Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 4 de 8 · parte 2/3

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Os Hereges de Duna

“Na ocasião pensei que estava saindo vitoriosa.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Avaliação de Ix, Arquivos da Bene Gesserit

Hedley Tuek, Alto Sacerdote e governante titular de Rakis, sentia-se incapaz de enfrentar as exigências que lhe eram feitas.

A noite nebulosa envolvia a cidade de Keen, mas ali em sua câmara particular de audiências o brilho de muitos globos luminosos afastava as sombras. Mesmo ali, no coração do Templo, podia-se ouvir o vento, um gemido distante representando o tormento periódico deste planeta.

A câmara de audiência era uma sala de formato irregular, com sete metros de comprimento e quatro metros no ponto mais largo. A extremidade oposta era quase imperceptivelmente mais estreita. O teto também descia suavemente naquela direção.

Cortinados de fibra de especiaria, com uma hábil disposição nas cortinas amarelas e cinzentas, escondiam essas irregularidades. Uma das cortinas ocultava também uma corneta de focalização que conduzia os sons mais débeis para aqueles que ouviam fora da sala.

Somente Darwi Odrade, a nova comandante da guarnição da Bene Gesserit em Rakis, estava sentada com Tuek na câmara de audiências. Os dois encaravam um ao outro no estreito espaço definido pelas almofadas verdes onde descansavam.

Tuek tentava disfarçar uma expressão de desagrado. Esse esforço contorcia suas feições, normalmente imponentes, transformando-as numa máscara reveladora.

Ele tivera grande cuidado ao se preparar para os confrontos dessa noite. Criados tinham colocado o manto bem passado sobre sua figura alta e um tanto corpulenta.

Sandálias douradas cobriam-lhe os pés. O traje destilador sob seu manto era apenas para exibição: não tinha bombas nem bolsas de recolhimento, eliminando a necessidade de ajustes demorados e desconfortáveis. O cabelo grisalho e sedoso estava muito bem penteado e caía sobre os ombros, moldura adequada para um rosto quadrado com a boca larga, lábios grossos e queixo pesado. Seus olhos assumiram rapidamente uma aparência benévola, expressão que ele tinha copiado do avô. Fora desse modo que ele se apresentara ao entrar na câmara de audiência para encontrar Odrade. Sentira-se imponente, mas agora tinha a impressão de estar nu e descabelado.

“Ele é realmente um homem de cabeça vazia”, pensou Odrade.

Tuek estava pensando: “Não posso discutir com ela esse terrível Manifesto!

Não com um Mestre Tleilaxu e aqueles horríveis Dançarinos Faciais ouvindo na outra sala. Que foi que me possuiu para fazer com que eu concordasse com uma coisa dessas?”

— É uma heresia pura e simples — ele disse.

— Mas vocês representam apenas uma religião entre muitas — retrucou Odrade. — E com as pessoas que estão voltando da Dispersão, a proliferação de cismas e crenças variantes.

— A nossa é a única fé verdadeira! — afirmou Tuek.

Odrade ocultou um sorriso. “Ele falou exatamente de acordo com a deixa. E

Waff decerto ouviu isso!' Tuek era extremamente fácil de se conduzir. E se a Irmandade estivesse certa com relação a Waff, as palavras de Tuek iriam enfurecer o Mestre dos Tleilaxu.

Num tom profundo e portentoso, Odrade disse:

— O Manifesto levanta questões que todos, crentes e não-crentes, devemos examinar.

— Que tem tudo isso a ver com a Sagrada Criança? — indagou Tuek. — Você me disse que devíamos encontrar-nos aqui para tratar de assuntos que tinham relação com..

— De fato! Não tente negar seu conhecimento de que muita gente já está começando a adorar Sheeana. O Manifesto implica que...

— Manifesto! Manifesto! Não passa de um documento herético que deve ser apagado. Quanto a Sheeana, deve voltar à nossa guarda exclusiva!

— Não — retrucou Odrade com a voz suave.

Como Tuek estava agitado, pensou ela. Seu pescoço rígido movia-se o mínimo possível quando ele virava a cabeça de um lado para o outro. Os movimentos apontavam para a cortina que cobria a parede à direita de Odrade, definindo o lugar como se a cabeça de Tuek carregasse um facho de iluminação para indicar aquela cortina em especial. Que homem transparente era esse Alto Sacerdote. Poderia muito bem ter anunciado que Waff os estava escutando de algum lugar atrás daquela cortina.

