Os Hereges de Duna
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Completou os três primeiros padrões do jogo de treinamento que Miles Teg tinha ordenado, vagamente consciente de que Patrin relataria quão bem ele se saíra.
Duncan gostava de Teg e do velho Patrin, percebendo que o sentimento era recíproco. Essa nova Reverenda Madre, entretanto... sua presença sugeria mudanças interessantes. De um lado, ela era mais jovem que as outras. E a recém-chegada não tentava ocultar os olhos, que constituíam o primeiro indício de sua adesão à Bene Gesserit. Seu primeiro vislumbre de Schwangyu confrontara-o com olhos ocultos atrás de lentes de contato que simulavam as pupilas e as vistas levemente avermelhadas de uma não-adepta da especiaria. Também ouvira uma das acólitas do Castelo dizer que as lentes de Schwangyu corrigiam igualmente uma “fraqueza astigmática” que fora aceita em sua linhagem como um preço razoável em troca de outras qualidades que ela transmitia à sua prole.
Na ocasião, a maior parte dessa observação fora ininteligível para o Duncan, mas ele procurara as referências na biblioteca do Castelo, referências escassas e altamente limitadas em conteúdo. Schwangyu em pessoa esquivara-se de todas as suas perguntas a respeito, e o comportamento subsequente de suas professoras lhe dissera que ela ficara furiosa. Tipicamente, descarregara a raiva nas outras.
O que realmente a perturbara fora sua indagação quanto a se ela era sua mãe.
Há muito tempo que Duncan sabia ser uma pessoa especial. Havia lugares, nas rebuscadas dependências desse Castelo Bene Gesserit, onde sua entrada não era permitida. Ele encontrara meios particulares de superar tais proibições. Muitas vezes
olhara através de janelas abertas para os guardas e as extensões de campo desflorestado que podiam ser cobertas pelo fogo de torretas estrategicamente posicionadas. O próprio Miles Teg lhe ensinara a importância do fogo de cobertura.
Gammu, era como agora chamavam o planeta. Já fora conhecido como Giedi Prime, mas alguém chamado Gurney Halleck havia mudado isso. Era tudo história antiga. Coisa chata. Ainda permanecia um leve cheiro de óleo, da sujeira que cobrira o planeta em seus dias pré-danianos. Milênios de plantações especiais estavam mudando isso, tinham-lhe explicado seus professores. Do Castelo podia ver parte disso.
Florestas de coníferas e outras árvores os envolviam ali.
Ainda vigiando secretamente as duas Reverendas Madres, Duncan deu uma série de cambalhotas, flexionando os músculos enquanto se movia exatamente do modo como Teg lhe havia ensinado.
Teg também o instruíra quanto às defesas planetárias. Gammu era cercado por monitores orbitais, cujos tripulantes não podiam levar suas famílias a bordo. As famílias permaneciam em Gammu, reféns para garantir a vigilância dos guardiães orbitais. Em algum ponto entre as naves no espaço, haveria “não-naves” indetectáveis cujas tripulações eram compostas inteiramente por gente dos Bashar e Irmãs Bene Gesserit.
Eu não assumiria esta incumbência sem completo controle de todas as posições defensivas — explicara Teg.
Duncan percebia que ele era a “incumbência”. O Castelo existia para protegê-lo. Os monitores orbitais de Teg, inclusive as não-naves, protegiam o Castelo.
Era tudo parte de uma educação militar cujos elementos Duncan agora achava familiares. Aprendendo a defender um planeta, aparentemente vulnerável, de ataques vindos do espaço, ele sabia quando essas defesas estavam corretamente posicionadas.
O todo era extremamente complexo, mas os elementos podiam ser identificados e entendidos. Havia por exemplo a monitoração constante da atmosfera e do soro sangüíneo dos habitantes de Gammu. Médicos Suk, pagos pela Bene Gesserit, estavam em toda parta.
— Doenças são armas — dissera Teg. — Nossas defesas contra doenças devem ser bem preparadas.
Freqüentemente Teg chamava a atenção contra defesas passivas. Ele as chamava de “produtos de uma mentalidade de cerco capaz de criar fraquezas mortais”.
Quando chegava a hora das instruções militares de Teg, Duncan ouvia com atenção. Patrin e os registros da biblioteca confirmavam que o Bashar Mentat Miles Teg fora um famoso líder militar da Bene Gesserit. Patrin freqüentemente fazia referências ao tempo em que serviam juntos, e Teg sempre aparecia como herói nos relatos.
— A mobilidade é a chave do êxito militar — dissera Teg. — Se você está preso num forte, mesmo que seja um forte do tamanho de um planeta, você está
sempre vulnerável, em última análise.
Teg não se importava muito com Gammu.
— Percebo que você já sabe que este lugar foi um dia chamado de Giedi Prime. Os Harkonnen, que governavam o planeta, ensinaram-nos algumas coisas. Nós temos uma idéia melhor, graças a eles, de como os homens podem ser terrivelmente brutais.
Lembrando-se disso, Duncan percebeu que as duas Reverendas Madres a observá-lo do parapeito obviamente estavam falando a seu respeito.
“Serei a incumbência dessa que chegou?”
Duncan não gostava de ser observado e esperava que a recém-chegada lhe desse algum tempo. Ela não parecia ser rígida. Não era como Schwangyu.
Enquanto continuava a fazer seus exercícios, Duncan os ritmava de acordo com sua litania particular. “Maldita Schwangyu! Maldita Schwangyu!”
Ele odiava Schwangyu desde os nove anos de idade — fazia quatro anos agora. Ela não conhecia o seu ódio, pensou. Provavelmente já tinha esquecido tudo sobre o incidente que incendiara aquele ódio dentro dele.
Ele mal completara nove anos no dia em que conseguira esgueirar-se pela guarda interna e atingir um túnel que conduzia a uma das casamatas de defesa. O
túnel cheirava a mofo, tinha luzes baças e muita umidade. Ele olhou através das fendas para pontaria de armas antes de ser descoberto e mandado de volta ao Castelo.
A escapada provocou um severo sermão da parte de Schwangyu, uma figura distante e ameaçadora cujas ordens deviam ser obedecidas. Era assim que ele ainda pensava nela, embora tivesse aprendido desde então a respeito da Voz de Comando da Bene Gesserit, aquela sutileza vocal que podia dobrar a vontade de um ouvinte destreinado.
“Ela deve ser obedecida”
— Você fez com que toda a guarda seja punida — disse Schwangyu.
— E eles o serão severamente.
Essa fora a parte mais terrível do sermão. Duncan gostava de determinados guardas e ocasionalmente atraía alguns deles para uma brincadeira de verdade, com muitos risos e quedas. Dessa vez sua brincadeira de escapar até a casamata tinha magoado seus amigos.
