Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 3 de 8 · parte 3/3

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Os Filhos de Duna

— Acredita que sejamos completas idiotas? — perguntou Jessica.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Pela primeira vez, enquanto observava Ghanima e Lady Jessica, Stilgar começou a compreender o que seria viver em tal teia de memórias convulsionadas, incapaz de recuar ou encontrar um refúgio seguro na mente. Enfrentando tal condição, alguém teria de integrar a loucura, selecionando e rejeitando uma multidão de ofertas num sistema onde as respostas mudavam tão rapidamente quanto as perguntas.

Não poderia haver tradição fixa aí. Nem respostas absolutas a perguntas de significado dúbio. O que funciona? Aquilo que não funciona. O que não funciona?

Aquilo que funciona. Ele reconhecia o padrão. Era o velho jogo de adivinhação dos Fremen. Pergunta: “Que é que traz a morte e a vida?”

Resposta: “O vento Coriolis.”

“Por que Leto quis que eu entendesse isso?” A partir de suas cautelosas sondagens, Stilgar sabia que os gêmeos compartilhavam uma visão mútua de sua diferença: pensavam nela como uma aflição. “O canal de nascimento seria um lugar arrasador para alguém assim”, pensou. A ignorância reduz o choque de certas experiências, mas eles não teriam tido ignorância alguma a respeito do parto. Como seria viver uma vida onde se conhecessem todas as coisas que poderiam sair erradas? Você enfrentaria uma constante guerra de dúvidas. E se ressentiria por ser diferente de seus companheiros. Ser-lhe-ia agradável infligir aos outros até mesmo um toque dessa diferença. “Por que eu?” seria a primeira pergunta sem resposta.

“E o que estive indagando a mim mesmo”, pensou ele. Um sorriso amargo tocou-lhe os lábios. “Por que eu?”

Vendo os gêmeos sob essa nova ótica, entendia os perigosos riscos que eles assumiam com seus corpos ainda não desenvolvidos. Certa vez, Ghanima lhe colocara a situação de modo sucinto, depois que ele a repreendera por ter escalado a íngreme face oeste até a plataforma acima do Sietch Tabr.

— Por que devo temer a morte? Já estive lá antes... muitas vezes.

“Como posso pensar em ensinar alguma coisa a essas crianças?”, perguntou-se. “Como alguém o pode?”

Curiosamente, os pensamentos de Jessica seguiam caminho semelhante enquanto ela conversava com a neta. Estivera pensando em como seria dificil transportar mentes maduras em corpos imaturos. O corpo teria de aprender tudo que a mente já sabia que ele poderia fazer, alinhando respostas e reflexos. O velho regime prana-bindu da Bene Gesserit lhes seria disponível, mas até mesmo lá a mente correria para onde a carne não ia poder acompanhá-la. Gurney tivera uma tarefa muito dificil em cumprir suas ordens.

— Stilgar está nos observando de um nicho lá atrás — disse Ghanima.

Jessica não se virou. Mas se sentiu confortada pelo que percebera na voz de Ghanima. Ghanima amava o velho Fremen como se ama um parente. Mesmo

quando falava dele de modo jocoso e o provocava, ela o amava. Essa compreensão forçou Jessica a ver o velho Naib sob nova luz, compreendendo numa revelação gestáltica o que os gêmeos e Stilgar compartilhavam. Esse novo Arrakis não se ajustava muito bem a Stilgar, percebia Jessica. Não mais do que esse novo universo se ajustava aos seus netos.

Sem ser invocado ou desejado, um velho ditado Bene Gesserit fluiu através da mente de Jessica: “Suspeitar de tua própria mortalidade é conhecer o princípio do terror, aprender irrefutavelmente que és mortal é conhecer o fim do terror.”

Sim, a morte não seria um peso difícil de suportar, mas a vida seria um fogo lento para Stilgar e os gêmeos. Eles achavam seu mundo inadequado e ansiavam por outros caminhos onde as variações poderiam ser conhecidas sem ameaças. Eram filhos de Abrahão, aprendendo mais com o vôo de um falcão sobre o deserto do que com qualquer livro já escrito.

Leto confundira Jessica apenas aquela manhã, quando haviam parado junto do qanat que fluía abaixo do sietch. Ele dissera:

— A água nos aprisiona, vovó. Estaríamos melhor vivendo como o pó, pois então o vento nos poderia carregar mais alto que os mais elevados penhascos da Muralha Escudo.

Embora estivesse familiarizada com tal maturidade tortuosa saindo das bocas dessas crianças, Jessica fora surpreendida por essas palavras, mas conseguira responder:

— Seu pai poderia ter dito isso.

Leto lançou um punhado de areia no ar para vê-lo cair.

— Sim, ele poderia. Mas meu pai não considerava, então, com que rapidez a água faz tudo cair de volta ao solo de onde veio.

Agora, de pé ao lado de Ghanima, dentro do sietch, Jessica sentiu novamente o choque daquelas palavras. Voltou-se, olhando para a multidão que ainda fluía, e deixou seu olhar vaguear sobre a silhueta sombreada de Stilgar dentro do nicho. Stilgar não era nenhum Fremen domado, treinado apenas para levar gravetos para o ninho. Ainda era um falcão e, quando pensava na cor vermelha, não estava pensando em flores, mas em sangue.

— Ficou tão quieta repentinamente — disse Ghanima. — Há algo errado?

Jessica sacudiu a cabeça.

— Foi algo que Leto disse esta manhã. Só isso.

Quando foram às plantações? Que foi que ele disse? Jessica pensou na curiosa aparência de sabedoria adulta que surgira no rosto de Leto, lá fora, naquela manhã. Era a mesma que agora surgia no rosto de Ghanima.