— A seguir vocês vão levá-la para longe de Rakis — disse Tuek.

— Ela fica aqui — disse Odrade. — Exatamente como lhe prometemos.

— Mas por que ela não pode..

— Ora, vamos! Sheeana deixou clara a sua vontade e eu tenho certeza de que as palavras dela lhe foram relatadas. Ela quer ser uma Reverenda Madre.

— Mas ela já é a...

— Meu Senhor Tuek! Não queira disfarçar comigo. Ela declarou seus desejos e nós estamos felizes em satisfazê-los. Por que deveria opor-se? Reverendas Madres serviram o Deus Dividido na época dos Fremen. Por que não agora?

— Vocês Bene Gesserit possuem meios de obrigar as pessoas a dizerem coisas que elas não desejam dizer — acusou Tuek. — Não devíamos estar discutindo esta questão em particular. Meus conselheiros.

— Seus conselheiros só atrapalhariam nossa conversa. As implicações do Manifesto Atreides.

— Vou discutir somente a questão de Sheeana!

Tuek colocou-se no que lhe parecia a postura de um Alto Sacerdote inflexível.

— Mas estamos discutindo essa questão — disse Odrade.

— Então deve ficar claro que nós exigimos mais gente nossa acompanhando Sheeana. Ela deve ser guardada de todo...

— Guardada do modo como o foi naquele terraço? — perguntou Odrade.

— Reverenda Madre Odrade, este é o Sagrado Rakis! Não tem direitos além daqueles que lhes concedemos!

— Direitos? Sheeana tornou-se o alvo... sim, o alvo... de muitas ambições e vocês ainda querem discutir direitos?

— Meus deveres de Alto Sacerdote são claros. A Sagrada Igreja do Deus Dividido irá...

— Meu Senhor Tuek! Estou tentando com muita dificuldade manter a cortesia necessária. O que faço é para seu benefício, assim como para o nosso. Nossas ações...

— Ações? Que ações? — As palavras escaparam de Tuek num grunhido rouco.

Essas terríveis bruxas Bene Gesserit! Os Tleilaxu atrás dele e uma Reverenda Madre na frente! Tuek sentia-se como uma bola num jogo terrível, chutado para a frente e para trás entre energias formidáveis. Ah, o pacífico Rakis, o lugar seguro de suas rotinas diárias, tinha desaparecido e ele fora projetado numa arena onde se praticava um jogo cujas regras ainda não compreendera inteiramente.

— Mandei chamar o Bashar Miles Teg — revelou Odrade. — Isso é tudo. Seu grupo avançado deve chegar logo. Vamos reforçar suas defesas planetárias.

— Vocês se atrevem a assumir o controle.

— Não estamos assumindo coisa alguma. A pedido de seu pai, o pessoal de Teg redesenhou suas defesas. O acordo sob o qual isso foi feito contém, por insistência de seu pai, uma cláusula exigindo a revisão periódica.

Tuek sentou-se em silêncio, chocado. Waff, aquele Tleilaxuzinho sinistro, tinha ouvido tudo isso. Ia haver conflito! Os Tleilaxu queriam um acordo secreto fixando os preços da melange. Não iriam permitir a interferência da Bene Gesserit.

Odrade mencionara o pai de Tuek e ele agora desejava que seu pai, há muito falecido, estivesse sentado ali. Fora um homem duro. Teria sabido como lidar com essas forças opostas. Ele sempre tinha manejado os Tleilaxu muito bem. Tuek lembrava-se de ter ficado ouvindo (exatamente como Waff estava fazendo agora!) um enviado Tleilaxu cujo nome era Wose... e outro chamado Pook. Ledden Pook. Que nomes esquisitos eles tinham.

De repente os pensamentos confusos de Tuek ofereceram-lhe outro nome.

Odrade acabara de mencioná-lo: “Teg!” Então aquele velho monstro ainda se encontrava na ativa?

Odrade estava falando novamente. Tuek tentou engolir com a garganta seca enquanto se inclinava para diante, forçando-se a prestar atenção.

