Os Hereges de Duna
— Eu vou dançar — disse Sheeana.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Eu vou dançar — disse Sheeana. — Isso geralmente chama um dos grandes.
Odrade sentiu as batidas de seu coração se acelerarem. Será que “o grande” iria continuar a obedecer Sheeana a despeito da presença de dois companheiros?
“Isto parece uma loucura suicida!”
Mas tinha que ser feito: ordens de Taraza.
Odrade olhou para o pátio do depósito de especiaria, cercado pela cerca atrás deles. O lugar parecia estranhamente familiar. Mais que deja vu. Era uma certeza interior formada pelas Outras Memórias a lhe revelarem que esse lugar permanecia imutável desde uma época muito distante. O projeto dos silos de especiaria naquele pátio era tão velho quanto Rakis: tanques ovais suspensos em altas pernas como se fossem insetos de metal e plaz aguardando sobre membros compridos para saltarem sobre suas presas. Ela suspeitava de uma mensagem inconsciente da parte dos projetistas originais: “A melange é tanto a bênção quanto a perdição.”
Debaixo dos silos havia um deserto arenoso onde não se permitia que nada crescesse junto aos prédios de paredes de barro. Ali, um braço de Dar-es-Balat se estendia como o pseudópode de uma ameba tentando alcançar a borda do qanat. O
não-globo do Tirano, escondido há tanto tempo, tinha produzido uma fervilhante comunidade religiosa que escondia a maior parte de suas atividades atrás de paredes sem janelas e sob o solo.
“Como nossos desejos inconscientes, agindo secretamente!”
Sheeana falou novamente:
— Tuek está diferente, — Odrade viu a cabeça de Waff erguer-se abruptamente, Ele tinha ouvido e devia estar pensando: “Poderemos ocultar alguma coisa da mensageira do Profeta?”
Gente demais sabia da existência de um Dançarino Facial tomando o lugar de Tuek, pensou Odrade. O clero, é claro, acreditava estar dando ao Tleilaxu corda suficiente para ele enforcar não apenas a Bene Tleilax, mas também a Bene Gesserit.
Odrade sentiu o odor pungente dos produtos químicos usados para matar a vegetação do pátio de armazenagem. Os odores forçavam sua atenção de volta à questão das necessidades imediatas. Ela não se atrevia a mergulhar em devanejos ali!
Seria muito fácil para a Irmandade acabar apanhada em sua própria armadilha.
Sheeana tropeçou e deu um gritinho, mais de raiva que de dor. Waff voltou a cabeça bruscamente e olhou para Sheeana antes de voltar sua atenção para a estrada.
A criança apenas tropeçara numa fenda do calçamento, percebeu. A areia soprada pelo vento escondia os lugares onde o piso tinha rachado. A estrutura etérea da ponte adiante deles parecia bastante sólida, entretanto. Não era substancial o suficiente para suportar um dos descendentes do Profeta, porém mais que suficiente para um suplicante humano atravessá-la em direção ao deserto.
Waff via a si mesmo como um suplicante.
“Venho como um mendigo à terra do teu mensageiro, ó Deus!”
Ele tinha suas suspeitas com relação a Odrade. A Reverenda Madre o levara até ali para esgotá-lo de seus conhecimentos antes de matá-lo. “Com a ajuda de Deus, ainda poderei surpreendê-la.” Sabia que seu corpo era à prova de uma Sonda Ixiana, embora ela, obviamente, não carregasse consigo um engenho tão grande e desajeitado.
Mas a força de sua vontade e a confiança que tinha na graça de Deus é que tranqüilizavam Waff.
“E se a mão que elas nos estendem estiver oferecendo a sinceridade?”
Isso também seria obra de Deus.
Aliança com a Bene Gesserit, controle firme sobre Rakis: que sonho maravilhoso isso não era! A ascendência de Shariat, afinal, com as Bene Gesserit agindo como suas missionárias.
Quando Sheeana tropeçou novamente, e emitiu outro queixume, Odrade disse:
— Não seja auto-indulgente, criança!
Ela viu os ombros de Waff enrijecerem-se. Ele não gostava de ouvir esse tom autoritário sendo usado em relação à sua “Abençoada”. Havia uma força dentro desse homenzinho que Odrade reconhecia como sendo a força do fanatismo. Mesmo que o verme investisse para matá-lo, Waff não correria. A fé em seu Deus o levaria diretamente para a morte — a menos que se abalasse a sua crença.
Odrade reprimiu um sorriso. Podia seguir-lhe os processos mentais:
“Deus logo revelará o Seu Propósito.”
Mas Waff estava pensando em suas células crescendo na lenta renovação de Bandalong. Não importava o que acontecesse ali, suas células continuariam para realizar os propósitos da Bene Tleilax... e de Deus. Waffs produzidos em série para ser vir a Grande Crença.
— Posso sentir o cheiro de Shaitan, sabe? — disse Sheeana.
— Está sentindo agora?
Odrade olhou para a ponte diante deles. Waff já se encontrava sobre a superfície arqueada.
— Não, só sinto quando ele vem — respondeu Sheeana.
— É claro, criança, qualquer um pode sentir o cheiro.
— Mas eu posso farejá-lo a grande distância.
Odrade inalou profundamente, separando os odores do ambiente do cheiro onipresente de pó de pedra queimado: Havia fracos perfumes de melange... ozônio, alguma coisa distintamente ácida. Fez sinal para que Sheeana fosse na frente dela, em fila única sobre a ponte. Waff mantinha-se uns 20 passos à frente. A ponte mergulhava no deserto, uns 60 metros adiante.
“Vou provar a areia na primeira oportunidade”, pensou Odrade. “Isso me dirá muitas coisas.”
