Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 8 · parte 1/3

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Os Hereges de Duna

— Como o mágico no Festival de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Como o mágico no Festival de Inverno? — indagou Miles, o olhar atento à tela de visão e sua imagem em miniatura.

— Bem parecido — concordou a mãe.

Ela também observava a tela de visão, mas um de seus braços se colocou protetoramente em torno do filho.

— Você está olhando para o mal, Miles. Estude-o cuidadosamente. Os rostos que você vê podem modificar-se instantaneamente. Eles podem ficar mais altos ou mais gordos. Podem imitar a aparência do seu pai de tal modo que só eu reconheceria a substituição.

A boca de Miles Teg formou um “Oh” mudo. Ele olhou para a tela, ouvindo seu pai explicar que o preço do arroz pongi na CHOAM tinha subido novamente, e de forma alarmante.

— E a coisa mais terrível de todas — disse a mãe — é que alguns dos novos Dançarinos Faciais podem absorver algumas memórias da vítima simplesmente tocando-lhe a pele.

— Eles lêem as mentes?

Miles olhou para a mãe.

— Não exatamente. Achamos que eles tiram uma impressão das memórias, quase como num processo de holofotografia. Ainda não sabem que temos conhecimento disso.

Miles entendia. Não deveria falar sobre isso com ninguém, nem mesmo com seu pai ou sua mãe. Ela lhe ensinara o costume Bene Gesserit de guardar segredo, e ele observou as figuras na tela com cuidado.

Ante as palavras de seu pai, os Dançarmos Faciais não demonstravam qualquer emoção, mas seus olhos pareciam cintilar com maior brilho.

— Como eles se tornam tão maus? — perguntou Miles.

— Eles são seres comunais, criados para não se identificarem com nenhum rosto nem forma. A aparência que apresentam agora é para que eu os veja. Sabem que os estou observando. Por isso relaxaram, adotando sua forma comunal natural.

Guarde-a com atenção.

Miles inclinou a cabeça para um lado e examinou os Dançarmos Faciais. Eles pareciam meigos e tolos.

— Eles não possuem senso de identidade própria — explicou a mãe.

— Possuem apenas o instinto de preservar suas próprias vidas, a menos que recebam a ordem de morrer por seus senhores.

— E eles fazem isso?

— Já fizeram muitas vezes.

— E quem são os seus senhores?

— Homens que raramente deixam os planetas dos Bene Tleilax.

— Eles têm filhos?

— Não os Dançarmos Faciais. Estes são híbridos, estéreis. Mas seus senhores procriam. Nós já nos unimos a alguns deles, mas a prole é sempre muito estranha.

Nascem poucas meninas, e mesmo com essas somos incapazes de sondar as Memórias Anteriores.

Miles franziu a testa. Sabia que sua mãe era uma Bene Gesserit. E tinha o conhecimento de que as Reverendas Madres guardavam consigo um maravilhoso reservatório de Memórias Anteriores que recuavam através de todos os milênios de existência da Irmandade. Conhecia até mesmo alguns detalhes do projeto de procriação da Bene Gesserit. As Reverendas Madres escolhiam certos homens em especial e tinham filhos com esses homens.

— Como são as mulheres Tleilaxu?

Era uma pergunta inteligente que produziu uma onda de orgulho em Lady Janet. Sim, era quase certo que ela tivesse ali um Mentat em potencial. As encarregadas da procriação estavam certas quanto ao potencial genético de Loschy Teg.

— Ninguém, fora de seus planetas, jamais relatou ter visto uma fêmea Tleilaxu

— explicou Lady Janet.

— E elas existem ou são apenas os tanques?

— Elas existem.

— Serão mulheres alguns dos Dançarmos Faciais?

— Mediante sua própria vontade, eles podem converter-se em machos ou fêmeas. Observe-os cuidadosamente. Eles sabem o que seu pai está fazendo e isso os deixa furiosos.

— Tentarão ferir meu pai?

— Não se atreveriam. Nós tomamos precauções e eles sabem disso. Observe como o da esquerda fica mexendo com o queixo. É um de seus sinais de raiva.

— Disse que eles eram... seres comunais.

— Como os insetos de uma colmeia, Miles. Não possuem identidade individual. E, não possuindo noção do “eu”, podem colocar-se além da moralidade.

Não se pode confiar em nada do que dizem ou fazem.

Miles estremeceu.

— Nunca fomos capazes de detectar um código de ética neles — explicou Lady Janet. — Eles são carne transformada em autômatos. Sem a noção do “eu”, não possuem nada para duvidar ou estimar. São criados apenas para obedecer a seus senhores.

— E receberam ordens de vir aqui e comprar o arroz?

— Exato. Disseram-lhes que o obtivessem e não há outro lugar neste setor onde possam fazê-lo.

— Devem comprá-lo de meu pai?

— É a única fonte de que dispõem. Neste exato momento, filho, eles estão

pagando com melange. Está vendo?

Miles viu as marcas marrom-alaranjadas de especiaria trocarem de mãos, uma pilha alta que um dos Dançarmos Faciais removeu de uma caixa no chão.

— O preço é muito mais elevado do que eles tinham previsto — disse Lady Janet. — Vai ser uma trilha fácil de ser seguida.

— Por quê?

— Alguém irá á falência adquirindo esse carregamento. Nós achamos que sabemos quem é o comprador. Mas, seja quem for, vamos descobrir logo. E então saberemos o que realmente está sendo comercializado aqui.

Lady Janet começou então a apontar as incongruências identificáveis que revelavam um Dançarino Facial ante olhos e ouvidos treinados. Eram sinais muito sutis, mas Miles os percebia imediatamente. Sua mãe então lhe disse que julgava que ele poderia tornar-se um Mentat... talvez até mais do que isso.

Pouco antes de seu 13º aniversário, Miles Teg foi enviado para a escola avançada na fortaleza da Bene Gesserit em Lampadas, onde o julgamento de sua mãe se confirmou. Ela recebeu a notícia de que sua avaliação tinha sido correta:

“Você nos deu o Mentat Guerreiro de que precisávamos.”

