Os Hereges de Duna
“Na ocasião pensei que estava saindo vitoriosa.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Treinamento Primário.
“Na ocasião pensei que estava saindo vitoriosa. Emergindo do outro lado.”
Somente para se encontrar mergulhada em novas e mais duras exigências.
Odrade sentou-se no patamar de sua janela Rakiana, colocando de lado as almofadas, e voltou as costas para a feira. Estava ficando muito barulhento lá embaixo. Malditos sacerdotes! Estavam esticando a demora até os limites absolutos!
“Devo pensar em minha própria infância porque isso vai ajudar-me com Sheeana”, pensou. Imediatamente, sentiu revolta contra sua própria fraqueza. “Outra desculpa!”
Algumas candidatas levavam até 50 anos para se tornarem Reverendas Madres.
Isso era incutido nelas durante o Treinamento Secundário: uma lição de paciência.
Odrade demonstrara uma tendência inicial de se engajar em estudos profundos.
Houve comentários de que ela poderia tornar-se uma das Mentats Bene Gesserit e provavelmente uma Arquivista. Tal idéia foi abandonada ao se descobrir que seus talentos se voltavam para uma direção mais valiosa. E ela foi conduzida a assumir deveres mais importantes dentro da Irmandade.
“Segurança.”
Aquele talento selvagem dos Atreides freqüentemente apresentava sua utilidade. A marca de Odrade era o cuidado com os detalhes. Sabia que suas irmãs podiam prever algumas de suas ações simplesmente a partir do conhecimento profundo que tinham dela. Algo que Taraza usava com freqüência. Odrade ouvira a explicação dos próprios lábios de Taraza:
— A personalidade de Odrade reflete-se extraordinariamente nas tarefas que executa.
Havia uma piada na Irmandade: “Sabe para onde vai Odrade quando não está trabalhando? Vai trabalhar”
Na sede da Irmandade havia pouca necessidade de adotar as máscaras expressivas que uma Reverenda Madre usava automaticamente quando no Exterior.
Lá ela podia demonstrar suas emoções momentaneamente, enfrentar abertamente seus erros e os erros das colegas, sentir-se triste e amargurada, ou até mesmo, em algumas ocasiões, feliz. Havia homens disponíveis — não para procriação, mas para consolo ocasional. Todos os homens a serviço na sede da Irmandade Bene Gesserit eram muito charmosos, e havia alguns até sinceros com seus encantos. Esses poucos, é claro, eram muito procurados.
“Emoções”
A constatação girou na mente de Odrade.
“Assim eu chego ao ponto crucial, como sempre fiz!'
Sentia o calor do sol da tarde batendo em suas costas. Sabia onde se encontrava seu corpo, mas sua mente se abria para o próximo encontro com Sheeana.
“Amor!”
Pode vir tão facilmente e ser tão perigoso.
Em momentos como esse, ela invejava as Madres Estacionadas, aquelas a quem se permitia viver uma vida inteira com um único parceiro de procriação. Miles Teg surgira de uma união assim. Suas Outras Memórias revelavam-lhe que também fora assim com Lady Jessica e seu Duque. E mesmo o Muad'Dib escolhera essa forma de união.
“Não é para mim!'
Odrade admitia sentir um pouco de mágoa por não lhe terem permitido tal vida. E onde estavam as compensações da vida para a qual fora conduzida?
“Uma vida sem amor pode ser devotada mais intensamente à Irmandade. Nós fornecemos nossas próprias formas de apoio às iniciadas. Não se preocupe quanto aos prazeres sexuais. Eles estarão disponíveis sempre que sentir necessidade”
“Com homens encantadores!”
Desde os tempos de Lady Jessica, passando pela era do Tirano, muita coisa tinha mudado... incluindo a Bene Gesserit. Cada Reverenda Madre sabia disso.
Um suspiro profundo estremeceu Odrade. Olhou para a feira por sobre o ombro. Ainda não havia sinal de Sheeana.
“Não devo amar essa criança!”
Estava feito. Odrade sabia ter realizado o truque mnemônico na forma requerida pela Bene Gesserit. Girou o corpo e se sentou com as pernas cruzadas no patamar. Era uma visão privilegiada da feira e dos telhados da cidade, até o fim da depressão onde ela se localizava. Aquelas poucas colinas remanescentes, lá para o sul, eram, bem sabia, tudo o que restara da Muralha Escudo de Duna, as altas muralhas de rocha que tinham sido abertas pelo Muad'Dib e suas legiões montadas nos vermes gigantes.
O calor fazia o ar tremular junto ao solo, além do qanat e do canal que protegia Keen da intrusão dos novos vermes. Odrade sorriu suavemente. Os sacerdotes não achavam estranho umedecer o solo para evitar que seu Deus Dividido os atacasse.
“Deus, nós ainda o adoramos, mas não nos incomode. Esta é nossa religião, nossa cidade. Está vendo, nem mais chamamos este lugar de Arrakeen. Agora é Keen.
O planeta não se chama mais Duna ou Arrakis. Agora é Rakis. Mantenha distância, ó Deus. O Senhor é passado e o passado nos embaraça!”
Odrade olhou para aquelas colinas distantes, que tremulavam no calor.
Memórias podiam recriar a antiga paisagem. Ela conhecia o passado.
“Se os sacerdotes atrasarem ainda mais a chegada de Sheeana, vou ter que puni-los!”
O calor ainda dominava a feira lá embaixo, mantido pela armazenagem do solo e as paredes espessas que cercavam a Grande Praça. A difusão da temperatura era ampliada pela fumaça de pequenos fogos nos prédios à volta e entre os aglomerados de vida protegidos pelas tendas da feira. Tinha sido um dia quente, bem acima dos 38
graus. Esse prédio, entretanto, pertencera nos velhos dias às Oradoras Peixes, sendo resfriado por máquinas Ixianas, com tanques de evaporação no teto.
“Nós ficaremos confortáveis aqui!”
E estariam tão seguras quanto poderiam garantir as medidas de proteção da Bene Gesserit. Reverendas Madres caminhavam entre aqueles prédios lá fora. Os sacerdotes tinham representantes nesse prédio, mas nenhum deles se intrometeria onde Odrade não os desejasse. Sheeana se encontraria com eles em determinadas ocasiões, mas Odrade é quem determinaria essas ocasiões.
