Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 7 de 8 · parte 1/3

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Os Hereges de Duna

Duncan era uma extensão de células que…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Duncan era uma extensão de células que tinham nascido de uma mulher inseminada por um homem.

“Máquina e ghola!”

Observação: “A máquina não pode experimentar a sensação do parto, exceto de modo remoto e indireto. Um modo que certamente vai perder importantes nuances pessoais”

Exatamente como estavam perdendo coisas importantes a respeito dele agora mesmo.

A sonda-T está repetindo odores. E a cada odor induzido memórias se revelavam na mente de Teg. Ele sentia a grande velocidade com que agia a sonda-T, mas sua consciência estava vivendo fora daquela varredura, capaz de prendê-lo pelo tempo que ele desejasse nas memórias que estavam sendo revividas.

“Lá está.”

Lá estava a cera quente que tinha derramado na mão esquerda quando tinha 14

anos e se encontrava na escola da Bene Gesserit. Lembrava-se da escola e do laboratório como se estivesse lá neste momento. “A escola é ligada à Sede da Irmandade” Ao ser admitido, Teg ficou sabendo que possuía o sangue de Siona em suas veias. Nenhum presciente poderia localizá-lo lá.

Ele via o laboratório e sentia o cheiro da cera — um composto de ésteres artificiais mais o produto natural de abelhas criadas por Irmãs que tinham fracassado no treinamento. Voltou sua memória para o momento em que observara as abelhas e as pessoas trabalhando com elas nos pomares.

O funcionamento da estrutura social da Bene Gesserit parecia complicado até se examinarem suas necessidades: alimento, roupas, calor, comunicações, aprendizado, proteção contra os inimigos (uma variedade do instinto de sobrevivência). A sobrevivência de Bene Gesserit exigia alguns ajustamentos antes que pudesse ser entendida. Elas não procriavam para o benefício da humanidade em geral. Nenhum envolvimento racial que não fosse monitorado! Procriavam para aumentar seus próprios poderes, para manterem a existência da Bene Gesserit, considerando isso como um beneficio suficiente para a humanidade. Talvez fosse. A motivação no sentido de perpetuar a espécie era profunda e a Irmandade se mostrava muito meticulosa nesse sentido.

Um novo cheiro o invadiu.

Teg reconheceu a lã úmida de suas roupas ao chegar na cápsula de comando após a Batalha de Ponciard. O cheiro enchia-lhe as narinas, trazendo consigo o odor de ozônio dos instrumentos da cápsula, o suor de seus ocupantes. “lã!” A Irmandade sempre achara isso uma excentricidade dele, o modo como dava preferência aos tecidos naturais e evitava os sintéticos produzidos pelas fábricas de cativos.

Como também não apreciava as cadeiras-cães.

“Não gosto dos cheiros da opressão de forma alguma.”

Será que essas marionetes Dit, Dat e Dot — teriam conhecimento de o quanto eram oprimidas?

A lógica Mentat zombava dele. Será que os tecidos de lã também não seriam produto das fábricas dos prisioneiros?

Isso era diferente.

Uma parte dele não concordava. Sintéticos podiam ser guardados por tempo indefinido. Bastava ver quanto tempo eles tinham resistido nos vasos de nulentropia do não-globo dos Harkonnen.

— Ainda assim prefiro o algodão e a lã!

— Assim seja!

— Como foi que cheguei a essa opinião?

— É um preconceito dos Atreides e você o herdou.

Teg desligou-se dos odores e se concentrou no movimento da sonda em sua totalidade. Daí a pouco descobriu que era capaz de antecipar a coisa. Era como um novo músculo que tivesse adquirido. Permitiu-se flexioná-lo, enquanto continuava a examinar as memórias que lhe eram induzidas em busca de informações valiosas.

“Estou sentado diante da porta do gabinete de minha mãe em Lernaeus”.

Teg removeu uma parte de sua consciência e observou a cena: tinha 11 anos de idade. Estava falando com uma pequena acólita Bene Gesserit que viera na escolta de uma pessoa importante. A acólita é uma criaturinha com rosto de boneca e cabelo louro avermelhado, nariz arrebitado, olhos cinza-dourados. A pessoa importante é uma Reverenda Madre de manto negro com aparência verdadeiramente ancestral. Ela entrou atrás daquela porta junto com a mãe de Teg. A acólita, de nome Carlana, está testando suas habilidades nascentes com o jovem anfitrião.

Antes que Carlana pronuncie 20 palavras, Miles Teg reconhece o padrão. Ela está tentando obter informações dele! Essa foi uma das primeiras lições a respeito de simulação delicada ensinada por sua mãe. Afinal, podia aparecer gente questionando

um rapazinho a respeito de sua casa, da mãe Reverenda Madre, em busca de informações que pudessem ser vendidas. Havia sempre um mercado para informações a respeito de Reverendas Madres.

A mãe explicara:

— Você julga o questionador e molda suas respostas de acordo com as suscetibilidades dele.

Nada disso teria servido contra uma Reverenda Madre plena, mas servia contra uma acólita, e especialmente no caso dessa!

Para Carlana ele fingiu uma tímida hesitação. Ela tinha uma visão exagerada de seus próprios atrativos. Ele permitiu que ela vencesse a sua timidez depois de um emprego adequado de suas forças. E o que ela conseguiu foi um punhado de mentiras que, se repetisse diante daquela pessoa importante, lá atrás da porta, iria valer-lhe uma censura severa, se não algo mais doloroso.

“Palavras de Dit, Dat e Dot.”

— Acho que agora o dominamos.

Teg reconheceu a voz de Yar, arrancando-o de antigas memórias.

— Molde suas respostas de acordo com as suscetibilidades.

Teg ouviu as palavras na voz de sua mãe.

“Marionetes.”

“Manipuladores de marionetes.”

O funcionário diz:

— Peça uma simulação do lugar para onde eles levaram o ghola.

