Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 3 de 8 · parte 1/3

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Os Hereges de Duna

— Schwangyu acaba de saber quem o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Schwangyu acaba de saber quem o senhor trouxe — ela disse, indicando Taraza com a cabeça. — Ah, aí vem ela.

Schwangyu saiu do tubo-elevador e caminhou ao encontro de Taraza, concedendo apenas um olhar furioso a Teg.

“Taraza queria surpreendê-la”, pensou ele. “Todos sabemos porquê”

— Você não parece feliz em me ver — disse Taraza, falando com Schwangyu.

— Estou surpresa, Madre Superiora — respondeu Schwangyu. — Não tinha idéia de sua vinda.

Olhou uma vez mais para Teg, uma aparência de ódio em seus olhos.

Odrade e Lucilla interromperam o exame mútuo.

— Eu tinha ouvido a respeito, é claro — disse Odrade. — Mas é uma experiência ver a si própria no rosto de outra pessoa.

— Eu a avisei — disse Taraza.

— Quais são suas ordens, Madre Superiora? — perguntou Schwangyu.

Era o mais perto que ela podia chegar de indagar o motivo da vinda de Taraza.

— Gostaria de falar com Lucilla em particular — disse Taraza.

— Eu tenho alojamentos preparados para todas — disse Schwangyu.

— Não se incomode — disse Taraza. — Não vou ficar aqui. Miles já providenciou o meu transporte. O dever exige a minha presença no planeta da Irmandade. Lucilla e eu vamos conversar lá fora, no pátio. — Taraza tocou o rosto com um dedo. — Oh, e eu gostaria de observar o ghola sem ser vista durante alguns

minutos. Tenho certeza de que Lucilla pode conseguir isso.

— Ele está recebendo muito bem o treinamento mais intenso — disse Lucilla, enquanto as duas caminhavam em direção ao tubo-elevador.

Teg voltou sua atenção para Odrade, notando, enquanto seu olhar passava pelo rosto de Schwangyu, a intensidade do ódio desta. Schwangyu não estava tentando esconder suas emoções.

Seria Lucilla uma irmã ou filha de Odrade?, perguntou-se Teg. Ocorreu-lhe subitamente que deveria haver um propósito da Bene Gesserit por trás da semelhança.

Sim, é claro — Lucilla era uma Impressora!

Schwangyu dominou a raiva que sentia e olhou com curiosidade para Odrade.

— Eu estava a ponto de ir almoçar, Irmã — disse Schwangyu. — Gostaria de ir comigo?

— Preciso falar em particular com o Bashar — respondeu Odrade. — Se não há objeção, talvez pudéssemos permanecer aqui para a nossa conversa. Não devo ser vista pelo ghola.

Schwangyu olhou furiosa, sem tentar ocultar sua irritação com Odrade. Elas sabiam, lá no planeta da Irmandade, onde estavam as lealdades! Mas ninguém...

ninguém iria removê-la desse posto de comando e observação. A oposição tinha seus direitos!

Seus pensamentos foram transparentes até para Teg. Ele notou a rigidez das costas de Schwangyu quando ela os deixou.

— É muito ruim quando Irmã se volta contra outra Irmã — comentou Odrade.

Teg fez um sinal com a mão para sua capitã da guarda, ordenando que ela evacuasse a área. “Sozinhos”, dissera Odrade. “É como vai ser.”

Para Odrade ele disse;

— Esta é uma de minhas áreas. Não há espiões ou outros meios de nos observarem aqui.

— Eu achei que não — disse Odrade.

— Nós possuímos um escritório ali. — Teg fez um sinal para a sua esquerda.

— Há móveis e até cadeiras-cães, se preferir.

— Detesto quando elas tentam me acariciar — disse ela. — Podemos conversar aqui? — Colocou uma das mãos sob o braço de Teg. — Talvez pudéssemos caminhar um pouco. Fiquei tanto tempo sentada naquela naveta que sinto o corpo rígido;

— Que é que você deve me contar? — perguntou ele enquanto os dois caminhavam.

— Minhas memórias não são mais filtradas seletivamente — ela disse. — Eu as tenho todas... somente por meu lado feminino, é claro..

— Assim? — perguntou Teg, comprimindo os lábios.

Essa não era a abordagem que ele tinha esperado. Odrade parecia mais uma

pessoa que escolheria uma abordagem direta.

— Taraza diz que você leu o Manifesto Atreides. Ótimo. Você sabe que ele vai provocar inquietação em muitos lugares.

— Schwangyu já fez dele o objeto de uma critica a vocês Atreides.

Odrade olhou para ele solenemente. Como diziam todos os relatórios, Teg permanecia uma figura imponente, mas ela sabia disso sem precisar de relatórios.

— Somos ambos Atreides, você e eu — disse Odrade.

Teg ficou inteiramente alerta.

— Sua mãe lhe explicou isso em detalhes — disse Odrade. — Quando você voltou a Lernaeus em suas primeiras férias escolares.

Teg parou e olhou para ela. Como poderia saber disso? Pelo que sabia, nunca tinha encontrado ou conversado com essa Darwi Odrade. Seria ele motivo de debates na sede da Irmandade? Manteve o silêncio, forçando-a a continuar a conversa.

— Vou contar-lhe uma conversa entre um homem e minha mãe verdadeira —

disse Odrade. — Eles estão na cama e o homem diz: “Fui pai de algumas crianças na primeira vez que escapei do controle da Bene Gesserit, na época em que me julguei um agente independente, livre para me alistar e lutar onde quisesse.”

Teg não tentou ocultar sua surpresa. Essas eram suas palavras! A memória Mentat revelou-lhe que Odrade as tinhas repetido com precisão.

