidirecional do Tempo, na qual a mente convencional permanece imersa, os seres humanos tendem a pensar em tudo como se fosse uma estrutura sequencial, orientada por palavras. Isso é uma armadilha mental que produz conceitos de curto prazo em matéria de eficácia e consequências, condição em que as respostas as crises são constantes e não-plantadas.

- Liet-Kynes Manual de Arrakis

“Palavras e movimentos simultâneos”, lembrou-se Jessica enquanto voltava seus pensamentos para os preparativos mentais necessários ao encontro iminente.

Era pouco após o desjejum, com o sol dourado de Salusa Secundus apenas começando a tocar o muro oposto ao jardim interno visto de sua janela.

Vestira-se cuidadosamente: o manto negro com capuz de Reverenda Madre, mas com o brasão dos Atreides bordado em ouro em torno da bainha e do punho de cada manga. Jessica ajeitou meticulosamente o drapejado de seu traje, enquanto voltava as costas para a janela, colocando o braço esquerdo sobre a cintura de modo a exibir o símbolo do Falcão.

Faradin reparou nos símbolos dos Atreides, comentando a respeito deles enquanto entrava, mas sem revelar raiva ou surpresa. Ela detectou um humor sutil na voz dele e se perguntou sobre sua razão. Notou que ele vestira uma malha cinza, como ela tinha sugerido. Agora se sentava num divã verde, baixo, para o qual ela o dirigira, relaxando com o braço direito ao longo do recosto.

“Por que confio nela?”, ele pensava: “Essa é uma bruxa Bene Gesserit.”

Jessica, lendo o pensamento pelo contraste entre o corpo descontraído e a expressão do rosto, sorriu, dizendo:

— Você confia em mim porque sabe que nosso acordo é bom e quer o que lhe posso ensinar.

Notou o toque da zanga em sua testa e acenou com a mão esquerda para acalmá-lo.

— Não, eu não leio pensamentos. Leio a face, o corpo, os maneirismos, o tom de voz, a disposição dos braços. Qualquer um pode fazê-lo, desde que aprenda o Modo Bene Gesserit.

— E a senhora vai me ensinar?

— Tenho certeza de que estudou os relatórios a nosso respeito — ela disse. — Existe em algum lugar um relatório que diga que deixamos de cumprir uma promessa direta?

— Não, mas...

— Nós sobrevivemos, em parte, pela confiança que as pessoas têm em nossa sinceridade. E isso não mudou.

— Acho isso razoável — ele disse. — E estou ansioso para começar.

— Surpreende-me que nunca tenha solicitado à Bene Gesserit que lhe enviasse uma professora. Elas teriam pulado de satisfação ante a oportunidade de colocá-lo em débito para com elas.

— Minha mãe nunca me escutou quando eu insistia para que fizesse isso

— ele disse. — Mas agora... — Encolheu os ombros num eloquente comentário sobre o banimento de Wensicia.

— Devemos começar?

— Seria melhor ter começado isso quando era bem mais jovem. Vai ser mais duro para você agora — explicou Jessica. — Vai tomar-lhe muito mais tempo.

Terá de começar aprendendo a ter paciência, extrema paciência. Rezo para que não ache o preço demasiado elevado.

— Não com a recompensa que oferece.

Ela ouviu a sinceridade, a pressão das expectativas e o toque de admiração em sua voz. Isso proporcionava as condições para o início. E ela disse:

— A arte da paciência, então... começando com alguns exercícios elementares prana-bindu para as pernas e os braços, para a respiração. Deixaremos as mãos e os dedos para depois. Está pronto?

Sentou-se num banco diante dele.

Faradin assentiu com a cabeça, mantendo no rosto uma expressão de expectativa para esconder um súbito medo. Tvekanik o advertira de que poderia haver um truque na súbita oferta de Lady Jessica, alguma coisa arranjada pela Irmandade.

— Não se pode acreditar que ela as abandonou de novo, ou que elas a abandonaram.

Faradin interrompera essa argumentação com uma súbita explosão de raiva pela qual se lamentara imediatamente. Sua reação emocional o fizera concordar mais rapidamente com as precauções de Tvekanik. Olhou para os cantos da sala, e para o brilho sutil das jems no teto. Toda aquela cintilação não provinha de verdadeiras jems, e tudo na sala seria gravado para que boas mentes pudessem rever cada nuança, cada palavra, cada movimento.

Jessica sorriu, notando-lhe a direção do olhar, mas sem revelar que sabia para onde a atenção dele se desviara. Ela disse:

— Para aprender paciência do Modo Bene Gesserit, você deve começar por reconhecer a estabilidade crua e essencial de nosso universo. Nós chamamos de natureza significando sua totalidade em todas as suas manifestações o Derradeiro Não Absoluto. Para libertar sua visão e permitir que reconheça esse caráter mutável, condicional à natureza, você esticará os braços ao máximo, mantendo as mãos diante de si. Olhe para suas mãos estendidas, primeiro as palmas, depois o dorso. Examine os dedos, a parte da frente e a de trás. Faça isso.