Silêncio e então um zumbido fraco.

— Não estou conseguindo nada — disse Yar.

Teg ouve as vozes deles com uma sensibilidade dolorosa. Faz os olhos se abrirem, contrariando o comando da sonda.

— Olhem! — diz Yar.

Três pares de olhos fitam Teg. Como eles se movem lentamente. Dit, Dat e Dot: seus olhos piscam... piscam... pelo menos um minuto entre cada piscadela. Yar está estendendo a mão para alcançar alguma coisa em seu console. Seus dedos vão levar uma semana para atingirem o objetivo.

Teg explora as ligações que lhe prendem os braços e as mãos. Corda comum!

Aproveitando o tempo, coloca os dedos em contato com os nós. Eles se afrouxam lentamente a princípio, depois se soltam. Ele se move em direção às correias que o prendem à liteira. Essas são mais fáceis: simples fechos corrediços. A mão de Yar não está ainda nem a um quarto da distância para o console.

Piscando... piscando... piscando...

Os três conjuntos de olhos mostram uma ligeira surpresa.

Teg desprende-se da cabeleira de medusa dos eletrodos da sonda. Poppop-pop! Eles voam longe. Surpreende-se ao notar o início de um pequeno sangramento nas costas de sua mão direita, que ele usou para empurrar para longe os eletrodos.

Projeção Mentat: “Estou me movendo a uma velocidade perigosa.”

Agora ele está fora da liteira. Em câmara lenta, o funcionário leva uma das mãos em direção a um volume num bolso lateral. A mão de Teg esmaga-lhe a garganta. O funcionário nunca mais vai tocar naquela pistola laser que sempre carrega.

A mão estendida de Yar ainda não alcançou um terço do caminho para o painel. Há uma expressão de autêntica surpresa em seus olhos. Teg duvida de que o homem chegue a enxergar a mão que lhe quebra o pescoço. A mulher move-se um pouco mais rápido. Seu pé esquerdo lança-se em direção ao ponto onde Teg se encontrava uma fração de segundo antes. Ainda assim, é muito lento! A cabeça dela é lançada para trás, expondo a garganta à cutelada de Teg.

Como eles tombam lentamente!

Teg torna-se consciente do fluxo de sua transpiração, mas não pode perder tempo preocupando-se com isso.

“Eu sabia de todos os movimentos que eles iam fazer antes que os fizessem!

Que foi que aconteceu comigo?”

Projeção Mentat: “A agonia da sonda elevou-me a um novo nível de capacidades.”

Uma fome intensa torna-o consciente da perda de energia que sofrera. Colocar de lado essa sensação, sentindo-se retornar a um ritmo normal de tempo. Três sons secos: corpos tombando no chão.

Teg examina o console da sonda. Definitivamente, não era Ixiana. Controles similares, contudo. Ele provoca um curto-circuito no sistema de armazenagem de dados, apagando tudo.

“Luzes da sala?”

Os controles estão ao lado da porta que dá para fora. Teg apaga as luzes e respira fundo três vezes. Uma indistinta mancha de movimento, rápida demais para ser seguida, sai pela noite.

Aqueles que o tinham levado para lá, vestidos com suas roupas volumosas contra o frio do inverno, mal têm tempo de se voltar na direção do som estranho antes que aquela mancha rodopiante os derrube.

Teg retorna uma vez mais à escala de tempo normal. A luz das estrelas revela uma trilha descendo a colina através do mato espesso. Ele escorre pelo lamaçal nevado e por fim recupera o equilíbrio, antecipando os acidentes do terreno. Cada passo posiciona-o onde ele sabia que devia apoiar-se. Dai a pouco se encontra em espaço aberto e pode olhar para o vale.

Vê as luzes de uma cidade, com o grande retângulo negro de um prédio no centro. Conhecia esse lugar: Ysai. Os manipuladores das marionetes encontravam-se lá.

“Estou livre!”

Havia um homem que se sentava todo dia olhando para a estreita abertura vertical deixada por uma tábua retirada de uma cerca de madeira. Todo dia um asno selvagem do deserto passava do outro lado da cerca, cruzando na frente da abertura — primeiro o focinho, depois a cabeça, as patas dianteiras, o longo dorso castanho, as pernas traseiras e finalmente a cauda. Uma dia o homem pulou com a euforia da descoberta em seus olhos e gritou para todos que pudessem ouvi-lo: — “É óbvio! O

focinho é a causa da cauda!”

— Histórias da Sabedoria Oculta,

da História Oral de Rakis

Em várias ocasiões desde que viera para Rakis, Odrade se vira dominada pela lembrança daquela pintura ancestral que ocupava lugar de destaque na parede dos alojamentos de Taraza, na sede da Irmandade. Quando a memória vinha, sentia as mãos formigarem ao toque do pincel. Suas narinas dilatavam-se com o odor induzido dos pigmentos e dos óleos. Suas emoções dominavam a tela. E a cada vez Odrade terminava com maiores dúvidas de que Sheeana fosse a sua tela.

“Qual de nós está pintando a outra?”

Tinha acontecido de novo essa manhã. Ainda estava escuro do lado de fora da cobertura no Castelo Rakiano onde ela se alojara com Sheeana. Uma acólita entrou com suavidade para despertar Odrade e lhe dizer que Taraza iria chegar daí a pouco.

Odrade olhou para o rosto fracamente iluminando da acólita de cabelos negros e imediatamente a memória da pintura relampejou em sua consciência.

“Qual de nós verdadeiramente cria a outra?”

Deixe Sheeana dormir um pouco mais — instruiu Odrade antes de mandar embora a acólita.

— Vai tomar seu desjejum antes da chegada da Madre Superiora? —

perguntou a acólita.

— Vamos aguardar a vontade de Taraza.

