Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 6 de 8 · parte 2/3

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Os Filhos de Duna

Conhecia essa sensação! A pele que não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Horas? — Faradin parecia intrigado. Um dos guardas disse:

— É a terceira hora após a meia-noite, Minha Senhora.

E o guarda olhou temeroso para Faradin. O jovem príncipe viera correndo através dos corredores iluminados para a noite, arrastando guardas espantados em seu rastro.

— Mas ele se move — disse Faradin. Estendeu a mão esquerda e depois a direita. — Vi minhas próprias mãos se encolherem até se tornarem pequenos punhos rechonchudos, e então me lembrei! Eram minhas mãos quando eu era um bebê. E me lembrei de como era ser um bebê, e era uma memória... mais clara. Eu estava reorganizando velhas lembranças.

— Muito bom — disse Jessica. A excitação dele era contagiante. — E o que aconteceu quando suas mãos se tornaram velhas?

— Minha mente era lerda — ele disse. — Eu sentia uma dor nas costas.

Bem aqui.

E tocou num lugar sobre o rim esquerdo.

— Você aprendeu uma lição muito importante — disse Jessica. — Sabe que lição é essa?

Ele abaixou as mãos e olhou para ela. Então disse:

— Minha mente controla minha realidade. — Seus olhos cintilaram e ele repetiu, mais alto dessa vez: — Minha mente controla minha realidade!

— Isso é o começo do equilíbrio prana-bindu — explicou Jessica. — Mas somente o princípio.

— O que eu faço em seguida? — perguntou ele.

— Minha Senhora — o guarda que havia respondido à pergunta sobre as horas agora se aventurava a interromper. — A hora ele disse.

“Será que seus postos de espionagem não são guarnecidos a esta hora?”, pensou Jessica, e disse:

— Vá embora. Temos trabalho a fazer.

— Mas Minha Senhora — insistiu o guarda, olhando temeroso de Faradin para Jessica e novamente para Faradin.

— Acha que vou seduzi-lo? — perguntou ela. O homem ficou rijo.

Faradin riu, uma alegre liberação de tensões. Acenou com a mão, dispensando os homens.

— Vocês a ouviram. Vão embora.

Os guardas se entreolharam, mas obedeceram. Faradin sentou-se à beira da cama.

— O que vem em seguida? — Sacudiu a cabeça. — Eu queria acreditar na senhora, mas não acreditava. Então... Foi como se minha mente se derretesse. Eu estava cansado. Minha mente abandonou a luta contra a senhora e aquilo aconteceu. Só isso! — Ele estalou os dedos.

— Não era contra mim que sua mente lutava — disse Jessica.

— É claro que não — ele admitiu. — Eu estava lutando contra mim mesmo, com todas as tolices que aprendi. O que vem em seguida?

Jessica sorriu.

— Confesso que não esperava que obtivesse sucesso tão rapidamente. Faz apenas oito dias desde que...

— Eu fui paciente — disse ele, sorrindo.

— E também começou a aprender paciência.

— Comecei?

— Você acaba de se arrastar sobre a borda desse aprendizado. Agora, é verdadeiramente um bebê. Antes... era somente um potencial, nem sequer nascido.

Os cantos da boca de Faradin curvaram-se para baixo.

— Não fique tão desanimado, você conseguiu. Isso é que é importante.

Quantos podem dizer que nasceram de novo?

— E o que vem em seguida? — ele insistiu.

— Você deverá praticar o que aprendeu. Quero que seja capaz de fazer isso à vontade, facilmente. Mais tarde, encontrará em sua consciência um novo lugar, que isso abriu. Ele será preenchido por sua habilidade de testar qualquer realidade contra suas próprias exigências.

— É tudo que farei agora... praticar o...

— Não. Agora pode começar o treinamento muscular. Diga-me, pode mover o dedo mindinho do pé esquerdo sem mover qualquer outro músculo do corpo?

— Meu... — Ela percebeu uma expressão reservada surgir em seu rosto enquanto ele tentava mover o dedo. Ele olhou para o pé daí a pouco, fitando-o enquanto o suor surgia em sua testa. Um suspiro profundo escapou-lhe. — Não posso fazer isso.

— Sim, pode... Vai aprender a fazê-lo. Aprenderá sobre cada músculo de seu corpo. Conhecerá esses músculos do modo como conhece suas mãos.

Ele engoliu em seco ante a magnitude dessa perspectiva. Depois disse:

— O que está fazendo comigo? Quais são seus planos para mim?

— Pretendo soltá-lo no universo — respondeu ela. — E você se tornará o que quer que mais profundamente deseje.

Ele meditou por um momento.

— Qualquer coisa que eu deseje?

— Sim.

— Isso é impossível!

— A menos que aprenda a controlar seus desejos da maneira como controla sua realidade — respondeu ela enquanto pensava: “Aí está! Deixe que seus analistas examinem isso. Eles aconselharão a uma aprovação cautelosa, mas Faradin se colocará um passo mais próximo de perceber o que estou fazendo realmente.”

Ele provou suas conjecturas ao dizer:

— Uma coisa é dizer a uma pessoa que ela realizará aquilo que seu coração desejar. Outra coisa propiciar essa realização.

— Você já chegou mais longe do que pensei — disse Jessica. — Muito bem. Prometo-lhe uma coisa: se completar este programa de aprendizado, terá o controle sobre si mesmo. O que quer que faça será porque realmente o deseja.

“E deixe que uma Reveladora da Verdade tente analisar isso”, pensou ela.

Ele se levantou, mas sua expressão era calorosa, um sentimento de camaradagem.

