Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 6 de 8 · parte 3/3

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Os Filhos de Duna

Conhecia essa sensação! A pele que não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Vi a água clara no qanat, calma e brilhante, mas um vento de tempestade soprou em meu coração. Ela bebe o café e come. Seus dentes brilham nas sombras. Eu a vejo prendendo meus anéis de água em seu cabelo. A fragrância de âmbar no peito dela atinge meus sentidos mais profundos. Ela me atormenta e me oprime por sua própria existência.”

A pressão de suas multimemórias fez explodir o englobamento de tempo congelado ao qual ele tentara resistir. Sentiu corpos se enlaçando, os sons do sexo, ritmos fundindo-se a cada impressão sensorial: lábios, respiração, suspiros úmidos, línguas. Em algum ponto de sua visão se encontravam formas helicoidais, cor de carvão, e ele sentia a batida dessas formas enquanto elas giravam dentro dele. Uma voz suplicou no interior de seu crânio:

— Por favor, por favor, por favor...

Havia um intumescer adulto em seu baixo-ventre e ele sentiu sua boca se abrir, segurando, agarrando-se à forma do êxtase. Então, um suspiro, uma prolongada suavidade decrescente, uma queda.

Oh, como fora doce deixar aquilo acontecer!

Sabiha sussurrou ele. Oh minha Sabiha.

Quando ele mergulhou profundamente no transe, após a refeição, Sabiha pegou a tigela e saiu, parando na porta para falar com Namri.

— Ele chamou meu nome de novo.

— Volte e fique com ele — disse Namri. — Tenho de encontrar Halleck e discutir isso com ele.

Sabiha depositou a tigela ao lado da porta e retornou para a cela.

Sentou-se na beira do catre, olhando para o rosto sombreado de Leto.

Daí a pouco ele abriu os olhos e estendeu a mão, tocando-lhe a face.

Começou a falar com ela, então, contando-lhe a respeito da visão em que ela vivera.

Ela cobriu-lhe a mão com a sua enquanto ele falava. Como ele era terno...

como era ter... Ela tombou no catre, amparada pela mão dele, já inconsciente antes que ele retirasse a mão. Leto levantou-se, sentindo as profundezas de sua fraqueza.

A especiaria e as visões o haviam esgotado.

Procurou, através de suas células, cada centelha sobressalente de energia, e saiu do catre sem perturbar Sabiha. Tinha de partir, mas sabia que não chegaria muito longe. Lentamente, selou seu traje-destilador, colocou o manto à sua volta e deslizou através da passagem para o poço exterior. Havia algumas pessoas lá fora, ocupadas em seus próprios afazeres. Elas o reconheceram, mas ele não era sua responsabilidade.

Namri e Halleck deviam saber o que ele estava fazendo, Sabiha não podia estar longe.

Ele encontrou o tipo de passagem lateral de que necessitava e caminhou atrevidamente ao longo dela.

Lá atrás, Sabiha dormiu calmamente até que Halleck a acordou.

Ela se sentou, esfregou os olhos, viu o catre vazio, viu seu tio de pé atrás de Halleck, a raiva em seus rostos.

Namri respondeu à expressão no rosto dela.

— Sim, ele se foi.

— Como pôde deixá-lo escapar? — perguntou Halleck, furioso. — Como isso foi possível?

— Ele foi visto caminhando em direção à saída inferior — disse Namri, a voz estranhamente calma.

Sabiha encolheu-se diante deles, lembrando-se.

— Como? — quis saber Halleck.

— Não sei. Não sei.

— É noite e ele está fraco — disse Namri. — Não irá longe.

Halleck virou-se bruscamente para encará-lo.

— Você quer que o garoto morra!

— Isso não me desagradaria. — Novamente, Halleck confrontou Sabiha.

— Diga-me o que aconteceu.

— Ele tocou minha face. E ficou falando a respeito de sua visão... de nós dois juntos. — Olhou para o catre vazio. — Ele me fez dormir. Fez alguma mágica comigo.

Halleck olhou para Namri.

— Poderia estar se escondendo aqui dentro em algum lugar?

— Em parte alguma aqui dentro. Ele será encontrado, será visto, Dirigia-se à saída. Está lá fora.

— Mágica — murmurou Sabiha.

— Não foi mágica — disse Namri. — Ele a hipnotizou. Quase fez isso comigo, lembra-se? Disse que eu era seu amigo.

— Ele está muito fraco — comentou Halleck.

— Somente no corpo — replicou Namri. — Não irá longe, contudo.

Desmontei as bombas de calcanhar em seu traje-destilador. Morrerá sem água se não o encontrarmos.

Halleck quase se voltou para golpear Namri, mas se manteve sob rígido controle. Jessica o avisara que Namri poderia ser obrigado a matar o rapaz. Deus! A que ponto haviam chegado. Atreides contra Atreides. Ele disse:

— Seria possível que ele apenas estivesse vagueando sob o transe da especiaria?

— Que diferença isso faz? — perguntou Namri. — Se nos escapar, deve morrer.

— Começaremos a busca à primeira luz do dia — disse Halleck. — Será que ele levou um estojo Fremen?

— Há sempre alguns ao lado do selo da porta. Ele teria sido tolo de não levar um. E de algum modo ele nunca me pareceu tolo.

— Então, mande uma mensagem para nossos amigos. Diga-lhes o que aconteceu.

— Não haverá mensagens esta noite — disse Namri. — Há uma tempestade se aproximando. As tribos estiveram a rastreá-la nos últimos três dias.