“Está acontecendo”, pensou Odrade. “O plano de Taraza coloca-se em movimento!”
Os últimos comunicados da sede da Irmandade encontravam-se vividos na memória de Odrade. O que revelavam a respeito dos Tleilaxu enchia-a de uma excitação que ela dominava cuidadosamente. Esse Waff, esse Mestre Tleilaxu, seria assunto fascinante para um estudo.
“Zensunni! E Sufi!”
— Um padrão ritualístico congelado durante milênios — dissera Taraza.
Implícita no relatório de Taraza, havia outra mensagem. “Taraza está depositando toda a sua confiança em mim!' E Odrade sentia uma grande força fluir para dentro dela ante essa percepção.
“Sheeana é o eixo, o ponto de apoio. Nossa força virá de muitas fontes!”
Odrade relaxou. Sabia que Sheeana não permitiria que os sacerdotes a atrasassem ainda mais. A própria paciência de Odrade fora atingida pela expectativa.
Teria sido pior para Sheeana.
Elas se haviam tornado conspiradoras. Sheeana e Odrade. O primeiro passo.
Para Sheeana, era um jogo maravilhoso. Nascera e fora criada com uma profunda desconfiança em relação aos sacerdotes. Que divertido era ter uma aliada, afinal!
Alguma forma de atividade agitou as pessoas diretamente abaixo da janela de Odrade. Ela olhou para baixo, curiosa. Cinco homens nus tinham dado as mãos, formando um círculo. Os mantos e trajes destiladores que eles tinham usado até então formavam agora uma pilha no chão. Uma jovem morena, usando longo vestido marrom de fibra de especiaria, vigiava as roupas. Seu cabelo estava preso por um pano vermelho.
“Dançarinos!”
Odrade tinha visto muitos relatórios a respeito desse fenômeno, mas essa era sua primeira visão pessoal desde que chegara. A platéia incluía um trio de altos Guardiães dos Sacerdotes, com capacetes amarelos dotados de elevados penachos.
Usavam mantos curtos que deixavam as pernas livres para a ação, e cada um portava um cassetete revestido de metal.
Enquanto os dançarinos giravam, a multidão vigilante ficava cada vez mais silenciosa. Odrade conhecia o padrão. Logo haveria um cântico ritmado e depois uma grande confusão. Cabeças seriam quebradas. O sangue escorreria. Pessoas gritariam e correriam. No final, tudo iria acalmar-se sem intervenção oficial. Alguns iriam embora chorando. Outros sairiam rindo. E os Guardiães dos Sacerdotes não interfeririam.
A loucura sem sentido dessa dança e suas conseqüências tinham fascinado a Bene Gesserit durante séculos. Agora mantinham a atenção arrebatada de Odrade. E
uma evolução inversa desse ritual tinha sido seguida pela Missionária Protectiva. Os Rakianos chamavam-na de “Dança Diversiva”. Havia outros nomes, e o mais significativo era Siaynoq. Essa dança era tudo que restava do maior ritual do Tirano, o momento de confraternização com suas Oradoras Peixes.
Odrade reconhecia e respeitava a energia desse fenômeno. Nenhuma Reverenda Madre deixaria de perceber isso. O desperdício, contudo, a incomodava.
Tais coisas deviam ser canalizadas, focalizadas. Esse ritual devia ser empregado de alguma forma útil. Tudo o que ele fazia agora era esgotar forças que poderiam revelar-se destrutivas para os sacerdotes se não tivessem uma válvula de escape.
Um doce cheio de frutas chegou às narinas de Odrade. Ela inspirou e olhou para as aberturas de ventilação ao lado da janela; o calor da multidão e da terra aquecida criava uma corrente de ar ascendente. O ar transportava os odores lá de baixo através dos ventiladores Ixianos. Ela pressionou a testa e o nariz contra o plaz da janela a fim de olhar diretamente para baixo. Ah, os dançarinos ou a platéia tinham derrubado a bancada de um vendedor. Os dançarinos pisavam em cima das frutas enquanto a polpa amarela esguichava-lhes nas coxas.
Odrade reconheceu na platéia o vendedor de frutas, um familiar rosto enrugado que ela tinha visto várias vezes com o tabuleiro junto à entrada do prédio.
Não parecia preocupado com a perda. Como todos ao redor, concentrava sua atenção nos dançarinos. Os cinco homens nus moviam-se levantando os pés de uma forma desritmada que parecia totalmente sem coordenação, embora houvesse um padrão que se repetia periodicamente — três dos dançarinos com ambos os pés no chão e os outros dois erguidos pelos companheiros.
Odrade reconheceu o padrão. Tinha uma relação com o antigo método dos Fremen de caminhar na areia. Essa dança curiosa era um fóssil com raízes na antiga necessidade de andar na areia sem atrair os vermes.
As pessoas começavam a se aglomerar junto dos dançarinos, vindas de fora do grande retângulo definido pela feira. Pulavam como brinquedos de criança, tentando obter uma visão dos cinco homens nus por cima da massa da multidão.
Odrade viu então a escolta de Sheeana, caminhando bem à direita, onde uma larga avenida entrava na praça. Símbolos de rastros de animais em um prédio revelavam que a avenida fora a rota usada por Leto II para entrar nessa cidade, vindo de dentro das altas muralhas de seu Sareer, bem ao sul. Com atenção aos detalhes, ainda se podia discernir algumas das formas e padrões daquela que tinha sido a cidade dos festivais do Tirano, Onn, que ele construíra em torno da cidade de Arrakeen, mais antiga. Onn havia obliterado muitas das marcas de Arrakeen, mas tinham restado algumas avenidas: alguns prédios eram muito úteis para serem substituídos. E os prédios inevitavelmente definiam as ruas.
A escolta de Sheeana parou no ponto em que a avenida entrava na feira.
Guardas de capacete amarelo vinham na frente, abrindo caminho com seus cassetetes.
Os guardas eram altos: quando apoiado no chão, o bastão de dois metros chegava somente a altura do ombro do mais baixo deles. Mesmo no meio da multidão mais agitada, seria impossível deixar de notar um Guardião dos Sacerdotes, mas os protetores de Sheeana eram os mais altos de todos.