Levantando-se, Odrade fez uma rápida higiene matinal e vestiu seu melhor manto negro. Depois caminhou até a janela no lado leste da sala de estar da cobertura e olhou na direção do espaço-porto. Muitas luzes em movimento faziam brilhar o céu empoeirado naquela direção. Ela ativou todos os globos luminosos da sala para atenuar a visão externa. Os globos tornaram-se asteriscos dourados refletindo-se no espesso plaz blindado das janelas. A superfície escura também refletia um fraco contorno de suas próprias feições. As linhas de fadiga revelavam-se claramente.

“Eu sabia que ela viria”, pensou Odrade.

Enquanto pensava nisso, o sol Rakiano surgiu no horizonte indefinido, como a bola alaranjada de uma criança. Imediatamente ocorreu a reflexão de calor que tantos observadores de Rakis já tinham mencionado. Odrade virou as costas para a janela e viu abrir-se a porta do corredor.

Taraza entrou com um sussurrar de mantos. Uma mão fechou a porta por trás dela, deixando as duas sozinhas. A Madre Superiora avançou em direção a Odrade, o capuz negro erguido em torno do rosto a lhe emoldurar a face. Uma visão nada tranqüilizadora.

Reconhecendo a perturbação de Odrade, Taraza jogou com isso:

— Muito bem, Dar, creio que finalmente nos encontramos na condição de estranhas.

O efeito das palavras de Taraza deixou Odrade espantada. Ela interpretou corretamente a ameaça, mas o medo a abandonou, esvaindo-se como se fosse água derramada de um jarro. Pela primeira vez em sua vida, Odrade reconheceu o momento preciso para cruzar uma linha divisória. Essa era uma linha cuja existência ela suspeitava que poucas de suas Irmãs conhecessem. E, ao transpô-la, Odrade percebeu que sempre soubera que ela estava ali: um lugar onde poderia penetrar no vácuo e flutuar livre. Não era mais vulnerável. Poderia ser morta, mas não seria derrotada.

— Então não é mais Dar e Tar — disse Odrade.

Taraza ouviu o tom claro e desinibido da voz de Odrade e interpretou sua confiança.

— Talvez nunca tenha sido — ela disse com voz fria. — Percebo que se julga extremamente hábil.

“O duelo começou”, pensou Odrade. “Mas não estou na frente do ataque dela.”

Odrade disse:

— As alternativas à aliança com os Tleilaxu eram inaceitáveis. Em especial quando percebi o que você realmente desejava de nós.

Taraza sentiu-se subitamente muito cansada. Fora uma longa viagem, a despeito dos saltos de dobras espaciais de sua não-nave. A carne sempre sabia quando fora torcida para fora de seus ritmos familiares. Escolheu um divã macio e se sentou, suspirando no luxuoso conforto.

Odrade reconheceu a fadiga da Madre Superiora e sentiu uma afinidade imediata. De repente eram apenas duas Reverendas Madres com problemas comuns.

Taraza obviamente sentia isso. Bateu na almofada ao lado dela e esperou que Odrade se sentasse.

— Nós devemos preservar a Irmandade — disse Taraza. — Essa é a única coisa que importa.

— É claro.

Taraza fixou seu olhar escrutinador nas feições familiares de Odrade. “Sim, Odrade também está muito cansada.”

— Você esteve em contato intimo com as pessoas e com o problema — disse Taraza. — Eu quero... não, Dar, eu preciso de seus pontos de vista.

— Os Tleilaxu aparentam total cooperação — explicou Odrade —, mas existe

fingimento nisso. Tenho feito a mim mesma algumas perguntas extremamente perturbadoras.

— Tais como?

— E se os tanques axlotl não forem... tanques?

— O que quer dizer com isso?

— Waff demonstra o tipo de comportamento que se nota numa família quando ela tenta ocultar um filho deformado ou tio louco. Eu lhes asseguro que ele ficou embaraçado quando toquei no assunto dos tanques.

— Mas o que eles poderiam ser. Ventres alugados.

— Mas eles teriam que...

Taraza calou-se, chocada com as possibilidades abertas por essa hipótese.

— Alguém jamais viu uma mulher Tleilaxu? — perguntou Odrade.

A mente de Taraza estava cheia de objeções.

— Mas o controle químico preciso, a necessidade de limitar as variáveis... —

Ela lançou o capuz para trás e libertou os cabelos, sacudindo-os. — Você tem razão: devemos questionar tudo. Mas isso... seria monstruoso. E ele ainda não revelou toda a verdade a respeito do nosso ghola. Que é que ele diz?

— Nada mais do que aquilo que já relatei: uma variação do Duncan Idaho original e de acordo com todas as exigências prana-bindu que especificamos.

— E não explica por que mataram ou tentaram matar todos os que adquirimos anteriormente?

— Ele afirma, pelo sagrado juramento da Grande Crença, que agiram envergonhados porque os 11 gholas anteriores não corresponderam às expectativas.

— Como poderiam saber? Ele afirma que possuem espiões em nosso meio?

— Ele jura que não. Eu lhe perguntei isso e ele disse que um ghola bem-sucedido certamente teria criado uma perturbação visível entre nós.

— Que perturbação visível? Que será que ele está...

— Isso ele não diz. Volta sempre à sua afirmativa de que cumpriram as obrigações contratuais. Onde está o ghola, Tar?

— O quê?.. Oh, em Gammu.

— Ouvi rumores de que...

— Burzmali tem a situação sob controle.

Taraza comprimiu os lábios, torcendo para que isso fosse verdade. O relatório mais recente não a deixara confiante.

— Vocês, obviamente, estão debatendo se o ghola deve ser morto — disse Odrade.

— Não é só o ghola!

Odrade sorriu.

— Então é verdade que Bellonda quer que eu seja permanentemente eliminada.

— Como foi que...

— As amizades podem ser algo bastante valioso em certas ocasiões, Tar.

