Os Hereges de Duna
Taraza não tentou esconder sua admiração.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Envolvimento total?
Taraza não tentou esconder sua admiração.
Odrade também ouvia com um sentimento de choque, que ela percebia ser compartilhado pelas outras Irmãs presentes e até pelas acólitas. Somente Sheeana parecia não compreender.
— Eu lhe digo, Madre Superiora Taraza — disse Waff com um maligno sorriso de satisfação —, que nós duplicamos isso com nossa própria gente. Comigo mesmo! Em meu ódio, fiz com que o Dançarino Facial que fazia o papel de... mulher se destruísse. Ninguém... eu digo ninguém... pode possuir tal poder sobre mim!
— Que poder?
— Se tivesse sido uma dessas... uma dessas prostitutas, como as chama, eu teria obedecido a ela em tudo que ordenasse, sem questionar. — Ele estremeceu. —
Quase não tive forças para... para destruir. — Sacudiu a cabeça, espantado pela lembrança. — O ódio me salvou.
Taraza tentou engolir sentindo a garganta seca.
— Como...
— Como é feito? Muito bem! Mas antes de compartilhar desse conhecimento com vocês, eu as aviso: se alguma de vocês, algum dia, tentar usar esse poder contra nós, haverá uma matança! Nós preparamos nosso Domei e toda a nossa gente para responder assassinando cada Reverenda Madre que puderem encontrar ao menor indício de que pretendem exercer esse poder sobre nós!
— Nenhuma de nós faria isso, mas não é por causa de sua ameaça. Nós somos contidas pelo conhecimento de que tal coisa nos destruiria. Seu massacre sangrento
não será necessário.
— Oh, então por que isso não destrói essas... essas prostitutas?
— Mas destrói! Isso destrói tudo que elas tocam!
— Mas não me destruiu!
— Deus o protege, meu Abdl — disse Taraza. — Como ele protege a todos os fiéis.
Convencido Waff olhou à sua volta e de novo para Taraza.
— Que todos saibam que eu selo nossa união na terra do Profeta.
— Este é o modo como elas fazem... — Acenou com a mão para dois de seus Dançarinos Faciais. — Faremos uma demonstração.
Muito depois, quando Odrade se encontrava sozinha no salão da cobertura, ela se perguntou se teria sido sábio deixar Sheeana ver todo o espetáculo. Bem, por que não? Sheeana já estava decidida a se dedicar à Irmandade, e teria despertado as suspeitas de Waff mandá-la sair.
Houvera uma óbvia excitação sexual da parte de Sheeana enquanto ela assistia ao desempenho dos Dançarinos Faciais. As Inspetoras do Treinamento teriam que convocar seus assistentes masculinos mais cedo do que o normal para atenderem a Sheeana. E o que Sheeana faria então? Será que tentaria esse novo conhecimento com os homens? Era preciso criar-lhe inibições para impedir tal coisa! Devia aprender os perigos que isso representava para si mesma.
As Irmãs e acólitas presentes tinham se controlado muito bem, armazenando na memória tudo que viam. A educação de Sheeana devia ser construída em torno dessa observação. Outras dominavam tais impulsos interiores.
Os observadores Dançarinos Faciais tinham permanecido inescrutáveis, mas houvera muito a ser observado em Waff. Ele dissera que iria destruir os dois que faziam a demonstração, mas qual deles destruiria primeiro? Não iria sucumbir à tentação? Que pensamentos passavam em sua cabeça enquanto ele observava o Dançarino Facial masculino debater-se num êxtase que anulava a mente?
De certo modo, a demonstração fazia Odrade lembrar-se da dança Rakiana que tinha visto na Grande Praça de Keen. A curto prazo, a dança fora deliberadamente destituída de ritmo, mas sua progressão criava um ritmo a longo prazo que se repetia a cada 200... passos. Os dançarinos haviam ampliado seu senso de ritmo a um grau extraordinário.
Como os demonstradores Dançarinos Faciais.
“Siaynoq transformou-se numa dominação sexual para incontáveis bilhões de pessoas durante a Dispersão!”
Odrade pensou na dança, no longo ritmo seguido pela violência caótica. A gloriosa união de energias religiosas de Siaynoq tinha evoluído para um tipo diferente de união. Ela pensou na reação excitada de Sheeana ao vislumbrar a dança na Grande Praça. lembrou-se de ter perguntado a Sheeana:
— Que é que eles compartilhavam lá embaixo?
— Os dançarinos, boba!
Esse tipo de resposta não era permitida.
— Eu já lhe avisei a respeito desse tom de voz. Quer aprender imediatamente o que uma Reverenda Madre pode fazer para puni-la?
As palavras repetiam-se como mensagens fantasmagóricas na mente de Odrade enquanto ela observava a escuridão crescente fora da cobertura em Dar-es-Balat. Uma grande solidão cresceu dentro dela. Todas as outras tinham saído da sala.
“Somente o objeto da punição permanece!”
Como os olhos de Sheeana brilhavam naquela sala acima da Grande Praça, a mente tão cheia de perguntas.
— Por que vocês vivem falando em sofrimento e punição?
— Você deve aprender sobre disciplina. Como poderá controlar os outros se não for capaz de controlar a si mesma?
— Eu não gosto dessa lição.
— Nenhuma de nós a aprecia muito... até bem depois, quando aprendemos a reconhecer o seu valor através da experiência.
Como fora pretendido, essa resposta agitou-se durante muito tempo na consciência de Sheeana. No final ela revelou tudo que sabia a respeito da dança.
— Alguns dançarinos escapam. Outros vão diretamente para Shaitan. Os sacerdotes dizem que eles vão para Shai-hulud.
