Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 6 de 8 · parte 1/3

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Os Hereges de Duna

Por um aperto no peito, Odrade soube…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Por um aperto no peito, Odrade soube que se encontrava à beira de uma perigosa descoberta. O farol a conduzira até ali!

“Arafel... nas bordas do universo. Além do sol poente!”

Odrade moveu a luz para a direita e para a esquerda. A entrada de outra passagem abria-se à esquerda. As pedras que a tinham bloqueado encontravam-se espalhadas até as bordas. Com o coração batendo forte, Odrade escorregou pela abertura e encontrou um pequeno trecho da passagem, fechada com rochas derretidas no final. A sua direita, diretamente embaixo do local onde estivera a marca do sol poente, encontrou um pequeno compartimento cheio do odor de melange. Odrade entrou e viu mais indícios de paredes lascadas e meio derretidas. O perigo era opressivo. Odrade cantou em silêncio a Litania contra o Medo, enquanto vasculhava o cubículo com seu facho de luz. O lugar era quase quadrado, com dois metros de cada lado. O teto encontrava-se a menos de meio metro acima de sua cabeça. O cheiro de canela pulsava em suas narinas. Odrade espirrou e, piscando os olhos, viu uma pequena descoloração no piso ao lado do portal.

Mais marcas de uma busca muito antiga?

Curvando-se e colocando a luz em ângulo reto, percebeu ter vislumbrado apenas a sombra de uma coisa gravada profundamente na rocha. A poeira escondera a maior parte. Odrade ajoelhou-se e raspou a poeira. Uma inscrição profunda e fina. O

que quer que fosse, fora destinada a durar. A última mensagem de uma Reverenda Madre perdida? Esse era um artifício conhecido da Bene Gesserit. Pressionou as pontas sensíveis de seus dedos contra a marca da inscrição e a reconstruiu em sua mente.

O reconhecimento saltou em sua consciência: um palavra escrita na antiga linguagem Chakobsa “Aqui”.

Não era um “aqui” comum assinalando um lugar qualquer, mas um “aqui”

enfático que dizia: “Você me encontrou!” O coração de Odrade, batendo forte, enfatizava isso.

Colocou a lanterna no piso a seu lado e explorou com a mão o antigo portal. A pedra parecia contínua aos seus olhos, mas os dedos detectavam uma minúscula descontinuidade. Pressionou a descontinuidade, girou-a, torceu-a. Mudou várias vezes o ângulo da pressão e repetiu o esforço.

Nada.

Sentando-se de cócoras, Odrade estudou a situação.

“Aqui”.

O sentimento de advertência tornara-se mais agudo. Podia senti-lo agora como uma pressão sobre sua respiração.

Recuando um pouco, Odrade afastou a luz e se deitou no piso para olhar ao longo da base do portal. “Aqui!” Será que poderia colocar uma ferramenta ao lado

daquela palavra e empurrar a beirada do portal? Não... não havia qualquer indicação de uma ferramenta. Essa coisa tinha o cheiro do Tirano, não de uma Reverenda Madre. Tentou empurrar o portal de lado. Nada se moveu.

Percebendo as tensões e o sentimento de perigo acentuados pela frustração, Odrade levantou-se e chutou o portal ao lado da palavra gravada. E aquilo se moveu!

Alguma coisa raspou a areia logo acima de sua cabeça.

Odrade recuou enquanto a areia se derramava no piso diante dela e um som trovejante enchia a pequena câmara. As pedras sacudiam-se sob seus pés. Então o piso inclinou-se para a frente, sob a porta, abrindo um espaço entre a parede e a entrada.

Uma vez mais Odrade se viu a rolar para baixo em direção ao desconhecido.

Sua lanterna caíra com ela, o facho rolando interminavelmente. Viu montes de uma substância castanho-avermelhada à sua frente, o cheiro de canela enchendo-lhe as narinas.

E caiu ao lado da lanterna sobre um monte macio de melange. A abertura através da qual despencara encontrava-se agora fora do alcance, uns cinco metros acima. Odrade apanhou a lanterna e o facho de luz revelou amplos degraus de pedra cortados na rocha ao lado da abertura. Havia alguma coisa escrita nos degraus, mas para Odrade o importante era a existência de uma saída. O pânico inicial diminuiu, mas o senso de perigo a deixara sem fôlego, forçando os movimentos de seus músculos do tórax.

Projetou o facho de luz para a direita e para a esquerda. Era um compartimento comprido, diretamente abaixo do corredor que partia da grande câmara. E em todo o seu comprimento havia melange empilhada!

Odrade apontou com a luz para o alto e percebeu por que nenhum caçador de tesouros, sondando o piso com pancadas, havia descoberto esse lugar. Havia escoras de pedra cruzando sobre o teto, de modo a transferirem todo o peso para as paredes rochosas. Qualquer pessoa que sondasse com batidas lá em cima ouviria apenas os sons de rocha sólida.

Uma vez mais Odrade olhou para a melange à sua volta. Mesmo aos preços atuais, desinflacionados, sabia estar em cima de um tesouro. Um tesouro de muitas toneladas.

“Seria este o perigo?”

O senso de advertência dentro dela continuava tão agudo quanto antes. A melange do Tirano não era o que devia temer. O triunvirato faria uma divisão justa desse tesouro e isso seria o fim dele. Um bônus do projeto ghola.

Outro perigo permanecia. Odrade não podia escapar ao sentimento de advertência.

Uma vez mais lançou o facho de luz sobre os montes de melange. E sua atenção foi captada por um trecho de parede acima da especiaria. Mais palavras!

Escritas em Chakobsa, numa caligrafia fina feita por um cortador, a mensagem dizia:

UMA REVERENDA MADRE VAI LER MINHAS PALAVRAS!

