Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 1 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Spannungsbogen!

Waff enrolou o antigo termo em sua língua:

“A amplitude do arco!” Até onde você pode curvar o arco antes de liberar a flecha. Essa flecha iria ferir fundo!

— O Masheikh esperou mais tempo do que qualquer outro — sussurrou Waff.

Ele se atrevia a pronunciar a palavra para si mesmo no espaço de sua torre: —

Masheikh.

Os telhados abaixo dele cintilavam enquanto o sol se erguia. Podia ouvir o movimento da vida da cidade. O suave amargor dos aromas Tleilaxu flutuava no ar até sua janela. Waff inalou profundamente e fechou a janela.

Sentia-se recuperado nesse momento de solitária observação. Afastando-se da janela, envergou o manto branco Khilat de honra, diante do qual todos os Domei estavam condicionados a se curvar. O manto cobria-lhe totalmente o corpo curto, dando-lhe a distinta sensação de ser realmente uma armadura.

“A armadura de Deus!”

— Nós somos o povo do Yaghist — relembrara ele aos seus conselheiros na noite passada. — Tudo mais é fronteira. Nós estimulamos o mito de nossa fraqueza e de nossas práticas perversas durante todos esses milênios com apenas um único propósito. Até mesmo a Bene Gesserit acredita!

Sentados na profunda sagra sem janelas, com o campo de não-câmara ligado, os nove conselheiros tinham sorrido em apoio a suas palavras. No julgamento do ghufran, eles sabiam. O palco em cima do qual os Tleilaxu determinavam seu destino sempre fora o kehl com seu direito ao ghufran.

Era adequado que até mesmo Waff, o mais poderoso dos Tleilaxu, não pudesse deixar o seu mundo e nele ser readmitido sem se submeter ao ghufran, pedindo perdão pelo contato com os inimagináveis pecados dos estrangeiros. Sair para o meio dos powindah podia corromper até mesmo o mais poderoso. Os khasadars, que policiavam todas as fronteiras dos Tleilaxu e guardavam os selamliks das mulheres, tinham o direito de suspeitar até mesmo de Waff. Ele pertencia ao povo e ao kehl, era verdade, mas precisava provar isso a cada vez que deixava a terra pátria e retornava. E, certamente, também a cada vez que entrava no selamlik para distribuir seu esperma.

Waff andou até o espelho e inspecionou a si mesmo com seu manto. Sabia que, aos powindahs, ele pareceria uma figura de gnomo, com pouco mais de um metro e meio de altura. Olhos, cabelo e pele tinham tonalidades de cinza, acessórios para um rosto oval com uma boca pequena e uma linha de dentes agudos. Um dançarino facial poderia imitar suas feições e sua pose, simulando-o ante uma ordem de um Masheikh.

Mas nenhum Masheikh ou khasadar se confundiria. Somente os powindahs seriam tapeados.

“Exceto pela Bene Gesserit”.

Esse pensamento trouxe ao seu rosto uma expressão mal-humorada. Bem, as bruxas ainda não tinham encontrado um dos novos Dançarinos Faciais.

“Nenhum outro povo dominou a linguagem dos genes tão bem quanto os Bene Tleilax”, tranqüilizou a si mesmo. “Nós temos o direito de chamá-la de 'linguagem de Deus', pois o Próprio Deus nos deu esse grande poder”

Waff caminhou até a porta e esperou pelo sino da manhã. Não havia maneira de descrever a riqueza de emoções que sentia agora. O tempo desdobrava-se diante

dele. Não indagava por que a verdadeira mensagem do Profeta tinha sido ouvida apenas pelos Bene Tleilax. Tinha visto a obra de Deus e, nesse aspecto, o Profeta fora o Braço de Deus, devendo ser respeitado como Mensageiro Divino.

“Você os preparou para nós, ó Profeta.”

E o ghola em Gammu, esse ghola nessa ocasião especifica, valia toda a espera.

O sino da manhã tocou e Waff dirigiu-se ao salão, misturando-se com outras figuras de mantos brancos a caminho da sacada ocidental para saudar o sol da manhã.

Como o Mahai e Abdl de seu povo, podia agora identificar-se com os Tleilaxu.

“Nós somos os legalistas do Shariat, os últimos de nosso tipo no universo.”

Em parte alguma fora das câmaras fechadas de seus irmãos-malik poderia ele revelar um pensamento tão secreto, mas sabia que esse pensamento seria compartilhado por todas as mentes agora à sua volta, e o trabalho desse pensamento era visível em Masheikhs, Domeis e Dançarinos Faciais. O paradoxo dos laços de parentesco e o senso de identidade social que permeavam o kehl, desde os Masheikh até o Domel mais inferior, não era um paradoxo para Waff.

“Nós trabalhamos para o mesmo Deus.”

Um Dançarino Facial disfarçado de Domei se curvara, abrindo as portas para a sacada. Waff, emergindo para a luz do sol com seus muitos companheiros bem próximos, sorriu ao reconhecer o Dançarino Facial. “Um Domei de fato!” Era uma piada entre parentes, embora os Dançarmos Faciais não fossem de sua espécie. Eles eram criações, ferramentas, do mesmo modo como o ghola em Gammu era uma ferramenta, uma ferramenta projetada com a linguagem de Deus falada apenas pelos Masheikhs.

Junto com os outros, que se pressionavam à sua volta, Waff fez sua reverência ao sol. Pronunciou o grito do Abdl e o ouviu ecoar nas incontáveis vozes estendendo-se até os pontos mais distantes da cidade.

— O sol não é Deus! — gritou ele.

Não, o sol era apenas um símbolo dos infinitos poderes e da misericórdia divina — uma criação, outra ferramenta. Sentindo-se purificado pela passagem através do ghufran na noite anterior, e renovado por esse ritual matinal, Waff podia pensar agora a respeito da viagem que fizera até as terras dos powindah e de seu retorno recente, que tornara necessário o ghufran. Outros adoradores abriram caminho para ele, enquanto retornava através dos corredores internos, entrando na passagem deslizante que o levou até o jardim central. Lá pediu aos seus conselheiros que se reunissem a ele.

“Foi uma investida bem-sucedida entre os powindah”, pensou.

A cada vez que deixava os mundos internos dos Bene Tleilax, Waff sentia-se como se estivesse num lashkar, um grupo guerreiro buscando a vingança final que o povo secretamente chamava de Bodal (sempre com maiúscula e sempre a primeira coisa a ser reafirmada no ghufran ou no kehl). Esse lashkar mais recente fora curiosamente bem-sucedido.