Duncan sabia quem devia ser punido.
“Maldita Schwangyu! Maldita Schwangyu!”
Depois do sermão de Schwangyu, Duncan correu para junto de sua instrutora-chefe, naquela ocasião a Reverenda Madre Tamalane, outra das velhas sábias com modos frios e distantes, cabelo cor de neve sobre uma face estreita, de pele coriácea.
Ele exigiu que Tamalane lhe dissesse como os guardas iam ser punidos. Tamalane ficou surpreendentemente pensativa, a voz como areia raspando em madeira.
— Punições? Bem, bem...
Os dois encontravam-se na pequena sala de aulas junto à grande área de
exercícios de solo aonde Tamalane ia todas as noites a fim de preparar as lições do dia seguinte. Era um lugar cheio de leitores de bolha e de carretel, além de outros meios igualmente sofisticados de armazenagem e recuperação de informações. Duncan gostava mais dali do que da biblioteca, mas não tinha permissão de entrar na sala de aulas sem estar acompanhado. Era um lugar brilhante, inundado pela luz de muitos globos luminosos flutuando em suspensores. Ante sua intrusão, Tamalane voltou-se de onde colocara sua lições.
— Existe sempre algo análogo a um banquete de sacrifício em nossas grandes punições — ela disse. — Os guardas, é claro, receberão uma grande punição.
— Banquete?
Duncan estava intrigado.
Tamalane virou-se completamente em sua cadeira giratória, olhando diretamente nos olhos dele. Seus dentes de aço brilharam como luzes brilhantes.
— A história raramente tem sido misericordiosa com aqueles que devem ser punidos — disse ela.
Duncan estremeceu ante a palavra “história”. Esse era um dos sinais de Tamalane. Ela ia ensinar-lhe uma lição, outra lição aborrecida.
— As punições da Bene Gesserit não podem ser esquecidas.
Duncan prestou atenção na boca murcha de Tamalane, sentindo imediatamente que ela falava a partir de uma dolorosa experiência pessoal. Ia aprender alguma coisa interessante.
— Nossas punições carregam consigo uma lição inescapável — disse Tamalane — É algo pior do que a dor.
Duncan sentou-se no piso diante dos pés dela. Do seu ângulo de visão, Tamalane era uma figura sinistra, envolta em panos negros.
— Nós não punimos com a agonia final. Esta fica reservada para a Reverenda Madre em sua passagem no ritual da especiaria.
Duncan assentiu com a cabeça. Os registros da biblioteca referiam-se à
“agonia da especiaria”, misteriosa provação que criava uma Reverenda Madre.
— As grandes punições são dolorosas, não obstante — ela disse — São também emocionalmente dolorosas. A emoção despertada pela punição é sempre aquela que julgamos ser a maior fraqueza do punido. Desse modo, nós tornamos mais forte o penitente.
As palavras enchiam Duncan de um temor não compreendido. Que estariam fazendo com seus guardas? Ele não conseguia perguntar nada mas isso não era necessário. Tamalane ainda não terminara.
— A punição sempre termina com uma sobremesa — disse ela. e bateu com as mãos sobre os joelhos.
Duncan franziu a testa. Uma sobremesa? Isso era parte de um banquete.
Como é que um banquete podia ser uma punição?
— Não é realmente um banquete e sim a idéia de banquete explicou
Tamalane, enquanto uma mão semelhante a uma garra descrevia um círculo no ar. —
Então vem a sobremesa, alguma coisa inteiramente inesperada. E o punido pensa: Ah, fui perdoado afinal! Está compreendendo?
Duncan sacudiu a cabeça de um lado para o outro. Não, ele não compreendia.
— E a suavidade do momento — ela disse. — Você passou por cada um dos pratos desse doloroso banquete e afinal chegou a uma coisa que é possível de ser saboreada. Mas quando você a saboreia... aí é que vem o momento mais doloroso de todos, o reconhecimento, a compreensão de que não existe prazer no final. Não, realmente não. E essa é a dor maior da grande punição. Ela grava a lição da Bene Gesserit.
— Mas que é que ela vai fazer com aqueles guardas?
As palavras foram arrancadas do Duncan.
— Não posso dizer quais serão os elementos específicos de cada punição. Não preciso conhecê-los. Só posso dizer-lhe que serão diferentes para cada um deles.
Tamalane não diria mais nada. Voltou à elaboração das lições do dia seguinte.
— Nós nos veremos amanhã — ela disse. — Estarei lhe ensinando a identificar as fontes dos vários sotaques do Galach falado.
Ninguém mais, nem mesmo Teg ou Patrin, responderia suas perguntas a respeito das punições. Mesmo os guardas, quando os viu posteriormente, recusavam-se a falar de suas provações. Alguns reagiam bruscamente a suas indagações e nenhum voltaria a brincar com ele. Não havia esquecimento entre os punidos. Isso era bem claro.
“Maldita Schwangyu! Maldita Schwangyu”
Então começara seu profundo ódio por ela. E todas as bruxas velhas eram objeto desse ódio. Será que aquela jovem recém chegada seria igual às outras?
“Maldita Schwangyu!”
Quando ele exigiu que Schwangyu lhe dissesse o que fizera para puni-los, ela levou algum tempo para responder e então disse:
— É perigoso para você aqui em Gammu. Existem pessoas que desejam feri-lo.
Duncan não perguntou por quê. Essa era outra área do conhecimento em que suas perguntas nunca recebiam respostas. Nem mesmo Teg responderia, embora a presença de Teg enfatizasse a realidade desse perigo.
E Miles Teg era um Mentat que devia conhecer muitas respostas. Duncan freqüentemente notava como os olhos do homem brilhavam enquanto seus pensamentos se perdiam em lugares distantes. Mas não havia uma resposta Mentat a perguntas como.
— Por que estamos aqui em Gammu?
— Contra quem você me guarda? Quem deseja me ferir?
— Quem são meus pais?
O silêncio era a resposta a essas perguntas, ou algumas vezes Teg resmungaria:
— Eu não lhe posso responder.
A biblioteca era inútil. Ele descobrira isso quando tinha apenas oito anos e seu instrutor era uma Reverenda Madre que fracassara, chamada Luran Geasa — não tão velha quanto Schwangyu, mas bem adiantada nos anos, com mais de 100 de idade, de qualquer modo.
A seu pedido, a biblioteca lhe forneceria informações sobre Gammu, Giedi Prime, os Harkonnen e sua queda, e vários conflitos em que Teg atuara como comandante. Nenhuma dessas batalhas se revelara muito sangrenta; vários comentaristas referiam-se à “soberba diplomacia” de Teg. Apesar disso, uma informação levando a outra, Duncan aprendeu sobre a era do Imperador Deus e de como sua gente fora pacificada. Esse período atraiu a atenção de Duncan durante semanas. Ele encontrou um velho mapa em meio aos registros e o projetou na parede focalizadora. As superimposições do comentarista disseram-lhe que o Castelo fora um Posto de Comando das Oradoras Peixes abandonado durante a Dispersão.