— Quer ouvir mais? — perguntou ela quando ele continuou a fitá-la — Muito bem. O homem diz: “Isso foi antes que elas me enviassem para ser treinado como Mentat, é claro. Como aquilo foi revelador! Eu nunca estivera fora da vigilância da Irmandade, nem por um instante! Eu nunca fui um agente livre.”

— Nem mesmo quando eu pronunciava essas palavras — disse Teg.

— Verdade. — Ela o impeliu pela pressão em seu braço, enquanto os dois continuavam a caminhada dentro da câmara. — As crianças de que foi pai pertenciam todas à Bene Gesserit. A Irmandade não corre risco de que nossos genótipos possam cair num reservatório genético selvagem.

— Que meu corpo vá para Shaitan... seus preciosos genótipos permanecem sob os cuidados da Irmandade — disse ele.

— Meus cuidados — disse Odrade. — Sou uma de suas filhas.

Novamente ele a forçou a parar.

— Eu creio que sabe quem foi minha mãe — ela disse, e ergueu a mão para silenciá-lo quando ele tentou pronunciar um nome. — Nomes não são necessários.

Teg observou as feições de Odrade, notando sinais identificáveis. Mãe e filha eram equivalentes. Mas, e quanto a Lucilla?

Como se tivesse ouvido a pergunta, Odrade respondeu:

— Lucilla é de uma linha paralela de procriação. Bem extraordinário, não? O

que a cuidadosa procriação paralela pode conseguir.

Teg pigarreou. Não sentia nenhum elo emocional em relação a essa filha recém-revelada. As palavras dela e outros sinais importantes de seu desempenho

exigiam sua atenção primária.

— Esta não é uma conversa casual — ele disse. — Isso é tudo que me devia contar? Pensei que a Madre Superiora tinha dito.

— Há mais — concordou Odrade. — Quanto ao Manifesto, eu sou sua autora. Eu o escrevi, mediante ordem de Taraza e seguindo suas instruções detalhadas:

Teg olhou à volta na ampla câmara, como se quisesse certificar-se de que ninguém tinha ouvido. Disse em voz baixa:

— Os Tleilaxu o estão divulgando amplamente!

— Exatamente como esperávamos.

— Por que está me dizendo isso? Taraza disse que estava aqui para me preparar para...

— Vai chegar a ocasião em que deverá conhecer o nosso propósito. É desejo de Taraza que tome suas próprias decisões então, que se torne realmente um agente livre.

Enquanto falava, Odrade viu os olhos dele vidrarem ao modo Mentat.

Teg respirou fundo. “Dependências e troncos-chave!” Teve a sensação Mentat de vislumbrar um imenso padrão, bem além do alcance de seus dados acumulados.

Nem por um instante considerou que algum tipo de devoção de filha para pai tivesse provocado essas revelações. Havia uma essência fundamentalista, dogmática e mesmo ritualística evidente em todo o treinamento da Bene Gesserit, a despeito de todo o esforço para evitá-lo. Odrade, essa sua filha saída do passado, era uma Reverenda Madre dotada de poderes extraordinários de controle muscular e nervoso — e com memórias integrais pelo lado feminino! Era uma das especiais! Conhecia truques de violência de que poucos humanos suspeitavam. Ainda assim, a semelhança daquela essência permanecia, sempre notada por um Mentat.

“Que será que ela deseja?”

“A confirmação da minha paternidade?” Ela já tinha toda a confirmação de que pudesse necessitar.

Observando-a agora, o modo como ela esperava tão pacientemente que seus pensamentos se concatenassem, Teg refletiu sobre com que freqüência se comentava, e com boas razões, o fato de as Reverendas Madres não mais pertencerem totalmente à raça humana. De algum modo, elas se moviam fora do fluxo principal, talvez paralelamente a ele, talvez nele mergulhando ocasionalmente por algum motivo próprio, mas sempre afastadas da humanidade. Destacavam-se por si mesmas. Era um sinal identificador das Reverendas Madres, um senso de identidade extra que as tornava mais próximas do Tirano há tanto tempo morto do que da raça humana da qual tinham brotado.

Manipulação. Essa era a sua especialidade. Elas manipulavam a tudo e a todos.

— Eu deverei ser os olhos da Bene Gesserit — disse Teg. — Taraza quer que eu tome uma decisão humana por todas vocês.

Obviamente satisfeita, Odrade apertou-lhe o braço.

— Que pai eu tenho!

— Será que você tem realmente um pai? — perguntou ele, e lhe contou aquilo que estivera pensando a respeito da Bene Gesserit se afastando da humanidade.

— Fora da humanidade — repetiu ela. — Que idéia interessante. Os navegadores da Corporação também estariam separados de sua humanidade original?

Ele pensou a respeito. Os navegadores da Corporação divergiam amplamente da forma humana mais comum. Nascidos no espaço e vivendo suas vidas em tanques de gás de melange, eles distorciam a forma original, alongando e reposicionando membros e órgãos. Mas um jovem navegador em estrus e antes de entrar no tanque era capaz de procriar com um ser humano normal. Isso já fora demonstrado. Eles se tornavam não-humanos, mas não ao modo da Bene Gesserit.

— Mentalmente os navegadores não são como vocês — disse ele; — Eles pensam do modo humano. Guiar uma nave através do espaço, mesmo usando a presciência para encontrar o caminho mais seguro, possui um padrão que um ser humano pode aceitar.

— Você não aceita o nosso padrão?

— Até onde posso, mas em algum lugar de seu desenvolvimento vocês se afastaram do padrão original. Acho que podem realizar um ato consciente para parecerem humanas. O modo como segura o meu braço neste momento, como se fosse realmente minha filha.