Teg não viu a nota até encontrá-la no dia em que remexia as coisas da mãe, escolhendo o que devia ser guardado depois da morte dela. As palavras, escritas numa pequena folha de cristal roduliano, com a marca da Irmandade embaixo, deram-lhe um estranho senso de deslocamento no tempo. Sua memória o colocou subitamente de volta em lampadas, onde o amor-admiração que sentia pela mãe fora habilmente transferido para a Irmandade, tal como originalmente planejado. Só viera a entender isso mais tarde, durante seu treinamento final como Mentat, mas a compreensão mudou muito pouco. Se muito, acabou por ligá-lo ainda mais à Bene Gesserit, confirmando que a Irmandade devia ser uma de suas forças. Ele já sabia que a Bene Gesserit era uma das forças mais poderosas de seu universo — no mínimo igual à Corporação Espacial, superior ao Conselho das Oradoras Peixes, que herdara o núcleo do antigo Império Atreides, muito superior, de longe, à CHOAM, e em igualdade de condições com a Bene Tleilax e os fabricantes de máquinas de Ix. Uma pequena amostra do poder da Bene Gesserit era o fato de elas manterem sua autoridade a despeito de a melange cultivada em tanques dos Tleilaxu ter destruído o monopólio rakiano da especiaria, exatamente como as máquinas de navegação ixianas tinham destruído o monopólio da Corporação em relação as viagens espaciais.

Então Miles já conhecia sua história muito bem. Os Navegadores da Corporação não eram mais os únicos que podiam passar uma nave através das dobras do espaço — nesta galáxia num instante, numa galáxia longínqua no espaço de uma batida de coração.

Suas professoras da Escola de Irmãs ocultaram-lhe muito pouco, revelando inclusive sua descendência dos Atreides. Essa revelação fora necessária devido aos testes a que o tinham submetido. Obviamente o estavam testando para verificar se

tinha poderes de presciência. Será que poderia, como um Navegador, detectar obstruções fatais? Ele fracassou. Depois o testaram em não-câmaras e não-naves.

Revelou-se tão cego a tais engenhos como o restante da humanidade. Para esse teste, entretanto, elas o alimentaram com doses crescentes de especiaria, e Miles sentiu o despertar de seu Verdadeiro Eu.

“A Mente no seu Princípio”, foi como o chamou uma Irmã professora quando ele lhe perguntou sobre as curiosas sensações que sentia.

Durante algum tempo o universo parecia mágico e ele o olhava através de sua nova capacidade de percepção. Sua consciência tornou-se um círculo, depois um globo. Formas arbitrárias tornaram-se transitórias. Ele caía sem aviso num estado de transe até que as Irmãs lhe ensinaram o modo de controlar esse poder. Forneceram-lhe relatos de santos e de místicos, e o forçaram a traçar um círculo com ambas as mãos, seguindo a linha com a sua consciência.

No final desse período, sua consciência reassumiu o contato com os rótulos convencionais, mas a memória desse tempo mágico nunca mais o abandonou. Ele passou a usar essa lembrança como uma fonte de força e resistência nas ocasiões mais difíceis. Depois de aceitar o trabalho como Mestre de Armas para o ghola, Teg sentiu que essa mágica lembrança se tornava mais forte dentro de si. Ela foi especialmente útil durante sua primeira entrevista com Schwangyu no Castelo de Gammu. Os dois encontraram-se no estúdio da Reverenda Madre, um lugar de paredes de metal brilhante e numerosos instrumentos, a maioria com o rótulo de Ix. Até mesmo a cadeira onde ela se sentava, com o sol da manhã brilhando por trás, pela janela, e tornando seu rosto difícil de ser visto, essa cadeira era um modelo ixiano automoldável. Ele foi forçado a se sentar em uma cadeira-cão, muito embora tivesse certeza de que ela conhecia sua aversão ao uso de uma forma de vida para função tão humilhante.

— Você foi escolhido porque tem uma imagem de avô — disse Schwangyu. A luz brilhante do sol formando um halo em torno de sua cabeça envolta no capuz.

“Deliberado!” — Sua sabedoria conquistará o amor e o respeito da criança.

— Não há modo de eu me tornar um figura paterna?

— De acordo com Taraza, você tem as características exatas de que ela precisa. E sei de suas honoráveis cicatrizes e do valor que possui para nós.

Isso só confirmava sua conclusão Mentat anterior. “Elas estavam planejando isso há muito tempo. Procriaram-me com esse objetivo. Nasci para isso. Sou parte do grande plano delas.”

Tudo que ele disse foi:

— Taraza espera que essa criança se torne um guerreiro formidável quando recuperar sua verdadeira identidade.

Schwangyu apenas olhou para ele por um momento, depois disse:

— Você não deve responder nenhuma das perguntas dele a respeito de gholas,

caso ele toque no assunto. Nem mesmo use essa palavra na presença dele até que eu lhe dê permissão para isso. Vamos fornecer-lhe todos os dados a respeito de gholas que seu trabalho exigirá.

Calculando friamente suas palavras no sentido de obter o efeito máximo, Teg disse:

— Talvez a Reverenda Madre desconheça que sou bem versado em todos os fatos a respeito de gholas Tleilaxu. Já enfrentei os Tleilaxu em batalha.

— E acha que conhece o suficiente a respeito da série Idaho?

— Os Idaho têm a fama de ser brilhantes estrategistas militares.

— Então talvez o grande Bashar não esteja informado quanto as demais características do nosso ghola.

Não havia dúvida quanto ao tom zombeteiro na voz. E havia mais alguma coisa: ciúme e muita raiva mal dissimulados. A mãe de Teg lhe havia ensinado os modos de ver as emoções além dos disfarces, ensinamento proibido que ele sempre escondera. Fingiu desapontamento e encolheu os ombros.