— E que acontece com os que sobrevivem?
— Quando se recuperam, devem unir-se numa grande dança no deserto. Se Shaitan vier, então eles morrem. Se Shaitan não vier, são recompensados.
Odrade percebera o padrão. As palavras de explicação de Sheeana não tinham sido mais necessárias além desse ponto, muito embora fosse permitido que o recital continuasse. Como a voz de Sheeana estivera marcada pela amargura!
— Eles recebem dinheiro, um ponto num bazar, esse tipo de coisa. Os sacerdotes dizem que provaram ser humanos.
— E os que fracassam não são humanos?
Sheeana permanecera em silêncio por um bom tempo, mergulhada em seus pensamentos. Mas para Odrade a origem era clara: o teste de humanidade da Irmandade! Sua própria passagem para as fileiras de uma humanidade aceitável dentro da Irmandade já fora duplicada em Sheeana. Como essa passagem parecia suave comparada com outras dores!
Na iluminação crepuscular da cobertura do museu, Odrade ergueu a mão direita e olhou para ela, lembrando-se da caixa de agonia e do gom jabbar apontado para o seu pescoço, pronto para matá-la se ela retirasse a mão ou gritasse.
Sheeana também não gritara. Mas ela já conhecia a resposta à pergunta de Odrade, muito antes de passar pela caixa de agonia.
— Eles são humanos, mas são diferentes.
Odrade falou alto no salão vazio, em meio à exposição dos tesouros da não-
câmara do Tirano.
— Que foi que você fez conosco, Leto? Será que você é apenas o Shaitan falando conosco? O que vai nos forçar a compartilhar agora?
“Será que a dança fossilizada iria transformar-se em sexo fossilizado?”
— Com quem está falando, Madre?
Era a voz de Sheeana na porta aberta do outro lado do salão. Seu manto cinzento de postulante era apenas uma forma vaga, tornando-se maior à medida que ela se aproximava.
— A Madre Superiora mandou-me vir procurá-la — disse Sheeana enquanto parava junto a Odrade.
— Eu estava falando comigo mesma — disse Odrade. Olhou para a garota, estranhamente quieta, lembrando-se da excitação do momento em que a pergunta crucial fora feita a Sheeana.
— Você quer ser uma Reverenda Madre?
— Por que está falando a si mesma, Madre?
Havia um bocado de preocupação na voz de Sheeana. As Instrutoras teriam as mãos cheias na hora de remover aquelas emoções.
— Estava me lembrando de quando perguntei se desejava ser uma Reverenda Madre — respondeu Odrade. — Isso me trouxe outros pensamentos.
— Disse que eu devo seguir sua orientação em todas as coisas, não escondendo nada, sem desobedecê-la em coisa alguma.
— E você disse: “É só isso?”
— Eu não sabia muita coisa, não é? Ainda sei muito pouco.
— Nenhuma de nós sabe, criança. Exceto que estamos todas juntas em uma dança. E Shaitan certamente virá se uma de nós fracassar.
Quando estranhos se encontram, devem-se levar em grande conta as diferenças de costumes e de treinamento.
Lady Jessica,
de “A Sabedoria de Arrakis”
A derradeira faixa de luz esverdeada sumiu no horizonte antes que Burzmali desse o sinal para irem em frente. Estava escuro quando chegaram ao outro lado de Ysai e à estrada perimetral que os levaria ao encontro do Duncan. Nuvens cobriam o céu, refletindo a iluminação da cidade sobre as formas dos barracos urbanos por entre os quais os guias os tinham conduzido.
Esses guias preocupavam Lucilla. Saíam de ruas laterais e surgiam de portas subitamente abertas para sussurrarem novas orientações. Gente demais sabia a respeito, do casal de fugitivos e de seu encontro!
Lucilla conseguira dominar o ódio, mas o resíduo remanescente se traduzia numa desconfiança profunda com relação a cada pessoa que eles encontravam.
Ocultar isso atrás das atitudes mecânicas de uma playfêmea com seu freguês tornava-se cada vez mais difícil.
Havia uma camada de neve misturada com lama sobre a calçada, a maior parte espalhada pela passagem de carros de solo. Os pés de Lucilla ficaram gelados antes que os dois tivessem percorrido meio quilômetro e ela foi forçada a consumir energia para compensar o fluxo extra de sangue enviado às extremidades do corpo.
Burzmali caminhava em silêncio, a cabeça baixa, aparentemente perdido nas próprias preocupações. Lucilla não se deixava enganar. Ele ouvia cada som em torno deles, via cada veículo que se aproximava. Puxava-a para fora da calçada sempre que um carro se aproximava. Os carros passavam zunindo em seus suspensores e a neve suja voava, erguida pelas saias de borracha, tipo hovercraft, que envolviam os veículos, e lançada sobre a vegetação que cercava a estrada. Burzmali mantinha-a abaixada atrás dos montes de neve e do capim até se certificar de que o carro sumira de vista. Não que alguém dentro daqueles carros fosse ouvir ou ver muita coisa naquela velocidade.
Haviam caminhado por duas horas quando Burzmali parou e observou o caminho adiante. Seu destino era uma comunidade periférica, que lhes haviam descrito como sendo “totalmente segura”. Lucilla, contudo, não se iludia. Nenhum lugar em Gammu seria totalmente seguro.
Luzes amareladas lançavam um brilho nas nuvens adiante, marcando o local da comunidade. O avanço conduziu-os através de um túnel sob a estrada perimetral e subindo uma colina baixa, plantada com algum tipo de bosque. Os ramos pareciam nus e secos à luz crepuscular.