— Está caminhando num terreno muito perigoso, Reverenda Madre Odrade.

— E não estou tropeçando, Madre Superiora. Tenho pensado muito nas coisas que Waff me revelou a respeito daquelas Honradas Madres.

— Conte-me alguns dos seus pensamentos.

Havia uma determinação implacável na voz de Taraza.

— Não devemos cometer enganos a esse respeito — disse Odrade. — Elas ultrapassaram as habilidades sexuais de nossas Impressoras.

— Prostitutas!

— Sim, elas empregam seus talentos de um modo que acabará sendo fatal para elas mesmas e para os outros. Estão cegas pelo próprio poder que desenvolveram.

— Foi só até ai que chegaram seus pensamentos?

— Diga-me, Tar, por que foi que elas atacaram e apagaram do mapa o nosso castelo em Gammu?

— Obviamente, estavam atrás do ghola Idaho, para capturá-lo ou matá-lo.

— E por que ele seria tão importante para elas?

— Que está sugerindo? — indagou Taraza.

— Será que as prostitutas não estariam agindo com base em informações passadas pelos Tleilaxu... Tar? E se essa coisa secreta que o pessoal de Waff introduziu em nosso ghola for algo que possa fazer dele um equivalente masculino de uma Honrada Madre?

Taraza levou uma das mãos à boca e a deixou cair rapidamente ao perceber o quanto esse gesto havia revelado. Era tarde demais. Não importava, elas ainda eram duas Reverendas Madres reunidas.

Odrade disse:

— E nós ordenamos a Lucilla que o tornasse irresistível para a maioria das mulheres.

— Há quanto tempo os Tleilaxu estão negociando com as prostitutas? —

perguntou Taraza.

Odrade encolheu os ombros.

— Talvez fosse melhor perguntar: há quanto tempo eles estão negociando com seus próprios Perdidos retornados da Dispersão? Tleilaxu fala com Tleilaxu e muitos segredos são compartilhados.

— Uma projeção brilhante de sua parte — reconheceu Taraza. — Que valor de probabilidade você lhe dá?

— Sabe tão bem quanto eu. Isso explicaria muitas coisas.

Taraza disse com amargura:

— Que acha de sua aliança com os Tleilaxu neste momento?

— Mais necessária do que nunca. Devemos ficar do lado de dentro.

Precisamos colocar-nos numa posição em que possamos influenciar aqueles que negociam.

— Abominação! — exclamou Taraza.

— O quê?

— Esse ghola é como uma máquina gravadora em forma humana. Eles o plantaram em nosso meio. Se os Tleilaxu vierem a colocar suas mãos nele, ficarão sabendo de muitas coisas a nosso respeito.

— Isso seria um movimento muito desajeitado.

— E típico da parte deles!

— Concordo em que nossa presente situação traz outras implicações —

comentou Odrade. — Mas tais argumentos indicam que não podemos matar o ghola até que o tenhamos examinado nós mesmas.

— Pode ser tarde demais então! Maldita a sua aliança, Dar! Você lhes deu um poder sobre nós... e nós ficamos com um poder sobre eles... Algo que nenhum dos lados se atreve a deixar escapar.

— Isso não faz uma aliança perfeita?

Taraza suspirou.

— Quão cedo deveremos dar-lhes acesso aos nossos arquivos de procriação?

— Logo. Waff está insistindo nisso.

— Então poderemos ver seus... tanques axlotl?

— É nesse sentido que estou pressionando. Ele concordou com relutância.

— Cada vez mais fundo nos bolsos um do outro — resmungou Taraza.

Com um tom de voz totalmente inocente, Odrade disse:

— Uma aliança perfeita. Como eu disse.

— Maldição, maldição, maldição — murmurou Taraza. — E Teg despertou as memórias originais do ghola!

— E Lucilla conseguiu...

— Eu não sei!

Taraza voltou uma expressão soturna para Odrade e lhe contou sobre os relatórios mais recentes a respeito da situação em Gammu: Teg e seu grupo localizados, em breve relatório sobre eles e nada de Lucilla, os planos para resgatá-los.

Suas próprias palavras produziram uma visão perturbadora na mente de Taraza. Quem seria esse ghola? Elas sempre tinham tido o conhecimento de que os Duncan Idaho não eram gholas comuns. Mas agora, com poderes neuro-musculares aumentados, mais essa coisa desconhecida que os Tleilaxu tinham introduzido nele —

era como segurar um porrete em chamas. Você sabe que vai ter que usar o cajado para sobreviver, mas as chamas se aproximam de sua mão velozmente.

Odrade disse em tom meditativo:

— Já tentou imaginar como deve ser para um ghola despertar subitamente num corpo rejuvenescido?

— O quê? Que está...

— Percebendo que seu corpo cresceu a partir das células de um cadáver —

continuou Odrade. — Ele é capaz de se lembrar de sua própria morte.

— Os Idahos nunca foram pessoas comuns.

— O mesmo se pode dizer desses Mestres Tleilaxu.

— O que está tentando me dizer?

Odrade passou a mão pela testa, aproveitando o momento para rever seus próprios pensamentos. Isso seria tão difícil de explicar para alguém que rejeitava a afeição, alguém que se deixava impulsionar por uma raiva interior. Taraza não tinha...

afinidade. Não podia colocar-se na pele de outra pessoa, exceto num exercício de lógica fria.

— O despertar de um ghola deve ser uma experiência esmagadora —

comentou Odrade, abaixando a mão. — Somente aqueles com uma enorme capacidade de reajuste mental sobreviveriam.

— E supomos que os Mestres Tleilaxu sejam mais do que aparentam ser.

— E os Duncan Idahos?

— É claro. Por que outro motivo o Tirano ficaria a comprá-los dos Tleilaxu?

Odrade percebeu que a discussão não teria sentido. Ela disse:

— Os Idahos eram notoriamente leais aos Atreides, e devemos recordar-nos de que eu sou uma Atreides.

