Os Filhos de Duna
— Acredita que sejamos completas idiotas? — perguntou Jessica.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— A palavra Naib tem um antigo significado — disse Stilgar. — Significa servo do Sietch.
— Eu me lembro de seu treinamento, Stil — disse Leto. — Para um governo adequado, a tribo deve ter meios de escolher homens cujas vidas reflitam o comportamento ideal de governo.
Das profundezas de sua alma Fremen, Stilgar disse:
— Você colocará o manto imperial se lhe for adequado. Mas primeiro deve provar que pode comportar-se da maneira adequada a um governante!
Inesperadamente, Leto riu. Depois disse:
— Duvida de minha sinceridade, Stil?
— Claro que não.
— De meu direito hereditário?
— Você é aquilo que é.
— E se eu fizer aquilo que todos esperam de mim, essa será a medida da minha sinceridade, não?
— É o costume Fremen.
— Então, não devo ter opiniões próprias para guiar meu comportamento?
— Não entendo o que...
— Se eu sempre me comportar adequadamente, não importando o que me custe a supressão de meus próprios desejos, então essa é que será a medida do meu valor.
— Essa é a essência do autocontrole, jovem.
— Jovem! — Leto sacudiu a cabeça. — Ah, Stil, você me dá a chave para a ética racionalista de governo. Devo ser firme, cada uma de minhas ações enraizada nas tradições do passado.
— Isso é adequado.
— Mas o meu passado se alonga mais profundamente que o seu!
— Qual a diferença...
— Eu não tenho a primeira pessoa do singular, Stil. Sou uma pessoa múltipla, com memórias e tradições mais antigas do que você pode imaginar. Essa é minha carga, Stil. Sou governado pelo passado. Estou repleto de um conhecimento inato que resiste ao novo, à mudança. No entanto, o Muad'Dib mudou tudo isso. —
Leto fez um gesto em direção ao deserto, seu braço estendendo-se para abranger a Muralha Escudo atrás de si.
Stilgar voltou-se para fitar a Muralha Escudo. Um vilarejo fora construído abaixo da Muralha desde o tempo do Muad'Dib. Casas destinadas a abrigar uma equipe de planetólogos que ajudava a expandir a vida vegetal sobre o deserto.
Stilgar olhou para aquela intromissão do homem na paisagem. Mudança? Sim.
Havia um alinhamento naquela vila, uma exatidão que o ofendia. Ficou em silêncio, ignorando a coceira causada por partículas de pedra pulverizada sob seu traje-desolador. Esse vilarejo era uma ofensa a tudo aquilo que esse planeta já fora.
Subitamente, Stilgar desejou que um vento circular saltasse uivando sobre as dunas e destruísse aquele lugar. A sensação deixou-o tremendo.
Leto disse:
— Já reparou, Stil, que os novos trajes-destiladores são de péssima qualidade? Nossa perda de água é muito grande.
Stilgar conteve-se a ponto de dizer: “Não fui eu que disse isso?” Em vez disso, falou:
— Nosso povo torna-se cada vez mais dependente das pílulas. — Leto acenou com a cabeça. As pílulas mudavam a temperatura do corpo, reduzindo a transpiração. Eram mais baratas e práticas que os trajes-destiladores. Mas causavam outros problemas ao usuário, entre eles uma tendência a retardar o tempo de reação e uma visão ocasionalmente turva.
— Foi por isso que viemos até aqui? — perguntou Stilgar. — Para discutir a fabricação de trajes-destiladores?
— Por que não? Desde que você não deseja encarar o que preciso discutir.
— Por que devo ter cuidado com a sua tia? — Havia um indício de raiva na voz de Stilgar.
— Porque ela joga com o velho desejo Fremen de resistir às mudanças e no entanto vai provocar uma mudança mais terrível do que você pode imaginar.
— Está exagerando! Ela é uma Fremen respeitável.
— Ahhh, então os Fremen respeitáveis se mantêm firmes nos modos do passado e eu tenho um passado ancestral. Stil, se eu me entregasse a essa inclinação, iria exigir uma sociedade fechada, completamente dependente dos sagrados costumes do passado. Eu controlaria as migrações, explicando que elas fomentam novas idéias, e as novas idéias são uma ameaça a toda a estrutura da vida. Cada pequena sociedade planetária seguiria seus próprios caminhos, cumprindo seu destino. Até que finalmente o Império se fragmentaria sob o peso das diferenças.
Stilgar tentou engolir com a garganta subitamente seca. Essas eram palavras que o Muad'Dib poderia ter pronunciado. Elas tinham a sua marca.
Eram paradoxais, assustadoras. Mas se alguém permitisse qualquer mudança... Ele sacudiu a cabeça.
— O passado pode lhe indicar a maneira certa de se comportar se você vive no passado, Stil. Mas as circunstâncias mudam.
Stilgar só podia concordar em que as circunstâncias mudavam. Como alguém deveria comportar-se, então? Olhou para além de Leto, vendo o deserto e ao mesmo tempo não o vendo. O Muad'Dib caminhara lá. A planície era um lugar de sombras douradas enquanto o sol se erguia, sombras arroxeadas com arroios secos e arenosos cobertos de vapores poeirentos. A névoa de poeira que geralmente se mantinha sobre a cordilheira Habbanya era visível a grande distância agora, e o deserto, estendendo-se de lá até aqui, apresentava um panorama de dunas que iam diminuindo, uma curva atrás da outra. Através do calor tremulante, ele viu as plantas que cresciam na orla do deserto. O Muad'Dib fizera com que a vida brotasse naquele lugar desolado. Flores cor de cobre, ouro e vermelho, folhas verde-acinzentadas, avermelhadas e da cor da ferrugem, pontas e sombras profundas debaixo de arbustos. O movimento no calor do dia fazia as sombras tremularem, vibrando no ar. Daí a pouco Stilgar disse:
— Eu sou apenas um líder dos Fremen, você é o filho de um Duque.
