Os Hereges de Duna
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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Frank Herbert
Os hereges de Duna
Avançando, mais uma vez, alguns séculos à frente, Frank Herbert, autor da saga que já conquistou os leitores brasileiros com Duna, O messias de Duna, Os filhos de Duna e O Imperador-Deus de Duna, todos publicados pela Editora Nova Fronteira, introduz vida nova neste épico iniciado em 1965. Como em outro livro da série, a trama deste quinto volume desenvolve-se em tomo de dois jovens que detêm poderes incomuns. A ambientação insólita do árido planeta de Duna, com seus vermes gigantes, serve de cenário a acirradas lutas pelo poder.
Também neste livro, o leitor encontrará a ampla variedade de aspectos presente em toda a obra de Frank Herbert, com suas descrições pormenorizadas da ecologia, cultura, religião e tecnologia do planeta de Duna. Esta erudição ímpar do autor e a amplitude de seus interesses talvez expliquem o grande sucesso da série Duna, que já foi traduzida para 14 línguas e vendeu mais de 12 milhões de exemplares.
Sua literatura, que já foi considerada ficção científica psicológica, excede na caracterização da totalidade dos ambientes. Nela, cada parte da vida de uma sociedade é tratada com especial atenção. O social e o político, que freqüentemente são o reflexo de conflitos atuais, o puramente físico e o psicológico são cuidadosamente elaborados em seus romances, que têm uma especial atração por experiências místicas e psicodélicas e pela mitologia. Em síntese, sua obra pode ser vista como uma inventiva e complexa investigação acerca da interação entre o homem e o meio.
Frank Herbert, nascido em 1920 em Tacoma, Washington, foi jornalista, cameraman, professor de “escrever com criatividade”, instrutor de cursos de sobrevivência na selva e psicanalista leigo (adepto da psicologia junguiana), entre várias outras atividades. Além disto, suas leituras abrangiam as mais diversas disciplinas, desde as mais técnicas como eletrônica, geologia e navegação até as mais abstratas como esoterismo, filosofia oriental e religião. Homem tanto teórico quanto prático, integrou a marinha e participou intensamente de campanhas em defesa da ecologia. Morreu em fevereiro de 1986, em plena atividade, quando estava trabalhando no sétimo volume da série Duna.
A maioria das disciplinas não se destina a liberar e sim a limitar: Não pergunte por quê.
Seja cauteloso com o como. O por quê conduz inexoravelmente ao paradoxo. O como o aprisiona num universo de causa e efeito. Ambos negam o infinito.
— Os Apócrifos de Arrakis
— Taraza lhe contou que já tivemos 11 desses gholas Duncan Idaho, não? Este é o 12º.
A velha Reverenda Madre Schwangyu falou com premeditada amargura enquanto olhava do parapeito, no terceiro andar, para a criança solitária brincando no jardim fechado. A forte luz do sol do meio-dia no planeta Gammu refletia-se nos muros brancos do pátio, enchendo a área abaixo com um brilho como se um refletor tivesse sido lançado sobre o jovem ghola.
“Acabou-se”, pensou a Reverenda Madre Lucilla. Ela se permitiu um curto aceno de cabeça, pensando em quão friamente impessoais eram as maneiras e a escolha de palavras de Schwangyu. “Nós usamos nosso suprimento; envie-nos mais.”
A criança no pátio aparentava ter uns 12 anos, mas a aparência podia ser enganadora em se tratando de um ghola cujas memórias originais ainda não haviam despertado. A criança aproveitou aquele instante para olhar para as mulheres que a vigiavam do alto. Era uma criatura robusta, com um olhar direto que brilhava intensamente debaixo do capuz negro do cabelo karakul. A luz amarela do sol do início da primavera lançava uma sombra curta a seus pés. A pele parecia muito bronzeada, mas um ligeiro movimento mudou o caimento do traje de uma só peça, revelando a pele pálida no ombro esquerdo.
— Esses gholas não são apenas dispendiosos, são altamente perigosos para nós
— disse Schwangyu.
Sua voz saía calma e sem emoção, parecendo ainda mais poderosa por isso.
Era a voz de uma Reverenda Madre instrutora falando com sua acólita, e enfatizava para Lucilla que Schwangyu era uma das que protestavam abertamente contra o projeto ghola.
Taraza advertira:
— Ela vai tentar convencê-la.
— Onze fracassos já são o bastante — dissera Schwangyu.
Lucilla olhou para as feições enrugadas de Schwangyu e pensou subitamente:
“Algum dia eu também posso me tornar velha como ela. E talvez, como ela, me encontre no poder dentro da Bene Gesserit!”
Schwangyu era uma mulher pequena, com muitas marcas de idade recebidas a serviço da Bene Gesserit. Lucilla sabia, a partir dos estudos que lhe haviam ordenado, que o manto negro convencional de Schwangyu ocultava um corpo magro e ossudo que poucas pessoas tinham visto, e não ser suas criadas e os homens que haviam recebido ordem para procriar com ela. A boca de Schwangyu era larga, o lábio inferior comprimido pelas linhas da idade que se expandiam para o queixo proeminente. Seus modos costumavam ser um tanto bruscos, o que fazia as não-iniciadas julgarem que ela estava com raiva. A Comandante do Castelo Gammu era uma das Reverendas Madres mais reservadas.
Uma vez mais Lucilla desejou ter conhecimento de todo o projeto ghola, mas Taraza estabelecera muito claramente os limites: “Não se deve confiar em Schwangyu no que concerne à segurança do ghola.”
— Nós acreditamos que os próprios Tleilaxu mataram a maioria dos 11
anteriores — disse Schwangyu. — Isso devia revelar-nos alguma coisa.
Imitando os modos de Schwangyu, Lucilla adotou uma calma atitude de espera, totalmente desprovida de emoções. Seus modos pareciam dizer: “Eu posso ser muito mais jovem do que você, mas também sou uma Reverenda Madre plena.” Podia sentir o olhar de Schwangyu.
Schwangyu tinha visto os holos dessa Lucila, mas a mulher em carne e osso era mais desconcertante. Uma Impressora muito bem treinada, sem dúvida alguma Os olhos de azul dentro de azul, sem qualquer lente corretora, conferiam a Lucilla uma expressão penetrante que lhe acompanhava o rosto oval. Com o capuz do manto aba lançado para trás, como estava agora, o cabelo castanho se revelava, puxado para trás e preso a um anel para cascatear ao longo de suas costas, e nem mesmo o manto largo podia ocultar os grandes seios de Lucilla. Ela pertencia a uma linha genética famosa por sua natureza maternal e já tivera três filhos, dois do mesmo pai. Sim — era uma sedutora de cabelos castanhos —, seios grandes e disposição maternal.