Lucilla olhou para cima e viu que as nuvens começavam a se dissipar. Gammu tinha muitas luas pequenas — não-naves fortalezas. Algumas delas tinham sido instaladas por Teg, mas ela vislumbrava alguns grupos novos compartilhando do papel de guardiãs. Pareciam brilhar quatro vezes mais que as estrelas mais luminosas e freqüentemente viajavam juntas, o que tornava sua luz refletida útil, embora errática, já que elas se moviam muito depressa — atingiam o zênite e mergulhavam no horizonte em algumas horas apenas. Lucilla viu um cordão de seis dessas luas através de uma abertura nas nuvens, perguntando-se se seriam parte do sistema defensivo de Teg.
Momentaneamente, ela refletiu sobre a fraqueza inerente à mentalidade de sitiado representada por tais defesas. Teg estivera certo a respeito delas. Mobilidade, essa era a chave do êxito militar, mas ela duvidava de que ele com isso quisesse dizer mobilidade a pé.
Não havia esconderijos fáceis nessa colina coberta de neve, e Lucilla sentia o nervosismo de Burzmali. Que poderiam fazer ali se viesse alguém? Uma depressão coberta de neve descia do lugar onde se encontravam até a comunidade lá embaixo.
Não era uma estrada, mas ela achou que podia ser uma trilha.
— Vamos descer por este caminho — disse Burzmali, conduzindo-a pela depressão.
Afundaram na neve até os tornozelos.
— Espero que essa gente seja confiável — comentou Lucilla.
— Eles odeiam as Honradas Madres. Isso é o bastante para mim.
— É melhor que o ghola esteja aqui! — Lucilla conteve uma resposta ainda mais furiosa, mas não deixou de acrescentar: — O ódio deles não é o bastante para mim.
Seria melhor esperar pelo pior, pensou ela.
No entanto passara a encarar Burzmali de um modo tranquilizador. Ele era como Teg. Nenhum deles seguia um curso de ação que pudesse conduzi-los a um beco sem saída — não se o pudessem evitar. Ela suspeitava de que houvesse forças de apoio escondidas no capim em torno deles agora mesmo.
A trilha coberta de neve terminou num caminho pavimentado que se curvava para dentro a partir das bordas e era mantido livre da neve por um sistema de aquecimento. Havia um fio de umidade escorrendo no centro. Lucila deu vários passos sobre aquela via antes de reconhecer o que devia ser... uma magcalha. Era um antigo sistema de transporte magnético que servira para o transporte de matérias-primas ou mercadorias para fábricas nos dias anteriores à Dispersão.
— Vai ficando mais íngreme — advertiu Burzmali. — Eles esculpiram degraus sobre a superfície, mas é melhor ter cuidado. Eles não são muito profundos.
Daí a pouco eles alcançaram o final da magcalha. Terminava numa parede em ruínas — tijolos sobre um alicerce de plasteel. A luz fraca das estrelas num céu que clareava revelou o modo tosco como os tijolos tinham sido feitos — típica construção dos Tempos da Fome. A parede era uma massa de trepadeiras e manchas de fungo.
Mas a vegetação não conseguia ocultar as fendas nos tijolos e os esforços frustrados de preencher rachaduras com argamassa. Uma única fila de janelas estreitas abria-se sobre o local onde a magcalha desembocava numa massa de trepadeiras e arbustos.
Três das janelas brilhavam com uma iluminação azul-elétrica, enquanto sons de atividade nó interior eram acompanhados por fracos estalidos.
— Isto era uma fábrica antigamente — disse Burzmali.
— Tenho olhos e memória — retrucou Lucilla.
Será que este macho resmungante a julgava totalmente desprovida de inteligência?
Alguma coisa estalou à sua esquerda. Um trecho de gramado e ervas ergueu-se do topo de um alçapão, acompanhado pelo brilho interior de uma forte luz amarela.
— Rápido!
Burzmali conduziu-a em rápida carreira pela vegetação espessa e eles desceram o lance de degraus revelado pela abertura do alçapão. A abertura fechou-se atrás deles com um ruído de máquinas.
Lucilla viu-se num amplo espaço com teto baixo. A luz provinha de fileiras compridas de modernos globos luminosos, suspensos de vigas maciças de plasteel. O
piso estava limpo, mas mostrava arranhões e denteados produzidos por alguma atividade — sem dúvida os locais das máquinas que tinham sido retiradas. Ela percebeu um movimento do outro lado do espaço aberto. Uma jovem usando uma versão do manto de dragão de Lucilla caminhou ao encontro deles.
Lucilla cheirou. Havia um fedor de ácido nesse lugar, com resíduos do odor de alguma coisa estragada.
— Isto era uma fábrica Harkonnen disse Burzmali. — Eu me pergunto o que será que eles fabricavam aqui.
A jovem parou diante de Lucilla. Era uma figura esguia, elegante nas formas e nos movimentos vislumbrados sob o manto justo. Um brilho subcutâneo provinha de sua face, revelando boa saúde e a prática de exercícios. Seus olhos verdes, contudo, eram duros e arrepiantes no modo como avaliavam tudo que viam.
— Então elas mandaram mais de uma de nós para vigiar este lugar — ela disse.
Lucilla colocou a mão sobre o braço de Burzmali, contendo-o antes que ele respondesse. Essa mulher não era o que parecia. “Não mais do que eu sou!” Lucilla escolheu as palavras com cuidado.
— Nós sempre nos reconhecemos, parece.
A jovem sorriu.
— Eu a observei quando se aproximava. Não podia acreditar no que via. —
Olhou com desdém para Burzmali. — Esse aí devia ser um freguês seu?
— E guia — disse Lucilla.