— Ele estava relembrando a ocasião em que Gurney retornou do meio dos contrabandistas para aderir novamente à bandeira dos Atreides — disse Jessica.

— Então vocês estavam falando a respeito de Stilgar.

Jessica não perguntou como viera essa percepção. Os gêmeos pareciam capazes de reproduzir as linhas de pensamento um do outro à vontade.

— Sim, estávamos — disse Jessica. — Stilgar não gostava de ouvir o Gurney lhamando... Paul de seu Duque, mas a presença de Gurney forçou a isso todos os Fremen. Gurney continuava dizendo “Meu Duque”.

— Percebo — disse Ghanima. — E é claro que Leto observou que ele ainda não era o Duque de Stilgar.

— Correto.

— Sabe o que ele estava fazendo com a senhora, é claro.

— Não estou certa — admitiu Jessica, e achou isso particularmente perturbador, pois nunca lhe ocorrera que Leto lhe estivesse fazendo alguma coisa.

— Ele estava tentando ativar suas memórias de nosso pai — explicou Ghanima. — Leto está sempre ansioso por conhecer nosso pai a partir dos pontos de vista de outros que o conheceram.

— Mas... Leto não tem...

— Oh, ele pode ouvir a sua vida interior. Certamente. Mas não é a mesma coisa. A senhora falou a respeito dele, é claro. Nosso pai, quero dizer. Falou nele como seu filho.

— Sim — admitiu Jessica. Não gostava da idéia de que esses gêmeos pudessem ligá-la e desligá-la à vontade, abrir suas memórias para observação, tocando qualquer emoção que lhes atraísse o interesse. Ghanima podia estar fazendo isso agora mesmo!

— Leto disse alguma coisa que a perturbou — disse Ghanima. Jessica ficou chocada ante a necessidade de suprimir a raiva.

— Sim... ele fez isso.

— Não gosta do fato de que ele conheça nosso pai tal como nossa mãe o conhecia, e conheça nossa mãe tal como nosso pai a conheceu — comentou Ghanima. — Não gosta do que isso implica... do que possamos conhecer a seu respeito.

— Realmente, nunca pensei nisso desse modo antes — disse Jessica, sentindo a voz excessivamente formal.

— É o conhecimento de detalhes sensuais que geralmente a perturba —

continuou Ghanima. — É o seu condicionamento. Acha extremamente difícil pensar em nós como outra coisa que não crianças. Mas não existe nada que nossos pais tenham feito juntos, em público ou na intimidade, que não saibamos.

Por breve instante, Jessica sentiu voltar-lhe a mesma reação que tivera lá, junto ao qanat, mas agora essa reação voltava-se para Ghanima.

— Ele provavelmente lhe falou a respeito da “sensualidade animal” de seu Duque — disse Ghanima. — Algumas vezes Leto precisa de um freio naquela boca.

“Não existirá nada que esses gêmeos não possam profanar?”, perguntou-se Jessica, passando do choque à repulsa indignada. Como se atreviam a comentar a sensualidade de seu Leto? É claro que um homem e uma mulher que se amam compartilham o prazer de seus corpos. É uma coisa bonita e íntima, não algo para ser pavoneado numa conversa casual entre uma criança e um adulto.

“Criança e adulto!”

De repente, Jessica percebia que nem Leto nem Ghanima haviam feito aquilo por acaso.

Como Jessica permanecesse em silêncio, Ghanima disse:

— Nós a deixamos chocada. Peço desculpas por nós dois. Conhecendo Leto, sei que ele nem pensaria em se desculpar. Algumas vezes, quando está seguindo determinada pista, ele se esquece de o quanto somos diferentes... de você, por exemplo. Jessica pensou: “E foi por esse motivo que os dois fizeram isso. É claro, estão me ensinando! E a quem mais estarão ensinando? Stilgar? Duncan?”

— Leto tenta ver as coisas tal como a senhora as vê — explicou Ghanima.

— As memórias não são o bastante. Quando se tenta o mais difícil, justamente aí se fracassa com maior frequência.

Jessica suspirou.

Ghanima tocou no braço da avó.

— Seu filho deixou por dizer muitas coisas que, no entanto, devem ser ditas, até mesmo a você. Perdoe-nos, mas ele a amava. Não sabia disso?

Jessica se virou para esconder as lágrimas brilhando em seus olhos.

— Ele conhecia seus temores — continuou Ghanima. — Exatamente como conhecia os de Stilgar. Querido Stil. Nosso pai era seu “Médico de Feras” e Stil não era mais que um caracol verde escondido em sua concha. — Cantarolou então a canção da qual tirara essas palavras. A música lançava os versos na consciência de Jessica sem qualquer concessão:

Ó Médico das Feras,

Para um caracol verde em sua concha

Escondido, esperando a morte

Tu chegas como uma divindade!

E até mesmo os caracóis sabem

Que os deuses destroem

E que as curas traem a dor,

Que o céu é visto

Através de um portal fiam jante.

Ó Médico das Feras,

Sou um homem-caracol

Que vê teu único olho

Olhando para dentro de minha concha

Por que, MuadVib? Por quê?

E Ghanima concluiu:

— Infelizmente, nosso pai deixou muitos homens-caracóis em nosso universo.

O pressuposto de que os seres humanos existem dentro de um universo essencialmente inpermanente, tomado como regra operacional, exige que o intelecto se torne um instrumento consciente totalmente equilibrado. Mas o intelecto não pode reagir desse modo sem envolver o organismo inteiro.