Waff saiu do deslizador para um jardim totalmente iluminado pela luz do sol, irradiada por refletores prismáticos nos telhados em volta.

Uma pequena fonte tocava sua fuga visual no coração de um circulo de pedras.

Uma cerca baixa feita com paus brancos envolvia um gramado muito bem-aparado.

Tratava-se de um lugar suficientemente próximo da fonte para que o ar fosse úmido, mas não tão próximo que a água caindo perturbasse a conversa em voz baixa. Em torno da área gramada havia 10 bancos estreitos feitos de plástico antigo — nove deles dispostos num semicírculo voltado para o 10? banco, ligeiramente afastado.

Parando na beira do gramado, Waff olhou à sua volta, imaginando por que nunca antes sentira um prazer tão intenso com a visão desse lugar. O azul-escuro dos bancos era intrínseco ao material. Os séculos de uso tinham gasto os bancos, produzindo curvas suaves ao longo dos apoios para os braços e onde incontáveis traseiros se haviam sentado. Ainda assim a cor era tão forte nos lugares gastos quanto nas outras partes.

Waff sentou-se voltado para os nove conselheiros, reunindo as palavras que sabia que devia usar. O documento que tinha trazido de volta em seu último lashkar, que de fato fora a própria razão para essa excursão, não podia ter chegado em ocasião mais adequada. O rótulo e as palavras tinham uma mensagem poderosa para os Tleilaxu.

De um bolso interno, Waff removeu uma fina folha de cristal riduliano. Notou o acelerado interesse dos conselheiros: nove rostos muito semelhantes ao dele.

Masheikhs do kehl mais interior. Todos refletiam expectativa. Tinham lido este documento em kehl: “O Manifesto Atreides”. Tinham passado uma noite inteira refletindo sobre a mensagem do manifesto. Agora as palavras tinham que ser confrontadas. Waff colocou o documento no colo.

— Eu me proponho divulgar amplamente este documento — disse ele.

— Sem mudança?

Era Mirlat, o conselheiro mais próximo da transformação- ghola entre todos eles. Mirlat sem dúvida aspirava a atingir o Abdl e o Mahai. Waff focalizou sua atenção no queixo largo do conselheiro, no ponto onde uma cartilagem crescera ao longo dos séculos como marca visível da grande idade de seu corpo.

— Exatamente como chegou às nossas mãos — disse Waff.

— Isso é perigoso — comentou Mirlat.

Waff virou a cabeça para a direita, seu perfil infantil delineado contra a fonte para que seus conselheiros o observassem. “A mão de Deus esta à minha direita!” O

céu acima dele era de uma cornalina polida, como se Bandalong, a mais antiga entre as metrópoles Tleilaxu, tivesse sido construída sob uma daquelas gigantescas coberturas erguidas para proteger os pioneiros nos planetas mais inóspitos. Quando voltou sua atenção para seus conselheiros, as feições de Waff continuavam tranqüilas.

— Não é perigoso para nós — disse ele.

— Uma questão de opinião — retrucou Mirlat.

— Então vamos considerar as opiniões — disse Waff. — Temos necessidade de temer Ix ou as Oradoras Peixes? De fato, não. Eles nos pertencem, embora não saibam disso.

Waff deixou que a afirmação fosse absorvida. Todos sabiam que elementos dos novos Dançarmos Faciais encontravam-se agora infiltrados nos altos conselhos de Ix e das Oradoras Peixes. A troca não fora detectada.

— A Corporação não se colocará contra nós nem se vai opor a nós porque somos sua única fonte segura de melange — acrescentou Waff.

— E quanto a essas Honradas Madres que voltam da Dispersão? — indagou Mirlat.

— Cuidaremos delas quando for preciso — respondeu Waff. — E nisso seremos ajudados pelos descendentes dos de nosso povo que voluntariamente tomaram parte na Dispersão.

— A ocasião de fato parece oportuna — murmurou um dos conselheiros.

Fora Torg, o Jovem, quem falara, observou Waff. Ótimo, ali estava um voto seguro.

— A Bene Gesserit! — retrucou Mirlat.

— Creio que as Honradas Madres vão tirar as bruxas do nosso caminho —

disse Waff. — Elas já rosnam umas para as outras como animais num fosso.

— E se o autor do manifesto for identificado? — perguntou Mirlat.

— Que faremos então?

Várias cabeças balançaram afirmativamente entre os conselheiros. Waff marcou as pessoas que deviam ser conquistadas.

— É perigoso ser chamado de Atreides nesta era — disse ele.

— Exceto talvez em Gammu — disse Mirlat. — E o nome Atreides foi assinado naquele documento!

“Que estranho”, pensou Waff. O representante da CHOAM na conferência dos powindah que afastara Waff dos planetas interiores de Tleilax tinha enfatizado esse ponto. Mas a maioria do pessoal da CHOAM era constituída por ateístas secretos que viam como suspeitas todas as religiões. Certamente que os Atreides tinham sido uma potente força religiosa. As preocupações da CHOAM eram quase palpáveis.

Waff relembrou agora essa reação da CHOAM.

— Esse empregado da CHOAM, maldita seja sua alma sem Deus — disse Mirlat. — Mas ele está certo, este documento é insidioso.

“Vamos ter que cuidar de Mirlat”, pensou Waff. Erguendo do colo o manifesto, leu em voz alta a primeira linha:

— “No início havia a palavra, e a palavra era Deus.”

— Diretamente da Bíblia Universal Laranja — lembrou Mirlat.

Uma vez mais as cabeças se moveram em preocupada concordância.

Waff mostrou as pontas dos caninos num breve sorriso.

— Vocês estão sugerindo que há entre os powindah quem suspeite da existência

do Shariat ou dos Masheikhs?

Fazia bem pronunciar essas palavras abertamente, lembrando aos seus ouvintes que somente entre os membros dos círculos mais secretos dos Tleilaxu é que as velhas palavras e as antigas linguagens ainda eram preservadas sem alteração. Será que Mirlat ou algum outro temia que as palavras dos Atreides pudessem subverter o Shariat?

Waff colocou também essa pergunta e viu as expressões preocupadas.

— Existe entre vocês — perguntou — quem acredite que um único powindah sabe como usamos a linguagem de Deus?

“Isso, deixe que eles pensem nisso!” Cada um deles já fora despertado muitas vezes na carne de ghola. Havia nesse Conselho uma continuidade carnal que nenhum outro povo tinha conquistado antes. O próprio Mirlat tinha visto de perto o profeta.