— Acha que a lealdade dele vai ligá-lo a você?

— Principalmente depois que Lucilla...

— Isso pode ser extremamente perigoso!

Odrade sentou-se num canto do divã. Taraza queria certezas. E as vidas da série de gholas eram como a melange, apresentando um gosto diferente em cada diferente ambiente. Como poderiam ter alguma certeza quanto a esse ghola?

— Os Tleilaxu brincam com as forças que produziram o nosso Kwisatz Haderach — murmurou Taraza.

— Acha que é por isso que eles querem nossos arquivos de procriação?

— Não sei! Maldição, Dar! Não percebe o que você fez?

— Acho que não tinha outra escolha.

Taraza deu um sorriso gélido. O desempenho de Odrade permanecia soberbo, mas ela precisava ser colocada no devido lugar.

— Acha que teria feito o mesmo?

“Ela ainda não percebeu o que aconteceu comigo” — pensou Odrade. Taraza tinha esperado que sua flexível Dar agisse com independência, mas a extensão de tal independência abalara o Alto Conselho. E Taraza recusava-se a reconhecer que sua própria mão provocara isso.

— Prática costumeira — respondeu Odrade.

As palavras atingiram Taraza como um tapa no rosto. Somente o duro treinamento de toda uma vida na Bene Gesserit a impediu de golpear Odrade violentamente.

“Prática costumeira!”

Quantas vezes Taraza não revelara que essa era uma fonte de sua irritação,

uma provocação à sua ira tão cuidadosamente contida? Odrade ouvira isso com freqüência.

Odrade repetiu as palavras da Madre Superiora.

— Costumes imutáveis são perigosos. Os inimigos podem encontrar o padrão e usá-lo contra você.

As palavras escaparam forçadas de Taraza:

— Isso é uma fraqueza, sim.

— Nossos inimigos julgavam conhecer nossos hábitos — comentou Odrade.

— Até mesmo você, Madre Superiora, julgava conhecer os limites dentro dos quais eu agiria. Eu era como Bellonda. Antes mesmo de ela abrir a boca, você já sabe o que Bellonda vai dizer.

— Será que cometemos o erro de não colocar você numa posição superior à minha? — perguntou Taraza, falando com sua mais profunda lealdade para com a ordem.

— Não, Madre Superiora. Nós percorremos caminhos perigosos, mas ambas sabemos aonde queremos chegar.

— Onde está Waff agora?

— Dormindo e muito bem guardado.

— Chame Sheeana. Precisamos resolver se devemos abortar essa parte do projeto.

— E pagar o preço por isso?

— Como diz, Dar.

Sheeana ainda estava sonolenta e esfregava os olhos quando apareceu na sala de visitas, mas obviamente tinha tido tempo de lavar o rosto e vestir um manto branco limpo. O cabelo ainda estava úmido.

Taraza e Odrade encontravam-se diante da janela do lado leste, as costas voltadas para a luminosidade da manhã lá fora.

— Esta é Sheeana, Madre Superiora — disse Odrade.

Sheeana ficou subitamente alerta, enrijecendo as costas. Tinha ouvido falar dessa mulher poderosa, essa Taraza, que governava a Irmandade numa cidadela distante. A luz do sol penetrava brilhante pela janela atrás das duas mulheres, caindo em cheio no rosto de Sheeana e a ofuscando. Deixava os rostos das duas Reverendas Madres parcialmente ocultos, contornos negros num brilho enevoado.

Instrutoras entre as acólitas a haviam preparado para esse encontro:

— Fique de pé diante da Madre Superiora e fale respeitosamente. Responda apenas quando ela lhe dirigir a palavra.

Sheeana ficou rígida, em posição de sentido, do modo como lhe tinham ensinado.

— Informaram-me que você pode tornar-se uma de nós — disse Taraza.

As duas mulheres viram o efeito que isso teve sobre a jovem. A essa altura, Sheeana estava plenamente consciente das realizações das Reverendas Madres. Uma

poderosa luz de conhecimento tinha sido focalizada sobre ela. Começara a vislumbrar o enorme reservatório de Sabedoria que a Irmandade acumulara através de milênios.

Tinham lhe contado a respeito da transmissão seletiva de memórias, da ação das Outras Memórias e da agonia da especiaria. E ali, diante dela, se encontrava a mais poderosa de todas as Reverendas Madres, aquela de quem nada era escondido.

Como Sheeana não respondesse, Taraza perguntou:

— Não tem nada para dizer, criança?

— Que há para dizer, Madre Superiora? A senhora já disse tudo.

Taraza lançou um olhar indagador para Odrade.

— Tem outras surpresas para mim, Dar?

— Eu lhe disse que ela era superior — comentou Odrade.

Taraza voltou sua atenção para Sheeana.

— Sente-se orgulhosa dessa opinião, criança?

— Ela me assusta, Madre Superiora.

Ainda mantendo o rosto tão imobilizado quanto podia, Sheeana passou a respirar de modo mais tranqüilo. “Diga apenas a verdade mais profunda que puder sentir”, lembrou-se. Aquela advertência da instrutora fazia sentido agora. Manteve os olhos levemente desfocados e dirigidos para um ponto do piso diretamente em frente às duas mulheres, evitando o pior do brilho do sol. Ainda sentia o coração bater muito rapidamente, e sabia que as Reverendas Madres podiam detectar isso. Odrade o demonstrara muitas vezes.

— Bem, deveria mesmo assustá-la — disse Taraza.

Odrade perguntou:

— Compreende o que estamos dizendo a seu respeito, Sheeana?

— A Madre Superiora quer saber se quero dedicar-me inteiramente à Irmandade — respondeu Sheeana.

Odrade olhou para Taraza e encolheu os ombros. Não havia mais necessidade de qualquer diálogo entre elas. Era assim que acontecia quando se fazia parte de uma família como a Bene Gesserit.