Era óbvio, entretanto, que Schwangyu sabia que ele era o Bashar de Taraza.

Uma linha de separação fora traçada.

— Por ordem da Bene Gesserit — disse Schwangyu os Tleilaxu fizeram uma pequena alteração, embora significativa, na atual série Idaho. Seu sistema neuromuscular foi modernizado.

— Sem mudar a persona original?

Teg dirigiu-lhe a pergunta imaginando como ela se revelaria.

— Ele é um ghola, não um clone!

— Percebo.

— Percebe realmente? Ele precisa do mais cuidadoso treinamento prana-bindu em todos os estágios.

— Foram as ordens de Taraza — disse Teg. — E nós todos obedeceremos.

Schwangyu inclinou-se para a frente, não escondendo seu ódio.

— Pedem-lhe que treine um ghola cujo papel, em certos planos, será extremamente perigoso para todos nós. Não creio que compreenda mesmo remotamente o que vai treinar!

O que vai treinar. Não quem vai treinar. Essa criança- ghola nunca seria alguém para Schwangyu ou para qualquer uma das outras que se opunham a Taraza. Talvez o ghola não fosse realmente alguém até ter restaurada sua identidade original. Até assumir firmemente a identidade do Duncan Idaho original.

Teg percebia agora que Schwangyu tinha mais do que reservas ocultas ao projeto ghola. Ela exercia uma oposição ativa, exatamente como Taraza tinha avisado.

Schwangyu era o inimigo e as ordens de Taraza tinham sido explícitas.

— Você deve proteger essa criança de qualquer ameaça.

Dez mil anos já se passaram desde que Leto II iniciou sua metamorfose de ser humano para verme de areia de Rakis, e os historiadores ainda debatem quais teriam sido seus motivos. Teria sido ele motivado pelo desejo de uma longa vida? Ele viveu mais de 10 vezes o tempo de vida padrão de 300 AP, mas consideremos o preço que pagou. Teria sido atraído pelo poder? Ele foi chamado de Tirano por bons motivos, mas que foi que o poder lhe trouxe que um ser humano pudesse desejar?

Teria sido impulsionado pelo desejo de salvar a humanidade de si própria? Nós temos apenas seus próprios registros a respeito de seu Caminho Dourado para responder essa pergunta, e não posso aceitar as palavras de Dar-es-Balat, que só serviram como justificativa para ele mesmo. Haveria outras gratificações que somente a experiência que ele tinha poderia ter esclarecido? Sem uma evidência maior, essa pergunta é discutível. Ficamos reduzidos apenas à constatação de que ele o

“fez”. Só o fato físico é inegável.

— A Metamorfose de Leto II, Conclusão do Discurso do 10.000º. Aniversário, por Gaus Andaud

Uma vez mais Waff se via em Lashkar, e dessa vez havia muito em jogo. Uma Honrada Madre da Dispersão exigira sua presença. Uma powindah dos powindah!

Descendentes dos Tleilaxu da Dispersão lhe haviam contado tudo que sabiam sobre essas mulheres terríveis.

— São muito mais terríveis do que as Reverendas Madres da Bene Gesserit —

disseram-lhe.

“E muito mais numerosas”, lembrou-se Waff.

Ele não confiava inteiramente nos descendentes de Tleilaxu que agora retornavam. Seus sotaques eram estranhos, suas maneiras, ainda mais estranhas, e o modo como realizavam os rituais, deveras questionável. Como poderiam ser readmitidos no Grande Kehl? Que possível ritual de ghufran seria capaz de purificá-los após todos esses séculos? Era inacreditável que tivessem mantido o segredo dos Tleilaxu ao longo das gerações.

Eles não eram mais irmãos-malik, e no entanto constituíam a única fonte de informação que os Tleilaxu possuíam a respeito dos Perdidos que agora retornavam. E

as revelações que tinham trazido! Revelações que tinham sido incorporadas aos gholas Duncan Idaho — isso valia todo o risco de contaminação pela maldade dos powindah.

O lugar de encontro com as Honradas Madres seria na presumida neutralidade de uma não-nave ixiana, colocada em órbita bem próxima em torno de um planeta gigante gasoso, mutuamente selecionado, num sistema solar já minerado pelo antigo Império. O próprio Profeta tinha esgotado toda a riqueza desse sistema solar. Novos Dançarinos Faciais faziam-se passar por ixianos entre a tripulação da não-nave, mas ainda assim Waff suava frio ante esse encontro. Se as Honradas Madres eram realmente mais terríveis do que as bruxas Bene Gesserit, será que a troca dos tripulantes ixianos por Dançarinos Faciais não seria detectada?

A escolha desse lugar de encontro e os preparativos necessários tinham colocado os Tleilaxu sob tensão. Seria seguro? Ele procurou tranqüilizar-se carregando consigo duas armas seladas que nunca tinham sido vistas fora dos planetas do núcleo Tleilaxu. As armas eram o resultado de um longo e doloroso esforço da parte dos artífices: dois minúsculos lançadores de dardos escondidos em suas mangas. Ele treinara com eles durante anos, até o ato de sacudir as mangas e disparar os dardos envenenados constituir um reflexo quase instintivo.

As paredes da sala de reunião tinham a cor de cobre adequada, indicando que estavam defendidas contra engenhos de espionagem ixianos. Mas que instrumentos o povo da Dispersão não poderia ter desenvolvido além do conhecimento ixiano?

Waff entrou na sala com um passo hesitante. A Honrada Madre já estava lá, sentada em uma cadeira de couro amarrado.

— Você vai me chamar como todo o mundo me chama — disse ela quando ele entrou. — Honrada Madre.

Ele se curvou como tinham lhe dito que fizesse.

— Honrada Madre.