— Sabe, acredito na senhora. Maldito seja se sei por quê, mas acredito. E

não vou dizer uma palavra a respeito das outras coisas que estou pensando.

Jessica o observou ir embora, vendo-o sair de seu quarto. Depois, desligou os globos luminosos e se deitou. Esse Faradin era astuto. Quase lhe contara que estava começando a ver seus planos, mas se unia à conspiração pela própria vontade.

“Espere até que ele comece a dominar as próprias emoções”, pensou ela.

Com isso, se ajeitou para voltar a dormir. O dia seguinte, sabia, seria cheio de encontros casuais com gente do palácio fazendo perguntas aparentemente inócuas.

A humanidade vive periodicamente uma aceleração dos acontecimentos, experimentando portanto uma corrida entre a renovável vitalidade da vida e a atraente adulteração da decadência.

Nessa corrida periódica, qualquer pausa se torna um luxo.

Somente então se pode refletir que tudo é permitido, tudo é possível.

- Os Apócrifos do Muad'Dib

“O toque da areia é importante”, pensou Leto.

Podia sentir a aspereza abaixo de si, no lugar onde se sentava sob um céu brilhante. Eles o haviam forçado a ingerir outra forte dose de melange, e a mente de Leto se voltava sobre si mesma como um redemoinho. Uma pergunta ainda não respondida encontrava-se bem no fundo desse redemoinho: “Por que eles insistem em que eu diga isso?” Gurney era teimoso, não havia dúvida quanto a isso. E ele seguia as ordens de Lady Jessica.

Eles o haviam trazido para a luz do dia, fora do sietch, para essa “lição”.

Tinha a estranha sensação de ter deixado o corpo fazer o curto passeio, do sietch até esse lugar, enquanto seu ser interior mediava uma batalha entre o Duque Leto 1 e o velho Barão Harkonnen. Eles haviam lutado dentro dele e através dele, pois ele próprio não permitiria que se comunicassem diretamente. A luta lhe ensinara o que acontecera com Alia.

Pobre Alia.

“Eu tinha razão em temer a viagem da especiaria”, pensou.

Uma crescente amargura com relação a Lady Jessica preenchia-lhe o ser.

Ela e seu maldito gom jabbar! Lute e vença, ou morra tentando. Ela não podia colocar uma agulha envenenada de encontro ao seu pescoço, mas podia mandá-lo para o vale do perigo que consumira sua própria filha.

Sons abafados penetraram em sua consciência. Eles ondularam, tornando-se cada vez mais altos, depois suaves, depois altos... suaves. Não havia meio de determinar se eram reais ou se provinham da especiaria.

O corpo de Leto vergou-se sobre seus braços cruzados. Sentia a areia quente através de suas nádegas. Havia um tapete diretamente à sua frente, mas Leto sentava-se sobre a areia. Uma sombra aparecia do outro lado do tapete: Namri.

Leto olhou para a textura nodosa do tapete, sentindo bolhas brotarem sobre ele.

Sua consciência deslizou, contudo, em sua própria correnteza, através de uma paisagem que se estendia até o horizonte coberto de verde.

Seu crânio pulsava com tambores. Sentia calor, febre. A febre era a pressão de alguma coisa queimando que preenchia seus sentidos, agrupando a consciência carnal até que ele só podia sentir as sombras móveis de seus perigos. Namri e a faca. Pressão... pressão... Leto encontrou-se suspenso, afinal, entre o céu e a areia, sua mente inconsciente a tudo, menos à febre. Agora, aguardava que alguma coisa acontecesse, sentindo que qualquer ocorrência seria a primeira e a única coisa.

A luz do sol quente estourava brilhante em torno dele, sem tranquilidade, sem remédio. “Onde está o meu Caminho Dourado?” Por toda parte, insetos rastejavam. Por toda parte. “Minha pele não é minha pele.” Enviou mensagens ao longo de seus nervos, aguardando as respostas lentas e estranhas à sua pessoa.

“Para cima”, disse ele a seus nervos.

Uma cabeça que poderia ter sido a sua ergueu-se lentamente, olhando para as extensões de brancura numa noite brilhante.

Alguém sussurrou:

— Agora ele está em transe bem profundo.

Nenhuma resposta.

O fogo do sol queimando, acumulando calor.

Lentamente, curvando-se para fora, a corrente de sua consciência o levou flutuando através da última tela de vazio verde, e lá, além das dunas que se curvavam suavemente, a não mais que alguns quilômetros da linha branca de um penhasco, lá estava o futuro verde germinando, crescendo, fluindo num verde interminável, propagando-se, verde, verde, expandindo-se interminavelmente.

Em todo aquele verde não restava um só grande verme.

Riquezas crescendo, luxuriantes, mas em parte alguma o Shai-Hulud.

Leto sentia que se aventurara através de velhas fronteiras até uma nova terra que somente a imaginação havia testemunhado, e agora olhava diretamente, através do véu seguinte, que uma humanidade bocejante chamara Desconhecido.

Era uma realidade sangrenta.

Sentia a fruta vermelha de sua vida oscilando num ramo, seu suco escapando-lhe, e o suco era a essência da especiaria fluindo através de suas veias.

Sem o Shai-Hulud não haveria mais especiaria.

Ele vira um futuro sem o verme-serpente de Duna, grande e cinzento.

Sabia disso, e no entanto não podia fugir ao transe para escapar a tal passagem.

De repente, sua consciência mergulhou de volta de volta, para longe desse futuro mortífero. Os pensamentos mergulharam em suas entranhas, tornando-se primitivos, movidos apenas por emoções intensas. Percebeu-se incapaz de focalizar qualquer aspecto particular de sua visão ou do ambiente à sua volta, mas havia uma voz dentro dele. Falava num idioma muito antigo, mas ele o entendia perfeitamente. A voz era musical e cadenciada, mas suas palavras o ameaçavam.