Alguma coisa fria acomodou-se nas entranhas de Odrade. Caminhou para a direita com a lanterna, avançando através de melange suficiente para resgatar um império. havia um acréscimo à mensagem:

EU DEIXO PARA VOCÊS MEU MEDO E MINHA SOLIDÃO. E A VOCÊS ENTREGO A CERTEZA DE QUE O CORPO E A ALMA DA BENE

GESSERIT ENCONTRARÃO O MESMO DESTINO DE TODOS OS OUTROS

CORPOS E TODAS AS OUTRAS ALMAS.

Havia outro parágrafo da mensagem atraindo sua atenção à direita deste aqui.

Odrade avançou ao longo das inscrições, parando para ler.

DE QUE SERVE A SOBREVIVÊNCIA SE VOCÊ NÃO SOBREVIVE INTEGRO? PERGUNTE ISSO À BENE TLEILAX! DE QUE VALE SE NÃO É

CAPAZ DE OUVIR A MÚSICA DA VIDA? MEMÓRIAS NÃO BASTAM, A MENOS QUE POSSA USÁ-LAS PARA UM NOBRE PROPÓSITO.

Havia mais inscrições na parede mais estreita da longa câmara. Odrade tropeçou na melange e se ajoelhou para ler:

POR QUE SUA IRMANDADE NÃO CONSTRUIU O CAMINHO

DOURADO? VOCÊS CONHECIAM A NECESSIDADE. SEU FRACASSO

CONDENOU A MIM, O IMPERADOR-DEUS, A MILÊNIOS DE AGONIA PESSOAL.

As palavras “Imperador-Deus” não estavam na linguagem Chakobsa e sim no idioma do Islamiyat, onde transmitiam um segundo significado explícito a qualquer pessoa que dominasse o idioma.

“Teu Deus e teu Imperador porque assim me fizeste.”

Odrade sorriu amargamente. Isso lançaria Waff num frenesi religioso! E

quanto mais ele afundasse nisso, mais fácil seria abalar sua segurança.

Odrade não duvidava da precisão da acusação que ali era feita pelo Tirano, nem do potencial de sua previsão quanto ao modo como a Irmandade poderia terminar. O senso de perigo a atrairá para esse lugar com toda a precisão. Alguma coisa mais estivera agindo igualmente. Os vermes de Rakis ainda se moviam segundo os ritmos ancestrais do Tirano. Ele poderia dormitar em seu sonho interminável, mas uma vida monstruosa, uma pérola em cada verme para lembrá-lo, seguia exatamente como o próprio Tirano havia previsto.

Que será que ele contara à Irmandade em sua época? Odrade relembrou as palavras:

Quando eu tiver desaparecido, eles me chamarão de Shaitan, Imperador de Gehenna.

A roda deve girar, e girar no Caminho Dourado.

Sim, fora isso que Taraza quisera dizer.

Não percebem? O povo simples de Rakis chama-o de Shaitan há mais de mil anos!

Então Taraza sabia disso. Sem nunca ter visto essas palavras, ela as tinha visto.

“Percebo seu propósito, Taraza. E agora conheço a carga de medo que tem transportado por todos esses anos. Posso sentir como sente.”

Odrade soube então que aquele sentimento de perigo não terminaria enquanto ela não morresse ou a Irmandade desaparecesse. A menos que o perigo fosse conjurado.

Ergueu a luz, colocou-se de pé e andou através da melange para os amplos degraus que conduziam para fora desse lugar. Nos degraus, recuou. Havia mais palavras do Tirano inscritas em cada um deles. Trêmula, Odrade as leu enquanto subia em direção à abertura.

MINHAS PALAVRAS SÃO TEU PASSADO,

MINHAS PERGUNTAS SÃO SIMPLES:

COM QUEM VOCÊS SE ALIARAM?

COM OS AUTO-IDÓLATRAS DE TLEILAX?

COM A BUROCRACIA DE MINHAS ORADORAS PEIXES?

COM A CORPORAÇÃO QUE VAGUEIA PELO COSMO?

COM OS HARKONNEN E SEUS SACRIFÍCIOS DE SANGUE?

OU COM O POÇO DOGMÁTICO DE SUAS PRÓPRIAS CRIAÇÕES?

COMO VOCÊS VÃO TERMINAR?

COMO NADA MAIS QUE OUTRA SOCIEDADE SECRETA?

Odrade subiu, ultrapassando as perguntas e lendo-as pela Segunda vez. “Um nobre propósito?” Isto era sempre uma coisa muito frágil. E facilmente distorcida.

Mas o poder permanecia, imerso em constante perigo. Estava escrito nas paredes e degraus dessa câmara. Taraza sabia o significado sem que lhe precisassem explicar. A mensagem do Tirano era clara: “Unam-se a mim.”

Enquanto saía para a pequena câmara, encontrando uma saliência estreita ao longo da qual pôde apoiar-se para alcançar o portal, Odrade olhou para baixo, na direção do tesouro que encontrara. Sacudiu a cabeça, admirada ante a sabedoria de Taraza. Era assim que a Irmandade poderia acabar. O projeto de Taraza era claro,

todas as peças encaixando-se agora. Nada certo ainda. Riqueza e poder, no fim tudo se resumia a isso. O nobre propósito tivera seu início e devia ser completado mesmo que significasse a morte da Irmandade.

“Que toscas ferramentas escolhemos!”

Aquela menina esperando lá fora, na câmara profunda debaixo do deserto.

Aquela menina e o ghola que estava sendo preparado em Rakis. “Eu falo agora seu idioma, velho verme. Ele não tem palavras, mas eu o conheço.”

“Nossos pais comeram o maná do deserto

No lugar escaldante de onde brotam os redemoinhos.

Deus, salve-nos daquela terra terrível!

Salve-nos, oh, salve-nos

Daquela terra seca e sedenta.

— Canções de Gurney Halleck; Museu de Dar-es-Balat”

Teg e Duncan, ambos fortemente armados, saíram do não-globo, seguidos por Lucilla, na hora mais fria da noite. As estrelas eram pontos finos de luz acima e o ar estava absolutamente quieto até que os três o perturbaram com sua passagem.