Tal organismo pode ser notado por seu comportamento inflamado, impulsionador. E

assim também ocorre na sociedade considerada como um organismo. Mas aqui encontramos uma velha inércia. As sociedades caminham, segundo o estímulo de impulsos e reações ancestrais. Elas exigem permanência. E qualquer tentativa de mostrar o universo como inpermanente ocasiona reações de rejeição, medo, raiva e desespero. Então, como explicamos a aceitação da presciência?

Simples: aquele que fornece as visões prescientes fala de uma realização absoluta (permanente) e portanto pode ser saudado com alegria pela humanidade, mesmo ao predizer os mais terríveis acontecimentos.

- O Livro de Leto segundo Harq al-Ada

— É como lutar no escuro — disse Alia.

Ela caminhava de um lado para outro da Câmara do Conselho, pisando com força, desde as altas cortinas prateadas, que suavizavam a luz do sol da manhã entrando pelas janelas do leste, até os divãs agrupados embaixo de uma parede decorada com painéis, na extremidade oposta. Suas sandálias pisavam tapetes de fibra de especiaria trançada, ladrilhos de granada gigante e mais tapetes. Afinal, encontrou-se de pé, acima de Irulan e Duncan Idaho, que estavam sentados, de frente um para o outro, nos divãs de pele de baleia cinzenta.

Idaho resistira à ordem para que voltasse de Tabr, mas Alia enviara novas ordens, mais categóricas. O rapto de Jessica era agora mais importante do que nunca, mas tinha de esperar. As percepções mentat de Idaho eram exigidas nesse momento.

— Essas coisas revelam um mesmo padrão — disse Alia. — Cheiram a uma grande trama.

— Talvez não — arriscou Irulan, mas lançou para Idaho um olhar indagador.

O rosto de Alia assumiu uma inconfundível expressão de escárnio. Como Irulan podia ser tão inocente? A menos... Alia deu uma olhada rápida e questionadora na princesa. Irulan usava um manto aba simples, todo negro, que igualava as sombras em seus olhos de um azul profundo, provocado pela especiaria.

Seu cabelo louro estava preso numa trança, enrolada em apertada espiral sobre a nuca, acentuando um rosto emagrecido e endurecido pelos anos vividos em Arrakis. Ainda conservava a arrogância que aprendera na corte do pai, Shaddam IV, e Alia frequentemente sentia que essa atitude orgulhosa poderia mascarar os pensamentos de uma conspiradora.

Idaho recostava-se usando o uniforme verde e negro da Guarda da Casa Atreides, sem qualquer insígnia. Era uma afetação que produzia secretos ressentimentos entre muitos dos verdadeiros guardas de Alia, especialmente entre suas amazonas, que glorificavam a insígnia de oficial. Elas não gostavam da

presença desse ghola-espadachim- mentat, mais ainda por ser ele o marido de sua senhora.

— Assim, as tribos querem Lady Jessica reconduzida ao Conselho da Regência — comentou Idaho. — Como isso pode...

— Eles fazem uma exigência unânime! — exclamou Alia, apontando para uma folha de papel de especiaria, adornada com relevos, colocada no divã ao lado de Irulan. — Faradin é uma coisa, mas isso... isso tem o cheiro de outros alinhamentos!

— Que pensa Stilgar? — perguntou Irulan.

— A assinatura dele está no papel! — respondeu Alia.

— Mas se ele...

— Como poderia negar a mãe de seu deus? — zombou Alia. Idaho ergueu os olhos para ela. Aquilo foi espantosamente próximo de uma provocação a Irulan!

Novamente, perguntou-se por que Alia o trouxera de volta quando ela sabia que ele era necessário no Sietch Tabr para a realização do plano de sequestro.

Seria possível que ela tivesse ouvido alguma coisa a respeito da mensagem a ele enviada pelo Pregador? Esse pensamento encheu-lhe o peito de agitação. Como poderia aquele místico mendicante conhecer o sinal secreto pelo qual Paul Atreides sempre convocara seu mestre-espadachim? Idaho ansiava por deixar essa reunião sem sentido e retornar à busca da resposta a essa pergunta.

— Não há dúvida de que o Pregador esteve fora do planeta — disse Alia.

— A Corporação Espacial não se atreveria a nos iludir em tal assunto. Farei com que ele seja...

— Vá com calma! — advertiu Irulan.

— De fato, tenha cuidado — disse Idaho. — Metade do planeta acredita que ele seja... — encolheu os ombros — seu irmão.

Idaho achou ter dito isso com uma atitude adequadamente displicente.

Como o homem poderia conhecer aquele sinal?

— Mas e se ele é um correio ou um espião de...

— Ele não fez contato com ninguém da CHOAM ou da Casa Corrino —

afirmou Irulan. — Podemos ter certeza.

— Não podemos ter certeza de coisa alguma!

Alia não tentou ocultar seu desdém. Voltou as costas a Irulan e encarou Idaho. Ele sabia por que estava ali! Por que não agia como era de se esperar? Ele estava no Conselho porque Irulan estava ali. A história que trouxera uma princesa da Casa Corrino para dentro das fileiras dos Atreides nunca poderia ser esquecida.

A lealdade, uma vez trocada, poderia mudar novamente. Os poderes mentat de Duncan deviam estar procurando por falhas, por indícios sutis no comportamento de Irulan.

Idaho remexeu-se, agitado, e olhou para Irulan. Havia ocasiões em que ele se ressentia das necessidades diretas impostas ao desempenho de um mentat. Sabia o que Alia estava pensando. E Irulan também devia saber.

Mas essa Princesa-esposa de Paul Muad'Dib tinha superado as decisões que a haviam tornado inferior à concubina real, Chani. Não havia dúvidas quanto a

devoção de Irulan para com os gêmeos reais. Ela havia renunciado à sua família e à Bene Gesserit para se dedicar aos Atreides.