Enquanto chegava ao centro da ponte, sobre o fosso inundado de água, Odrade olhou para uma barreira comprida ao longo do horizonte, na direção sudoeste. E de repente foi confrontada por uma Outra Memória poderosa. Nada havia da nitidez existente em sua visão presente, mas ele reconheceu assim mesmo —
uma mistura de imagens provenientes de outras fontes sepultadas profundamente dentro dela.
“Maldição!”, pensou. “Agora não.”
Mas não havia como escapar. Tal intrusão em seus pensamentos vinha com um propósito, exigindo de modo inevitável a atenção de sua consciência.
“Cuidado!”
Ela fitou o horizonte distante, permitindo que a Outra Memória se sobrepusesse: havia uma barreira muito alta, lá longe, há muito tempo.. Havia gente caminhando no topo. E uma ponte delgada, bela e insubstancial na distância desta memória. Ligava uma das partes da barreira desaparecida à outra, e ela sabia, mesmo sem ver, que um rio fluíra embaixo da ponte há tanto tempo desaparecida. O rio Idaho! Agora a imagem sobreposta em sua consciência ganhava movimento: havia objetos caindo da ponte. Estavam muito distantes para que pudesse identificá-los, mas já tinha os rótulos adequados para essa projeção de imagens. Com um sentimento de horror e excitação, identificou a cena.
A ponte etérea estava desabando! Caindo no rio.
Não era uma visão de destruição acidental. Tratava-se de uma imagem clássica de violência que inúmeras memórias ainda carregavam, a qual lhe viera em seus momentos de agonia da especiaria. Odrade podia classificar todos os componentes da imagem tão bem sintonizada: milhares de ancestrais seus tinham observado essa cena em reconstituições imaginadas. Não uma memória visual real, mas uma montagem de relatórios precisos.
“Foi lá que aconteceu!”
Odrade parou e deixou que as projeções de imagens se firmassem em sua consciência. “Cuidado!” Algo de perigoso fora identificado, mas ela não tentou penetrar na substância do aviso. Se o fizesse, ele se dissociaria em diversos elementos, qualquer um dos quais podendo ser relevante, e a certeza original desapareceria.
Aquela coisa que acontecera lá no horizonte ficara marcada na história. Leto II, o Tirano, tinha caído para se dissolver do alto daquela ponte etérea. O grande verme de Rakis, o Imperador-Deus, o Tirano em pessoa, fora derrubado do alto da ponte durante sua peregrinação nupcial.
E ali! Ali mesmo no rio Idaho, debaixo da ponte destruída, o Tirano submergira em sua própria agonia. Ali mesmo ocorrera a transformação de que nascera o Deus Dividido... tudo começara ali.
“Por que este aviso?”
A ponte e o rio há muito tinham desaparecido dessa terra. A alta muralha que cercava o deserto do Tirano, o Sareer, sofrera a erosão, fragmentando-se até se tornar aquela linha de montículos num horizonte trêmulo de calor.
E se um verme viesse, portanto sua pérola de memória encapsulada do Tirano, presa de um sonho eterno, será que essa memória seria perigosa? Era o que argumentava a facção que se opunha a Taraza no seio da Irmandade.
“Ele despertará!”
Taraza e suas assessoras negavam até mesmo a possibilidade de que tal coisa ocorresse.
Ainda assim, esse alarme disparando nas Outras Memórias de Odrade não poderia ser ignorado.
— Reverenda Madre, por que paramos?
Odrade sentiu sua consciência saltar de volta para o presente imediato, exigindo sua atenção. Lá, naquela visão de advertência, o sonho interminável do Tirano tinha começado, mas outros sonhos agora competiam pelo espaço. Sheeana estava diante dela com uma expressão intrigada.
— Eu estava olhando para lá — explicou Odrade, apontando. — Foi lá que surgiu o Shai-hulud, Sheeana.
Waff tinha parado na extremidade da ponte, a um passo da areia cada vez mais funda, e agora uns 40 passos à frente de Sheeana e Odrade. A voz dela colocou-o imediatamente alerta, mas ele não se virou. Odrade poderia perceber o desprazer que sua postura revelava. Waff não gostava do menor sinal de cinismo dirigido contra o seu Profeta. Sempre suspeitara do cinismo das Reverendas Madres. Especialmente com relação a questões religiosas. Ainda não estava pronto para aceitar que um inimigo tão temido e há tanto tempo detestado quanto a Bene Gesserit pudesse partilhar de sua Grande Crença. Essa questão teria que ser examinada com muito cuidado —
como sempre se fizera com relação à Missionaria Protectiva.
— Dizem que havia um grande rio lá — comentou Sheeana.
Odrade percebeu o tom de desprezo na voz de Sheeana. A menina aprendia rápido! Waff voltou-se e olhou para elas carrancudo. Tinha ouvido também. Que estaria pensando agora com relação a Sheeana?
Odrade segurou um dos ombros de Sheeana e apontou com a outra mão.
— Havia uma ponte bem ali. A grande muralha do Sareer foi deixada aberta naquele ponto para permitir a passagem do rio Idaho. A ponte saltava por sobre essa falha.
Sheeana suspirou.
— Um rio de verdade — comentou baixinho.
— Não era um qanat, mas era muito grande para ser um canal — comentou Odrade.
— Eu nunca vi um rio — disse Sheeana.
— Foi ali que jogaram o Shai-hulud no rio — explicou Odrade, gesticulando para a esquerda. — Daquele lado, a muitos quilômetros naquela direção, ele construiu seu palácio.
— Não há nada lá, a não ser areia — comentou Sheeana.