O cheiro dominante nas narinas de Teg era o ranço bolorento da neve, presente em cada inspiração. Quando eles exalavam, nuvens de vapor expandiam-se em torno dos seus rostos.

Lágrimas de frio surgiram nos olhos de Duncan. Estivera pensando muito no velho Gurney enquanto se preparavam para deixar o não-globo. Gurney com sua face marcada pela cicatriz de um chicote inkvine dos Harkonnen. Amigos de confiança seriam necessários agora, pensou Duncan. Não confiava muito em Lucilla, e Teg estava muito velho. Podia ver os olhos de Teg cintilando à luz das estrelas.

Pendurando no ombro uma pesada e antiga arma laser, Duncan enfiou as mãos nos bolsos, buscando aquecê-las. Tinha se esquecido de como podia fazer frio nesse planeta. Lucilla parecia imune ao frio, obviamente obtendo calor de algum de seus truques de Bene Gesserit.

Olhando para ela Duncan reconheceu que nunca confiara muito nas bruxas, nem mesmo em Lady Jessica. Era muito fácil considerá-las traidoras, destituídas de qualquer lealdade, exceto para com sua Irmandade. Elas tinham truques secretos em demasia! Mas Lucilla desistira de seu comportamento sedutor. Sabia que ele fora sincero em suas ameaças. Podia sentir a raiva dela fervendo. “Deixe que ferva!”

Teg estava muito quieto, toda a sua atenção voltada para o exterior, ouvindo.

Seria sensato confiar no único plano que tinha concatenado com Burzmali? Não

tinham qualquer alternativa. Fazia mesmo oito dias que tinham decidido seguir em frente com essa idéia? Parecia mais tempo, apesar da pressa dos preparativos. Olhou para Duncan e Lucilla. Duncan levava consigo uma arma laser pesada, um comprido modelo de campo dos Harkonnen. Até mesmo os cartuchos extras de energia eram pesados. Lucilla não aceitara carregar nada além de uma pequena pistola laser em seu corpete. A arma só era capaz de uma rápida descarga. Um brinquedo de assassino.

— Nós da Irmandade somos conhecidas por entrarmos em combate tendo apenas nossas habilidades como armas — ela explicou. — Humilha-nos qualquer modificação nesse padrão.

Mas ela tinha facas em bainhas ocultas nas pernas. Teg tinha visto. Suspeitava de que fossem envenenadas.

Ergueu nas mãos a comprida arma laser um moderno laser de campo que trouxera do Castelo. Sobre o ombro tinha outro laser, idêntico ao que Duncan carregava.

“Devo confiar em Burzmali”, pensou Teg. “Eu o treinei, conheço sua capacidade. Se diz que devemos confiar em nossos novos aliados, devemos confiar neles.” Burzmali obviamente estava entusiasmado por encontrar seu antigo comandante vivo e em segurança. Entretanto, nevara desde seu último encontro e a neve estava por toda parte em torno deles. Seus rastros ficariam nítidos sobre a neve, algo com que não tinham contado. Haveria traidores no Serviço de Controle do Clima?

Teg tremia. O ar estava frio demais. Parecia o frio do espaço, vazio e dando livre acesso à luz das estrelas sobre o bosque em torno deles.

A luz fraca refletia-se do solo branco de neve e das rochas cobertas por minúsculos flocos gelados. Silhuetas negras de coníferas e dos ramos sem folhas de árvores secas exibiam apenas seus contornos difusos. Tudo mais era uma sombra profunda.

Lucilla soprou nos dedos e se inclinou para junto de Teg, sussurrando:

— Ele já não devia estar aqui a esta altura?

Teg sabia que essa não era a verdadeira dúvida: “Podemos confiar em Burzmali?” Era essa a pergunta. Ela a estivera fazendo, de um modo ou de outro, desde que Teg lhe explicara o plano, oito dias atrás.

Tudo que ele pôde dizer foi:

— Apostei minha vida nisso.

— Nossas vidas também!

Teg também não gostava das incertezas acumuladas, mas todos os planos dependiam, em última análise, do talento das pessoas que os executavam.

— Você é uma das pessoas que insistiram em que saíssemos daqui e fôssemos para Rakis — lembrou-lhe.

Esperava que ela pudesse perceber-lhe o sorriso, um gesto para tirar a

acusação de suas palavras.

Lucilla não se deixava apaziguar. Teg nunca tinha visto uma Reverenda Madre tão visivelmente nervosa. E ela estaria mais nervosa ainda se soubesse quem eram seus novos aliados! É claro que havia o fato de Lucilla ter fracassado em realizar a missão que lhe fora confiada por Taraza. Como isso devia incomodá-la!

— Nós fizemos o juramento de proteger o ghola — lembrou-lhe Lucilla.

— Burzmali também fez o mesmo juramento.

Teg olhou para Duncan, silencioso entre eles. Duncan que não demonstrava o menor sinal de ter ouvido a discussão ou de compartilhar do nervosismo. Uma ancestral serenidade mantinha suas feições imóveis. Ele estava escutando os sons noturnos, percebia Teg, fazendo o que todos os três deviam estar fazendo agora. Suas feições jovens tinham uma aparência curiosa, a denotar uma maturidade que não dependia da idade.

“Se algum dia precisei de companheiros em que pudesse confiar, esse dia é hoje”, pensava Duncan. Sua mente recuara no tempo para sondar suas raízes pré-ghola, da época de Giedi Prime. Essa era o que eles chamavam de “uma noite dos Harkonnen”. Seguros dentro do abrigo morno de suas armaduras, flutuando em suspensores, os Harkonnen divertiam-se caçando seus súditos em noites como essa.

Um fugitivo ferido podia morrer enregelado. “Os Harkonnen sabiam! Malditas sejam suas almas!”