Encontravam-se uma vez mais em movimento, conduzindo seu grupo em direção a Odrade. Os mantos abertos em ambos os lados do corpo revelavam o cinza lustroso dos melhores trajes destiladores. Caminhavam diretamente para a frente, 15 deles formando um amplo “V” que evitava os aglomerados mais espessos de barracas.
Um grupo de sacerdotisas, com Sheeana ao centro, marchava atrás dos guardas. Odrade captou alguns vislumbres da figura distinta de Sheeana, o cabelo riscado de ouro em torno do rosto que se erguia orgulhosamente. Eram os guardas de capacete amarelo que mais atraíam, no entanto, a atenção de Odrade. Caminhavam com uma arrogância condicionada desde a infância. Esses guardas sabiam ser superiores às pessoas comuns. E as pessoas comuns reagiam a eles de modo previsível, abrindo caminho para a passagem da comitiva de Sheeana.
Isto era feito com tanta naturalidade que Odrade podia perceber o padrão ancestral como se estivesse assistindo a outra dança ritualística, algo que não tinha mudado durante milênios.
Como fazia freqüentemente, Odrade pensava em si mesma agora como uma arqueóloga. Não aquela que remexia nos detritos poeirentos das eras, mas como uma pessoa que focalizava sua atenção naquilo que muitas vezes era alvo da consciência da Irmandade: os modos como as pessoas carregam seu passado dentro de si. O projeto do Tirano ainda era evidente ali. A aproximação de Sheeana era uma coisa estabelecida pelo próprio Imperador-Deus.
Debaixo da janela de Odrade, os cinco homens despidos continuavam a dançar. Entre a assistência, entretanto, Odrade percebia uma nova atitude. Sem olhar para a falange de Guardiães dos Sacerdotes que se aproximava, aquelas pessoas já tinham consciência dessa aproximação.
“Os animais sempre sabem quando chegam os pastores”
Agora, a inquietação da multidão produzia a aceleração do ritmo. Ninguém lhes negaria o seu caos! Um punhado de terra voou do meio da turba e atingiu o solo perto dos dançarinos. Os cinco homens não perderam o passo no padrão que executavam, mas sua velocidade aumentou. A duração das seqüências entre as repetições revelava memórias extraordinárias.
Outro torrão de terra voou da multidão e atingiu o ombro de um dos dançarinos. Nenhum dos cinco homens vacilou.
A multidão começou a gritar e cantar. Alguns gritavam pragas. O canto tornou-se um bater ritmado de palmas que se intrometia nos movimentos dos dançarmos.
Ainda assim o padrão não mudou.
O canto da turba transformou-se num ritmo dissonante, gritos repetidos que ecoavam nas paredes da Grande Praça. Eles estavam tentando romper o padrão dos dançarinos. Odrade sentia uma importância profunda na cena que via lá embaixo.
O grupo de Sheeana chegara à metade do caminho a ser percorrido dentro da feira. Movia-se através das amplas passagens entre as barracas dos vendedores e agora se voltava em direção ao ponto de onde Odrade observava. A multidão estava mais compacta num ponto situado 50 metros à frente dos Guardiães dos Sacerdotes. Eles caminhavam num passo firme, desdenhando aqueles que se afastavam para os lados.
Debaixo dos capacetes amarelos, os olhos estavam fixos à frente, olhando por sobre a turba. Nenhum dos Guardiães que avançavam demonstrava o menor indício de consciência para com a turba, os dançarinos ou qualquer outra barreira que pudesse impedi-los.
A multidão parou de cantar instantaneamente, como se um maestro invisível tivesse abaixado a mão ordenando silêncio. Os cinco homens continuaram a dançar.
O silêncio abaixo estava carregado de uma força que fazia os pêlos da nuca de Odrade se erguerem. Diretamente abaixo, os três Guardiães dos Sacerdotes misturados à platéia viraram-se como se fossem um único homem e entraram no prédio.
Do meio da massa humana, uma mulher gritou uma praga.
Os dançarinos não deram sinal de terem ouvido.
A multidão avançou, diminuindo pela metade o espaço que a separava dos dançarinos. A garota que guardava as roupas e os trajes destiladores dos dançarinos não mais podia ser vista.
A falange de Sheeana continuou marchando para a frente, as sacerdotisas e sua jovem protegida diretamente atras.
A violência começou num ponto à direita de Odrade. As pessoas começaram a gritar umas com as outras. Mais projéteis descreveram arcos no ar em direção aos cinco dançarinos. A multidão voltou a cantar, agora num ritmo mais acelerado.
Ao mesmo tempo, a retaguarda da multidão se abria para dar passagem aos Guardiães. A platéia não desviava a atenção dos dançarinos, não interrompia sua contribuição ao caos crescente. Não obstante, um caminho fora aberto para a passagem da comitiva.
Totalmente cativada, Odrade olhava para baixo. Muitas coisas estavam acontecendo simultaneamente: a briga, pessoas xingando e golpeando umas às outras, o canto contínuo, o implacável avanço dos Guardiães.
Protegida pelas sacerdotisas, Sheeana podia ser vista olhando de um lado para o outro, tentando captar a excitação à sua volta.
Algumas pessoas na multidão apareceram com bastões e começaram a distribuir pauladas naqueles que as rodeavam, mas ninguém ameaçou os Guardiães ou qualquer outro integrante da comitiva de Sheeana. Os dançarinos continuavam no seu ritmo dentro de um círculo cada vez mais estreito. Todos aglomeravam-se cada vez mais junto à parede do prédio de Odrade, forçando-a a comprimir a cabeça contra o plaz a fim de olhar para baixo num ângulo ainda mais pronunciado.
Os Guardiães que lideravam o grupo de Sheeana avançaram por uma abertura cada vez mais ampla em meio ao caos. As sacerdotisas não olhavam nem para a esquerda nem para a direita. Os Guardiães de capacete amarelo olhavam só em frente.
Desdém era uma palavra muito branda para a atitude deles, percebeu Odrade.
E não seria correto dizer que a multidão rodopiante ignorava o avanço da comitiva.
Uma tinha consciência da outra, mas ambas, multidão e comitiva, existiam em mundos separados, observando as regras estritas de tal separação. Somente Sheeana ignorava o protocolo implícito, pulando para tentar enxergar um pouco mais dos corpos à sua volta.
