Os Hereges de Duna
“Na ocasião pensei que estava saindo vitoriosa.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Por que eu fiz aquilo? — ele sussurrou.
— Vai saber quando suas memórias originais forem restauradas — explicou ela.
— Os Harkonnen — sussurrou Duncan, e seu rosto ficou corado. Ergueu a face para Lucilla. — Por que os odeio tanto?
— Palavras não podem explicar isso — ela disse. — Você vai ter que esperar pelas memórias.
— Eu não quero memórias! — Olhou espantado para Teg e então disse: —
Sim! Sim, eu as quero.
Depois, quando olhava para Teg na cozinha do não-globo, sua memória obviamente retornou àquele momento.
— Quando, Bashar?
— Logo.
Teg observou o aposento. Duncan estava sentado, sozinho, diante de uma mesa com sistema de limpeza automático, uma xícara de um líquido marrom diante dele. Teg reconheceu o cheiro: era um dos muitos produtos compostos de melange tirados dos vasos de nulentropia. Tais vasos continham um tesouro de comidas exóticas, roupas, armas e outros artefatos — um verdadeiro museu cujo valor não podia ser calculado. Havia uma fina camada de pó cobrindo todo o interior do globo, mas nenhuma deterioração atingira as coisas guardadas nos recipientes. Cada amostra
de comida estava condimentada com melange. Não num nível que viciasse, desde que a pessoa não fosse gulosa, mas sempre perceptível. Até mesmo as frutas preservadas tinham sido pulverizadas com melange.
O líquido marrom na xícara de Duncan era uma das coisas que Lucilla tinha provado e considerado capaz de sustentar a vida. Teg não sabia precisamente como as Reverendas Madres faziam isso, mas sua própria mãe fora capaz de tal coisa. Um gole e elas sabiam o conteúdo da bebida toda.
Uma olhada no relógio decorado, colocado na parede da extremidade fechada da alcova, revelou a Teg que já era mais tarde do que ele pensava. A terceira hora de um arbitrário cair da tarde. Duncan devia estar lá em cima, na sofisticada sala de prática de solo, mas ambos tinham visto Lucila subir para a parte superior do globo, e para Teg essa era uma oportunidade de conversarem a sós.
Ele puxou uma cadeira e se sentou no lado oposto da mesa.
Duncan disse:
— Eu odeio esse relógio!
— Você odeia tudo aqui — retrucou Teg, dando uma segunda olhada no relógio. Era outra antigüidade, um mostrador redondo com dois ponteiros análogos e um contador de segundos digital. Os dois ponteiros tinham sido esculpidos com formas humanas, de modo a representarem uma piada debochada: o dos minutos era um homem com um falo enorme, enquanto o das horas era uma mulher com as pernas abertas. Cada vez que os dois ponteiros passavam um sobre o outro, o homem parecia penetrar a mulher.
— Grosseiro — concordou Teg. Apontou para a bebida de Duncan e perguntou: — Que tal?
— Tudo bem, senhor. Lucilla diz que devo beber isto depois dos exercícios.
— Minha mãe costumava preparar-me uma bebida semelhante depois de exercícios físicos pesados — disse Teg.
Inclinou-se para a frente e inalou, lembrando o gosto que ficava na língua após um gole, o perfume penetrante de melange nas narinas.
— Senhor, quanto tempo devemos permanecer aqui? — perguntou Duncan.
— Até sermos encontrados pelas pessoas certas, ou até termos a certeza de não sermos encontrados.
— Mas... isolados aqui, como vamos saber?
— Quando eu julgar que é hora, vou pegar o cobertor do escudo vital e passar a montar guarda do lado de fora.
— Eu odeio este lugar!
— Isso é óbvio. Mas você não aprendeu nada sobre a paciência?
Duncan fez uma careta.
— Senhor, por que evita que eu fique sozinho com Lucilla?
Teg, que exalava o ar interrompeu-se e então começou a respirar de novo.
Sabia, entretanto, que o rapaz tinha reparado. E se Duncan sabia, Lucilla então mais
ainda!
— Não creio que Lucilla perceba o que está fazendo, senhor — explicou o rapaz. — Mas está ficando bem óbvio. — Olhou em volta para se certificar de que não eram ouvidos. — Se este lugar não lhe absorvesse tanto a atenção... Para onde ela correu daquele jeito?
— Acho que ela está lá em cima, na biblioteca.
— Biblioteca!
— Concordo que é primitiva, mas também é fascinante.
Teg ergueu os olhos para os arabescos no teto da cozinha. O momento da decisão tinha chegado. Não podia confiar em que Lucilla ficasse distraída por muito mais tempo. Teg compartilhava do fascínio que ela sentia. Era fácil alguém perder a atenção em meio a tantas maravilhas. Todo o complexo do não-globo, com uns 200
metros de diâmetro, era um fóssil preservado intacto desde os tempos do Tirano.
Quando falava a esse respeito, a voz de Lucilla assumia um tom rouco, sussurrante.
— Certamente o Tirano devia saber da existência deste lugar.
A consciência Mentat de Teg mergulhara imediatamente nessa afirmação: “Por que o Tirano permitiu que a Família Harkonnen desperdiçasse tanto de sua riqueza remanescente na construção de tal empreendimento?”
“Talvez por isso mesmo — para empobrecê-la.”
O custo em subornos e no transporte da Corporação desde as fábricas Ixianas devia ter sido astronômico.
— Será que o Tirano sabia que um dia íamos precisar deste lugar? —
perguntou Lucilla.
Teg concordou. Afinal, sempre se demonstrara não haver meios de escapar aos poderes prescientes de Leto II.
Olhando para Duncan sentado diante dele, Teg sentiu os pêlos da nuca se eriçarem. Havia alguma coisa sinistra nesse refúgio Harkonnen, como se o próprio Tirano pudesse ter estado ali. Que será que tinha acontecido com os Harkonnen que haviam construído esse lugar? Teg e Lucilla não tinha encontrado nenhum vestígio que indicasse o modo como o não-globo terminara abandonado.
E nenhum dos dois podia caminhar pelo lugar sem experimentar uma sensação aguda de estar participando da história. Teg era freqüentemente confrontado com perguntas sem resposta.