Taraza continuou com sua observação silenciosa de Sheeana. Era um olhar penetrante, que esgotava as energias de Sheeana, a qual sabia que devia continuar quieta e permitir aquela avaliação total.

Odrade dominou seus sentimentos de afinidade. Sheeana era como ela fora quando menina, igual de muitas maneiras. Possuía aquele intelecto globular, que se expandia em todas as direções como um balão ao ser inflado. Odrade lembrava-se agora de como suas professoras tinham admirado isso, mas de um modo cauteloso, exatamente como Taraza se mostrava cautelosa nesse momento. Odrade reconhecera essa cautela quando era ainda mais jovem do que Sheeana, e não tinha dúvidas de que Sheeana estaria percebendo tal coisa. O intelecto tinha suas utilidades.

— Hummm — murmurou Taraza.

Odrade ouviu o som produzido pelas reflexões interiores da Reverenda Madre,

uma parte do semulfluxo. A própria memória de Odrade lançou-se no passado. As Irmãs que traziam as refeições de Odrade, quando ela trabalhava até tarde, sempre gostavam de observá-la desse modo, exatamente como Sheeana era observada e monitorada todo o tempo. Odrade conhecera essa maneira especial de observação desde muito jovem. Essa era, afinal, uma das grandes atrações da Bene Gesserit. A pessoa queria ser capaz de tais habilidades esotéricas. Sheeana certamente possuía esse desejo. Era o sonho de toda candidata a Bene Gesserit.

“Que eu possa fazer essas coisas!”

Taraza disse finalmente:

— Que você pensa que deseja de nós, criança?

— O mesmo que a senhora julgava desejar quando tinha minha idade, Madre Superiora.

Odrade reprimiu um sorriso. O sentimento selvagem de independência para Sheeana levara-a bem perto de uma insolência, e Taraza certamente teria reconhecido tal coisa.

— Acha que esse é um uso adequado do dom da vida? — perguntou Taraza.

— É o único que conheço, Madre Superiora.

— Sua sinceridade é apreciada, mas eu lhe aviso para ser cuidadosa no modo como a usa. Já nos deve muito e vai nos dever muito mais — comentou Taraza. —

Lembre-se disto: nossas dádivas custam caro.

— Sim, Madre Superiora.

“Sheeana não tem a menor idéia do preço que vai pagar por nossas habilidades”, pensou Odrade.

A Irmandade nunca permitia que suas noviças esquecessem o quanto lhe deviam e o modo como deveriam pagar. Não se pagava o que se recebia com amor.

Não, o amor era algo muito perigoso, e Sheeana já devia estar aprendendo isso. “O

dom da vida?” Um tremor começou a percorrer o corpo de Odrade e ela pigarreou para compensar.

“Será que estou mesmo viva? Será que não morri quando elas me tiraram de minha Mama Sibia? Eu me sentia viva naquela casa, mas será que continuei vivendo depois que as Irmãs me arrancaram de lá?”

Taraza disse:

— Pode sair agora, Sheeana.

Sheeana virou-se e deixou a sala, mas não antes que Odrade percebesse o sorriso contido em seus lábios. Ela sabia que fora aprovada no exame da Madre Superiora.

Quando a porta se fechou atrás dela, Taraza disse:

— Você mencionou a habilidade natural que ela possui com a Voz. Eu ouvi, é claro. Extraordinário.

— Ela a mantém bem contida — disse Odrade. — Já aprendeu a não tentar usá-la conosco.

— Que temos aqui, Dar?

— Talvez um dia uma Madre Superiora de capacidades extraordinárias.

— Não demasiado extraordinárias?

— Isso teremos que ver.

— Acha que ela é capaz de matar por nós?

Odrade surpreendeu-se e demonstrou isso:

— Agora?

— Sim, é claro.

— O ghola?

— Teg não seria capaz de fazer isso — explicou Taraza. — E também duvido de que Lucilla o possa. Seus relatórios tornam claro que ele é capaz de forjar laços poderosos de... de afinidade.

— Até mesmo como eu?

— A própria Schwangyu não era completamente imune.

— E onde estaria o nobre propósito de tal ato? — perguntou Odrade. — Não foi a respeito disso que o Tirano nos..

— Ele? Ele matou muitas vezes!

— E pagou por isso.

— Nós pagamos por tudo aquilo que tiramos, Dar.

— Mesmo pela vida?

— Nunca se esqueça, nem por um instante, Dar, de que a Madre Superiora é capaz de tomar qualquer decisão que seja necessária para garantir a sobrevivência da Irmandade!

— Assim seja — respondeu Odrade. — Tire o que quiser e pague por isso.

Era uma resposta adequada, mas reafirmava a nova força que Odrade sentia, sua liberdade para responder do modo que julgasse necessário dentro de um universo novo. Onde é que essa resistência se originara? Seria alguma coisa proveniente de seu cruel condicionamento Bene Gesserit? Seria derivada de seus ancestrais Atreides? Não tentou enganar-se imaginando que essa liberdade não provinha de outra coisa senão de uma decisão sua de nunca mais seguir a orientação moral de outra pessoa. Essa estabilidade interior sobre a qual se apoiava agora não era apenas pura moral. Nem ousadia. Isso nunca era suficiente.

— Você se parece muito com seu pai — disse Taraza. — Geralmente é a mãe que nos fornece a maior parte da coragem, mas desta vez acho que ela veio do pai.

— Miles Teg é admiravelmente corajoso, mas creio que você está simplificando demais a questão.

— Talvez esteja. Mas estive certa a seu respeito em todas as ocasiões, Dar, mesmo na época em que éramos estudantes.

“Ela sabe!”, pensou Odrade.