— O palácio foi demolido na Época da Fome — explicou Odrade. — As pessoas pensavam que ele escondia um tesouro em especiaria. Estavam erradas, é claro. O Tirano era muito esperto para fazer uma coisa dessas.
Sheeana inclinou-se para mais perto de Odrade e sussurrou:
— Mas havia realmente um grande tesouro em especiaria. As canções falam
dele. Ouvi a história nos cânticos muitas vezes. Meu... eles dizem que ficava numa caverna.
Odrade sorriu. Sheeana referia-se à História Oral, é claro. Ela quase tinha dito:
“Meu pai...”, referindo-se ao seu verdadeiro pai, que morrera no deserto. Odrade já tinha conseguido obter essa história da garota.
Ainda sussurrando perto do ouvido de Odrade, ela disse:
— Por que esse homenzinho vai conosco? Não gosto dele.
— Ele é necessário para a demonstração — explicou Odrade.
Waff aproveitou esse momento para sair da ponte, subindo no primeiro montículo de areia. Caminhava com cuidado, mas sem demonstrar qualquer hesitação visível. Uma vez na areia, virou-se, os olhos brilhando ao sol quente, e olhou primeiro para Sheeana e depois para Odrade.
“Ele ainda demonstra admiração quando olha para Sheeana”, pensou Odrade.
“Que coisas formidáveis ele crê que vai descobrir aqui. Pensa que vai ser restaurado.
E com que prestígio!”
Sheeana protegeu os olhos com uma das mãos e observou o deserto.
— Shaitan gosta do calor — explicou ela. — As pessoas se escondem dentro de suas casas quando está quente, mas é ai que Shaitan vem.
“Não Shai-hulud, mas Shaitan”, pensou Odrade. “Você previu muito bem, Tirano. Que mais saberia sobre nossa época?”
Será que o Tirano realmente se encontrava adormecido em todos os vermes seus descendentes?
Nenhuma das análises que Odrade estudara dava uma explicação segura do motivo que levara um ser humano a se transformar num simbionte do verme original de Arrakis. Que se teria passado em sua mente durante os milênios daquela terrível transformação? Será que até o menor fragmento disso estava preservado nos vermes Rakianos de hoje?
— Ele está perto, Madre — disse Sheeana. — Pode sentir o cheiro dele?
Waff olhou apreensivo para Sheeana.
Odrade inalou fundo: havia um rico acréscimo de canela nos odores de pedra pulverizada. Fogo, enxofre — o inferno envolto em cristal do grande verme. Ela parou e levou um pouquinho de areia, presa entre dois dedos, até a boca. Quando a areia lhe tocou a língua, todo o cenário surgiu em sua mente: o planeta Duna de suas Outras Memórias e o Rakis de hoje.
Sheeana apontou para a esquerda, diretamente para o ponto de onde parecia soprar a brisa suave do deserto.
— Está lá. Temos que correr.
Sem esperar pela permissão de Odrade, Sheeana desceu correndo a ponte, passou por Waff e subiu na primeira duna. Lá parou até que Waff e Odrade a alcançassem. Então elas os liderou, descendo a face oposta e subindo outra duna, enquanto a areia lhe dificultava os passos. Percorreram a grande face curva de uma
barracan onde fios de poeira saltavam da crista acima. Lego tinham colocado quase um quilômetro de distância entre eles e a segurança cercada de água de Dar-es-Balat.
Novamente Sheeana parou.
Waff deteve-se atrás dela ofegante, a transpiração brilhando no ponto em que o capuz do traje destilador cruzava sua testa.
Odrade parou um passo atrás de Waff e inspirou fundo várias vezes enquanto olhava além do homenzinho, para o ponto onde a atenção de Sheeana se fixara.
Uma furiosa onda de areia derramara-se sobre o deserto além da duna onde se encontravam, impulsionada pela ventania de uma tempestade. O leito de rocha ficara exposto numa longa e estreita avenida de pedras gigantescas que pareciam viradas e esparramadas como os tijolos de construção de um Prometeu enlouquecido. E através desse labirinto a areia se derramara como um rio, deixando sua marca em grotas e fendas profundas e então caindo de uma escarpa baixa para formar mais dunas.
— Lá embaixo — apontou Sheeana, em direção à longa avenida formada pelo leito de rochas expostas.
O grupo desceu a duna, escorregando e pulando sobre a areia derramada. No fundo, Sheeana parou ao lado de uma das grandes pedras, uma pedra com duas vezes sua altura.
Waff e Odrade detiveram-se logo atrás.
A face escorregadia de outra gigantesca barracan, sinuosa como o dorso de uma baleia, erguia-se para o céu azul-prata ao lado deles.
Odrade aproveitou a pausa para recompor o equilíbrio da oxigenação em seu corpo. Aquela corrida louca exigira muito de sua carne. Waff, notava ela, tinha o rosto vermelho e respirava profundamente. O cheiro de canela e pó de pedra era sufocante nessa passagem estreita. Waff cheirava e esfregava o nariz com as costas da mão.
Sheeana ergueu-se num dos pés, saltou e correu 10 passos pelo comprimento do leito de rochas. Colocou um dos pés no aclive de areia que subia para outra duna e ergueu ambos os braços para o céu. Lentamente a princípio, depois aumentando o ritmo, começou a dançar, subindo para a areia.
Os sons dos tópteros tornaram-se mais audíveis acima.
— Ouçam — gritou Sheeana sem interromper sua dança.
Não era para o ruído dos tópteros que ela chamava a atenção. Odrade virou a cabeça de modo a voltar ambas as orelhas para o novo som que se ouvia, penetrando no labirinto de rochas tombadas.