— Você fala muito pouco — disse Schwangyu. — Isso revela que Taraza a advertiu contra mim.
— Tem motivos para acreditar que assassinos pretendam matar este 12º ghola?
— perguntou Lucila.
— Já tentaram.
Era estranho como a expressão “heresia” lhe vinha à mente quando pensava em Schwangyu, pensou Lucilla. Poderia existir heresia entre as Reverendas Madres?
Os significados religiosos da palavra pareciam deslocados no contexto da Bene Gesserit.
Como poderia haver movimentos heréticos entre pessoas dotadas de uma atitude profundamente manipuladora com relação aos aspectos religiosos?
Lucila voltou sua atenção para o ghola, o qual escolheu o momento para dar uma série de cambalhotas que o levaram numa volta completa até se encontrar novamente olhando para as duas observadoras no parapeito.
— Como ele representa bem! — resmungou Schwangyu.
A voz dela não parecia inteiramente livre da ameaça de violência.
Lucilla fitou Schwangyu. “Heresia.” Dissidência não era o termo adequado.
Oposição também não era uma palavra que abrangesse inteiramente o que ela sentia na velha. Essa era uma coisa que poderia destroçar a Bene Gesserit. Revolta contra Taraza, contra a Reverenda Madre Superiora? Impensável! Madres Superioras eram
moldadas como monarcas. Uma vez que Taraza houvesse aceito o conselho e tomado sua decisão, as Irmãs eram obrigadas a obedecer.
— Isto não é hora para criar novos problemas! — disse Schwangyu.
O significado era claro. O pessoal da Dispersão estava retornando e as intenções de alguns desses Perdidos ameaçavam a Irmandade. “Honradas Matres”!
Como essas palavras soavam semelhantes a “Reverendas Madres”.
Lucilla arriscou uma conversa exploratória:
— Acha que devíamos concentrar-nos no problema daquelas Honradas Matres da Dispersão?
— Concentrar? Ah, elas não possuem os nossos poderes. Não demonstram bom senso. E não têm o domínio da melange! É isso que elas querem de nós, nosso conhecimento da especiaria.
— Talvez — concordou Lucilla.
Não desejava concordar com isso ante uma evidência tão escassa.
— A Madre Superiora Taraza não anda bem do juízo para brincar com essa questão do ghola num momento como este — disse Schwangyu.
Lucilla permaneceu em silêncio. O projeto do ghola definitivamente atingira um nervo sensível entre as Irmãs. A possibilidade, ainda que remota, de que pudesse fazer surgir um outro Kwisatz Haderach transmitia arrepios de medo misturado ao ódio entre suas fileiras. Mexer com os remanescentes do tirano contidos nos Vermes! Isso era perigoso ao extremo.
— Nunca deveríamos levar aquele ghola para Rakis — murmurou Schwangyu.
— Deixe os vermes continuarem dormindo.
Lucila desviou sua atenção uma vez mais para o menino ghola. Ele tinha voltado as costas para o parapeito elevado onde estavam as duas Reverendas Madres, mas alguma coisa em sua postura revelava que sabia estarem falando a seu respeito e esperava uma resposta delas.
— Sem dúvida percebe que foi chamado num momento em que ele ainda é muito jovem — comentou Schwangyu.
— Nunca ouvi falar de impressão profunda numa pessoa tão jovem —
concordou Lucila.
Ela deixou transparecer uma leve ironia em seu tom de voz, algo que sabia que Schwangyu iria ouvir e interpretar mal. O controle da procriação e de todas as necessidades relacionadas com isso era a especialidade final das Bene Gesserit. Use o amor mas o evite, Schwangyu devia estar pensando agora. As analistas da Irmandade conheciam as origens do amor. Elas as haviam examinado muito cedo em seu desenvolvimento, mas nunca se tinham atrevido a produzi-las naqueles a quem influenciavam. Tolerem o amor, mas estejam prevenidas contra ele — essa era a regra.
Saibam que o amor encontra-se profundamente entranhado na estrutura genética humana, como um sistema de segurança para garantir a preservação da espécie. Você faz uso dele quando é necessário, imprimindo indivíduos selecionados (algumas vezes
um sobre o outro) para os propósitos da Irmandade e sabendo que tais indivíduos estarão ligados por laços poderosos, imperceptíveis à consciência comum. Outros podem observar tais laços e traçar suas conseqüências, mas aqueles afetados dançam de acordo com uma música inconsciente.
— Não estou sugerindo que seja um erro imprimi-lo — disse Schwangyu, confundindo o silêncio de Lucilla.
— Faremos o que foi ordenado — provocou Lucilla.
Deixe que Schwangyu interprete como quiser.
— Então não faz objeção quanto a levar esse ghola para Rakis — disse Schwangyu. — Eu me pergunto se você manteria essa obediência sem questionamento se conhecesse a história toda.
Lucilla respirou fundo. Iriam compartilhar com ela, agora, todos os desígnios dos ghola s Duncan Idaho?
— Existe em Rakis uma criança do sexo feminino chamada Sheeana Brugh —
disse Schwangyu. — E ela é capaz de controlar os vermes gigantes.
Lucilla ocultou seu interesse “Vermes gigantes. Não Shai-hulud ou Shaitan.
Vermes gigantes.” O cavaleiro da areia previsto pelo Tirano tinha aparecido afinal!
— Eu não falo sem motivo — disse Schwangyu quando Lucilla continuou em silêncio.
“De fato não fala”, pensou Lucilla. “E você chama uma coisa pelo rótulo descritivo, não pelo nome de importância mística. Vermes gigantes. E você está realmente pensando no Tirano, Leto II, cujo sonho interminável é mantido como uma pérola de consciência em cada um daqueles vermes. Ou assim somos levadas a crer.”
Schwangyu fez sinal com a cabeça na direção da criança brincando no pátio abaixo delas.
— Acha que o ghola será capaz de influenciar a garota que controla os vermes?
“Estamos retirando a casca, afinal”, pensou Lucila e disse:
— Eu não preciso responder tal pergunta.
— Você é muito cautelosa.
Lucilla arqueou o corpo para trás, esticando-se. “Cautelosa? Sim, de fato!”
Taraza a advertira quanto a isso. “No que concerne a Schwangyu, você deve agir com extrema cautela, mas rapidamente. Temos uma janela de tempo muito estreita dentro da qual podemos obter sucesso.”
Sucesso no quê?, perguntava-se Lucilla. Ela olhou de lado para Schwangyu.
— Não vejo como os Tleilaxu podem ter conseguido matar li desses ghola s.
Como eles puderam penetrar em nossas defesas?
— Nós temos o Bashar agora — disse Schwangy. — Talvez ele possa evitar o desastre.