Scytale tinha falado com o Muad'Dib! Aprendendo como as memórias podiam ser restauradas e a carne renovada, eles haviam condensado esse poder num único governo cuja potência era confinada de modo a não ser exigida em toda parte.

Somente as bruxas possuíam semelhante reserva de experiências, e ainda assim agiam com temerosa cautela por medo de produzirem outro Kwisatz Haderach!

Waff disse essas coisas a seus conselheiros, acrescentando:

— A hora de agirmos chegou.

Como ninguém discordou, ele disse:

— Este manifesto tem um único autor. Todos os analistas concordam. Mirlat?

— Escrito por uma única pessoa, e essa pessoa, sem dúvida alguma, é um Atreides — concordou Mirlat.

— Todos na conferência dos powindah afirmaram isso. Mesmo um navegador de terceiro estágio concordou — disse Waff.

Mas essa pessoa produziu algo que excita reações muito violentas entre povos diversos — argumentou Mirlat.

Algum dia já questionamos o talento dos Atreides para a discórdia? —

perguntou Waff. — Quando os powindah me mostraram esse documento, eu soube que Deus nos tinha enviado um sinal.

As bruxas ainda negam sua autoria? — perguntou Torg, o Jovem. “Como ele é atento”, pensou Waff.

— Cada religião dos powindah é questionada por este manifesto — lembrou Waff. — Cada fé, exceto a nossa, é deixada suspensa no limbo.

— E exatamente esse o problema! — retrucou Mirlat.

— Mas somente nós sabemos disso. Quem mais sabe da existência do Shariat?

— perguntou Waff.

— A Corporação — disse Mirlat.

— Eles nunca falaram dele, nem o farão. Sabem qual seria a nossa resposta.

Waff ergueu do colo o maço de papéis e novamente leu em voz alta:

— “Forças que não podemos ver permeiam nosso universo. Vemos apenas as

sombras dessas forças quando projetadas sobre uma tela acessível aos nossos sentidos, mas não as compreendemos.”

— O Atreides que escreveu isso sabe a respeito do Shariat — murmurou Mirlat.

Waff continuou lendo como se não tivesse havido interrupção.

— “O entendimento exige palavras, e algumas coisas não podem ser reduzidas a palavras. Há coisas que só podem ser experimentadas num nível não-verbal.”

Como se estivesse lidando com uma relíquia sagrada, Waff repôs o documento no colo. Baixinho, de modo que para ouvi-lo os outros tiveram que se curvar em sua direção, um deles levando a mão ao ouvido, Waff disse:

— Isso diz que nosso universo é mágico. Diz que todas as formas arbitrárias são transitórias e sujeitas a alterações mágicas. A ciência conduziu-nos a essa interpretação como se nos colocasse num caminho do qual não nos podemos desviar.

Por um momento ele aguardou que essas palavras fizessem efeito e então acrescentou:

Nenhum sacerdote rakiano do Deus Dividido nem outro charlatão qualquer entre os powindah pode aceitar isso. Somente nós sabemos por que nosso Deus é um Deus mágico cuja linguagem falamos.

Seremos acusados da autoria — disse Mirlat. Sacudindo a cabeça de um lado para o outro, acrescentou: — Não! Agora percebo. Percebo o que quer dizer.

Waff manteve o silêncio. Podia ver que todos eles estavam refletindo sobre suas origens Sufi, relembrando a Grande Crença e o ecumenismo Zensunni que gerara a Bene Tleilax. As pessoas de seu kehl conheciam os fatos divinamente revelados em suas origens, mas gerações de sigilo asseguravam que nenhum powindah compartilhasse desse segredo.

As palavras fluíram silenciosamente na mente de Waff: “Pressuposições baseadas na compreensão contêm a crença num absoluto do qual todas as coisas brotam como plantas crescendo de suas sementes.”

Sabendo que seus conselheiros também teriam lembrado esse ensinamento da Grande Crença, Waff lembrou-lhes a advertência Zensunni.

— Debaixo de tais raciocínios está a fé nas palavras que os powindah não questionam. Somente o Shariat questiona e nós ficamos calados.

Seus conselheiros assentiram com as cabeças em uníssono.

Waff inclinou ligeiramente a cabeça e continuou:

— O ato de dizer que existem coisas que não podem ser descritas por palavras abala um universo onde as palavras são a crença suprema.

— Veneno powindah! — gritaram seus conselheiros.

Ele os tinha a todos agora, e assegurou sua vitória perguntando:

— Qual é o credo Sufi-Zensunni?

Eles não podiam falar, mas todos refletiam: “Para conquistar o s'tori, nenhum conhecimento é necessário. O s'tori existe sem palavras, sem sequer um nome”

Num momento, todos se voltaram para cima e trocaram olhares significativos.

Mirlat resolveu recitar o voto Tleilaxu:

— “Eu posso dizer Deus, mas este não é o meu Deus. É apenas um som, não mais potente que qualquer outro som”

— Percebo agora — disse Waff — que todos vocês sentem o poder que caiu em nossas mãos através deste documento. Milhões de milhões de cópias já estão circulando entre os powindah.

— E quem se importa com isso? — indagou Mirlat.

— Quem se importa? — retrucou Waff. — Deixem os powindah correr atrás deles, procurar sua origem, tentar suprimi-los, falar contra eles. Com cada uma dessas ações, os powindah injetarão mais poder nessas palavras.

— Não nos devemos pronunciar também contra esse documento? —

perguntou Mirlat.

— Somente se a ocasião exigir — respondeu Waff. — Prestem atenção! —

Ele bateu com os papéis sobre os joelhos. — Os powindah restringiram sua consciência ao propósito mais mesquinho, e essa é sua fraqueza. Devemos garantir que esse manifesto tenha a maior circulação possível.

— A magia de nosso Deus é apenas uma ponte — entoaram os conselheiros.

Todos eles, observou Waff, refugiavam-se na segurança central de sua fé. Fora fácil de controlá-los. Nenhum Masheikh compartilhava da estupidez do powindah que gemia: “Em tua infinita graça, Oh Deus, por que eu?” Em uma única frase o powindah invocava o infinito e o negava, nunca percebendo sua própria tolice.

— Scytale — chamou Waff.

O mais jovem dos conselheiros, com cara de bebê, sentado mais à esquerda, como era adequado, inclinou-se para a frente avidamente.

— Arme os fiéis disse Waff.

— Admira-me que um Atreides nos tenha fornecido essa arma — comentou Mirlat. — Como é possível que os Atreides sempre se agarrem a um ideal que capta a admiração dos bilhões que irão segui-los?