— Teg também vai examinar suas defesas no planeta. Depois daquele fiasco no terraço.

— Oficialmente, proíbo qualquer interferência em nossos assuntos internos —

disse Tuek. — Não há necessidade. Nossa Guarda Sacerdotal é adequada para...

— Adequada? — Odrade sacudiu a cabeça tristemente. — Que palavra inadequada diante das novas circunstâncias em Rakis.

— Que novas circunstâncias?

Havia terror na voz de Tuek.

Odrade ficou apenas olhando para ele.

Tuek tentou forçar alguma ordem em seus pensamentos. Será que ela saberia a respeito dos Tleilaxu ouvindo lá atrás? Impossível. Inspirou, trêmulo. Que história era essa a respeito das defesas de Rakis? As defesas eram excelentes, tranqüilizou-se. Eles tinham as melhores não-naves e monitores Ixianos. Mais do que isso, era vantajoso para todas as potências independentes que Rakis permanecesse igualmente independente como fonte da especiaria. “Vantajoso para todos, exceto os Tleilaxu, com sua maldita super-produção de melange em seus tanques axlotl!”

Era um pensamento demolidor. Um Mestre Tleilaxu tinha ouvido cada palavra pronunciada nessa câmara de audiências!

Tuek rogou ao Shai-hulud, o Deus Dividido, que o protegesse. Aquele homenzinho terrível lá fora dissera estar falando também em nome dos Ixianos e das Oradoras Peixes. Mostrara documentos. Quais seriam as “novas circunstâncias” de que Odrade falava? Nada permanecia muito tempo escondido das bruxas!

O Alto Sacerdote não podia conter um estremecimento ao pensar em Waff: aquela cabeça pequena e redonda, aqueles olhinhos brilhantes, o nariz arrebitado com os dentes afiados surgindo num sorriso. Waff parecia uma criança crescida até que se olhasse nos seus olhos e se ouvisse aquela voz rouca. Tuek lembrava-se de seu

próprio pai queixando-se daquelas vozes: “Os Tleilaxu dizem coisas tão terríveis com suas vozes infantis!”

Odrade mexeu-se nas almofadas. Pensou em Waff ouvindo lá fora. Será que ele já tinha ouvido o suficiente? Suas próprias ouvintes secretas estariam se fazendo a mesma pergunta a essa altura. As Reverendas Madres sempre repassavam repetidas vezes as gravações de duelos verbais como esse, buscando melhorias e novas vantagens para a Irmandade.

“Waff já ouviu o bastante”, disse Odrade a si mesma. “Hora de mudar o jogo.”

Em seu tom de voz mais tranqüilo, Odrade disse:

— Meu Senhor Tuek, uma pessoa importante está ouvindo o que dizemos aqui. É polido que tal pessoa escute às escondidas?

Tuek fechou os olhos. “Ela sabe!”

Ele abriu os olhos e encarou a expressão impassível de Odrade. Parecia capaz de aguardar sua resposta por toda a eternidade.

— Polido? Eu... Eu...

— Convide esse ouvinte secreto para vir sentar-se aqui conosco disse Odrade.

Tuek passou a mão pela testa úmida. Seu pai e seu avô, Altos Sacerdotes antes dele, haviam estabelecido respostas rituais para a maioria das ocasiões, mas não havia nada para um momento como esse. Convidar o Tleilaxu para ir sentar-se ali? Nessa câmara com... Tuek lembrou-se subitamente de que não gostava do cheiro dos Tleilaxu. Seu pai também tinha se queixado a respeito disso: “Eles têm cheiro de comida desagradável”

Odrade levantou-se.

— Gostaria de ver esse que ouve as minhas palavras — ela disse. — Devo ir convidá-lo para que...

— Não, por favor! — Tuek continuou sentado, mas ergueu a mão num gesto para detê-la. — Eu não tive escolha. Ele veio com documentos das Oradoras Peixes e dos Ixianos. Disse que iria ajudar-nos a ter Sheeana de volta de sua..

— Ajudá-lo?

Odrade olhou para o sacerdote suando com uma expressão próxima da piedade. Esse era o homem que governava Rakis?

— Ele é um dos Bene Tleilax — disse Tuek. — Chama-se Waff e...