Não havia indício de poderes ocultos na voz dela, um contralto baixo com subtonalidades que revelavam desdém em relação a ele. Ela parecia uma atleta ou acrobata envelhecida, aposentada mas ainda mantendo o tônus muscular e algumas de suas habilidades. A face tinha a pele esticada sobre um crânio com ossos proeminentes nas maçãs do rosto. A boca, de lábios finos, produzia uma aparência de arrogância quando ela falava, como se cada palavra fosse projetada para baixo, em direção a pessoas inferiores.

— Bem, venha e sente-se! — ordenou ela, acenando para a outra cadeira diante de si.

Waff ouviu o assovio da porta pressurizada fechando-se atrás deles. Estava sozinho com ela! Ela estava usando um detetor. Podia ver o fio do aparelho dirigindo-se para o seu ouvido esquerdo. Os lança-dardos de Waff tinham sido bem selados e

“lavados” contra detetores. Tinham sido mantidos a uma temperatura de menos 340°

Kelvin em banho de radiação durante cinco AP para se tornarem à prova de detetores. Será que isso tinha sido suficiente?

Devagar, ele se sentou na cadeira indicada.

Lentes de contato de cor laranja cobriam os olhos da Honrada Madre, dando-lhes a aparência de olhos de fera. Sem as lentes ela já era impressionante. Sem falar nas roupas que usava! Malha colante vermelha embaixo de um manto azul-escuro. A superfície do manto fora enfeitada com um estranho material nacarado que produzia arabescos curiosos e desenhos de dragão. Ela se sentava na cadeira como se esta fosse um trono, as mãos em garra repousando sobre os braços do móvel.

Waff olhou para a sala em torno. Sua gente tinha inspecionado esse aposento em companhia dos trabalhadores de manutenção ixianos e das representantes da Honrada Madre,

“Fizemos o melhor que podíamos”, pensou, e tentou relaxar. A Honrada Madre riu.

Waff olhou para ela aparentando tanta calma quanto conseguia simular.

— A senhora está me avaliando agora — acusou ele. — Está dizendo a si mesma que possui enormes recursos para empregar contra mim, instrumentos brutos e instrumentos sutis para realizar suas vontades.

— Não use esse tom de voz comigo.

As palavras saíram baixas e sem emoção, mas carregavam um peso de tamanho veneno que Waff quase recuou.

Ele olhou para a musculatura da perna da mulher, aquele tecido de malha vermelha fluindo sobre ela como se fosse parte orgânica de seu próprio corpo.

A hora do encontro fora ajustada para colocá-los juntos no que seria o meio-dia mútuo, o tempo em que haviam estado despertos tendo sido equilibrado durante a viagem. Ainda assim Waff se sentia deslocado e em desvantagem. Seriam verdadeiras as histórias de seus informantes? Ela devia ter algum tipo de arma consigo.

Sorriu para ele sem qualquer humor.

— Está tentando intimidar-me — disse Waff.

— E estou conseguindo.

A raiva percorreu o corpo do Waff. Ele a manteve fora de sua voz.

— Eu vim aqui a seu convite.

— Espero que não tenha vindo para se colocar num confronto que certamente iria perder — ela disse.

— Vim para estabelecer uma união entre nós — disse ele, enquanto se perguntava: “Que elas podem precisar de nós? Certamente devem precisar de alguma coisa.”

— Que união pode haver entre nós? — perguntou ela. — Você poderia erguer um prédio em cima de uma jangada em desintegração? Ah, acordos podem ser rompidos, e freqüentemente o são.

— Que estamos barganhando? — perguntou ele.

— Barganhando? Eu não estou barganhando. Estou interessada nesse ghola que você fez para as bruxas.

O tom de voz dela não revelava coisa alguma, mas as batidas do coração de Waff se aceleraram ante a pergunta.

Em uma de suas vidas como ghola, Waff havia treinado sob a orientação de um Mentat renegado. As capacidades de um Mentat encontravam-se além do seu alcance e além disso o raciocínio exigia palavras. Eles acabaram forçados a matar o Mentat powindah, mas aprenderam algumas coisas de valor com a experiência.

“Ataque e absorva os dados que o ataque produz!”

— A senhora não me oferece nada em troca — disse ele em voz alta.

— A recompensa está a meu critério.

Waff a olhou com zombaria.

— Está brincando comigo?

Ela mostrou os dentes brancos num sorriso feroz.

— Você não sobreviveria à brincadeira, nem eu desejaria brincar.

— Assim, dependo inteiramente de sua boa vontade!

— Dependência! — A palavra escapou-lhe da boca como se produzisse uma sensação desagradável. — Por que enviam esses gholas para as bruxas e então os matam?

Waff comprimiu os lábios e permaneceu em silêncio.

— Vocês mudaram esse ghola de algum modo, deixando-o ainda capaz de recuperar as memórias originais — disse ela.

— Vocês sabem um bocado! — admitiu Waff.

Não era zombaria e ele esperava não ter deixado transparecer coisa alguma.

“Espiões!” Ela tinha espiãs entre as bruxas! Haveria também um traidor no coração dos Tleilaxu?

— Existe uma menina em Rakis que figura nos planos das bruxas — disse a Honrada Madre.

— Como sabe disso?

— As bruxas não fazem um movimento sem que fiquemos sabendo! Você pensa em espiãs, mas não imagina até onde vai o nosso braço!

Waff estava impressionado. Como ela poderia ler sua mente? Teria sido alguma coisa que surgira da Dispersão? Um talento desenvolvido lá fora, onde a semente humana original não pudera observar?

— De que modo modificou esse ghola? — indagou ela.

“A voz!”

Waff, prevenido contra tais habilidades por seu professor Mentat, quase balbuciou uma resposta. Essas Honradas Madres possuíam alguns poderes das bruxas!

Era algo inesperado vindo da parte dela. Esperava-se tais coisas de uma Reverenda Madre, e se ficava preparado. Waff levou um momento para recuperar o equilíbrio, depois levou as mãos ao queixo.

— A senhora possui recursos interessantes — disse ele.

Uma expressão de moleque surgiu no rosto de Waff. Sabia como podia parecer desarmante.

“Ataque!”