— Não são os Atreides, é Deus — disse Waff. Ele ergueu os braços e citou as palavras que encerravam o ritual: — Os Masheikh encontraram-se no kehl e sentiram a presença do seu Deus.

Waff fechou os olhos e esperou que os outros saíssem. “Masheikh!” Como era bom reunir-se num kehl, falando a linguagem do Islamiyat, que nenhum Tleilaxu falaria fora de seus conselhos secretos, nem mesmo quando se dirigiam aos Dançarmos Faciais. Em parte alguma do Wekht de Jandola, nem mesmo nas extensões mais distantes do Yaghist Tleilaxu, haveria um powindah vivo que conhecesse esse segredo.

“Yaghist”, pensou Waff, levantando-se do banco. “Yaghist, a terra dos que não se deixam governar.”

Achou que podia sentir o documento vibrando em sua mão. Esse Manifesto Atreides era o tipo de coisa que as massas de powindah seguiriam até sua ruína.

Em alguns dias é a melange; em outros é sujeira.

— Aforismo de Rakis

Em seu terceiro ano com os sacerdotes de Rakis, a garota Sheeana deitou-se no topo de uma duna alta e curva. Sob a luz do sol da manhã, fitou o horizonte, onde se podia ouvir o rumor de algo se arrastando. A luz era de uma cor prateada, fantasmagórica, que gelava a névoa do horizonte. Ainda se podia sentir na areia o frio da noite.

Ela sabia que os sacerdotes a observavam da segurança de sua torre cercada de água, uns dois quilômetros além, mas isso quase não a preocupava. O tremor da areia debaixo de seu corpo exigia toda a sua atenção.

“Este é grande”, pensou. “Setenta metros no mínimo. Um lindo grandão.”

O traje-destilador cinzento parecia-lhe lustroso e escorregadio em sua pele.

Não tinha nenhum dos remendos irritantes do velho traje que usara antes que os sacerdotes passassem a cuidar dela. Sentia-se grata a eles pelo excelente traje-destilador e pelo espesso manto roxo e branco que o cobria. Mas, acima de tudo, sentia a excitação de estar ali. Uma coisa rica e perigosa tomava conta dela em momentos como este.

Os sacerdotes não sabiam o que estava acontecendo ali. Ela tinha certeza disso. Eles eram covardes. Olhou por sobre o ombro para a torre distante e viu a luz do sol refletir-se nas lentes.

Uma criança precoce de 11 anos, esguia, pele escura, cabelo castanho riscado de dourado, ela podia visualizar claramente o que os sacerdotes estariam vendo através de suas lentes de observação.

“Eles me vêem fazer aquilo que não se atrevem a fazer. Eles me vêem na trilha de Shaitan. Eu pareço muito pequena na areia e Shaitan parece muito grande. Eles já podem vê-lo.”

Pelo som da fricção na areia, ela sabia que logo veria também o gigantesco verme. Sheeana não pensava no monstro se aproximando como o Shai-hulud, o Deus das areias, algo que os sacerdotes cantavam todas as manhãs em homenagem as pérolas de consciência de Leto II que jaziam aprisionadas em cada um dos senhores do deserto. Pensava nos vermes, geralmente, como “aqueles que me pouparam” ou como Shaitan.

Eles agora lhe pertenciam.

Era um relacionamento que começara há pouco mais de três anos, durante o mês de seu oitavo aniversário, o Mês de Igat pelo velho calendário. O vilarejo era bem pobre, uma aventura de pioneiros, construída bem além das barreiras mais seguras, como os qanats e os canais anelares de Keen. Somente um fosso de areia molhada defendia esses empreendimentos pioneiros. Shaitan evitava a água, mas seus vetores formados pelas trutas da areia logo retiravam toda a umidade. Uma umidade preciosa, capturada nas armadilhas de vento, tinha que ser gasta a cada dia para renovar essa barreira. Sua vila era um miserável aglomerado de tendas e barracas com duas pequenas armadilhas de vento, adequadas para fornecer água para o consumo humano, mas com apenas um acréscimo esporádico que poderia ser usado na barreira contra os vermes.

Naquela manhã — muito parecida com esta manhã, o frio da noite cortando-lhe o nariz e os pulmões, o horizonte coberto por uma névoa fantasmagórica —, a maioria das crianças da vila tinha se afastado para o deserto, buscando os restos de melange que Shaitan às vezes deixava em sua passagem. Dois dos grandes tinham sido ouvidos por perto na noite passada, e a melange, mesmo aos preços atuais, desinflacionados, podia comprar os tijolos vitrificados que ergueriam uma terceira armadilha de vento.

As crianças não procuravam apenas a melange, mas também os sinais que revelariam uma das velhas fortalezas dos Fremen, os sietch. Havia apenas vestígios de tais lugares agora, mas as barreiras de rocha forneciam maior segurança contra o Shaitan. E alguns restos de sietch podiam conter depósitos esquecidos de melange.

Cada vilarejo sonhava com tal descoberta.

Sheeana, usando seu traje-destilador remendado e um manto fino, saíra sozinha na direção nordeste, rumo ao distante monte de ar fumacento que revelava a direção da grande cidade de Keen, com sua riqueza de umidade sendo erguida pelas brisas aquecidas pelo sol.

Caçar restos de melange nas areias era principalmente uma questão de focalizar a atenção nas narinas. Era uma forma de concentração que deixava apenas um vestígio de consciência, atenta à fricção na areia que denunciaria a aproximação de Shaitan. Os músculos da perna moviam-se automaticamente no modo de caminhar não-rítmico que se fundia aos sons naturais do deserto.

A princípio Sheeana não ouviu os gritos. Aquilo misturava-se com o som da areia soprada pelo vento, friccionando-se nas dunas barracan que ocultavam de seus olhos o vilarejo. lentamente o som penetrou em sua consciência até lhe exigir a atenção.

“Muitas vozes gritando!”

Sheeana esqueceu a precaução dos passos ao acaso. Andando tão depressa quanto lhe permitia sua musculatura infantil, ela subiu pela face escorregadia da barracan e olhou em direção ao som aterrorizante. Teve tempo de ver aquilo que terminou com os últimos gritos.

O vento e as trutas da areia tinham ressecado um amplo arco da barreira no outro lado da vila. Ela podia ver a abertura pela diferença de cor. Um verme selvagem

tinha penetrado pela abertura. Ele circulava agora dentro do espaço fechado pela umidade restante, sua boca gigantesca iluminada pelas chamas interiores, engolindo gente e cabanas num circulo que rapidamente se fechava.

Sheeana viu os últimos sobreviventes aglomerados no centro dessa destruição, um espaço já livre das rudes cabanas e cheio dos restos das armadilhas de vento.