Um assovio sibilante, vindo de baixo do solo, abafado pela areia, tornava-se cada vez mais alto com uma rapidez chocante. Havia calor junto com esse ruído, um aquecimento sensível na brisa que soprava ao longo da avenida rochosa. Então o assovio cresceu, transformando-se num rugido tremendo. De repente a escuridão de uma boca gigantesca, envolta numa coroa de facas cristalinas, ergueu-se sobre a duna diretamente acima de Sheeana.
— Shaitan! — gritou ela sem quebrar o ritmo de sua dança. — Aqui estou,
Shaitan!
Enquanto passava pelo topo da duna, o verme inclinou a boca para baixo na direção de Sheeana. A areia caiu em cascata em torno dos pés dela, forçando-a a interromper a dança. O cheiro de canela dominou a garganta rochosa. O verme parou acima deles.
— Mensageiro de Deus! — ofegou Waff.
O calor secou a transpiração no rosto descoberto de Odrade e fez o isolamento automático de seu traje destilador estufar perceptivelmente. Ela inalou profundamente, analisando os componentes dos odores subjacentes ao cheiro dominante de canela. O ar em torno deles estava cheio de ozônio e se tornava cada vez mais rico em oxigênio. Com os sentidos plenamente alertas, Odrade memorizou suas impressões.
“Se eu sobreviver”, pensou ela.
Sim, esses eram dados valiosos. Podia chegar o dia em que outras precisariam usá-los.
Sheeana recuou, saindo da areia derramada para o leito de rocha e começou a dançar uma vez mais, movendo-se mais loucamente e lançando a cabeça para o lado a cada volta. O cabelo chicoteava sua face e a cada vez que rodopiava para confrontar o verme ela gritava:
— Shaitan!
Timidamente, como uma criança aventurando-se num terreno que não lhe era familiar, o verme avançou uma vez mais. Escorregou sobre o topo da duna, curvando-se para baixo sobre o leito de rocha exposta até apresentar sua boca flamejante, ligeiramente acima e a cerca de dois passos de Sheeana.
Enquanto ele parava, Odrade tomava consciência da fornalha roncando em suas profundezas. Não podia tirar os olhos dos reflexos de chamas alaranjadas bruxuleando dentro da criatura. Era uma caverna de fogos misteriosos.
Sheeana parou de dançar. Comprimiu os punhos, os braços colados aos lados do corpo, e olhou para o monstro que invocara.
Odrade regulava cronometricamente a própria respiração, o que lhe permitia reunir todos os seus poderes de Reverenda Madre. Se esse era o fim... muito bem, ela tinha obedecido as ordens de Taraza. Que a Madre Superiora aprendesse o que pudesse dos observadores vigiando lá em cima.
— Olá, Shaitan — disse Sheeana. — Trouxe comigo uma Reverenda Madre e um homem dos Tleilaxu.
Waff caiu de joelhos e se curvou numa mesura respeitosa.
Odrade passou por ele para se colocar ao lado de Sheeana.
Sheeana respirava fundo, o rosto corado.
Odrade ouvia o clique-clique de seu traje destilador funcionando em sobrecarga. O ar quente e carregado de canela em torno delas estava cheio dos sons desse encontro, sons dominados pelo murmúrio das chamas dentro do verme imóvel.
Waff colocou-se ao lado de Odrade, o olhar fixo no verme como uma pessoa em transe.
— Estou aqui — sussurrou.
Odrade amaldiçoou-o silenciosamente. Qualquer ruído estranho poderia lançar a fera sobre eles. Mas ela sabia no que Waff estaria pensando: nenhum outro Tleilaxu estivera tão próximo de um descendente do seu Profeta. Nem mesmo os sacerdotes Rakianos tinham feito uma coisa dessas!
Com a mão direita, Sheeana fez um súbito gesto para baixo.
— Desça até nós, Shaitan!
O verme baixou sua boca escancarada até sua fogueira interior ocupar a garganta de rochas diante deles.
Com a voz reduzida a não mais que um sussurro, Sheeana disse:
— Está vendo como Shaitan me obedece, Madre?
Odrade podia sentir o controle de Sheeana sobre o monstro, uma pulsação de linguagem oculta entre a jovem e o verme. Era fantástico.
A voz de Sheeana ergueu-se numa arrogância imprudente:
— Vou pedir a Shaitan que nos deixe cavalgá-lo!
Ela subiu pela face escorregadia da duna ao lado do verme.
Imediatamente a grande boca aberta se ergueu para lhe acompanhar os movimentos.
— Fique aqui! — gritou Sheeana.
O verme parou.
“Não são as palavras dela que o controlam”, pensou Odrade. “E alguma coisa... outra coisa”
— Madre, venha comigo — chamou Sheeana.
Empurrando Waff à sua frente, Odrade obedeceu. Subiram pelo aclive arenoso, seguindo Sheeana. A areia deslocada derramava-se em torno do verme que esperava, enchendo a garganta rochosa. A frente, a cauda cada vez mais fina curvava-se sobre a crista da duna. Sheeana conduziu-os num passo desajeitado pela areia até a ponta da coisa. Lá agarrou a borda anterior de um anel na superfície corrugada e subiu na fera do deserto.
Com mais lentidão, Odrade e Waff seguiram-na. A superfície quente do verme transmitia a Odrade a sensação de algo não-orgânico, como se a criatura fosse um artefato Ixiano.
Sheeana correu adiante ao longo do dorso e se agachou logo atrás da boca, onde os anéis se projetavam, grossos e largos.
— Façam assim! — mostrou.
Inclinou-se para diante e agarrou embaixo do bordo dianteiro de anel, erguendo-o levemente para expor a superfície rosada e macia embaixo.