— Eu sou sua filha, mas me surpreende o modo como nos despreza.

— Muito pelo contrário, eu fico admirado com vocês.

— Admirado com sua própria filha?

— Com qualquer Reverenda Madre.

— Você acha que eu existo apenas para manipular criaturas inferiores?

— Creio que vocês não sentem mais como humanas. Existe uma falha em você. Alguma coisa está faltando, algo que removeu. Você não é mais uma de nós.

— Obrigada — disse Odrade; — Taraza disse-me que você não hesitaria em responder com fraqueza, mas eu já sabia disso.

— Para o que me preparou?

— Vai saber quando acontecer, e isto é tudo que posso dizer... tudo que me permitem dizer.

“Manipulando de novo!”, pensou ele. “Malditas!”

Odrade pigarreou. Parecia a ponto de dizer alguma coisa, mas permaneceu em silêncio enquanto guiava Teg na caminhada através da câmara.

Mesmo sabendo o que Teg iria dizer, suas palavras a magoavam. Queria dizer-lhe que era uma daquelas que ainda se sentiam humanas, mas o julgamento que ele fizera da Irmandade não podia ser contestado

“Somos ensinadas a rejeitar o amor. Podemos simulá-lo, mas cada uma de nós é capaz de anulá-lo num momento.”

Houve sons atrás deles. Ambos pararam e se voltaram. Lucilla e Taraza saíam do tubo-elevador falando sobre suas observações do ghola.

— Você estava absolutamente certa em tratá-lo como a uma de nós — dizia Taraza.

Teg ouviu, mas não fez comentários, enquanto esperava a aproximação das duas mulheres.

“Ele sabe”, pensou Odrade; “Não vai me perguntar a respeito de minha mãe; Não havia nenhuma ligação, nenhuma impressão real. E no entanto ele sabe.”

Odrade fechou os olhos e a memória a surpreendeu por produzir a imagem de uma pintura. A coisa ocupava um espaço na parede da sala matinal de Taraza. Um artificio Ixiano tinha preservado a pintura na melhor moldura hermeticamente selada, por trás de uma cobertura de plaz invisível. Freqüentemente Odrade parava diante daquela pintura, sentindo a cada ocasião que sua mão poderia estender-se e de fato tocar a tela ancestral, tão habilmente preservada pelos Ixianos.

“Cottages de Cordeville;”

O nome que o artista dera ao trabalho e seu próprio nome tinham sido preservados numa placa forjada, colocada embaixo da pintura: Vincent Van Gogh.

A coisa era de uma época tão longínqua que apenas raras relíquias, como essa pintura, permaneciam para enviar uma impressão física através das eras. Ela tentara imaginar as jornadas que aquela pintura tinha realizado, o acaso sucessivo que a conduzira até a sala de Taraza.

Os Ixianos tinham sido excelentes na arte da preservação e restauração. Um observador podia tocar um ponto escuro na extremidade inferior esquerda da moldura. Imediatamente seria engolfado no gênio verdadeiro, não apenas do artista, mas do Ixiano que tinha restaurado e preservado seu trabalho. Seu nome estava na moldura: Martin Buro. Quando tocado pelo dedo humano, o ponto se tornava um projetor de sensação, benigno subproduto da tecnologia que tinha produzido a sonda Ixiana. Buro havia restaurado não apenas a pintura, mas o pintor — os sentimentos de Van Gogh que tinham acompanhado cada pincelada. Tudo fora capturado nas pinceladas e gravado ali por movimentos humanos.

Odrade se havia colocado ali, tão e tantas vezes envolvida pela performance que se sentia capaz de recriar a pintura independentemente.

Relembrando essa experiência, logo após a acusação de Teg, ela percebeu imediatamente por que sua memória tinha reproduzido a imagem para ela e por que a pintura a fascinava tanto. Pelo breve período daquela reprodução, sempre se sentia totalmente humana, consciente dos cottages como lugares onde viviam pessoas reais, completamente consciente da corrente humana que fizera uma pausa naquele lugar na pessoa do louco Vincent Van Gogh, parando para registrar a si mesmo.

Taraza e Lucilla detiveram-se a dois passos de Teg e Odrade. Havia um cheiro de alho na respiração de Taraza.

— Nós paramos para uma pequena refeição — explicou Taraza. — Vocês

gostariam de comer alguma coisa?

Era exatamente a pergunta errada. Odrade soltou a mão do braço de Teg, virou-se rapidamente e enxugou os olhos com a manga. Olhando novamente para Teg, viu a surpresa no rosto dele. “Sim”, pensou ela, “estas são lágrimas verdadeiras!”

— Creio que fizemos aqui tudo que poderíamos fazer — disse Taraza. — E

hora de você seguir para Rakis, Dar.

— Já passou a hora — disse Odrade.

A vida não encontrará razões para se manter, não será uma fonte de respeito mútuo, a não ser que cada um de nós resolva emprestar-lhe tais qualidades.

— Chenoeh: “Conversas com Leto II”

Hedley Tuek, Alto Sacerdote do Deus Dividido, estava ficando cada vez mais irritado com Stiros. Embora muito velho para ambicionar o trono de Alto Sacerdote, Stiros tinha filhos, netos e numerosos sobrinhos. Ele transferira para a família as suas ambições pessoais. Stiros era um homem cínico, representante de uma facção poderosa do clero, a auto-denominada “comunidade científica”, cuja influência era insidiosa e penetrante. Eles se aproximavam perigosamente da heresia.

Tuek lembrou-se de como mais de um Alto Sacerdote se havia perdido no deserto. Acidentes lamentáveis... Stiros e sua facção eram capazes de arranjar tais acidentes.