Previsivelmente, Lucilla captou a atenção de Duncan com um olhar que dizia:

“Temos negócios a terminar, você e eu.”

Duncan voltou o rosto para o céu estrelado, certificando-se de que ela pudesse ver-lhe o sorriso, uma expressão desafiadora e madura que fazia Lucilla ficar rija por dentro. Tirou a pesada arma laser do ombro e checou-a. Notou os arabescos ao longo da coronha e do cano. Era uma antigüidade, mas ainda possuía um mortal senso de propósito. Duncan apoiou-a sobre o braço esquerdo, a mão direita na empunhadura, o dedo no gatilho, exatamente como Teg carregava a sua moderna arma.

Lucilla voltou as costas aos companheiros e sondou com seus sentidos a encosta da colina acima e abaixo deles. Subitamente, enquanto caminhavam, o som veio de todas as partes em volta. Ruídos tomaram conta da noite — o rolar de alguma coisa grande à direita, depois silêncio. Outro ruído colina abaixo, depois novamente o silêncio. Lá de cima, de todos os lados, vinham ruídos súbitos.

Ao primeiro som, os três se haviam agachado no abrigo das rochas, fora da entrada da caverna do não-globo.

Os sons que enchiam a noite eram indefinidos: um clamor penetrante, em parte mecânico, em parte guinchos, uivos e assovios. Intermitentemente, uma batida subterrânea fazia o chão vibrar.

Teg conhecia esses sons. Havia uma batalha ocorrendo em algum lugar distante. Podia ouvir o assoviar dos queimadores ao fundo e, no céu distante, os raios de armas laser blindadas lancetando o espaço.

Alguma coisa relampejou acima deles, deixando um rastro de centelhas azuis e vermelhas. Depois outra e mais outra! A terra tremeu. Teg inalou, sentindo um cheiro de ácido queimando e um toque de alho.

“Não-naves! Muitas delas!”

Estavam pousando no vale abaixo do antigo não-globo.

— De volta para dentro! — ordenou Teg.

Ao falar, percebeu que já era muito tarde. Havia gente correndo para eles de todas as direções. Teg ergueu a comprida arma laser e a apontou colina abaixo, em direção à fonte de ruído mais alta e ao mais próximo movimento detectável. Muitas pessoas podiam ser ouvidas gritando naquele ponto. Globos luminosos livres moviam-se entre as árvores, soltos por quem quer que estivesse avançando. As luzes dançantes subiam a colina numa brisa fria. Silhuetas negras moviam-se nessa iluminação mutável.

— Dançarinos Faciais! — grunhiu Teg ao reconhecer os atacantes. Aquelas luzes ao vento sairiam do meio das árvores em questão de segundos para se colocarem em posição em menos de um minuto!

— Fomos traídos! — disse Lucilla.

Um grito ergueu-se da colina acima deles:

— Bashar!

Eram muitas vozes!

“Burzmali?”, perguntou-se Teg. Olhou de volta na direção do grito, depois para os Dançarmos Faciais que avançavam implacavelmente. Não havia tempo para escolher. Inclinou-se em direção a Lucilla.

— Burzmali está acima de nós. Pegue Duncan e corra!

— Mas e se...

— É sua única chance!

— Seu tolo! — acusou ela enquanto se virava para obedecer.

O “sim!” de Teg não diminuiu nem um pouco seus temores. Era nisso que dava ficar dependendo dos planos dos outros!

Duncan tinha outros pensamentos. Entendia o que Teg estava a ponto de fazer. Ia sacrificar-se para que eles dois pudessem escapar. Duncan hesitou, olhando para os atacantes que avançavam abaixo deles.

Percebendo sua hesitação, Teg gritou-lhe:

— Isto é uma ordem de batalha! Eu sou seu comandante!

Era a coisa mais próxima da Voz que Lucilla já ouvira partindo de um homem.

Ficou boquiaberta diante de Teg.

Duncan viu apenas o rosto do seu Velho Duque dizendo-lhe que obedecesse.

Era demais. Agarrou o braço de Lucilla, mas, antes de subir correndo com ela pela colina, disse:

— Mandaremos fogo de cobertura assim que tivermos escapado!

Teg não respondeu. Agachou-se ao lado de uma rocha coberta de neve

enquanto Lucilla fugia com o rapaz. Sabia que precisava vender muito caro a sua pele agora. E havia algo mais: “O inesperado.” A assinatura final do velho Bashar.

Os atacantes avançavam com rapidez, trocando gritos excitados.

Ajustando a comprida arma laser para a intensidade máxima de feixe, Teg apertou o gatilho. Um arco flamejante varreu a colina abaixo dele. Arvores explodiram em chamas, gente gritou. A arma não funcionaria muito tempo nesse nível de descarga, mas a carnificina que produzia obtinha o efeito desejado.

No silêncio abrupto depois da primeira descarga, Teg mudou de posição para outra rocha à sua esquerda e novamente lançou sua flecha cauterizante sobre a face negra da colina. Somente alguns dos globos luminosos soltos tinham sobrevivido ao golpe da violência inicial, com todas as árvores tombando e corpos desmembrados.

Outros gritos responderam ao segundo contra-ataque. Teg virou-se e correu por cima das rochas para o lado oposto à caverna de acesso ao não-globo. De lá, lançou fogo sobre a colina oposta. Mais gritos, mais chamas e árvores caindo.

O inimigo não respondia ao fogo.

“Querem nos pegar vivos!”

Os Tleilaxu estavam dispostos a sacrificar o número que fosse necessário de Dançarinos Faciais para esgotar as cargas de sua arma laser!

Teg ajustou a alça da velha arma Harkonnen para uma posição melhor, a tiracolo sobre o ombro, deixando-a pronta a entrar em ação. Jogou fora a carga quase vazia de sua laser moderna, recarregou-a e apoiou a comprida arma sobre as rochas.