— Não sabendo o que dizia, você o disse — replicou Leto.
Stilgar franziu a testa. Certa vez, muito tempo atrás, o Muad'Dib o repreendera dessa maneira.
— Você se lembra disso, não se lembra, Stil? — perguntou Leto. — Nós estávamos embaixo da cordilheira Habbanya, e aquele capitão Sardaukar, lembra-se dele? Aramsham? Ele matou seu companheiro para se salvar. E você advertiu várias vezes naquele dia quanto ao risco de poupar as vidas dos Sardaukar que haviam visto nossos métodos secretos. E finalmente você disse que eles, com certeza, iam revelar o que tinham visto e que deviam ser mortos. E meu pai disse: “Não sabendo o que dizia, você o disse.” Você ficou magoado e lhe disse que era um simples líder dos Fremen e que os Duques deviam conhecer coisas mais importantes.
Stilgar olhou surpreso para Leto. “Nós estávamos embaixo da cordilheira Habbanya! Nós!” Essa... essa criança que não havia nem mesmo sido concebida naquele dia sabia o que acontecera com todos os detalhes.
Detalhes que só podiam ser do conhecimento de alguém que estivera lá.
Era apenas outra prova de que essas crianças Atreides não podiam ser julgadas pelos padrões normais.
— Agora você me ouvirá — continuou Leto. — Se eu morrer ou desaparecer no deserto, você deverá fugir do Sietch Tabr. Eu o ordeno. Você deve levar Gham e...
— Você ainda não é o meu Duque! Você é... uma criança!
— Sou um adulto em corpo de criança. — Leto apontou para uma estreita fenda nas rochas abaixo deles. — Se eu morrer aqui, será naquele lugar. Você verá o sangue e então saberá. Pegue minha irmã e...
— Vou dobrar a sua guarda — respondeu Stilgar. — Não virá aqui novamente. Vamos embora agora e você...
— Stil! Você não pode me proteger. Volte sua mente uma vez mais para aquela ocasião, na cordilheira Habbanya, Lembra-se? O trator-fábrica estava lá na areia e um grande Produtor se aproximava. Não havia modo de salvar aquele trator de esteiras do verme. E meu pai ficou aborrecido com isso. Mas Gurney pensava apenas nos homens que perdera nas areias. Lembre-se do que ele disse: “Seu pai teria ficado mais preocupado com os homens que não pudesse ter salvo.” Stil, eu o encarrego de salvar as pessoas. Elas são mais importantes que as coisas. E Gham é a mais preciosa de todas, porque sem mim ela é a única esperança dos Atreides...
— Não ouvirei mais nada — disse Stilgar.
Voltou-se e começou a descer pelas rochas em direção ao oásis do outro lado da extensão de areia. Ouviu Leto seguindo-o e daí a pouco este o ultrapassou, olhando para trás e dizendo:
— Já reparou, Stil, como as moças estão bonitas este ano?
A vida de um único ser humano, assim como a vida de uma família ou de todo um povo, persiste na memória. Meu povo deve passar a ver nisso uma parte de seu processo de maturação. Trata-se de um povo semelhante a um organismo, e nessa memória persistente seus membros armazenam mais e mais experiências num reservatório subliminar. A humanidade deve poder recorrer a esse material se ele for necessário para mudar o universo. Mas muito do que está guardado pode ser perdido naquele jogo casual de acidentes que nós chamamos de “destino”. Muito pode não ser integrado em relações evolutivas, e assim não ser avaliado e colocado em ação pelas contínuas mudanças ambientais que agem, cobre a carne. Uma especie pode esquecer Eis aí um valor do Kwisat Haderach de que nunca suspeitaram: o Kawisat. Haderach não pode esquecer.
- O Livro de Leto segundo Harq al-Ada
Stilgar não sabia como explicar, mas achara a observação casual de Leto profundamente inquietante. Aquilo permaneceu em sua consciência durante toda a caminhada através da areia até o Sietch Tabr, tomando precedência sobre tudo mais que Leto dissera lá no Criado.
De fato, as jovens de Arrakis estavam muito bonitas nesse ano. E os rapazes também. Seus rostos brilhavam serenamente com a abundância de água, seus olhos olhavam adiante, para muito longe. Eles expunham suas feições com frequência, sem a exigência das máscaras ou tubos de recolhimento dos trajes-destiladores. Freqüentemente, nem mesmo usavam o traje-desolador ao ar livre, preferindo as novas indumentárias que, com os movimentos, ofereciam rápidos vislumbres de seus corpos ágeis e jovens.
Tal beleza humana apresentava-se diante da nova beleza da paisagem. Em contraste com o velho Arrakis, o olhar podia encantar-se agora com a visão ocasional de um conjunto de ramos verdes crescendo entre rochas marrom-avermelhadas. E os velhos alojamentos da cultura das cavernas, com seus minuciosos selos e armadilhas de umidade em cada entrada, estavam sendo
substituídos por vilas em campo aberto, frequentemente construídas com tijolos de lama seca. Lama!
“Por que desejei que aquela vila fosse destruída?”, perguntou-se Stilgar, e tropeçou enquanto caminhava.