Waff obedeceu-a imediatamente, mas Odrade se moveu com mais cautela, armazenando impressões. A superfície do anel era dura como piascreto e coberta de
minúsculas incrustações. Os dedos de Odrade sondaram a maciez embaixo da borda anterior. Ela pulsava fracamente. A superfície em torno deles se erguia e se abaixava num ritmo quase imperceptível. Odrade ouvia um som raspante a cada movimento.
Sheeana chutou a superfície do verme atrás dela.
— Shaitan, vamos!
O verme não respondeu.
— Por favor Shaitan — suplicou ela.
Odrade percebia o desespero na voz de Sheeana. Ela estava muito confiante no seu Shaitan, mas Odrade sabia que a jovem só conseguira cavalgar a criatura naquela primeira vez. Odrade conhecia a história toda, desde o impulso suicida até a confusão dos sacerdotes, mas ninguém pudera dizer-lhe o que aconteceria em seguida.
De repente o verme colocou-se em movimento. Ergueu-se bruscamente, curvou-se para a esquerda e fez uma volta apertada para fora da garganta de rochas, movendo-se na direção oposta a Dar-es-Balat, em direção ao deserto profundo.
— Nós vamos com Deus — gritou Waff.
O som de sua voz deixou Odrade chocada. Que loucura! Ela sentiu o poder da fé que ele tinha. O tuoc-tuoc dos ornitópteros que os seguiam soou acima. O vento provocado pela velocidade com que avançavam passava por Odrade cheio de ozônio e dos odores de forno quente provocados pelo atrito da besta avançando.
Odrade olhou por sobre os ombros para os tópteros, imaginando como seria fácil para os inimigos livrarem esse planeta de uma menina que criava tantos problemas, e de uma Reverenda Madre igualmente problemática, assim como do desprezível Tleilaxu que a acompanhava — todos num momento altamente vulnerável no deserto aberto. Os sacerdotes podiam tentar tal coisa, bem o sabia, desde que as vigias de Odrade, lá no alto, fossem muito lentas na hora de protegê-la.
A curiosidade e o medo seriam suficientes para detê-los?
Odrade admitia estar muito curiosa.
“Aonde será que esta coisa nos está levando?”
Certamente que o verme não se dirigia a Keen. Ela ergueu a cabeça e olhou além de Sheeana. No horizonte, diretamente adiante, encontravam-se aquelas formações de pedra denteada, as rochas desmoronadas do lugar onde o Tirano fora jogado de uma ponte graciosamente etérea.
O lugar da advertência de suas Outras Memórias.
Uma súbita revelação dominou a mente de Odrade. Agora entendia o aviso. O
Tirano havia morrido num lugar de sua própria escolha. Muitas mortes tinham deixado sua impressão naquele lugar, mas a do Tirano fora a maior de todas. O Tirano escolhera sua rota de peregrinação com um propósito definido. Sheeana não mandara o verme seguir para lá. Ele se movia por vontade própria. O imã representado pelo sonho interminável do Tirano atraía-o de volta ao ponto onde esse sonho começara.
Houve um homem das terras secas a quem perguntaram o que era mais importante, um garrafão de água ou uma vasta piscina cheia. O homem pensou por um momento e respondeu: “O
garrafão é mais importante. Nenhuma pessoa poderia guardar só para si uma piscina. Mas um litro se pode esconder embaixo do manto e fugir com ele. Ninguém vai saber.”
— Piadas da Antiga Duna, Arquivos da Bene Gesserit
Era uma longa sessão de exercícios, na sala de treinamento do não-globo, com Duncan em uma gaiola móvel dirigindo o exercício, convicto de que essa série em particular continuaria até que seu novo corpo estivesse adaptado às sete atitudes centrais de respostas em combate contra ataques vindos de oito direções diferentes.
Seu macacão verde estava escuro com a transpiração. Há 20 dias que ele se dedicava a essa lição!
Teg conhecia as antigas tradições que Duncan revivia ali, mas sob diferentes nomes e seqüências. Depois de passar cinco dias nesse programa de treinamento, Teg já duvidava da superioridade dos métodos modernos. Agora estava convicto de que Duncan estava fazendo algo completamente novo — misturando os antigos conhecimentos de combate com aquilo que tinha visto no Castelo.
Teg estava sentado diante de seu próprio consolo, agindo tanto como observador quanto como participante. Os consoles que dirigiam as perigosas forças das sombras desses exercícios tinham exigido um ajustamento mental. Teg contudo, já se sentia familiarizado com eles, e comandava os ataques com facilidade e freqüente inspiração.
Uma Lucilla furiosa olhava ocasionalmente para dentro do salão. Observava e depois saía sem fazer comentários. Teg não sabia o que Duncan estava fazendo com relação à Impressora, mas achava que o ghola desperto fazia um jogo de retardo com sua sedutora. Ela não iria permitir que ele continuasse com isso por muito tempo, Teg sabia muito bem, mas estava tudo fora de suas mãos. Duncan não mais era “muito jovem” para a Impressora. Aquele corpo jovem carregava agora uma mente masculina madura, cheia de experiências a partir das quais tomaria suas próprias decisões.
Duncan e Teg tinham passado a manhã toda na sala de treinamento, tendo feito apenas uma pausa. A fome já incomodava Teg, mas ele se sentia relutante em interromper a sessão. As habilidades de Duncan haviam atingido um novo nível hoje e ele continuava melhorando.
Teg, sentado dentro de uma gaiola de controle fixa, fez as forças de ataque curvarem-se numa manobra complexa, golpeando da esquerda, da direita e do alto.