Ela notou a expressão intrigada no rosto de Burzmali e rezou para que ele não fizesse a pergunta errada. Essa moça era um perigo.
— Não estávamos sendo esperados? — perguntou Burzmali.
— Ah, isso fala — disse a jovem, rindo.
Seu riso era tão frio quanto seus olhos.
— Prefiro que não se refiram a mim como “isso” — disse Burzmali.
— Eu chamo a escória de Gammu do que eu quiser — disse a garota. — Não me fale de suas preferências.
— De que me chamou?
Burzmali estava cansado e sua raiva ferveu ante esta ofensa inesperada.
— Eu o chamo do que quiser, escória!
Burzmali tinha sofrido o bastante. Antes que Lucilla pudesse detê-lo, soltou um grunhido e tentou esbofetear violentamente a jovem.
Mas não conseguiu.
Lucilla observou fascinada enquanto a garota se esquivava do ataque, pegava Burzmali pela manga como se pega um pedaço de pano flutuando ao vento e, numa pirueta cuja velocidade quase ocultou sua delicadeza de movimentos, o lançava
escorregando pelo piso. Depois a garota se agachou sobre uma das pernas, a outra pronta para um chute.
— Devo matá-lo agora — ela disse.
Lucilla, não sabendo o que poderia acontecer em seguida, curvou o corpo para o lado, evitando por pouco o pontapé da garota, e contra atacou com um golpe Bene Gesserit padrão que fez a jovem cair de costas, toda curvada sobre o abdômen, onde o impacto do golpe se fizera sentir.
— A idéia de que possa matar meu guia não é bem-vinda, qualquer que seja o seu nome — disse Lucilla.
Sem fôlego, a jovem afinal conseguiu falar espaçadamente:
— Eu me chamo Murbella, Grande Honrada Madre. A senhora me envergonha derrubando-me com um golpe tão lento. Por que fez isso?
— Você precisava de uma lição.
— Recebi meu manto há pouco tempo, Grande Honrada Madre. Por favor, perdoe-me. Eu lhe agradeço pela esplêndida lição e vou lhe agradecer todas as vezes em que empregar essa sua resposta, que guardarei em minha memória.
Ela curvou a cabeça e então se colocou de pé rapidamente, com um sorriso travesso no rosto.
Com sua voz mais fria, Lucilla perguntou:
— Sabe quem eu sou?
Com o canto dos olhos ela viu Burzmali colocar-se de pé com dolorosa lentidão. Ele ficou afastado, observando as duas mulheres, com um ódio visível no rosto.
— Por sua habilidade em me ensinar essa lição, posso ver quem é a senhora, Grande Honrada Madre. Estou perdoada?
O sorriso travesso tinha desaparecido do rosto de Murbella. Ela ficou com a cabeça curvada.
— Está perdoada. Há uma não-nave a caminho?
— Assim dizem. Estamos preparadas para ela.
Murbella olhou para Burzmali.
— Ele ainda me é útil e é necessário que me acompanhe — explicou Lucilla.
— Muito bem, Grande Honrada Madre. Seu perdão inclui a menção do seu nome?
— Não!
Murbella suspirou.
— Nós capturamos o ghola — ela disse. — Ele veio pelo sul disfarçado de Tleilaxu. Eu estava a ponto de me deitar com ele quando chegou.
Burzmali caminhou trôpego em direção a elas. Lucilla notou que ele reconhecera o perigo. Este lugar “totalmente seguro” estava infestado de inimigos!
Mas os inimigos ainda sabiam muito pouco.
— O ghola não foi ferido? — perguntou Burzmali.
— Isso ainda fala — comentou Murbella. — Que estranho.
— Você não vai se deitar com o ghola — disse Lucilla. — Essa é minha tarefa especial!
— Eu o peguei, Grande Honrada Madre. E o marquei primeiro. Ele já está parcialmente dominado.
Ela riu uma vez mais, com um descaso frio que chocou Lucilla.
— Venham por aqui. Há um lugar de onde poderão observar.
Que vocês possam morrer em Caladan!
— Antigo Brinde
Duncan tentou lembrar-se de onde estava. Sabia que Tormsa estava morto.
Tinha visto o sangue esguichar dos olhos dele. Sim, lembrava-se disso claramente.
Eles tinham entrado num prédio escuro e de repente a luz se acendera em volta deles.
Duncan sentira uma dor na nunca. Um golpe? Tentou mexer-se e os músculos se recusaram a obedecer.
Lembrava-se de estar sentado à beira de um grande gramado. Estavam jogando um tipo de boliche — bolas esquisitas que saltavam e corriam sem qualquer propósito aparente. Os jogadores eram jovens usando trajes comuns em Giedi Prime!
— Eles estão praticando para serem adultos — dissera ele.
Lembrava-se de ter dito isso.
Sua companhia, uma jovem, olhara para ele sem entender.
— Somente adultos praticam esses jogos ao ar livre — ele explicara.
— É?
Era uma pergunta que não se respondia. Ela demonstrou isso com o mais simples dos gestos verbais.
“E me entregou aos Harkonnen no instante seguinte!”
Então essa era uma memória pré- ghola.
“Ghola!”
Lembrava-se do Castelo da Bene Gesserit em Gammu. A biblioteca: holofotos e trifotos do Duque Atreides, Leto I. A semelhança com Teg não era acidental: um pouco mais alto, mas sob outros aspectos estava tudo ali — o rosto magro e comprido com o nariz fino, o renovado carisma dos Atreides...
Lembrou-se do último gesto galante do velho Bashar na noite de Gammu.
“Onde estou?”