Sabia pertencer a uma raça em extinção. Os velhos Fremen assombravam-se com a abundância e o esbanjamento em seu planeta. Água desperdiçada no ar por nada mais que sua capacidade de moldar tijolos de construção, A água usada em uma única habitação, de uma só família, poderia manter vivo um sietch inteiro durante um ano.
As novas construções possuíam até mesmo janelas transparentes para deixar entrar o calor do sol e aliviar a umidade no interior. Tais janelas abriam-se para o exterior.
Os novos Fremen, com suas casas de lama, podiam olhar a paisagem ao redor, não se encontravam mais fechados e acotovelados dentro de um sietch. E
para onde a nova visão se voltava também viajava a imaginação.
Stilgar podia sentir isso. A nova visão unia os Fremen ao resto do universo imperial, condicionando-os ao espaço ilimitado. Eles, que um dia haviam estado presos ao seco planeta Arrakis, escravos das mínimas necessidades, sem compartilhar da mente aberta dos habitantes da maioria dos planetas do Império.
Stilgar podia ver as mudanças contrastando com suas próprias dúvidas e temores. Nos velhos dias, raro era o Fremen que até mesmo considerava a possibilidade de deixar Arrakis e começar vida nova num dos mundos ricos em água. A eles não se permitia nem mesmo sonhar com a fuga.
Olhou para as costas de Leto enquanto o jovem caminhava à sua frente.
Leto falara em proibições com relação a sair do planeta. Bem, isso sempre fora realidade na maioria dos outros mundos, mesmo naqueles onde o sonho era permitido como válvula de escape. Mas a escravidão planetária chegara ao auge em Arrakis. E os Fremen se haviam voltado para o interior, fechando-se em suas mentes, tal como estavam fechados em suas cavernas.
O próprio significado da palavra sietch um refúgio em épocas turbulentas se havia pervertido num monstruoso confinamento para uma população inteira.
Leto falara a verdade: o Muad'Dib mudara tudo isso.
Stilgar sentia-se perdido. Podia sentir suas velhas crenças desmoronando.
A nova visão do exterior produzia uma vida que desejava escapar a qualquer confinamento.
“Como as moças estão bonitas este ano.”
Os velhos costumes (“Meus costumes!”, ele admitiu) haviam forçado seu povo a ignorar toda a história, exceto aquela que se refletia internamente em suas próprias labutas. Os velhos Fremen haviam estudado a história de suas próprias e terríveis migrações, seus voos de perseguição em perseguição. O velho governo planetário seguira a política declarada do velho Império. Eles haviam suprimido a criatividade e todo o sentido de progresso, de evolução. A prosperidade era uma coisa perigosa para o velho Império e os seus donos do poder.
Com um abrupto choque, Stilgar percebeu que essas também eram coisas perigosas no caminho que Alia estava seguindo.
Novamente, tropeçou e ficou ainda mais atrás de Leto.
Nos velhos costumes e religiões, não existia futuro, apenas um interminável agora. Stilgar percebia que antes do Muad'Dib os Fremen haviam sido condicionados a acreditar no fracasso, nunca na possibilidade de realização. Bem...
eles haviam acreditado em Liet-Kynes, mas ele trabalhara com uma escala de tempo de 40 gerações. Tal coisa não constituía uma conquista, era apenas um sonho que, ele agora percebia, também se voltara para dentro.
“O Muad'Dib mudara tudo isso!”
Durante o Jihad, os Fremen haviam aprendido muito a respeito do velho imperador Padishah, Shaddam IV. O 81.° Padishah da Casa Corrino a ocupar o Trono do Leão Dourado e reinar sobre esse império de incontáveis mundos usara Arrakis como campo de testes para as políticas que esperava implementar no resto de seu império. Seus governadores planetários em Arrakis haviam cultivado um pessimismo persistente para reforçar suas bases de poder. Eles se haviam certificado de que todas as pessoas em Arrakis, até mesmo os Fremen, que vagueavam livremente, se familiarizassem com numerosos casos de injustiça e problemas insolúveis, elas haviam aprendido a pensar em si mesmas como pessoas desamparadas, para as quais não haveria auxílio.
“Como as moças estão bonitas este ano!”
Enquanto observava as costas de Leto, que se afastava, Stilgar começou a se admirar com o modo como o jovem havia feito todos esses pensamentos fluírem em sua mente apenas com aquele comentário banal. Por causa daquele comentário, Stilgar surpreendera-se encarando Alia e seu próprio papel no Conselho de maneira inteiramente diferente.
Alia gostava de dizer que os velhos costumes cediam terreno lentamente.
E Stilgar admitia que sempre achara essa declaração vagamente tranquilizadora. A mudança era algo perigoso. As invenções deviam ser proibidas. A capacidade do indivíduo tinha de ser negada. Para que outra função servia o clero senão para negar a vontade individual?
Alia ficava dizendo que as oportunidades de competição aberta deviam ser reduzidas aos limites controláveis. Mas isso significava que a ameaça periódica da tecnologia só poderia ser usada para confinar as populações exatamente como servira aos seus antigos senhores. Qualquer tecnologia permitida devia ser incorporada aos rituais. De outro modo... de outro modo...
Novamente Stilgar tropeçou. Estava no qanat agora e viu Leto esperando embaixo de um pomar de damascos que crescia ao longo do curso dágua.
Stilgar ouviu seus pés caminharem através do capim alto.
“Capim alto!”
“Em que posso acreditar?”, perguntou-se Stilgar.