O arsenal Harkonnen produzira uma abundância dessas armas e instrumentos de treinamento exóticos, e havia coisas que Teg só conhecera a partir de relatos históricos. Duncan conhecia todos, aparentemente, e com uma intimidade que enchia Teg de admiração. Isso incluía os caçadores-assassinos, estilhas robotizadas, reguladas para penetrarem num escudo de força e que eram parte das forças ocultas no sistema que agora empregavam.
— Elas retardam-se automaticamente para penetrar num escudo — explicou Duncan em sua voz jovem e ao mesmo tempo madura. — Um golpe muito rápido seria repelido pelo escudo, é claro.
— Escudos desse tipo quase não são mais usados — comentou Teg.
— Algumas sociedades os usam como um tipo de esporte, mas de outro modo.
Duncan executou um contra-ataque a uma velocidade que o transformou num borrão, e três “caçadores” caíram no chão, suficientemente danificados para exigir os serviços de manutenção do não-globo. Ele removeu a gaiola protetora e colocou o sistema dormente, porém o deixou funcionando enquanto se aproximava de Teg, respirando fundo mas com facilidade. Olhou para além de Teg, sorriu e assentiu com a cabeça. Teg virou-se rapidamente, mas só conseguiu enxergar um fragmento do vestido de Lucilla enquanto ela saía depressa.
— É como um duelo — disse Duncan. — Ela tenta golpear através da minha guarda e eu contra-ataco.
— Tenha cuidado — advertiu Teg. — Ela é uma Reverenda Madre plena.
— Conheci algumas delas no meu tempo, Bashar.
Uma vez mais Teg se sentiu embaraçado. Tinha sido avisado de que precisaria reajustar sua atitude com relação a esse Duncan Idaho diferente, mas não antevira inteiramente as constantes exigências que tal reajustamento faria sobre sua mente. A expressão nos olhos de Duncan agora era desconcertante.
— Nossos papéis mudaram um pouco, Bashar — disse Duncan. Pegou uma toalha no chão e enxugou o rosto.
— Não tenho mais certeza quanto ao que lhe posso ensinar — admitiu Teg.
Desejava, entretanto, que Duncan seguisse seu aviso com relação a Lucilla.
Será que ele pensava que as Reverendas Madres de sua época distante eram idênticas às mulheres de hoje? Teg achava tal coisa altamente improvável. Como todas as coisas vivas, a Irmandade evoluirá e mudara.
Era óbvio para Teg que Duncan tomara uma decisão quanto ao papel que desempenharia nas maquinações de Taraza. Não estava apenas ganhando tempo com esses exercícios. Estava treinando o corpo para atingir o ápice da plenitude física que ele mesmo escolhera enquanto fazia seu julgamento sobre a Irmandade.
“Ele fez esse julgamento com dados insuficientes”, pensou Teg. Duncan deixou cair a toalha e olhou para ele por um momento.
— Deixe que eu julgo o que me pode ensinar, Bashar.
Ele virou-se e olhou atento para Teg, ainda dentro da gaiola de controle.
Teg respirou fundo. Sentia o cheiro fraco de ozônio de todo esse equipamento Harkonnen tão duradouro tiquetaqueando à espera de que Duncan retornasse à ação.
O suor do ghola tinha um cheiro penetrante.
Duncan espirrou.
— Teg cheirou, reconhecendo a poeira onipresente em suas atividades. As vezes era mais fácil sentir-lhe o gosto que o cheiro. Uma coisa alcalina. E acima de tudo havia a fragrância dos limpadores de ar e regeneradores de oxigênio. Um distinto aroma floral aparecia embutido no sistema, mas Teg era incapaz de identificar a flor.
No primeiro mês de sua ocupação, o globo também adquirira odores humanos que lentamente se insinuaram na composição original — transpiração, cheiros de cozinha e a acridez nunca inteiramente suprimida do sistema de eliminação de dejetos orgânicos. Para Teg, esses sinais de sua presença eram curiosamente ofensivos. As vezes se surpreendia cheirando e ouvindo os sons de sua intrusão — algo mais que o eco de seus próprios passos ou os ruídos metálicos abafados na área da cozinha.
A voz de Duncan penetrou em seus pensamentos:
— Você é um homem estranho, Bashar.
— Que quer dizer?
— Há a sua semelhança com o Duque Leto. A identidade facial é estranha. Ele não era tão alto quanto você, um pouco mais baixo, mas a semelhança...
Sacudiu a cabeça, pensando nas maquinações da Bene Gesserit por trás daqueles sinais genéticos no rosto de Teg — o olhar aquilino, as rugas e aquela coisa interior a certeza de uma superioridade moral.
“Quão moral e quão superior?”
De acordo com os registros que tinha visto no Castelo (e Duncan tinha certeza de que eles tinham sido colocados lá para que ele os descobrisse), a reputação de Teg era algo quase universalmente aceito pela sociedade humana dessa época. Durante a Batalha de Markon, bastara o inimigo tomar conhecimento de que Teg iria enfrentá-lo para pedir trégua e negociações. Seria verdade?
Duncan olhou para Teg na gaiola de controle e lhe fez essa pergunta.
— A reputação pode ser uma linda arma — comentou Teg. —
Freqüentemente derrama menos sangue.
— Por que se colocou à frente de suas tropas em Arbelough? — perguntou Duncan.
Teg mostrou-se surpreso.
— Onde aprendeu isso?
— No Castelo. Você podia ter sido morto. De que teria adiantado?
Teg lembrou a si mesmo que essa carne jovem diante dele guardava uma sabedoria oculta que devia tê-la guiado em sua busca de informação. Mas restava uma área incógnita, e nela, suspeitava Teg, Duncan seria mais valioso para a Irmandade.