“Oradoras Peixes!”
Duncan desejava ter vivido na época delas, servindo como um dos raros assessores masculinos no exército de mulheres que adoravam o grande Imperador-Deus.
“Ah, ter vivido em Rakis naqueles dias!”
Teg era surpreendentemente solícito no que se referia ao Imperador-Deus, chamando-o sempre de “o Tirano”. Um cofre da biblioteca foi aberto e informações sobre Rakis derramaram-se em cima de Duncan.
— Será que verei Rakis algum dia? — perguntou ele a Geasa.
— Você está sendo preparado para viver lá.
A resposta o surpreendeu. Tudo que lhe haviam ensinado a respeito daquele planeta distante assumiu novo significado em sua mente.
— Por que devo viver lá?
— Não posso responder.
Com renovado interesse, ele voltou aos seus estudos sobre aquele misterioso planeta e sua miserável Igreja do Shai-hulud, o Deus Dividido. “Vermes.” O
Imperador-Deus transformara-se em um daqueles vermes! A idéia enchia Duncan de espanto. Talvez ali estivesse alguma coisa que valesse a pena adorar. O pensamento o sensibilizava. Que teria levado um homem a aceitar tão terrível metamorfose?
Duncan sabia o que seus guardas e os outros no Castelo pensavam a respeito de Rakis e do núcleo do clero que lá vivia. O riso e as zombarias diziam tudo. Teg disse:
— Provavelmente, nunca saberemos toda a verdade a esse respeito, mas eu lhe digo uma coisa, garoto, aquilo não é religião para um soldado.
Schwangyu acrescentou:
— Você vai aprender a respeito do Tirano, mas não deve acreditar em sua religião. Ela é inferior a você, é desprezível.
Em cada momento de folga dos estudos, Duncan curvava-se sobre o que a biblioteca lhe fornecia: o Livro Sagrado do Deus Dividido, a Bíblia da Guarda, a Bíblia Universal Laranja e mesmo os Apócrifos. Aprendeu a respeito do Bureau da Fé, há muito extinto, e sobre a “Pérola Que é o Sol da Compreensão”.
A própria idéia dos vermes o fascinava. Seu tamanho! Um dos maiores se estenderia de uma extremidade a outra do Castelo. Os homens haviam cavalgado os vermes pré-Tirano, mas agora o clero rakiano proibia isso.
Encontrou-se absorvido pelos relatos da equipe de arqueólogos que encontrara a primitiva não-câmara do Tirano. O lugar chamava-se Dar-es-Balat. O
relatório do arqueólogo Hadi Benotto estava marcado: “Suprimido por ordem do clero rakiano”. O número de arquivos da Bene Gesserit a respeito era bem grande e o que Benotto revelava era fascinante.
— Uma partícula da consciência do Imperador-Deus em cada verme? —
perguntara ele a Geasa.
— Assim se costuma dizer. E, se for verdade, não se trata de uma consciência.
O próprio Tirano disse que entraria num sonho interminável.
Cada sessão de estudo gerava uma palestra especial e explicações da Bene Gesserit a respeito de religião até que finalmente ele encontrou os relatos batizados “As Nove Filhas de Siona” e “Os Mil Filhos de Idaho”.
Confrontando Geasa, ele quis saber:
— Meu nome é Duncan Idaho. Que significa isso?
Geasa sempre se movia como se estivesse se abrigando à sombra do seu fracasso, a cabeça comprida inclinada para a frente, os olhos lacrimejantes apontados para o chão. A confrontação ocorreu perto do anoitecer, no longo salão ao lado da área de exercícios. Ela empalideceu ante a pergunta.
E, quando não respondeu, ele acrescentou:
— Sou descendente de Duncan Idaho?
— Você deve perguntar a Schwangyu.
Geasa falava como se as palavras lhe fossem dolorosas.
Era uma resposta familiar; e o enfureceu. Ela queria dizer que lhe contariam alguma coisa que o fizesse calar a boca, mas que em verdade nada lhe seria revelado.
Schwangyu, entretanto, revelou-se mais aberta do que ele teria julgado possível.
— Você carrega o autêntico sangue de Duncan Idaho.
— Quem são meus pais?
— Já morreram há muito tempo.
— Como foi que morreram?
— Não sei. Nós o recebemos como órfão.
— Então por que existem pessoas que me querem fazer mal?
— Elas temem o que você pode fazer.
— E que é que eu posso fazer?
— Estude suas lições. Vai lhe parecer claro com o tempo.
“Cale a boca e estude!” Outra resposta familiar.
Obedeceu porque tinha aprendido a reconhecer quando as portas se fechavam para ele. Mas agora sua inteligência indagadora encontrava outros registros do Tempo da Fome e da Dispersão, as não-câmaras e não-naves que não poderiam ser rastreadas, nem mesmo pelas mais poderosas mentes prescientes deste universo. E ali encontrou o fato de que os descendentes de Duncan Idaho e de Siona, aqueles antigos que tinham servido ao Tirano Imperador Deus, também eram invisíveis aos profetas e prescientes. Nem mesmo um Navegador da Corporação em profundo transe de melange podia detectar essa gente. Siona, os registros revelaram-lhe, fora uma Atreides de puro sangue e Duncan Idaho, um ghola.
“Ghola?”
Buscou na biblioteca significados para essa palavra peculiar. E a biblioteca não lhe deu mais do que definições simples: “Gholas: seres humanos produzidos a partir das células de um cadáver em tanques axlotl dos Tleilaxu.”
“Tanques axlotl?”
“Engenho Tleilaxu destinado a reproduzir seres humanos vivos a partir das células de um cadáver”
— Descreva um ghola — pediu ele.
“Carne inocente, desprovida das memórias do original. Ver tanques axlotl.”
Duncan aprendera a entender os silêncios, os espaços em branco naquilo que as pessoas do Castelo lhe revelavam. A compreensão propagou-se em sua mente. Ele sabia! Tinha só 10 anos e já sabia!
“Eu sou um ghola.”
Num fim de tarde na biblioteca, toda aquela maquinaria esotérica em torno dele se apagou num fundo sensorial, e um menino de 10 anos se sentou, silencioso, agarrado ao conhecimento de si mesmo.
“Eu sou um ghola!”
Não podia lembrar-se dos tanques axlotl onde suas células se haviam transformado em uma criança. Suas primeiras memórias eram de Geasa a erguê-lo do berço, um interesse alerta naqueles olhos de adulto que logo se transformou em cautela.