Era próprio dos Fremen de sua geração acreditar que os indivíduos necessitavam de um profundo senso de suas próprias limitações. As tradições eram certamente o principal elemento de controle em uma sociedade segura. As pessoas
deviam conhecer as fronteiras de seu tempo, de sua sociedade, de seu território.
Que havia de errado com o sietch como modelo de todo esse modo de pensar? Um senso de clausura penetrando cada escolha individual cercando a família, a comunidade e cada medida tomada por um governo correto.
Stilgar parou e olhou, através do pomar, para Leto. O jovem estava lá, olhando-o com um sorriso.
“Será que ele sabe da agitação em minha cabeça?”
E o velho Naib Fremen tentou refugiar-se no catecismo tradicional de seu povo. Cada aspecto da vida exigia uma única forma, sua circularidade inerente baseada num secreto conhecimento interior do que dará certo e do que não dará. O
modelo para a vida, para a comunidade, para cada elemento de uma sociedade maior, até e além dos cumes do governo esse modelo deve ser o sietch e seu equivalente na areia: o Shai-Hulud. O gigantesco verme da areia era certamente a mais formidável das criaturas, mas quando ameaçado ele se escondia em profundezas impenetráveis.
“A mudança é perigosa!”, repetiu para si mesmo. Uniformidade e estabilidade eram os objetivos adequados para um governo.
Mas os rapazes e as moças estavam belos.
E eles se lembravam das palavras do Muad'Dib ao depor Shaddam IV: “O
que eu busco não é vida longa para o Imperador, é vida longa para o Império.”
“Não foi isso que estive dizendo a mim mesmo?”, perguntou-se Stilgar.
Voltou a caminhar, dirigindo-se para a entrada do sietch ligeiramente à direita de Leto. O jovem procurou interceptá-lo.
O Muad'Dib dissera outra coisa, lembrou-se Stilgar: “Exatamente como os indivíduos nascem, amadurecem, procriam e morrem, assim também o fazem as sociedades, as civilizações e os governos.”
Perigosa ou não, haveria mudança. Os jovens e belos Fremen sabiam disso.
Eles podiam olhar em frente e vê-la, e preparar-se para quando ela viesse.
Stilgar foi obrigado a parar. Era isso ou caminhar diretamente para cima de Leto.
O jovem olhou para ele com astúcia e disse:
Está vendo, Stil? A tradição não é o guia absoluto que você pensou que fosse.
Um Fremen morre quando está muito longe do deserto, nós chamamos isso de “doença da água”.
- Comentários de Stilgar
— Para mim, é difícil pedir-lhe para fazer isso — disse Alia. — Mas... devo me certificar de que haverá um Império para os filhos de Paul herdarem. Não existe outro motivo para a Regência.
Alia voltou-se de onde estava sentada, diante do espelho, completando sua arrumação matinal. Olhou para o marido, observando como ele recebia essas palavras. Duncan Idaho merecia um estudo cuidadoso nesses momentos, não havia dúvida de que ele se tornara algo muito mais sutil e perigoso do que o espadachim da Casa Atreides que um dia fora. A aparência externa permanecia similar: o cabelo negro sobre feições severas e escuras mas nos longos anos desde que despertara do estado de ghola ele sofrera uma metamorfose interior.
Ela se perguntava agora, como se perguntara muitas vezes, o que o renascimento ghola poderia ter ocultado em seu secreto isolamento. Antes que os Tleilaxu houvessem exercido sobre ele suas técnicas sutis, as reações de Duncan haviam ostentado rótulos claros para os Atreides lealdade, adesão fanática ao código de moral de seus antepassados mercenários, rapidez em se enfurecer e rapidez em se recuperar. Fora implacável em sua decisão de se vingar da Casa Harkonnen, e morrera salvando Paul. Mas os Tleilaxu compraram seu corpo aos Sardaukar e em seus tanques de regeneração haviam criado um zumbi-katrundo: a carne de Duncan Idaho sem qualquer de suas memórias conscientes. Ele fora treinado como mentat e enviado como presente, um computador humano para ser usado por Paul, excelente ferramenta equipada com a compulsão hipnótica de matar seu dono. Mas a carne de Duncan Idaho resistiria a essa compulsão e, na intolerável tensão assim resultante, seu passado celular retornara a ele.
Muito tempo atrás, Alia concluíra que era perigoso pensar nele como Duncan na privacidade de seus pensamentos. Melhor pensar nele com o nome de ghola: Hait. Muito melhor. E era essencial que ele não tivesse o menor vislumbre do velho Barão Harkonnen sentado ali, na mente dela.
Duncan percebeu que Alia o observava e virou-lhe as costas. O amor não podia ocultar as mudanças que se haviam processado nela, nem lhe esconder a transparência de seus motivos. Os facetados olhos de metal com que os Tleilaxu o haviam equipado eram cruéis em sua capacidade de penetrar através da dissimulação. Eles a pintavam agora como uma figura maligna, quase masculina, e ele não podia suportar vê-la desse modo.
— Por que me volta as costas? — perguntou Alia.
— Eu devo pensar nisso — respondeu ele. — Lady Jessica é... uma Atreides.
— E sua lealdade é para com a Casa Atreides, não para comigo —
reclamou Alia, fazendo beicinho.
— Não me considere uma pessoa volúvel — ele respondeu.
Alia comprimiu os lábios. Teria sido muito intempestiva em sua abordagem?
Duncan caminhou para a sacada coberta que se abria sobre um canto da praça do Templo. Podia ver os peregrinos começando a se reunir lá embaixo e os comerciantes de Arrakeen avançando para se nutrirem nas extremidades do grupo como uma matilha de predadores atacando uma manada de bestas.