Duvidava de que tivesse chance de recarregar a outra arma. Que eles lá embaixo pensassem que ficara sem cartuchos de recarga. Ainda havia duas pistolas Harkonnen em seu cinturão, como último recurso. Seriam bem potentes a curta distância. E

alguns dos Mestres Tleilaxu, aqueles que tinham ordenado tal carnificina, podiam chegar perto. Que chegassem.

Cautelosamente, Teg ergueu a arma longa de cima das rochas e caminhou para trás, subiu para as rochas mais elevadas, escorregou para a esquerda e então para a direita. Parou duas vezes para varrer a colina abaixo com curtas descargas da arma, fingindo estar poupando energia. Não havia sentido em tentar ocultar seus movimentos agora. Eles deviam ter um rastreador de vida grudado nele a essa altura, e além disso haveria os rastros na neve.

“O inesperado!” Como fazer com que se aproximassem mais?

Bem acima da caverna de acesso ao não-globo, ele encontrou um bolsão profundo nas rochas, o fundo cheio de neve. Mergulhou nessa posição, admirando o ótimo campo de tiro que lhe proporcionava, as costas protegidas por altos penhascos e o declive da colina aberto em três direções. Teg ergueu a cabeça com cautela e tentou enxergar além da barreira de rochas acima.

Estava tudo quieto por lá

Será que aquele grito tinha vindo mesmo do pessoal de Burzmali? Mesmo que tivesse, não havia garantia alguma de que Duncan e Lucilla pudessem escapar nessas

circunstâncias. Agora tudo dependia de Burzmali.

“Será que ele é tão cheio de expedientes quanto pensei que fosse?”

Agora não havia tempo de estudar as possibilidades ou mudar um elemento sequer dessa situação. Tinha que enfrentar a batalha, não havia meio de recuar. Teg inspirou fundo e olhou colina abaixo.

Sim, eles tinham se recuperado e estavam avançando de novo. Agora sem globos luminosos para indicar seu progresso e andando em silêncio. Não havia mais gritos de encorajamento. Teg apoiou sua comprida arma laser sobre a rocha diante dele e deu uma descarga longa, varrendo para a direita e a esquerda. Depois deixou a arma apagar-se no final, numa óbvia perda de carga.

Tirou a velha arma Harkonnen de sobre o ombro, preparou-a e esperou em silêncio. Agora eles iriam esperar que ele fugisse, subindo a colina às carreiras.

Agachou-se atrás da barreira de rochas, esperando que houvesse movimento suficiente acima para confundir os detectores de vida. Ainda ouvia os movimentos na colina arrasada pelo fogo. Em silêncio contou os minutos, calculando a distância e o tempo que ele sabia, com sua longa experiência, que os atacantes levariam para se colocar outra vez ao alcance do fogo. Ouvia com cuidado, esperando outro som que conhecia de combates anteriores com os Tleilaxu: as ordens bruscas em vozes num tom agudo.

Lá estavam!

Os Mestres estavam bem mais abaixo na colina do que tinha esperado.

Terríveis criaturas! Teg ajustou a velha arma para a potência máxima de feixe e se ergueu de repente de sua proteção nas rochas.

Viu o arco de Dançarinos Faciais avançando sob o luz do capim e das árvores em chamas. O som agudo das vozes dos comandantes vinha de bem detrás do avanço, fora da área de bruxuleantes luzes alaranjadas provocadas pelo incêndio.

Apontando acima das cabeças dos atacantes mais próximos, Teg visou além da confusão de chamas e apertou o gatilho — duas longas descargas, para a frente e para trás. Ficou surpreso momentaneamente com a energia destrutiva contida na antiga arma. A coisa era obviamente o produto de um artesão soberbo, mas não houvera meio de testá-la dentro do não-globo.

Dessa vez os gritos tinham um tom diferente: altos e frenéticos!

Teg abaixou a pontaria e limpou a região mais próxima da colina de qualquer Dançarino Facial, deixando cair sobre eles toda a potência do feixe e revelando carregar mais de uma arma. Para um lado e para o outro, lançou o arco mortal, dando aos atacantes tempo suficiente para verem a carga terminar.

Agora! Eles seriam bem mais cautelosos depois disso. Podia haver uma chance de se unir a Duncan e Lucilla. Com esse pensamento em sua mente, Teg virou-se e correu, subindo as rochas colina acima. No quinto passo, julgou ter batido numa barreira quente. Sua mente teve tempo de reconhecer o que tinha acontecido: a descarga chocante de um atordoador, atingindo-o direto no rosto e no peito! Vinha

diretamente do alto da colina, para onde mandara Duncan e Lucilla. A mágoa dominou Teg enquanto ele mergulhava na escuridão.

Outros também podiam fazer o inesperado!

Todas as religiões organizadas enfrentam um problema comum, um ponto frágil que podemos atingir para alterá-las de acordo com nossos propósitos: como elas distinguem revelação de presunção?

— Missionaria Protectiva, Ensinamentos Secretos

Odrade mantinha sua atenção cuidadosamente afastada do verde frio do quadrilátero abaixo, onde Sheeana se sentara com uma das Irmãs Instrutoras. A Irmã era uma das melhores, precisamente adequada a essa fase da educação de Sheeana.

Taraza as escolhia com muito cuidado.

“Nós prosseguimos com nosso plano”, pensou Odrade. “Mas terá antecipado, Madre Superiora, como poderíamos ficar marcadas por uma descoberta casual aqui em Rakis?”

Teria sido mesmo casual?

Odrade dirigiu o olhar para os telhados dos prédios, em direção à fortaleza central da Irmandade em Rakis. Azulejos coloridos cozinhavam ao calor do sol do meio-dia.

“Tudo isso é nosso.”

Era a maior embaixada que os sacerdotes permitiam em sua sagrada cidade de Keen. E a presença dela nessa fortaleza da Bene Gesserit desafiava o acordo que fizera com Tuek. Mas isso fora antes das descobertas no Sietch Tabr. Além disso, Tuek não existia mais, não realmente. O Tuek que andava pelos recintos reservados ao clero era um Dançarino Facial desempenhando um papel numa farsa precária.