Lucilla também comentou isso.
— Para onde será que eles foram? Não existe ninguém em minhas Outras Memórias que me dê essa resposta.
— Será que o Tirano os atraiu para fora e os matou?
— Vou voltar para a biblioteca. Talvez hoje eu encontre alguma coisa.
Nos dois primeiros dias de sua ocupação, o não-globo fora objeto de um minucioso exame da parte de Teg e Lucilla. Um Duncan silencioso e carrancudo
seguia-os por toda parte, como se tivesse medo de ficar sozinho. E cada nova descoberta os deixava cheios de admiração, ou então chocados.
Vinte e um esqueletos tinham sido preservados, emparedados no plaz transparente de uma parede perto do núcleo! Observadores macabros de qualquer um que passasse por lá a caminho das câmaras de máquinas e dos vasos de nulentropia.
Patrin advertira Teg quanto aos esqueletos. Em uma de suas primeiras incursões ao globo, quando era jovem, Patrin encontrara registros que revelavam que os mortos eram os artesãos construtores do lugar, assassinados pelos Harkonnen de modo a que o segredo fosse mantido.
Em si mesmo, o globo era uma extraordinária realização, um lugar fora do alcance do Tempo, isolado de toda a influência exterior. Depois de todos esses milênios, suas máquinas sem atrito criavam uma projeção mimética que mesmo os instrumentos mais modernos não poderiam localizar contra o fundo de terra e rocha.
— A Irmandade deve adquirir este lugar intacto! — dizia Lucilla seguidamente.
— É uma casa de tesouro! Eles até mantinham os registros de procriação de sua família.
Não fora só isso que os Harkonnen tinham preservado ali. Teg continuava sentindo repulsa pelos sutis toques de grosseria em quase tudo que existia no globo.
Como aquele relógio! Roupas, instrumentos para a manutenção do ambiente, para a educação ou prazer — tudo fora marcado com aquela compulsão dos Harkonnen para exibir seu debochado sentimento de superioridade em relação a todas as pessoas e padrões de bom gosto.
Uma vez mais, Teg pensou em Patrin quando ainda jovem, dentro desse lugar, talvez ainda rapaz como esse ghola. Que teria levado Patrin a guardar segredo, até mesmo de sua esposa, durante tantos anos? Patrin nunca revelara as suas razões, mas Teg tinha feito suas próprias deduções. Uma infância infeliz. A necessidade de ter um lugar secreto, um refúgio. Amigos que não eram realmente amigos, apenas pessoas esperando para zombar dele. Nenhum desses companheiros teria permissão para compartilhar de semelhante maravilha. Era sua! Esse era mais que um lugar de solitária segurança. Fora o símbolo particular de vitória para Patrin.
“Passei muitas horas felizes ali, Bashar. Tudo ainda funciona. Os registros são antigos, mas excelentes, desde que você entenda os dialetos. Existe muito conhecimento guardado naquele lugar. Mas vai entender quando chegar lá. Vai entender muitas coisas que nunca lhe contei.”
O antigo salão de prática de solo mostrava sinais de uso freqüente por Patrin.
Ele tinha modificado o código de armamento de alguns dos autômatos num modo que Teg reconhecia. Os contadores de tempo revelavam muitas horas de tortura muscular em exercícios complicados. Esse globo explicava aquelas habilidades que Teg sempre considerara extraordinárias em Patrin. Os talentos naturais tinham sido aperfeiçoados nesse lugar.
Os autômatos do não-globo eram outra questão interessante. A maioria deles
representara um desafio às prescrições contra tais engenhos. Mais do que isso, alguns tinham sido projetados para funções de prazer que confirmavam as histórias mais revoltantes que Teg tinha ouvido com relação aos Harkonnen. Dor como fonte de prazer! A seu próprio modo, essas coisas explicavam a moralidade inflexível que Patrin levara de Gammu.
A aversão criava Seus próprios padrões de comportamento.
Duncan engoliu um grande gole de sua bebida e olhou para Teg por cima da borda da xícara.
— Por que veio para cá sozinho quando lhe pedi que completasse uma última sessão de exercícios? — perguntou Teg.
— Os exercícios não faziam sentido. — Duncan afastou a xícara.
“Bem, Taraza, você estava errada”, pensou Teg. “Ele partiu para uma atitude de total independência antes do previsto.”
E o Duncan também parara de se dirigir a ele como “senhor”.
— Você me desobedeceu?
— Não exatamente.
— Então, exatamente o que está fazendo?
— Eu preciso saber.
— Não vai gostar muito de mim quando souber.
Duncan olhou espantado.
— Senhor?
“Ah, o 'senhor' está de volta.”
— Tenho preparado você para certos tipos de dores muito intensas. —
explicou Teg. — Elas serão necessárias antes que possamos restaurar-lhe todas as memórias iniciais.
— Dor, senhor?
— Não conhecemos outro modo de trazer de volta o Duncan Idaho original, aquele que morreu.
— Senhor, se puder fazer isso, só lhe serei grato.
— É o que você diz. Mas pode passar a me ver apenas como mais um açoite nas mãos daqueles que o trouxeram de novo à vida.
— Não é melhor saber, senhor?
Teg passou o dorso de uma das mãos sobre a boca.
— Se vier a me odiar... não poderei culpá-lo.
— Senhor, se estivesse no meu lugar, será que ia sentir-se assim?
A postura de Duncan, seu tom de voz, até a expressão facial, demonstravam uma trêmula indecisão.
“Até agora tudo bem” , pensou Teg. As várias etapas do procedimento encontravam-se determinadas com uma precisão que exigia que cada resposta do ghola fosse interpretada com cuidado. Duncan estava agora cheio de incerteza. Queria uma coisa que ao mesmo tempo temia.
— Sou apenas o seu mestre, não o seu pai — disse Teg.
Duncan recuou ante o tom duro.
— Não é meu amigo?
— Esta é uma estrada de mão dupla. O Duncan Idaho original terá que responder essa pergunta por si mesmo.
Uma aparência embaçada surgiu nos olhos de Duncan:
— Vou me lembrar deste lugar? Do Castelo, de Schwangyu e...