Era como se a informação a seu respeito, fornecida de modo tão relutante pela gente do Castelo e pelos registros, tivesse afinal definido uma forma central para si mesmo.
— Fale-me a respeito dos Bene Tleilax — pediu ele à biblioteca.
— Eles são um povo dividido entre Dançarinos Faciais e Mestres. Os Dançarinos Faciais são híbridos, estéreis e submissos aos Mestres.
“Por que eles fizeram isso comigo?”
A informação fornecida pelas máquinas da biblioteca era subitamente estranha e perigosa. Ele estava com medo, não de que suas perguntas pudessem encontrar mais espaços vazios, mas das respostas que poderia obter.
“Por que sou tão importante para Schwangyu e para os outros?” Sentia ter sido enganado, trapaceado até mesmo por Patrin e Miles Teg. Por que seria considerado justo tirar células de um ser humano e produzir um ghola?
Ele fez a pergunta seguinte com grande hesitação. Um ghola pode lembrar-se de quem foi? Isso pode ser conseguido.
— Como?
— A identidade psicológica de um ghola em relação ao original preestabelece certas respostas que podem ser ativadas mediante um trauma.
Isso não era resposta!
— Mas como?
Schwangyu interferiu nesse ponto, entrando na biblioteca sem se fazer anunciar. Então, alguma coisa em suas perguntas tinha disparado um alerta para preveni-la!
— Tudo vai ficar claro para você no devido tempo — ela disse. Tentou acalmá-lo, mas ele sentia a injustiça, a ausência de sinceridade. Alguma coisa em seu interior dizia-lhe que possuía mais sabedoria em sua identidade adormecida do que aqueles que se presumiam tão superiores. Seu ódio por Schwangyu atingiu novo cume de intensidade. Ela era a personificação de tudo aquilo que o incitava e depois lhe frustrava a curiosidade.
Agora, entretanto, sua imaginação estava em fogo. Iria recapturar suas memórias originais! Sentia a verdade dessa afirmativa. Lembrar-se-ia de seus pais, de sua família, de seus amigos... e de seus inimigos.
Provocou Schwangyu com isso:
— Vocês me criaram por causa de meus inimigos?
— Você já aprendeu a ficar em silêncio, criança. Use esse aprendizado.
“Muito bem. E assim que vou combater você, maldita Schwangyu. Vou ficar calado, mas vou continuar aprendendo. E vou mostrar como me sinto realmente.”
— Você sabe — acrescentou ela —, acho que estamos criando um estóico.
Ela ficava a dominá-lo com superioridade, e ele não aceitaria esse tipo de paternalismo. Combateria tudo isso com o silêncio e a vigilância. Saiu correndo da biblioteca e se refugiou em seu quarto.
Nos meses que se seguiram, muitas coisas confirmaram que ele era um ghola.
Mesmo uma criança sabia quando as coisas ao seu redor eram extraordinárias.
Ocasionalmente, podia observar outras crianças além dos muros, caminhando pela estrada do perímetro, rindo e gritando. Em sua biblioteca. encontrara descrições a respeito de crianças. Os adultos não se aproximavam das outras crianças para obrigá-las a se engajar num treinamento rigoroso do tipo que lhe era imposto. Outras crianças não tinham uma Reverenda Madre Schwangyu para ordenar cada pequeno aspecto de suas vidas.
Sua descoberta precipitou outra mudança na vida de Duncan. Luran Geasa foi afastada e não retornou.
“Ela não devia ter permitido que eu soubesse a respeito dos gholas.” A verdade era, de algum modo, mais complexa, como Schwangyu explicou a Lucilla no parapeito de observação, no mesmo dia de sua chegada.
— Nós sabíamos que chegaria o momento inevitável. Ele aprendera a respeito dos gholas e faria perguntas incisivas.
— Estava mais do que na hora de uma Reverenda Madre cuidar de sua educação no dia-a-dia. Geasa pode ter sido uma má escolha.
— Está questionando meu julgamento? — retrucou Schwangyu.
— Será que o seu julgamento é tão perfeito que nunca pode ser questionado?
Na voz de contralto de Lucilla, a pergunta tinha o impacto de uma bofetada.
Schwangyu ficou em silêncio por quase um minuto. Depois disse:
— Geasa achava que o ghola era uma criança cativante. Ela chorou e disse que ia ter saudade dele.
— Será que não foi prevenida quanto a isso?
— Geasa não possui nosso treinamento.
— Por isso você a substituiu por Tamalane. Não conheço Tamalane, mas presumo que seja muito velha.
— Bastante.
— Qual foi a reação dele ante a retirada de Geasa?
— Perguntou para onde ela iria. Não respondemos.
— Como Tamalane se saiu?
— Em seu terceiro dia com ela, ele lhe disse muito calmamente: “Eu a odeio.
E isso que esperam de mim?”
— Tão depressa!
— Agora mesmo ele está observando você e pensando: “Eu odeio Schwangyu.
Será que vou ter que odiar essa aí?” Mas ele também deve estar pensando que você não é como as velhas bruxas. Você é jovem. E ele vai calcular que isso deve ser importante.
Os seres humanos vivem melhor quando cada um tem seu lugar para ficar, quando cada um conhece a sua posição num esquema de coisas e percebe os limites daquilo que pode conquistar.
Destrua esse lugar e você destruirá a pessoa.
— Ensinamentos da Bene Gesserit
Miles Teg não queria essa missão em Gammu. Ser mestre de armas de uma criança ghola? Mesmo uma criança ghola como essa, com toda a história tecida em torno dela. Tratava-se de uma intrusão indesejável na bem-ordenada aposentadoria de Teg.
Mas ele tinha vivido toda a vida como um Mentat Militar sob as ordens da Bene Gesserit e não conseguiria computar um ato de desobediência.
Quis custodiet ipsos custodiet?
Quem deve guardar os guardiães? Quem cuida para que os guardiães não falhem?
Essa era uma pergunta que Teg tinha considerado cuidadosamente em muitas ocasiões. Ela formava um dos princípios básicos de sua lealdade à Bene Gesserit. Não importava o que se pudesse dizer a respeito da Irmandade, elas exibiam uma admirável constância de propósitos.
“Propósitos morais”, como Teg os rotulava.
O propósito moral da Bene Gesserit coincidia totalmente com os princípios de Teg. E o fato de tais princípios terem sido condicionados em sua mente pela própria Bene Gesserit não entrava em sua consideração. O pensamento racional, principalmente a racionalidade Mentat, não seria capaz de fazer outro julgamento.
Teg reduzia tudo à sua essência: se apenas uma pessoa seguisse tais princípios de orientação, esse seria um universo melhor. Não era jamais uma questão de justiça.