Tormsa o trouxera para cá. Tinham andado por uma trilha coberta de vegetação nos arredores de Ysai. “Barony”. Começara a nevar antes que tivessem avançado 200 metros e a neve úmida grudava-se neles. Neve fria e miserável, que deixou seus dentes batendo em questão de um minuto. Pararam para colocar os capuzes e fechar as jaquetas isoladas. Assim era melhor. Mas ia escurecer logo. Ficaria muito mais frio.
— Existe uma espécie de abrigo adiante — explicara Tormsa. — Vamos passar a noite lá.
Como Duncan não falasse, Tormsa acrescentou:
— Não vai ser quente, mas pelo menos estará seco.
Trezentos passos depois, Duncan viu a silhueta escura do lugar. Erguia-se sobre a neve suja com dois andares de altura. Reconheceu imediatamente: posto de contagem dos Harkonnen. Observadores ali postados tinham a responsabilidade de contar (e às vezes assassinar) as pessoas que passavam. Era feito de terra nativa transformada num gigantesco tijolo através do expediente simples de pré-moldá-la em lama e depois superaquecê-la com um queimador do tipo que os Harkonnen usavam para controlar motins.
Na medida em que se aproximavam, Duncan viu o que restara de uma completa tela defensiva com aberturas de lança-chamas apontadas para quem se aproximasse. Alguém destruíra esse sistema muito tempo atrás. Buracos rasgados na rede do campo estavam ocupados por arbustos. Mas as aberturas dos lança-chamas permaneciam abertas. Ah, sim... para dar às pessoas lá dentro uma visão de quem se aproximas-se.
Tormsa parou e ouviu, observando as cercanias com cuidado.
Duncan olhava para a estação de contagem. Lembrava-se dela muito bem. O
que o confrontava era uma coisa que tinha brotado como uma vegetação deformada a partir de uma semente tubular original. A superfície fora cozinhada para produzir um acabamento vítreo. Verrugas e protuberâncias revelavam os pontos onde fora superaquecida. A erosão das eras deixara finos arranhões, mas a forma original permanecia. Ele olhou para cima e identificou parte do velho sistema de suspensores elevadores. Alguém tinha adaptado um guincho e uma roldana ao exterior.
Então a abertura da tela do campo era recente.
Tormsa desapareceu na abertura.
Como se um botão tivesse sido acionado, a visão na memória de Duncan modificou-se. Encontrava-se na biblioteca do não-globo junto com Teg. O projetor estava produzindo uma série de vistas da moderna Ysai. A idéia de moderno soava-lhe de modo curioso. Baronja tinha sido uma cidade moderna, considerando-se moderno algo tecnologicamente eficiente de acordo com as normas de sua época. Dependia exclusivamente de feixes suspensores para o transporte de gente e materiais — tudo a grande altura. Não havia entradas no nível do solo. Ele estava explicando tudo isso para Teg.
O projeto traduzira-se numa cidade que usava cada possível metro quadrado de espaço horizontal e vertical para outras coisas que não o movimento de pessoas e bens de consumo. As aberturas para os feixes suspensores exigiam apenas o espaço
suficiente para os ombros e as cabeças dentro dos casulos de transporte tipo universal.
Teg disse:
— A forma ideal é a cilíndrica, com teto chato para o pouso dos tópteros.
— Os Harkonnen preferiam quadrados e retângulos. Isso era verdade.
Duncan lembrava-se de que Baronja tivera uma paisagem aberta e desimpedida que o fizera estremecer. Os trilhos dos suspensores percorriam-na como buracos de vermes — retos, curvos, dobrando-se em ângulos oblíquos... para cima, para baixo, para os lados. Exceto pela forma retangular imposta pelos Harkonnen, Baronja fora construída dentro de um critério voltado para o máximo alojamento de população: abrigar o máximo com o mínimo gasto de materiais.
— As coberturas planas eram os únicos espaços voltados para o bem-estar humano naquele maldito lugar! — lembrava-se de ter dito a Teg e Lucilla.
Lá em cima ficavam os apartamentos de cobertura, com estações de guarda em todas as extremidades, nas plataformas de tópteros, em todas as entradas que davam para a parte de baixo, em torno de todos os parques. Assim as pessoas que viviam nos topos dos prédios podiam ignorar a massa humana vivendo espremida logo abaixo delas. Não se permitia que qualquer ruído ou cheiro dessa confusão de carne apertada chegasse lá em cima. Os servos eram obrigados a se lavar e vestir roupas limpas antes de entrar no mundo superior.
Teg tinha uma pergunta:
— Por que essa massa humana aglomerada e comprimida aceitava viver nessas condições?
A resposta era óbvia e ele explicou. Viver fora da cidade era perigoso. E os governantes da cidade faziam parecer ainda mais perigoso do que realmente era. Além disso, poucos lá dentro sabiam alguma coisa a respeito de uma vida melhor lá fora. A única vida melhor que conheciam estava no alto. E o único caminho para o alto era o da mais total servidão.
“Vai acontecer e não há nada que você possa fazer a esse respeito!” Era outra voz ecoando dentro do Crânio de Duncan. Ele a ouvia claramente.
“Paul!”
Como era estranho, pensou. Havia uma arrogância nos prescientes que lembravam a arrogância de um Mentat apoiando-se em sua lógica mais frágil.
“Eu nunca tinha pensado em Paul como arrogante”
Duncan olhou para o próprio rosto no espelho. Percebeu com parte de sua mente que esta era uma memória pré- ghola. De repente estava olhando para outro espelho, seu próprio rosto de certa forma diferente. Aquele rosto escuro e redondo começava a tomar as formas mais angulosas do amadurecimento. Olhou para os próprios olhos. Sim, aqueles eram seus olhos. Tinha ouvido alguém defini-los certa vez como profundos. Estavam fundamente alojados embaixo das sobrancelhas e protegidos por faces estufadas. Tinham lhe dito também que era difícil determinar se seus olhos eram azuis-escuros ou cinza-escuros, a menos que a iluminação fosse
ótima.