— Não é o presente que influencia o futuro, seu tolo, mas sim o futuro que forma o presente. Você percebeu tudo ao contrário. Uma vez que o futuro está

estabelecido, um desdobramento de eventos vai assegurar que ele seja fixo e inevitável.

Essas palavras o transpassaram. Sentiu o terror enraizar-se na matéria pesada de seu corpo. Com isso, sabia que seu corpo ainda existia, mas a natureza incontrolada e o enorme poder de sua visão faziam-no sentir-se contaminado, indefeso, incapaz de sinalizar a um músculo e obter-lhe a obediência. Sabia estar se submetendo mais e mais ao assalto daquelas vidas coletivas, cujas memórias certa vez o haviam levado a se acreditar real. O medo tomava conta dele. Pensou que poderia estar perdendo seu controle interior, tornando-se, afinal, uma Abominação.

Leto sentiu o corpo contorcer-se de horror.

Tornara-se dependente dessa vitória e da cooperação benevolente dessas memórias, recentemente conquistada. Elas se haviam voltado contra ele agora, todas elas até mesmo o nobre Harum, em quem confiara. Estava tremulando numa superfície sem raizes, incapaz de conferir qualquer expressão à sua própria vida.

Tentou concentrar-se numa imagem mental de si mesmo e foi confrontado por uma superposição de quadros, cada um numa idade: desde um bebê até um trêmulo ancião. Lembrou-se do treinamento inicial de seu pai: deixe suas mãos se tornarem jovens, e então velhas.

Mas todo o seu corpo mergulhava agora nessa realidade perdida, e toda a progressão de imagens se fundiu a outros rostos, as feições daqueles que lhe haviam dado suas memórias.

Um relâmpago de diamantes o atingiu.

Leto sentiu fragmentos de sua consciência se separando, e no entanto retinha um senso de si mesmo em algum lugar entre o ser e o não-ser. A esperança se acelerou, sentiu o corpo respirar. Para dentro... para fora.

Respirou fundo: yin. Deixou o ar escapar: yang.

Em algum lugar, pouco além de seu alcance, se achava o local da suprema independência, da vitória sobre toda a confusão inerente à sua multidão de vidas não um falso sentido de comando, mas uma verdadeira vitória.

Agora sabia qual fora o seu erro: buscara o poder na realidade de seu transe, preferindo isso a enfrentar os temores que ele e Ghanima haviam alimentado um ao outro.

“O medo derrotou Alia.”

Mas a busca do poder reservava outra armadilha, afastando-o no rumo da fantasia. Percebeu a ilusão. Todo o processo de ilusão deu meia-volta e agora ele percebia o centro do qual poderia observar, sem propósito, a passagem de suas visões, de suas vidas interiores.

A alegria o inundou. Fazia com que tivesse vontade de rir, mas ele negou a si mesmo esse luxo, sabendo que isso fecharia as portas da memória.

“Ahh, minhas memórias”, ele pensou. “Percebi sua ilusão. Vocês não me criam mais o momento seguinte. Apenas me mostram como criar novos momentos. Não vou me prender aos velhos rumos.

Os pensamentos passaram através de sua consciência como se fossem um pano deixando limpa uma superfície, e no seu rastro ele sentiu seu corpo inteiro,

um einfalle que relatou os mais diminutos detalhes de cada célula, de cada nervo.

Entrou num estado de calma intensa. Nessa quietude, ouviu vozes, sabendo que vinham de grande distância, embora as ouvisse claramente, como se ecoassem num abismo.

Uma das vozes era a de Halleck:

— Talvez tenhamos dado uma dose muito forte.

Namri respondeu:

— Demos exatamente o que ela nos disse para lhe dar.

— Talvez devêssemos voltar lá fora e dar outra olhada nele — sugeriu Halleck.

— Sabiha é boa nessas coisas. Ela nos chamará se acontecer alguma coisa errada, — disse Namri.

— Não gosto desse negócio de Sabiha — disse Halleck.

— Ela é um ingrediente necessário — replicou Namri.

Leto sentia uma luz brilhante fora de si mesmo, e uma escuridão interior, mas a escuridão era reservada, protetora e morna. A luz começou a queimar, subindo, e ele sentiu que ela vinha da escuridão interior, rodopiando para fora como uma nuvem brilhante. Seu corpo tornou-se transparente, arrastando-o para o alto, e no entanto ele retinha aquele contato einfalle com cada célula e cada nervo.

A multidão de vidas interiores caía num alinhamento, nada confuso nem misturado.

Elas se tornaram muito quietas, duplicando seu próprio silêncio interior, cada vida-memória distinta, uma entidade incorpórea e indivisível.

Leto lhes disse então:

— Eu sou seu espírito. Sou a única vida que podem perceber. Sou uma casa para seus espíritos na terra que não é parte alguma, a terra que é seu único lar remanescente. Sem mim, o universo inteligível reverte ao caos. O criativo e o abismal encontram-se inexoravelmente ligados em mim: só eu posso intermediar entre eles. Sem mim, a humanidade mergulharia na lama e na vaidade do conhecer.

Através de mim, vocês e eles encontrarão a única saída do caos: “o entendimento através da vida”.

Com isso, libertou-se e se tornou ele mesmo, sua própria pessoa compreendendo a totalidade de seu passado. Não era vitória nem derrota, mas uma nova coisa a ser compartilhada com qualquer vida interior que escolhesse. Leto saboreou essa novidade, deixando que ela possuísse cada célula, cada nervo, liberando aquilo que o einfalle lhe fornecera e recuperando a totalidade no mesmo instante.