Era uma tarde em Keen e Stiros acabara de sair, obviamente frustrado. Queria que Tuek fosse até o deserto para observar pessoalmente a nova incursão de Sheeana por lá. Suspeitando do convite, Tuek declinara.

Seguira-se uma estranha discussão, cheia de indiretas e vagas referências ao comportamento de Sheeana, mais ataques verbais à Bene Gesserit. Stiros, sempre desconfiado da Irmandade, antipatizara imediatamente com a nova comandante do Castelo de Bene Gesserit em Rakis, aquela... como era mesmo o nome? Oh, sim, Odrade. Nome engraçado, mas as Irmãs freqüentemente tinham nomes estranhos.

Era um privilégio delas. O próprio Deus nunca se pronunciara contra a bondade básica da Bene Gesserit. Contra esta ou aquela Irmã, sim, mas a Irmandade como um todo tinha compartilhado da Sagrada Visão de Deus.

Tuek não gostava do modo como Stiros falava de Sheeana. Com cinismo.

Finalmente havia conseguido silenciar Stiros com pronunciamentos feitos ali, no local sagrado, com seu altar e suas imagens do Deus Dividido. Retransmissores de feixes prismáticos lançavam finas cunhas de iluminação através do incenso que partia da melange que era queimada entre as duplas fileiras de altas pilastras conduzindo ao altar. Tuek tinha certeza de que nesse cenário suas palavras chegariam diretamente a

Deus.

— Deus age através de nossa Siona — Tuek dissera a Stiros, notando a confusão em seu rosto. — Sheeana é a lembrança viva de Siona, aquele instrumento humano que o transformou em Suas atuais Divisões.

Stiros ficou furioso, dizendo coisas que não se atreveria a repetir diante de um Conselho. Confiava demais em sua longa ligação com Tuek.

— Eu lhe digo que ela permanece aqui, cercada por adultos que buscam justificar-se diante dela, e ela...

— Justificar-se diante dela e de Deus!

— Tuek não poderia permitir tais palavras.

Inclinando-se para mais perto do Alto Sacerdote, Stiros resmungou:

— Ela encontra-se no centro de um sistema educacional preparado para lhe dar qualquer coisa que sua imaginação desejar. Nós não lhe negamos nada!

— Nem deveríamos.

Como se Tuek não tivesse falado, Stiros disse:

— Cania tem lhe fornecido os registros de Dar-es-Balat.

— Eu sou o Livro do Destino — entoou Tuek, repetindo as próprias palavras de Deus tiradas do tesouro em Dar-es-Balat.

— Exatamente! E ela ouve com atenção cada palavra!

— Por que isso o perturba? — perguntou Tuek em seu tom de voz mais calmo. — Nós não testamos o conhecimento dela. Ela testa o nosso!

— Deus deve querer assim.

Não deixando de perceber o amargo ressentimento no rosto de Stiros, Tuek observou seu conselheiro enquanto ele reunia novos argumentos. Os recursos para tais argumentos eram, é claro, enormes. Tuek não negava isso. Eram as interpretações que importavam. Era por isso que o Alto Sacerdote tinha a função de derradeiro intérprete. A despeito do seu modo de visualizar a história (ou talvez devido a ele), o clero sabia muita coisa sobre as circunstâncias que haviam conduzido Deus a residir em Rakis. Ele tinha Dar-es-Balat e todo o seu conteúdo — a mais antiga não-câmara conhecida no universo. Durante milênios, enquanto o Shai-hulud transformava o verdejante planeta Arrakis no deserto Rakis, Dar-es-Balat aguardara debaixo das areias. Do Sagrado Tesouro, o clero obtivera a própria voz de Deus. Suas palavras impressas e até mesmo holofotos. Tudo estava explicado e eles sabiam que a superfície deserta de Rakis reproduzia a forma original do planeta, o modo como ele era no princípio, quando constituía a única fonte conhecida da Sagrada Especiaria.

— Ela faz perguntas a respeito da Família de Deus — disse Stiros.

— Por que precisaria perguntar-nos tal coisa?

— Ela está nos testando. Será que os colocamos em seus devidos lugares? A Reverenda Madre Jessica e seu filho, o Muad'Dib, e seu filho, Leto II, o Sagrado Triunvirato Celeste;

— Leto III — murmurou Stiros. — E quanto ao outro Leto que morreu nas mãos dos Sardaukar? E quanto a ele?

— Cuidado, Stiros — advertiu Tuek. — Você sabe que meu bisavô se pronunciou a respeito dessa questão sentado nesse mesmo assento. Nosso Deus Dividido foi reencarnado, uma parte dele permanecendo no céu para mediar sobre sua Ascendência. Essa parte dele tornou-se então desprovida de nome, como a Verdadeira Essência de Deus sempre deve ser!

— É?

Tuek notou o terrível cinismo na voz do velho. As palavras de Stiros pareciam tremer no ar carregado de incenso, num convite a uma terrível resposta.

— Então por que ela pergunta como nosso Leto se transformou no Deus Dividido? — quis saber Stiros.

Estaria Stiros questionando a Sagrada Metamorfose? Tuek estava horrorizado.

Disse simplesmente:

— No devido tempo, ela nos iluminará.

— Nossas frágeis explicações devem deixá-la desapontada — retrucou Stiros.

— Você está indo longe demais, Stiros!

— É mesmo? Não acha esclarecedor que ela pergunte como a truta da areia captura a maior parte de água de Rakis, recriando o deserto?