— De tudo. Você passará por uma espécie de memória de visão dupla durante um certo tempo, mas se lembrará de tudo.
Uma expressão cínica surgiu no rosto do jovem e, quando ele falou, foi com amargura.
— Assim nós nos tornaremos camaradas?
Com toda a presença autoritária de um Bashar em sua voz, Teg continuou seguindo com precisão as instruções do procedimento para o despertar.
— Não me sinto particularmente interessado em me tornar seu camarada. —
Fixou um olhar observador na expressão de Duncan. — Você pode tornar-se um Bashar algum dia. Acho até que você tem as qualidades necessárias. Mas quando isso acontecer eu estarei morto há muito tempo.
— Seus únicos camaradas são Bashars?
— Patrin era meu amigo e ele nunca passou do posto de líder de esquadrão.
Duncan olhou para sua xícara vazia e então para Teg.
— Por que não pede alguma coisa para beber? Também se exercitou duramente lá em cima.
“Uma pergunta perceptiva.” Não se devia subestimar esse jovem. Ele sabia que partilhar do alimento era um dos mais antigos rituais de companheirismo.
— O cheiro de sua bebida foi o bastante para mim — respondeu Teg.
Velhas memórias. Não preciso delas agora.
— Então por que desceu até aqui?
Revelados na voz do jovem, havia esperança e medo. Ele queria que Teg dissesse alguma coisa em especial.
— Queria avaliar cuidadosamente até onde aqueles exercícios o levaram —
disse Teg. — Precisava vir até aqui e observá-lo.
— Por que tinha de ser tão cuidadoso?
“Esperança e medo.” Era hora de uma mudança de foco precisa.
— Nunca treinei um ghola antes.
“Ghola.” A palavra ficou suspensa entre eles, flutuando nos cheiros da cozinha que os filtros do globo ainda não tinham varrido do ar.
“Ghola!” Uma palavra entremeada do cheiro de especiaria que restara na xícara vazia de Duncan.
Duncan inclinou-se para diante sem falar, uma expressão ávida no rosto. Uma observação de Lucilla chegou à mente de Teg: “Ele sabe como usar o silêncio”
Quando se tornou óbvio que Teg não ampliaria aquela declaração, Duncan recostou-se na cadeira com uma expressão desapontada. O canto esquerdo de sua boca curvou-se para baixo e ele assumiu uma expressão carrancuda, pensativa. Toda a sua mente estava focalizada no interior, como deveria ser.
— Você não desceu até aqui para ficar sozinho — disse Teg. — Veio aqui para se esconder. Ainda está se escondendo aí e acha que ninguém vai encontrá-lo.
Duncan colocou uma das mãos diante da boca. Era um gesto significativo pelo qual Teg estivera esperando. As instruções para esse momento eram muito claras: “O
ghola deseja que suas memórias originais sejam despertadas, mas teme o que isso pode implicar. Essa é a maior barreira que você deve superar”
— Tire a mão da boca! — ordenou Teg.
Duncan deixou cair a mão como se ela tivesse sido queimada. Olhou para Teg como um animal aprisionado.
“Fale a verdade”, advertiam as instruções de Teg. “Nesse momento, com cada um de seus sentidos em fogo, o ghola enxergará dentro do seu coração”
— Desejo que saiba — continuou Teg — aquilo que a Irmandade me ordenou que fizesse com você. Isto me é desagradável.
Duncan pareceu agachar-se dentro de si mesmo.
— Que foi que eles lhe ordenaram que fizesse?
— As habilidades que me ordenaram que lhe desse contêm falhas.
— Falhas?
— Parte delas resume-se ao treinamento abrangente, a parte intelectual. Nesse aspecto você foi erguido até o nível de um comandante de regimento.
— Melhor que Patrin?
— Por que deve ser melhor que Patrin?
— Ele não era seu amigo?
— Sim.
— Disse que ele nunca subiu acima do posto de líder de pelotão!
— Patrin era inteiramente capaz de assumir o comando de toda uma força multiplanetária. Era um mago das táticas cuja sabedoria eu empreguei em muitas ocasiões.
— Mas disse que ele nunca. .
— Foi uma escolha dele. O posto baixo dava-lhe aquela aparência comum que ambos usamos muitas vezes.
— Comandante de regimento?
A voz de Duncan era pouco mais que um sussurro. Ele olhou para o topo da mesa.
— Você tem uma compreensão intelectual das funções envolvidas, é um pouco impetuoso, mas a experiência geralmente dá conta disso. Suas habilidades com as armas são superiores às de uma pessoa de sua idade.
Ainda sem olhar para Teg, Duncan perguntou:
— Qual é minha idade... senhor?
Exatamente como as instruções advertiam: “O ghola irá flutuar em torno de uma questão central: 'Qual é minha idade?' Qual a idade de um ghola?”
Com a voz friamente acusadora, Teg disse:
— Se quer saber sua idade como ghola, por que não pergunta isso?
— Qual... qual é essa idade, senhor?
Havia o peso de tanto sofrimento na voz daquele jovem que Teg sentiu lágrimas começarem a se formar nos cantos de seus olhos. Fora advertido a esse respeito também. “Não demonstre muita compaixão!” Teg disfarçou pigarreando.
Depois disse:
— Essa é uma pergunta que só você pode responder.
As instruções eram claras: “Devolva as perguntas dele! Mantenha a mente dele voltada para o interior. A dor emocional é tão importante nesse processo quanto a dor física”
Um suspiro profundo fez Duncan estremecer. Ele fechou os olhos, comprimindo as pálpebras. Quando Teg se sentara diante dele naquela mesa, tinha pensado imediatamente: “Será este o momento? Será que ele vai fazer agora?” Mas o tom acusador de Teg, seus ataques verbais tinham sido totalmente inesperados. E
agora Teg parecia condescendente.
“Ele está fazendo pouco de mim!”
Uma raiva cínica tomou conta de Duncan. Será que Teg o julgava tão bobo a ponto de ser enrolado pelo truque mais comum a um comandante? “Apenas o tom de voz e a atitude podem dominar a vontade do outro.” Duncan sentia outra coisa na atitude condescendente — algo como um âmago de plasteel que não poderia ser penetrado. Integridade... propósito. E Duncan tinha percebido as lágrimas quase brotando, o gesto para disfarçar. Abrindo os olhos e olhando diretamente para Teg, ele disse:
— Não quero parecer rude, desrespeitoso ou ingrato, senhor, mas não posso ir em frente sem essas respostas.