Depois de algum tempo, despertou numa escuridão branca. Num clarão de consciência, sabia onde se encontrava sua carne: estava sentado na areia, a aproximadamente um quilômetro do penhasco que marcava a extremidade norte do sietch. Agora conhecia aquele sietch: Jacurutu, com certeza... e Fondak. Mas era muito diferente dos mitos e lendas, bem como dos rumores que os contrabandistas permitiam escapar.

Uma jovem estava sentada num tapete diretamente em frente a ele, com um brilhante globo luminoso preso à manga esquerda, flutuando bem acima de sua

cabeça. Quando Leto olhava para longe do globo luminoso, havia estrelas.

Conhecia essa moça: estivera em uma de suas visões anteriores, a que torrava café.

Era a sobrinha de Namri, tão hábil com a faca como o tio. Lá estava a faca no colo dela. Ela usava um manto verde simples sobre um traje-destilador cinzento. Sabiha era o seu nome. E Namri tinha seus próprios planos para ela.

Sabiha notou o despertar em seus olhos e disse:

— Está quase amanhecendo. Você passou a noite inteira aqui.

— E a maior parte do dia — ele disse. — Você faz um bom café.

Essa declaração a intrigou, mas foi ignorada com uma determinação que indicava que um duro treinamento e instruções explícitas controlavam seu presente comportamento.

— É a hora dos assassinos — disse Leto. — Mas sua faca não é mais necessária.

Olhou para a faca cristalina no colo dela.

— Namri decidirá isso — ela disse.

“Não é o Halleck, então.” Ela apenas confirmava seu conhecimento interior.

— O Shai-Hulud é um grande coletor de lixo e ótimo quando se trata de apagar evidências indesejáveis — disse Leto. — Eu mesmo o usei.

Ela colocou a mão levemente sobre o punho da faca.

— Quanta coisa é revelada pelo lugar onde nos sentamos e pelo modo como fazemos — ele comentou. — Você se senta sobre um tapete, e eu, sobre a areia.

A mão dela se fechou sobre o cabo da faca. Leto bocejou, abrindo a boca e esticando-a tanto que os maxilares doeram.

— Tive uma visão que a incluía.

Os ombros dela relaxaram-se levemente.

— Temos sido muito parciais com relação a Arrakis — disse ele. — É

bárbaro de nossa parte. Há um certo momentum no que estivemos fazendo, mas agora devemos desfazer parte de nosso trabalho. As balanças devem ser colocadas num equilíbrio melhor.

Uma expressão intrigada tocou o rosto de Sabiha.

— Minha visão — continuou ele. — A menos que restauremos a dança da vida aqui em Duna, o dragão do leito do deserto não existirá mais.

Como ele usara o velho nome Fremen para o grande verme, ela o entendeu por um momento. Então disse:

— Os vermes?

— Estamos num caminho sombrio. Sem especiaria, o Império vai desmoronar. A Corporação ficará parada. Os planetas perderão lentamente as memórias claras um do outro. Eles se voltarão sobre si mesmos. O espaço se tornará uma fronteira quando os Navegadores da Corporação perderem seu domínio. Nós nos agarraremos aos topos de nossas dunas e ficaremos ignorantes do que está acima e abaixo de nós.

— Você fala de modo muito estranho — disse ela. — Como foi que me viu em sua visão?

“Confie na superstição dos Fremen”, pensou ele, e disse:

— Eu me tornei pasigráfico. Sou um hieróglifo vivo destinado a registrar as mudanças que devem acontecer. Se eu não registrá-las, você encontrará tamanha mágoa que nenhum ser humano deveria experimentá-la.

— Que palavras são essas? — indagou ela. Mas sua mão permanecia levemente apoiada na faca.

Leto voltou sua cabeça em direção aos penhascos de Jacurutu, vendo o brilho inicial da Segunda Lua, fazendo sua passagem pré-alvorecer por trás das rochas. O grito de morte de uma lebre do deserto o chocou. Viu Sabiha estremecer.

Lá vinha o bater de asas um pássaro predador, criatura noturna do local. Viu o brilho de brasa de muitos olhos enquanto passavam acima dele, dirigindo-se para as fendas no penhasco.

— Devo seguir as instruções de meu novo coração — disse Leto. — Você me vê como apenas uma criança, Sabiha, mas...

— Eles me avisaram a seu respeito — respondeu Sabiha, e agora seus ombros estavam rígidos em alerta.

Ele percebeu o medo na voz dela e disse:

— Não tenha medo de mim, Sabiha. Você viveu oito anos a mais do que esta minha carne. Por isso eu a respeito. Mas eu tenho incontáveis milhares de anos a mais, de outras vidas, muitas mais do que conhece. Não me veja como uma criança. Atravessei muitos futuros e num deles nos vi enlaçados no amor. Você e eu, Sabiha.

— O que é... isso não pode... — Ela se interrompeu, confusa.

— Você poderá se acostumar à idéia — ele disse. — Agora, ajude-me a voltar para o sietch, pois estive em muitos lugares distantes e estou cansado de minhas viagens. Namri deve ouvir sobre onde eu estive. — Percebeu a indecisão dela e disse: — Não sou o Hóspede da Caverna? Namri deve saber sobre o que aprendi. Temos muito a fazer para que nosso universo não se degenere.

— Não acredito naquilo a respeito dos vermes — disse ela.

— Nem a respeito de nós, unidos no amor?