— Nos dois dias anteriores, tínhamos sofrido severas baixas em Arbelough —
lembrou Teg. — Eu falhei na hora de fazer um julgamento correto do medo e do fanatismo do inimigo.
— Mas o risco de...
— Minha presença no front dizia à minha própria gente: “Eu partilho seus
riscos.”
— Os registros de Arbelough dizem que essa batalha foi pervertida pelos Dançarinos Faciais. Patrin disse-me que você recusou o conselho de seus assessores quando eles pediram para que varresse o planeta e o esterilizasse completamente...
— Você não estava lá Duncan.
— Estou tentando colocar-me na situação. Poupou seu inimigo, contrariando todos os conselhos que recebeu.
— Exceto os Dançarinos Faciais.
— Mas então caminhou desarmado pelas fileiras dos inimigos e antes que eles tivessem deposto as armas.
— Queria certificar-me de que não seriam maltratados.
— Isso foi muito perigoso.
— Foi mesmo? Muitos deles passaram-se para o nosso lado durante o assalto final contra Kroinin, onde desbaratamos as forças contrárias à Irmandade.
Duncan olhou duramente para Teg. Não apenas esse velho Bashar se assemelhava a Leto em aparência mas também possuía o mesmo carisma dos Atreides: uma figura lendária até mesmo entre os inimigos. Teg dissera ser descendente de Ghanima Atreides, mas tinha que existir algo mais nele além disso. O
domínio genético da Bene Gesserit em questões de controle da procriação deixava-o assombrado.
— Vamos retornar aos exercícios agora — disse Duncan.
— Não vá se machucar.
— Está se esquecendo, Bashar. Eu me lembro de ter um corpo tão jovem quanto este quando estava aqui em Giedi Prime.
— Gammu!
— Foi adequadamente rebatizado, mas meu corpo ainda se lembra do nome original. Sabe muito bem que foi por isso que elas me mandaram para cá.
“É claro que ele tinha que saber isso”, pensou Teg.
Restaurado pelo breve descanso, Teg introduziu um novo elemento no ataque e enviou uma linha flamejante contra o lado esquerdo de Duncan.
Com que facilidade ele se defendeu do ataque!
Estava usando uma variação curiosamente misturada das cinco atitudes, cada resposta parecendo ter sido inventada no momento em que era exigida.
— Cada ataque é como uma pena flutuando sobre uma estrada infinita —
explicou Duncan, a voz não transmitindo qualquer sinal de cansaço. — Enquanto a pena se aproxima, ela é desviada e removida.
Enquanto falava ele aparou um ataque móvel e contra-atacou.
A lógica Mentat de Teg seguia os movimentos nos pontos que ele considerava perigosos. “Dependências e troncos-chave!”
Duncan mudou de posição diante do ataque, colocando-se sempre um movimento adiante e igualando os movimentos do atacante, mais do que os
respondendo. Teg foi forçado a empregar o máximo de suas habilidades enquanto as forças das sombras queimavam e tremulavam ao longo do piso na sala de treinamento. A figura de Duncan, em sua gaiola de combate móvel, era uma sombra dançante no espaço entre eles. Nenhuma das linhas flamejantes ou caçadores-assassinos de Teg tocou a figura em movimento. Duncan estava acima deles, sob eles, parecendo não ter medo algum da dor real que esse equipamento poderia infligir-lhe.
Uma vez mais Duncan aumentou a velocidade de seu ataque, Uma pontada de dor disparou pelo braço de Teg, partindo de sua mão colocada nos controles até atingir o ombro.
Com uma exclamação brusca, Duncan desligou o equipamento.
— Desculpe, Bashar. Foi uma defesa soberba de sua parte, mas temo que a idade o tenha derrotado.
Uma vez mais Duncan atravessou a sala e se colocou diante de Teg.
— Um dorzinha para me lembrar da dor que lhe causei — comentou Teg enquanto esfregava o braço dormente.
— Culpe o calor do momento — disse Duncan. — Já treinamos o suficiente por ora. — Não o suficiente — lembrou Teg. — Não basta reforçar apenas os seus músculos.
Ante as palavras de Teg, Duncan teve uma sensação de alerta em todo o corpo. Sentia o toque desorganizado daquela coisa incompleta que o processo de despertar não conseguira ativar. Algo agachado à espera dentro dele. Era como uma mola pressionada, pronta para disparar.
— Que mais você faria em meu lugar? — perguntou Duncan, a voz soando ríspida.
— Sua sobrevivência repousa no equilíbrio aqui — explicou Teg. — Tudo isto que estamos fazendo visa salvá-lo e transportá-lo para Rakis.
— Para propósitos da Bene Gesserit que você mesmo diz não saber quais são.
— Realmente não sei, Duncan.
— Mas você é um Mentat.
— Mentats precisam de dados para fazer suas projeções.
— Acha que Lucilla sabe?
— Não tenho certeza, mas me deixe adverti-lo com respeito a ela. Recebeu ordens de levá-lo a Rakis preparado para o que deverá fazer lá.
— Deverei? — Duncan sacudiu a cabeça de um lado para o outro. — Será que não sou uma pessoa com direito e tomar suas próprias decisões? Que é que vocês pensam que despertaram aqui? Algum maldito Dançarino Facial capaz unicamente de obedecer ordens?
— Está me dizendo que não irá para Rakis?
— Estou lhe dizendo que vou fazer uma escolha quando souber o que é que esperam que eu faça. Não sou um assassino de aluguel.
— E você pensa que eu sou, Duncan?
— Acho que é um homem honrado, uma pessoa que devemos admirar. Dê-me o seu crédito porque tenho meus próprios valores de dever e de honra.
— Recebeu outra chance de viver e...