Faradin obedeceu, mas se sentiu tolo. Essas eram suas próprias mãos, ele as conhecia.

— Imagine suas mãos envelhecendo — disse Jessica. — Elas devem se tornar muito velhas diante de seus olhos. Muito, muito velhas. Repare como a pele está seca...

— Minhas mãos não mudaram — ele disse. Já podia sentir os músculos do antebraço tremendo.

— Continue a olhar para suas mãos. Faça-as velhas, tão velhas quanto puder imaginar. Pode levar tempo. Mas quando as vir envelhecer, reverta o processo. Faça suas mãos ficarem jovens novamente tão jovens quanto puder torná-las. Esforce-se por levá-las da infância até a idade avançada, à sua vontade, para trás e para frente, para trás e para frente.

— Elas não mudam! — protestou ele. Seus ombros doíam.

— Se você exigir isso de seus sentidos, então suas mãos irão mudar — ela disse. — Concentre-se em visualizar o fluxo de tempo que deseja: da infância à velhice, da velhice à infância. Pode levar horas, dias, meses. Mas pode ser conseguido. Reverter esse fluxo mutável vai ensiná-lo a ver cada sistema como algo girando em estabilidade relativa... apenas relativa.

— Pensei que estivesse aprendendo paciência. — Ela ouviu a raiva na voz dele, uma ponta de frustração.

— E estabilidade relativa — respondeu ela. — Essa é a perspectiva que você cria com suas próprias crenças, e as crenças podem ser manipuladas pela imaginação. Você aprendeu apenas um modo limitado de olhar para o universo.

Agora, deve fazer do universo sua própria criação. Isso lhe permitirá dominar qualquer estabilidade relativa para seu próprio uso, para quaisquer usos que for capaz de imaginar.

— Quanto tempo disse que leva?

— Paciência — ela relembrou-lhe.

Um sorriso espontâneo tocou-lhe os lábios. Seus olhos desviaram-se em direção a ela.

— Olhe para suas mãos! — ela gritou.

O sorriso desapareceu. Seu olhar voltou à concentrada fixação sobre as mãos estendidas.

— Que é que eu faço quando meus braços se cansarem?

— Pare de falar e se concentre — disse ela. — Se ficar muito cansado, pare. Volte a fazê-lo após alguns minutos de relaxamento e exercício. Deve persistir nisso até ter sucesso. Em seu atual estágio, isso é mais importante do que possa perceber. Aprenda essa lição ou as outras não virão.

Faradin respirou profundamente, mordeu o lábio e tornou a fitar as mãos estendidas. Voltou-as lentamente: frente, dorso, frente, dorso... seus ombros tremiam de fadiga. Frente, dorso... Nada mudava.

Jessica levantou-se e atravessou a sala em direção à porta.

Ele falou sem tirar a atenção das mãos:

— Para onde está indo?

— Você exercitará isso melhor se ficar sozinho. Voltarei em uma hora.

Paciência.

— Eu sei!

Ela o observou por um momento. Como ele parecia concentrado. De repente, lembrava-lhe o próprio filho perdido, e ela se permitiu um suspiro.

— Quando voltar, vou ensinar-lhe exercícios para aliviar os músculos. Dê tempo ao tempo. Ficará surpreso com o que pode levar seu corpo e seus sentidos a fazerem.

Ela saiu.

Os onipresentes guardas tomaram posição três passos atrás dela, seguindo-a enquanto caminhava ao longo do corredor. A admiração e o temor que sentiam eram óbvios. Eles eram Sardaukar, bem advertidos quanto à destreza de Jessica, criados ouvindo histórias a respeito de sua derrota pelos Fremen de Arrakis. Essa bruxa era uma Reverenda Madre Fremen, uma Bene Gesserit e uma Atreides.

Olhando para trás, Jessica viu suas faces ríspidas como marcos em seus planos. Tornou a olhar para a frente, desceu as escadas e atravessou uma passagem estreita para entrar no jardim sob suas janelas.

“Agora, se apenas Duncan e Gurney fizerem suas partes”, pensou, enquanto sentia a trilha de cascalho sob os pés, vendo a luz dourada a se filtrar através das plantas.

Você aprenderá os métodos de comunicação integrada enquanto completa o próximo passo em sua educação mental. Essa é uma função gestáltica que sobreporá trilhas de dados em sua consciência, resolvendo complexidades e massas de dados a partir de técnicas de indexação-catalogação mentat que já terá dominado. Seu problema inicial ,Terá a quebra das tensões que surgem da montagem divergente de dados/ minúcias cobre assuntos. Fique alerta.

Sem a integração sobreposta mentat, você pode ficar mergulhado no Problema de Babel, que é o rótulo que damos aos perigos onipresente, de se chegar a combinações erróneas a partir de uma informação precisa.