Estará aqui pela meia-noite. As comunicações já foram interrompidas. Os satélites comunicaram o desligamento deste setor duas horas atrás.

Um profundo suspiro sacudiu Halleck. O garoto morreria, certamente, se a tempestade de areia o apanhasse. Ela comeria a carne de seus ossos e os lixaria até reduzi-los a fragmentos, A morte encenada se tornaria real.

Golpeou a palma aberta com o punho. A tempestade os prenderia ali no sietch. Não poderiam nem mesmo montar uma busca. E a estática da tempestade já isolara o sietch.

— Distrans — disse ele, imaginando que poderiam imprimir uma mensagem na voz de um morcego e enviá-lo com o alarme.

Namri sacudiu a cabeça.

— Morcegos não voam durante uma tempestade. Vamos, homem. São mais sensíveis que nós. Se abrigarão nos penhascos até que ela passe. Melhor esperar que os satélites nos captem novamente. Então poderemos tentar encontrar seus restos.

— Não se ele levou um estojo Fremen e se ocultou na areia — disse Sabiha.

Praguejando em silêncio, Halleck voltou-se e caminhou para o sietch.

A paz exige soluções, mas nunca obtemos soluções exatas, apenas trabalhamos nesse sentido. Uma solução fixa é, por definição, uma solução morta. O problema da paz é que ela tende a punir os erros em vez de recompensar o brilhantismo.

- As Palavras de Meu Pai: um Relato do Muad'Dib segundo a versão de Harq alAda

— Ela o está treinando? Está treinando Faradin?

Alia olhou para Duncan Idaho com uma premeditada mistura de raiva e incredulidade. O heighliner da Corporação havia entrado na órbita de Arrakis ao meio-dia local. Uma hora depois, um transporte ligeiro deixara Idaho em Arrakeen, sem ser anunciado, mas sem segredo, informalmente. Em questão de minutos, um tóptero o depositara no topo do Castelo. Avisada de sua chegada iminente, Alia o recebera ali, friamente formal diante de suas guardas, mas agora se encontravam nos alojamentos dela, abaixo da extremidade norte. Ele havia acabado de fazer seu relatório, falando a verdade com precisão e enfatizando cada dado à maneira mentat.

— Ela perdeu o juízo — disse Alia.

Ele tratou dessa declaração como se fosse um problema mentat:

— Todas as indicações apontam que ela permanece bem equilibrada e sã.

Eu diria que seu índice de sanidade permanece...

— Pare com isso! — retrucou Alia. — No que ela pode estar pensando?

Idaho, que sabia que seu próprio equilíbrio emocional dependia agora de um recuo para a frieza mentat, disse:

— Eu cômputo que ela está pensando no noivado de sua neta. — Suas feições permaneceram cuidadosamente calmas, mascarando a mágoa profunda que ameaçava engolfá-lo. Não havia Alia alguma ali. Alia estava morta. Por algum tempo, ele mantivera uma Alia mítica ante seus sentidos, alguém que ele criara a partir de seus próprios desejos, mas um mentat só podia manter essa auto-ilusão por tempo limitado. Essa criatura metida num disfarce humano estava possuída, uma psique demoníaca a dominava. Seus olhos de aço, com as miríades de facetas disponíveis à vontade, reproduziam sobre seus centros de visão uma multiplicidade de Alias míticas. Mas quando ele as combinava numa única imagem, o resultado não era Alia. Suas feições moviam-se sob outras exigências. Ela era uma casca dentro da qual se haviam cometido ultrajes.

— Onde está Ghanima? — indagou ele. Ela não deu importância à pergunta:

— Eu a mandei com Irulan para ficar sob a guarda de Stilgar.

“Território neutro”, pensou ele. “Então, houve outra negociação com as tribos rebeladas. Ela está perdendo terreno e não percebe isso... ou será que percebe? Haverá outra razão? Terá Stilgar passado para o lado dela?”

— O noivado — meditou Alia. — Qual é a situação na Casa Corrino?

— Salusa enxameia de parentes, todos bajulando Faradin, na esperança de compartilharem de sua volta ao poder.

— E ela o está treinando no modo Bene Gesserit...

— Não é adequado ao esposo de Ghanima?

Alia sorriu para si mesma, pensando na raiva permanente de Ghanima.

Que Faradin fosse treinado. Jessica estava treinando um cadáver.

— Devo refletir sobre isso com calma — ela disse. — Você está muito quieto, Duncan.

— Espero por suas perguntas.

— Percebo. Sabe que fiquei furiosa com você. Levá-la para Faradin!

— Você me ordenou que fizesse a coisa parecer real.

— Fui forçada a redigir um relatório dizendo que os dois haviam sido capturados.

— Obedeci suas ordens.

— Você age de modo tão literal às vezes, Duncan. Quase me assusta. Mas se não tivesse, bem...

— Lady Jessica está fora do caminho — ele disse. — E para o bem de Ghanima, devemos ser gratos de que...

— Extraordinariamente gratos — concordou ela. Mas pensava: “Ele não é mais digno de confiança. Tem aquela maldita lealdade aos Atreides. Devo conseguir uma desculpa para mandá-lo embora... e fazer com que seja eliminado. Um acidente, é claro.”

Tocou-lhe a face.

Idaho forçou-se a responder à carícia, segurando-lhe a mão e a beijando.

— Duncan, Duncan, como isto é triste — ela disse, — mas não posso mantê-lo aqui comigo. Muita coisa está acontecendo e tenho muito poucas pessoas em que possa confiar totalmente.