A justiça exigia o recurso da lei, e esta podia ser uma amante volúvel, sempre sujeita aos caprichos e preconceitos de quem a administrasse. Não, era uma questão que envolvia o conceito de merecimento, algo que atingia um nível muito mais profundo.
As pessoas que eram objeto de um julgamento deviam considerá-lo merecido.
Para Teg, declarações como “a letra da lei deve ser obedecida” eram perigosas para seus princípios de orientação. Ser justo exigia um tipo de acordo, uma constância previsível e, acima de tudo, uma lealdade sendo exercida para cima e para baixo ao longo da hierarquia. Uma liderança guiada por tais princípios não exigia controles externos. A pessoa cumpria seu dever porque essa era a coisa certa. E não obedecia por ser esse o comportamento “previsivelmente” correto, mas porque a certeza de estar fazendo uma coisa certa pertencia ao momento em que agia. Previsão e presciência nada tinham a ver com isso.
Teg conhecia a reputação dos Atreides no que se referia à presciência confiáveis, mas declarações proféticas não tinham lugar em seu universo. A pessoa aceitava o universo como o havia encontrado e aplicava os seus princípios onde podia.
Ordens absolutas dentro da hierarquia eram sempre obedecidas. Não que Taraza tivesse feito da coisa uma ordem absoluta, mas as implicações estavam lá.
— Você é a pessoa perfeita para esta tarefa.
Ele tinha vivido uma vida muito longa, com muitos pontos altos, e se aposentara com honra. Teg sabia que estava velho, velho e lento, com todos os defeitos da idade esperando para traí-lo ali, bem nas fronteiras de sua consciência.
Não obstante, o chamado do dever o animou mesmo enquanto ele dominava o desejo de dizer não.
O pedido viera da própria Taraza. A poderosa líder de todas (inclusive a Missionaria Protectiva) o tinha escolhido. Não apenas uma Reverenda Madre, mas a
Reverenda Madre Superiora.
Taraza viera até seu retiro em Lernaeus. Era para ele uma honra que ela fizesse isso, e ela sabia. Apareceu em seu portão sem ser anunciada, acompanhada apenas por duas servas acólitas e uma pequena força de guardas, dos quais alguns rostos ele reconhecia. Teg em pessoa os tinha treinado. E a hora da chegada também fora interessante. De manhã cedo, logo depois do café. Ela conhecia o seus hábitos e certamente devia saber que ele estaria ainda mais alerta a essa hora. Queria que ele estivesse acordado e na plenitude de seu potencial.
Patrin, antigo ajudante-de-ordens de Teg, trouxe Taraza para o aposento da ala leste, lugar pequeno e elegante, somente com mobílias sólidas. Teg não gostava de cadeiras-cão nem de qualquer outro tipo de mobília viva. Patrin tinha uma aparência de aborrecimento estampada no rosto enquanto fazia a Madre Superiora, vestida de preto, entrar na sala. Teg reconheceu aquela expressão imediatamente. Para outras pessoas, a face longa e pálida de Patrin poderia, com as muitas rugas da idade, parecer uma máscara imutável. Mas ao olhar alerta de Teg, o aprofundamento das rugas em torno da boca do homem e a expressão de seus velhos olhos só poderiam significar uma coisa: no caminho até aquela sala, Taraza lhe dissera algo que o tinha perturbado.
Portas de correr, bem altas e feitas de plaz pesado, emolduravam o cenário no lado ocidental da sala, um longo gramado em declive que descia até as árvores junto do rio. Taraza parou, dentro do aposento, para admirar a vista.
Sem que lhe pedissem, Teg apertou um botão. Cortinas deslizaram, tapando a paisagem, e globos luminosos se acenderam. A ação de Teg revelou a Taraza que ele tinha computado a necessidade de privacidade. Ele ainda enfatizou isso ao ordenar a Patrin:
— Por favor, cuide para que não sejamos perturbados.
— As ordens para a Fazenda do Sul, senhor — arriscou Patrin.
— Por favor, cuide delas você mesmo. Você e Firus sabem o que eu desejo.
Patrin fechou a porta um tanto bruscamente ao sair, pequeno sinal que revelava muito para Teg.
Taraza deu um passo para dentro do aposento e o examinou.
— Verde-limão — ela disse. — Uma de minhas cores favoritas. Sua mãe tinha um gosto excelente.
Teg animou-se com a observação. Tinha profunda afeição por esse prédio e por essa terra. Sua família vivera ali durante apenas três gerações, mas tinha deixado sua marca no lugar. E o toque de sua mãe não fora realmente alterado em muitos dos aposentos.
— E seguro amar a terra e os lugares — disse ele.
— Gostei particularmente dos tapetes laranja-escuros no salão e do vitral colorido acima da porta de entrada — disse Taraza. — Aquele vitral é uma verdadeira antigüidade, tenho certeza.
A senhora não veio até aqui para conversar sobre a decoração de interiores —
disse Teg.
Taraza riu.
Ela tinha uma voz aguda que seu treinamento na Irmandade lhe ensinara a usar com eficácia devastadora. Não era uma voz fácil de ser ignorada, mesmo quando parecia cuidadosamente informal, como agora. Teg já tivera oportunidade de ver Taraza no Conselho da Bene Gesserit. Suas maneiras eram poderosas e persuasivas, cada palavra uma indicação da mente aguda que lhe guiava as decisões. Agora ele podia sentir uma decisão importante por baixo de suas maneiras.
Teg indicou uma cadeira verde, estofada, à sua esquerda. Ela olhou para o móvel, percorreu uma vez mais o aposento com o olhar e suprimiu um sorriso.
Nem uma cadeira-cão na casa, podia apostar. Teg era uma antigüidade cercada de antigüidades. Sentou-se e alisou o manto enquanto esperava que ele sentasse em outra cadeira igual diante dela.
— Lamento a necessidade de lhe pedir para abandonar sua aposentadoria, Bashar — disse ela. — Infelizmente as circunstâncias me deixam pouca escolha.
Teg deixou os longos braços repousarem informalmente nos braços da cadeira, um Mentat em repouso, à espera. Sua postura dizia: encha minha mente de dados.
Taraza sentiu-se momentaneamente desconcertada. Isso era uma imposição.
Teg ainda era uma figura imponente, alto e com uma cabeça volumosa, coroada por cabelos grisalhos. Ela bem sabia que lhe faltavam quatro AP para completar 300 anos.