Diretamente abaixo de Odrade, a multidão avançou num movimento súbito.
Os dançarinos foram apanhados no fluxo, arrastados para o lado como navios atingidos por uma onda gigantesca. Odrade viu trechos de carne nua sendo esmurrados e jogados de mão em mão no meio do caos ululante. Somente com a concentração mais intensa podia Odrade separar os sons que eram levados até ela.
Uma loucura!
Nenhum dos dançarinos resistiu. Estariam sendo mortos? Seria aquilo tudo um sacrifício? As análises da Irmandade ainda não tinham nem começado a tocar nessa realidade.
Capacetes amarelos moviam-se abaixo de Odrade, abrindo caminho para que Sheeana e o grupo de sacerdotisas passassem, entrando no prédio. Então os Guardiães cerraram fileiras e se voltaram, formando um arco protetor em torno da entrada do prédio.
Mantinham seus bastões na horizontal, unidos um ao outro defronte da cintura.
A confusão começou a diminuir. Nenhum dos dançarinos podia ser visto, mas havia feridos. Pessoas estiradas no chão, outros cambaleando, cabeças ensangüentadas.
Sheeana e as sacerdotisas estavam dentro do prédio, fora da visão de Odrade.
Ela sentou-se tentando avaliar o que acabara de testemunhar.
Incrível.
Nenhum registro ou holofoto da Irmandade tinha capturado o que acontecia ali! Em parte eram os cheiros — poeira, suor, uma concentração intensa de feromônios humanos. Odrade respirou fundo. Sentia estar trêmula. A turba reduzira-se a alguns indivíduos andando pela feira. Algumas pessoas choravam, outras praguejavam, outras riam.
A porta atrás de Odrade abriu-se subitamente e Sheeana entrou, rindo. Odrade voltou-se e captou uma rápida visão de sua própria guarda e das sacerdotisas antes que Sheeana fechasse a porta.
Os olhos castanhos-escuros da garota brilhavam de excitação. Seu rosto magro, já começando a ser suavizado pelas curvas que teriam quando adulto, estava tenso de emoção contida. A tensão esvaiu-se quando ela focalizou a atenção em
Odrade.
“Muito bom”, pensou Odrade ao ver isso. “A lição número um de união já começou!'
— Você viu os dançarinos? — indagou Sheeana, girando a pulando até parar diante de Odrade. — Não estavam lindos? Acho que são tão lindos! Cania não queria que eu olhasse. Diz que é perigoso que eu tome parte no Siaynoq. Mas eu não me importo! Shaitan nunca vai comer aqueles dançarinos!
Com uma súbita consciência fluindo para fora, coisa que experimentara apenas durante a agonia da especiaria, Odrade percebeu todo o padrão inteiro daquilo que acabara de testemunhar na Grande Praça. Fora preciso apenas a presença de Sheeana e suas palavras para tornar a coisa toda muito clara.
“Uma linguagem!”
Aquelas pessoas todas carregavam bem fundo em sua consciência coletiva uma linguagem que lhes podia dizer coisas que elas não queriam ouvir. Os dançarinos falavam essa linguagem. Sheeana também. A coisa era feita de movimentos, tons de voz e feromônios. Uma combinação complexa e sutil que evoluíra do modo como todas as linguagens evoluem.
A partir da necessidade.
Odrade sorriu para a garota feliz diante dela. Agora sabia como capturar os Tleilaxu. Agora sabia mais a respeito do projeto de Taraza.
“Devo acompanhar Sheeana ao deserto na primeira oportunidade que aparecer. Vamos esperar só a chegada desse Mestre Tleilaxu, esse tal de Waff. Vamos levá-lo conosco!”
Liberdade e Livre Escolha são conceitos complexos. Eles remontam as idéias religiosas de livre arbítrio e têm uma relação com a Mística do Governante implícita nas monarquias absolutistas.
Sem monarcas absolutistas, moldados de acordo com a imagem dos Antigos Deuses e governando por graça da crença na indulgência religiosa, a Liberdade e a Livre Escolha nunca teriam adquirido seu significado atual. Esses dois ideais devem sua própria existência a exemplos passados de opressão. E as forças que mantêm vivas tais idéias irão desgastar-se, a menos que sejam renovadas por ensinamentos dramáticos ou por nova opressão. Essa é a chave mais elementar para compreender minha vida.
— Leto II, Imperador-Deus de Duna
Registros de Dar-es-Balat
Teg deixara-os esperando, sob a cobertura de um escudo-vital, uns 30
quilômetros floresta adentro, a nordeste do Castelo Gammu, até que o sol mergulhasse atrás das montanhas a oeste.
— Esta noite vamos seguir em nova direção — ele disse.
Fazia três noites que ele os conduzia pela escuridão fechada da floresta, numa demonstração maravilhosa da Memória Mentat, cada passo totalmente preciso ao longo da trilha que Patrin lhe deixara.
— Estou rígida por ficar muito tempo sentada — queixou-se Lucilla. — E
parece que vamos ter outra noite fria.
Teg dobrou o cobertor do escudo-vital e o colocou em cima de sua mochila.
— Vocês dois podem começar a se mexer um pouco — aconselhou ele. —
Mas não vamos partir até que esteja totalmente escuro.
Teg sentou-se com as costas de encontro ao tronco cheio de ramos de uma conífera e olhou para as sombras enquanto Lucilla e Duncan andavam para dentro da clareira na espessa floresta. Os dois ficaram lá por um momento, tremendo enquanto os últimos traços do calor do dia fugiam ante o frio da noite. Sim, ia ser outra noite fria, pensou Teg, mas eles não iam ter muita oportunidade de pensar no frio.
“O inesperado!”
Schwangyu nunca ia esperar que eles ainda estivessem andando a pé, e tão perto do Castelo.
“Taraza devia ter sido mais enfática em suas advertências a respeito de Schwangyu”, pensou Teg. A desobediência violenta e aberta de Schwangyu em relação à Madre Superiora desafiava as tradições. A lógica Mentat não aceitaria tal situação sem ter mais informações.