Enquanto ela observava, algumas pessoas tentavam fugir para o deserto. Sheeana reconheceu seu pai entre os corredores frenéticos. Nenhum escapou. A grande boca tragou a todos antes de se voltar para nivelar o resto do vilarejo.

Areia fumegante foi tudo que restou da frágil vila que se atrevera a reclamar uma fagulha dos domínios de Shaitan. O lugar onde se erguera o vilarejo não tinha mais qualquer marca da passagem de seres humanos.

Sheeana respirou fundo, inalando através do nariz para preservar a umidade de seu corpo, como faria qualquer boa filha do deserto. Esquadrinhou o horizonte em busca de um indicio das outra crianças, mas o rastro de Shaitan revolvera o terreno, deixando grandes curvas por todo o outro lado do vilarejo. Nem um único humano permanecia em seu campo de visão. Ela deu um grito agudo que seria ouvido muito longe através do ar seco. Não houve resposta.

“Sozinha”

Caminhou, como se estivesse em transe, ao longo da crista da duna, em direção ao lugar onde estivera o vilarejo. Enquanto se aproximava do lugar, uma grande onda de cheiro de canela penetrou em suas narinas, transportada pelo vento que ainda soprava o topo das dunas. Sheeana percebeu então o que tinha acontecido.

Desastrosamente, o vilarejo se erguera no topo de uma erupção de pré-especiaria.

Enquanto o grande tesouro, bem debaixo da areia, amadurecia, expandindo-se numa explosão de melange, Shaitan viera. Toda criança sabia que Shaitan não resistiria a um estouro de especiaria.

O ódio e o desespero começaram a tomar conta de Sheeana. Agindo loucamente, ela correu duna abaixo, em direção a Shaitan, aproximando-se do verme por trás, enquanto ele se virava para voltar pelo trecho de areia seca por onde penetrara no vilarejo. Sem pensar, ela correu ao lado da cauda, pulou nela e subiu ao longo do grande dorso formado por anéis sucessivos. No calombo, atrás da boca, agachou-se e bateu com os punhos contra a superfície dura.

O verme parou.

O ódio subitamente convertido em terror, Sheeana parou de golpear a criatura.

Só então percebeu que estivera gritando. Um terrível sentimento de estar exposta e solitária tomou conta dela. Não sabia como fora parar ali em cima. Sabia apenas onde estava, e isso a dominou com a agonia de um pavor imenso.

O verme continuava imóvel na areia.

Sheeana não sabia o que fazer. A qualquer momento a criatura poderia rolar e esmagá-la. Ou poderia mergulhar, deixando-a na superfície para ser engolida facilmente.

De repente, um tremor propagou-se ao longo do verme, da cauda até o ponto onde Sheeana se encontrava, logo atrás da boca. A criatura começou a avançar em linha reta, depois fez uma curva ampla e ganhou velocidade rumando para nordeste.

Sheeana inclinou-se para a frente e agarrou a beirada dianteira de um dos anéis do verme. Temia que a qualquer momento ele pudesse mergulhar na areia. Que faria então? Mas Shaitan não se enterrou. E enquanto os minutos passavam sem que houvesse qualquer mudança no curso retilíneo ou na rápida passagem da criatura através das dunas, Sheeana encontrou sua mente funcionando uma vez mais. Sabia o que estava fazendo. Os sacerdotes do Deus Dividido proibiam que os vermes fossem cavalgados, mas as histórias, tanto a escrita quanto a oral, afirmavam que os Fremen tinham feito coisa semelhante nos tempos antigos. Os Fremen colocavam-se então no alto das costas de Shaitan, seguros por varas delgadas com ganchos nas extremidades.

Os sacerdotes diziam que isso fora feito antes que Leto II compartilhasse de sua consciência com o Deus do deserto. Agora, não se permitiria coisa alguma que pudesse aviltar os fragmentos dispersos de Leto II.

Com uma velocidade que a deixou atônita, o verme a transportou em direção à forma enevoada de Keen. A grande cidade aparecia como miragem no horizonte distorcido. O fino manto de Sheeana chicoteava na fina espessura de seu traje-destilador remendado. Seus dedos doíam no ponto onde ela se agarrava a borda dianteira do grande anel. O cheiro de canela, pedra queimada e ozônio produzido pela troca de calor do verme a atingia a cada mudança de vento A cidade de Keen começou a se tornar mais definida à frente dela. “Os sacerdotes vão me ver e ficarão furiosos”, pensou.

Já podia identificar as estruturas baixas, feitas de tijolos, que marcavam a primeira linha de qanats e, além delas, a superfície curva dos aquedutos. Acima dessas estruturas erguiam-se os patamares sucessivos de jardins suspensos e os perfis elevados das enormes armadilhas de vento. Depois, o complexo do templo com suas próprias barreiras.

Um dia de marcha através da areia reduzido a pouco mais de uma hora!

Seus pais e os vizinhos do vilarejo tinham feito essa jornada muitas vezes para comerciar e comparecer às danças, mas Sheeana os acompanhara somente duas vezes.

Lembrava-se das danças e da violência que geralmente se seguia. O tamanho de Keen a enchia de espanto. Tantos prédios! Tanta gente! Shaitan não poderia causar danos a um lugar assim.

Mas o verme continuava avançando como se fosse passar por cima do qanat e do aqueduto. Sheeana olhava para a cidade, erguendo-se cada vez mais diante dela. O

fascínio que sentia dominou-lhe o terror. Shaitan não ia parar!

Mas o verme parou.

As aberturas tubulares de ventilação do qanat encontravam-se a não mais que 50 metros diante da imensa boca aberta. Ela sentiu o cheiro do hálito quente de canela e ouviu o rumor surdo no interior da fornalha de Shaitan.

Tornou-se evidente, afinal, que sua jornada tinha terminado. Lentamente, Sheeana soltou a borda do anel. Ficou de pé esperando que a qualquer momento o verme recomeçasse o seu movimento. Shaitan permaneceu quieto. Movendo-se com cautela, ela saiu de seu posto e pulou na areia. Parou ali por momento. Será que ele ia se mover? Um vago desejo de correr para o qanat passou por sua cabeça, mas o verme a fascinava. Tropeçando e escorregando na areia revolta, Sheeana caminhou até a parte dianteira do verme. Dentro da moldura circular de dentes de cristal, chamas avançavam e recuavam. Um sopro quente de odores de especiaria passou sobre ela.

A loucura da primeira corrida, descendo a duna até o verme, voltou à sua memória.