As instruções de Teg eram explícitas: “Você perceberá quando o ghola atingir o ponto de desespero. Nenhum ghola tenta esconder isso, é intrínseco à psique deles. Vai reconhecer pela voz e pela postura.”
Duncan já tinha chegado quase ao ponto critico. Agora o silêncio de Teg era importante. Force o Duncan a fazer suas perguntas, a seguir seu próprio caminho.
Ele disse:
— Sabe que uma vez eu pensei em matar Schwangyu?
Teg abriu a boca e a fechou sem emitir qualquer som. “Silêncio!” Mas o rapaz falava sério!
— Eu tinha medo dela — continuou ele. — Não gosto de sentir medo. — Ele abaixou a cabeça. — Uma vez o senhor me disse que só odiamos aquilo que é realmente perigoso.
“Ele vai aproximar-se e recuar, aproximar-se e recuar. Espere até que ele mergulhe.”
— Eu não o odeio — disse Duncan, olhando para Teg uma vez mais. —
Fiquei sentido quando disse ghola na minha cara. Mas Lucilla está certa, nunca devemos ressentir-nos da verdade, mesmo quando ela fere.
Teg esfregou os lábios. O desejo de falar era muito forte, mas ainda não estava na hora do mergulho.
— O fato de eu ter pensado em matar Schwangyu não o surpreende?
Teg manteve-se rígido. Mesmo que sacudisse a cabeça, isso seria tomado como resposta.
— Pensei em deixar cair alguma coisa na bebida dela, mas essa seria uma forma covarde e eu não sou covarde. Seja eu o que for, isso não sou.
Teg continuou silencioso e imóvel.
— Acho que se importa realmente com o que me acontecer, Bashar. Mas tem razão quando diz que nunca seremos camaradas. Se eu sobreviver, vou superá-lo.
Então... será tarde demais para sermos camaradas. Falou a verdade.
Teg foi incapaz de evitar a reação Mentat de respirar fundo: não havia como evitar os sinais de força desse ghola. Em algum momento recente, talvez ali mesmo naquela alcova, o jovem deixara de ser jovem e se tornara um homem. A percepção desse detalhe entristeceu Teg. Fora tudo tão rápido! Não houvera um crescimento normal, intermediário.
— Lucilla não se importa com o que aconteça comigo, do modo como faz —
continuou Duncan. — Ela apenas segue as ordens que recebeu da Madre Superiora Taraza.
“Ainda não!” Teg acautelou-se. Umedeceu os lábios com a língua.
— O senhor tem obstruído as ordens que Lucilla recebeu — continuou Duncan. — Que é que ela devia fazer comigo?
O momento chegara.
— Que acha que lhe ordenaram fazer? — perguntou Teg.
— Não sei!
— O Duncan Idaho original saberia.
— Você sabe! Por que não me diz?
— Só devo ajudá-lo a restaurar suas memórias originais.
— Então faça isso!
— Só você pode fazer isso.
— Não sei como!
Teg inclinou-se para a frente, colocando-se na beira de sua cadeira, mas não disse coisa alguma. “Ponto de mergulho?” Ele sentia a falta de alguma coisa no desespero de Duncan.
— Sabe que posso ler nos lábios, senhor — disse o ghola. — Uma vez subi na torre-observatório e observei Lucilla e Schwangyu lá embaixo, conversando.
Schwangyu dizia: “Não se importe por ele ser tão jovem. Você recebeu suas ordens.”
Mais uma vez, mantendo um silêncio cauteloso, Teg olhou para Duncan. Era típico dele mover-se secretamente pelo Castelo, espionando, buscando reunir conhecimentos. E ele se colocara naquela posição pensativa de novo, sem perceber que continuava espionando e buscando respostas... de um modo diferente.
— Não creio que quisessem que ela me matasse — acrescentou ele. — Mas o senhor sabe o que ela deveria fazer porque tem estado a impedi-la. — Duncan bateu com um punho em cima da mesa. — Responda-me, maldito!
“Ahh, o desespero completo, afinal.”
— Só posso dizer-lhe que aquilo que ela planeja entra em conflito com minhas ordens. Recebi ordens de Taraza para lhe dar forças e protegê-lo de qualquer dano.
— Mas disse que meu treinamento foi... falho!
— Algo necessário. Ele foi concebido no sentido de prepará-lo para suas memórias originais.
— E que esperam que eu faça?
— Você já sabe.
— Não, não sei. Por favor; ensine-me!
— Você fez muitas coisas sem precisar que o ensinassem a fazê-las. Será que lhe ensinamos a desobediência?
— Por favor, ajude-me!
O pedido era um gemido desesperado.
Teg forçou-se a manter um gélido distanciamento.
— Que diabos você pensa que estou fazendo?
Duncan comprimiu os punhos e com eles golpeou a mesa, fazendo a xícara pular. Olhou furioso para Teg. De repente, uma expressão curiosa surgiu no rosto do rapaz — uma coisa indagadora em seus olhos.
— Quem é você? — sussurrou.
“A pergunta-chave!”
A voz de Teg foi como um chicote atingindo subitamente uma vítima indefesa:
— Quem você pensa que sou?
Uma expressão de total desespero contorceu as feições de Duncan, que só conseguiu balbuciar:
— O senhor é... o senhor é...
— Duncan! Pare com essa tolice!
Teg ficou de pé e olhou para ele com uma raiva fingida.
— O senhor é...
A mão direita de Teg disparou num arco rapidíssimo, a palma aberta estalando na face do rapaz.
— Como se atreve a me desobedecer? — Outro tapa com a mão esquerda. —
Como se atreve?
Duncan reagiu tão rapidamente que Teg experimentou um instante eletrizante de choque absoluto. “Que velocidade!” Embora fossem movimentos isolados ocorreram num único borrão indistinto: um salto para cima, apoiando os pés na cadeira, balançando a cadeira e usando esse movimento para golpear com o braço direito na direção dos nervos vulneráveis do ombro de Teg.