Ele soltou-lhe a mão e esperou.

— Fui forçada a mandar Ghanima para Tabr. As coisas estão muito agitadas por lá. Atacantes das Terras Partidas romperam os qanat s na Bacia de Kagga e derramaram toda a água na areia. Arrakeen sofre escassez de rações. A Bacia está repleta de trutas da areia devorando nossa colheita de água. Estamos cuidando delas, é claro, mas estamos muito enfraquecidos.

Ele já notara quão poucas amazonas da guarda de Alia podiam ser vistas no Castelo. Por isso pensou: “Os Maquis do Deserto Interior continuarão sondando nossas defesas. Será que ela não percebe isso?”

— Tabr ainda é território neutro — disse ela. — As negociações continuam por lá neste momento. Javid está lá com uma delegação dos sacerdotes.

Mas eu gostaria que você ficasse em Tabr para vigiá-los, especialmente Irulan.

— Ela é uma Corrino — concordou ele.

Mas notou em seus olhos que ela o estava rejeitando. Como essa criatura-Alia se tornara transparente! Ela acenou com a mão.

— Vá agora, Duncan, antes que eu amoleça e o mantenha aqui a meu lado.

Senti tanta falta de você.

— E eu de você — respondeu ele, permitindo que toda a mágoa fluísse em sua voz.

Ela olhou para ele, surpreendida por sua tristeza. Então disse:

— É para o meu bem, Duncan. — E enquanto pensava: “Muito mal, Duncan”, ela acrescentou: — Zia o levará para Tabr. Precisamos que o tóptero volte para cá.

“Sua amazona favorita”, pensou ele. “Devo ter cuidado com ela.”

— Eu compreendo — respondeu, uma vez mais segurando e beijando a mão dela.

Olhou para a adorada carne que uma vez fora a sua Alia. Não conseguiu obrigar-se a olhar para o rosto dela enquanto saía. Alguém mais olhava para ele com aqueles olhos.

Enquanto subia para a plataforma no topo do Castelo, Idaho experimentava um crescente sentimento de questões não-respondidas. O encontro com Alia fora extremamente penoso para sua parte mentat, que continuava lendo indícios de dados. Esperou ao lado do tóptero na companhia de uma das amazonas do palácio, olhando sombriamente para o sul. A imaginação levou sua visão para além da Muralha Escudo, até o Sietch Tabr. “Por que Zia tem de me levar para Tabr?

Trazer um tóptero de volta é tarefa servil. Por que esse atraso? Será que Zia está recebendo instruções especiais?”

Idaho olhou para a guarda vigilante e subiu para a posição do piloto dentro da cabina. Inclinando-se para fora, disse:

— Diga a Alia que mandarei o tóptero de volta imediatamente com um dos homens de Stilgar.

Antes que a guarda pudesse protestar, ele fechou a porta e acionou os motores. Podia vê-la de pé, indecisa. Quem questionaria o consorte de Alia? Pôs o tóptero em vôo antes que ela pudesse decidir o que fazer.

Agora, sozinho no tóptero, permitiu que sua mágoa desabafasse em grandes e trêmulos soluços. Alia se fora. Eles se haviam separado para sempre.

Lágrimas fluíram de seus olhos Tleilaxu e ele sussurrou:

— Deixem todas as águas de Duna fluir para as areias. Elas não igualarão as minhas.

Isso fora um excesso não- mentat, contudo, e ele o reconheceu como tal, forçando-se a sua sóbria avaliação das necessidades do momento. O tóptero exigia sua atenção. E as reações necessárias à pilotagem trouxeram-lhe algum alivio, fazendo-o sentir-se uma vez mais controlado.

“Ghanima novamente com Stilgar. E Irulan.”

Por que Zia fora designada para acompanhá-lo? Transformou a pergunta num problema mentat e a resposta o arrepiou: “Eu devia sofrer um acidente fatal.”

Este santuário do crânio de um governante não aceita preces. Ele se tornou o túmulo das lamentações. Somente o vento, ouve a voz deste lugar. Os gritos das criaturas da noite e a maravilha mutável das duas luas, todos dizem que seu dia terminou.

Suplicantes não chegam mais. Os convivas partiram do banquete. Como é árido o caminho que desce desta montanha.

- Inscrições no Santuário de um Duque Atreides Anônimo A coisa tinha uma aparência de ilusória simplicidade para Leto: evitar a visão, fazer aquilo que não fora visto. Conhecia a armadilha em seu pensamento, o modo como os fios ocasionais de um futuro fechado se enrolavam até prenderem a pessoa rapidamente, mas tinha um novo domínio sobre aqueles fios. Em parte alguma, vira a si mesmo fugindo de Jacurutu.

O fio que levava a Sabiha devia ser cortado primeiro.

Agachava-se agora, à última luz do dia, na extremidade ocidental da rocha que protegia Jacurutu. Seu estojo Fremen fornecera-lhe tabletes energéticos e comida, e agora esperava que lhe retornassem as forças. A oeste se encontrava o lago Azrak, a planície de gipsita onde um dia houvera água a céu aberto, nos tempos anteriores aos vermes. Fora de visão, a leste, estava Bene Sherk, um grupo de novos povoados que invadiam o bled aberto. Ao sul ficava Tanzerouft, a Terra do Terror: 3.800 quilômetros de vastidão, interrompida apenas pelas manchas verdes das dunas aprisionadas pelo capim e por armadilhas de vento destinadas a fornecer água - o trabalho de transformação ecológica que refazia a paisagem de Arrakes. Eram mantidas por equipes enviadas por via aérea, nenhuma das quais nelas permanecia por muito tempo.