Uma mulher dissera isso. Não conseguia lembrar que mulher fora.
Tentou estender as mãos e tocar o próprio cabelo, mas as mãos não lhe obedeciam. Lembrou-se então de que seus cabelos tinham sido descorados. Quem fizera isso? Uma velha. Seu cabelo não era mais uma touca de caracóis escuros.
Lá estava o Duque Leto olhando para ele da porta da sala de jantar em Caladan.
— Nós vamos comer agora — dissera o Duque.
Era uma ordem real que deixava de parecer arrogante devido ao sorriso franco que dizia implicitamente: “Alguém tinha que dizer isso”
“Que está acontecendo com a minha mente?”
Lembrava-se de ter seguido Tormsa até um lugar onde ele dissera que uma não-nave desceria para encontrá-los.
Era um prédio volumoso dentro da noite, com várias construções menores abaixo da maior. Elas pareciam estar ocupadas. Vozes e sons mecânicos podiam ser ouvidos, vindos de dentro delas. Mas nenhum rosto apareceu nas janelas estreitas.
Nenhuma porta se abriu. Duncan sentiu cheiro de comida sendo preparada ao passar pela maior das pequenas construções. Isso recordou-lhe que só tinham comido tiras secas de um material coriáceo que Tormsa chamara de “comida de virgem”
Entraram no prédio escuro.
As luzes se acenderam.
Os olhos de Tormsa explodiram em sangue.
Escuridão.
Duncan olhava para um rosto de mulher. Tinha visto um rosto como esse antes: um único segmento tridimensional tirado de uma seqüência holográfica mais longa. Onde estaria? Onde teria visto essa imagem?
Era um rosto quase oval, com um pequeno alargamento na testa prejudicando sua perfeição curva.
Ela disse:
— Meu nome é Murbella. Você não vai se lembrar disto, mas eu digo agora enquanto o marco. Eu o selecionei.
“Eu me lembro de você, Murbella”
Olhos verdes, bem separados sob sobrancelhas arqueadas, davam às feições dela um ponto focal que deixava o queixo e a boca pequena para serem observados depois. Os lábios eram grossos e ele sabia que formariam um beicinho quando em repouso.
Os olhos verdes olhavam bem nos seus olhos. Que olhar frio. E o poder que havia nele.
Alguma coisa tocou sua face.
Ele abriu os olhos. Isso não era memória! Estava acontecendo com ele, e acontecendo agora!
“Murbella!” Ela havia estado ali e o tinha deixado. Agora estava de volta.
Lembrava-se de ter acordado nu em cima de uma superfície macia... um leito. Suas mãos reconheceram isso. Murbella, despida, estava bem em cima dele, olhos verdes fitando-o com terrível intensidade. Ela o tocava simultaneamente em vários locais.
Um suave murmúrio escapava de entre seus lábios.
Sentiu a rápida ereção, dolorosa em sua rigidez.
Nenhuma força de resistência permanecia nele. As mãos dela moviam-se sobre seu corpo. A língua, e o murmúrio! Tudo à volta dele, a boca tocando-o, os mamilos esfregando-se em sua face, em seu peito. E quando tornou a ver os olhos dela percebeu neles uma intenção consciente.
Murbella tinha retornado e estava fazendo aquilo novamente!
Acima do ombro direito dela, percebeu uma ampla janela de plaz, Lucilla e Burzmali observavam de trás da barreira. “Um sonho?” Burzmali pressionava as palmas das mãos contra o plaz. Lucilla permanecia de braços cruzados, uma expressão de ódio misturado com curiosidade em seu rosto.
Murbella murmurou em seu ouvido direito:
— Minhas mãos são fogo.
O corpo dela ocultou os rostos atrás do plaz. Ele sentia o fogo onde quer que ela o tocasse.
De repente a chama engolfou sua mente. Lugares ocultos dentro dela se tornaram vividos. Ele viu cápsulas vermelhas, como cordões de salsichas brilhantes, passarem diante de seus olhos. Sentiu-se febril. Era uma cápsula que havia sido engolida, a excitação queimando através de sua consciência. Aquelas cápsulas! Ele as conhecia! Elas eram ele mesmo... elas eram...
Todos os Duncan Idahos, o original e a série de gholas, fluíram em sua mente.
Eles eram como cápsulas de sementes estourando, negando a existência de todos os outros, exceto de si mesmos. Ele se viu esmagado debaixo de um grande verme com rosto humano.
“Maldito seja, Leto!”
Esmagado, esmagado e esmagado... várias vezes.
“Maldito seja! Maldito seja! Maldito seja!”
Ele morrera sob a espada de uma Sardaukar. A dor explodiu num clarão engolido, logo em seguida, pela escuridão.
Ele morria na queda de um tóptero. Morria pela faca de uma assassina Oradora Peixe. Morria, morria e morria.
E vivia.
As memórias inundaram-no até ele admirar-se com o modo como podia conter todas elas. O encanto de uma filha recém-nascida aninhada em seus braços. Os odores almiscarados de uma companheira apaixonada. A cascata de sabores do vinho Daniano. O cansaço ofegante dos exercícios de solo.
“Os tanques axlotl!”
Lembrava-se nascendo vez após vez: luzes brilhantes e mãos mecânicas acolchoadas. Mãos faziam-no girar e, na visão desfocada de um recém-nascido, ele via um grande monte de carne feminina — monstruoso em seu enorme volume quase imóvel... um labirinto de tubos escuros ligando o corpo dela a imensos containers de metal.