Ela sacudiu a cabeça. Mas ele podia ver os pensamentos flutuando na mente da moça como penas sopradas pelo vento. Suas palavras a haviam atraído e ao mesmo tempo repelido. Ser consorte do poder, isso certamente exercia grande fascínio. E no entanto lá estavam as ordens de seu tio. Mas um dia esse filho do Muad'Dib poderia governar Duna e as mais distantes vastidões desse universo. Ela experimentou, então, uma aversão extremamente Fremen a tal futuro. A consorte de Leto seria vista por todos, seria objeto de mexericos e especulações. Teria riqueza, entretanto, e...

— Sou o filho do Muad'Dib, capaz de ver o futuro — ele disse. Lentamente, ela recolocou a faca em sua bainha e se levantou com facilidade do tapete, colocando-se ao lado dele e o ajudando a se levantar. Leto achou divertidas as suas ações seguintes: ela dobrou o tapete cuidadosamente e o colocou sobre o

ombro direito. Notou que avaliava seus tamanhos diferentes, refletindo sobre suas palavras:

“Enlaçados no amor?”

“O tamanho é outra coisa que muda”, pensou ele.

Ela colocou a mão sobre seu braço para ajudá-lo e controlá-lo. Leto tropeçou e ela falou severamente.

— Estamos muito longe do sietch para isso. — Queria dizer que o som indesejado poderia atrair um verme.

Leto sentia que seu corpo se tornara uma casca oca como aquelas abandonadas pelos insetos. Conhecia essa casca: estava ligada à sociedade que fora erguida sobre o comércio da melange e sua Religião do Elixir Dourado. Fora esvaziada por seus excessos. Os objetivos elevados do Muad'Dib haviam desabado numa prestidigitação sustentada pelo poder militar do Auqaf. E a religião do Muad'Dib tinha outro nome agora, era Shien-san-Shao, rótulo ixiano que designava a violência e a loucura daqueles que pensavam poder transformar o universo num paraíso pela ponta de uma faca cristalina. Mas isso também mudaria, como Ix tinha mudado. Pois ele era apenas o nono planeta a partir de seu sol, e seus habitantes tinham até mesmo esquecido a linguagem que lhe dera nome.

— O Jihad foi um tipo de loucura de massa — ele murmurou.

— O quê?

Sabiha estivera concentrada no problema de fazê-los caminhar sem ritmo, ocultando sua presença na areia. Focalizou por um momento a atenção em suas palavras, para interpretá-las como outro produto de seu óbvio cansaço. Sentia a fadiga nele, o modo como fora esgotado pelo transe.

Parecia sem sentido e cruel para ela. Se ele devia ser morto, como Namri dizia, então que isso fosse feito rapidamente, sem todo esse jogo.

Entretanto, Leto falara de uma maravilhosa revelação. Talvez fosse isso que Namri buscava.

Certamente, esse devia ser o motivo por trás do comportamento da própria avó da criança. Por que outra razão Nossa Senhora de Duna daria sua aprovação a esses atos perigosos contra uma criança?

“Criança?”

Novamente ela refletiu sobre as palavras dele. Agora se encontravam na base do penhasco e ela parou, deixando que ele relaxasse por um momento ali, onde era mais seguro. Olhando para ele, à fraca luz das estrelas, perguntou:

— Como não poderia haver mais vermes?

— Somente eu posso mudar isso — respondeu ele. — Não tema. Posso mudar tudo. Algumas perguntas não têm respostas — ele disse. — Eu vi esse futuro, mas as contradições somente a confundiriam. Este é um universo mutável e nós somos a mais estranha de todas as mudanças. Entramos em ressonância com muitas coisas. Nossos futuros exigem uma constante atualização. Agora, existe uma barreira que precisamos remover. Isso exige que façamos coisas brutais, que nos voltemos contra nossos desejos mais básicos, mais acalentados... Mas deve ser feito.

— O que deve ser feito?

— Alguma vez matou um amigo? — indagou ele e, voltando-se, liderou a caminhada pela fenda, que subia até a entrada oculta do sietch. Andava tão rapidamente quanto a fadiga do transe lhe permitia, mas ela continuava bem atrás dele, agarrando seu manto e forçando-o a parar.

— Que história é essa de matar um amigo?

— Ele vai morrer de qualquer maneira — respondeu Leto. — Eu não tenho de fazê-lo, mas poderia evitar. E se eu não evitar não é o mesmo que matá-lo?

— Quem é esse... quem vai morrer?

— A alternativa me mantém calado — ele disse. — Posso ser obrigado a entregar minha irmã a um monstro.

Novamente ele se virou, afastando-se dela, e quando ela o puxou pelo manto, ele resistiu, recusando-se a responder suas perguntas. “É melhor que ela não saiba até chegar a ocasião”, pensou ele.

A seleção natural tem sido feita como um peneiramento seletivo de um meio ambiente para separar aqueles que deixarão descendentes. Mas, no que concerne aos seres humanos, esse é um ponto de vista extremamente limitado. A reprodução através do sexo tende à experimentação e à inovação. Isso levanta muitas questões, incluindo-se aquela antiga pergunta quanto a se o ambiente é um agente seletivo depois que a variação ocorre, ou se o ambiente desempenha um papel pré-seletivo ao determinar as variações que são produzidas. Duna realmente não respondeu essas perguntas, apenas suscitou novas questões que Leto e a Irmandade poderão tentar responder nas próximas 500 gerações.

- A Catástrofe de Duna segundo Harq al-Ada

As nuas rochas marrons da Muralha Escudo assomavam na distância, visíveis para Ghanima como uma personificação daquela aparição que lhe ameaçava o futuro. Estava no jardim suspenso, no teto do Castelo, com o sol poente às suas costas. O sol apresentava um profundo brilho alaranjado devido às nuvens de poeira no ar, uma cor tão rica quanto a da franja da boca de um verme.