- Manual do Mentat

O som de tecidos roçando lançou centelhas de consciência através de Leto.

Ele ficou surpreso por ter afinado sua sensibilidade ao ponto de identificar automaticamente os tecidos a partir de seu som: a combinação ouvida provinha de um manto Fremen roçando nas cortinas rústicas de uma porta. Voltou-se em direção ao som. Ele vinha da passagem por onde Namri se fora, minutos atrás. Ao se virar, Leto viu entrar seu captor. Era o mesmo homem que o havia aprisionado: a mesma faixa de pele escura acima da máscara do traje-destilador, os olhos cauterizantes. O homem ergueu a mão para a máscara, tirando das narinas o tubo captador, abaixando a máscara e, num movimento idêntico, colocando o capuz de volta no lugar.

Antes mesmo que seus olhos focalizassem a cicatriz do chicote inkvine ao longo do queixo, Leto o reconheceu. O reconhecimento era total em sua consciência, com a busca dos detalhes confirmadores vindo depois. Não havia engano a esse respeito: essa massa informe de humanidade, esse guerreiro-trovador era Gurney Halleck!

Leto comprimiu as mãos, dominado momentaneamente pelo choque do reconhecimento. Nenhum partidário dos Atreides fora mais leal. Ninguém era melhor que ele na luta com escudos. Este fora o mestre confidente de Paul.

E era o criado de Lady Jessica.

Esse reconhecimento, e mais ainda, fluiu pela mente de Leto. Gurney era seu captor. Gurney e Namri estavam juntos nessa conspiração. E a mão de Jessica também agira ali.

— Percebo que esteve com nosso Namri — disse Halleck. — Acredite nele, jovem senhor, ele tem uma função e somente uma. Ê capaz de matá-lo se surgir a necessidade.

Leto respondeu automaticamente no tom de voz de seu pai.

— Então você se uniu a meus inimigos, Gurney! Nunca pensei que o...

— Não tente nenhum de seus truques diabólicos comigo, garoto — disse Halleck. — Estou protegido de todos eles. Sigo as ordens de sua avó. Sua educação foi planejada até o último detalhe. Foi ela que aprovou minha escolha de Namri. O

que vem a seguir, doloroso como possa parecer, é feito por ordem dela.

— E o que ela ordena?

Halleck tirou uma das mãos de entre as dobras de seu manto, exibindo um injetor Fremen, primitivo, mas eficiente. Seu tubo transparente estava carregado de um fluido azul.

Leto recuou sobre o leito, até ser detido pela parede. Enquanto ele se movia, Namri entrou, ficando ao lado de Halleck, com a mão sobre a faca cristalina. Juntos, eles bloqueavam a única saída.

— Vejo que reconheceu a essência de especiaria — disse Halleck. — Você vai fazer a viagem do verme, garoto. Deve passar por ela. De outro modo, o que seu pai se atreveu a fazer e você não se atreve irá pairar sobre a sua mente pelo resto de seus dias.

Leto sacudiu a cabeça sem dizer palavra. Essa era a coisa que ele e Ghanima sabiam que poderia dominá-los. Gurney era um tolo ignorante! Como Jessica podia... Leto sentiu a presença paterna em suas memórias. Aquilo entrou em sua mente, tentando arrancar-lhe as defesas. Leto queria gritar indignado, mas não conseguia mover os lábios.

Essa era a coisa que sua consciência pré-nascida mais temia: o transe da presciência, a percepção do futuro imutável, com toda a sua invariabilidade e os seus terrores. Certamente, Jessica não podia ter ordenado tal provação para seu neto. Mas a presença dela assomava em sua mente, enchendo-a de argumentos aceitáveis. Até mesmo a litania contra o medo era pressionada sobre sua mente numa ladainha repetitiva: “Não devo temer. O medo é o assassino da mente. O

medo é a pequena morte que traz o esquecimento total. Enfrentarei meu medo.

Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. E quando ele houver passado...”

Com uma praga que já era antiga quando a Caldéia era jovem, Leto tentou se mover, tentou saltar sobre os dois homens diante de si, mas os músculos recusaram-se a obedecer. Como se já estivesse em transe, viu a mão de Halleck se mover e o injetor se aproximar. A luz do globo luminoso cintilou no fluido azul e o injetor tocou o braço esquerdo de Leto. A dor se propagou através dele, disparando para os músculos da cabeça.

De repente, ele viu uma mulher jovem agachada do lado de fora de uma tenda tosca, à luz da aurora. Abaixada diante dele, ela assava grãos de café até ficarem marrons, adicionando-lhes melange e cardomom. O som de uma rabeca ecoava em algum lugar atrás dele. Uma música que ecoava e ecoava, entrando em sua cabeça e ainda ecoando. Aquilo preencheu todo o seu corpo e ele se sentiu grande, muito grande, e não mais uma criança. E sua pele não era mais a sua.