“Eu irei para o sul”, pensou ele. “Gurney vai esperar que eu faça exatamente isso.” Mas esse não era o momento para realizar o totalmente inesperado.

Logo estaria escuro e ele poderia abandonar seu esconderijo temporário.

Olhou para a linha do horizonte, ao sul. Havia uma tira de céu pardo ao longo daquele horizonte, rolando como fumaça, ondulando como uma linha flamejante de poeira, uma tempestade. Observou o centro elevado da tormenta erguendo-se da Grande Planície como um verme sondando. Durante um minuto inteiro, ficou olhando esse centro, percebendo que ele não se deslocava para a direita ou para a esquerda. Um velho ditado Fremen saltou em sua mente:

“Quando o centro não se move, você está no seu caminho.”

A tempestade mudava tudo.

Por um momento, olhou de volta na direção oeste, a direção do Tabr, sentindo a enganadora paz cinza-bronze de um entardecer no deserto, vendo a planície de gesso circundada de rochas arredondadas pelos ventos, um vazio desolado, com sua superfície irreal de branco brilhante a refletir as nuvens de poeira. Em parte alguma de sua visão ele tinha visto a si mesmo sobrevivendo à serpente cinzenta de uma grande tempestade, ou se enterrando profundamente na

areia para sobreviver. Havia apenas aquela visão de rolar no vento... mas isso poderia vir depois.

Mas uma tempestade estava lá, serpenteando através de muitos graus de latitude, chicoteando esse mundo para submetê-lo. Podia ser enfrentada.

Havia velhas histórias, sempre contadas entre amigos, de que se poderia prender na superfície um verme esgotado, encaixando-se um gancho de Produtor debaixo de um de seus largos anéis e, tendo-o imobilizado, passar a tempestade à sombra de seu lado oposto ao vento. Havia uma linha divisória entre a audácia e a imprudência que o tentava com relação a essa idéia. Aquela tempestade não chegaria antes da meia-noite, na pior das hipóteses. Havia tempo. Quantas linhas de tempo não podiam ser cortadas ali? Todas, incluindo a derradeira?

“Gurney deve esperar que eu vá para o sul, mas não ao encontro de uma tempestade.”

Olhou para o sul, buscando uma trilha, e viu o rabisco fluido, cor de ébano, de uma garganta profunda curvando-se através da rocha de Jacurutu.

Viu areia ondulando para dentro das profundezas da garganta, areia quimera. Era como um riacho lançando-se para dentro da planície, como se fosse água e não areia. O sabor arenoso da sede tocou-lhe a boca enquanto ele colocava o estojo Fremen sobre os ombros e descia a trilha que conduzia ao canyon. Ainda restava luz suficiente para que pudesse ver, mas sabia que estava jogando com o tempo.

Quando chegou à borda do canyon, o rápido anoitecer do deserto caiu sobre ele. Ficou apenas o brilho do luar para iluminar seu caminho em direção a Tanzerouft. Sentiu seu coração acelerar-se com todos os temores que suas ricas memórias proporcionavam. Sentia poder estar indo ao encontro da Huanuinaa, como os temores Fremen rotulavam as maiores tempestades: o Alambique Mortal da Terra. Mas o que quer que viesse viria sem visões.

Cada um de seus passos deixava mais para trás a dhyana induzida pela especiaria, aquela crescente consciência de sua natureza intuitivo-criativa, com seus desdobramentos no sentido da corrente imóvel da casualidade. A cada 100 passos que ele dava agora, devia dar pelo menos um passo para o lado, além das palavras e em comunhão com sua nova realidade interior, recentemente compreendida.

“De um modo ou de outro, pai, estou indo a seu encontro.”

Havia pássaros invisíveis nas rochas à sua volta, fazendo-se presentes apenas com seus guinchos. Com a sabedoria Fremen, ele escutou seus ecos para lhe guiar o caminho onde não podia ver. Frequentemente, ao passar por fendas, observava os malignos olhos verdes de criaturas agachadas em esconderijos, pois sabiam que uma tempestade se aproximava.

Saiu da garganta para o deserto. A areia era uma coisa viva que parecia se mover e respirar abaixo dele, revelando-lhe movimentos profundos e fumarolas latentes. Olhou de volta, em direção às coberturas de lava tocadas pelo luar dos montes de Jacurutu. Aquela estrutura toda era metamórfica, formada principalmente por pressão. Arrakis ainda tinha alguma coisa a dizer quanto a seu próprio futuro. Leto plantou um batedor para chamar um verme e, enquanto

começava a bater na areia, tomou posição para ouvir e observar. Inconscientemente, sua mão direita estendeu-se para o anel do falcão Atreides, escondido numa dobra amarrada de seu dirshsasha. Gurney o havia encontrado, mas o deixara no lugar. Em que teria pensado ao encontrar o anel de Paul?

“Pai, espere-me em breve.”

O verme veio do sul, desviando-se para evitar as rochas. Não era tão grande quanto ele esperara, mas isso não podia ser remediado. Avaliou seu movimento e plantou os ganchos, subindo pelo lado escamoso numa rápida carreira, enquanto a criatura passava sobre o batedor lançando um jato de poeira. O

verme voltou-se, obediente sob a pressão de seus ganchos, e o vento de sua velocidade começou a lhe chicotear o manto. Leto curvou-se, olhando as estrelas do sul, pálidas através da poeira, e apontou o verme naquela direção.