Tuek tentou esconder sua raiva crescente, Stiros realmente representava uma poderosa facção do clero, mas seu tom de voz e suas palavras levantavam questões que tinham sido respondidas pelos Altos Sacerdotes muito tempo atrás. A Metamorfose de Leto II dera origem a um número incontável de trutas da areia, cada qual carregando um fragmento Dele, Da Truta da Areia ao Deus Dividido: essa relação era conhecida e venerada. Questioná-la era negar a Deus.

— Você se senta ai e não faz nada — acusou Stiros. — Nós somos peões de...

— Basta! — Tuek tinha ouvido tudo que queria ouvir desse velho cínico.

Reunindo sua dignidade, pronunciou as palavras de Deus: — Seu Senhor conhece muito bem o que vai no seu coração. Sua alma é o suficiente para acusá-lo. Eu não preciso de testemunhas. Você não escuta a sua alma, mas ouve o seu ódio e a sua ira.

Stiros retirou-se, frustrado.

Depois de pensar muito, Tuek vestiu seu melhor manto, em branco, púrpura e dourado, e foi visitar Sheeana.

Ela encontrava-se nos jardins do terraço no topo do complexo, junto com Cania e mais duas pessoas: um jovem sacerdote chamado Baldik, que estava a serviço particular de Tuek, e uma sacerdotisa-acólita chamada Kipuna, que se comportava demais à semelhança de uma Reverenda Madre para o gosto de Tuek. A Irmandade possuía suas espiãs por lá, é claro, mas Tuek não gostava de tomar conhecimento disso. Kipuna encarregara-se da maior parte do treinamento físico de Sheeana, e surgira uma espécie de identificação entre pupila e sacerdotisa-acólita que motivava os ciúmes de Cania. Mesmo Cania, entretanto, não poderia colocar-se no caminho das

ordens de Sheeana.

Os quatro encontravam-se ao lado de um banco de pedra, quase à sombra de uma torre de ventilação. Kipuna segurava a mão direita de Sheeana, manipulando os dedos da criança. Sheeana estava ficando alta, notou Tuek. Há seis anos que estava sob proteção. Podia notar as primeiras insinuações de seios começando a se projetar no tecido do manto. Não havia o menor sopro de vento no terraço e o ar parecia pesar nos pulmões de Tuek.

Tuek olhou no jardim à sua volta para se certificar de que suas precauções de segurança não estavam sendo ignoradas. Nunca se sabia de que lado o perigo poderia aparecer. Quatro dos guardas pessoais de Tuek, bem-armados mas ocultando esse fato, compartilhavam do terraço mantendo-se a distância — um em cada canto. O

parapeito que envolvia o terraço era alto, e apenas as cabeças dos guardas apareciam acima da borda. O único prédio mais alto do que essa torre dos sacerdotes era a principal armadilha de vento de Keen, uns mil metros a oeste.

A despeito da evidência visível de que suas ordens estavam sendo cumpridas, Tuek sentia o perigo. Seria um aviso de Deus? Ele ainda se sentia perturbado pelo cinismo de Stiros. Estaria errado em permitir que Stiros tomasse esse tipo de atitude?

Sheeana viu Tuek se aproximando e interrompeu os curiosos exercícios de flexionamento dos dedos que fazia, mediante as instruções de Kipuna. Aparentando sábia paciência, a criança ficou em silêncio, o olhar lixo no Alto Sacerdote, forçando seus companheiros a se virarem e olhar junto com ela.

Sheeana não achava assustadora a figura de Tuek. Gostava um pouco do velho, embora algumas perguntas dele fossem muito presunçosas. E suas respostas!

Muito por acaso ela descobrira a pergunta que mais perturbava Tuek.

Por quê?

Alguns sacerdotes que serviam de criados interpretaram a pergunta como sendo: Por que você acredita nisso? Sheeana imediatamente adotou a sugestão e daí por diante suas sondagens com Tuek e os outros tomaram invariavelmente a forma de:

— Por que você acredita nisso?

Tuek parou a dois passos de Sheeana e se curvou.

— Boa tarde, Sheeana.

Ele mexeu o pescoço com nervosismo dentro do colarinho de seu manto. O

sol estava quente em seus ombros e ele se perguntava por que a criança gostava tanto de sair para o terraço.

Sheeana manteve o olhar indagador para Tuek. Sabia que esse olhar o perturbava.

Tuek pigarreou. Quando Sheeana olhava para ele daquele modo, ele sempre se perguntava: “Será que Deus está olhando para mim através dos olhos dela?”

Cania disse:

— Sheeana perguntou hoje a respeito das Oradoras Peixes.

Em seu tom mais persuasivo, Tuek disse:

— O Exército Sagrado de Deus?

— Composto só por mulheres? — perguntou Sheeana.

Ela falou como se não pudesse acreditar em tal coisa. Para aqueles situados na base da sociedade Rakiana, as Oradoras Peixes eram um nome da história antiga, pessoas perdidas nos Tempos da Fome.

Ela está me testando, pensou Tuek. Oradoras Peixes. As atuais portadoras dessa denominação possuíam apenas uma pequena delegação de comércio-espionagem em Rakis, composta de homens e mulheres. Suas antigas origens não significam mais nada em suas atuais atividades, onde funcionavam principalmente como um braço de Ix.

— Os homens sempre serviram às Oradoras Peixes como assessores —

respondeu Tuek.

Ele observou cuidadosamente, esperando para ver como Sheeana responderia.

— E sempre houve os Duncan Idahos — comentou Cania.

— Sim, sim, é claro, os Duncans.