Ela suspirou, pensando: “Alia... Alia... Será que o seu destino virá a ser o meu?”

As vidas internas se haviam tornado crescentemente barulhentas nos últimos tempos. Havia alguma coisa quanto ao condicionamento feminino numa sociedade Fremen, talvez fosse uma verdadeira diferença sexual, mas, o que quer que fosse, tornava a mulher mais suscetível a essa maré interior. Sua avó a havia advertido a respeito disto, enquanto elas conspiravam, reunindo a sabedoria acumulada das Bene Gesserit s, mas despertando o conhecimento da ameaça dentro de Ghanima.

— A Abominação — dissera Jessica, — nosso termo para designar os pré-nascidos, tem atrás de si uma longa história de experiências amargas. O modo

como ocorre parece indicar que as vidas interiores se dividem. Elas se separam no benigno e no maligno. O benigno permanece tratável, útil. O maligno parece unir-se numa poderosa psique, tentando assumir o controle da carne viva e de sua consciência. Sabe-se que o processo leva um tempo considerável, mas seus indícios são bem conhecidos.

— Por que você abandonou Alia? — perguntou Ghanima.

— Eu fugi apavorada com o que havia criado — confessou Jessica em voz baixa. — Desisti e meu fardo agora é... talvez eu tenha desistido muito cedo.

— Que quer dizer?

— Não posso explicar ainda, mas... talvez... não! Não lhe darei falsas esperanças. Ghafla, a abominável loucura, tem uma longa história na mitologia humana. Era chamada de muitas coisas, mas principalmente de possessão. Isso é o que parece ser. Você perde o seu rumo na malignidade e ela toma posse de você.

— Leto... temia a especiaria — disse Ghanima, descobrindo que podia falar a respeito dele calmamente. O terrível preço exigido deles!

— E sabiamente — disse Jessica. Não diria mais nada.

Mas Ghanima se arriscara a uma explosão de suas memórias interiores, perscrutando através de um véu curiosamente enevoado e expandindo futilmente seus temores de Bene Gesserit. Explicar o que havia acontecido a Alia não facilitava nem um pouco. No entanto, a acumulação de experiências Bene Gesserit apontava para uma possível fuga da armadilha, e quando Ghanima se arriscou a compartilhar informações com as memórias interiores, primeiro invocou o Mohalata, a parceria do lado benigno que poderia protegê-la.

Relembrava aquele encontro sob o brilho do poente, na extremidade do jardim suspenso. Imediatamente, sentiu a presença-memória de sua mãe.

Chani estava lá, uma aparição entre Ghanima e os penhascos distantes.

— Entre aqui e você comerá do fruto de zaqquum, o alimento do inferno!

— dissera Chani. — Feche essa porta, minha filha, é sua única segurança.

O clamor interno elevou-se ao redor da visão e Ghanima fugiu, mergulhando sua consciência no Credo da Irmandade, reação mais de desespero que de confiança. Rapidamente, recitou o Credo, movendo os lábios e deixando a voz se elevar num sussurro:

“A religião é a imitação do adulto pela criança. A religião é um enquistamento de crenças passadas: a mitologia, que é a suposição, os pressupostos ocultos de confiança no universo, os pronunciamentos que os homens fazem em busca de poder pessoal, tudo misturado com fragmentos de esclarecimento. E

sempre aquele derradeiro mandamento não-verbalizado: Não deverás questionar!

“Mas nós questionamos. Nós quebramos esse mandamento por uma questão de lógica. O trabalho ao qual nos dedicamos é o de liberar a imaginação, dirigi-la ao mais profundo senso humano de criatividade.”

Lentamente, um sentimento de ordem retornou aos pensamentos de Ghanima.

Sentia o corpo tremendo, contudo, e sabia como era frágil essa paz que conquistara e aquele véu enevoado permanecia em sua mente.

— Leb amai — sussurrou ela. — Coração de meu inimigo, esse não será meu coração.

E procurou relembrar as feições de Faradin, aquele rosto jovem, melancólico, com as sobrancelhas grossas e a boca firme.

“O ódio me tornará forte”, pensou. “No ódio posso resistir ao destino de Alia.”

Mas a trêmula fragilidade de sua posição permanecia, e tudo que ela conseguia pensar era no quanto Faradin lembrava seu tio, o falecido Shaddam IV.

— Aqui está você!

Era Irulan aproximando-se pela direita de Ghanima, caminhando ao longo do parapeito com movimentos que lembravam os de um homem. Voltando-se, Ghanima pensou: “E ela é a filha de Shaddam.”

— Por que persiste em se esgueirar sozinha? — perguntou Irulan, parando em frente a Ghanima e se erguendo diante dela com o rosto zangado.

Ghanima preferiu não dizer que não estava sozinha, que os guardas a tinham visto sair para o telhado. A raiva de Irulan dirigiu-se ao fato de que ali estavam em campo aberto, onde uma arma distante poderia atingi-las.

— Você não está usando um traje-destilador — reparou Ghanima. —

Sabia que, nos velhos tempos, uma pessoa apanhada fora do sietch sem traje-destilador era automaticamente morta? Desperdiçar água era colocar a tribo em perigo.

— Agua! Água! — retrucou Irulan. — Quero saber por que você se arrisca desse modo. Volte para dentro. Você cria problemas para todos nós.

— Que perigo existe aqui, agora? — perguntou Ghanima. — Stilgar expurgou os traidores. A guarda de Alia está por toda parte.