Odrade voltou os pensamentos para Waff, que aguardava, com duas Irmãs Guardiãs atrás dele, perto da porta dessa cobertura-abrigo. Uma cobertura com ótima visão proporcionada por janelas de plaz blindado e um impressionante mobiliário preto, na qual uma Reverenda Madre com seus mantos poderia confundir-se ficando apenas a tonalidade mais clara de sua face visível a um visitante.

Teria avaliado Waff corretamente? Tudo fora feito precisamente de acordo com os ensinamentos da Missionaria Protectiva. Teria aberto uma fenda suficientemente grande em sua armadura psíquica? Logo iria fazê-lo falar e então saberia.

Waff esperava com bastante calma. Podia ver o reflexo dele no plaz da janela.

Não demonstrava qualquer sinal de estar percebendo que as duas Irmãs altas, de cabelos escuros, a flanqueá-lo, estavam lá para conter sua possível violência. Mas ele certamente saberia.

“São minhas guardiãs, não dele.”

Ele mantinha a cabeça abaixada para ocultar suas feições do olhar dela, mas Odrade sabia de sua incerteza. Disso estava segura. Dúvidas podiam ser como animais famintos, e ela alimentara muito bem aquelas dúvidas esfomeadas. Waff acreditava firmemente em que a jornada pelo deserto poderia trazer-lhe a morte. Suas crenças Zensunni e Sufi diziam-lhe agora que Deus o pouparia nesse lugar.

Com certeza estaria reavaliando seu acordo com a Bene Gesserit, percebendo afinal o modo como comprometera sua gente, como colocara sua preciosa civilização Tleilaxu num perigo terrível. Sim, sua falsa compostura o estava deixando esgotado, mas apenas olhos Bene Gesserit podiam detectar isso. logo seria a ocasião adequada para começar a reconstruir sua consciência de acordo com um padrão mais simpático às necessidades da Irmandade. Que ele cozinhasse um pouquinho mais.

Odrade voltou a atenção para a vista da janela, carregando com mais suspense o seu atraso. A Bene Gesserit. escolhera esse local para sua embaixada devido ao extenso trabalho de reconstrução que modificara a parte nordeste da velha cidade. Ali elas podiam construir e remodelar as coisas a seu modo e de acordo com seus propósitos.

Antigas estruturas projetadas para permitir fácil acesso a pessoas a pé, amplas passagens para carros de solo oficiais e praças onde ornitópteros podiam pousar —

tudo isso fora mudado.

“De acordo com os novos tempos.”

Esses novos prédios ficavam muito mais perto das avenidas flanqueadas de plantas verdes cujas árvores, altas e exóticas, alardeavam um enorme dispêndio de água. Os tópteros ficavam relegados às plataformas de pouso nos terraços de prédios selecionados. As faixas para pedestres restringiam-se a estreitas vias elevadas junto dos prédios. Fendas elevadoras, operadas através de moedas, chaves e identificadores das linhas das palmas das mãos tinham sido inseridas nos novos prédios, seus campos de energia brilhante cobertos por placas de cor marrom-escura, levemente transparentes.

Essas fendas elevadoras eram como espinhas de cor escura no cinza plano do plascreto e no plaz dos prédios. Os seres humanos, apenas vislumbrados a subirem e descerem nesses tubos, pareciam impurezas manchando salsichas puramente mecânicas.

“Tudo em nome da modernização.”

Waff mexeu-se atrás dela e pigarreou.

Odrade não se voltou. As duas guardiãs sabiam o que ela estava fazendo e continuaram impassíveis. O crescente nervosismo de Waff era demonstração de que tudo corria como planejado.

Mas Odrade sentia que nem tudo estava correndo verdadeiramente como esperado.

Interpretava a visão das janelas como outro sintoma inquietante nesse planeta inquietante. Tuek, lembrava ela, não gostara dessa modernização de sua cidade.

Queixara-se que era preciso encontrar um meio de parar com ela para preservar os

antigos marcos. Seu substituto Dançarino Facial continuava com essa discussão.

Como esse novo Dançarino Facial se parecia com o próprio Tuek.

Será que tais Dançarinos Faciais tinham pensamentos próprios ou apenas desempenhavam um papel de acordo com as ordens de seus Mestres? Seriam também estéreis esses novos? O quanto seriam diferentes dos verdadeiros seres humanos?

Coisas relacionadas com a dissimulação preocupavam Odrade.

Os conselheiros do falso Tuek, aqueles inteiramente envolvidos com o que definiam como “a trama Tleilaxu”, falavam do apoio público à modernização e se gabavam abertamente de que seus pontos de vista tinham encontrado um caminho aberto, afinal. Albertus relatava tudo regularmente a Odrade. E cada novo relatório a preocupava ainda mais.

Até mesmo a subserviência óbvia de Albertus a incomodava.

— É claro que os conselheiros não estão falando de um apoio público —

dissera Albertus.

Ela só podia concordar. O comportamento dos conselheiros indicava que possuíam um apoio poderoso entre os escalões médios da hierarquia do clero, entre os arrivistas que se atreviam a contar piadas a respeito de seu Deus Dividido em festas de fim de semana... entre os que estavam sendo subornados com o tesouro que Odrade encontrara no Sietch Tabr.

Noventa mil toneladas! Metade da colheita de um ano nos desertos de Rakis.

Até mesmo um terço disso já representava um importante fator de negociação nas novas alianças.

“Preferia nunca ter conhecido você, Albertus.”

Quisera restaurar nele aquele que se importava. E o que de fato criara seria facilmente reconhecido por alguém treinado nos ensinamentos da Missionária Protectiva.

“Um bajulador rastejante!”