Sua atenção voltou-se para um grupo especial de comerciantes, com cestos de fibra trançada sobre os braços, mercenários Fremen andando um passo atrás deles. Caminhavam com uma força impassível através da multidão que ganhava corpo.
— Eles vendem peças de mármore gravada — disse, apontando. — Sabia disso? Colocam as peças no deserto para serem esculpidas pelas areias das tormentas. Por vezes surgem desenhos interessantes. Chamam isso de uma nova forma de arte, muito popular: genuíno mármore gravado pelas tempestades de Duna. Comprei uma peça semana passada: uma árvore dourada com cinco pingentes. Linda, mas muito frágil.
— Não mude de assunto — disse Alia.
— Não mudei de assunto. É bonito, mas não é arte. Os seres humanos é que criam arte, com sua própria impetuosidade, com sua própria força de vontade.
Colocou a mão direita sobre o peitoril da janela. Os gêmeos detestam esta cidade, e eu temo começar a perceber seus motivos.
— Não consigo ver a relação — disse Alia. — O sequestro de minha mãe não será um sequestro verdadeiro. Ela estará segura como sua prisioneira.
— Esta cidade foi construída pelos cegos. Você sabia que Leto e Stilgar saíram do Sietch Tabr para entrarem no deserto na semana passada? Ficaram ausentes uma noite inteira.
— Foi-me relatado. Essas bugigangas do deserto... Deseja que eu proíba sua venda?
— Isso seria ruim para os negócios — disse ele, voltando-se. — Sabe o que Stilgar me disse quando lhe perguntei por que saíra para andar na areia daquele jeito? Disse que Leto desejava comungar com o espírito do Muad'Dib.
Alia sentiu o súbito frio do pânico e olhou para o espelho por um momento para se recuperar. Leto não se aventuraria para fora do sietch, à noite, para tamanha tolice. Seria uma conspiração?
Idaho colocou uma das mãos sobre os olhos para tapar a visão de Alia e disse:
— Stilgar me disse que foi com Leto porque ainda acredita no Muad'Dib.
— É claro que ele acredita!
Idaho riu, um som oco.
— Ele disse que ainda acredita porque o Muad'Dib sempre foi a favor dos pequenos.
— E o que você lhe respondeu? — perguntou Alia, sua voz revelando o medo.
Idaho tirou a mão dos olhos.
— Eu disse: isso deve fazer de você um dos pequenos.
— Duncan! Isso foi um jogo perigoso. Provoque aquele Naib Fremen e poderá despertar uma fera que nos destruirá a todos.
— Ele ainda acredita no Muad'Dib. Essa é nossa proteção.
— Qual foi a resposta dele?
— Ele disse que conhecia seus próprios motivos.
— Percebo.
— Não... não creio que perceba. As coisas que mordem têm dentes mais longos que os de Stilgar.
— Não estou entendendo você hoje, Duncan. Estou lhe pedindo para fazer uma coisa muito importante, uma coisa vital para... Por que toda essa divagação incoerente?
Como ela soava petulante. Ele voltou-se novamente para a janela.
— Quando fui treinado como mentat... É muito difícil, Alia, aprender a usar sua própria mente. Você aprende primeiro que deve permitir à mente funcionar sozinha. Isso é muito estranho. Você pode exercitar seus próprios músculos, torná-los fortes, mas a mente age sozinha. Às vezes, depois que aprendeu a respeito de sua própria mente, ela lhe mostra coisas que você não quer ver.
— E foi por isso que tentou insultar Stilgar?
— Stilgar não conhece sua própria mente: não permite que ela funcione livremente.
— Exceto numa orgia de especiaria.
— Nem mesmo assim. Isso é que o torna um Naib. Para ser um líder de homens, ele controla e limita suas reações. Faz aquilo que se espera dele. Uma vez sabendo disso, você passa a conhecer Stilgar e pode medir o comprimento de seus dentes.
— Esse é o modo Fremen — disse ela. — Bem, Duncan, você vai fazê-lo ou não vai?
— Ela deve ser apanhada, a coisa toda deve parecer um trabalho da Casa Corrino.
Ele permaneceu em silêncio, julgando-lhe os argumentos e o tom de voz à sua maneira mentat. Esse plano de rapto revelava uma frieza e uma crueldade cujas dimensões, assim expostas, o haviam chocado. Arriscar a vida de sua própria mãe pelas razões até então apresentadas? Alia estava mentindo. Talvez os boatos a respeito dela e Javid fossem verdadeiros.
Esse pensamento produziu uma rigidez gelada no estômago de Idaho.
— Você é o único em quem posso confiar para isso — disse Alia.
— Sei disso.
Ela tomou estas palavras como sinal de aceitação e sorriu para si mesma no espelho.
— Você sabe que um mentat aprende a ver cada ser humano como uma série de relacionamentos?
Alia não respondeu. Continuou sentada, tomada por uma lembrança pessoal que produziu uma expressão vazia em seu rosto. Idaho, olhando por sobre
o ombro, viu aquela expressão e estremeceu. Era como se ela escutasse vozes que somente ela pudesse ouvir.
— Relacionamentos — Alia sussurrou.
E ele pensou: “Devemos lançar fora velhos sofrimentos como a cobra abandona sua pele apenas para criar um novo conjunto e aceitar todas as nossas limitações. É o mesmo com os governos até com a Regência. Velhos governos podem ser acompanhados como mudas de penas. Devo realizar esse plano, mas não do modo como Alia ordena.”
Daí a pouco ela sacudiu os ombros e disse:
— Leto não devia ficar saindo por aí daquele jeito numa época como esta.