Seu tom de voz revelava que ela não acreditava nessa possibilidade A Madre Superiora Taraza dissera: “Você é a Impressora, Lucilla. Quando
chegar a Gammu reconhecerá parte do padrão. Mas para sua tarefa você não precisa do projeto completo”
— Pense no custo! — exclamou Schwangyu, olhando furiosa para o ghola. que agora se agachara, puxando tufos de capim.
O custo nada tinha a ver, sabia Lucilla. A admissão tácita de fracasso era mais importante. A Irmandade não poderia revelar sua falibilidade. Mas o fato de uma Impressora ter sido convocada tão cedo — isso era vital. Taraza sabia que a Impressora perceberia isso, reconhecendo o padrão.
Schwangyu gesticulou com uma mão ossuda para a criança, que tinha voltado a sua brincadeira solitária de correr e pular no capim.
— Política — exclamou.
Sem dúvida, a política da Irmandade encontrava-se no centro da “heresia” de Schwangyu, pensou Lucilla. O caráter delicado dessa discussão interna podia ser avaliado pelo fato de Schwangyu ter sido encarregada desse castelo em Gammu.
Aquelas que se opunham a Taraza recusavam-se a ser colocadas em segundo plano.
Schwangyu virou-se e olhou diretamente para Lucilla. Já fora dito o suficiente O suficiente fora ouvido e filtrado através de mentes treinadas na percepção Bene Gesserit. A Irmandade tinha escolhido essa Lucila com grande cuidado.
Ela sentia a cuidadosa avaliação por parte da velha, mas não permitia que isso afetasse seu mais íntimo sentimento de devei; sobre o qual toda Reverenda Madre podia apoiar-se em tempos de tensão. “Vamos, deixe que ela olhe inteiramente para mim.” Lucilla voltou-se e fez sua boca formar um suave sorriso, deixando que o olhar percorresse o topo do telhado diante delas.
Um homem uniformizado com uma pesada arma laser apareceu, olhou uma vez para as duas Reverendas Madres e depois voltou a atenção para a criança abaixo delas.
— Quem é ele? — perguntou Lucilla.
— Patrin, o auxiliar de maior confiança do Bashar. Diz que é apenas o ordenança do Bashar, mas você teria que ser cega e tola para acreditar nisso.
Lucilla examinou o homem com cuidado. Então esse era Patrin. Um nativo de Gammu, como dissera Taraza, escolhido para sua tarefa pelo próprio Bashar. Magro e louro, muito velho para estar na ativa como soldado, mas convocado de seu retiro. O
Bashar insistira em que Patrin partilhasse seus deveres. Schwangyu notou o modo como Lucilla mudava sua atenção de Patrin para o ghola com verdadeira preocupação. Sim, se o Bashar tinha sido convocado para guardar esse castelo, então o ghola corria extremo perigo.
Lucilla começou a falar, subitamente surpreendida.
— Por que... ele...
— Ordem de Miles Teg — respondeu Schwangyu, citando o nome do Bashar.
— Todas as brincadeiras do ghola são treinamentos. Seus músculos devem ser preparados para o dia em que for restaurada a sua personalidade original.
— Mas não é nenhum exercício simples o que ele está fazendo lá — disse Lucilla. Ela sentia seus próprios músculos reagirem por afinidade com o treinamento relembrado.
— Nós ocultamos apenas a gênese da Irmandade a esse ghola — disse Schwangyu. — Quase tudo mais em nossa bagagem de conhecimento pode ser dele.
Seu tom de voz revelava que ela tinha fortes objeções a isso.
— Certamente ninguém acredita que esse ghola possa se tornar outro Kwisatz Haderach — discordou Lucilla.
Schwangyu meramente encolheu os ombros.
Lucilla manteve-se quieta, pensando. Seria possível que o ghola pudesse transformar-se numa versão masculina de uma Reverenda Madre? Poderia esse Duncan Idaho aprender a olhar para dentro, onde nenhuma Reverenda Madre se atrevia a olhar?
Schwangyu começou a falai; a voz quase um murmúrio resmungante.
— A concepção deste projeto... trata-se de um plano perigoso. Elas podem cometer o mesmo erro.
Ela se interrompeu.
“Elas”, pensou Lucilla. “O ghola delas.”
— O que eu não daria para conhecer com certeza a posição de Ix e das Oradoras Peixes com relação a isso — disse Lucilla.
— Oradoras Peixes! — Schwangyu sacudiu a cabeça ante a lembrança das remanescentes do exército feminino que um dia servira apenas ao Tirano. — Elas acreditam na verdade e na justiça.
Lucilla dominou uma súbita compressão na garganta. Schwangyu fizera tudo, menos declarar oposição aberta. E no entanto era ela quem estava no comando. A regra política era simples: aquelas que se opõem ao projeto devem monitorá-lo de modo a poder abortá-lo ao primeiro indício de problemas. Mas aquele lá embaixo era um genuíno ghola Duncan Idaho. Comparações celulares e Reveladoras da Verdade tinham confirmado isso.
Taraza dissera: “Você deve ensinar-lhe o amor em todas as suas formas.”
— Ele é tão jovem — comentou Lucilla, mantendo a atenção no ghola.
— Jovem, sim — respondeu Schwangyu. — Por ora, creio que você vá despertar nele suas respostas infantis à afeição materna. Depois.
Ela encolheu os ombros.
Lucilla não revelava qualquer reação emocional. As Bene Gesserit obedeciam.
“Eu sou uma Impressora. Assim...” As ordens de Taraza e o treinamento especializado de uma Impressora definiam o curso particular dos acontecimentos.
Lucilla disse a Schwangyu:
— Existe uma pessoa que se parece comigo e fala com a minha voz. Eu o estou imprimindo para ela. Posso perguntar de quem se trata?
— Não.
Lucilla manteve o silêncio. Ela não esperava uma revelação, mas lhe haviam observado mais de uma vez o fato de ela assemelhar-se extraordinariamente à Chefe da Segurança, Madre Darwi Odrade. “Uma jovem Odrade.” Lucilla ouvira em diversas ocasiões. Ambas, Lucilla e Odrade, eram, é claro, da linhagem Atreides, com um forte nível de procriação entre descendentes de Siona. As Oradoras Peixes não possuíam o monopólio desses genes! Mas as Outras Memórias de uma Reverenda Madre, mesmo com a seletividade linear e o confinamento do lado feminino, forneciam indícios importantes nos aspectos mais amplos do projeto ghola. Lucilla, que viera a depender das experiências da persona de Jessica, sepultadas uns 5 mil anos antes das manipulações genéticas da Irmandade, sentia agora um profundo senso de pavor ante essa fonte. Havia nisso um padrão familiar, e ele transmitia um sentimento de tragédia tão intenso que Lucilla se viu relembrando automaticamente a Litania contra o Medo, a qual lhe fora ensinada em sua primeira introdução aos ritos da Irmandade.