— Sabemos o quanto já aprenderam da Bene Gesserit — ele disse.

Uma expressão de raiva passou pelo rosto dela e se foi.

— Elas não nos ensinaram nada!

Waff modulou a voz para um tom bem-humorado, lisonjeador.

— Certamente isto não é negociar.

— Não?

Ela parecia genuinamente surpresa.

Waff abaixou as mãos.

— Vamos, Honrada Madre, admita que está interessada nesse ghola. Fala em coisas de Rakis. Por que nos toma?

— Por muito pouco. Vocês se tornam menos úteis a cada instante.

Waff sentiu uma fria e mecânica lógica na resposta dela. Nada havia de Mentat ali, mas alguma coisa mais terrível. “Ela é capaz de me matar aqui mesmo!”

Onde estariam as armas dela? Será que ela precisaria de armas? Ele não gostava da aparência daqueles músculos, dos calos nas mãos dela, do brilho predador em seus olhos alaranjados. Será que ela poderia prever (ou mesmo saber) dos lança-dardos que ele trazia?

— Somos confrontadas por um problema que não pode ser resolvido com a lógica — disse ela.

Waff olhou para ela chocado. Um Mestre Zensunni teria dito isso! Ele próprio o dissera em mais de uma ocasião.

— Você provavelmente nunca considerou tal possibilidade — ela disse.

Foi como se as palavras tivessem arrancado uma máscara do rosto dela. Waff subitamente pôde enxergar além, até a pessoa fria e calculista por trás daquelas posturas. Será que ela o tomava por algum ser inferior, adequado apenas para colher lixo nas ruas?

Tentando transparecer tanta admiração hesitante quanto podia, ele perguntou: Como tal problema poderia ser resolvido?

— O curso natural dos acontecimentos vai fazê-lo desaparecer.

Waff continuou a olhar para ela em fingida incompreensão. As palavras dela não tinham qualquer tom de revelação. Ainda assim havia tanta coisa implícita! Ele disse:

— Suas palavras me deixam flutuando.

— A humanidade tornou-se infinita. Essa foi a verdadeira dádiva da Dispersão.

Waff lutou para esconder o torvelinho que tais palavras criavam.

— Infinitos universos, tempo infinito. Qualquer coisa pode acontecer — disse ele.

— Ah, você é um manikin muito brilhante — ela disse. — Como alguém pode levar em consideração possibilidades infinitas? Isso não é lógico.

Ela parecia, pensou ele, um daqueles antigos líderes do Jihad Butleriano que tinham tentado livrar a humanidade das mentes mecânicas. Essa Honrada Madre estava curiosamente obsoleta.

— Nossos ancestrais buscaram uma resposta nos computadores — provocou ele.

“Vamos ver como ela reage a isso!”

— Você já sabe que os computadores carecem de uma capacidade infinita de armazenagem.

Novamente as palavras dela o desconcertaram. Será que ela podia realmente

ler a mente? Seria uma forma de impressão cerebral? O que os Tleilaxu faziam com seus gholas e Dançarinos Faciais, outros poderiam fazer igualmente. Ele focalizou sua percepção e se concentrou nos ixianos e suas máquinas malignas. Máquinas powindah!

A Honrada Madre percorreu o aposento com o olhar.

— Estaremos enganadas em confiar nos ixianos? — perguntou ela. Waff prendeu a respiração.

— Não creio que confie neles verdadeiramente — ela comentou. — Vamos, homenzinho. Eu lhe ofereço minha boa vontade.

Tardiamente, Waff começou a suspeitar de que ela estava tentando ser sincera e amistosa com ele. Decerto já tinha colocado de lado toda aquela pose anterior de superioridade furiosa. Os informantes de Waff entre os Perdidos diziam que as Honradas Madres tomavam suas decisões de ordem sexual à maneira das Bene Gesserit.

Será que ela estava tentando ser sedutora? Não obstante ela tinha “compreendido”

claramente e apresentado as fraquezas da lógica.

Era tudo muito confuso!

— Nossa conversa está seguindo em círculos — ele disse.

— Muito pelo contrário. Círculos se fecham, abrangem, limitam. A humanidade não tem mais o seu crescimento limitado por questões de espaço.

Lá ia ela de novo! Ele falou com a língua seca:

— Costuma-se dizer que aquilo que não se pode controlar deve-se aceitar.

Ela inclinou-se para a frente, os olhos alaranjados atentos ao rosto dele.

— Você aceita a possibilidade de um desastre final para a Bene Tleilax?

— Se fosse esse o caso, não estaria aqui.

— Quando a lógica falha, outro instrumento deve ser usado.

Waff sorriu.

— Isso parece lógico.

— Não zombe de mim! Como se atreve!

Waff ergueu as mãos de modo defensivo e assumiu um tom de voz tranqüilizador.

— Que ferramenta sugere a Honrada Madre?

— Energia!

A resposta dela o surpreendeu.

— Energia? De que forma e quanta?

— Você pede respostas lógicas.

Com um sentimento de desapontamento e tristeza, Waff compreendeu que ela não era, afinal de contas, uma Zensunni. A Honrada Madre só fazia jogos com palavras nas fronteiras da ilogicidade, circundando-a. Sua ferramenta ainda era a lógica.

— A podridão do centro espalha-se para fora — disse ele.

Era como se ela não tivesse ouvido sua declaração de teste.

— Existe energia não-utilizada nas profundezas de qualquer ser humano que

nos dignanos a tocar — ela disse, estendendo um dedo magro até a distância de alguns milímetros do nariz dele.

Waff recuou em sua cadeira até ela abaixar o braço e comentou:

— Não foi o que as Bene Gesserit disseram antes de criar seu Kwisatz Haderach?

— Elas perderam o controle sobre si mesmas e, desse modo, sobre ele —

zombou a Honrada Madre.