Sua memória trouxe-lhe um ditado de seus tempos de escola, um daqueles aforismos de advertência pelos quais um Mentat devia dominar sua lógica.
“Dada uma trilha lógica e a navalha de Occam delineada com detalhes impecáveis, o Mentat pode seguir tal lógica em direção à sua tragédia pessoal!”
Sabia-se que a lógica podia falhar.
Ele pensou novamente no comportamento de Taraza na nave da Corporação e logo depois. “Ela queria que eu soubesse que ia estar totalmente por minha conta.
Devo perceber os problemas ao meu modo e não ao modo dela!”
Desse modo, a ameaça da parte de Schwangyu tinha que ser uma ameaça real para que ele a descobrisse e a enfrentasse ao seu próprio modo.
Taraza não sabia o que iria acontecer com Patrin por causa de tudo isso.
“Taraza não se importa realmente com o que possa acontecer com Patrin. Ou comigo. Ou com Lucilla. Mas e quanto ao ghola? Taraza deve importar-se com isso!”
Mas não era lógico que o fizesse... Teg abandonou essa linha de raciocínio.
Taraza não queria que ele agisse pela lógica. Queria que ele fizesse exatamente o que estava fazendo, o que sempre tinha feito em situações difíceis.
“O inesperado!”
Desse modo, havia um tipo de lógica em tudo isso, mas era uma lógica que chutava os participantes para fora de seu ninho, para dentro do caos.
“Do qual devemos criar nossa própria ordem.”
A mágoa entrou forte em sua consciência. “Droga, Patrin! Você sabia disso e eu não! Que é que vou fazer sem você?”
Teg quase pode ouvir a resposta de seu velho ajudante, naquele tom de voz rigidamente formal que Patrin usava quando brincava com seu comandante.
— Vai fazer o melhor que puder, Bashar.
O raciocínio progressivo mais frio revelava a Teg que ele nunca mais ia ouvir a verdadeira voz do velho ou rever Patrin em carne e osso. Ainda assim... a voz permanecia. A pessoa persistia na memória.
— Não devemos seguir em frente?
Era Lucilla que se colocara de pé diante de Teg junto da árvore. Duncan esperava ao lado dela. Os dois já tinham colocado as mochilas sobre os ombros.
Enquanto estivera pensando, a noite tinha caído. Uma luz estelar muito forte criava vagas sombras na clareira. Teg colocou-se de pé, pegou a mochila e, curvando-se para evitar os ramos baixos, saiu para a clareira.
Duncan ajudou-o a colocar a mochila nas costas.
— Schwangyu vai considerar esta possibilidade cedo ou tarde — disse Lucilla.
— Seus grupos de busca virão aqui atrás de nós. E você sabe disso.
— Não até que eles tenham acabado de seguir a pista falsa até o fim. Venham.
Teg guiou o grupo para oeste, através de uma passagem entre as árvores.
Durante três noites ele os levara ao longo do que chamava de “trilha memorizada de Patrin”. Enquanto caminhava por essa quarta noite, Teg culpava-se por não ter projetado no futuro as conseqüências lógicas do comportamento de Patrin.
“Eu entendia a dimensão da lealdade dele, mas não projetei essa lealdade em direção ao seu resultado óbvio. Estávamos juntos há tanto tempo que pensei conhecer sua mente como conheço a minha. Patrin, maldito seja, não havia necessidade alguma de você morrer!”
Teg acabou admitindo para si mesmo que tinha existido uma necessidade.
Patrin a percebera. O Mentat não se permitira ver tal coisa. A lógica era capaz de se mover tão cegamente quanto qualquer outra faculdade.
Como as Bene Gesserit freqüentemente diziam e demonstravam. “Por isso nós vamos a pé. Schwangyu não espera isso!” Teg também era forçado a admitir que caminhar por esses lugares selvagens de Gammu criava toda uma nova perspectiva para ele. Toda essa região pudera transbordar de vida vegetal durante as épocas da fome e da Dispersão. Mais tarde fora replantada, mas principalmente como floresta selvagem. Marcos e trilhas secretas guiavam o acesso agora. Teg imaginou Patrin como um jovem aprendendo a se orientar nessa região — aquele pico rochoso, visível à luz do céu estrelado através de uma abertura entre as árvores, aquela elevação cheia de árvores e galhos pontudos, os caminhos semelhantes a alamedas em meio às árvores gigantescas.
“Eles estarão esperando que tentemos alcançar uma não-nave.” Teg tinha
concordado com Patrin a esse respeito. “A isca deve levar os perseguidores naquela direção.”
Mas Patrin não dissera que ia ser a isca.
Teg engoliu em seco, sentindo um aperto na garganta.
“Duncan não poderia ser protegido no Castelo”, justificou para si mesmo.
E isso era verdade.
Lucilla tinha ficado nervosa no primeiro dia debaixo do escudo-vital, que os protegia da detecção por instrumentos colocados em aeronaves de busca.
— Devemos comunicar-nos com Taraza.
— Quando pudermos.
— E se acontecer alguma coisa com você? Devo conhecer todo o seu plano de fuga.
— Se acontecer alguma coisa comigo, você não será capaz de seguir a trilha de Patrin. Está gravada na minha memória.
Duncan quase não tomou parte na conversa naquele dia. Ele os observava em silêncio ou cochilava, acordando sempre alerta e com um olhar de fúria nos olhos.
No segundo dia sob o cobertor-escudo, Duncan quis saber de Teg:
— Por que eles querem me matar?
— Para frustrar os planos que a Irmandade traçou a seu respeito — respondeu Teg.
Duncan olhou furioso para Lucilla.
— Qual é o plano?
Como Lucilla não respondesse, ele disse:
— Ela sabe. Sabe porque eu devo depender dela. A idéia é fazer com que eu me apaixone por ela!
Teg achou que Lucilla tinha escondido muito bem seu espanto. Obviamente, seus planos para o ghola tinham sido desorganizados, toda a seqüência de eventos planejados desarrumada por essa fuga.
O comportamento de Duncan revelava outra possibilidade: seria o ghola um Revelador da Verdade latente? Que poderes adicionais não teriam sido cultivados nesse ghola pelos traiçoeiros Tleilaxu?