“Tanque axlotl?”
Respirou ofegante sob o domínio da série de memórias que o inundava.
“Todas aquelas vidas! Todas aquelas vidas!”
Agora se lembrava do que os Tleilaxu tinham plantado nele, a consciência submersa que separava apenas o momento de sedução por uma impressora Bene Gesserit.
Mas essa era Murbella e ela não era Bene Gesserit.
Mas ela estava pronta, ao seu alcance, e o padrão implantado pelos Tleilaxu dominou suas reações.
Duncan murmurou suavemente e a tocou, movendo-se com uma agilidade que chocou Murbella. “Ele não devia ser tão cooperativo! Não desse modo!” A mão direita de Duncan roçou os lábios da vagina, enquanto a mão esquerda acariciava a base da espinha de Murbella. Ao mesmo tempo a boca moveu-se suavemente sobre o nariz dela, descendo para os lábios, pela depressão da axila do braço esquerdo.
E todo o tempo ele murmurava suavemente num ritmo que pulsava pelo corpo dela, atraindo-a... enfraquecendo-a.
Ela tentou desprender-se dele enquanto ele aumentava o ritmo de suas respostas.
“Como ele sabia que devia tocar-me nesse ponto naquele instante exato? E
aqui? E ali? Oh, pela Rocha Sagrada de Dur! Como ele sabe tudo isso?”
Duncan reparou em como os seios dela se inchavam, e no congestionamento de seu nariz. Notou os mamilos rígidos, as aréolas escurecendo-se em torno deles.
Murbella gemeu e abriu as pernas.
“Grande Madre, me ajude!”
Mas a única Grande Madre de que ela podia recordar-se estava trancada em segurança na outra sala, impedida de ajudá-la por uma porta aferrolhada e uma barreira de plaz.
Uma energia desesperada fluiu através de Murbella e ela respondeu do único jeito que sabia: tocando, acariciando — usando todas as técnicas que aprendera com tanta diligência nos longos anos de seu aprendizado.
E a cada movimento seu o Duncan respondia com um contramovimento loucamente estimulante.
Murbella descobriu que não era mais capaz de controlar todas as suas respostas. Reagia automaticamente a partir de algum conhecimento entranhando em seu treinamento. Sentiu os músculos vaginais enrijecerem-se, a rápida liberação do fluido lubrificante. Quando Duncan a penetrou, ela ouviu a si mesma gemendo. Seus
braços, suas mãos, suas pernas, todo o seu corpo se agitava sob o controle dos dois sistemas de reação: a automação bem-treinada e a consciência profunda de outras demandas.
“Como ele fez isso comigo?”
Ondas de contrações extáticas começaram a alisar a musculatura de seu pélvis.
Ela sentiu a resposta imediata dele, a pancada de sua ejaculação. Isso acelerou suas próprias reações. As pulsações do êxtase partindo das contrações de sua vagina... para fora... para fora. O êxtase engolfou todo o seu sistema sensorial. Ela viu um brilho branco propagar-se sobre suas pálpebras, cada músculo de seu corpo tremendo num êxtase que ela não imaginava pudesse sentir.
E outra vez aquelas ondas se espalhando.
Outra e outra vez.
Perdeu a conta das repetições.
Quando Duncan gemia, ela gemia também, e as ondas se propagavam uma vez mais.
E de novo...
Não havia mais sensação do tempo ou do ambiente ao redor, somente o mergulho naquele orgasmo infinito.
Ela queria que durasse para sempre e queria que parasse. Isso não devia estar acontecendo com uma mulher! Uma Honrada Madre não pode experimentar uma coisa dessas. Essas eram as sensações pelas quais os homens eram governados.
Duncan emergiu do padrão de reações que fora implantado nele. Havia outra coisa que devia fazer. Não conseguia lembrar-se do que era.
“Lucilla?”
Ele a imaginou morta diante de si. Mas essa mulher não era Lucilla; essa era...
essa era Murbella.
Restavam-lhe muito poucas forças. Levantou-se, separando-se de Murbella, e conseguiu ficar de joelhos. Suas mãos tremiam numa agitação que ele não era capaz de compreender.
Murbella tentou afastar Duncan de si e não o encontrou. Os olhos dela se abriram.
Duncan estava ajoelhado em cima dela. Ela não tinha mais idéia de quanto tempo se passara. Tentou reunir energias para se levantar e não conseguiu.
Lentamente o raciocínio voltou.
Olhou nos olhos de Duncan, sabendo agora quem devia ser esse homem.
Homem? Era apenas um rapazinho. Mas tinha feito coisas... coisas... Todas as Honradas Madres tinham sido advertidas. Havia um ghola armado com conhecimentos proibidos pelos Tleilaxu. Esse ghola devia ser morto!
Uma pequena descarga de energia fluiu em seus músculos. Ela conseguiu erguer-se sobre os cotovelos. Ofegante, procurando recuperar o fôlego, Murbella tentou rolar para longe dele e caiu de volta sobre aquela superfície macia.
Pela Rocha Sagrada de Dur! Esse homem não podia continuar vivendo! Ele era um ghola e podia fazer coisas permitidas apenas às Honradas Madres. Ela queria golpeá-lo e ao mesmo tempo queria puxá-lo de volta sobre seu corpo. “O êxtase!”
Sabia que faria qualquer coisa que ele lhe pedisse nesse momento. Faria por ele.
“Não! Devo matá-lo!”