Tuek tentou não demonstrar aborrecimento. Aquela mulher está sempre interrompendo! Tuek não gostava de ser lembrado desse aspecto da presença histórica de Deus em Rakis. O ghola sempre recriado e sua posição no Exército Sagrado tinham um toque de indulgência para com a Bene Tleilax. Mas não havia como fugir ao fato de que as Oradoras Peixes tinham protegido os Duncans de todo o mal, agindo, é claro, sob as ordens de Deus. Os Duncans eram sagrados, não havia dúvida a esse respeito, mas sagrados de uma categoria especial. Das próprias palavras de Deus, sabia-se que Ele em pessoa tinha matado alguns Duncans, obviamente transportando-os imediatamente para o céu.

— Kipuna esteve me contando sobre a Bene Gesserit — comentou Sheeana.

“Como a mente dessa criança salta de um assunto para outro!” Tuek pigarreou, reconhecendo sua própria atitude ambivalente com relação às Reverendas Madres. Exigia-se reverência àquelas que tinham sido “Queridas por Deus”, como a Santa Chenoeh. E o primeiro Alto Sacerdote criara um relato lógico de como a Sagrada Hwi Noree, Noiva de Deus, tinha sido secretamente uma Reverenda Madre.

Honrando essas circunstâncias especiais, o clero sentia uma irritante responsabilidade para com a Bene Gesserit, obrigação que era cumprida principalmente pela venda de melange à Irmandade a um preço ridiculamente inferior ao que se cobrava dos Tleilaxu. Em seu tom mais ingênuo, Sheeana disse:

— Conte-me tudo sobre a Bene Gesserit, Hedley.

Tuek olhou rapidamente para os adultos à volta de Sheeana, tentando surpreender um sorriso em seus rostos. Não sabia como reagir ao fato de Sheeana chamá-lo pelo primeiro nome. De certo modo, era humilhante. Mas, por outro lado, ela o honrava com tal intimidade.

“Deus está me testando duramente”, pensou ele.

— As Reverendas Madres são boas pessoas? — perguntou Sheeana. Tuek suspirou. Todos os registros confirmavam que Deus tinha certas reservas com relação à Irmandade. As palavras de Deus tinham sido examinadas cuidadosamente e por fim submetidas à interpretação de um Alto Sacerdote. Deus não permitiria que a Irmandade ameaçasse o seu Caminho Dourado. Isso era claro.

— Muitas delas são boas — respondeu Tuek.

— Onde se encontra a Reverenda Madre mais próxima?

— Na Embaixada da Irmandade, no seu Castelo em Keen — disse Tuek.

— Você a conhece?

— Existem muitas Reverendas Madres no Castelo da Bene Gesserit.

— Que é um castelo?

— É como elas chamam seu lar aqui.

— Uma Reverenda Madre deve ser a responsável. Você a conhece?

— Eu conhecia sua antecessora, Tamalane, mas esta agora é nova. Acabou, de chegar. Seu nome é Odrade.

— E um nome engraçado.

Era o que Tuek pensava, mas ele disse:

— Um dos nossos historiadores me disse que é uma forma do nome Atreides.

Sheeana refletiu a respeito disso. “Atreides.” Era a família que tinha criado Shaitan. Antes dos Atreides, tinham existido apenas os Fremen e o Shai-hulud. A História Oral, que seu povo preservava contra todas as proibições dos sacerdotes, cantava as origens da gente mais. importante de Rakis. Sheeana ouvira seus nomes muitas noites no vilarejo.

— Muad'Dib gerou o Tirano.

— E o Tirano gerou Shaitan.

Sheeana não sentia vontade de discutir a verdade com Tuek. De qualquer modo, ele parecia cansado hoje. Ela disse apenas:

— Tragam-me essa Reverenda Madre Odrade.

Kipuna escondeu por trás da mão seu sorriso de satisfação maldosa. Tuek recuou, consternado. Como poderia satisfazer semelhante exigência? Mesmo o clero Rakiano não comandava a Bene Gesserit! E se a Irmandade recusasse? Será que ele poderia oferecer uma dádiva de melange em troca? Isso poderia ser tomado como sinal de fraqueza. As Reverendas Madres poderiam barganhar! E não havia comerciantes mais duros do que aquelas Reverendas Madres de olhar frio. Essa nova, Odrade, parecia ser uma das piores.

Todos esses pensamentos fluíram pela mente de Tuek num instante.

Cania opinou, dando a Tuek a opção tão necessitada.

— Talvez Kipuna possa transmitir o convite de Sheeana — ela disse.

Tuek olhou rapidamente para a jovem sacerdotisa-acólita. Sim! Muitas suspeitavam (Cania inclusive, obviamente) de Kipuna como espiã da Bene Gesserit. É

claro que todo o mundo em Rakis espionava para alguém. Tuek usou seu sorriso mais encantador enquanto olhava para Kipuna.

— Você conhece alguma das Reverendas Madres, Kipuna?

— Algumas delas eu conheço, Meu Senhor Alto Sacerdote — respondeu Kipuna.

“Pelo menos ela ainda demonstra o devido respeito.”

— Excelente — disse Tuek. — Teria a bondade de transmitir O gracioso convite de Sheeana à embaixada da Irmandade?

— Farei o melhor que puder, Meu Senhor Alto Sacerdote.

— Eu tenho certeza de que fará!

Kipuna começou a se voltar para Sheeana, cheia de orgulho, a certeza do êxito crescendo dentro de si. O pedido de Sheeana fora muito fácil de ser provocado a partir das técnicas fornecidas pela Irmandade. Kipuna sorriu e abriu a boca para falar.

Um movimento no parapeito, uns 40 metros atrás de Sheeana, captou a atenção de Kipuna. Alguma coisa brilhava à luz do sol por lá. Algo pequeno e...

Com um grito estrangulado, Kipuna agarrou Sheeana e a lançou para o espantado Tuek, gritando:

— Corra!