Levando-se em conta que o Ano-Padrão tinha 20 horas a menos que o chamado ano primitivo, essa ainda era uma idade impressionante, revelando experiências a serviço da Bene Gesserit que exigiam que ele fosse respeitado. Notou que Teg usava um uniforme cinza-claro sem qualquer insígnia: calças e jaqueta feitas sob medida, camisa branca aberta na gola para revelar um pescoço profundamente enrugado. Havia um brilho dourado em sua cintura e ela reconheceu o asterisco de Bashar que ele recebera na aposentadoria. Como Teg era utilitarista! Transformara aquela bugiganga dourada num fecho de cinto. Isso a tranqüilizava. Teg entenderia seu problema.
— Posso beber um copo de água? — pediu Taraza. — Foi uma viagem longa e cansativa. Nós percorremos o último trecho em um de nossos próprios transportes, que já devia ter sido aposentado há 500 anos.
Teg levantou-se da cadeira, foi até um painel na parede e retirou uma garrafa de água gelada e um copo de dentro de um compartimento atrás do painel. Colocou os dois na mesa baixa, ao alcance da mão direita de Taraza.
— Eu tenho melange — disse ele.
— Não, obrigada, Miles. Tenho meu próprio suprimento.
Teg voltou para a cadeira e notou os sinais de rigidez. Mas ela ainda estava em boa forma, considerando-se a idade que tinha.
Taraza encheu meio copo de água e bebeu em um gole. Recolocou o copo na mesinha com muito cuidado. Como abordar o assunto? Os modos de Teg não a
enganavam. Ele não queria deixar sua aposentadoria. Suas analistas lhe haviam advertido a respeito disso. Desde que se aposentara, ele desenvolvera um grande interesse por sua fazenda. Suas extensas terras em Lernaeus eram essencialmente um jardim de pesquisa.
Ela ergueu os olhos e o estudou abertamente. Os ombros quadrados acentuavam a cintura estreita de Teg. Então ele ainda se mantinha ativo. Aquele rosto longo com feições bem definidas pelos ossos fortes: isso era tipicamente Atreides. Teg devolveu-lhe o olhar, como sempre fazia, exigindo atenção, mas aberto ao que a Madre Superiora pudesse dizer. O boca fina exibia um sorriso irônico, expondo dentes brilhantes e muito perfeitos.
“Ele sabe que me sinto pouco à vontade”, pensou ela. “Maldição! Ele é apenas um servo da Irmandade, tanto quanto eu!”
Teg não a enchia de perguntas. Seus modos permaneciam impecáveis, a curiosidade contida. Ela lembrou a si mesma que essa era apenas uma característica dos Mentats.
De repente, Teg levantou-se e caminhou para um aparador à esquerda de Taraza. Voltou-se, cruzou os braços sobre o peito e ficou recostado, olhando para ela.
Taraza viu-se forçada a girar a cadeira a fim de olhar para ele. Maldito! Teg não ia tornar a coisa mais fácil para ela. Todas as Reverendas Madres Examinadoras tinham mencionado a dificuldade em se conseguir que Teg se sentasse para uma conversa. Ele preferia ficar de pé, os ombros mantidos numa rigidez militar, o olhar voltado para baixo. Poucas Reverendas Madres igualavam sua altura — mais de dois metros. Essa tendência, concordavam as analistas, era a maneira com que Teg (provavelmente de modo inconsciente) protestava contra a autoridade da Irmandade sobre ele. Nada disso, entretanto, transpirava em outras facetas de seu comportamento. Teg sempre fora o mais confiável de todos os comandantes militares que a Irmandade já empregara.
Num universo multi-societário cujas maiores forças unificadoras interagiam de modo complexo, a despeito da simplicidade dos rótulos, comandantes militares confiáveis valiam muitas vezes o seu peso em melange. As religiões e a memória comum das tiranias imperiais sempre figuravam nas negociações, mas eram as forças econômicas que prevaleciam, e a moeda militar sempre podia ser somada na contabilidade de todos. Ela estava em todas as negociações e assim continuaria por muito tempo, enquanto a necessidade impulsionasse o sistema de comércio — a necessidade de algo em especial (como a especiaria ou os tecnoprodutos de Ix), a necessidade de especialistas (Mentats ou médicos Suk), e todas as outras coisas mundanas para as quais existiam mercados: força de trabalho, construtores, desenhistas, vida planiformizada, artistas, prazeres exóticos...
Nenhum sistema legal poderia unir tamanha complexidade num todo, e esse fato, muito obviamente, acarretava outra necessidade — a necessidade de árbitros influentes. As Reverendas Madres, naturalmente, haviam assumido esse papel dentro
da teia econômica, e Miles Teg sabia disso. E também sabia que uma vez mais estava sendo colocado em seu papel de elemento de negociação. O fato de ele gostar ou não desse papel não figurava nas negociações.
— Não é como se você tivesse uma família para mantê-lo aqui — disse Taraza.
Teg aceitou isso em silêncio. Sim, sua esposa estava morta há 38 anos. Os filhos estavam todos crescidos e, com exceção de uma filha, haviam partido. Tinha muitos interesses pessoais, mas nenhuma obrigação familiar. Era verdade.
Taraza recordou-lhe seu longo e fiel serviço à Irmandade, citando várias de suas conquistas mais memoráveis. Sabia que os elogios não teriam muito efeito sobre ele, mas isso lhe dava a abertura necessária para o que devia seguir-se.
— Você tem sido elogiado por sua semelhança familiar — ela disse.
Teg inclinou a cabeça não mais que um milímetro.
— Sua semelhança com o primeiro Leto Atreides, avô do Tirano, é realmente extraordinária — observou ela.
Teg não deu qualquer sinal de que tivesse ouvido ou concordado. Isso era meramente um dado, alguma coisa a mais armazenada em sua copiosa memória. Ele sabia ter o gene dos Atreides. Tinha visto a imagem de Leto I na sede da Irmandade.
Fora algo estranho, como se olhar num espelho.
— Você é um pouco mais alto — disse Taraza.
Teg continuava a olhar para ela de cima para baixo.
— Maldição, Bashar — explodiu Taraza. — Quer pelo menos me ajudar?
— Isso é uma ordem, Madre Superiora?
— Não, não é uma ordem!
Teg sorriu lentamente. O fato de Taraza permitir-se tal demonstração emocional diante dele revelava muitas coisas. Ela não faria isso com gente que não julgasse digna de confiança. E certamente não se permitiria tal explosão emocional diante de alguém que considerasse apenas um subordinado.
Taraza recostou-se na cadeira e sorriu para ele.
— Tudo bem — ela disse. — Você já se divertiu. Patrin disse que ficaria muito aborrecido comigo se eu o chamasse de volta ao dever. E lhe asseguro que é fundamental para os nossos planos.
— Que planos, Madre Superiora?
— Estamos criando um ghola Duncan Idaho em Gammu. Ele já tem quase seis anos de idade e está pronto para a educação militar.