Uma vez mais Murbella se ergueu sobre os cotovelos e daí conseguiu sentar-se. Sua visão enfraquecida voltou-se para a janela onde ela tinha deixado confinados a Grande Honrada Madre e seu guia. Eles ainda estavam lá, olhando para ela. O rosto do homem estava avermelhado. O rosto da Grande Honrada Madre continuava tão imutável quanto a própria Rocha de Dur.
“Como ela pode ficar lá depois do que viu aqui? A Grande Honrada Madre precisa matar este ghola!”
Murbella chamou a mulher atrás da janela de plaz e rolou em direção à porta trancada ao lado do leito. Quase não teve forças para destrancar a porta e abri-la antes de cair de costas. Seus olhos voltaram-se para o jovem ajoelhado. Gotas de suor brilhavam no corpo dele. Em seu corpo lindo...
“Não!”
O desespero a fez tentar levantar-se de novo. Ficou de joelhos e então, impulsionada pela pura força de vontade, Murbella ficou de pé. As forças voltavam, mas as pernas tremiam enquanto ela cambaleava em torno do leito.
“Eu vou fazer, eu mesma, sem pensar. Tenho que fazê-lo!”
O corpo dela oscilava de um lado para o outro. Murbella tentou firmar-se pelo tempo suficiente e acertar um golpe no pescoço dele. Conhecia este golpe de suas longas horas de prática. Ele esmagaria a laringe e a vítima morreria asfixiada.
Duncan evitou o golpe com facilidade, mas ele era lento... lento. Murbella quase caiu ao lado dele, mas as mãos da Grande Honrada Madre a salvaram.
— Mate-o! — disse Murbella, ofegante. — É aquele sobre quem nos avisaram.
É ele!
Murbella sentiu mãos sobre seu pescoço, os dedos pressionando violentamente os feixes nervosos sob suas orelhas.
E a última coisa que Murbella ouviu antes da inconsciência foi a Grande Honrada Madre dizendo:
— Não vamos matar ninguém. Este ghola vai para Rakis. A pior competição em potencial para qualquer organismo vem dos membros de sua própria espécie. As espécies consomem necessidades. Seu crescimento é limitado pela necessidade que existir em menor quantidade. A condição menos favorável controla a taxa de crescimento. (Lei do Mínimo.)
— De “Lições de Arrakis”
O prédio erguia-se em uma larga avenida por trás de uma fileira de árvores e sebes floridas, muito bem cuidadas. As sebes tinham sido plantadas segundo um padrão de labirinto, com postes brancos da altura de um homem para definir as áreas plantadas. Nenhum veículo entrando ou saindo poderia acelerar além de um lento rastejar. A mente militar de Teg percebeu tudo isso enquanto o carro de solo blindado o levava até a porta. O Marechal-de-Campo Muzzafar, único ocupante além dele no banco de trás do carro, reconheceu a avaliação de Teg e disse:
— Estamos protegidos do alto por um sistema de feixes de flanco.
Um soldado em uniforme camuflado e com uma longa arma laser pendendo do ombro abriu a porta e ficou em posição de sentido quando Muzzafar saiu.
Teg o seguiu. Reconhecia esse lugar. Era um dos endereços “seguros” que a Segurança da Bene Gesserit lhe havia fornecido. Obviamente os dados da Irmandade estavam desatualizados. Recentemente desatualizados, pois Muzzafar não aparentou ter consciência de que Teg já pudesse conhecer esse local.
Enquanto andavam em direção à porta, Teg notou outro sistema de proteção que já existia em sua viagem de inspeção por Ysai. Era uma diferença de altura, quase indistinta, nos postes ao longo das sebes e das árvores. Esses postes eram escanalisadores operados de uma sala em algum lugar do interior do prédio. Seus dispositivos em forma de diamante sentiam a área entre eles e o prédio. E ao suave toque de um botão na sala de vigília escanalisadores reduziriam a pedacinhos qualquer coisa viva que cruzasse seus campos.
Na porta, Muzzafar parou e olhou para Teg.
— A Honrada Madre que está a ponto de conhecer é a mais poderosa de todas as que vieram para cá. Ela não tolera outra coisa senão a mais completa obediência.
— Parece-me uma advertência.
— Acho que compreende. Chame-a de Honrada Madre e de nada mais.
Vamos entrar. Tomei a liberdade de mandar prepararem um novo uniforme para você.
A sala para onde Muzzafar o levou não tinha sido vista por Teg em sua visita anterior. Era pequena e cheia de caixas negras tiquetaqueantes, deixando pouco espaço para eles dois. Um único globo luminoso amarelo, no teto, iluminava esse lugar. Muzzafar ficou num canto enquanto Teg tirava o macacão sujo e amassado que usava desde o não-globo.
— Sinto não poder oferecer-lhe um banho — disse Muzzafar. — Mas não podemos atrasar-nos. Ela ficaria impaciente.
Uma personalidade diferente tomou conta de Teg com o uniforme novo. Era um traje negro familiar, até mesmo com os asteriscos na gola. Isso significava que ele devia aparecer diante dessa Honrada Madre como o Bashar da Irmandade.
Interessante. Sentia-se plenamente Bashar de novo. Não que o poderoso senso de identidade lhe houvesse escapado. O uniforme apenas o completava e o anunciava bem alto. Nesse traje, não havia necessidade de enfatizar de qualquer outro modo
quem era ele.
— Assim está melhor — disse Muzzafar, enquanto conduzia Teg para o corredor de entrada e através de uma porta de que ele se lembrava.
Sim, fora ali que se encontrara com seus contatos “seguros”. Tinha reconhecido a função da sala então e nada parecia ter mudado. Filas de microscópicos olhos eletrônicos guarneciam a interseção entre o teto e as paredes, disfarçados como tiras prateadas para guiar os globos luminosos flutuantes.