Vou repreendê-lo.
— Nem mesmo com Stilgar?
— Nem mesmo com ele.
Ela ergueu-se do espelho e caminhou até onde Idaho se encontrava, diante da janela, colocando uma das mãos em seu braço.
Ele reprimiu um estremecimento, reduzindo sua reação a uma computação mentat. Alguma coisa nela o revoltava. Alguma coisa nela.
Não conseguia forçar-se a olhá-la. Ela rescendia à melange de seus cosméticos. Ele pigarreou.
Alia disse:
— Estarei ocupada hoje, examinando os presentes de Faradin.
— As roupas?
— Sim. Nada do que ele faz é o que parece. E devemos nos lembrar que o seu Bashar, Tvekanik, é um adepto do chaumurky, dos chaumas e de toda a parafernália ligada a assassinatos de nobres.
— O preço do poder — disse ele, afastando-se dela. — Mas ainda temos mobilidade e Faradin não tem.
Ela observou-lhe o perfil bem-delineado. Algumas vezes, o funcionamento daquela mente era muito difícil de perceber. Estaria ele apenas pensando que a liberdade de ação é a vida do poder militar? Bem, a vida em Arrakis havia sido muito segura por muito tempo. Sentidos aguçados por perigos onipresentes podiam atrofiar-se por falta de uso.
— Sim — ela concordou. — Ainda temos os Fremen.
— Mobilidade — repetiu ele. — Não podemos degenerar para uma infantaria. Isso seria tolice.
Seu tom de voz a aborreceu e ela disse:
— Faradin usará qualquer meio a seu alcance para nos destruir.
— Ah, é isso — ele disse. — Essa é uma forma de iniciativa, uma mobilidade que não tínhamos nos velhos dias. Tínhamos um código, o código da Casa Atreides. Sempre ganhávamos apenas o suficiente e deixávamos que os inimigos fossem os saqueadores. Essa restrição não mais se mantém, é claro.
Temos igual mobilidade, a Casa Atreides e a Casa Corrino.
— Nós vamos raptar minha mãe para salvá-la do perigo, tanto quanto por qualquer outro motivo — protestou Alia. — Ainda vivemos pelo código.
Ele olhou para ela. Ela conhecia os riscos de incitar um mentat a computar.
Será que não perceberia o que ele havia computado? Entretanto... ele ainda a amava. Passou uma das mãos sobre os olhos. Como ela parecia jovem. Lady Jessica estava certa. Alia aparentava não ter envelhecido um dia em todos esses anos.
Ainda tinha as feições suaves de sua mãe Bene Gesserit, mas os olhos eram tipicamente Atreides. Exigentes, calculistas, como os de um falcão. E agora alguma coisa capaz de uma frieza cruel rondava por trás daqueles olhos.
Idaho servira a Casa Atreides por muitos anos para não entender as forças da família, assim como suas fraquezas. Mas essa coisa dentro de Alia era nova. Os Atreides podiam jogar um jogo tortuoso contra seus inimigos, mas nunca contra amigos e aliados, e de modo algum contra a Família. Isso era básico no modo de agir dos Atreides: apoiar sua própria população ao máximo de sua capacidade, mostrar-lhe como vivia melhor sob o governo dos Atreides. Demonstrar seu amor para com seus amigos pela candura de seu comportamento em relação a eles. O
que Alia lhe pedia agora não era típico dos Atreides. Ele sentia isso em toda a carne, em toda a estrutura nervosa de seu corpo. Ele era uma unidade, indivisível, sentindo essa atitude alienígena em Alia.
De repente sua percepção mentat entrou em consciência total e sua mente saltou no transe congelado onde não existia o Tempo, apenas a computação. Alia perceberia o que lhe acontecera, mas não poderia evitar.
Entregara-se à computação.
Computação: uma Lady Jessica refletida vivia uma pseudovida na consciência de Alia. Ele percebia isso, assim como percebia o reflexo do Duncan Idaho pré-ghola que permanecia como uma constante em sua própria consciência.
Alia tinha essa percepção por ser um dos pré-nascidos. Ele recebera essa consciência nos tanques de regeneração dos Tleilaxu.
Entretanto, Alia negava esse reflexo arriscando a vida de sua mãe.
Portanto, Alia não estava em contato com aquela pseudo Jessica dentro dela. Daí resultava que Alia se encontrava totalmente possuída por outra pseudovida que excluíra as demais.
“Possuída!”
“Alienígena!”
“Abominação!”
À maneira mentat, ele aceitou isso e voltou-se para as outras facetas do problema. Todos os Atreides encontravam-se naquele único planeta. A Casa Corrino arriscaria um ataque a partir do espaço? Sua mente relampejou através de uma retrospectiva daquelas convenções que haviam terminado com as formas primitivas de guerra:
1) Todos os planetas são vulneráveis a ataques do espaço, logo, as instalações para vingança/ retaliação são construídas fora dos planetas por cada uma das Grandes Casas. Faradin deveria saber que os Atreides não teriam negligenciado essa precaução elementar.
2) Os campos de força eram uma defesa absoluta contra projéteis e explosivos de tipo não-atômico, a principal razão pela qual a luta individual, com as
mãos, se re-introduzira nos combates humanos. Mas a infantaria tinha suas limitações. A Casa Corrino poderia ter treinado seus Sardaukar para que recuperassem a eficiência pré-Arrakeen, mas eles ainda não seriam páreo para a ferocidade dos Fremen.