No segundo anoitecer que passaram na floresta, Lucilla estava cheia de acusações:
— Taraza ordenou-lhe que restaurasse as memórias originais dele! Como pode fazer isso aqui?
— Assim que alcançarmos o santuário.
Um Duncan silencioso e agudamente alerta acompanhou-os naquela noite.
Havia uma nova vitalidade nele. Ele tinha ouvido!
“Nada deve ferir Teg”, pensou Duncan. O que quer que fosse, onde quer que ficasse o santuário, Teg devia alcançá-lo em segurança. “E então eu vou saber!”
Duncan não tinha certeza do que iria saber, mas agora aceitava inteiramente o
valor de tal coisa. Essa floresta devia conduzi-los a esse objetivo. lembrava-se de ter olhado lá do Castelo para essas vastidões selvagens e de ter imaginado como seria livre ali. Aquele sentido de liberdade intocada havia desaparecido. A floresta era apenas um caminho, uma passagem para alguma coisa melhor.
Lucilla, seguindo na retaguarda, forçava-se a permanecer calma e alerta, e aceitar aquilo que não podia mudar. Parte de sua consciência mantinha-se firme na obediência às ordens de Taraza.
— Fique junto do ghola e, quando chegar a oportunidade, complete a tarefa para a qual foi destinada.
Um passo de cada vez. Era assim que o corpo de Teg media os quilômetros.
Era a quarta noite. Patrin estimara que levariam quatro noites para alcançar o objetivo.
“E que objetivo!”
O plano de fuga de emergência centrava-se numa descoberta que Patrin tinha feito quando ainda era adolescente e descobrira por acaso um dos muitos mistérios que Gammu guardava. As palavras de Patrin vieram à memória de Teg:
— Na desculpa de que ia fazer um reconhecimento pessoal, eu voltei ao lugar dois dias atrás. Estava intocado. Ainda sou a única pessoa que já esteve lá.
— Como pode ter certeza?
— Tomei minhas precauções quando deixei Gammu, anos atrás. Pequenas coisas que seriam perturbadas por qualquer pessoa que entrasse lá. Nada está fora do lugar. — É mesmo um não-globo dos Harkonnen?
— Muito antigo, mas as câmaras ainda estão intactas e funcionando.
— E quanto à comida e à água?
— Tudo que vocês possam querer ou necessitar está lá, deixado nos vasos de nulentropia situados no núcleo.
Teg e Patrin tinham feito seus planos na esperança de nunca precisarem usar essa saída secreta, mantendo firmemente o segredo enquanto Patrin contava para Teg qual era o caminho que permanecera oculto até sua descoberta de infância.
Atrás de Teg, Lucilla soltou uma pequena exclamação ao tropeçar em uma raiz.
“Eu devia tê-la avisado”, pensou Teg. Duncan obviamente estava seguindo Teg guiado pelo som. Lucilla, entretanto, tinha muito de sua atenção desviada para seus pensamentos.
Sua semelhança facial com Darwi Odrade era extraordinária, lembrou Teg.
Quando as vira lado a lado, no Castelo, Teg marcara as diferenças existentes entre as duas mulheres devido à diferença de idade. A juventude de Lucilla revelava-se na existência de maior quantidade de gordura subcutânea arredondando os traços do rosto. Mas as vozes! O timbre, o sotaque e todos aqueles truques de inflexão atonal que eram a marca registrada da Bene Gesserit. No escuro, seria impossível diferenciar as duas vozes.
Conhecendo como conhecia a Bene Gesserit, Teg sabia que isso não era coincidência. Dada a tendência que tinha a Irmandade de duplicar as linhagens genéticas que valorizava de modo a proteger o investimento feito em sua obtenção, Lucilla e Odrade deviam ter ancestrais comuns.
“Atreides, como todos nós”, pensou ele.
Taraza não tinha revelado seus objetivos com relação ao ghola, mas só por fazer parte do plano Teg pôde conhecer seus contornos. Não havia um padrão completo, mas ele já podia sentir as linhas gerais.
Geração após geração, a Irmandade negociara com os Tleilaxu, comprando gholas Idaho e treinando-os ali em Gammu apenas para vê-los assassinados. O tempo todo tinham esperado pelo momento certo. Tudo era como um jogo terrível que agora chegara ao auge porque uma garota capaz de comandar os vermes tinha aparecido em Rakis.
O próprio Gammu devia ser parte do plano. Havia marcas Caladanianas em todo o lugar. Sutilezas Danianas empilhadas sobre costumes mais antigos e brutais.
Algo mais que uma população tinha surgido do Santuário Daniano onde a avó do Tirano, Lady Jessica, vivera o resto de seus dias.
Teg tinha percebido as marcas implícitas e explícitas quando fizera seu primeiro reconhecimento em Gammu.
Riqueza!
Os sinais estavam lá para serem lidos. A riqueza fluía em torno do universo deles como uma ameba capaz de se insinuar em qualquer lugar, por mais estreito que fosse. Havia riqueza acumulada durante a Dispersão em Gammu, Teg sabia disso muito bem. Uma riqueza tão grande que poucos suspeitavam de seu tamanho e poder ou mesmo chegavam a imaginá-los.
De repente ele parou de caminhar. Padrões físicos na paisagem ao redor exigiam sua atenção total e imediata. Adiante havia uma saliência de rocha nua, as marcas identificadoras implantadas em sua memória por Patrin. Essa passagem seria uma das mais perigosas.
— Não há cavernas ou vegetação espessa para ocultar vocês. Tenham um cobertor pronto.
Teg removeu da mochila o escudo vital e o colocou sobre o ombro. Uma vez mais, indicou que deveriam continuar. A trama escura do tecido do escudo assoviou de encontro ao seu corpo enquanto caminhavam.
Lucilla estava deixando de ser enigmática, pensou ele. Ela aspirava a ter o título de “Lady” antes do nome. “Lady Lucilla”. Não havia dúvida de que devia soar-lhe agradável. Algumas Reverendas Madres com títulos assim estavam aparecendo, agora que as Casas Maiores começavam a emergir da obscuridade imposta pelo Caminho Dourado do Tirano.
Lucilla, a Sedutora-Impressora.