Agora não fazia diferença que a subserviência dele fosse impulsionada pela crença total em sua sagrada ligação com Sheeana. Odrade nunca percebera o quão facilmente os ensinamentos da Missionária Protectiva destruíam a independência humana. Esse era sempre o objetivo, é claro: “Fazer deles nossos seguidores, obedientes às nossas necessidades”

As palavras do Tirano naquela câmara secreta tinham feito muito mais do que simplesmente incendiar seus temores quanto ao futuro da Irmandade.

“Eu deixo para vocês meu medo e minha solidão.”

Daquela distância milenar, ele plantara dúvidas na consciência dela, tão fortemente quanto ela fizera com Waff.

Via as perguntas do Tirano como se fossem delineadas com luz brilhante em sua visão interior.

“COM QUEM VOCÊS SE ALIARAM?”

“Seremos nada mais que outra sociedade secreta? Qual será nosso fim? Uma

armadilha dogmática de nossa própria criação?”

As palavras do Tirano queimavam em sua consciência. Onde estaria o “nobre propósito” naquilo que a Irmandade fazia? Odrade quase podia ouvir a resposta cheia de desprezo que Taraza daria a uma pergunta dessas.

Sobrevivência. Dar! Esse é todo o nobre propósito de que precisamos Sobrevivência! Até mesmo o Tirano sabia disso!

Talvez até mesmo Tuek soubesse. E de que lhe valera no fim?

Odrade sentia uma assombrosa simpatia para com o falecido Alto Sacerdote.

Tuek fora um exemplo soberbo do que uma família muito unida era capaz de criar.

Até mesmo o seu nome era prova disso: não tinha mudado desde o tempo em que os Atreides dominavam esse planeta. O ancestral fundador da família fora um contrabandista, confidente do primeiro Leto. Tuek viera de uma família que se apegava com firmeza às suas raízes, dizendo: “Há muito de valor para preservarmos do nosso passado” E o exemplo que isso deixara para seus descendentes não passara despercebido a uma Reverenda Madre.

“Mas você fracassou, Tuek.”

Aqueles quarteirões modernizados, visíveis através da janela, era um sinal desse fracasso — partes dos novos elementos de poder que cresciam na sociedade Rakiana, elementos que a Irmandade tanto trabalhara para fortalecer. Tuek vira tudo isso como sinal dos dias em que se encontraria muito enfraquecido politicamente para evitar as coisas implícitas em tal modernização:

Um ritual mais curto e mais moderno.

Novas canções, mais de acordo com os novos tempos.

Mudanças nas danças. (As danças tradicionais são tão longas!) E, acima de tudo, poucas aventuras perigosas no deserto para os jovens postulantes das famílias mais poderosas.

Odrade suspirou e olhou para trás. O pequeno Tleilaxu mordia o lábio inferior.

“Ótimo!”

“Maldito seja, Albertus! Como eu adoraria uma rebelião de sua parte!”

Atrás das portas fechadas do Templo, a transição do Alto Sacerdócio já estava sendo debatida. Os novos Rakianos falavam da necessidade de “atualização para fazer face aos novos tempos”. Na verdade, queriam dizer: “Dê-nos maior poder!”

“Sempre foi desse modo”, pensou Odrade. “Até mesmo na Bene Gesserit.”

E ainda assim não conseguia escapar de um pensamento: “pobre Tuek”

Albertus relatara que Tuek, pouco antes de morrer e ser substituído por um Dançarino Facial, tinha avisado a família de que esta poderia perder o controle do clero quando ele morresse. Tuek fora mais sutil e cheio de recursos do que seus inimigos esperavam. Sua família já estava cobrando as dívidas, reunindo recursos para manter uma base de poder.

E o Dançarino Facial que ocupara o lugar de Tuek revelava muita coisa com sua mímica: a família de Tuek ainda não soubera da substituição e se poderia

facilmente acreditar que o Alto Sacerdote continuava vivo, tão boa era a simulação.

Observar aquele Dançarino Facial em ação era muito instrutivo para as vigilantes Reverendas Madres. E essa, é claro, era uma das coisas que faziam Waff sofrer, angustiado.

Odrade virou-se abruptamente e caminhou ao encontro do Mestre Tleilaxu.

“Hora de falar com ele!”

Parou a dois passos de Waff e olhou para ele, furiosa. Waff encarou seu olhar com uma expressão de desafio.

— Já teve tempo suficiente para considerar sua posição — acusou ela. — Por que permanece em silêncio?

— Minha posição? Então acha que nos deu alguma escolha?

— “O homem não passa de um seixo atirado num lago” — disse Odrade, tirando essa citação das próprias crenças de Waff.

Ele respirou, trêmulo. Ela pronunciara as palavras adequadas, mas que haveria por trás dessas palavras? Elas não soavam adequadamente partindo da boca de uma mulher powindah.

Como Waff não respondesse, Odrade terminou a citação:

— “E se um homem não é mais que um seixo, assim é sua obra.”

Um tremor involuntário fez Odrade estremecer, provocando um olhar de contida surpresa das vigilantes Irmãs Guardiãs. Esse tremor não fazia parte do desempenho.

“Por que pensei nas palavras do Tirano neste instante?”, perguntou-se Odrade.

O CORPO E A ALMA DA BENE GESSERIT ENCONTRARÃO O

MESMO DESTINO DE TODOS OS OUTROS CORPOS E TODAS AS

OUTRAS ALMAS.

Esse golpe a atingira profundamente.

“Por que eu estava tão vulnerável?” A resposta saltou em sua consciência: “O

Manifesto Atreides!”

“Preparar aquele texto sob a orientação vigilante de Taraza deixou falhas em mim.”

Teria sido esse o propósito de Taraza? Deixá-la vulnerável? Como Taraza poderia saber o que ela encontraria em Rakis? A Madre Superiora não somente não exibia capacidade de presciência como tinha uma tendência a evitar esse tipo de talento em outras pessoas. Nas raras ocasiões em que Taraza pedira semelhante desempenho da parte da própria Odrade, a relutância ficara óbvia ao olhar treinado de uma Irmã.