— Sei como se chama e por que está aqui, meu Senhor Tuek. O que me deixa admirada é que tenha permitido que ele espionasse.

— Ele não está espionando! Estamos negociando. Quero dizer, há novas forças diante das quais devemos ajustar nossos...

— Novas forças? Oh, sim, as prostitutas da Dispersão. Esse Waff trouxe alguma delas consigo?

Antes que Tuek pudesse responder, a porta lateral da câmara de audiência se abriu. Waff entrou como se respondesse a uma deixa, com dois Dançarinos Faciais

atrás dele.

“Foi lhe dito que não trouxesse Dançarinos Faciais!”, pensou Odrade.

— Só você! — disse Odrade, apontando. — Os outros não foram convidados, foram, Meu Senhor Tuek?

Tuek levantou-se pesadamente, notando a proximidade de Odrade e se lembrando de todas as histórias terríveis a respeito da capacidade física das Reverendas Madres. A presença dos Dançarinos Faciais aumentava sua confusão. Eles sempre lhe davam pressentimentos terríveis.

Voltando-se em direção à porta e tentando compor suas feições numa aparência cortês e convidativa, Tuek disse:

— Somente... somente o embaixador Waff, por favor.

A voz feria a garganta de Tuek. Isso era mais que terrível. Sentia-se nú diante dessa gente.

Odrade indicou uma almofada perto dela.

— Waff, não é? Por favor, venha e sente-se.

Waff cumprimentou-a como se nunca a tivesse visto. “Que polidez!” Fazendo um gesto para indicar a seus Dançarinos Faciais que deveriam ficar lá fora, andou até a almofada indicada, mas ficou de pé junto dela.

Odrade percebeu o fluxo de tensões movendo-se pelo corpo do pequeno Tleilaxu. Algo como um esgar feroz passou por seus lábios brevemente. Será que ele ainda escondia aquelas armas nas mangas? Estaria a ponto de quebrar o acordo que fizera?

Estava na hora, pensou Odrade, de as suspeitas de Waff recuperarem toda a força original, e mais ainda. Ele devia estar se sentindo aprisionado pelas manobras de Taraza. Waff queria ter suas madres procriadoras! O cheiro dos feromônios anunciava seus temores mais profundos. Ele tinha em sua mente essa parte do acordo — ou pelo menos uma interpretação de tal coisa. Taraza não esperava realmente que Waff fosse partilhar com ela todo o conhecimento que tinha obtido das Honradas Madres.

— Meu Senhor Tuek diz-me que estiveram... ah, negociando — disse Odrade.

“Deixe que ele se lembre dessa palavra.” Waff sabia onde a verdadeira negociação devia ser concluída. Enquanto ia falando, Odrade ajoelhou-se, e depois voltou a se sentar na almofada, mas seus pés permaneceram posicionados para lançá-la fora de qualquer linha de ataque da parte de Waff.

Waff olhou para ela e para a almofada que ela indicara. Acomodou-se lentamente, mas seus braços permaneceram apoiados nos joelhos, as mangas dirigidas para Tuek.

“Que está fazendo?”, perguntou-se Odrade. Os movimentos de Waff revelavam que ele tinha embarcado num plano próprio.

Odrade disse:

— Estou tentando fazer com que o Alto Sacerdote sinta a importância do Manifesto Atreides para nossa mútua...

— Atreides! — interrompeu Tuek. Quase desabou em sua almofada. —

Aquilo não pode ser Atreides.

— Um manifesto muito persuasivo — comentou Waff, reforçando os temores óbvios de Tuek.

Pelo menos isso estava de acordo com o plano, pensou Odrade. Ela disse:

— A promessa do s'tori não pode ser ignorada. Muitas pessoas associam o s'tori com a presença de seu deus.

Waff enviou um olhar de surpresa e fúria em direção a ela.

Tuek disse:

— O embaixador Waff diz-me que os Ixianos e as Oradoras Peixes estão alarmados com esse documento, mas eu o tranqüilizei quanto a...

— Creio que podemos ignorar as Oradoras Peixes — comentou Odrade. —

Elas vêem deus em toda parte.