— Nós não precisamos explicar isso — disse Odrade. E pensou: “Vem do modo como nasci, do modo como fui treinada e moldada. . do modo como nós

éramos: Dar e Tar.”

— É algo na linhagem Atreides que ainda não analisamos totalmente —

comentou Taraza.

— Nenhum acidente genético?

— Às vezes me pergunto se sofremos algum acidente desse tipo desde os tempos do Tirano — comentou Taraza.

— Será que ele expandiu sua consciência lá em sua cidadela e olhou através dos milênios até este exato momento?

— Até onde você recuaria para alcançar as raízes?

Odrade respondeu:

— Que acontece realmente quando uma Madre Superiora comanda as Madres Procriadoras: “Faça com que esta procrie com aquele”?

Taraza deu um sorriso gélido.

Odrade sentiu-se subitamente na crista da onda, sua percepção lançando-a num novo mundo! “Taraza deseja minha rebelião! Ela me quer como oponente!”

— Vai querer encontrar Waff agora? — perguntou.

— Primeiro quero ouvir o seu julgamento a respeito dele.

— Ele se vê como o instrumento final da “Ascendência dos Tleilaxu”. Nós somos a dádiva de Deus para seu povo.

— Eles estão esperando há muito tempo por isso — comentou Taraza. — A cuidadosa dissimulação que fizeram, todos eles, por todos esses séculos!

— Eles possuem a nossa visão do tempo — concordou Odrade. — Esse foi o elemento final que os convenceu de que partilhamos da Grande Crença.

— Mas por que são tão desajeitados? — perguntou Taraza. — Eles não são estúpidos.

— Isso serviu para desviar nossa atenção do modo como usavam realmente o processo ghola. Quem acreditaria que gente estúpida fosse capaz de uma coisa assim?

— E que foi que eles criaram? — perguntou Taraza. — Somente a imagem de uma estupidez maligna?

— Finja estupidez por muito tempo e você se torna realmente estúpida —

comentou Odrade. — A mímica perfeita de seus Dançarinos Faciais e...

— O que quer que aconteça, devemos puni-los — disse Taraza. — Percebo isso claramente. Faça com que o tragam aqui.

Depois que Odrade dera a ordem e enquanto esperavam, Taraza disse:

— A seqüência da educação do ghola virou bagunça antes mesmo que eles escapassem do Castelo de Gammu. Ele saltou adiante de seus mestres para compreender coisas apenas implícitas e fez isso a um ritmo assustadoramente acelerado. Quem sabe o que ele se tornou a esta altura?

Os historiadores adquirem grande poder e alguns deles têm consciência disso. Recriam o passado, modificando-o para se adequar às suas próprias interpretações. Fazendo isso, modificam igualmente o futuro.

— Leto II; Sua Voz,

de Dar-es-Balat

Duncan caminhava atrás de seu guia sob a iluminação da alvorada, marchando num ritmo doloroso. O homem podia parecer velho, mas era ágil como uma gazela e parecia incapaz de se cansar.

Há apenas alguns minutos eles tinham tirado os óculos de visão noturna e Duncan estava feliz por se livrar deles. Tudo fora do alcance dos óculos parecera mergulhado numa escuridão profunda, iluminada apenas pelo fraco brilho das estrelas que se filtrava pelos ramos das árvores. Parecia que o mundo acabava além do alcance dos óculos. E a visão de ambos os lados pulava e fluía — aqui um conjunto de arbustos amarelos, ali duas árvores de troncos prateados, adiante um muro de pedra com portão de plasteel embutido em sua estrutura e guardado pelo azul tremulante de um escudo queimador, depois uma ponte nativa feita de pedra, toda verde e preta sob seus pés. Depois disso, uma entrada em forma de arco feita de pedra branca polida.

Todas as estruturas pareciam muito antigas e caras, mantidas com dispendioso trabalho manual.

Duncan não tinha idéia do lugar em que se encontrava. Nada nesse terreno tinha relação com suas memórias dos dias há muito perdidos de Giedi Prime.

A aurora surgiu no momento em que eles seguiam por uma trilha abrigada entre as árvores, subindo a encosta de uma colina. A subida mostrou-se íngreme e a visão ocasional que obtinham através das árvores revelava um vale à sua esquerda. A névoa mantinha-se espessa á cima, guardando a visão do céu, ocultando as distâncias e os envolvendo à medida que subiam. O mundo tornava-se um lugar cada vez mais fechado, enquanto perdiam sua ligação com um universo maior.

Durante uma breve pausa, não para descansar mas para ouvir os ruídos da floresta em volta, Duncan observou o ambiente coberto de névoa. Sentia-se deslocado, removido de um outro universo que tinha céus abertos e paisagens que o ligavam a outros planetas.

Seu disfarce era simples: vestimentas Tleilaxu para climas frios e almofadas nas faces para fazer seu rosto parecer mais arredondado. Seu cabelo negro encaracolado fora alisado com um composto químico aplicado com calor. O cabelo fora então descolorido até ficar de um louro pálido e escondido debaixo de um capuz. Todo o seu pêlo púbico fora raspado e ele quase não reconhecera a si mesmo no espelho.

“Um Tleilaxu sujo!”

A artesã que produzira tal transformação era uma velha com cintilantes olhos cinza-esverdeados.

— Você agora é um Mestre Tleilaxu — dissera ela. — Seu nome é Wose. Um guia o levará ao seu próximo destino. Você o tratará como Dançarino Facial se encontrarem estranhos no caminho. Em outras circunstâncias, faça o que ele ordenar.

Eles o conduziram para fora do complexo de cavernas, através de uma passagem serpenteante, as paredes e o teto cobertos por uma espessa camada de algas verdes almiscaradas. Depois, na escuridão iluminada pela luz das estrelas, eles o retiraram da passagem e o entregaram a um homem que ele não podia ver — uma figura volumosa dentro de roupas acolchoadas.