“Não devo temer. O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena morte que traz a obliteração total. Eu enfrentarei o meu medo. Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. E, quando ele houver passado, voltarei meu olhar interior para ver o seu caminho. Onde o medo se foi, nada haverá. Somente eu permanecerei.”
A calma retornou a Lucilla.
Schwangyu, sentindo parte disso, permitiu-se baixar ligeiramente a gourela.
Lucilla não era tola, não era uma Reverenda Madre especial com um título vazio e o mínimo conhecimento para agir sem embaraçar a Irmandade. Era muito experiente, e algumas reações não lhe poderiam ser ocultas, nem mesmo as reações de outras Reverendas Madres. Muito bem, deixe que ela conheça a extensão da oposição a este projeto tolo e perigoso.
— Não creio que o ghola delas sobreviva para ver Rakis — disse Schwangyu.
Lucilla deixou passar.
— Fale-me a respeito dos amigos dele — pediu.
— Ele não tem amigos, somente professores.
— Quando vou conhecê-los?
Manteve o olhar voltado para o parapeito oposto, onde Patrin se recostava ociosamente contra uma pilastra baixa, a pesada arma laser pronta a abrir fogo se necessário. Lucilla percebeu, com um súbito choque, que Patrin estava a observá-la.
Patrin era uma mensagem do Bashar que Schwangyu obviamente via e entendia. “Nós o protegemos!”
— Eu presumo que esteja ansiosa por conhecer Miles Teg — comentou Schwangyu.
— Entre outros.
— Não deseja fazer contato com o ghola, primeiro?
— Já diz contato com ele. — Com a cabeça, Lucila indicou o pátio fechado onde a criança uma vez mais se encontrava imóvel, olhando para ela. — Ele é bem
atento e pensativo.
— Eu disponho apenas dos relatórios a respeito dos outros — respondeu Schwangyu. — Mas suspeito de que ele seja o mais pensativo da série.
Lucilla controlou um tremor involuntário ante a disposição para a oposição violenta demonstrada nas atitudes e nas palavras de Schwangyu. Não havia sugestão de que a criança abaixo delas compartilhasse de uma humanidade comum.
Enquanto Lucilla assim pensava, nuvens cobriram o sol, como freqüentemente acontecia a essa hora. Um vento frio soprou sobre os muros do Castelo, rodopiando no jardim. A criança voltou-se e acelerou os exercícios, recebendo calor com o aumento de atividade.
— Aonde ele vai para ficar sozinho? — perguntou Lucilla.
— Geralmente para o quarto. Ele tentou algumas escapadas perigosas, mas nós as desencorajamos.
— Ele deve nos odiar muito.
— Tenho certeza disso.
— Terei que enfrentar isso diretamente.
— Certamente uma Impressora não tem dúvidas quanto à sua habilidade de superar o ódio.
— Eu estava pensando em Geasa. — Lucila olhou para Schwangyu de modo avaliador. — Acho extraordinário que permitissem a Geasa cometer tal erro.
— Eu não interfiro no progresso normal das instruções do ghola. Se uma de suas professoras desenvolve uma verdadeira afeição por ele, isso não é problema meu.
— E uma criança atraente — reconheceu Lucilla.
Ambas ficaram um pouco mais, observando o ghola Duncan Idaho em sua brincadeira-treino. As duas Reverendas Madres pensaram por algum tempo em Geasa, uma das primeiras professoras trazidas até ali para o projeto ghola. A atitude de Schwangyu era evidente: “Geasa foi um fracasso providencial.” Lucilla pensava apenas: “Schwangyu e Geasa complicaram minha tarefa.” Nenhuma das duas mulheres pensou sequer por um momento no modo como tais pensamentos reafirmavam suas lealdades.
Enquanto observava a criança no jardim, Lucilla começou a ver sob novo ângulo o que o Tirano Imperador-Deus tinha realmente conquistado. Leto II fizera uso desse tipo de ghola durante incontáveis gerações — durante uns 3.500 anos, um depois do outro. E o Imperador-Deus não fora nenhuma força comum da natureza, fora o maior jaganatha da história humana, rolando por cima de tudo: sistemas sociais, ódios naturais e não-naturais, formas de governo, rituais (tanto os que eram tabu quanto os que eram obrigatórios), religiões passageiras e duradouras. O peso esmagador da passagem do Tirano não deixara coisa alguma sem marcas, nem mesmo a Bene Gesserit.
Leto II chamara aquilo de “Caminho Dourado”, e esse tipo de ghola Duncan Idaho tinha figurado com proeminência naquela paisagem. Lucilla estudara os relatos
da Bene Gesserit, provavelmente os melhores do universo. Mesmo hoje, na maioria dos planetas Imperiais, após o matrimônio os casais espargiam gotas de água, lançando-as para o leste e o oeste, e murmurando a versão local de: “Que tuas bênçãos refluam para nós desta oferenda, ó Deus de Infinito Poder e Infinita Misericórdia”
Em outro tempo, fora trabalho das Oradoras Peixes e de seu submisso sacerdócio reforçar tal obediência. Mas a coisa desenvolvera seu próprio momentum, tornando-se uma compulsão penetrante. Mesmo entre os mais incrédulos, havia quem dissesse: “Bom, não pode fazer mal algum.” Era uma realização que as melhores engenheiras religiosas da Missionaria Protectiva Bene Gesserit admiravam com frustrado espanto. O Tirano superara o melhor que a Bene Gesserit pudera produzir. E nos 1.500
anos desde a morte do Tirano a Irmande permanecera impotente para desfazer o nó central daquela terrível realização.
— Quem está encarregada do treinamento religioso desta criança? —
perguntou Lucilla.
— Ninguém. Por que se incomodar? Se ele despertar suas memórias originais, terá suas próprias idéias. Cuidaremos disso se surgir a ocasião.
Lá embaixo a criança completara seu tempo de treinamento permitido. Com outra olhada às observadoras no parapeito, deixou o jardim e penetrou num amplo portal à esquerda. Patrin também abandonou sua posição de guarda sem olhar para as duas Reverendas Madres.
— Não se deixe enganar pelos homens de Teg — disse Schwangyu.
— Eles têm olhos atrás das cabeças. A mãe de Teg, você sabe, foi uma de nós.
Ele está ensinando àquele ghola coisas que não deviam ser partilhadas!
Explosões são também compressões de tempo. As mudanças observáveis no universo natural são todas explosivas em algum grau e sob algum ponto de vista; de outro modo, não se poderia nota-las. A uniforme continuidade da mudança, se retardada suficientemente, passa despercebida aos observadores cujo tempo de percepção é muito curto. Assim, eu lhes digo, vi mudanças que vocês nunca teriam percebido.