“Direto para a tempestade.”

Enquanto a Primeira Lua se elevava, Leto mediu a altura da tempestade e fez uma estimativa quanto à sua chegada. Não antes do raiar do dia.

Estava se espalhando, reunindo mais energia para um grande salto.

Haveria muito trabalho para as equipes de transformação ecológica. Era como se ali o planeta as combatesse com uma fúria consciente, que aumentava na medida em que a transformação reclamava mais terras.

Durante toda a noite ele pressionou o verme para o sul, sentindo-lhe as reservas de energia nos movimentos transmitidos através de seus pés.

Ocasionalmente, deixava a criatura desviar-se para oeste, o que ela persistia em fazer, seguindo as fronteiras invisíveis de seu território ou movida por uma profunda consciência da tempestade que se aproximava.

Os vermes costumavam enterrar-se para escapar ao impacto da areia carregada pelos ventos, mas esse não afundaria sob o deserto enquanto os ganchos de Produtor mantivessem aberto ao menos um de seus anéis.

À meia-noite, o verme mostrava muitos sinais de exaustão. Leto moveu-se para trás, ao longo de sua garupa, permitindo que ele reduzisse a velocidade, mas mantendo o impulso rumo ao sul.

A tempestade chegou logo após o raiar do dia. Primeiro houve a imobilidade da aurora no deserto, pressionando as dunas umas sobre as outras.

Depois, a poeira avançando fez com que ele fechasse a máscara facial. Na poeira cada vez mais espessa, o deserto tornava-se uma imagem cinzenta, sem contornos.

Então, agulhas de areia começaram a lhe ferir as faces, picando-lhe as pálpebras.

Sentiu os grãos grossos em sua língua e percebeu que havia chegado o momento de decisão. Devia arriscar-se a testar as velhas histórias, imobilizando o verme quase exaurido? Levou apenas o tempo de uma batida de coração para afastar essa hipótese, caminhando para a cauda do verme e afrouxando-lhe os ganchos. Quase sem se mover agora, o verme começou a se enterrar. Mas os excessos do sistema de transferência de calor da criatura ainda agitavam um forno ciclônico em sua traseira, dentro da tempestade que aumentava rapidamente. As crianças Fremen aprendiam os perigos dessa posição, próximo à cauda de um verme, em suas primeiras histórias infantis. Os vermes eram fábricas de oxigênio e o fogo queimava

selvagemente à sua passagem, alimentado pela abundante exalação das adaptações químicas à fricção que produziam.

A areia começou a chicotear junto de seus pés. Leto soltou os ganchos e saltou para longe, a fim de evitar a fornalha da cauda do verme. Tudo dependia agora de entrar embaixo da areia no lugar onde o verme a deixara fofa.

Agarrando a ferramenta de compactação estática com a mão esquerda, enterrou-se na face escorregadia de uma duna, sabendo que o verme devia estar muito cansado para se virar e engoli-lo com sua enorme boca branco-alaranjada.

Enquanto escavava com a mão esquerda, a direita retirava a tenda destiladora do estojo Fremen e a preparava para ser inflada. Estava feito em menos de um minuto: colocara a tenda num bolsão de areia de paredes rígidas, a sotavento da duna. Inflou a tenda e se arrastou para dentro dela. Antes de fechar o esfíncter, estendeu a mão com a ferramenta de compactação em ação reversa. A face escorregadia da duna deslizou sobre a tenda, mas apenas alguns grãos penetraram enquanto ele fechava a abertura.

Agora, tinha de trabalhar ainda mais rapidamente. Nenhum snorkel de areia poderia estender-se lá fora a fim de lhe fornecer o ar para a respiração.

Essa era uma grande tempestade, do tipo a que poucos sobreviviam. Iria cobrir esse lugar com toneladas de areia. Somente a bolha macia da tendadestiladora, com sua concha exterior compactada, poderia protegê-lo.

Leto deitou-se de costas, esticado, colocou as mãos sobre o peito e induziu-se ao transe dormente, no qual seus pulmões fariam apenas um movimento a cada hora. Nisso, entregou-se ao desconhecido. A tempestade iria passar e, se ela não expusesse seu frágil bolsão, ele poderia emergir... ou então entrar no Madinat Assalan, o Domicílio da Paz. O que quer que acontecesse, sabia que havia rompido as linhas, uma por uma, deixando apenas o Caminho Dourado. Seria isso ou não retornaria ao califado dos herdeiros de seu pai. Não mais viveria a mentira daquele Despoyni, o terrível califado que celebrava o demiurgo de seu pai. Não mais se manteria em silêncio enquanto um sacerdote declamava tolices ofensivas: “Sua faca cristalina dissolverá os demônios.”

Com essa decisão, a consciência de Leto escorregou para a teia intemporal do dão.

Existem óbvias influências de ordem mais elevada em qualquer sistema planetário. Isso é frequentemente demonstrado pela introdução da vida deforma terrena em planetas recentemente descobertos. Em todos os casos, a vida, em áreas similares, desenvolve formas de adaptação extraordinariamente similares. Isso significa muito mais do que forma, indica uma organização para a sobrevivência e o relacionamento entre tais organizações. A busca, porparte dos homens, dessa ordem inter-dependente e de nosso nicho dentro dela representa uma necessidade profunda.

Essa busca pode, contudo, degenerar no domínio conservador da uniformidade. Isso sempre se revelou mortífero para todo o sistema.