Todas essas mulheres eram peritas em sexo. A própria mãe de Teg o instruíra
no funcionamento de tal sistema, enviando-o a mulheres escolhidas na região onde morava quando ele ainda era bem jovem, de modo que ficasse sensibilizado quanto aos sinais que devia observar em si mesmo, assim como nas mulheres com quem tivesse relações sexuais. Era um treinamento proibido fora da Bene Gesserit, mas a mãe de Teg fora uma das “hereges” dentro da Irmandade.
“Você vai precisar disso, Miles”
Sem dúvida havia um pouco de presciência da parte dela. Ela o armara contra as Impressoras, mulheres como Lucilla, que eram treinadas em ampliação orgásmica de modo a fixar tendências inconscientes entre homens e mulheres.
“Lucilla e Duncan. Uma impressão feita por ela vai funcionar também com relação a Odrade!”
Teg quase pôde ouvir as peças do quebra-cabeças fazerem dique ao se encaixarem em sua mente. E quanto àquela mocinha em Rakis? Lucilla ensinaria técnicas de sedução ao seu pupilo imprimido de modo que ele pudesse dominar aquela que comandava os vermes?
“Ainda não há dados suficientes para uma Computação Primária.” Teg parou no final da perigosa passagem sobre as rochas, tirou o cobertor e fechou a mochila enquanto Duncan e Lucila esperavam logo atrás. Teg suspirou. O cobertor sempre o deixava preocupado. Ele não tinha a capacidade de deflexão de um escudo de batalha, mas, quando atingido pelo feixe de uma arma laser o rápido incêndio subseqüente era freqüentemente fatal.
“Brinquedos perigosos!”
Era desse modo que Teg classificava essas armas e engenhos mecânicos.
Melhor confiar em sua própria capacidade, em seus próprios músculos e nas Cinco Atitudes do Modo Bene Gesserit que sua mãe lhe havia ensinado.
“Use os instrumentos apenas quando forem absolutamente necessários para ampliar as capacidades do seu corpo.” Esse era o ensinamento da Bene Gesserit.
— Por que estamos parando? — sussurrou Lucila.
Duncan, o rosto transformado numa mancha fantasmagórica sob a luz das estrelas filtrada pelas árvores, olhou para Teg. As feições de Teg o tranqüilizaram. Elas tinham ligação com alguma memória que não lhe era acessível, pensou Duncan.
“Posso confiar nesse homem”
Lucilla suspeitou de que estivessem parando nesse lugar porque o velho corpo de Teg exigia descanso, mas não foi capaz de dizer tal coisa. Teg explicara que seu plano de fuga incluía um modo de levar Duncan para Rakis. Muito bem, era tudo que importava nesse momento.
Ela já calculara que o santuário, situado em algum lugar à frente, devia envolver uma não-nave ou uma não-câmara. Nenhuma outra coisa seria suficiente. E
de algum modo Patrin devia ser a chave. Os poucos indícios dados por Teg revelavam que Patrin fornecera essa rota de fuga.
Lucilla fora a primeira a perceber que Patrin se sacrificara para que eles
pudessem fugir. Patrin era o elo mais fraco. Permanecera lá atrás, onde Schwangyu poderia capturá-lo. A captura do chamariz era algo inevitável e somente um tolo pensaria que uma Reverenda Madre com os poderes de Schwangyu não seria capaz de arrancar segredos de um homem. Ela talvez nem precisasse empregar muita persuasão. As sutilezas da Voz e as dolorosas formas de interrogatório que permaneciam como monopólio da Irmandade — a caixa de agonia e as pressões em nódulos nervosos — seriam tudo de que ela necessitaria.
A forma que a lealdade de Patrin iria assumir fora clara para Lucilla. Como Teg podia ser tão cego?
“Amor!”
O longo laço de confiança entre os dois homens. Schwangyu agiria de modo rápido e brutal, Patrin devia saber disso. E Teg não tinha examinado seus próprios conhecimentos.
A voz de Duncan arrancou-a de tais pensamentos.
— Tóptero! Atrás de nós!
— Rápido!
Teg puxou da mochila o cobertor e o lançou sobre eles. Aconchegaram-se todos, um contra o outro, na escuridão que cheirava a terra, ouvindo o ornitóptero passar acima. A aeronave não parou nem voltou.
Quando estavam certos de não terem sido detectados, Teg novamente os conduziu pela trilha memorizada de Patrin.
— Aquela era uma aeronave de busca — comentou Lucilla. — Eles estão começando a suspeitar... ou então Patrin...
— Poupe sua energia para caminhar — retrucou Teg.
Ela não insistiu. Ambos sabiam que Patrin estava morto. Discutir isso seria perda de tempo.
“Esse Mentat é profundo”, pensou Lucila.
Teg era filho de uma Reverenda Madre e a mãe o treinara além dos limites permitidos pela Irmandade, antes que a própria Bene Gesserit o tomasse em suas mãos manipuladoras. O ghola não era o único dotado de recursos desconhecidos.
A trilha deu voltas em torno de si mesma, tendo se transformado numa picada de caçadores que subia por um morro através da floresta espessa. A luz das estrelas não penetrava nas árvores ali e somente a maravilhosa memória do Mentat os mantinha na trilha.
Lucilla sentiu o humo sob seus pés. Ouvia os movimentos de Teg, usando-os para guiar seus passos.
“Como Duncan está silencioso”, pensou ela. “Como está fechado dentro de si mesmo.” Ele obedecia as ordens, seguindo para onde Teg os guiava. Ela sentia o tipo de obediência em Duncan. Ele mantinha sua própria opinião e obedecia apenas porque lhe era conveniente fazê-lo — pelo menos até agora. A rebelião de Schwangyu plantara algo de uma independência selvagem nesse ghola. Sem falar nas coisas que os
Tleilaxu poderiam ter implantado nele.
Teg parou num ponto embaixo de altas árvores para recuperar o fôlego. Lucila podia ouvi-lo respirar ofegante. Isso a fez lembrar-se uma vez mais de que esse Mentat era um homem velho, muito velho para esse tipo de exercício. Ela disse baixinho:
— Está tudo bem, Miles?
— Eu lhe digo quando não estiver.
— Quanto falta? — perguntou o Duncan.
— Somente um trecho curto agora.
Daí a pouco ele recomeçou a caminhada dentro da noite.