Irulan olhou para cima, em direção ao céu que escurecia. Estrelas já eram visíveis contra um fundo cinza azulado. Voltou sua atenção para Ghanima.

— Não vou discutir. Fui mandada aqui para lhe dizer que recebemos notícias de Faradin. Ele aceita, mas por alguma razão deseja retardar a cerimônia.

— Porquanto tempo?

— Ainda não sabemos. Está sendo negociado. Mas Duncan vai ser mandado de volta.

— E minha avó?

— Preferiu ficar em Salusa, por enquanto.

— Quem pode culpá-la? — perguntou Ghanima.

— Aquela briga tola com Alia!

— Não tente me enganar, Irulan! Aquilo não foi uma briga tola. Ouvimos as histórias.

— Os temores da Irmandade...

— São reais — disse Ghanima. — Bem, você me passou a mensagem. Vai usar esta oportunidade para tentar outra vez me dissuadir?

— Eu desisti.

— Já devia saber que não pode mentir para mim — disse Ghanima.

— Muito bem! Vou continuar tentando dissuadi-la. Este curso de ação é uma loucura. — E Irulan imaginou por que deixara Ghanima tornar-se tão irritante.

Uma Bene Gesserit não precisa ficar irritada com coisa alguma. Ela disse: — Estou preocupada com o extremo perigo que você corre. Sabe disso, Gham, Gham...

você é a filha de Paul. Como pode...

— Porque sou sua filha — respondeu Ghanima. — A linhagem Atreides se estende até Agamenon, e sabemos o que está em nosso sangue. Nunca se esqueça disso, esposa sem filhos de meu pai. Nós Atreides possuímos uma história sangrenta e ainda não a encerramos.

Desatenta, Irulan perguntou:

— Quem foi Agamenon?

— Como é escassa a sua famosa educação Bene Gesserit. Sempre esqueço que vocês resumem a história. Mas as minhas memórias recuam até... — Ela se interrompeu, preferindo não despertar aquelas sombras de seu frágil sono.

— Do que quer que se lembre, deve saber como é perigoso esse caminho para...

— Eu o matarei — insistiu Ghanima. — Ele me deve uma vida.

— E eu evitarei isso se puder.

— Nós já sabemos disso. Você não terá tal oportunidade. Alia vai mandá-la para o sul, para uma das novas cidades, até que tudo esteja terminado.

Irulan sacudiu a cabeça, desanimada.

— Gham, eu jurei que a guardaria contra qualquer perigo. E farei isso com minha própria vida, se necessário. Se pensa que vou definhar em alguma djedida de tijolos enquanto você...

— Sempre restará o Huanui — disse Ghanima, falando suavemente. —

Temos o alambique da morte como alternativa. Lá, tenho certeza de que você não poderia interferir.

Irulan ficou pálida e levou uma das mãos à boca, esquecendo-se por um momento de todo o seu treinamento. Era uma medida do quanto ela se importava com Ghanima esse quase completo abandono a tudo, exceto o medo animal. Falou com uma emoção esmagadora, permitindo que seus lábios tremessem.

— Gham, não temo por mim mesma. Eu me jogaria na boca de um verme por você. Sim, eu sou aquilo que você me chama, a esposa sem filhos de seu pai, mas você é a criança que eu nunca tive. Eu lhe suplico... — Lágrimas brilharam nos cantos de seus olhos.

Ghanima lutou contra um aperto na garganta e disse:

— Existe outra diferença entre nós. Você nunca foi Fremen, eu não sou nada mais que isso. Esse é o abismo que nos separa. Alia sabe. O que mais ela possa ser, ela sabe disso.

— Você não pode dizer o que Alia sabe — disse Irulan amargamente. —

Se eu não a conhecesse como Atreides, juraria que ela está determinada a destruir a própria família.

“E como você sabe que ela ainda é Atreides?”, pensou Ghanima, admirando-se com a cegueira de Irulan. Era uma Bene Gesserit, e quem conheceria

melhor que elas a história da Abominação? E ela nem mesmo se permitia pensar a respeito disso, quanto mais acreditar. Alia devia ter feito alguma bruxaria com essa pobre mulher.

Ghanima disse:

— Tenho uma dívida de água para com você. Por esse motivo, protegerei sua vida. Mas seu primo está perdido. Não diga mais nada a esse respeito.

Irulan controlou o tremor dos lábios, enxugou os olhos.

— Eu amei seu pai — sussurrou. — Eu nem sabia disso até que ele já estava morto.

— Talvez ele não esteja morto — disse Ghanima. — Esse Pregador...

— Gham! Algumas vezes eu não a entendo. Paul iria atacar a própria família?

Ghanima encolheu os ombros, olhou para o céu que escurecia.

— Ele pode achar divertido tal...

— Como pode falar disso com tanta leviandade?

— Para me afastar das profundezas escuras. Não estou zombando de você. Os deuses sabem que não. Mas sou apenas a filha de meu pai. E sou cada pessoa que contribuiu para a semente dos Atreides. Você não quer pensar em Abominação, mas eu não posso pensar em outra coisa. Sou uma pré-nascida. Sei o que está dentro de mim.

— Aquela velha superstição tola a respeito de...

— Não! — Ghanima estendeu a mão em direção à boca de Irulan. — Eu sou cada Bene Gesserit de seu maldito programa de procriação, até e incluindo minha avó. E sou muito mais. — Arranhou a palma esquerda, tirando sangue com a ponta da unha. — Este é um corpo jovem, mas suas experiências... Oh, deuses, Irulan!