— Leto II
A mulher, iluminada pela luz da aurora no Planeta da Irmandade, mantinha-se ereta diante da mesa da Reverenda Madre Superiora Alma Mavis Taraza. Era alta e bem-proporcionada, com o longo manto aba a envolvê-la em negro brilhante, dos ombros até o chão, incapaz de ocultar a graça com que seu corpo expressava cada movimento.
Taraza inclinou-se na cadeira e observou o Transmissor de Registros projetar seus caracteres Bene Gesserit sobre o topo da mesa, de modo a serem vistos apenas
pelos olhos dela.
“Darwi Odrade”, era como os registros identificavam a mulher de pé; depois vinha a biografia básica, que Taraza já conhecia com detalhes. A exposição servia a vários propósitos — fornecer uma lembrança segura à Madre Superiora e proporcionar-lhe um tempo extra para pensar, enquanto fingia ler os registros, constituindo um argumento final caso algo de negativo emergisse dessa entrevista.
Odrade dera à luz 19 crianças para a Bene Gesserit. A informação passou diante dos olhos de Taraza. Cada criança de um pai diferente. Nada havia de extraordinário com relação a isso, mas mesmo o olhar mais penetrante podia perceber que esse dever essencial à Irmandade não a havia engordado. Suas feições transmitiam altivez no nariz longo e no complemento do rosto anguloso, cada traço apontando em direção ao queixo estreito. A boca, entretanto, era plenamente formada, transmitindo uma promessa de paixões que ela cuidadosamente continha.
“Sempre podemos confiar nos genes Atreides”, pensou Taraza.
A cortina de uma janela tremulou às costas de Odrade e ela olhou para trás.
Ambas encontravam-se na sala matinal de Taraza, um espaço pequeno, elegantemente mobiliado, decorado em tons de verde. Somente a cadeira branca de Taraza a separava do fundo formado pelo ambiente. As janelas exibiam um panorama de jardim e gramados, com as distantes montanhas nevadas do planeta da Irmandade servindo de fundo.
Sem erguer os olhos, Taraza disse:
— Fiquei satisfeita quando você e Lucilla aceitaram a missão. Isso torna o meu trabalho muito mais fácil.
— Gostaria de ter conhecido essa Lucilla — disse Odrade, olhando para o alto da cabeça de Taraza.
A voz de Odrade saia como um suave contralto.
Taraza pigarreou.
— Não é preciso. Lucilla é uma de nossas melhores Impressoras. Cada uma de vocês, é claro, recebeu um idêntico condicionamento liberal que as preparou para isso.
Havia algo quase insultante no tom de voz informal usado por Taraza, e somente o hábito provindo de um longo conhecimento controlou o ressentimento imediato sentido por Odrade. Isso se devia, em parte, à palavra “liberal”, ela percebia.
Seus ancestrais Atreides erguiam-se em rebelião ante essa palavra. Era como se suas memórias femininas acumuladas saltassem diante dos julgamentos inconscientes e dos preconceitos não-examinados subjacentes a tal noção.
“Somente os liberais são inteligentes. Somente os liberais são intelectuais.
Somente os liberais compreendem as necessidades de seus semelhantes.”
Quanta maldade estava escondida nessas palavras, pensou Odrade! Quanto da necessidade de um ego de se sentir superior. Odrade lembrou-se de que, apesar do tom informalmente insultante usado por Taraza, ela usara o termo apenas num sentido genérico: a educação geral de Lucilla
fora cuidadosamente semelhante à de Odrade.
Taraza inclinou-se para trás numa posição mais confortável, mas ainda mantendo sua atenção na exposição holográfica diante de si. A luz das janelas de leste caía diretamente sobre seu rosto, deixando sombras sob o nariz e o queixo. Mulher pequena, só um pouquinho mais velha que Odrade, Taraza mantinha muito da beleza que a tornara uma procriadora muito confiável com homens difíceis. Seu rosto era um longo oval com as maçãs formando curvas suaves. Usava o cabelo negro preso para trás, a partir da testa alta, num pico pronunciado. A boca de Taraza abria-se o mínimo necessário quando ela falava, demonstrando um soberbo controle de movimentos. A atenção de um observador tendia a se focalizar nos olhos dela: aquele constrangedor azul dentro de azul. O efeito final era de uma suave máscara facial, da qual pouco escapava para revelar suas verdadeiras emoções.
Odrade reconheceu a pose da Madre Superiora. Daí a pouco Taraza iria murmurar algo para si mesma. De fato, bem na hora, Taraza murmurou alguma coisa para si mesma.
A Madre Superiora estava pensando enquanto seguia a exposição biográfica com grande atenção. Muitos assuntos ocupavam essa atenção.
Esse era um pensamento tranqüilizador para Odrade. Taraza não acreditava que existisse algo como um poder benévolo guardando a humanidade A Missionaria Protectiva e as intenções da Irmandade eram tudo que contava no universo de Taraza.
E tudo que servisse a esses fins, mesmo as maquinações do Tirano há muito tempo morto, poderia ser julgado bom. Tudo mais era o mal. As Intrusões alienígenas dos Dispersados — especialmente a volta daquelas descendentes que se chamavam Honradas Madres — não mereciam confiança. A gente de Taraza, mesmo as Reverendas Madres que se opunham a ela no Conselho, eram o derradeiro recurso da Bene Gesserit, a única coisa em que se poderia confiar.
Ainda sem olhar para cima, Taraza disse:
— Você sabe que, quando comparamos os milênios anteriores ao Tirano com aqueles depois de sua morte, o decréscimo do número de conflitos é fenomenal.
Desde a época do Tirano que o número de grandes guerras se reduziu a dois por cento do que era antes.
— Até onde sabemos — comentou Odrade.
Os olhos de Taraza voltaram-se para cima e depois para baixo.
— O quê?
— Não temos meios de avaliar quantas guerras se travaram fora de nossa percepção. Tem estatísticas referentes ao povo da dispersão?
— E claro que não!
— Leto nos domesticou. É isso que está dizendo? — perguntou Odrade.
— Se prefere colocar desse modo.
Taraza inseriu um marco em alguma coisa que viu na exposição de dados.
— Não acha que parte do crédito deve ir para nosso amado Bashar Miles Teg?
— perguntou Odrade. — Ou seus talentosos predecessores?
Nós escolhemos aquela gente.
— Não percebo a pertinência desta discussão marcial — observou Odrade. —
Que tem isso a ver com nosso problema atual?
— Existem aqueles que acreditam poder reverter às condições anteriores ao Tirano com um perverso golpe armado.
— Oh?
Odrade comprimiu os lábios.
— Vários grupos entre os Perdidos que retornam estão vendendo armas a qualquer um que queira ou possa comprar.