Respondendo com seus instintos treinados, Teg esquivou-se de lado e lançou a perna esquerda sobre a mesa, visando a virilha de Duncan. Mesmo assim Teg não escapou totalmente do golpe, O lado da mão do rapaz continuou o golpe para baixo, atingindo de lado o joelho da perna que Teg usara para golpear. Isso deixou-lhe a perna inteira dormente.
Duncan caiu esparramado em cima da mesa, tentando esquivar-se para o lado, apesar do pontapé paralisante que tinha recebido. Teg apoiou-se com a mão esquerda na mesa e, com a outra mão, deu uma cutelada na base da espinha de Duncan, no nexus deliberadamente enfraquecido pelos exercícios dos últimos dias. Duncan gemeu enquanto uma agonia paralisante lhe dominava o corpo. Outra pessoa teria ficado imobilizada, gritando, mas Duncan apenas gemeu enquanto rastejava em direção a Teg para continuar seu ataque, Implacável diante das necessidades daquele momento, Teg continuou em sua tarefa de criar a maior dor possível para sua vitima, certificando-se de que o rapaz visse e face de seu atacante em cada instante de agonia extrema.
— Vigie os olhos dele! — advertira Bellonda. E, reforçando as instruções, ela dissera: — Seus olhos vão parecer enxergar através de você, mas ele vai chamá-lo de Leto.
Mais tarde Teg achou difícil lembrar cada detalhe de sua obediência ao processo de despertar. Sabia que tinha continuado a agir como fora ordenado, mas suas memórias se foram para outro lugar, deixando a carne livre para fazer o que era preciso. Curiosamente, esse truque mental fixou-se em outro ato de desobediência: a Revolta de Cerbol, quando Teg estava na meia-idade mas já era um Bashar de considerável reputação. Ele tinha vestido seu melhor uniforme, sem as medalhas (toque sutil), e se apresentara ante o calor escaldante dos campos arados pela batalha em Cerbol. Completamente desarmado no caminho do avanço rebelde.
Muitos dos atacantes deviam-lhe suas vidas. A maioria lhe emprestara a lealdade mais profunda em outras ocasiões. Agora se encontravam tomados da mais violenta desobediência. E a presença de Teg em seu caminho dizia o seguinte àqueles soldados que avançavam:
“Eu não estou usando as medalhas que revelam o que fiz por vocês quando fomos camaradas. Não uso nada que diga que sou um de vocês. Só o uniforme que revela ainda ser o Bashar. Matem-me, se chegaram a esse ponto em sua desobediência.”
Quando a maior parte da força atacante jogou as armas no chão e veio ao encontro dele, alguns comandantes ajoelharam-se para demonstrar respeito ante o velho Bashar, e ele os censurou:
— Não precisam curvar-se ou se ajoelhar diante de mim! Seus novos lideres lhes ensinaram maus hábitos.
Mais tarde ele contou aos rebeldes que compartilhava com eles algumas de suas queixas. Cerbol tinha sido muito prejudicado. Mas também os advertiu:
— Uma das coisas mais perigosas no universo é um povo ignorante que sofre injustiças reais. Mais isso não é nem de longe tão perigoso quanto uma sociedade de gente inteligente e bem-informada que tenha sido injustiçada. O dano que uma inteligência vingativa pode realizar é algo que vocês nem podem imaginar. O Tirano pareceria uma figura paternal, benevolente, diante daquilo que estiveram a ponto de criar!
Era tudo verdadeiro, é claro, mas no contexto da Bene Gesserit esses pensamentos ajudavam muito pouco diante daquilo que lhe haviam ordenado que fizessem com o ghola Duncan Idaho — criar a agonia física e mental numa vítima quase indefesa.
Era mais fácil lembrar o olhar de Duncan. Os olhos dele não perderam o foco, olhando cheios de ódio para o rosto de Teg, mesmo no instante do grito final:
— Maldito seja, Leto! Que você está fazendo?
“Ele me chamou de Leto.”
Trêmulo, Teg recuou, dois passos. Sua perna esquerda doía e formigava no ponto onde Duncan o tinha golpeado. Teg percebeu então que estava ofegante, no fim de suas reservas de resistência física. Era muito velho para um esforço dessa natureza, e a coisa toda o deixara sentindo-se imundo. O processo de despertar estava completamente fixo em sua consciência, todavia. Sabia que em outra época os gholas tinham sido acordados através de um condicionamento que os levava a, inconscientemente, tentar matar alguém a quem amavam. A psique do ghola, despedaçada e forçada a se recompor, ficava sempre danificada com um trauma. Essa nova técnica deixava as cicatrizes na pessoa que dirigia o processo.
Lentamente, movendo-se contra a vontade de músculos e nervos entorpecidos pela agonia, Duncan escorregou para trás, saindo de cima da mesa e se apoiando de encontro à cadeira onde estivera sentado. Trêmulo, olhava para Teg.
As instruções de Teg diziam: “Você deve ficar muito quieto. Não se mova.
Deixe que ele o observe à vontade.”
E Teg ficou imóvel como lhe mandaram. A memória da Revolta do Cerbol deixou sua mente: sabia o que tinha feito agora e naquela ocasião. De certo modo, as duas situações eram semelhantes. Não tinha revelado aos rebeldes nenhuma verdade derradeira (se é que tal coisa existia), somente o suficiente para os atrair de volta ao sistema. A dor e suas conseqüências previsíveis: “Isto é para o seu próprio bem.”
Seria realmente para o bem o que tinham feito com esse ghola Duncan Idaho?
Teg perguntava-se o que estaria acontecendo na consciência de Duncan naquele momento. Tinham lhe contado tudo que se sabia sobre esses momentos, mas
podia ver que as palavras eram inadequadas para descrever o que acontecia. A face e os olhos do rapaz forneciam amostras mais que evidentes de uma violenta confusão mental — horríveis contorções da boca e da face, olhos desviando-se para lá e para cá.