Novamente Waff achou que ela usava lógica ao analisar o não-lógico. O

quanto lhe tinha revelado nesses pequenos lapsos... Ele já podia vislumbrar a provável história dessas Honradas Madres. Uma das Reverendas Madres verdadeiras, dos Fremen do Rakis, participara da Dispersão. Diversas pessoas tinham fugido nas não-naves durante e imediatamente após os Tempos da Fome. Uma não-nave havia semeado algum lugar, deixando lá a bruxa selvagem e seus conceitos. Essa semente agora retornava na forma dessa caçadora de olhos cor de laranja.

Uma vez mais ela o golpeou com a Voz, exigindo:

— Que foi que fizeram naquele ghola?

Dessa vez Waff estava preparado e repeliu o golpe sem dificuldades. Essa Honrada Madre teria que ser desviada ou, se possível, exterminada. Ele tinha aprendido muito com ela, mas não haveria maneira de se avaliar o quanto ela aprendera com ele a partir de suas habilidades insondáveis.

“Elas são monstros sexuais”, seus informantes lhe tinham dito. “Escravizam os homens pelos poderes do sexo.”

— Quão pouco você sabe a respeito dos prazeres que eu lhe poderia proporcionar — disse ela, a voz golpeando como um chicote em torno de si.

Quão tentadora! Quão sedutora!

Waff respondeu na defensiva:

— Diga-me por que.

— Eu não preciso lhe dizer nada!

— Então não veio aqui para fazer um acordo — disse ele, tristonho.

As não-naves tinham de fato semeado outros universos com a podridão. Waff sentia o peso da necessidade sobre seus ombros. E se não pudesse matá-la?

— Como se atreve a sugerir um acordo com uma Honrada Madre? Saiba que nós fazemos o preço!”

— Não conheço seus costumes, Honrada Madre. Mas sinto em suas palavras que a ofendi.

— Desculpa aceita.

“Eu não pensei em me desculpar!” Olhou para ela sem emoção. Muitas coisas podiam ser deduzidas a partir do seu comportamento. À luz de suas experiências milenares, Waff examinou o que tinha aprendido ali. Essa mulher da Dispersão viera em busca de uma informação essencial. Portanto, não tinha outra fonte de informação. Sentia o desespero da parte dela, bem disfarçado mas inconfundível. Ela precisava confirmar ou desmentir alguma coisa que temia.

Como se parecia com uma ave de rapina, pousada ali com as garras assentadas levemente sobre os braços da cadeira! “A podridão do centro se espalha para fora.”

Tinha dito isso e ela não ouvira. Era evidente que a humanidade atomizada continuava a se expandir em sua Dispersão das Dispersões. As pessoas representadas por essa Honrada Madre não tinham encontrado nenhum modo de rastrear as não-naves. Era isso sem dúvida. Ela caçava as não-naves do mesmo modo como as bruxas da Bene Gesserit o faziam.

— A senhora busca um modo de anular a invisibilidade das não-naves — ele disse.

A declaração obviamente a deixou abalada. Não tinha esperado isso desse

“manikin” com jeito de duende, sentado ali diante dela. Waff viu o medo, depois a raiva e então uma decisão passar pelas feições dela antes de a máscara predadora assentar-se de novo. Ela sabia, entretanto, que ele tinha percebido.

— Então é isso que faz com o seu ghola?

— É o que as bruxas da Bene Gesserit buscam com ele — mentiu Waff.

— Eu o subestimei — ela disse. — Está cometendo o mesmo erro comigo?

— Eu não penso assim, Honrada Madre. O programa de procriação que a produziu é obviamente formidável. Acho que poderia me matar com um chute antes que eu piscasse um olho. As bruxas não se igualam à senhora.

Um sorriso de prazer suavizou-lhe as feições.

— Os Tleilaxu desejam ser nossos servos ou preferem ser forçados a isso?

Ele não tentou ocultar a indignação:

— Está nos oferecendo a escravidão?

— Essa é uma de suas opções.

Ele a tinha nas mãos agora! A arrogância era a fraqueza dela. De modo submisso, perguntou:

— Que me ordenaria fazer?

— Você vai levar como suas convidadas duas jovens Honradas Madres. Elas devem procriar com você e... lhe ensinar nossos métodos de êxtase.

Waff inspirou fundo e soltou lentamente a respiração.

— Você é estéril? — perguntou ela.

— Somente nossos Dançarinos Faciais o são.

Ela já devia saber disso, era conhecimento corrente.

— Você chama a si mesmo de Mestre e no entanto ainda não dominou a si próprio — disse ela.

“Mais do que você, cadela! E eu me chamo Masheikh, fato que ainda pode destruí-la.”

— As duas Honradas Madres que enviarei com você vão fazer uma inspeção de tudo o que for Tleilaxu e voltar para mim com um relatório.

Ele suspirou como se estivesse resignado.

— E são atraentes essas duas mulheres?

— Honradas Madres! — corrigiu ela.

— É esse o único nome que usam?

— Se elas lhe quiserem dar seus nomes, esse é um privilégio delas, não seu.

Ela se inclinou de lado e raspou no piso um nó de seus dedos ossudos. Um metal brilhou na mão dela. A mulher tinha um meio de penetrar no escudo do aposento!

A comporta de entrada se abriu e surgiram duas mulheres vestidas exatamente como essa Honrada Madre. Suas capas negras tinham menos enfeites e ambas eram bem jovens. Waff olhou para elas. Seriam ambas... Ele tentou não demonstrar satisfação, mas sabia que tinha fracassado. Não importava. A velha pensaria que ele admirava a beleza dessas duas, mas, por sinais evidentes somente a um Mestre Waff percebeu que uma das recém-chegadas era um Dançarino Facial do novo tipo. Fizera-se uma troca bem-sucedida e essa gente da Dispersão não pudera detectá-la! Os Tleilaxu tinham superado com sucesso um obstáculo! Seria a Bene Gesserit igualmente cega ante esses novos gholas?

— Você está sendo sensivelmente cooperativo neste aspecto, pelo que será bem recompensado — disse a velha Honrada Madre.