— Especificamente?
— Armas sofisticadas estão sendo derramadas em Gammu, e há poucas dúvidas de que os Tleilaxu estão armazenando as mais perigosas.
Taraza inclinou-se para trás, massageando as têmporas. Ela falou em voz baixa, quase meditativa.
— Nós julgamos tomar decisões importantes partindo dos princípios mais elevados.
Odrade também já vira isso antes, e disse:
— Será que a Madre Superiora tem dúvidas quanto à integridade e ao caráter justo da Bene Gesserit?
— Dúvidas? Oh, não. Mas tenho sentido frustrações. Nós trabalhamos durante toda a vida por esses objetivos altamente sofisticados e, no fim, que é que descobrimos? Descobrimos que muitas das coisas às quais dedicamos nossas vidas surgiram de decisões mesquinhas. Suas origens podem ser traçadas até uma necessidade de conforto e conveniência pessoal, e nada têm a ver com nossos ideais mais elevados. O que realmente estava em jogo era algum acordo funcional para satisfazer as necessidades daquelas capazes de tomar decisões.
— Já a ouvi chamar isso de necessidade política — disse Odrade. Taraza falou com um rígido controle, enquanto voltava sua atenção para a exposição de dados diante dela.
— Se nos tornarmos institucionalizadas em nossos julgamentos, com certeza vamos extinguir a Bene Gesserit.
— Não vai encontrar decisões mesquinhas em minha biografia — disse Odrade.
— Busco fontes de fraquezas, falhas.
— Também não vai encontrá-las.
Taraza ocultou o sorriso. Reconhecia a observação egocêntrica como um meio pelo qual Odrade provocava a Madre Superiora. Odrade era muito eficiente em simular impaciência quando na verdade se encontrava suspensa no fluxo da paciência, imune ao tempo.
Como Taraza não engoliu a isca, Odrade reassumiu sua calma expectativa —
respiração tranqüilamente firme. A paciência vinha quando não se pensava muito nela.
Há muito tempo a Irmandade lhe ensinara a dividir passado e presente em fluxos simultâneos. Enquanto observava as cercanias imediatas, podia captar fragmentos, trechos de seu passado e viver através deles como se estivessem se movendo numa tela sobreposta ao presente.
“Trabalho de memória”, pensou Odrade. Coisas necessárias para se revigorar a mente e repousar, removendo as barreiras. E quando tudo mais parecesse desanimador, ainda lhe restaria sua infância complexa.
Houvera um tempo em que Odrade tinha vivido como vivia a maioria das crianças. Em uma casa, na companhia de um homem e de uma mulher que, se não eram seus pais, pelo menos agiam como tal. Todas as outras crianças que conhecia viviam em situações similares. Elas tinham mães e pais. As vezes apenas o pai trabalhava longe de casa. Outras vezes era apenas a mãe que ia trabalhar. No caso de Odrade, somente a mulher permanecia em casa, e nenhuma babá de creche cuidava da criança nas horas de trabalho. Muito tempo depois Odrade descobriu que sua verdadeira mãe tinha pago uma grande soma em dinheiro para que a menina fosse oculta desse modo.
— Ela a escondeu conosco porque a amava muito — explicou a mulher quando Odrade ficou suficientemente crescida para entender. — É por isso que nunca deve revelar que não somos seus verdadeiros pais.
O amor nada tinha ver com isso, Odrade descobriu depois. As Reverendas Madres não agiam por motivos tão mundanos. E a mãe de Odrade fora uma Bene Gesserit.
Tudo isso foi revelado a Odrade de acordo com o plano original: seu nome era Odrade. Darwi era o nome pelo qual ela sempre fora chamada quando a pessoa que chamava não estava sendo afetuosa ou zangada. Os jovens amigos sempre encurtavam para Dar.
Nem tudo, entretanto, correra de acordo com o plano original. Odrade lembrava-se de um leito estreito, num quarto colorido por pinturas de animais e de paisagens imaginárias nas paredes de um azul suave. Cortinas brancas tremulavam nas janelas ante a brisa suave da primavera ou do verão. Odrade lembrava-se de pular na cama estreita — uma brincadeira maravilhosamente feliz: para cima e para baixo, para cima e para baixo. Muito riso. Braços agarrando-a no meio de um pulo e a abraçando.
Havia os braços de um homem: rosto redondo com um pequeno bigode que lhe fazia cócegas e ela ria. A cama batia na parede quando ela saltava e a parede já mostrava marcas desse movimento.
Odrade pensava nessas memórias agora, relutante em abandoná-las no poço da racionalidade. Marcas em uma parede. Marcas de alegria e de risos. Como podiam ser tão pequenas e representar tanto...
Estranho como se via pensando cada vez mais em seu pai nesses dias. Nem todas as memórias eram felizes. Havia ocasiões em que ele estivera triste e furioso,
advertindo a mãe para “não se envolver demais”. Tinha um rosto que refletia muitas frustrações. Sua voz era alta quando ele estava furioso, e a mãe se movia suavemente, os olhos cheios de preocupação. Odrade sentia o medo e a preocupação e ficava com raiva do homem. A mulher sabia muito bem como lidar com ele. Beijava-lhe a nuca, acariciava-lhe a face e sussurrava em seu ouvido.
Essas emoções “naturais” tinham exigido os cuidados de uma analista-inspetora Bene Gesserit trabalhando muito com Odrade até que tais lembranças fossem exorcizadas. Ainda assim, restavam detritos para serem apanhados e jogados fora.
Mesmo agora Odrade sabia que nem tudo se fora.
Percebendo o modo como Taraza estudava o registro biográfico com muito cuidado, Odrade perguntou-se se essa era a falha que a Madre Superiora estaria vendo.
“Certamente elas já sabem que posso enfrentar as emoções daqueles tempos.”
Tudo acontecera muito tempo atrás. E ainda assim ela admitia que as lembranças do homem e da mulher se encontravam dentro dela, unidas por uma força que nunca poderia ser apagada inteiramente. Especialmente a mãe.
A Reverenda Madre em apuros, que dera à luz Odrade, colocara-a em tal refúgio por motivos que ela agora compreendia demasiado bem. Odrade não tinha ressentimentos, sabia que isso fora necessário para a sobrevivência de ambas. Os problemas tinham surgido pelo fato de a mãe adotiva ter-lhe dado algo que a maioria das mães dá a seus filhos, algo de que a Irmandade tanto desconfiava — amor.
Quando chegaram as Reverendas Madres, a mãe adotiva não se opusera à retirada de sua filha. Duas Reverendas Madres apareceram com um contingente de inspetores masculinos e femininos. Depois Odrade levou um longo tempo tentando entender o significado daquele momento de separação. A mulher sabia que o dia da partida iria chegar, era apenas questão de tempo. Ainda assim, enquanto os dias se tornavam anos — quase seis anos padrão —, a mulher se atreveu a ter esperanças.