— Maldito seja Shaitan! — gritou ela, sacudindo um punho em direção àquela boca assombrosa. — Que foi que algum dia lhe fizemos de mal?

Eram palavras que ela tinha ouvido sua mãe dizer ante a destruição de uma horta de trufa. Nenhuma parte de sua consciência jamais questionou aquele nome, Shaitan, nem a fúria de sua mãe. Ela viera da gente mais pobre, da classe inferior de Rakis, e sabia muito bem disso. Sua gente acreditava primeiro em Shaitan e depois no Shai-hulud. Vermes eram vermes e freqüentemente coisa ainda pior. Não havia justiça no deserto. Somente o perigo rondava por lá. A pobreza e o temor aos sacerdotes podiam empurrar sua gente para perigosas dunas, mas eles se moviam com a mesma persistência irada que impulsionara os Fremen.

Dessa vez, entretanto, Shaitan tinha vencido.

Finalmente chegou à consciência de Sheeana afato de que se encontrava bem no meio da trilha mortal. Seus pensamentos, ainda não inteiramente formados, reconheceram que tinha feito uma coisa maluca. Muito tempo depois, quando os ensinamentos da Irmandade já lhe moldavam a consciência, ela percebia ter sido dominada pelo horror à solidão. Quisera que Shaitan a levasse para a companhia de seus mortos.

Um som rapante partiu de debaixo do verme.

Sheeana sufocou um grito.

Lentamente a princípio, depois cada vez mais rápido, o verme recuou vários metros, virou-se e ganhou velocidade ao lado da trilha que escavara ao sair do deserto.

O ruído de sua passagem diminuiu na distância e Sheeana se tornou consciente de outro som. Ergueu os olhos para o céu. O tuoc-tuoc de um ornitóptero dos sacerdotes passou sobre ela, roçando-a com sua sombra. A aeronave brilhava ao sol da manhã enquanto seguia o verme para o deserto.

Sheeana sentiu então um medo mais familiar.

“Os sacerdotes!”

Manteve os olhos no tóptero, que pairou ao longe e depois retornou para pousar suavemente sobre um trecho de areia aplainado pelo ver-me. Sheeana podia sentir o odor de lubrificantes e a doentia acridez de combustível do tóptero. A coisa era como um gigantesco inseto aninhado na areia, esperando para saltar sobre ela.

Uma comporta se abriu.

Sheeana encolheu os ombros e se manteve no mesmo lugar. Muito bem, eles a tinham apanhado e ela sabia o que esperar agora. Não ganharia nada fugindo.

Somente os sacerdotes usavam tópteros, eles podiam ir a qualquer lugar e ver tudo.

Dois sacerdotes envoltos em ricos mantos, vestes de cor branca e dourada com bainhas roxas, saíram correndo pela areia em sua direção. Ambos ajoelharam-se diante de Sheeana, tão perto que ela podia sentir o odor da transpiração de ambos e o incenso de melange que permeava suas roupas. Eles eram jovens, mas muito semelhantes a todos os sacerdotes de que podia lembrar-se: feições suaves, mãos desprovidas de calos, descuidados quanto à perda de umidade. Nenhum deles usava um traje-destilador por baixo daqueles mantos.

O que estava à esquerda, os olhos no mesmo nível dos de Sheeana, falou.

— Filha do Shai-hulud, nós vimos seu Pai trazê-la de suas terras. As palavras não faziam sentido para Sheeana. Sacerdotes eram homens que deviam ser temidos.

Seus pais e todos os adultos a quem conhecera lhe haviam transmitido essa idéia com palavras e ações. Os sacerdotes possuíam ornitópteros. Os sacerdotes jogavam você para Shaitan pela menor infração, ou as vezes sem qualquer motivo, apenas por capricho. Sua gente conhecia muitos casos.

Sheeana recuou ante os homens que se ajoelhavam e olhou à sua volta. Para onde poderia correr?

Aquele que tinha falado ergueu uma mão suplicante.

— Fique conosco.

— Vocês são maus.

A voz de Sheeana estava cheia de emoção.

Ambos os sacerdotes prostraram-se na areia.

Bem longe, nas torres da cidade, a luz do sol brilhou em lentes. Sheeana viu o reflexo. Conhecia bem esse tipo de brilho. Nas cidades, os sacerdotes sempre observavam as pessoas. Quando se via o reflexo das lentes, era hora de ser inconspícuo, de ser “bonzinho”.

Sheeana bateu com as mãos diante de si para que parassem de tremer. Olhou para a esquerda e para a direita, depois para os dois sacerdotes prostrados. Alguma coisa estava errada.

Com as cabeças na areia, os dois sacerdotes tremiam de medo e esperavam.

Nenhum dos dois falava.

Sheeana não sabia como responder. O impacto de suas experiências recentes não podia ser absorvido pela mente de uma criança de oito anos. Ela só sabia que seus pais e todos os seus vizinhos tinham sido engolidos pôr Shaitan. Seus próprios olhos tinham testemunhado isso. E Shaitan a trouxera para cá, recusando-se a lançá-la em seus terríveis fogos. Fora poupada.

Essa era uma palavra que podia entender. “Poupada”. Fora-lhe explicado quando ela aprendera a dançar ao som daquela canção.

“Poupe-nos Shai-hulud!

Lave Shaitan para longe...”

Lentamente, não querendo perturbar os dois sacerdotes prostrados, Sheeana começou os movimentos não-rítimicos da dança. À medida que a música era lembrada com mais força, abriu os braços e começou a erguer os pés em movimentos imponentes. Seu corpo girou, lentamente a princípio, depois cada vez mais rápido, na medida em que o êxtase da música aumentava. Seu longo cabelo castanho chicoteava em torno de seu rosto.

Os dois sacerdotes atreveram-se a erguer as cabeças. A estranha criança estava dançando. A Dança! Ambos reconheceram os movimentos:

A Dança da Conciliação. Ela pedia ao Shai-hulud que perdoasse o seu povo.

Pedia a Deus para perdoá-los!

Eles voltaram as cabeças a fim de olhar um para o outro e juntos começaram a oscilar sobre os joelhos. Depois bateram palmas no antigo ritmo para distrair a dançarina. As mãos batiam ritmicamente e eles cantavam os antigos versos:

“Nossos pais bebiam o maná do deserto, Nos lugares flamejantes de onde vinham os redemoinhos.”