- A Catástrofe de Duna segundo Harq al-Ada

— Meu filho não via verdadeiramente o futuro, via o processo de criação e seu relacionamento com os mitos sobre os quais dormem os homens — disse Jessica.

Falava depressa, mas sem dar a impressão de estar apressando o assunto.

Sabia que os observadores ocultos encontrariam um meio de interrompê-la assim que percebessem o que estava fazendo.

Faradin estava sentado no chão, delineado por um raio de luz do sol da tarde que penetrava, inclinado, através da janela atrás dele. Jessica podia ver apenas o topo de uma árvore no jardim do pátio quando olhava para o lado oposto à sua posição, em pé diante da parede em frente a ele.

Era um novo Faradin que ela via: mais esguio, mais vigoroso. Os meses de treinamento haviam produzido nele sua mágica inevitável. Seus olhos brilhavam quando ele a fitava.

— Ele viu as formas que as forças existentes iriam criar, a menos que fossem desviadas — disse Jessica. — Para não se voltar contra seus companheiros, voltou-se contra si próprio. Recusou-se a aceitar aquilo que o confortava porque isso significaria covardia moral.

Faradin havia aprendido a escutar em silêncio, testando, sondando, guardando suas perguntas até que estivessem bem afiadas. Ela estivera falando sobre a visão Bene Gesserit da memória molecular expressa como ritual e então, muito naturalmente, se desviara para o modo pelo qual a Irmandade analisava Paul Muad'Dib. No entanto, Faradin percebia um jogo de sombras em suas palavras e ações, uma projeção de formas inconscientes de variação junto com a intenção superficial de suas declarações.

— De todas as nossas observações, esta é a mais crucial — dizia ela agora.

— A vida é uma máscara através da qual o universo se expressa. Nós aceitamos que toda a humanidade, com as formas de vida que a sustentam, representa uma

“comunidade natural”, e que o destino de toda vida está em jogo no destino do indivíduo. Assim, quando chegamos ao derradeiro auto-exame, o amor-fati, paramos de brincar de deus e revertemos ao ensinamento. No final, selecionamos os indivíduos e os colocamos tão livres quanto formos capazes.

Ele percebia agora para onde ela se estava dirigindo e, conhecendo o efeito que isso teria sobre os que vigiavam, conteve o impulso de lançar um olhar de

apreensão em direção à porta. Somente um olho treinado teria notado esse desequilíbrio momentâneo, mas Jessica o viu e sorriu. Um sorriso, afinal, podia significar qualquer coisa.

— Esta é uma espécie de cerimônia de graduação — ela disse. — Estou muito satisfeita com você, Faradin. Quer se levantar, por favor?

Ele obedeceu, bloqueando-lhe a visão do topo da árvore através da janela.

Jessica manteve os braços rígidos nos lados do corpo e disse:

— Estou encarregada de lhe dizer isto agora: eu me coloco na sagrada presença humana. Como o faço agora, assim você se colocará um dia. Oro em sua presença para que assim seja. O futuro permanece incerto e assim deve ser, pois ele é a tela em que pintamos nossos desejos. Desse modo, a condição humana encara sempre um lindo quadro em branco. Temos apenas este momento para nos dedicarmos continuamente à sagrada presença que compartilhamos e criamos...

Enquanto Jessica terminava de falar, Tvekanik entrou pela porta à esquerda, caminhando com pretensa calma, na face a carranca habitual.

— Meu Senhor — ele disse.

Mas já era muito tarde. As palavras de Jessica e todos os preparativos realizados anteriormente haviam feito seu trabalho. Faradin não era mais um Corrino. Ele agora era Bene Gesserit.

O que vocês da diretoria da CHOAM parecem incapazes de compreender é que no comércio raramente se encontra a verdadeira lealdade. Qual foi a última vez que ouviram dizer que um escrevente deu a vida por sua companhia? Talvez sua deficiência resida no falso presuposto de que podem obrigar homens a pensar e cooperar. Essa tem sido a falha de todos, da religião aos estados-maiores, através da história. Os estados-maiores possuem um longo registro de destruição de suas próprias nações. Quanto à religião, recomendo uma lleitura de Tomás de Aquino. E

quanto a vocês da CHOAM, em que tolices acreditam! Os homens devem deixar fazer coisas a partir de seus próprios impulsos interiores. São as pessoas, e não as organizações comerciais ou as cadeias de comando, que fazem as grandes civilizações funcionarem. Cada civilização depende da qualidade dos indivíduos que produz. Se vocês super-organizam os seres humanos, super-legalizam, suprimem seu impulso de grandeza, eles não podem agir e sua civilização desmorona.

- Uma carta à CHOAM Atribuída ao Pregador

Leto saiu do transe numa transição tão suave que não definia uma condição como distinta da outra. Um nível de consciência simplesmente se transformara em outro.

Sabia onde se encontrava. Uma restauração de energia fluiu através dele, mas Leto sentiu outra mensagem no ar viciado, esgotado de oxigênio, dentro da tenda-destiladora. Caso se recusasse a se mover, sabia que continuaria preso a essa teia intemporal, o eterno agora em que todos os eventos coexistiam. A perspectiva o atraía. Via o Tempo como uma convenção moldada pela mente coletiva de todos

os seres sensíveis. Tempo e Espaço eram categorias impostas ao universo por sua Mente. Só tinha de se livrar da multiplicidade para onde as visões prescientes o atraíam.

Uma escolha ousada mudaria os futuros provisórios. Que ousadia exigia esse momento?