Uma voz atrás dele sussurrou:

— Ei-lo, Ambitorm. Faça com que escape.

O guia falou com um sotaque gutural:

— Siga-me.

Prendeu uma corda ao cinturão de Duncan e ajustou os óculos de visão noturna sobre seus olhos. Duncan sentiu um puxão na corda e eles partiram.

Logo reconheceu a utilidade da corda. Não era um artifício para mantê-lo seguindo o guia. Podia ver Ambitorm muito claramente com os óculos noturnos.

Não, a corda era para jogá-lo no chão rapidamente, se topassem com algum perigo, sem necessidade de ordem.

Durante algum tempo, na caminhada noturna, eles cruzaram pequenos cursos d'água margeados de gelo. Estavam numa região plana e a luz das primeiras luas de Gammu penetrava ocasionalmente na vegetação. Por fim emergiram numa colina baixa, vislumbrando uma extensão de arbustos prateados sob a cobertura de neve iluminada pelo luar. Desceram, entrando naquela vegetação. Os arbustos tinham o dobro da altura do guia, arqueados sobre passagens enlameadas abertas por animais, as quais eram apenas um pouco mais largas que os túneis onde haviam começado essa jornada. Era mais quente ali, o calor de uma pilha de adubo em fermentação. Quase nenhuma luminosidade penetrava até atingir o solo esponjoso com vegetação apodrecida. Os óculos noturnos revelavam um panorama interminável de vegetação espessa em ambos os lados. Duncan sentia o cheiro de vegetais em decomposição, e também fungos. A corda que o ligava a Ambitorm era seu frágil elo com um mundo totalmente estranho.

Ambitorm desencorajava a conversa. Respondeu “sim” quando Duncan buscou confirmar seu nome e então disse:

— Não converse.

Toda a noite fora uma travessia inquietante. Ele não gostava de ser lançado em suas memórias do antigo Giedi Prime, mas elas persistiam. Esse lugar não era como o de sua juventude pré- ghola. Imaginava como Ambitorm podia ter aprendido e memorizado esse caminho. Um túnel aberto por animais parecia-se exatamente com qualquer outro.

E nesse passo de caminhada acelerada, havia tempo para que os pensamentos vagueassem em várias direções.

“Devo permitir que a Irmandade me use? Que é que devo a elas?” Pensou em Teg, naquele último gesto galante para permitir que escapassem.

“Eu fiz a mesma coisa por Paul e Jessica.”

Era um laço de união com Teg que deixava Duncan cheio de mágoa. Teg era leal à Irmandade “Será que comprou minha lealdade com aquele último ato de bravura?”

“Malditos Atreides!”

Os esforços noturnos tinham aumentado a familiaridade de Duncan com o novo corpo. Como era jovem essa carne! Com um pequeno impulso de lembrança, podia alcançar sua última memória do período pré- ghola.

Sentia a lâmina do Sardaukar atingindo sua cabeça — uma cegante explosão de dor e luz, o reconhecimento da morte certa e então... nada até aquele momento com Teg no não-globo.

A dádiva de uma outra vida. Seria mais que uma dádiva ou alguma outra coisa?

Os Atreides lhe estavam exigindo pagamento.

Por algum tempo antes da aurora, Ambitorm o conduziu numa carreira, chapinhando sobre a água de um arroio. O frio gelado penetrou através das botas à prova d'água que faziam parte de sua vestimenta Tleilaxu. O curso d'água refletia o tom prateado, sombreado pelos arbustos, da lua matutina do planeta antes da aurora.

A luz do dia encontrou-os em outra trilha ampla, também aberta por animais, em meio a árvores, subindo uma colina íngreme. Esse caminho levou-os a uma estreita saliência de rochas abaixo da crista de um penhasco cheio de rochas escarpadas. Ambitorm conduziu-o para trás da proteção de uma extensão de capim marrom morto, sujo de neve soprada pelos ventos. Ele soltou a corda do cinturão de Duncan. Diretamente à frente deles encontrava-se uma depressão rasa nas rochas, que não chegava a formar exatamente uma caverna, mas que ofereceria certa proteção, a menos que um vento muito forte soprasse sobre o capim acima deles. Não havia neve no fundo da depressão.

Ambitorm removeu cuidadosamente uma camada de gelo sujo e várias pedras achatadas que escondiam um pequeno buraco. Tirou do buraco um objeto negro e arredondado e ficou mexendo nele.

Duncan agachou-se sobre a saliência rochosa e ficou observando seu guia.

Ambitorm tinha um rosto chato, com uma pele que lembrava couro marrom-escuro.

Sim, essas poderiam ser as feições de um Dançarino Facial. Havia vincos profundos propagando-se das extremidades dos olhos do homem, dos cantos da boca fina e na testa. Expandiam-se em torno do nariz chato, aprofundando a depressão de um queixo estreito. Rugas espalhavam-se por todo o rosto.

Odores apetitosos começaram a sair do objeto negro em frente de Ambitorm.

— Vamos comer aqui e esperar um pouco antes de prosseguirmos — ele disse.

Falava no Galach Antigo, mas com um sotaque gutural que Duncan nunca

ouvira antes, dando uma ênfase curiosa às vogais adjacentes. Será que Ambitorm viera da Dispersão ou era nativo de Gammu? Obviamente, deviam ter aparecido muitos dialetos e variações lingüísticas desde os dias do Muad'Dib. Quanto a isso, Duncan reconhecia que todas as pessoas do Castelo de Gammu, incluindo Teg e Lucilla, falavam um Galach ligeiramente diferente daquele que tinha aprendido em sua infância pré- ghola.

— Ambitorm — disse Duncan. — Esse é um nome de Gammu?

— Você vai me chamar de Tormsa.

— É um apelido?

— É o nome pelo qual deve me chamar.

— Por que aquelas pessoas lá atrás o chamavam de Ambitorm?

Continuar: parte 2 de 3