Os sacerdotes excluíram tudo de sua percepção, exceto a criança. Era uma criatura esguia, percebiam eles, com pernas e braços finos e musculatura elástica. O

manto e o traje-destilador estavam gastos e remendados, como os usados pela gente mais pobre. As maçãs do rosto eram proeminentes, lançando sombras sobre a pele cor de oliva. Olhos castanhos, notaram. Fios de sol avermelhado escorrendo pelos cabelos. Havia em sua compleição a magreza daqueles que poupavam a água — nariz e queixo finos, testa larga, boca ampla e fina, pescoço longo. Ela se parecia com os retratos feitos pelos Fremen dos mais sagrado entre os sagrados em Dar-es-Balat. É

claro! A filha do Shai-hulud devia ter esse aspecto.

Ela dançava bem. Não havia um ritmo facilmente copiável em seus movimentos. Havia ritmo, sim, mas uma cadência admiravelmente longa, pelo menos com 100 passos de separação. Ela a manteve enquanto o sol se erguia cada vez mais alto. Era quase meio-dia quando a menina caiu exausta na areia.

Os sacerdotes levantaram-se, olhando para o deserto de onde viera o Shai-hulud. Os pés batendo no chão ao som da dança não o tinham invocado a voltar. Eles estavam perdoados.

E assim a nova vida de Sheeana começou.

Falando alto em seus alojamentos, durante muitos dias, os sacerdotes mais graduados discutiram a respeito dela. Por fim levaram seus relatórios e pontos de vista para o Alto Sacerdote Hedley Tuek. O encontro aconteceu no meio da tarde, dentro do Salão de Pequenas Assembléias, Tuek e seis sacerdotes conselheiros estavam lá.

Murais representavam Leto II, um rosto humano numa grande forma de verme a olhar para eles com benevolência.

Tuek sentou-se num banco de pedra que fora encontrado no Sietch do Passo

dos Ventos. Uma das pernas ainda trazia esculpida a marca de um falcão Atreides.

Seus conselheiros ocupavam bancos mais modernos, voltados para ele.

O Alto Sacerdote era uma figura imponente, com cabelos grisalhos muito bem penteados que chegavam até os ombros, moldura adequada para o rosto quadrado com boca larga e espessa, e queixo grosso. Os olhos de Tuek retinham o branco original, cercando pupilas azuis-escuras. Sobrancelhas espessas e emaranhadas, de cor castanho acizentado, sombreavam-lhe os olhos.

Os conselheiros formavam um grupo variado. Descendentes de antigas famílias de sacerdotes, cada qual tinha no coração a crença de que tudo sairia melhor se ele estivesse sentado no banco de Tuek.

O magro Stiros, de rosto enrugado, colocou-se como porta-voz da oposição:

— Ela não passa de uma órfã do deserto. Cavalgou o Shai-hulud. Isso é proibido e a punição, obrigatória!

Outros falaram imediatamente.

— Não! Não, Stiros. Você não entendeu! Ela não montou nas costas do Shai-hulud como faziam os Fremen. Ela não tinha ganchos produtor nem...

Stiros tentou calá-los.

Era um empate, percebeu Tuek: três a três, com Umphrud, um gordo hedonista, como advogado da “cautelosa aceitação”.

— Ela não tinha meios de guiar o curso do Shai-hulud — argumentou Umphrud. — E todos nós vimos como ela desceu para a areia sem medo e falou com ele.

Sim, todos tinham visto isso, ou na ocasião em que ocorrera ou na holofoto que um observador atento tivera o cuidado de tirar. Órfã do deserto ou não, ela havia confrontado o Shai-hulud e conversado com Ele. E o Shai-hulud não a engolfara. Não, realmente. O Verme-de-Deus tinha recuado ao comando da criança e retornado para o deserto.

— Nós vamos testá-la — disse Tuek.

No início da manhã seguinte, um ornitóptero pilotado pelos dois sacerdotes que a tinham trazido do deserto levou Sheeana para bem longe, fora do alcance das vistas da população de Keen. Os sacerdotes deixaram-na no topo de uma duna e plantaram sobre a areia a cópia meticulosa de um batedor Fremen. Quando o pino de segurança do batedor foi retirado, uma batida forte reverberou através do deserto —

o ancestral chamado do Shai-hulud. Os sacerdotes fugiram para o ornitóptero e esperaram bem no alto, enquanto uma aterrorizada Sheeana, seus piores temores concretizando-se, esperou sozinha a uns 20 metros de distância do engenho percussor.

Dois vermes vieram. Não eram os maiores que os sacerdotes já tinham visto, cada qual com não mais que 30 metros de comprimento. Um deles engoliu o batedor e o silenciou. Juntos eles circularam em trilhas paralelas e pararam lado a lado, a não mais de seis metros de Sheeana.

Ela esperava submissa, os punhos fechados na extremidade dos braços unidos ao lado do corpo. Era isso que os sacerdotes faziam: jogavam as pessoas como comida para Shaitan.

Em seu tóptero, pairando no ar, os dois sacerdotes observavam fascinados.

Suas lentes transmitiam a cena até os observadores, igualmente fascinados, nos alojamentos do Alto Sacerdote, em Keen. Todos eles já tinham visto algo similar anteriormente. Era uma punição-padrão, um modo conveniente de eliminar oposicionistas em meio à população ou entre os sacerdotes, ou de abrir caminho para a aquisição de uma nova concubina. Mas nunca antes eles tinham visto uma criança solitária como vitima. E uma criança como aquela!

Os Vermes de Deus arrastaram-se lentamente para a frente depois de sua primeira parada. E mais uma vez ficaram imóveis a apenas três metros de Sheeana.

Resignada ante seu destino, ela não correu. Logo, pensou, estaria junto com seus pais e amigos. E, enquanto os vermes permaneciam imóveis, a raiva substituiu seu terror. Os sacerdotes perversos a tinham deixado ali! Podia ouvir o tóptero deles lá em cima. O quente perfume da especiaria vindo dos vermes preenchia o ar à sua volta. De súbito, ela ergueu a mão direita e apontou para o tóptero.

— Andem! Me devorem! E isso que eles querem!

Os sacerdotes lá em cima não podiam ouvir suas palavras, mas seu gesto era visível e eles podiam perceber que a menina falava com os dois Vermes de Deus, o dedo apontado para eles não devia significar boa coisa.

Os vermes não se mexiam.

Sheeana abaixou a mão.

— Vocês mataram minha mãe, meu pai e todos os meus amigos! — acusou ela, dando um passo à frente e sacudindo o punho para eles.

Os vermes recuaram, mantendo a distância.

— Se não me querem, voltem para o lugar de onde vieram!

Ela gesticulou para o deserto.

Obedientemente, as duas criaturas recuaram, virando-se num movimento único.