— Eu reconheço seus poderes, Honrada Madre — ele disse.

Era verdade, e Waff curvou a cabeça para ocultar a decisão que tinha tomado e que sabia iria transparecer em seus olhos.

Ela gesticulou para as recém-chegadas.

— Estas duas irão acompanhá-lo. O menor capricho da parte delas será uma ordem para você. Elas devem ser tratadas com todo o respeito e toda a honra.

— É claro, Honrada Madre.

Mantendo a cabeça baixa, ele ergueu ambos os braços como se fizesse uma saudação submissa. Os dardos sibilaram, partindo de cada uma das mangas. Enquanto soltava os dardos, Waff jogou-se de lado. O movimento quase não foi suficientemente rápido. O pé direito da velha Honrada Madre projetou-se para a frente, atingindo-o na coxa esquerda e o jogando para trás com a cadeira.

Foi o último ato da vida da Honrada Madre. O dardo da manga esquerda de Waff entrou pela boca aberta da mulher e se cravou no fundo de sua garganta. Ela morreu de boca aberta num paralisado espanto, o veneno narcótico cortando-lhe qualquer exclamação. O outro dardo atingiu a recém-chegada que não era Dançarino Facial, entrando em seu olho direito. Com um golpe na garganta, o Dançarino Facial evitou que ela emitisse qualquer grito de aviso.

Dois corpos tombaram sem vida.

Dolorosamente, Waff desembaraçou-se da cadeira e a colocou em pé enquanto se levantava. Sua coxa pulsava de dor. Uma fração de metro a mais e ela lhe teria partido o fêmur! Waff percebia que a reação dela não tinha sido controlada pelo sistema nervoso central. Como no caso de certos insetos, o ataque podia ser iniciado pelo sistema muscular necessário sem que a mente precisasse tomar uma decisão. Esse

desenvolvimento teria que ser investigado.

O Dançarino Facial estava escutando o silêncio além da comporta aberta. Saiu de lado, permitindo que entrasse outro Dançarino Facial, este disfarçado de guarda ixiano.

Waff massageou a coxa ferida enquanto os Dançarmos Faciais despiam as duas mulheres mortas. O que tinha copiado o ixiano colocou a cabeça junto à da velha Honrada Madre. Tudo aconteceu muito rapidamente, e daí a pouco não havia mais guarda ixiano, apenas cópias fiéis da velha Honrada Madre e de sua jovem auxiliar. Mais um Dançarino Facial entrou e tomou a forma da segunda moça, morta no chão, e logo restavam apenas cinzas no lugar dos corpos. Uma nova Honrada Madre apanhou as cinzas com uma sacola e as escondeu embaixo do manto.

Waff fez um exame cuidadoso do aposento. As conseqüências de sua descoberta o deixavam trêmulo. Uma arrogância como a que fora vista ali só podia ser o resultado de poderes espantosos. Tais poderes deviam ser sondados. Ele deteve o Dançarino que copiara a velha.

— Você tomou a impressão dela?

— Sim, Mestre. Suas memórias despertas ainda estavam vivas quando eu a copiei.

— Transfira para ela.

Ele fez um gesto em direção à que tinha sido guarda ixiano. Ambas tocaram as testas por alguns segundos e se separaram.

— Está feito — disse a velha.

— Quantas cópias dessas Honradas Madres nós já fizemos?

— Quatro, Mestre.

— Nenhuma foi detectada?

— Nenhuma, Mestre.

— Estas quatro devem então retornar à pátria das Honradas Madres e aprender tudo que puderem a respeito delas. Uma das quatro deve retornar para nós com o conhecimento.

— Isso é impossível, Mestre.

— Impossível?

— Elas cortaram todas as ligações com suas origens. Esse é seu modo de ação, Mestre. Formaram uma nova célula, tendo se estabelecido em Gammu.

— Mas certamente poderíamos..

— Perdoe-me, Mestre, mas as coordenados da origem delas na Dispersão estavam contidas apenas nos instrumentos de uma não-nave, e foram apagadas.

— Seus rastros estão completamente apagados?

Havia desapontamento na voz dele.

— Completamente, Mestre.

“Desastre!” Ele foi forçado a dominar um pânico súbito.

— Elas não devem tomar conhecimento do que fizemos aqui — murmurou.

— Não saberão de nós, Mestre.

— Que talentos elas desenvolveram? Quais os seus poderes? Rápido!

— São os que se poderia esperar de uma Reverenda Madre da Bene Gesserit, mas sem as memórias da melange.

— Tem certeza?

— Não há sinal disso. Como sabe, Mestre, nós...

— Sim, sim, eu sei. — Fez sinal para que ela se calasse. — Mas a velha era tão arrogante, tão...

— Com seu perdão, Mestre, mas o tempo passa. Essas Honradas Madres aperfeiçoaram os prazeres do sexo muito além do que foi desenvolvido em qualquer outro grupo.

— Então é verdade o que disseram nossos informantes.

— Elas retornaram ao tântrico primitivo e desenvolveram seus próprios tipos de estimulação sexual, Mestre. Através disso elas obtêm a adoração de seus seguidores.

— Adoração. — Ele suspirou ante a palavra. — E elas são superiores às Reprodutoras da Bene Gesserit?

— As Honradas Madres acham que são, Mestre. Devemos demonstrar-lhe as...

— Não!

Waff abandonou sua máscara de duende ante essa descoberta e assumiu a expressão de um Mestre dominador. Os Dançarinos Faciais em forma feminina curvaram as cabeças em submissão. Uma expressão de júbilo tomou conta do rosto de Waff. Os Tleilaxu retornados da Dispersão lhe tinham feito um retrato fiel! Com uma simples impressão mental, ele tinha confirmado qual era a nova arma de sua gente!

— Quais são suas ordens, Mestre? — perguntou a velha.

Waff reassumiu a aparência de elfo.