O estado de transe o atraía. Leto sentia ter saído do alam al-mythal para o universo da realidade apenas para achá-los idênticos. Desejava manter a mágica dessa revelação, mas a sobrevivência exigia que tomasse decisões. Seu incansável gosto pela vida enviou os sinais ao longo de seus nervos.

De repente, estendeu a mão para o lugar onde deixara a ferramenta de compactação de areia. Agarrou-a, rolou sobre seu estômago e abriu o esfíncter da tenda. Um punhado de areia escorregou sobre suas mãos.

Trabalhando na escuridão, estimulado pelo ar viciado, agiu com rapidez, escavando um túnel ascendente num ângulo íngreme. Subiu seis vezes o comprimento de seu corpo antes de sair para a escuridão da noite e o ar livre.

Deslizou para baixo, na face iluminada pelo luar de uma longa duna curva, e se encontrou a um terço do caminho que levava ao topo da duna.

A Segunda Lua encontrava-se acima dele. Movia-se rapidamente, ocultando-se por trás da duna, e as estrelas se estenderam por sobre ele como pedregulhos brilhantes ao lado de um caminho. Leto procurou a constelação do Caminhante, encontrou-a e deixou seu olhar percorrer o braço estendido até a luz brilhante da Foum al-Hout, a estrela polar do sul.

“Eis aí seu maldito universo!”, pensou. Visto de perto, era um lugar de movimento, com toda a areia à sua volta, um lugar de mudança, de singularidade sobre singularidade. Visto a grande distância, somente as configurações se revelavam, e estas poderiam tentar uma pessoa a crer em absolutos.

“Crendo em absolutos, podemos perder nosso rumo.” Isso o fez lembrar-se de uma advertência contida numa antiga canção Fremen: “Quem perde o rumo em Tanzerouft perde a vida.” As configurações poderiam guiá-lo ou prendê-lo numa armadilha. Era preciso lembrar que as configurações mudam.

Respirou fundo e se colocou em movimento. Mergulhando de volta ao longo da passagem que abrira, esvaziou a tenda, puxou-a de volta e reembrulhou o estojo Fremen.

Um brilho cor de vinho começou a se desenvolver ao longo do horizonte leste. Leto colocou a mochila sobre os ombros e subiu a crista da duna, ficando lá a sentir o ar frio anterior à aurora, até que o sol nascente lhe aquecesse o rosto. Em seguida, pintou uma nódoa escura em torno das órbitas para reduzir o reflexo da luz, sabendo que deveria cortejar o deserto, em vez de combatê-lo. Quando colocou a tintura de volta no estojo e sugou a água de um dos tubos de recolhimento, conseguiu apenas um punhado de gotas, depois ar.

Sentando-se na areia, começou a examinar o traje-destilador até chegar, afinal, às bombas de calcanhar. Tinham sido cortadas habilmente com uma faca-agulha. Retirou o traje-destilador e o consertou, mas o dano já fora feito. Pelo menos metade da água de seu corpo se perdera. Não fosse pelo que a tenda

recuperara... Meditou sobre isso enquanto recolocava o traje, pensando em como era estranho que não o tivesse antecipado. Ali estava um dos perigos óbvios de um futuro sem visões.

Agachou-se no topo da duna, então, deixando que a solidão desse lugar o absorvesse. Deixou o olhar vaguear, observando a areia em busca de algum orifício assoviante, qualquer irregularidade nas dunas que pudesse indicar especiaria ou atividade de verme. Mas a tempestade cobrira a terra com uniformidade. Daí a pouco, removeu um batedor de seu estojo, armou-o e o fez girar para convocar o Shai-Hulud de suas profundezas. Em seguida, afastou-se para esperar.

O verme levou um bom tempo para chegar. Leto o ouviu antes que o visse, voltando-se para leste, onde aquele sussurro de terra sacudida fazia o ar tremer, e esperou pelo primeiro vislumbre alaranjado de uma boca elevando-se da areia. O verme ergueu-se das profundezas numa gigantesca cascata de areia que lhe obscureceu os flancos. Passou por Leto como uma grande parede curva, cinzenta, e ele plantou-lhe os ganchos, subindo facilmente para o dorso. Desviou o verme para o sul numa grande trilha curva, ainda enquanto subia.

Sob o estímulo de seus ganchos, o verme ganhou velocidade. O vento chicoteou o manto a seu redor. Sentia-se tão estimulado como o verme, uma intensa corrente de criação em suas entranhas. Cada planeta tinha seu próprio tempo, e assim era com cada vida, relembrou-se.

Esse verme era do tipo que os Fremen chamavam de “rosnador”.

Frequentemente enterrava suas placas frontais enquanto a cauda se mantinha a impulsioná-lo. Isso produzia sons estrondantes e fazia com que parte de seu corpo se erguesse numa corcova. Mas era um verme rápido e, quando apanhavam um vento na mesma direção em que seguiam, a exalação quente da cauda lançava uma brisa morna sobre Leto. Um vento cheio de odores acres, carregado de oxigênio.

Enquanto o verme acelerava para o sul, Leto permitia que sua mente corresse livre. Tentava pensar nessa passagem como uma nova cerimônia em sua vida, uma cerimônia que lhe evitava pensar no preço que teria de pagar por seu Caminho Dourado. Como os antigos Fremen, sabia que teria de adotar muitos ritos para evitar que sua personalidade se dividisse em suas memórias constituintes, para manter afastados os caçadores famintos de sua alma. Imagens contraditórias, nunca unificadas, deviam agora ser enraizadas numa tensão vital, uma força polarizadora que o impulsionasse a partir de dentro.