Teg permitiu que seus olhos se abrisssem ligeiramente.
— Vai ser uma tarefa aborrecida para você — disse Taraza. — Mas quero que se encarregue de seu treinamento e de sua proteção assim que for possível.
— Minha semelhança com o Duque Atreides — disse Teg. — Vai usar-me para lhe restaurar as memórias originais.
— Dentro de oito ou dez anos, sim.
— Esse tempo todo! — Teg sacudiu a cabeça. — Por que Gammu?
— Sua herança prana-bindu foi alterada pelos Bene Tleilax. sob nossas ordens.
Seus reflexos igualarão, em velocidade, os de qualquer pessoa nascida em nossa época.
Gammu... O Duncan Idaho original nasceu e foi criado lá. Devido às mudanças em sua herança celular, devemos manter tudo o mais próximo possível das condições originais.
— Por que está fazendo isso?
A pergunta foi feita no tom de um Mentat reunindo dados.
— Uma criança de sexo feminino com a habilidade de controlar os vermes foi descoberta em Rakis. Teremos um uso para o nosso ghola.
— Vai fazê-lo procriar?
— Não estou convocando-o como Mentat. É de sua habilidade militar e de sua semelhança ao Leto original que nós precisamos. Você saberá como lhe restaurar as memórias originais quando chegar a ocasião.
— Assim, está me convocando a voltar à minha função como Mestre de Armas.
— Acha que isso é um retrocesso para o homem que foi o Supremo Comandante Bashar de todas as nossas forças?
— Madre Superiora, a senhora ordena e eu obedeço. Mas não aceitarei esse posto sem o comando geral de todas as defesas de Gammu.
— Isso já foi arranjado, Miles.
— A senhora sempre adivinha como funciona a minha mente.
— E estamos sempre confiantes em sua lealdade.
Teg afastou-se do aparador e parou por um momento, pensando. Depois disse:
— Quem irá me instruir?
— Bellonda, dos Registros, a mesma de antes. Ela vai fornecer-lhe um código seguro para a troca de mensagens entre nos.
— Eu darei à senhora uma lista de pessoas — disse Teg. — Velhos camaradas e os filhos de alguns deles. Quero todos me esperando em Gammu quando eu chegar.
— Não acha que algum deles pode recusar?
O olhar dele dizia: “Não seja tola!”
Taraza riu, pensando: “Existe algo que aprendemos muito bem com os Atreides originais — como produzir pessoas que obtêm a maior devoção e lealdade”
— Patrin cuidará do recrutamento — disse Teg. — Ele não aceitará nenhum posto, eu sei, mas deve receber um pagamento à altura e as cortesias de um auxiliar de coronel.
— Você, é claro, receberá de volta o seu posto de Supremo Bashar —
acrescentou ela. — Nós vamos.
— Não, vocês têm Burzmali. Não vamos enfraquecê-lo colocando seu velho comandante acima dele uma vez mais.
Ela o observou por um momento:
— Ainda não demos a Burzmali o posto de...
— Sei disso. Meus antigos camaradas me mantém inteiramente a par da política da Irmandade. Mas a senhora e eu, Madre Superiora, sabemos que é apenas questão de tempo. Burzmali é o melhor.
Ela só pôde aceitar. Era mais que uma avaliação Mentat. Era uma avaliação de Teg. Outro pensamento lhe ocorreu.
— Então você já sabia a respeito de nossa disputa no Conselho! — acusou ela.
— E me deixou.
— Madre Superiora, se achasse que iriam produzir outro monstro em Rakis, eu lhe teria dito. A senhora confia nas minhas decisões, eu confio nas suas.
— Maldito seja, Miles, você esteve afastado por muito tempo. — Taraza levantou-se. — Eu me sinto mais calma só de saber que você está de volta ao seu trabalho.
— O trabalho — repetiu ele — Sim. Reinstale-me como Bashar em missão especial. Desse modo, quando a notícia chegar a Burzmali, não haverá perguntas tolas.
Taraza entregou-lhe um maço de papéis ridulianos tirados de debaixo de seu manto.
— Eu já assinei estes. Preencha seu termo de volta ao serviço. As outras autorizações estão todas aí, transporte e tudo mais. Eu lhe dou essas ordens pessoalmente. Deve obedecer a mim. Você é o meu Bashar; compreende?
— Não foi sempre assim?
— Agora é mais importante do que nunca. Mantenha o ghola em segurança e o treine bem. E sua responsabilidade. Eu o apoiarei nisso contra tudo e contra todos.
— Ouvi dizer que Schwangyu está no comando em Gammu.
— Eu disse contra todos, Miles. Não confie em Schwangyu.
— Percebo. Vai almoçar conosco? Minha filha tem. .
— Perdoe-me, Miles, mas devo voltar o mais cedo possível. Vou enviar Bellonda imediatamente.
Teg levou-a até a porta, trocou alguns cumprimentos e trivialidades com seus velhos alunos que faziam parte da escolta e observou enquanto partiam. Havia um carro de solo blindado esperando na estrada, um dos novos modelos que obviamente tinham trazido. A visão causou em Teg um sentimento de desagrado.
“Urgência!”
Taraza viera em pessoa, a própria Madre Superiora fazendo serviço de mensageira, sabendo o que isso lhe revelaria. Conhecendo tão intimamente o modo como a Irmandade agia, ele percebeu as implicações do que estava acontecendo. A disputa no Conselho da Bene Gesserit era mais profunda do que seus informantes tinham sugerido.
“Você é o meu Bashar.”
Olhou para o maço de autorizações e ordens de pagamento de passagens que
Taraza lhe deixara. Todas já tinham seu selo e sua assinatura. A confiança que isso implicava aumentava seu desconforto.
“Não confie em Schwangyu.”
Colocou os papéis no bolso e saiu em busca de Patrin. Este teria que ser adulado e colocado a par do que estava acontecendo. Teriam que discutir sobre quem chamar para essa missão. Começou a enumerar alguns nomes em sua mente. Trabalho perigoso pela frente. Somente os melhores serviriam. Maldição! Tudo na propriedade teria que ser passado para Firus e Dimela. Tantos detalhes! Sentiu o pulso acelerar-se enquanto caminhava pela casa.
Ao passar por um segurança da casa, um de seus antigos soldados, Teg fez uma pausa:
— Martin, cancele todos os meus compromissos para hoje. Encontre minha filha e lhe diga para se reunir a mim no estúdio.
A notícia se espalharia pela casa e, de lá, para toda a propriedade. Os servos e a família, sabendo que a Reverenda Madre Superiora tinha conversado com ele em particular, iriam automaticamente estabelecer uma cortina protetora para afastá-lo de qualquer problema sem importância. Sua filha mais velha, Dimela, interrompeu-o quando começou a enumerar o que era necessário para manter em andamento seus projetos na fazenda experimental.