— Minha mãe é parte da trama! — insistiu Alia. — Por que outro motivo a Irmandade a enviaria de volta para cá numa ocasião como esta?

— A histeria não vai nos ajudar em nada — disse Idaho. Alia girou, afastando-se dele, como ele sabia que ela faria.

Isso o ajudava por não obrigá-lo a ter que encarar aquele rosto que um dia amara e que agora se encontrava tão desfigurado por uma estranha possessão.

— Bem, — começou Irulan, — não podemos confiar totalmente na Corporação.

— A Corporação! — resmungou Alia.

— Não podemos deixar de levar em conta a inimizade da Corporação ou da Bene Gesserit — explicou Idaho. — Mas devemos colocá-las na categoria especial de combatentes passivos. A Corporação se manterá presa à sua regra básica: jamais governar. Seu crescimento é parasitário, e eles sabem disso. Não farão nada que mate o organismo que os mantém vivos.

— A idéia deles sobre qual é o organismo que os mantém vivos pode ser diferente da nossa — disse Irulan de modo arrastado. Isso fora o mais próximo que ela já chegara do sarcasmo, aquele tom preguiçoso de voz que dizia: “Você deixou escapar um aspecto, mentat.”

Alia parecia intrigada. Não esperava que Irulan tomasse essa linha de raciocínio. Não era o tipo de ponto de vista que um conspirador desejaria que fosse examinado.

— Sem dúvida — concordou Idaho. — Mas a Corporação não agiria abertamente contra a Casa Atreides. A Irmandade, por outro lado, poderia arriscar certo tipo de ruptura política que...

— Se o fizerem, será através de uma fachada. Alguém ou um grupo que elas possam repudiar — explicou Irulan. — A Bene Gesserit não se manteve viva todos esses séculos sem conhecer o valor de permanecer oculta. Elas preferem estar por trás do trono, não sobre ele.

“Permanecer oculta?”, admirou-se Alia. Seria isso que Irulan estaria fazendo?

— Precisamente o que penso da Corporação — disse Idaho. Para ele, eram úteis a argumentação e as explicações. Mantinham sua mente longe dos outros problemas.

Alia reaproximou-se das janelas iluminadas pelo sol. Conhecia o ponto cego de Idaho, cada mentat tinha o seu. Eles tinham de fazer declarações, e isso provocava uma tendência a depender de quantidades exatas, perceber limites finitos. Eles sabiam disso a respeito de si mesmo. Era parte de seu treinamento. E

no entanto continuavam agindo além de seus parâmetros auto-limitadores. “Devia tê-lo deixado no Sietch Tabr”, pensou Alia. “Teria sido melhor entregar Irulan a Javid para ser interrogada.”

Dentro de seu crânio, Alia ouviu uma voz ribombante:

— Exatamente!

“Cale-se! Cale-se! Cale-se!”, pensou ela. Um erro perigoso a atraía nesses momentos e ela era incapaz de lhe reconhecer os contornos. Tudo que podia sentir era o perigo. Idaho tinha que ajudá-la a escapar a essa limitação. Ele era um mentat.

Os mentats eram necessários. Os computadores humanos substituíam os engenhos mecânicos destruídos pelo Jihad Butleriano. “Tu não farás a máquina à semelhança da mente humana!”

Mas agora Alia desejava ler uma máquina submissa. Elas não leriam as limitações de Idaho. Nunca se desconfiaria de uma máquina.

Alia ouviu a voz arrastada de Irulan.

— Um truque dentro de um truque dentro de um truque — disse Irulan.

— Nós todos conhecemos o padrão de ataque aceito para atingir o poder. Eu não censuro Alia por suas suspeitas. É claro que ela suspeita de todos, até mesmo de nós. Ignore isso por um momento, entretanto. O que permanece como a principal área de conflitos, a fonte mais fértil de perigo para a Regência?

— A CHOAM — respondeu Idaho com sua voz monótona de mentat.

Alia permitiu-se um sorriso amargo. A Combine Honorette Ober Advancer Mercantiles! Mas a Casa Atreides dominava a CHOAM, com 51 por cento de suas ações. O clero do Muad'Dib detinha outros cinco por cento, o que significava a aceitação pragmática, pelas Grandes Casas, de que Duna controlava a inestimável melange. Não era sem motivo que a especiaria era frequentemente chamada de “moeda secreta”. Sem a melange, os heighliners da Corporação Espacial não poderiam sair do chão. A melange precipitava o “transe de navegação”, pelo qual uma rota transluz podia ser vista antes de ser percorrida. Sem a melange e sua ampliação do sistema imunológico humano, a expectativa de vida dos muito ricos degeneraria por um fator de pelo menos quatro. Até mesmo a vasta classe média do Império ingeria a melange, diluída em pequenos borrifadores, pelo menos uma vez por dia.

Mas Alia percebera a sinceridade mentat na voz de Idaho, um som que ela estivera esperando com terrível expectativa.

CHOAM. A Combine Honorette abrangia muito mais que a Casa Atreides, muito mais que Duna, muito mais que o clero ou a melange. Eram fibras inkvine, pele de baleia, shigafios, artefatos e artistas ixianos, o comércio de pessoas e lugares, o Hajj, os produtos da tecnologia Tleilaxu, situados nos limites da legalidade. Eram drogas causadoras de dependência ao lado de técnicas médicas, eram o transporte (a Corporação) e todo o comércio supercomplexo de um Império que abrangia milhares de planetas conhecidos, mais alguns que se nutriam secretamente em suas fronteiras, devido aos serviços que prestavam. Quando Idaho dissera CHOAM, falara de uma fermentação constante, intriga dentro de intriga, um jogo de poder em que a mudança de um duodécimo nos pagamentos de quotas de comércio poderia mudar o governo de um planeta inteiro.