“Sempre a novidade”, pensou. “Devo encontrar sempre novas linhas fora de minha visão.”

No cair da tarde, sua atenção foi captada por uma protuberância à sua frente, ligeiramente à direita do curso que seguia. Lentamente, a protuberância tornou-se um monte isolado e íngreme, uma rocha erguendo-se precisamente no lugar onde esperava que se erguesse.

“Agora, Namri... Agora, Sabiha. Vamos ver como seus irmãos recebem a minha presença.” Essa era a linha mais delicada à sua frente, mais perigosa por suas tentações que por suas ameaças.

O monte passou longo tempo mudando de dimensões. E pareceu às vezes que se aproximava dele, em vez de ser ele a se aproximar.

O verme, cansado agora, insistia em se desviar para a esquerda. Leto escorregou ao longo da imensa curva para plantar seus ganchos de novo e manter o gigante em curso retilíneo. Um suave cheiro de melange chegou às suas narinas, sinal de um rico veio. Passaram pelas manchas leprosas de areia violeta, onde um estouro de especiaria fizera sua erupção, e ele manteve o verme firme em seu curso até ultrapassarem o veio. A brisa, perfumada pelo cheiro de canela, os perseguiu por algum tempo, até que Leto forçou o verme a tomar novo curso, seguindo diretamente para a rocha elevada.

De repente, cores cintilaram bem longe, ao sul, bled adentro: o descuidado lampejo de arco-íris de um artefato feito pelo homem no meio daquela imensidão.

Leto ergueu seu binóculo, focalizando as lentes de óleo, e viu na distância as asas inclinadas de um rastreador de especiaria brilhando à luz do sol.

Abaixo dele, uma grande colhedora soltava suas asas, qual crisálida, antes de se mover lentamente. Quando abaixou o binóculo, a colhedora se transformou num ponto e ele se sentiu dominado pela hadhdbab, a imensa onipresença do deserto. Isso lhe revelava como aqueles caçadores de especiaria deviam vê-lo, um ponto negro entre o céu e o deserto, o símbolo Fremen para o “homem”. Eles o tinham visto, é claro, e deveriam estar cautelosos. Iam esperar. Os Fremen eram sempre desconfiados ao encontrar alguém no deserto, até reconhecerem o recém-chegado ou verificarem com certeza que ele não representava ameaça. Mesmo dentro da patina da civilização imperial e suas sofisticadas regras, ainda permaneciam selvagens semidomados, sempre conscientes de que uma faca cristalina se dissolvia na morte de seu dono.

“Isso é o que pode salvar-nos”, pensou ele. “Essa rebeldia selvagem.”

Na distância, o rastreador inclinou-se à esquerda, depois à direita, num sinal para o solo. Imaginou seus ocupantes observando o deserto atrás dele, em busca de um indício de que ele pudesse ser mais que um único cavaleiro num só verme.

Leto fez o verme rolar para a esquerda, manteve-o na curva até que tivesse revertido seu curso, escorregou pelo flanco e saltou longe. O verme, livre de seu controle, parou na superfície para respirar um pouco e então afundou um terço da parte dianteira de seu corpo, ficando imóvel, recuperando-se. Sinal seguro de que fora cavalgado durante muito tempo.

Leto afastou-se do verme, que agora ficaria ali. O rastreador circulava acima do trator-colhedora, ainda fazendo sinais com as asas. Eram renegados pagos pelos contrabandistas, com certeza, cautelosos quanto a comunicações eletrônicas.

Esses caçadores deviam estar atrás de especiaria. Essa era a mensagem transmitida pela presença do trator.

O rastreador circulou uma vez mais, inclinou as asas e saiu do círculo, dirigindo-se diretamente para Leto. Ele reconheceu a máquina como um modelo de tóptero ligeiro, que seu avô havia introduzido em Arrakis. A aeronave circulou uma vez acima dele, passou por sobre a duna onde se encontrava e mergulhou para

pousar contra a brisa. Desceu a 10 metros dele, escorregando em meio à poeira levantada. A porta do lado voltado para ele se abriu o suficiente para que dela saísse uma única figura em pesado manto Fremen com o símbolo da lança sobre o lado direito do peito.

O Fremen aproximou-se lentamente, dando a cada um dos dois tempo suficiente para observar o outro. O homem era alto, com o azul total da especiaria nos olhos. A máscara do traje-destilador ocultava a metade inferior de sua face e o capuz fora puxado para proteger a testa. O movimento do manto revelava uma mão debaixo dele, segurando uma pistola maula.

O homem parou a dois passos de Leto e olhou para ele com um franzir intrigado da pele em torno dos olhos.

— Boa sorte para nós todos — disse Leto.

O homem olhou ao redor, perscrutando a vastidão vazia, e então voltou sua atenção para Leto.

— O que é você, criança? — perguntou ele, a voz abafada pela máscara.

— Está tentando servir de rolha para um buraco de verme?

Novamente, Leto usou a fórmula Fremen tradicional:

— O deserto é meu lar.

— Henn? — quis saber o homem. — “Para que lado vai?”

— Eu viajo para o sul de Jacurutu.

Uma risada abrupta partiu do homem.

— Bem, Batigh! Você é a coisa mais estranha que jamais vi em Tanzerouft.

— Não sou seu Pequeno Melão — disse Leto, respondendo ao termo Batigh. Esse era um título com sentido lúgubre. O Pequeno Melão da orla do deserto proporcionava água a qualquer um que o encontrasse.