E então as Reverendas Madres chegaram com seus corpulentos ajudantes. Elas só haviam esperado até que fosse seguro, até estarem certas de que nenhum caçador soubesse que essa era uma Bene Gesserit preparada para ser herdeira dos Atreides.
Odrade viu um bocado de dinheiro ser entregue à mãe adotiva. A mulher jogou o dinheiro no chão, mas não verbalizou nenhum protesto. Os adultos em cena sabiam onde se encontrava o poder.
Relembrando essas emoções comprimidas, Odrade ainda podia ver a mulher caminhar para uma cadeira de balanço que ficava junto a uma janela voltada para a rua e ficar se balançando para a frente e para trás, para a frente e para trás. Nenhum som partiu dela.
As Reverendas Madres usaram a Voz e seus muitos truques, mais a fumaça de ervas atordoantes e sua presença dominadora, a fim de atrair Odrade para o carro de solo que esperava.
— Vai ser só por pouco tempo. Sua verdadeira mãe nos enviou.
Odrade percebia as mentiras, mas a curiosidade a compelia. “Minha verdadeira
mãe!”
Sua última visão da mulher que para ela representara a mãe foi aquela figura na janela, oscilando para a frente e para trás, um olhar de tristeza no rosto e os braços envolvendo o corpo.
Mais tarde, sempre que Odrade falava em retornar para aquela mulher, essa visão-memória incorporava-se a uma lição essencial das Bene Gesserit.
“O amor leva ao sofrimento. O amor é uma força muito antiga, que já serviu ao seu propósito em sua época, mas hoje não é mais essencial à sobrevivência da espécie. Lembre-se do erro daquela mulher, da dor que ela sofreu.”
Até bem depois de sua adolescência, Odrade se ajustava sonhando acordada.
Ela voltaria “realmente” depois que fosse uma Reverenda Madre plena. Voltaria e reencontraria aquela mulher adorável, descobriria seu paradeiro, muito embora não lhe conhecesse outro nome que não “mamãe” ou “Sibia”. Odrade lembrava-se do riso de amigos adultos quando chamavam a mulher de “Sibia”.
“Mamãe Sibia.”
As Irmãs, contudo, detectaram os devaneios e encontraram sua fonte. E isto também foi incorporado a uma lição.
“O devaneio é a primeira manifestação daquilo que chamamos de simulfluxo.
Trata-se de uma ferramenta essencial ao pensamento racional. Com ele você pode clarear a mente para pensar melhor.”
“Simulfluxo”
Odrade focalizou sua atenção em Taraza, diante da mesa na sala matinal. Os traumas de infância devem ser colocados cuidadosamente dentro de um lugar-memória reconstruído. Tudo isso estava bem distante de Gammu, o planeta que o povo de Dan tinha reconstruído após os Tempos da Fome e da Dispersão. O povo de Dan — Caladan em outras épocas. Odrade apegou-se firmemente ao pensamento racional, usando a visão das Outras Memórias que haviam fluído em sua consciência durante a agonia da especiaria. Quando ela se tornara uma Reverenda Madre plena.
“Simulfluxo... o filtro da consciência... Outras memórias”
Que ferramentas poderosas a Irmandade lhe dera. E que ferramentas perigosas. Todas aquelas outras vidas encontravam-se logo além da cortina da consciência. Ferramentas de sobrevivência; não meios de satisfazer uma curiosidade casual.
Taraza falou, traduzindo o material escrito que fluía de baixo para cima diante de seus olhos:
— Você pesquisou muito suas Outras Memórias. Isso consome energias que deviam ser conservadas. — Os olhos de azul total da Madre Superiora fitaram Odrade de baixo para cima de modo penetrante. — Você algumas vezes atinge os limites da tolerância carnal. Isso pode levar à morte prematura.
— Sou cuidadosa com a especiaria, Madre.
— E deve ser mesmo! O corpo só pode suportar certa quantidade de melange.
Somente um certo limite de sondagem sobre o seu passado!
— Encontrou minha falha? — perguntou Odrade.
— Gammu! Uma única palavra contendo todo um discurso.
Odrade sabia. O inevitável trauma de todos aqueles anos perdidos em Gammu. Eles eram uma distração que devia ser arrancada e tornada racionalmente aceitável.
— Mas estou sendo enviada para Rakis — disse Odrade
— Percebo que lembra os aforismos da moderação. Lembre-se de quem você é!
Uma vez mais Taraza curvou-se sobre sua exposição de dados.
“Eu sou Odrade”, pensou Odrade.
Nas escolas Bene Gesserit, onde os primeiros nomes tendiam a ser esquecidos, as listas de chamadas eram feitas sempre com o último nome. Amigas e conhecidas adquiriam o hábito de usar o nome da lista de chamada. E aprendiam cedo que compartilhar segredos ou nomes pessoais era um antigo instrumento para se conquistar a afeição de uma pessoa.
Taraza, três classes à frente de Odrade, recebera a incumbência de “conduzir a menina”, uma associação deliberada da parte das mestras vigilantes.
“Conduzir” significava ter certo domínio sobre a mais jovem, mas também incorporava princípios essenciais que seriam mais bem ensinados por uma pessoa de relacionamento mais íntimo. Taraza, tendo acesso aos relatórios pessoais sobre sua recruta, começou a chamar a jovem de “Dar”. Odrade respondia chamando Taraza de
“Tar”. Os dois nomes adquiriram certa permanência — Dar e Tar. Mesmo depois que as Reverendas Madres os tinham ouvido e censurado, elas ocasionalmente recaíam no erro, às vezes apenas pelo divertimento.
Odrade, agora olhando para Taraza, disse:
— Dar e Tar.
Um sorriso tocou as extremidades da boca de Taraza.
— Que é que existe em meus registros que você já não conhece de sobra? —
perguntou Odrade.
Taraza apoiou-se no recosto do assento e esperou que a cadeira se ajustasse na nova posição. Repousou as mãos unidas sobre o topo da mesa e olhou para a mulher mais jovem.
“Não muito mais jovem, realmente”, pensou Taraza.
Desde a escola que Taraza achava Odrade completamente afastada num grupo etário mais jovem, criando uma brecha que a passagem dos anos não poderia fechar.
— Cuidado com o começo, Dar — disse Taraza.
— Este projeto já passou do inicio há muito tempo — respondeu Odrade.
— Mas sua participação nele começa agora. E nós estamos nos lançando num princípio que nunca antes foi tentado.
— Devo conhecer agora todos os planos para o ghola?
— Não.