Depois Kipuna avançou ao encontro do brilho que se aproximava — um pequeno dardo caçador puxando um longo shigafio.

Em sua época de jovem, Tuek tinha jogado bola. Ele agarrou Sheeana instintivamente, hesitou por um instante e então reconheceu o perigo. Girando com a garota que se debatia protestando em seus braços, Tuek correu através da porta aberta para a torre das escadarias. Ouviu a porta fechar-se às suas costas, os passos de Cania que o seguia.

— Que foi? Que foi?

Sheeana golpeava o peito de Tuek com seus punhos enquanto gritava.

— Quieta, Sheeana! Quieta!

Tuek parou na primeira plataforma, entre dois lances de escada. Havia uma calha deslizadora e uma queda amparada por suspensores, conduzindo desse lance de escada para dentro do núcleo do prédio. Cania parou ao lado de Tuek, sua respiração ofegante ressoando alto nesse espaço estreito.

— Aquilo matou Kipuna e dois guardas — disse Cania sem fôlego.

— Cortou-os em pedaços! Eu vi. Deus nos proteja!

A mente de Tuek era um redemoinho. Tanto a calha deslizadora quanto a queda em suspensores eram pequenos orifícios feitos na torre. Ambos podiam ser sabotados. O ataque pelo teto podia ser apenas um elemento de uma trama mais complexa.

— Coloque-me no chão! — insistia Sheeana. — Que está acontecendo?

Tuek depositou-a no chão, mas a manteve segura por uma das mãos. Curvou-se sobre ela.

— Sheeana, minha querida, alguém está tentando ferir-nos.

A boca de Sheeana formou um silencioso “oh” e então a pergunta:

— Eles feriram Kipuna?

Tuek olhou para a porta que dava para o terraço. Estaria ouvindo o ruído de um ornitóptero lá em cima? Stiros! Conspiradores podiam levar três pessoas vulneráveis para o deserto com muita facilidade!

Cania recuperara o fôlego.

— Estou ouvindo um tóptero — disse ela. — Não devíamos sair daqui?

— Vamos descer pelas escadas — disse Tuek.

— Mas...

— Faça como eu digo!

Segurando firmemente a mão de Sheeana, Tuek liderou a corrida até o próximo patamar. Além da calha e do acesso ao poço suspensor, esse lance tinha uma porta na parede curva. Somente alguns passos além daquela porta ficava a entrada para os aposentos de Sheeana, outrora o quarto de Tuek. Novamente ele hesitou.

— Alguma coisa está acontecendo no teto — sussurrou Cania.

Tuek olhou para a criança temerosa e quieta ao seu lado. A mão dela estava escorregadia de suor.

Sim, havia algum tipo de tumulto no terraço — gritos, o assovio de queimadores, muita correria. A porta para o terraço, agora fora do alcance de visão, foi arrebentada. Isso fez Tuek decidir-se. Ele abriu a porta para o corredor e caiu nos braços de um grupo de mulheres de mantos negros agrupadas numa formação de cunha. Com um sentimento vazio de derrota, Tuek reconheceu a mulher na ponta da cunha: “Odrade!”

Alguém arrancou Sheeana de suas mãos e ela sumiu no meio do aglomerado de mantos. Antes que Tuek ou Cania pudesse protestar, mãos foram colocadas sobre suas bocas. Outras mãos imobilizaram-nos de encontro à parede do corredor.

Algumas das figuras cobertas por mantos saíram pela porta, subindo as escadarias.

— A criança está segura, e isso é o que importa no momento — sussurrou Odrade. Ela olhou nos olhos de Tuek. — Não grite. — A mão foi removida de sua boca. Usando a Voz, ela disse: — Conte-me tudo que aconteceu no terraço!

Tuek obedeceu sem reservas:

— Um dardo caçador puxando um longo shigafio. Veio por cima do parapeito.

Kipuna viu e...

— Onde está Kipuna?

— Morta. Cania viu. — Tuek descreveu a intrépida corrida de Kipuna ao encontro da ameaça.

“Kipuna morta!”, pensou Odrade; Ela escondeu uma raiva furiosa, um sentimento de perda. Que desperdício. Devia haver admiração ante uma morte tão corajosa, mas a perda... A Irmandade necessitava muito de tamanha coragem e devoção, mas também precisava da riqueza genética que Kipuna representara. “Tudo

perdido por causa daqueles idiotas!''

Ante um gesto de Odrade, a mão foi removida da boca da Cania.

— Diga-me o que você viu — ordenou Odrade;

— O dardo enrolou o shigafio em volta do pescoço de Kipuna e...

Cania estremeceu.

A pancada seca de uma explosão reverberou acima deles, depois o silêncio.

Odrade fez outro sinal com uma das mãos. Mulheres cobertas por mantos espalharam-se ao longo do corredor, movendo-se silenciosamente para fora do alcance da vista, além da curva na passagem. Somente Odrade e outras duas, ambas jovens de olhos frios, com expressões enérgicas, permaneceram ao lado de Tuek e de Cania. Sheeana tinha sumido.

— Os Ixianos têm algo a ver com isso — disse Odrade;

Tuek concordou.

— Aquela quantidade de shigafio... Para onde levaram a criança? — perguntou ele.

— Nós a estamos protegendo — disse Odrade. — Fique quieto.

Ela inclinou a cabeça, ouvindo.

Uma mulher vestida num manto negro veio correndo pela curva do corredor e sussurrou alguma coisa no ouvido de Odrade. Ela sorriu.

— Está acabado — disse ela. — Vamos ao encontro de Sheeana.