— Devemos apressar-nos — ele disse. — Este morro côncavo é o último trecho.
Agora que já tinha aceito a realidade da morte de Patrin, os pensamentos de Teg giravam como uma agulha de bússola em direção a Schwangyu e ao que ela devia estar experimentando. Devia estar sentindo o mundo desabar em sua volta. Os fugitivos estavam desaparecidos há quatro noites! Gente capaz de confundir desse jeito uma Reverenda Madre poderia fazer qualquer coisa! E claro que os fugitivos já deveriam estar fora do planeta a essa altura. Numa não-nave. Mas e se...
Os pensamentos de Schwangyu deviam estar cheios de “e se”...
Patrin fora o elo frágil na corrente, mas tinha sido bem treinado na remoção de elos frágeis, treinado por um mestre — Miles Teg.
Teg removeu a umidade que surgira em seus olhos com uma rápida sacudidela da cabeça. A necessidade imediata exigia aquele núcleo de honestidade interior que ele não poderia evitar. Teg nunca fora um bom mentiroso, nem para si mesmo. Muito cedo em seu treinamento, percebera que sua mãe, assim como as outras pessoas envolvidas no seu processo de criação, o condicionara a ter um profundo senso de honestidade pessoal.
“Fidelidade a um código de honra.”
O próprio código de honra, quando Teg o reconhecia em si mesmo, o atraía, fascinando sua atenção. Ele começava a reconhecer que os seres humanos não nasciam iguais, que possuíam diferentes habilidades herdadas e tinham diferentes experiências de vida. Isso produzia pessoas com realizações e valores diferentes.
Para obedecer esse código, Teg sabia que primeiro devia posicionar-se precisamente no fluxo das hierarquias observáveis, aceitando que poderia chegar um instante em que não mais seria capaz de evoluir.
Os condicionamentos de tal código eram profundos. Ele nunca pôde encontrar suas raízes mais profundas. Estavam ligadas, obviamente, a alguma coisa que era intrínseca à humanidade. Algo que ditava com um poder imenso os limites de comportamento permitidos a todos aqueles acima e abaixo da pirâmide hierárquica.
“E a moeda-base que se troca é a lealdade”
A lealdade agia para cima e para baixo, encaixando-se onde quer que encontrasse uma ligação merecida. Tais lealdades, Teg sabia, estavam firmemente
unidas ao seu comportamento. Não tinha dúvidas de que Taraza o apoiaria em tudo, exceto numa situação que exigisse o sacrifício dele para a sobrevivência da Irmandade.
E isso era uma coisa certa. Era onde as lealdades que uniam todos eles acabavam se encaixando.
“Sou o Bashar de Taraza. Isso é o que o código diz”
E fora esse código de honra que matara Patrin.
“Espero que você não tenha sofrido dores, velho amigo.”
Uma vez mais Teg parou à sombra das árvores. Tirando sua faca de combate da bainha localizada na bota, raspou uma pequena marca no tronco da árvore ao seu lado.
— Que está fazendo? — perguntou Lucilla.
— Esta é uma marca secreta — explicou Teg. — Somente as pessoas que eu treinei conhecem seu significado. E Taraza, é claro.
— Mas por que está...
— Explicarei depois.
Ele avançou uma vez mais, parando em outra árvore onde gravou a pequena marca, algo que um animal poderia ter feito com sua garra, uma coisa que se confundia com as formas naturais dessa floresta.
Enquanto seguia o seu caminho adiante, Teg percebia ter chegado a um ponto de decisão com relação a Lucilla. Os planos dela para Duncan deviam ser defletidos.
Cada projeção Mentat que Teg podia fazer quanto à segurança e à saúde mental de Duncan exigia isso. O despertar das memórias pré-ghola desse Duncan devia acontecer antes de qualquer impressão sexual da parte de Lucilla. Mas não seria fácil detê-la, Teg sabia disso muito bem. Seria preciso um mentiroso muito melhor do que ele jamais fora para iludir uma Reverenda Madre.
E tudo devia parecer acidental, o resultado normal das circunstâncias. Lucilla nunca poderia suspeitar da oposição a seus planos. Teg tinha poucas ilusões quanto à sua chance de vencer uma Reverenda Madre irritada num lugar apertado como aquele em que logo estariam. Melhor seria matá-la. Isso ele achava que poderia fazer, mas as conseqüências! Taraza jamais seria levada a aceitar que um ato sangrento fora realizado em obediência às suas ordens.
Não, ele teria que ganhar tempo, esperar, observar e ouvir.
O grupo saiu da floresta para uma pequena clareira onde uma íngreme barreira de rochas vulcânicas se erguia diante deles. Arbustos espinhentos e moitas de capim mirrado cresciam de encontro às rochas, visíveis como manchas escuras à luz das estrelas.
Teg viu os contornos mais escuros de uma passagem por onde teriam que rastejar debaixo dos arbustos.
— Vamos ter que rastejar daqui para a frente — ele disse.
— Sinto cheiro de cinzas — disse Lucilla. — Alguma coisa foi queimada por aqui.
— É o lugar onde ficava o chamariz — explicou Teg. — Ele deixou uma área queimada à nossa esquerda, simulando as marcas deixadas pela decolagem de uma não-nave.
A respiração de Lucilla foi audível quando ela inspirou, espantada. “Que audácia!” Se Schwangyu se atrevesse a mandar um investigador presciente seguir os rastros de Duncan (pois só Duncan, entre eles, não possuía o sangue de Siona herdado de sua ancestralidade), todas as marcas concordariam com a hipótese de eles terem chegado a esse ponto e abandonado o planeta em uma não-nave... desde que...
— Para onde está nos levando? — perguntou ela.
— Para um não-globo dos Harkonnen. Está aqui há milênios e agora é nosso.
É muito natural que aqueles que detém o poder desejem suprimir a livre pesquisa. A busca irrestrita do conhecimento tem uma longa tradição de produzir competição indesejada. Os poderosos querem uma “linha segura de pesquisas”, algo capaz de produzir apenas produtos e idéias que possam ser controlados e, o que é mais importante, que permita que a maior parte dos benefícios produzidos fique em poder dos investidores internos. Infelizmente o universo está cheio de variáveis relativas que não permitem a existência de uma “linha segura de pesquisas”.