3) O feudalismo planetário permanecia em constante ameaça ante uma grande classe composta por técnicos, mas os efeitos do Jihad Butleriano continuavam a amortecer os excessos tecnológicos. Os ixianos, os Tleilaxu e alguns planetas externos, espalhados pelo espaço, constituíam a única ameaça possível desse gênero, mas eram planetariamente vulneráveis à ira combinada do restante do Império. O Jihad Butleriano não poderia ser desfeito. A guerra mecanizada exigiria uma grande classe de técnicos e o Império dos Atreides canalizara tal força na busca de outros objetivos.
Não havia uma grande classe de técnicos que não fosse vigiada. E o Império permanecia seguramente feudal, como era natural, de vez que essa era a melhor forma de sociedade tendo em vista a expansão sobre fronteiras selvagens amplamente dispersas: os novos planetas.
Duncan sentia sua consciência mentat coruscando enquanto disparava através de seus próprios dados de memória, completamente imune à passagem do Tempo. Chegando à convicção de que a Casa Corrino não iria arriscar-se a um ataque atômico ilegal, ele o fez numa computação instantânea, a trilha principal de decisão, mas perfeitamente consciente dos elementos que compunham essa convicção: o Império dispunha de tantas armas nucleares e afins quanto todas as Grandes Casas combinadas. Pelo menos metade das Grandes Casas reagiria sem pensar se a Casa Corrino quebrasse a Convenção. E o sistema de retaliação dos Atreides, fora do planeta, receberia a adesão de uma força esmagadora, sem haver sequer necessidade de convocá-la. O medo faria a chamada. Salusa Secundus e seus aliados desapareceriam em nuvens escaldantes. A Casa Corrino não se arriscaria a tal holocausto. Seus membros eram indubitavelmente sinceros em subscreverem o argumento de que as armas nucleares deviam ser reservadas para um único propósito: a defesa da humanidade caso “outra inteligência” ameaçadora algum dia fosse encontrada.
Os pensamentos por computação tinham limites distintos, nítido relevo.
Não havia espaços intermediários indistintos. Alia escolhia o terror e o sequestro porque se tornara uma coisa estranha, não-Atreides. A Casa Corrino era uma ameaça, mas não da maneira apresentada por Alia em Conselho. Alia queria que Lady Jessica fosse afastada porque aquela flamejante inteligência Bene Gesserit havia percebido o que apenas agora se tornava evidente para Idaho.
Saiu do transe mentat e viu Alia diante de si com uma fria expressão avaliadora no rosto.
— Não seria melhor que Lady Jessica fosse morta? — perguntou ele.
O estranho brilho da satisfação de Alia ficou exposto diante de seus olhos no breve instante que ela levou para cobri-lo de falsa indignação.
— Duncan!
Sim, essa Alia-alienígena preferia o matricídio.
— Você não teme por sua mãe, teme a ela, — ele disse. Ela falou sem qualquer alteração em seu olhar avaliador.
— É claro que a temo. Ela tem enviado relatórios a meu respeito para a Irmandade.
— Que quer dizer com isso?
— Não sabe qual é a maior tentação para uma Bene Gesserit? —
Aproximou-se dele sedutoramente, olhando-o de baixo para cima através das pálpebras semicerradas. — Eu só desejava me manter forte e alerta para o bem dos gêmeos.
— Você falou em tentação — disse ele com a voz sem emoção de um mentat.
— Aquilo que a Irmandade oculta mais profundamente, a coisa que elas mais temem. É por isso que me chamam de Abominação. Elas sabem que suas inibições não vão me deter. Tentação elas sempre falam com grande ênfase:” A Grande Tentação. Não percebe? Nós, que empregamos os ensinamentos Bene Gesserit, podemos influenciar coisas tais como o ajustamento interno do equilíbrio enzimático de nossos corpos. Ele pode prolongar a juventude muito além da capacidade da melange. Percebe as consequências que adviriam se muitas Bene Gesserit s fizessem isso? Seria notado. Tenho certeza que está computando a precisão do que digo. A melange é que nos torna alvo de tantas tramas. Nós controlamos uma substância que prolonga a vida. E se for conhecido que as Bene Gesserit s controlam um segredo ainda mais poderoso? Percebe? Nenhuma Reverenda Madre estaria segura. O sequestro e a tortura de Bene Gesserit s se tornariam prática comum.
— E você obteve esse equilíbrio de enzimas. — Era uma constatação, não uma pergunta.
— Eu desafiei a Irmandade! Os relatórios de minha mãe para a Irmandade tornarão as Bene Gesserit s firmes aliadas da Casa Corrino.
“Como é plausível”, pensou ele, e disse, sondando:
— Mas certamente sua própria mãe não se voltaria contra você!
— Ela era Bene Gesserit muito antes de ser minha mãe, Duncan. Ela permitiu que seu próprio filho, meu irmão, fosse submetido ao teste do gom jabbar.
Ela arranjou isso! Sabendo que talvez ele não sobrevivesse ao teste! As Bene Gesserit s sempre foram fracas na fé e fortes no pragmatismo. Ela se voltará contra mim se acreditar que é o melhor para os interesses da Irmandade.
Ele assentiu com a cabeça. Como ela era convincente. Era um pensamento tão triste.
— Devemos manter a iniciativa — continuou Alia. — Essa é nossa melhor arma.
— Há o problema do Gurney Halleck — ele disse. — Terei de matar meu velho amigo?
— Gurney está fora em alguma missão de espionagem no deserto —
respondeu ela, consciente de que Idaho já sabia disso. — Está seguramente fora do caminho.
— Muito estranho. O Governador Regente de Caladan em missões aqui em Arrakis.