Os dois sacerdotes no tóptero rastrearam os dois vermes até que eles mergulharam na areia, a mais de um quilômetro de distância. Só então voltaram, cheios de medo e ansiedade. Apanharam das areias a filha do Shai-hulud e a levaram de volta para Keen.

A embaixada da Bene Gesserit em Keen já recebera um relatório completo ao cair da noite. E a noticia já estava a caminho do planeta da Irmandade na manhã seguinte.

Tinha acontecido, afinal!

O problema com determinadas espécies de guerra (e podem estar certos de que o Tirano sabia disso devido à sua lição implícita) é que elas destrõem toda a decência moral em certos tipos suscetíveis.

Uma guerra dessa modalidade lançará os sobreviventes destroçados no meio de uma população inocente que será incapaz sequer de imaginar o que esses soldados, voltando da guerra, poderão fazer.

— Ensinamentos do Caminho Dourado, Arquivos da Bene Gesserit Uma das memórias mais recuadas no tempo que Miles Teg possuía era a de estar sentado para jantar com seus pais e um irmão mais jovem, Sabine. Teg tinha apenas sete anos na ocasião, mas os acontecimentos ficaram marcados indelevelmente em sua memória: a sala de jantar em Lernaeus, colorida com flores recentemente cortadas, a luz baixa de um sol amarelo no horizonte sendo difundida por antigas venezianas. Louça azul brilhante e pratarias adornavam a mesa. Servas acólitas, atentas, esperavam por perto, pois sua mãe podia ser permanentemente afastada, em missão especial para a Irmandade, mas sua função como professora Bene Gesserit não devia ser desperdiçada.

Janet Roxbrough-Teg, mulher que parecia ideal para o papel de grande dama, olhou de uma extremidade a outra da mesa, observando os preparativos para o jantar e verificando a disposição dos talheres. Loschy Teg, pai de Miles, sempre observava tudo com um ligeiro ar de divertimento. Era um homem alto e magro, com testa ampla e rosto tão estreito que seus olhos escuros pareciam projetar-se lateralmente. O

cabelo preto era um contraponto perfeito para o louro da esposa.

Acima dos sons abafados do jantar e do rico perfume da sopa de especiaria, a mãe instruía o pai quanto à maneira de enfrentar um inoportuno Comerciante Livre.

Ao mencionar a palavra “Tleilaxu”, ela captou toda a atenção de Miles. Sua educação havia recentemente abordado os Bene Tleilax.

Mesmo Sabine, que sucumbiria muitos anos depois a um envenenador em Romo, ouvia com toda a atenção que sua idade de quatro anos podia permitir. Sabine adorava o irmão como a um herói. Qualquer coisa que captasse a atenção de Miles seria de interesse para Sabine. Os dois meninos ouviam em silêncio.

— O homem é testa-de-ferro dos Tleilaxu — dizia Lady Janet. — Posso notar isso em sua voz.

— Eu não duvido de sua capacidade de perceber essas coisas, querida — disse Loschy Teg. — Mas que devo fazer? Ele tem os créditos adequados e deseja comprar o...

— O pedido de arroz não tem muita importância por enquanto. Mas nunca presuma que aquilo que um Dançarino Facial parece buscar é o que ele realmente quer.

— Tenho certeza de que ele não é um Dançarino Facial. Ele...

— Loschy! Sei que você aprendeu muito bem o que lhe ensinei e pode detectar um Dançarino Facial. Concordo em que o Comerciante Livre não é um deles.

Os Dançarmos Faciais ficaram em sua nave. Sabem que estou aqui.

— E sabem que não poderiam enganá-la. Sim, mas...

— A estratégia dos Tleilaxu é sempre uma teia de estratégias, qualquer uma das quais pode ser a verdadeira. Eles aprenderam isso conosco.

— Minha querida, se estamos lidando com os Tleilaxu, e neste ponto eu não questiono o seu julgamento, então passamos a tratar de uma questão de melange.

Lady Janet assentiu levemente com a cabeça De tato, até mesmo Miles já sabia da ligação dos Tleilaxu com a especiaria. Era uma das coisas que o fascinavam a respeito deles. Para cada miligrama de melange produzido em Rakis, os tanques dos Bene Tlailax produziam toneladas. O uso da melange ampliara-se de acordo com o novo suprimento, e mesmo a Corporação Espacial se ajoelhava ante os novos poderosos.

— Mas o arroz... — arriscou Loschy Teg.

— Meu querido marido, os Bene Tleilax não têm utilidade para tanto arroz pongi em nosso setor. Eles o querem para comerciar. E nós precisamos descobrir quem realmente precisa do arroz.

— Você quer que eu atrase a venda?

— Precisamente. Você é soberbo no tipo de sagacidade de que necessitamos agora. Não dê àquele Comerciante Livre a chance de dizer sim ou não. Uma pessoa treinada pelos Dançarmos Faciais apreciará tal sutileza.

— Nós atrairemos os Dançarmos Faciais para fora da nave enquanto você inicia as investigações em outro lugar.

Lady Janet sorriu.

— Você é adorável quando salta na minha frente desse modo.

Um olhar de compreensão passou entre os dois.

— Ele não conseguirá outro fornecedor neste setor — comentou Loschy Teg.

— E evitará uma confrontação, uma escolha do tipo insista ou desista — disse Lady Janet batendo na mesa. — Atrasos, atrasos e mais atrasos. Você deve atrair os Dançarmos Faciais para fora da nave.

— Eles vão perceber, é claro.

— Sim, meu querido, e isso é perigoso. Você deve sempre confrontá-los em nosso próprio campo e com nossos guardas em volta.

Miles Teg lembrava que seu pai de fato conseguira atrair os Dançarinos Faciais para fora da nave. A mãe levara Miles para junto da tela de observação, pela qual puderam observar a sala de paredes revestidas de cobre onde seu pai fez o negócio que lhe granjeou os mais altos elogios da CHOAM, além de um rico bônus.

Os primeiros Dançarmos Faciais que Miles já vira: dois homenzinhos que pareciam gêmeos. Rostos redondos, quase sem queixo, narizes chatos, bocas pequeninas, olhos negros e redondos como botões, cabelos brancos, cortados curtos, que se erguiam em pé na cabeça como as cerdas de uma escova. Os dois estavam vestidos da mesma maneira que o Comerciante Livre: calças e túnicas negras.

— Ilusão, Miles — disse-lhe a mãe. — A ilusão é o modo de vida deles. Criar ilusões para conquistar objetivos reais, é assim que trabalham os Tleilaxu.