“E no entanto ela me deixou vulnerável.”

Teria sido um acidente?

Odrade mergulhou num rápido recital da Litania contra o Medo, que durou apenas o espaço de alguns segundos, mas nesse tempo Waff chegou a uma decisão.

— Vocês nos forçariam a isso — ele disse. — Mas não sabem os poderes que deixamos reservados para tal momento. — Ergueu as mangas para mostrar onde tinham ficado escondidos os lança-dardos. — Aqueles eram apenas brinquedos comparados com nossas verdadeiras armas.

— A Irmandade nunca duvidou disso — replicou Odrade.

— Tem que haver um conflito violento entre nós?

— É uma escolha sua — ela respondeu.

— Por que vocês provocam a violência?

— Existem aqueles que adorariam ver a Bene Gesserit e a Bene Tleilax atirarem-se nas gargantas uma da outra — explicou Odrade. — Nossos inimigos gostariam de reunir os pedaços depois que nos tivéssemos enfraquecido o suficiente.

— Você expõe os motivos para o acordo, mas não deixa espaço para a minha gente negociar! Talvez sua Madre Superiora não lhe tenha conferido a autoridade necessária para isso!

Como seria tentador entregar tudo nas mãos de Taraza, exatamente como Taraza queria. Odrade olhou para as Irmãs Guardiãs. O rosto das duas eram máscaras que não deixavam perceber coisa alguma. Que será que elas realmente saberiam?

Seriam capazes de perceber caso ela agisse contra as ordens de Taraza?

— Você tem tal autoridade? — insistiu Waff.

“Nobre propósito”, pensou Odrade. “Certamente que o Caminho Dourado do Tirano pelo menos demonstrou possuir uma qualidade nesse sentido.”

Odrade decidiu apelar para uma mentira criativa.

— Possuo tal autoridade — ela disse.

Suas próprias palavras faziam da mentira uma verdade. Tendo assumido tal autoridade, fazia com que fosse impossível para Taraza negá-la. Odrade sabia, entretanto, que suas próprias palavras a tinham colocado num curso de ação muito divergente dos passos programados pelo plano de Taraza.

“Ação independente.” Exatamente o que ela desejara de Albertus.

“Estou no campo de ação e sei o que é necessário.”

Odrade olhou para as Irmãs Guardiãs.

— Permaneçam aqui, por favor, e cuidem para que não sejamos perturbados.

A Waff ela disse:

— Podemos ficar à vontade.

Indicou duas cadeiras-cães colocadas em ângulos retos no outro lado da sala.

Esperou até que estivessem sentados antes de recomeçar o diálogo.

— Precisamos de um grau de sinceridade entre nós que a diplomacia raramente permite. Há muita coisa em jogo para permanecermos com evasivas tolas.

Waff olhou para ela de modo estranho:

— Sabemos que há uma dissensão em seus mais altos conselhos. Abordagens sutis nos foram feitas. De nossa parte.

— Sou leal à Irmandade — ela disse. — E aquelas que os procuraram não tinham outro tipo de lealdade.

— Isso é outro truque das...

— Nada de truques!.

— Com a Bene Gesserit, sempre há truques — acusou ele.

— Que temem de nós? Vamos, diga.

— Talvez eu tenha aprendido demais a respeito de vocês para que me deixem vivo.

— Eu não poderia dizer o mesmo a seu respeito? — indagou ela. — Quem mais sabe de nossa afinidade secreta? Quem está falando com você não é uma powindah!

Odrade arriscara-se a usar esse termo com alguma hesitação, mas o efeito não poderia ter sido mais revelador. Waff ficou visivelmente abalado. Levou todo um minuto para se recuperar. Dúvidas permaneciam, contudo, dúvidas que ela plantara nele.

— E que provam essas palavras? — perguntou ele. — Você ainda poderia partir com as coisas que aprendeu de mim e deixar minha gente sem nada. Ainda mantém o braço do poder sobre nós.

— Eu não carrego armas nas minhas mangas — comentou Odrade

— Mas sua mente possuem conhecimentos que poderiam arruinar-nos!

Ele olhou para as Irmãs Guardiãs.

— Esse conhecimento é parte do meu arsenal — concordou Odrade. — Devo mandá-las sair?

— Carregando em suas mentes tudo que ouviram aqui? — disse ele, e voltou para Odrade seu olhar de suspeita. — Seria melhor se mandasse suas memórias saírem!

Odrade regulou o tom de sua voz para parecer o mais moderado possível.

— Que é que nós ganharíamos revelando sua paixão missionária antes de estarem prontos para agir? De que nos serviria destruir a reputação de vocês revelando onde plantaram seus novos Dançarinos Faciais? Oh sim, sabemos tudo a respeito de Ix e das Oradoras Peixes. Depois de termos estudado aqueles novos, saímos procurando por eles.

— Está vendo!

A voz dele estava perigosamente aguda.

— Não vejo modo de provar nossa afinidade senão revelando alguma coisa que seria igualmente danosa para nós caso fosse divulgada — disse Odrade Waff ficou sem fala.

— Pretendemos plantar os vermes do Profeta em incontáveis mundos da Dispersão — revelou ela. — Que será que diria o clero Rakiano se lhe revelassem isso?

As Irmãs Guardiãs olharam para ela com um divertimento cuidadosamente

disfarçado. Pensavam que estava mentindo.

— Não tenho guardas comigo — queixou-se Waff. — Quando apenas uma pessoa conhece alguma coisa perigosa de ser revelada, é muito fácil conseguir o silêncio eterno dessa pessoa.

Ela ergueu as mangas vazias.

Ele olhou para as Irmãs Guardiãs.

— Muito bem — disse Odrade. Olhou para as Irmãs e fez um sinal sutil com a mão para tranqüilizá-las. — Esperem do lado de fora, por favor Irmãs.

Continuar: parte 2 de 3