Alia voltou a se colocar diante das duas pessoas sentadas nos divãs.

— Alguma coisa específica a respeito da CHOAM incomoda vocês?

— Existe sempre grande especulação a respeito da armazenagem de especiaria por parte de certas Casas — disse Irulan.

Alia bateu com as mãos sobre as próprias coxas e então apontou para o papel de especiaria gravado ao lado de Irulan.

— Essa exigência não a intriga, vindo como vem de...

— Muito bem! — exclamou Idaho. — Ponha as cartas na mesa! Que está ocultando? Sabe muito bem que não pode me negar informações e ainda esperar que eu funcione como um...

— Tem havido um aumento recente e muito significativo no comércio de pessoas com quatro habilidades específicas — revelou Alia, enquanto imaginava se essa seria realmente uma nova informação para essa dupla.

— Que habilidades? — indagou Irulan.

— Mestres espadachins, mentats pervertidos de Tleilax, médicos condicionados da escola Suk e contadores corruptos, principalmente estes últimos.

Por que guarda-livros suspeitos estariam em demanda exatamente agora? — Ela dirigiu a pergunta a Idaho.

“Funcione como mentat”, pensou ele. Bem, isso era melhor do que se alongar na observação daquilo em que Alia se transformara. Focalizou suas palavras, repetindo-as na mente à maneira mentat. “Mestres espadachins?”

Esse fora o seu título, um dia. Mas os mestres espadachins representavam muito mais do que simples combatentes individuais. Podiam consertar escudos de força defensivos, planejar campanhas militares, projetar instalações de apoio militar, improvisar armas. “Mentats pervertidos?” Os Tleilaxu insistiam nessa fraude, obviamente. Como mentat, Idaho conhecia a frágil insegurança da perversão Tleilaxu. As Grandes Casas que adquiriam tais mentats esperavam controlá-los de modo absoluto. Isso era impossível! Até mesmo Piter de Vries, que servira aos Harkonnen em seu assalto à Casa Atreides, mantivera sua própria dignidade essencial, aceitando a morte em vez de entregar seu núcleo interior de personalidade autônoma, no final. “Médicos Suk?” Seu condicionamento supostamente os garantia contra a deslealdade para com seus senhores-pacientes.

Os médicos Suk eram muito dispendiosos. Uma compra crescente de médicos Suk envolveria uma troca substancial de fundos.

Idaho pesou esses fatos contra o aumento dos contadores corruptos.

— Primeira computação — disse ele, indicando com forte segurança que falava de um fato induzido. — Houve um recente aumento na riqueza das Casas Menores. Algumas delas têm caminhado silenciosamente na direção do status de Grande Casa. Tal riqueza só pode provir de algumas mudanças específicas em alinhamentos políticos.

— Chegamos, afinal, à Landsraad — disse Alia, verbalizando sua própria crença.

— A próxima reunião da Landsraad será daqui a quase dois anos-padrão

— lembrou Irulan.

— Mas as barganhas políticas nunca cessam — continuou Alia.

— E eu asseguro que entre aqueles signatários tribais — gesticulou para o papel ao lado de Irulan — se encontram alguns que pertencem às Casas Menores que mudaram seus alinhamentos.

— Talvez — respondeu Irulan.

— A Landsraad... — disse Alia. — Que melhor fachada para as Bene Gesserit s? E que melhor agente para a Irmandade do que minha própria mãe? —

Alia plantou-se na frente de Duncan Idaho. — Então, Duncan?

“Por que não funcionar como um mentat?”, indagou-se Idaho. Agora percebia o curso das suspeitas de Alia. Afinal, fora o guarda pessoal de Lady Jessica durante muitos anos.

— Duncan? — insistiu Alia.

— Você deve pesquisar em busca de qualquer consultoria legislativa que possa estar sendo preparada para a próxima sessão da Landsraad — respondeu Idaho. — Eles podem assumira posição legal de que a Regência não tem poderes para vetar certos tipos de leis especificamente, os ajustes das taxas e o policiamento dos cartéis.

— Existem outras, mas esse não seria um palpite muito pragmático da sua parte — comentou Irulan.

— Concordo — disse Alia. — Os Sardaukar não têm suas garras e nós ainda temos nossas legiões Fremen.

— Cuidado, Alia — avisou Idaho. — Nossos inimigos não se sentiriam mais satisfeitos se nos fizessem parecer monstruosos. Não importa quantas legiões você comande, num Império tão disperso quanto este, o poder, em última análise, tem por base o apoio popular.

— Apoio popular? — perguntou Irulan.

— Você quer dizer apoio das Grandes Casas — disse Alia.

— E quantas Grandes Casas nós enfrentaremos sob essa nova aliança? —

perguntou Idaho.

— O dinheiro está sendo coletado em lugares estranhos!

— As fronteiras? — indagou Irulan.

Idaho encolheu os ombros. Essa era uma pergunta sem resposta. Todos eles suspeitavam de que um dia os Tleilaxu, ou então os artífices tecnológicos nas fronteiras imperiais, anulariam o Efeito Holtzman. Nesse dia, os escudos seriam inúteis. E todo o precário equilíbrio que mantinha os feudos planetários desabaria.

Alia recusava-se a considerar essa possibilidade.

— Prosseguiremos com o que temos — disse ela. — E o que temos é o conhecimento, por toda a diretoria da CHOAM, de que nós podemos destruir a especiaria, se eles nos forçarem. Não vão correr esse risco.

— De volta à CHOAM — disse Irulan.

— A menos que alguém tenha conseguido duplicar o ciclo da truta em verme da areia num outro planeta — disse Idaho. Olhou de modo indagador para Irulan, excitado por essa possibilidade.