— Nós vamos examinar essas questões somente depois de retornarmos ao núcleo Tleilaxu em Bandalong. Enquanto isso, até mesmo um Mestre não dá ordens a uma Honrada Madre. Vocês serão meus mestres até que estejamos longe de observadores.

— É claro, Mestre. Devemos agora transmitir suas ordens aos outros lá fora?

— Sim, e minhas ordens são as seguintes: esta não-nave jamais deverá retornar a Gammu. Deve desaparecer sem deixar traço, sem sobreviventes.

— Será feito, Mestre.

Como muitas outras atividades, a tecnologia faz com que os investidores procurem evitar os riscos. A incerteza é eliminada sempre que possível. O investimento de capital segue essa regra, já que as pessoas geralmente preferem aquilo que é previsível. Mas poucos reconhecem o quanto isso pode ser destrutivo, como impõe limites severos à variabilidade, tornando assim populações inteiras fatalmente

vulneráveis aos modos chocantes com que o universo é capaz de atirar os dados.

— Julgamento de Ix, Arquivos da Bene Gesserit

Na manhã após o teste inicial no deserto, Sheeana acordou no complexo de instalações dos sacerdotes e encontrou sua cama cercada de gente vestida em mantos brancos.

“Sacerdotes e sacerdotisas!”

— Ela está acordada — disse uma sacerdotisa.

O medo atingiu Sheeana. Ela agarrou as roupas de cama, puxando-as para junto do queixo, enquanto olhava para aqueles rostos atentos. Será que iam abandoná-la novamente no deserto? Ela tinha dormido o sono da exaustão na cama mais macia, com os lençóis mais limpos que já experimentara em seus oito anos de vida, mas sabia também que tudo que os sacerdotes faziam podia ter duplo sentido. Não se podia confiar neles!

— Você dormiu bem?

Foi a sacerdotisa quem falou primeiro. Era uma mulher velha, de cabelos grisalhos, com o rosto emoldurado por um capuz branco com bordas roxas. Os velhos olhos eram úmidos mas alertas, de uma cor azul pálida. O nariz era um toco arrebitado, acima de uma boca estreita e um queixo pontudo.

— Você vai falar conosco? — insistiu a mulher. — Eu sou Cania, que a serviu durante a noite. Lembra-se? Eu a ajudei a se deitar.

Pelo menos o tom de voz era tranqüilizador. Sheeana sentou-se na cama e olhou melhor para essas pessoas. Elas estavam com medo! Uma criança do deserto tinha o olfato capaz de detectar os feromônios indicadores. Para Sheeana era uma observação simples e direta: aquele cheiro equivalia ao medo.

— Vocês pensaram em me ferir — ela disse. — Por que fizeram isso?

As pessoas em torno dela trocaram olhares de consternação.

O medo de Sheeana dissipou-se. Tinha sentido uma nova ordem das coisas e a prova por que passara no deserto, no dia anterior significava outras mudanças.

lembrou-se de como fora subserviente a velha... Cania? Fora quase bajuladora na noite anterior. Com o tempo Sheeana aprenderia que qualquer pessoa que sobrevivesse à um teste de morte desenvolvia um novo equilíbrio emocional. O medo era transitório.

A nova condição era interessante.

A voz de Cania tremeu quando ela respondeu:

— Na verdade, Filha de Deus, nós não pretendemos magoá-la.

Sheeana colocou as cobertas em seu colo.

— Meu nome é Sheeana. — Essas eram as boas maneiras do deserto. Cania já tinha dado o seu nome. — Quem são os outros?

— Eles serão mandados embora se não os quiser... Sheeana. — Cania indicou

uma mulher de rosto alegre à sua esquerda, vestida num manto similar ao seu. —

Todas exceto Alhosa, é claro. Ela é a sua serva do dia.

Alhosa fez uma mesura ante a apresentação.

Sheeana olhou para um rosto gordo com a abundância de água, feições envoltas numa nuvem de cabelo louro e fofo. Mudando sua atenção abruptamente, ela olhou para os homens do grupo. Eles a observavam atentos, alguns com expressões de trêmula suspeita. O cheiro do medo era muito forte.

“Sacerdotes!”

— Mande-os embora — indicou Sheeana, apontando para os sacerdotes. —

Eles são haram!

Esse era um palavrão, o pior termo para tudo que fosse ruim.

Os sacerdotes recuaram, chocados.

— Vão embora! — ordenou Cania.

A expressão cruel no rosto dela não deixava dúvidas. Cania não fora incluída entre os vis, enquanto esses sacerdotes se destacavam claramente entre os abrangidos pelo rótulo de haram! Certamente eles haviam feito alguma coisa terrível para que Deus enviasse essa sacerdotisa-menina a fim de castigá-los. Cania acreditava nisso com facilidade, já que os sacerdotes raramente a tinham tratado do modo que ela julgava merecer.

Como cães enxotados, os sacerdotes curvaram-se e saíram da câmara de Sheeana. Entre os que saíram para o corredor estava um locutor-historiador chamado Dromind, homem moreno com uma mente ativa que tinha a tendência a agarrar idéias do medo como o bico de um pássaro carniceiro apanha um pedaço de carne. Quando a porta do quarto se fechou atrás deles, Dromind revelou aos trêmulos companheiros que Sheeana era a forma moderna de um nome ancestral: Siona.

— Vocês conhecem o lugar de Siona nas histórias — ele disse. — Ela serviu o Shai-hulud em Sua transformação da forma humana para a de Deus dividido.

Stiros, o velho sacerdote enrugado, com lábios escuros e olhos pálidos e brilhantes, olhou admirado para Dromind:

— Isso é extremamente curioso — disse Stiros. — As Histórias Orais afirmam que Siona foi fundamental em Sua translação do Um para o Muitos. Sheeana. Você não acha que..

— Não nos esqueçamos da tradução de Hadi Benotto das sagradas palavras de Deus — interrompeu outro sacerdote — O Shai-hulud referiu-se muitas vezes a Siona.

Continuar: parte 2 de 3