— Por que não? Ele é o amante dela, em seus sonhos, senão de fato.
— Sim, é claro. — E se admirou de que ela não tivesse percebido a insinceridade em sua voz.
— Quando vai raptá-la? — quis saber Alia.
— É melhor que não saiba.
— Sim... sim, percebo. Aonde vai levá-la?
— Aonde ela não possa ser encontrada. Confie nisso. Ela não vai ser deixada aqui para ameaçá-la.
O brilho nos olhos de Alia era evidente:
— Mas onde irá...
— Se não souber, poderá responder ante uma Reveladora da Verdade, se for necessário, que não sabe onde ela está.
— Ah, como é esperto, Duncan.
“Agora ela acredita que vou matar Lady Jessica”, pensou ele. E disse:
— Adeus, minha amada.
Ela não percebeu a determinação em sua voz e até mesmo o beijou levemente enquanto ele saía.
E por todo o caminho, através dos labirintos do Templo, que lembravam os corredores de um sietch, Idaho esfregava os olhos. Os olhos dos Tleilaxu não eram imunes às lágrimas.
Você amou Caladan E chorou seu anfitrião perdido...
Mas a dor logo descobre
Que novos amores não podem apagar
Aqueles eternos”.
- Refrão do Lamento de Habbanya
Stilgar quadruplicou a guarda do sietch em torno dos gêmeos, mas sabia que isso era inútil. O garoto era como seu homônimo Atreides, o avô Leto.
Todos que haviam conhecido o Duque original reparavam nisso. Leto tinha aquela aparência equilibrada, e uma cautela, sim, mas tudo isso devia ser avaliado em relação àquela impetuosidade latente, uma suscetibilidade para tomar decisões perigosas.
Ghanima era mais como a mãe. Lá estava o cabelo vermelho de Chani, os olhos dela e um modo calculado na maneira como se ajustava às dificuldades. Dizia com frequência que só fazia o que era preciso fazer, mas aonde Leto a conduzisse, ela o seguiria.
E Leto iria levá-los ao perigo.
Nenhuma vez Stilgar pensou em levar seus problemas a Alia. Isso também eliminava Irulan, que em tudo acompanhava Alia. Ao chegar a sua decisão, Stilgar percebia que aceitara a possibilidade de Leto ter julgado Alia corretamente.
“Ela usa as pessoas de modo cruel e descuidado”, pensou. “Usa até mesmo o Duncan desse modo. Não seria preciso muito para que ela se voltasse contra mim e me matasse. Ela me descartaria.”
Enquanto isso, a guarda era reforçada e Stilgar rondava seu sietch como um espectro envolto em mantos, espionando tudo. Todo o tempo, sua mente fervilhava com as dúvidas que Leto plantara. Se não devemos depender da tradição, onde estará então a rocha sobre a qual poderemos ancorar nossas vidas?
Na tarde da Convocação de Boas-Vindas para Lady Jessica, Stilgar espionou Ghanima, que aguardava ao lado da avó à entrada da grande câmara de assembléias do sietch. Ainda era cedo e Alia não chegara, mas as pessoas já entravam em grande número, lançando olhares disfarçados para a criança e a adulta enquanto passavam.
Stilgar parou em um nicho sombreado, fora do fluxo da multidão, e observou a dupla, incapaz de ouvir suas palavras acima do murmurante palpitar do público que se reunia. Gente de muitas tribos estaria ali para dar as boas-vindas à sua velha Reverenda Madre que retornava.
Stilgar olhava para Ghanima. Os olhos dela, o modo como se moviam enquanto ela falava! Esse movimento o fascinava. Aqueles olhos azuis profundos, exigentes, avaliadores. E o modo como lançava os cabelos ruivos para fora dos ombros com um giro da cabeça, era igual a Chani. Uma ressurreição fantasmagórica, uma semelhança misteriosa.
Lentamente, Stilgar se aproximou, tomando posição em outro nicho.
Era incapaz de associar o modo observador de Ghanima com o de qualquer outra criança de seu conhecimento. Exceto o irmão dela. Onde estaria Leto? Stilgar olhou para trás, em direção à passagem apinhada. Seus guardas teriam dado o alarme se alguma coisa estivesse errada. Sacudiu a cabeça. Esses gêmeos eram um perigo para a sua saúde mental, um atrito constante contra sua paz interior. Quase podia odiá-los. Os parentes não eram imunes ao ódio de uma pessoa, mas o sangue (e sua preciosa água) levava consigo exigências de tolerância que transcendiam a maioria das outras preocupações. Esses gêmeos constituíam sua maior responsabilidade.
A luz parda, filtrando-se através da poeira, saía da cavernosa câmara da assembléia, além de Jessica e Ghanima. Tocava o ombro da criança e o novo manto branco que ela usava, iluminando-lhe o cabelo por trás, enquanto ela se virava para olhar as pessoas que passavam.
“Por que Leto me afligiu com essas questões?”, perguntou-se. Não havia dúvida de que o fizera deliberadamente. “Talvez quisesse que eu vivenciasse uma pequena parte de sua própria experiência mental.” Stilgar sabia que esses gêmeos eram diferentes, mas seus processos de raciocínio sempre se mostraram incapazes de aceitar o que sabia. Nunca havia experimentado o ventre como uma prisão para
a consciência desperta. Uma consciência viva a partir do segundo mês de gestação, como se dizia.
Certa vez, Leto dissera que sua memória era como uma holografia interna, expandindo-se em tamanho e detalhes desde aquele chocante despertar original, embora sem nunca modificar a forma ou os contornos.