De um modo estranho por sua lentidão, o rosto de Duncan relaxou. O corpo continuou a tremer. Ele sentia a dor pulsante em seu corpo como uma coisa distante, como dores lancinantes que tinham sido infligidas e outra pessoa, não a ele. Estava ali, entretanto, nesse momento imediato — onde quer e quando quer que fosse. Mas suas memórias não se encaixavam. Sentia-se subitamente deslocado, habitando um corpo muito jovem que não se enquadrava em sua existência pré- ghola. A consciência que saltava de um lugar para outro permanecia subjetiva agora. Não havia mais indícios externos do que ocorria em sua mente.
Os instrutores de Teg tinham-lhe explicado:
— Ele terá filtros do tipo que é imposto aos gholas sobre suas memórias anteriores. Algumas delas fluirão de volta imediatamente. Outras vão retornar com mais lentidão. Não haverá enquadramento, contudo, até que ele se lembre do momento de sua morte original.
Bellonda fornecera a Teg os detalhes conhecidos a respeito desse instante fatal.
— Sardaukar — sussurrou o Duncan. Ele olhou à sua volta para os símbolos Harkonnen que permeavam o não-globo. — As tropas de choque do Imperador usando uniformes dos Harkonnen! — Um sorriso malévolo contorceu-lhe a boca. —
Como eles devem ter odiado aquilo!
Teg continuou quieto, vigilante.
— Eles me mataram — disse o rapaz. Era uma declaração totalmente destituída de emoção, ainda mais arrepiante por sua aceitação positiva. Um tremor violento passou por seu corpo, depois todos os tremores cessaram. — Havia pelo menos uma dúzia deles naquela salinha. — Olhou diretamente para Teg e continuou:
— Um deles me pegou, atingindo-me na cabeça com algo como um machado de cortar carne. — Hesitou, a garganta movendo-se convulsivamente. O olhar permanecia em Teg. — Consegui dar a Paul tempo suficiente para escapar?
“Responda todas as perguntas dele com sinceridade.”
— Ele escapou.
Agora vinha o momento de teste. Onde é que os Tleilaxu teriam adquirido as células de Idaho? Os testes da Irmandade diziam que elas eram originais, mas as suspeitas permaneciam. Os Tleilaxu tinham feito alguma coisa com esse ghola. Suas memórias poderiam dar uma pista valiosa do que fora feito.
— Mas os Harkonnen... — Duncan interrompeu-se. As memórias do tempo passado no Castelo voltavam agora. — Oh, sim. Oh, sim! — Uma gargalhada feroz estremeceu-lhe o corpo. Duncan lançou um violento grito de vitória contra o Barão Vladimir Harkonnen, morto há milênios: — Eu lhe dei o troco, Barão! Ah, como eu vinguei todos aqueles que destruiu!
— Você se lembra do Castelo e das coisas que lhe ensinamos? — perguntou Teg.
Uma expressão intrigada franziu a testa de Duncan. A dor emocional entrou em choque com as dores físicas. Ele assentiu com a cabeça em resposta à pergunta de Teg. Havia duas vidas, uma que fora isolada além dos tanques axlotl e outra... outra...
Duncan sentia-se incompleto. Alguma coisa permanecia reprimida dentro dele. O
despertar ainda não terminara. Olhou furioso para Teg. Haveria mais? Teg tinha sido tão brutal. Brutalidade necessária? Era desse modo que se restaurava um ghola?
— Eu...
Duncan sacudiu a cabeça de um lado para o outro, como um grande animal ferido diante de seu caçador.
— Você conserva todas as suas memórias? — insistiu Teg.
— Todas? Oh, sim. Eu me lembro de Gammu quando ainda era Giedi Prime, o buraco infernal, encharcado de sangue e óleo, que pertencia ao Império! Sim, de fato, Bashar. Fui seu aluno, um aluno muito consciente de seus deveres. Comandante de Regimento!
Novamente ele riu, lançando a cabeça para trás num gesto curiosamente adulto para um corpo tão jovem.
Teg experimentou a súbita liberação de uma satisfação profunda, mais profunda que o alívio. Tinha funcionado como lhe haviam dito que iria funcionar.
— Você me odeia? — perguntou ele.
— Odiá-lo? Não lhe disse que lhe seria grato?
De repente Duncan ergueu as mãos e olhou para elas. Voltou sua atenção para o corpo jovem.
— Que tentação! — murmurou. Deixou cair as mãos e observou o rosto de Teg, buscando os traços de identidade. — Atreides — comentou. — Vocês são todos tão parecidos!
— Nem todos — disse Teg.
— Não estou falando de aparência física, Bashar. — Os olhos dele se desfocaram. — Perguntei minha idade. — Houve um longo silêncio e então: —
Deuses das profundezas! Tanto tempo se passou!
Teg disse aquilo que lhe tinham instruído a dizer:
— A Irmandade precisa de você.
— Neste corpo imaturo? E que querem que eu faça?
— Na verdade não sei, Duncan. O corpo vai amadurecer e presumo que uma Reverenda Madre lhe explicará tudo.
— Lucilla?
De súbito, Duncan olhou para o teto decorado, então para a alcova e o relógio barroco. Lembrava-se de ter chegado ali em companhia de Teg e Lucilla. O lugar era o mesmo, mas de algum modo se tornara diferente.
— Os Harkonnen — sussurrou. Lançou um olhar zangado na direção de Teg.
— Tem idéia de quantas pessoas da minha família os Harkonnen torturaram e mataram?
— Uma das arquivistas de Taraza forneceu-me um relatório.
— Relatório? E pensa que palavras podem transmitir o sentimento de uma coisa dessas?
— Não, mas era a única resposta que eu tinha para a sua pergunta.
— Maldição, Bashar! Por que vocês Atreides precisam ser sempre tão honestos e honrados?
— Creio que é alguma coisa que foi gerada em nós.
— Isso é verdade.
A voz de Lucilla os surpreendeu, vinda de um ponto atrás de Teg.
Teg não se voltou. Quanto será que ela tinha ouvido da conversa? Há quanto tempo estaria escutando?
Lucilla veio posicionar-se ao lado de Teg, mas sua atenção concentrava-se no Duncan.
— Percebo que você conseguiu, Miles.
— As ordens de Taraza foram cumpridas à risca — disse Teg.