— Pai, não sou uma criança!
Ambos estavam na pequena estufa ligada ao estúdio. Restos do almoço de Teg tinham ficado sobre um banco, a um canto, e o bloco de notas de Patrin estava encostado à parede ao lado da bandeja de lanche.
Teg olhou sério para a filha. Dimela parecia-se com ele nas feições, mas não na altura. Muito angulosa para ser bela, conseguira, não obstante, um ótimo casamento.
Dimela e Firus tinham três crianças adoráveis.
— Onde está Firus? — perguntou Teg.
— Cuidando da replantagem na Fazenda do Sul.
— Oh, sim. Patrin mencionou isso.
Teg sorriu. Sempre lhe agradara que Dimela tivesse recusado a oferta da Irmandade, preferindo casar-se com Firus, nativo de Lernaeus, e permanecer na companhia do pai.
— Tudo que sei é que o estão chamando de volta ao trabalho — comentou Dimela. — É uma missão perigosa?
— Você fala exatamente como sua mãe, sabia?
— Então é perigoso! Malditas, você já não fez o suficiente por elas?
— Aparentemente não.
Ela afastou-se enquanto Patrin entrava pelo outro lado da estufa. Ouviu a filha falar com Patrin enquanto um passava pelo outro.
— Quanto mais velho ele fica, mais se parece com uma Reverenda Madre!
Que mais podia ela esperar? Teg ficou imaginando. Filho de uma Reverenda
Madre, tendo por pai um funcionário subalterno da CHOAM, ele crescera em uma casa que funcionava ao ritmo da Irmandade. Sempre lhe fora evidente, desde a mais tenra idade, que a lealdade de seu pai para com a rede de comércio interplanetário da CHOAM desaparecera quando sua mãe lhe fizera objeção.
Essa fora a casa de sua mãe até a morte dela, menos de um ano depois que seu pai morrera. A marca dos gostos dela estava à volta dele, em toda parte.
Patrin parou diante dele.
— Vim buscar meu bloco de anotações. Acrescentou algum nome novo?
— Alguns. É melhor você cuidar disso logo.
— Sim, senhor!
Patrin fez uma careta e voltou por onde tinha vindo, batendo na perna com o bloco de notas.
“Ele sente também”, pensou Teg.
Uma vez mais, Teg olhou à sua volta. Essa ainda era a casa de sua mãe. Depois de todos os anos em que ele tinha vivido lá, criado uma família! Ainda era o lugar dela.
Oh, ele tinha construído essa estufa, mas o estúdio ao lado fora o aposento particular da mãe. Janet Roxbrough dos Lernaeus Roxbrough. A mobília, a decoração, tudo repetia que o lugar ainda pertencia a ela. Taraza percebera isso. Ele e a esposa tinham mudado alguns objetos superficiais, mas o núcleo ainda era um reflexo da personalidade de Janet Roxbrough. E não havia dúvida quanto ao sangue das Oradoras Peixes naquela linhagem. Que prêmio fora ela para a Irmandade! Que ela tivesse se casado com Loschy Teg e passado a vida ali, isso era o mais estranho. Um fato indigerível até que se soubesse como o programa de procriação da Bene Gesserit funcionava através das gerações.
“Elas o fizeram de novo”, pensou Teg. “Mantiveram-me esperando todo esse tempo, na reserva, só para este momento.”
A religião não afirmou deter a patente da criação durante todos estes milênios?
— Indagação Tleilaxu,
de O Muad'Dib Fala
O ar de Tleilax estava cristalino, tomado por uma quietude causada, em parte, pelo frio da manhã e, em parte, por um sentimento de temerosa antecipação, como se a vida estivesse em compasso de espera na cidade de Bandalong. Vida voraz e frustrada, que não se mexeria até receber seu sinal pessoal. O Mahai, Tylwyth Waff, Mestre dos Mestres, gostava mais dessa hora do que de qualquer outra do dia. A cidade agora era sua, enquanto ele olhava através da janela aberta. Bandalong só
viveria ao seu comando. Isso era o que ele dizia a si mesmo. O medo que podia sentir lá fora era o seu controle sobre qualquer realidade que pudesse brotar daquele reservatório de vida incubada: a civilização Tleilaxu, que se havia originado ali e depois espalhara seus poderes para longe.
Seu povo tinha aguardado milênios por essa época, e agora Waff saboreava esse momento. Durante todos os tempos terríveis do Profeta Leto II (não o Imperador Deus, mas o Mensageiro de Deus), durante toda a era da Fome e da Dispersão, através de cada derrota dolorosa nas mãos de criaturas inferiores, durante todas essas agonias os Tleilaxu tinham acumulado sua paciência para esse momento.
“Chegamos ao nosso momento, ó Profeta!”
A cidade que jazia debaixo da janela elevada parecia aos seus olhos como um símbolo, um marco forte na história dos projetos dos Tleilaxu. Outros planetas dos Tleilaxu, outras grandes cidades, interligadas e interdependentes, todas fiéis ao seu Deus e a essa cidade, aguardavam o sinal que, todos sabiam, logo viria. As forças gêmeas dos Dançarinos Faciais e dos Masheikh tinham unido seus poderes em preparação para uma salto cósmico. Os milênios de espera estavam a ponto de terminar.
Waff pensava naquilo como “o longo começo”.
Sim. Assentiu para si mesmo enquanto olhava para a cidade à espera. Desde a sua concepção, desde a mais infinitesimal partícula de idéia, os líderes da Bene Tleilax tinham compreendido os perigos de um plano tão amplo, tão prolongado, tão sutil e tão complexo. Sabiam desde o início que precisavam superar um período de quase desastre e novamente aceitar perdas, submissão e humilhações terríveis. Tudo isso e muito mais fora empregado na construção dessa imagem particular da Bene Tleilax.
Através de milênios de fingimento, eles tinham criado um mito.
“Os vis, destestáveis e sujos Tleilaxu! Os estúpidos Tleilaxu! Os previsíveis Tleilaxu! Os impetuosos Tleilaxu!”
Mesmo os seguidores do Profeta tinham caído presa desse mito. Uma Oradora Peixe aprisionada colocara-se nessa sala mesmo e gritado para um Mestre Tleilaxu:
— O fingimento muito prolongado cria uma realidade! Vocês são verdadeiramente vis!
Por isso eles a mataram e o Profeta não fez coisa alguma.
Quão pouco todos aqueles povos e mundos alienígenas entendiam o domínio dos Tleilaxu sobre si mesmos. Impetuosidade? Deixe que eles reconsiderem isso depois que a Bene Tleilax tiver demonstrado quantos milênios foi capaz de aguardar por sua ascendência.