— Salusa Secundus?

— Meus contatos lá permanecem dignos de confiança — respondeu Irulan. — Não em Salusa.

— Então, minha resposta permanece — disse Alia, fitando Idaho. —

Continuamos com o que temos.

“Meu movimento”, pensou Idaho, e disse:

— Por que me arrastou para longe de um trabalho importante? Podia ter chegado a esse resultado sozinha.

— Não use esse tom comigo! — retrucou Alia.

Os olhos de Idaho se arregalaram. Por um instante, ele vira o estranho no rosto de Alia, e fora uma visão desconcertante. Voltou sua atenção para Irulan, mas esta não vira... ou dava a impressão de não ter visto.

— Não preciso de educação elementar — disse Alia, a voz ainda marcada pela estranha raiva.

Idaho conseguiu dar um sorriso triste, mas seu peito doía.

— Nunca estamos longe da riqueza e de todas as suas máscaras quando lidamos com o poder — disse Irulan em sua voz arrastada.

— Paul era uma mutação social e como tal nos devemos lembrar que ele mudou o velho equilíbrio das riquezas.

— Tais mutações não são irreversíveis — disse Alia, dando as costas para eles como se não houvesse exposto sua terrível diferença. — Onde quer que haja riqueza neste Império, eles sabem disso.

— Eles também sabem — disse Irulan — que há três pessoas que poderiam perpetuar a mutação: os gêmeos e... apontou para Alia.

“Estarão loucas, essas duas?”, perguntou-se Idaho.

— Eles vão tentar me assassinar! — exclamou Alia de modo estridente.

Idaho continuou sentado em silêncio, chocado, sua consciência mental girando. Assassinar Alia? Para quê? Eles poderiam desacreditá-la muito facilmente.

Poderiam separá-la de sua matilha Fremen e caçá-la à vontade.

Mas o gêmeos eram diferentes... Ele sabia que não se encontrava na calma mentat adequada para tal avaliação, mas precisava tentar. Tinha de ser tão preciso quanto possível. Ao mesmo tempo, sabia que o pensamento preciso continha alguns valores absolutos não-digeríveis. A natureza não era precisa. O universo não era preciso quando reduzido à sua escala, era vago e nebuloso, cheio de mudanças e movimentos inesperados. A humanidade como um todo devia ser colocada nessa computação como um fenómeno natural. E todo o processo de análise precisa representava um corte, uma remoção da corrente de fluxo do universo. Ele tinha de entrar naquela corrente, vê-la em movimento.

— Tínhamos razão em focalizar a CHOAM e a Landsraad — dizia Irulan em seu modo pausado. — E a sugestão de Duncan oferece uma primeira linha de investigação para...

— O dinheiro como expressão da energia não pode ser separado da energia que ele expressa — disse Alia. — Todos sabemos disso. Mas temos de responder a três perguntas específicas: Quando? Usando que armas? Onde?...

“Os gêmeos... os gêmeos”, pensava Idaho. “São os gêmeos que estão em perigo, não Alia.”

— Você não está interessada em quem ou como? — perguntou Irulan.

— Se a Casa Corrino, a CHOAM ou qualquer outro grupo emprega instrumentos humanos neste planeta — disse Alia, — temos uma probabilidade

superior a 60 por centro de encontrá-los antes que tenham tempo de agir. Saber quando e onde vão agir nos propiciaria um aumento dessas chances. Como? Isso é apenas indagar com que armas.

“Por que elas não conseguem ver a coisa como eu a vejo?”, admirou-se Idaho.

— Certo — disse Irulan. — Quando?

— Quando toda a atenção estiver voltada para outra pessoa.

— A atenção estava voltada para sua mãe na Convocação — lembrou Irulan. — E não houve atentado.

— Lugar errado — disse Alia.

“Que é que ela está fazendo?”, perguntou-se Idaho.

— Onde então? indagou Irulan.

— Aqui mesmo, no Castelo. É o lugar onde me sinto mais segura e menos em guarda.

— Com que armas? — perguntou Irulan.

— Convencionais. Alguma coisa que um Fremen poderia carregar consigo: uma faca cristalina envenenada, uma pistola maula, um...

— Eles não tentam um caçador-rastreador há muito tempo — disse Irulan.

— Não funcionaria em uma multidão. E terá de haver multidão.

— Uma arma biológica? — sugeriu Irulan.

— Um agente infeccioso? — perguntou Alia, sem ocultar sua incredulidade. Como Irulan podia pensar que um agente infeccioso teria sucesso contra as barreiras imunológicas que protegiam um Atreides?

— Eu estava pensando mais na linha de algum animal — explicou Irulan.

— Um pequeno bicho treinado para morder uma vítima específica, aplicando o veneno com a mordida.

— Os furões da Casa preveniriam isso.

— Um deles, então? — indagou Irulan.

— Não poderia ser feito. Os furões da Casa rejeitariam um animal estranho e o matariam. Você sabe disso.

— Estava apenas explorando as possibilidades na esperança de que...

— Eu alertarei minha guarda — concluiu Alia.

Quando Alia disse guarda, Idaho colocou a mão sobre seus olhos Tleilaxu tentando evitar o envolvimento arrebatador que deslizou sobre ele. Era o Rhajia, o movimento do Infinito, tal como expresso pela Vida. A dose latente de total imersão em consciência mentat que estava reservada a qualquer mentat. Aquilo lançava sua consciência sobre o universo como uma rede, caindo, definindo as formas dentro dela. Ele viu os gêmeos agachados na escuridão, enquanto garras gigantescas rasgavam o ar em torno deles.

— Não — sussurrou ele.