— Você foi muito hábil, Miles — ela disse. — Muito mais esperto do que suspeitei que fosse. Aquela sua mãe devia ter sido severamente punida pelo que lhe ensinou.
— Ah, Lucilla, a sedutora — exclamou Duncan. Olhou para Teg e então voltou sua atenção para Lucila. — Sim, agora posso responder a outra pergunta... o que ela deve fazer.
— Elas são chamadas Impressoras — disse Teg.
— Miles — advertiu Lucilla —, se você dificultou minha tarefa a ponto de impedir que eu cumpra minhas ordens, farei com que seja assado num espeto.
O tom destituído de emoção da voz dela fez Teg estremecer. Sabia que a ameaça era uma metáfora, mas as implicações eram reais.
— Um banquete punitivo! — comentou Duncan. — Que ótimo!
Teg voltou sua atenção para Duncan.
— Não há nada romântico naquilo que fizemos a você, Duncan. Eu assessorei a Bene Gesserit em mais de uma missão que me fez sentir sujo, mas nunca tão sujo quanto agora.
— Silêncio! — ordenou Lucilla.
Usava a plena força da Voz em seu comando.
Teg deixou aquilo fluir e passar através dele como sua mãe lhe ensinara e então disse:
— Aqueles entre nós que dedicam sua verdadeira lealdade à Bene Gesserit têm apenas uma preocupação: assegurar a sobrevivência da Irmandade. Não a de qualquer indivíduo em especial, mas da Irmandade em si. Mentiras, desonestidades são palavras vazias quando está em jogo a sobrevivência da Bene Gesserit.
— Maldita seja aquela sua mãe, Miles!
Lucilla fez-lhe o cumprimento de não ocultar a raiva que sentia.
Duncan olhou para ela. Quem seria? Lucilla? Sentiu suas memórias se agitarem. Lucilla não era a mesma pessoa... não exatamente a mesma... entretanto...
fragmentos, partes, eram idênticas. A voz dela, suas feições. Subitamente ele viu de novo o rosto de mulher que tinha vislumbrado na parede de seu quarto no Castelo.
— Duncan, meu doce Duncan.
As lágrimas fluíram em seu olhos. Sua própria mãe — outra vitima dos Harkonnen. Torturada... quem sabia mais o quê? Para nunca mais ser vista novamente pelo seu “doce Duncan”.
— Deuses, gostaria de ter um deles em minhas mãos para matá-lo agora mesmo — gemeu.
Uma vez mais focalizou sua atenção em Lucilla. As lágrimas em seus olhos borravam as feições, tornando a comparação mais fácil. A face de Lucilla encaixava-se na de Lady Jessica, a amada de Leto Atreides. Duncan olhou de novo para Teg e para Lucilla, sacudindo as lágrimas de seus olhos enquanto movia a cabeça. Os rostos em sua memória dissolveram-se, revelando a verdadeira Lucilla diante dele...
Similaridades... mas nunca mais exatamente a mesma coisa. Nunca mais a mesma.
“Impressora”
Podia adivinhar o significado. Uma revolta típica de um Duncan Idaho ergueu-se dentro dele.
— É o meu filho que você quer em seu ventre, Impressora? Sei que não são chamadas de Madres por acaso.
Com a voz gélida, Lucilla respondeu:
— Vamos discutir isso em outra ocasião.
— Vamos discutir num lugar adequado. Talvez eu lhe cante uma canção. Não vai ser uma canção tão boa quanto o velho Gurney Halleck lhe cantaria, mas o suficiente para prepará-la para um pouco de esporte na cama.
— Você acha tudo isso muito divertido, não? — perguntou ela.
— Divertido? Não, mas me lembra o Gurney. Diga-me, Bashar, você o trouxe de volta à vida também?
— Não que eu saiba — respondeu Teg.
— Ah, aquele era um homem que sabia cantar. Podia matar você enquanto cantava, sem errar uma nota.
Com a voz ainda gelada, Lucilla disse:
— Nós da Bene Gesserit aprendemos a evitar a música. Ela evoca muitas emoções confusas. Memórias de emoções, é claro.
Queria deixá-lo admirado com a lembrança de todas as Outras Memórias e dos poderes Bene Gesserit que a menção a esse aspecto podia evocar, mas Duncan apenas riu alto.
— Que vergonha — ele disse. — Vocês perdem tanta coisa da vida. — E
dizendo isso começou a cantarolar um velho refrão de Halleck:
“Tropas em revista, tropas que há muito passaram em revista...”
Entretanto sua mente voava para outro lugar, na rica agitação de momentos renascidos. Uma vez mais se sentiu ávido por tocar algo muito poderoso que permanecia sepultado dentro dele. O que quer que fosse era algo violento e tinha relação com Lucilla, a Impressora. Em sua imaginação ele a viu morta, banhada no próprio sangue.
As pessoas sempre desejam algo mais que o simples prazer imediato ou aquele sentimento profundo que se chama felicidade. Esse é um dos segredos através dos quais moldamos a realização de nossos objetivos. Esse algo mais assume um poder crescente entre as pessoas que não podem identifica-lo, ou que (como é mais freqüente) nem mesmo suspeitam de sua existência. A maioria das pessoas apenas reage inconscientemente a tais forças ocultas. Assim, só precisamos apresentar-lhes um algo mais bem adequado, defini-lo, dar-lhe forma, para fazer com que as pessoas nos sigam.
— Segredos da Liderança da Bene Gesserit
Com um silencioso Waff avançando 20 passos adiante delas, Odrade e Sheeana caminhavam por uma estrada orlada por ervas ao lado de um pátio de armazenagem de especiaria. Todos usavam mantos novos para o deserto e brilhantes trajes destiladores. A cerca cinzenta de nulplaz, que definia os limites do pátio, apresentava fragmentos de grama e sementes algodoadas presas em sua trama.
Olhando para as sementes, Odrade pensou nelas como formas de vida tentando escapar à intervenção humana.
Atrás do grupo, os prédios maciços que tinham sido erguidos em torno de Dar-es-Balat cozinhavam ao sol da tarde. O ar quente e seco queimava as gargantas quando inalado muito depressa. Odrade sentia vertigem e uma espécie de luta contra si mesma. A sede a incomodava e ela caminhava como se estivesse se equilibrando à beira de um precipício. A situação que tinha criado a partir de uma ordem de Taraza poderia explodir a qualquer momento.