Minhas experiências! Não! — Estendeu a mão uma vez mais enquanto Irulan se aproximava. — Conheço todos os futuros que meu pai explorou. Tenho a sabedoria de tantas vidas, e toda a ignorância também... todas as fraquezas. Se quer me ajudar, Irulan, primeiro aprenda quem sou.

Instintivamente, Irulan se curvou e tomou Ghanima em seus braços, abraçando-a fortemente, rosto contra rosto.

“Não deixe que eu tenha de matar esta mulher”, pensou Ghanima. “Não deixe isso acontecer.”

Enquanto esse pensamento passava em sua mente, todo o deserto mergulhou na noite.

Um pequeno pássaro Chamou Com um bico manchado de vermelho. Ele gritou uma vez sobre o Sietch Tabr E tu avançaste na Planície Funerária.

- Lamento por Leto II

Leto acordou com o tilintar dos anéis de água no cabelo de uma mulher.

Olhou para o portal aberto de sua cela e viu que Sabiha estava sentada lá.

Com a consciência semi-submersa na especiaria, ele a via delineada por tudo que sua visão lhe revelara a respeito dela. Já passara dois anos da idade em que a maioria das mulheres Fremen estava casada, ou pelo menos noiva. Sua família, portanto, devia estar reservando-a para alguma coisa... ou para alguém. Ela estava em idade de casamento... isso era óbvio. Seus olhos enevoados pela visão percebiam-na como uma criatura vinda do passado terreno da humanidade: cabelo escuro e pele pálida, olhos fundos com uma tonalidade esverdeada no azul total.

Tinha nariz pequeno e boca ampla acima de um queixo pontudo. E era um sinal vivo para ele de que o plano das Bene Gesserit s era conhecido ou pelo menos se suspeitava dele em Jacurutu. De modo que elas esperavam reviver o Imperialismo Faraonico através dele, não esperavam? Então, qual era seu trunfo para forçá-lo a se casar com a irmã? Certamente, Sabiha não poderia evitar isso.

Seu captores conheciam esse plano, contudo. E como o teriam descoberto?

Não tinham partilhado de sua visão. Não o haviam acompanhado até o lugar onde a vida se tornava uma membrana móvel em outras dimensões. A subjetividade reflexiva e circular das visões que revelaram Sabiha era sua, e só sua.

Outra vez, os anéis de água tilintavam no cabelo de Sabiha e o som produzido perturbou-lhe as visões. Sabia onde estivera e o que havia aprendido.

Nada poderia apagar isso. Agora não estava viajando no grande palanquim do Produtor, o tilintar dos anéis de água entre os passageiros como um ritmo para suas canções. Não... Estava ali, numa cela de Jacurutu, envolvido na mais perigosa de todas as jornadas: saindo e voltando do Ahl ar-sunna waljamar, saindo do mundo real dos sentidos e a ele retornando.

Que estaria ela fazendo ali com os anéis de água tilintando em seu cabelo?

Oh, sim. Estava preparando mais do caldo com que pensavam mantê-lo cativo: comida misturada com essência de especiaria para mantê-lo meio fora do universo real até que, ou ele morresse-se, ou o plano de sua avó obtivesse êxito. E cada vez que ele pensava que tinha ganho, eles o enviavam de volta. Lady Jessica estava certa, é claro... a velha bruxa!

Mas que coisa para se fazer. A lembrança total de todas aquelas vidas dentro dele não tinha utilidade alguma, até que ele pudesse organizar os dados e recordá-los à vontade. Aquelas vidas tinham sido a matéria-prima da anarquia. Uma ou todas elas podiam tê-lo dominado. A especiaria e esse cenário peculiar em Jacurutu haviam sido uma aposta desesperada.

“Agora, Gurney espera por um sinal que eu me recuso a lhe dar. Quanto tempo vai durar sua paciência ?”

Paciência.

Olhou para Sabiha. Ela jogara o capuz para trás, revelando assim as tatuagens tribais em suas têmporas. Leto não reconheceu as tatuagens, a princípio, então, lembrou-se de onde se encontrava. Sim, Jacurutu ainda vivia.

Não sabia se devia sentir-se grato com relação à avó ou se devia odiá-la.

Ela queria que ele tivesse instintos em nível de consciência. Mas os instintos eram apenas memórias raciais sobre como enfrentar as crises.

Suas memórias diretas de todas aquelas outras vidas lhe revelavam muito mais que isso. Ele tinha tudo aquilo organizado agora, e podia ver o perigo de se revelar a Gurney. Não havia modo de ocultar a revelação de Namri. E Namri era outro problema.

Sabiha entrou na cela com a tigela nas mãos. Ele admirou o modo como a luz exterior criava círculos de arco-íris nas extremidades dos cabelos da moça.

Gentilmente, ela ergueu-lhe a cabeça e começou a alimentá-lo com o que havia na tigela. Foi só então que ele percebeu como estava fraco.

Permitiu que ela o alimentasse enquanto sua mente vagueava, relembrando a sessão com Gurney e Namri. Eles acreditavam nele! Namri mais do que Gurney, mas mesmo Gurney não podia negar o que seus sentidos já lhe haviam relatado a respeito desse planeta.

Sabiha enxugou-lhe a boca com a bainha de seu manto.

“Ahh, Sabiha”, ele pensou, relembrando aquela outra visão que lhe enchia o coração de dor. “Muitas noites eu sonhei ao lado de uma extensão de água, ouvindo os ventos soprarem acima. Muitas noites minha carne se encontrou ao lado do ninho da serpente e eu sonhei com Sabiha no calor de um verão. Eu a vi armazenando pão de especiaria assado em folhas de plasteel aquecidas até o rubro.

Continuar: parte 3 de 3