Era assim. Toda evidência de uma disputa nos altos escalões e do princípio da
“necessidade de conhecer” resumidos numa única palavra. Mas Odrade entendia.
Havia uma rubrica organizacional, estabelecida pela Irmandade original da Bene Gesserit, que tinha permanecido, com apenas algumas pequenas mudanças, durante milênios. As divisões dentro da Bene Gesserit eram marcadas por barreiras verticais e horizontais muito bem definidas, dividindo grupos isolados que convergiam para um único comando somente, no topo. Deveres (também chamados “tarefas consignadas”) eram realizados dentro de células distintas. As participantes ativas dentro de uma célula não conheciam suas equivalentes dentro de células paralelas.
“Mas eu sei que a Reverenda Madre Lucilla se encontra numa célula paralela”, pensou Odrade. “Essa é uma resposta lógica.”
Ela conhecia a necessidade disso. Era um modelo muito antigo, copiado de sociedades secretas revolucionárias. E a Bene Gesserit sempre vira a si mesma como revolucionária permanente, envolvida numa revolução que fora sufocada apenas na época do Tirano, Leto II.
“Sufocada, mas não extinta ou desviada”, Odrade lembrou a si mesma.
Diga-me se, naquilo que está a ponto de fazer — disse Taraza —, você sente algum perigo imediato para a Irmandade.
Essa era uma das demandas peculiares de Taraza, algo que Odrade aprendera a responder a partir de um instinto não-verbalizável que comandava a formação das palavras. Rapidamente ela disse:
— Pior será se deixarmos de agir.
— Nós deduzimos que haveria perigo — disse Taraza, falando numa voz seca e distante.
Taraza não gostava de invocar esse talento de Odrade A mulher mais jovem possuía um instinto presciente para detectar ameaças à Irmandade. Algo que vinha de uma influência descontrolada em sua linha genética, é claro — dos Atreides com seus perigosos talentos. Havia uma observação especial no arquivo de procriação de Odrade: “Exame cuidadoso de toda a prole.” E dois elementos dessa prole já tinham sido secretamente condenados à morte, “Eu não devia ter despertado o talento de Odrade agora, nem mesmo por um momento”, pensou Taraza. Mas às vezes a tentação era demasiado grande.
Taraza fechou o projetor no tampo da mesa e olhou para a superfície vazia enquanto falava:
— Mesmo que você encontre um companheiro perfeito, não deve procriar sem nossa permissão quando estiver afastada da Irmandade.
— O erro de minha mãe natural — disse Odrade.
— O erro de sua mãe natural foi ser reconhecida enquanto estava procriando!
Odrade já ouvira isso antes. Havia aquele detalhe quanto à linhagem Atreides que exigia a mais cuidadosa atenção pelas mulheres no ato de procriação. O talento
selvagem, é claro. Ela sabia tudo a respeito desse talento, a força genética que tinha produzido o Kwisatz Haderach e o Tirano. Que é que as encarregadas da procriação estariam vendo agora? Seria a abordagem delas, na maior parte, negativa? Nada de nascimentos perigosos! Ela nunca vira seus bebês depois de nascidos, algo que não era necessariamente extraordinário no caso da Irmandade. E nunca pudera examinar os registros genéticos em seu próprio arquivo. Nisso também a Irmandade operava com uma separação cuidadosa dos elementos e dos poderes.
“E aquelas proibições anteriores em minhas Outras Memórias!”
Encontrara os espaços em suas memórias e os abrira à observação. Era provável que apenas Taraza e talvez duas outras conselheiras (Bellonda era a mais provável, além de outra Reverenda Madre, ainda mais velha) compartilhassem do acesso mais sensível a tal informação sobre nascimentos.
Teriam Taraza e as outras feito o juramento de que morreriam antes de revelar informações privilegiadas a um estranho? Havia, afinal de contas, um preciso ritual de sucessão caso uma Reverenda Madre num posto-chave morresse longe de suas Irmãs e sem qualquer chance de passar as vidas guardadas dentro de si. O ritual fora usado muitas vezes durante o reinado do Tirano. Um período terrível! Saber que as células revolucionárias da Irmandade lhe eram transparentes a ele! Ao monstro! Ela sabia que suas irmãs nunca se haviam iludido em relação ao fato de que a única coisa que impedira Leto II de destruir a Bene Gesserit fora algum tipo de profunda lealdade à sua avó, Lady Jessica.
“Você está ai, Jessica?”
Odrade sentiu uma comoção bem longe dentro de si. O fracasso de uma Reverenda Madre: “Ela se deixou apaixonar!” Uma coisa tão pequena, mas que conseqüências imensas! Três mil e quinhentos anos de tirania!
O Caminho Dourado Infinito? E quanto aos megatrilhões perdidos na Dispersão? Que ameaça representaria agora o retorno desses perdidos?
Como se lesse a mente de Odrade, algo que às vezes parecia fazer, Taraza disse:
— Os Perdidos estão lá fora, só esperando para atacar. Odrade já tinha ouvido a argumentação: perigo de um lado e do outro, algo magneticamente atraente. Tantos desconhecidos magníficos. A Irmandade, com seus talentos aperfeiçoados por milênios de uso da melange — que não poderia fazer com tamanho potencial humano ainda intocado? Pense nos incontáveis genes flutuando lá fora! Pense nos talentos em potencial, derivando livres em universos onde poderiam perder-se para sempre.
— E o desconhecido que conjura os maiores terrores — disse Odrade.
— E as maiores ambições — replicou Taraza.
— Então deverei seguir para Rakis?
— Na devida ocasião. Eu a considero adequada para a tarefa.
— Do contrário não me teria escolhido.
Era uma antiga discussão entre elas, que recuava no passado até o tempo da
escola. Taraza percebia, entretanto, que não fora levada a essa troca de palavras conscientemente. Muitas memórias as uniam: Dar e Tar. Teria de ter cuidado com isso! — Lembre-se de onde estão as suas lealdades — disse Taraza.
A existência das não-naves traz consigo a possibilidade de destruir planetas inteiros sem medo de retaliação. Um grande objeto, um asteróide ou equivalente, pode ser lançado de encontro ao planeta. Ou as pessoas podem ser atiradas umas contra as outras por meio de subversão sexual, e então armadas de modo a que se destruam. Essas Honradas Madres parecem inclinadas a empregar essa última técnica.
— Análise da Bene Gesserit
De sua posição no pátio, e mesmo quando não aparentava fazê-lo, Duncan Idaho mantinha a atenção voltada para os observadores acima dele. Lá estava Patrin, é claro, mas Patrin não contava. Eram as Reverendas Madres que mereciam sua atenção. Vendo Lucilla, pensou: “Essa aí é nova.” O pensamento fez uma onda de excitação percorrer-lhe o corpo, algo que ele aproveitou em novos exercícios.