— O quê? — Alia olhou para ele como se estivesse surpresa por ainda encontrá-lo ali.

Ele abaixou as mãos da frente dos olhos.

— As vestes que a Casa Corrino enviou — disse ele. — Foram entregues aos gêmeos?

— É claro — respondeu Irulan. — São perfeitamente seguras.

— Ninguém vai tentar algo contra os gêmeos no Sietch Tabr — disse Alia.

— Não tendo em volta aqueles guardas treinados por Stilgar.

Idaho olhou para ela. Não tinha nenhum dado em particular para reforçar um argumento baseado na computação mentat. Mas sabia. Ele sabia. Essa coisa que experimentara chegara muito perto do poder visionário que Paul conhecera. Nem Irulan nem Alia acreditariam naquilo partindo dele.

— Gostaria de alertar as autoridades portuárias contra a permissão de importação de quaisquer animais do exterior — disse ele.

— Você não está levando a sério a sugestão de Irulan— protestou Alia.

— Porque arriscar? — perguntou ele.

— Diga isso aos contrabandistas — disse Alia. — Eu confiarei nos furões da Casa.

Idaho sacudiu a cabeça. Que poderiam fazer os furões da Casa contra garras do tamanho daquelas que visualizara? Mas Alia estava certa.

Subornos nos lugares certos, um complacente navegador da Corporação e qualquer lugar do Território Vazio poderia tornar-se um local de pouso. A Corporação resistiria a uma posição frontal em qualquer ataque à Casa Atreides, mas se o preço fosse suficientemente alto... Bem, podia-se pensar na Corporação como se fosse alguma coisa como uma barreira geológica que apenas tornava os ataques difíceis, mas não impossíveis.

Eles sempre poderiam protestar que eram apenas uma “agência de transportes”. Como poderiam saber que uso se daria a uma carga determinada?

Alia quebrou o silêncio com um gesto puramente Fremen, o punho erguido com o polegar na horizontal. Acompanhou o gesto com uma exclamação tradicional que significava “Eu dou o Conflito do Tufão”. Obviamente, ela se via como o único alvo lógico para os assassinos, e o gesto era a afirmação de um universo cheio de ameaças não-eliminadas. Alia estava dizendo que lançaria o vento da morte sobre qualquer um que a atacasse.

Idaho sentiu a inutilidade de qualquer protesto. Percebia que ela não mais suspeitava dele.

Voltaria ao Sietch Tabr, onde ela esperava que executasse com perfeição o rapto de Lady Jessica. Idaho ergueu-se do divã com um súbito fluxo de adrenalina a lhe impulsionar a raiva. Pensava: “Se ao menos Alia fosse o alvo! Se ao menos os assassinos pudessem pegá-la!” Por um instante, levou a mão à própria faca, mas não lhe cabia fazer isso. Muito melhor para ela, entretanto, morrer como mártir do que viver para ser desacreditada e perseguida até um túmulo na areia.

— Sim — disse Alia, interpretando erroneamente sua expressão como de preocupação por ela. — É melhor voltar depressa ao Tabr. — E pensou: “Como fui tola em suspeitar de Duncan! Ele é meu, não de Jessica!” Fora a exigência das tribos que a perturbara, concluiu. Acenou-lhe um alegre adeus quando ele saiu.

Idaho deixou a Câmara do Conselho sentindo-se sem esperanças. Alia não estava apenas cega com sua estranha possessão, mas se tornava mais insana a cada crise. Já ultrapassara o ponto de perigo e estava condenada. Mas que poderia ser feito pelos gêmeos? A quem ele poderia convencer?

Stilgar? E o que Stilgar poderia fazer que já não estivesse sendo feito?

“Lady Jessica, então?”

Sim, ele exploraria essa possibilidade. Mas ela também poderia estar muito envolvida em tramas com sua Irmandade. Tinha poucas ilusões a respeito da concubina Atreides. Ela poderia fazer qualquer coisa sob as ordens das suas Bene Gesserit s. Até mesmo voltar-se contra os próprios netos.

Os bons governos nunca dependem das leis e sim das qualidades pessoais daqueles que governam. A máquina do governo encontra-se sempre subordinada à vontade daqueles que a administram. O elemento mais importante de um governo, portanto, é o método de escolha de seus líderes.

- “Lei e Governo” - Manual da Corporação Espacial

“Por que Alia deseja que eu compareça a essa audiência matinal?”, perguntava-se Jessica. “Eles ainda não votaram minha volta ao Conselho.”

Jessica encontrava-se na ante-sala do Grande Salão do Castelo. Em si mesma, a ante-sala teria sido um grande salão em qualquer outro lugar que não Arrakis. Seguindo a liderança Atreides, os prédios de Arrakeen se haviam tornado ainda mais gigantescos, à medida que a riqueza e o poder se concentravam, e essa sala resumia suas apreensões. Ela não gostava do aposento, com seu piso de azulejos representando a vitória de seu filho contra Shaddam IV.

Percebeu o reflexo do próprio rosto na porta de plasteel polido que levava ao Grande Salão. Voltar a Duna forçava-a a tais comparações, e Jessica notava apenas os sinais do envelhecimento em suas próprias feições: o rosto oval desenvolvera pequenas linhas e os olhos estavam mais instáveis em seus reflexos azulados. Podia lembrar-se do tempo em que existira um branco em torno do azul de seus olhos. Somente as cuidadosas aplicações de um cabeleireiro profissional mantinham o bronze polido de seus cabelos. O nariz permanecia pequeno, a boca, generosa, e o corpo ainda era esguio, mas mesmo os músculos treinados à maneira Bene Gesserit mostravam uma tendência à lentidão, com o passar do tempo.

Alguns podiam não notar isso e dizer: “Você não mudou nem um pouco!”