“Como é frágil este equilíbrio.”
Três forças equilibradas sem que nenhuma apoiasse qualquer das outras, unidas apenas por interesses que poderiam mudar a qualquer instante e desfazer essa aliança. Os militares enviados por Taraza não tranqüilizavam Odrade nem um pouco.
Onde estaria Teg? E Burzmali? E, quanto a isso, onde estaria o ghola? Deveria estar ali agora mesmo. Por que ela teria recebido ordens para atrasar tudo?
A aventura de hoje certamente iria atrasar tudo! Embora tivesse a aprovação de Taraza, Odrade achava que essa excursão ao deserto dos vermes poderia produzir um atraso permanente. E havia Waff. Se ele sobrevivesse, restariam peças que
pudessem ser reunidas para formar um todo?
A despeito das aplicações curativas dos melhores amplificadores de fusão da Irmandade, Waff dizia que seus braços ainda doíam onde Odrade os quebrara. Não estava se queixando, apenas fornecia informação. Aparentemente aceitara a frágil aliança, e até as modificações que agora incluíam o clero Rakiano. Sentia-se tranqüilo pelo fato de um de seus Dançarinos Faciais ocupar o trono de Alto Sacerdote, sob o disfarce de Tuek. Waff falara com autoridade ao exigir às “madres procriadoras”, que a Bene Gesserit lhe prometera e agora negava, como parte de um acordo ainda não cumprido.
— É apenas um pequeno atraso — explicara Odrade — enquanto a Irmandade revê os termos do novo acordo. Enquanto isso...
Hoje era o “enquanto isso”.
Odrade pôs de lado as objeções e as dúvidas e começou a se colocar no estado de espírito adequado para essa aventura. Waff a fascinava com seu comportamento, especialmente a reação que tivera ao conhecer Sheeana: uma reação temerosa e mais que apenas um pouco admirada.
“A enviada do seu Profeta.”
Odrade olhou para o lado, observando a jovem que caminhava compenetrada ao lado dela — ali estava o ponto de apoio para equilibrar todos esses acontecimentos de acordo com o propósito da Bene Gesserit.
A descoberta, pela Irmandade, do verdadeiro motivo a governar o comportamento dos Tleilaxu deixava Odrade excitada. A fanática “verdadeira fé” de Waff ganhava forma a cada nova resposta dele. Odrade sentia-se feliz em poder estar ali, estudando um Mestre Tleilaxu num cenário religioso. O próprio cascalho sob os pés de Waff induzia a comportamentos que ela era capaz de identificar, pois fora treinada para isso.
“Devíamos ter calculado isso”, pensou Odrade. “As manipulações de nossa própria Missionaria Protectiva deviam ter nos indicado como os Tleilaxu conseguiram aquilo: revelando-se apenas para si mesmos, mantendo segredo, bloqueando qualquer tipo de intromissão durante todos esses milênios.”
Eles não pareciam ter copiado a estrutura da Bene Gesserit. E que outra força poderia realizar coisa semelhante? Uma religião. A Grande Fé!
“A menos que os Tleilaxu estejam usando seu sistema de ghola s para obter algum tipo de imortalidade.”
Taraza poderia estar certa. Mestres Tleilaxu reincarnados não seriam como Reverendas Madres — não haveria Outras Memórias, apenas memórias pessoais. Mas prolongadas!
“Fascinante!”
Odrade olhou para as costas de Waff. “Trabalhador.” A denominação parecia encaixar-se naturalmente nele. Lembrava-se de tê-lo ouvido chamar Sheeana de
“Alyama”. Outra confirmação lingüística quanto à Grande Crença de Waff.
Significava “A Abençoada”. Os Tleilaxu tinham mantido uma linguagem ancestral não somente viva, mas imutável.
Será que Waff sabia que somente as forças poderosas como as religiões eram capazes de realizar isso?
“Nós temos a nosso alcance as raízes de sua obsessão, Waff! Não é muito diferente de algumas que nós mesmas criamos. Sabemos como manipular tais coisas para os nossos propósitos.”
O comunicado de Taraza queimou na consciência de Odrade: “O plano dos Tleilaxu é transparente: ascendência. O universo humano deve ser transformado num universo Tleilaxu. Eles não podem esperar alcançar semelhante objetivo sem a ajuda dos Dispersos. Daí...”
O raciocínio de uma Madre Superiora não podia ser desconsiderado. Mesmo a oposição, dentro do grande cisma que ameaçava despedaçar a Irmandade, tinha concordado. Mas o pensamento de todas aquelas massas humanas da Dispersão, seus números explodindo exponencialmente, produzia um solitário sentimento de desespero em Odrade.
“Somos tão poucas comparadas com eles.”
Sheeana deteve-se e pegou um cascalho. Observou-o por um momento e então o atirou na cerca ao lado deles. A pedra voou entre as tramas do gradil sem tocá-lo.
Odrade controlou seus pensamentos. Os sons de seus passos na areia que o vento lançara sobre a rodovia pouco usada pareceu-lhe subitamente muito alto. A ponte estreita que conduzia por sobre o anel de qanats de Dar-es-Balat encontrava-se a não mais de 200 passos adiante, no fim da estrada estreita.
Sheeana disse:
— Estou fazendo isso porque ordenou, Madre. Mas ainda não sei para que serve.
“Porque este é o ponto onde testaremos Waff e, através dele, moldaremos os Tleilaxu à nossa vontade.”
— É uma demonstração — explicou Odrade.
Isso era verdade. Não era toda a verdade, mas servia.
Sheeana caminhava de cabeça baixa, olhando para o chão, o olhar atento onde colocava cada pé. Seria desse modo que ela sempre se aproximava do seu Shaitan?, perguntou-se Odrade. Pensativa e distante?
Odrade ouviu o fraco bater das asas de um ornitóptero bem alto e atrás dela.
As aeronaves de vigia estavam chegando. Iriam manter-se distantes enquanto muitos olhos observavam essa demonstração.