Sheeana ocupava uma cadeira estofada azul no aposento principal de seus alojamentos. Mulheres de mantos negros formavam um arco protetor por trás dela. A Tuek, a criança pareceu bem recuperada do choque do ataque e da fuga, mas seus olhos cintilavam com excitação e perguntas não-respondidas. A atenção de Sheeana estava dirigida para alguma coisa à direita de Tuek. Ele parou, olhou e ficou boquiaberto com o que viu.

O corpo nu de um homem estava tombado de encontro a uma parede em posição curiosamente dobrada, a cabeça torcida até o queixo ficar sobre o ombro esquerdo. Olhos abertos fitavam o vazio da morte.

''Stiros!''

Os trapos rasgados a que tinha sido reduzido o manto de Stiros, obviamente arrancado dele com violência, formavam agora uma pilha desarrumada ao pé do corpo.

Tuek olhou para Odrade.

— Ele estava envolvido no ataque — ela disse. — Havia Dançarinos Faciais com os Ixianos.

Tuek tentou engolir com a garganta seca.

Cania passou por ele em direção ao corpo. Tuek não podia ver o rosto dela, mas a presença de Cania o fez lembrar-se de que tinha havido algum tipo de relacionamento entre ela e Stiros na juventude. Tuek moveu-se instintivamente para se colocar entre Cania e a criança sentada.

Cania parou junto do corpo e o cutucou com o pé. Voltou-se para Tuek com uma expressão satisfeita.

— Tinha que me certificar de que ele estava realmente morto.

Odrade olhou para uma colega.

— Livre-se do corpo — ordenou.

Depois olhou para Sheeana. Era a primeira oportunidade que Odrade tinha para estudar a criança desde que liderara a força de assalto até esse lugar a fim de enfrentar o ataque ao complexo do templo.

Tuek falou por trás de Odrade.

— Reverenda Madre, por favor pode explicar o que...

Odrade o interrompeu sem se voltar.

— Depois.

A expressão de Sheeana animou-se ao ouvir as palavras de Tuek.

— Eu sabia que era uma Reverenda Madre!

Odrade meramente assentiu com a cabeça. Que criança fascinante. Odrade tinha agora a mesma sensação que sentira diante da pintura nos aposentos de Taraza.

Algo do fogo, do calor presente naquele trabalho de arte a inspirava agora. Uma inspiração louca! Essa era a mensagem deixada por um Van Gogh demente. O caos transformando-se em magnífica ordem. Isso não era uma parte do código da Irmandade?

“Esta criança é minha tela”, pensou Odrade. Sentia a mão tremer sentindo aquele antigo pincel, as narinas dilatando-se para sorver o perfume de óleos e tintas.

— Deixem-me sozinha com Sheeana — ordenou ela. — Saiam todos.

Tuek começou a protestar, mas se calou quando uma das companheiras de Odrade o segurou pelo braço. Odrade olhou furiosa para ele.

— A Bene Gesserit já o serviu anteriormente — lembrou ela. — Desta vez nós salvamos sua vida.

A mulher que segurava o braço de Tuek puxou-o.

— Respondam as perguntas dele — ordenou Odrade. — Mas façam isso em outro lugar.

Cania deu um passo em direção a Sheeana.

— Esta criança é minha.

— Saia! — gritou Odrade, reunindo nessa ordem todos os poderes da Voz.

Cania gelou.

— Você quase a perdeu para um bando de conspiradores presunçosos! —

acrescentou Odrade, olhando furiosa para Cania. — Vamos estudar se você merece outra oportunidade de se ligar a Sheeana.

Lágrimas surgiram nos olhos de Cania, mas a condenação de Odrade não podia ser negada. Virando-se, Cania saiu com os outros.

Odrade voltou sua atenção para a criança vigilante.

— Estivemos esperando por você por longo tempo — disse ela. — Não

vamos dar outra oportunidade àqueles tolos.

A lei sempre busca manter o poder constituído.

Questões de moral e legalidade pouco têm a ver quando a verdadeira pergunta é: quem detém o poder?

— Atas do Conselho da Bene Gesserit: Arquivos X0X232

Imediatamente depois de Taraza e seu grupo deixarem Gammu, Teg lançou-se de volta ao trabalho. Novos procedimentos de guarda tinham que ser estabelecidos de modo a manter Schwangyu a distância do ghola. Ordens de Taraza.

— Ela pode observar tudo que quiser. Mas não deve tocá-lo.

A despeito das pressões do trabalho, Teg se encontrou a fitar o vazio em momentos ocasionais, presa de uma estranha ansiedade. A experiência de resgatar o grupo de Taraza de dentro da nave da Corporação e as curiosas revelações de Odrade não se encaixavam em qualquer padrão de classificação de dados que pudesse criar.

“Dependências... troncos-chaves...”

Teg estava sentado em seu gabinete de trabalho com um quadro de serviço para o pessoal projetado diante de si, contendo mudanças de turno para serem aprovadas, e por um instante não teve idéia do tempo ou da data. Levou um momento para se relocalizar.

Era o meio da manhã. Taraza e seu grupo tinham partido fazia dois dias. Ele estava sozinho. Patrin encarregara-se de seu programa diário de treinamento com o Duncan, deixando Teg livre para tomar decisões de comando.

A sala de trabalho à sua volta parecia estranha. E no entanto, quando olhava para cada objeto, sentia que era familiar. Ali estava o seu próprio consolo pessoal de dados. A jaqueta de seu uniforme fora deixada sobre as costas da cadeira a seu lado.

Tentou mergulhar numa análise Mentat e sentiu a própria mente resistindo. Tal fenômeno não acontecia desde seus dias de treinamento.

“Dias de treinamento.”

Taraza e Odrade o tinham colocado em alguma forma de treinamento.

Continuar: parte 2 de 3