— Mas você não é meu pai e isso também não faz de Lucilla a minha mãe.
Impressora? Contra o que ela espera preparar-me?
— Pode ser que nem ela saiba, Duncan. Como eu, ela pode ser apenas uma peça de um grande plano. Sabendo como age a Irmandade, é altamente provável que ela não saiba.
— De modo que vocês dois me treinam e me despacham para Arrakis. Aqui está o pacote que ordenaram!
— Este é um universo bem diferente daquele onde você nasceu originalmente
— explicou Teg. — Como nos seus dias, ainda temos uma Grande Convenção contra o uso de atômicos e de pseudo-atômicos produzidos pela interação de armas e escudos laser. Ainda dizemos que os ataques traiçoeiros são proibidos. Existem folhas de papel espalhadas por aí onde colocamos nossos nomes e garantimos que...
— Mas as não-naves mudaram todas as bases desses tratados — disse Duncan. — Acho que aprendi muito bem minhas lições de história lá no Castelo.
Diga-me, Bashar, por que o filho de Paul fez com que os Tleilaxu lhe fornecessem gholas com minha identidade, centenas de cópias de mim durante todos aqueles milhares de anos?
— O filho de Paul?
— Os registros do Castelo chamavam-no de Imperador-Deus. Você o chama de Tirano.
— Oh, não creio que alguém saiba por quê. Talvez ele fosse solitário, precisando de alguém da...
— Vocês me trouxeram à vida para confrontar o verme!
“Será isso o que estivemos fazendo?”, perguntou-se Teg. Ele tinha considerado essa possibilidade mais de uma vez, mas era apenas uma possibilidade, não uma projeção. Ainda assim devia haver algo mais nos desígnios de Taraza. Teg sentia isso em cada fibra de seu treinamento Mentat. Será que Lucilla saberia? Teg não se iludia quanto à sua capacidade de extrair revelações de uma Reverenda Madre plena. Não... teria que dar tempo ao tempo, esperar, observando e ouvindo. Ao seu próprio modo, fora isso que Duncan decidira fazer. Era um curso de ação perigoso, caso ele se colocasse no caminho de Lucilla!
Teg sacudiu a cabeça.
— Na verdade, Duncan, eu não sei.
— Mas cumpriu ordens.
— Pelo meu juramento à Irmandade.
— Mentiras, desonestidades, essas são palavras vazias quando está em jogo a sobrevivência da Irmandade — citou Duncan.
— Sim, eu disse isso — concordou Teg.
— Agora confio em você porque disse isso. Mas não confio em Lucilla.
Teg abaixou a cabeça. “Perigoso... perigoso...”
De modo muito mais lento do que tinha feito anterioremente, Teg tirou a atenção de tais pensamentos e se submeteu ao processo de esvaziamento mental para se concentrar nos deveres que Taraza lhe confiara.
— Você é o meu Bashar.
Duncan observou o Bashar por um momento. As linhas da fadiga eram óbvias no rosto do velho. lembrou-se subitamente da idade de Teg e se perguntou se homens como ele não se sentiriam tentados a procurar os Tleilaxu e se tornarem gholas.
Provavelmente não. Sabiam que poderiam virar fantoches nas mãos dos Tleilaxu.
Esse pensamento inundou a consciência de Duncan, deixando-o tão imóvel que Teg, percebendo, ergueu os olhos imediatamente.
— Algo errado?
— Os Tleilaxu fizeram alguma coisa comigo, algo que ainda não foi exposto —
sussurrou Duncan.
— Exatamente o que temíamos! — Era a voz de Lucilla falando do portal atrás de Teg. Ela entrou, avançando até ficar a dois passos de Duncan. — Estava ouvindo. Vocês dois foram muito informativos.
Teg falou rapidamente, procurando bloquear a raiva que sentia nela.
— Ele dominou as sete atitudes hoje.
— Ele golpeia como o fogo — comentou Lucilla. — Mas lembre-se que nós da Irmandade fluímos como a água e preenchemos todos os espaços. — Olhou para Teg. — Não percebe que nosso ghola já foi além dessas atitudes?
— Nenhuma posição fixa, nenhuma atitude — disse Duncan.
Teg olhou de modo penetrante para Duncan, que permanecia com a cabeça erguida, a testa lisa de vincos, os olhos claros, enquanto devolvia o olhar de Teg.
Duncan tinha evoluído surpreendentemente desde que despertara para suas memórias originais.
— Maldito seja, Miles — murmurou Lucilla.
Teg manteve sua atenção em Duncan. Todo o corpo do jovem parecia ligado a um novo tipo de vigor. Ele tinha uma pose, uma atitude que não estavam ali antes.
Duncan voltou sua atenção para Lucilla.
— Acha que vai fracassar em seus deveres? — perguntou.
— Certamente que não — respondeu ela. — Você ainda é um homem.
E ela pensou: “Sim, esse corpo jovem deve estar tenso com os fluidos da procriação. De fato, os disparadores hormonais devem estar todos intactos e suscetíveis de serem excitados.” A atitude atual dele, entretanto, e o modo como olhava para ela forçaram-na a elevar sua consciência para novos níveis que demandavam mais energia.
— Que foi que os Tleilaxu fizeram com você? — indagou ela.
Duncan falou com um atrevimento que não sentia:
— Oh grande Impressora, se soubesse lhe diria.
— Você acha que tudo isto é uma grande brincadeira, não?
— Nem sei de que estamos brincando!
— Por enquanto, muitas pessoas sabem que ainda não chegamos a Rakis, para onde esperavam que fugíssemos — comentou ela.
— E Gammu enxameia de gente retornada da Dispersão — comentou Teg.