Mas o treinamento da Irmandade era uma faca de dois gumes: pequenas mudanças raramente deixam de ser notadas por pessoas treinadas dessa maneira.

E a ausência das pequenas mudanças em Alia não escapara à percepção de Jessica.

Javid, o encarregado dos compromissos de Alia, encontrava-se diante da grande porta, parecendo muito cerimonioso essa manhã. Era um gênio metido em

mantos, com um sorriso cínico no rosto redondo. Jessica via em Javid um paradoxo: um Fremen bem-alimentado. Notando a atenção dela sobre ele, Javid sorriu, compreensivo, e encolheu os ombros. Seu serviço no séquito de Jessica fora breve, como ele sabia que o seria. Odiava os Atreides, mas era o homem de Alia em mais de um sentido, se os rumores estavam certos.

Jessica viu o encolher de ombros e pensou: “Esse gesto caracteriza esta era. Ele sabe que eu ouvi todas as histórias a seu respeito e não se importa. Nossa civilização poderia morrer de indiferença interna bem antes de sucumbir a qualquer ataque externo.”

Os guardas que Gurney lhe havia destinado, antes de partir para o deserto a fim de confrontar os contrabandistas, não haviam gostado de ela ter ido até ali sem a sua companhia. Mas Jessica sentia-se curiosamente segura.

Deixe que alguém faça de mim uma mártir neste lugar, Alia não sobreviverá a isso. Ela o sabe.

Quando Jessica não respondeu ao encolher de ombros e ao sorriso, Javid tossiu, um ruído de eruptação em sua laringe que só poderia ter sido conseguido com a prática. Era como uma linguagem secreta. Aquilo dizia:

“Entendemos a tolice de toda esta pompa, Minha Senhora. Não é maravilhoso aquilo em que os seres humanos podem ser levados a acreditar?”

“Maravilhoso!”, concordou Jessica, mas seu rosto não deu qualquer indicação desse pensamento.

A ante-sala estava bem cheia agora. Todos os suplicantes que teriam seu ingresso permitido essa manhã haviam recebido seu passe do pessoal de Javid. As portas externas haviam sido fechadas.

Suplicantes e criados mantinham uma distância cerimoniosa em relação a Jessica, mas observavam que ela usava o manto aba negro, formal, de uma Reverenda Madre Fremen. Isso causaria muitas perguntas. Nenhuma marca do clero do Muad'Dib podia ser vista em sua pessoa. As conversas corriam em tom de murmúrio, enquanto as pessoas dividiam sua atenção entre Jessica e a pequena porta lateral através da qual Alia chegaria para conduzi-los ao Grande Salão. Era óbvio para Jessica que o velho padrão que definia onde se encontravam os poderes da Regência fora abalado.

“Eu causei isso apenas vindo aqui”, pensou. “Mas eu vim porque Alia me convidou.”

Notando os sinais de perturbação, Jessica percebia que Alia estava prolongando deliberadamente esse momento, permitindo que correntes sutis seguissem seu curso. Alia devia estar observando de uma vigia, é claro.

Poucas sutilezas em seu comportamento escapavam a Jessica, e a cada minuto que passava esta percebia como estivera certa em aceitar a missão que a Irmandade praticamente lhe impusera.

— Não se pode permitir que as coisas continuem deste modo —

argumentara a líder da delegação Bene Gesserit. — Certamente, os sinais de corrupção não escaparam à sua percepção... ou à de todas as pessoas! Sabemos por que nos deixou, mas também sabemos como foi treinada. Nada foi poupado em

sua educação. Você é uma adepta da Panóplia Profética e deve reconhecer quando a fermentação de uma religião poderosa nos ameaça a todos.

Jessica comprimira os lábios enquanto pensava, olhando através da janela para os suaves indícios de primavera no Castelo Caladan. Não gostava de dirigir os pensamentos dessa maneira lógica. Uma das primeiras lições da Irmandade fora reservar uma atitude de questionadora desconfiança ante qualquer coisa que aparecesse sob o rótulo de lógica. Mas as integrantes da delegação também sabiam disso.

Como o ar estivera úmido naquela manhã, pensou Jessica, olhando para a ante-sala de Alia. Fresco e úmido. Aqui, havia no ar um sentimento de umidade suarenta que evocava a intranquilidade, e Jessica pensou:

“Reverti ao modo de pensar dos Fremen.” O ar era demasiado úmido nesse sietch acima do solo. Que estaria acontecendo de errado com o Mestre dos Alambiques? Paul nunca teria permitido tal descuido.

Percebia que Javid, o rosto brilhante e alerta, mas tranquilo, parecia não ter notado a falha na umidade do ar dessa ante-sala. Uma falha de treinamento para alguém nascido em Arrakis.

As integrantes da delegação Bene Gesserit queriam saber se ela exigia provas de suas alegações. Ela lhes dera uma resposta irritada, tirada de um de seus próprios manuais:

Todas as provas conduzem inevitavelmente a proposições que não podem ser provadas! Todas as coisas são conhecidas porque desejamos acreditar nelas.

— Mas nós submetemos essas questões aos mentats — protestara a líder da delegação.

Jessica olhou atónita para a mulher:

— Me admira que tenha chegado à sua presente posição e ainda não tenha consciência das limitações de todos os mentats.

Com isso a delegação ficou tranquila. Aparentemente, tudo fora um teste e Jessica passara. Elas temiam, é claro, que ela houvesse perdido o contato com todas aquelas habilidades equilibradas que constituíam o núcleo do treinamento Bene Gesserit.

Agora, Jessica ficou ligeiramente alerta enquanto Javid deixava sua posição na porta e se aproximava. Ele se curvou numa mesura.