Waff reconheceu o cântico nas palavras dela. Estaria troçando dele? Ela estava certa no que dizia respeito às Oradoras Peixes, é claro. Elas estavam muito enfraquecidas em suas antigas devoções para terem qualquer influencia. E no que quer que influenciassem, seriam guiadas pelos novos Dançarinos Faciais que agora as comandavam.

Tuek tentou sorrir para Waff.

— Você falou em nos ajudar em...

— Há tempo para isso depois — interrompeu Odrade. Tinha que manter a atenção de Tuek voltada para o documento que o incomodava tanto. Citou uma frase do manifesto:

— “Sua vontade e sua fé — seu sistema de crenças — domina o seu universo.

Tuek reconheceu as palavras. Ele tinha lido aquele terrível documento. Esse Manifesto dizia que Deus e Sua Obra não passavam de criações humanas. Imaginava como iria responder. Nenhum Alto Sacerdote poderia deixar sem resposta uma coisa dessas.

Mas antes que Tuek pudesse achar as palavras, Waff encarou Odrade e respondeu de um modo que ele sabia que ela interpretaria corretamente. Odrade não faria outra coisa sendo ela quem era.

— O erro da presciência — disse Waff. — Não é isso que diz o documento?

Não é onde ele diz que a mente do crente vai estagnar?

— Exatamente! — disse Tuek.

Sentia-se grato pela intervenção do Tleilaxu. Aquele era precisamente o núcleo da heresia!

Waff não olhou para ele, continuando a fitar Odrade. Será que a Bene Gesserit julgava seus propósitos inescrutáveis? Deixe que elas encontrem um poder ainda maior. Ela se julgava tão forte! Mas a Bene Gesserit não podia realmente saber como o Todo-Poderoso guardava o futuro para o Shariat!

Tuek não se deixaria interromper.

— Isso vai de encontro a tudo aquilo que julgamos sagrado! E está começando a se propagar por toda parte!

— Espalhado pelos Tleilaxu — disse Odrade.

Waff ergueu as mangas, apontando as armas para Tuek. Hesitou apenas por perceber que Odrade reconhecera parte de suas intenções.

Tuek olhou de um para o outro. Seria verdadeira a acusação de Odrade? Ou seria apenas Outro truque da Bene Gesserit?

Odrade percebeu a hesitação de Waff e tentou imaginar suas razões.

Vasculhou sua mente, buscando uma resposta para as motivações dele. O que os Tleilaxu poderiam ganhar matando Tuek? Obviamente, Waff planejava substitui-lo por um de seus Dançarinos Faciais. Mas que vantagem isso lhe traria?

Buscando ganhar tempo, Odrade disse:

— Deve ser muito cauteloso, Embaixador Waff.

— Quando foi que a cautela governou as grandes necessidades? — perguntou Waff.

Tuek colocou-se de pé e caminhou pesadamente para um lado, esfregando as mãos. — Por favor! Este é um recinto sagrado. É errado discutir heresias aqui, a menos que planejemos destruí-las. — Olhou para Waff. — Não é verdade, é? Vocês não foram os autores desse documento terrível!

— Não é nosso — concordou Waff.

“Maldito sacerdote imbecil!”

Tuek caminhava para o lado e uma vez mais se tornara um alvo em movimento.

— Eu sabia! — disse Tuek, caminhando em volta de Waff e Odrade.

Odrade continuava de olho em Waff. Ele planejava um assassinato! Estava certa disso.

Tuek falou atrás dela.

— Não sabe como nos julga mal, Reverenda Madre. O Sr. Waff propôs-nos a formação de um cartel da melange. Eu lhe expliquei que nosso preço para vocês deve permanecer o mesmo porque uma Bene Gesserit foi a avó de nosso Deus.

Waff curvou a cabeça, esperando. O sacerdote entraria de novo no alcance dos dardos. Deus não permitiria um fracasso.

Tuek estava atrás de Odrade, olhando para Waff. Um tremor percorreu o corpo do sacerdote. Os Tleilaxu eram tão repulsivos, tão amorais. Não se podia confiar neles. Como poderia ser encarada a negativa de Waff?

Sem descuidar sua observação de Waff, Odrade disse:

— Mas Meu Senhor Tuek, a perspectiva de um aumento de lucros não lhe atraiu?

Ela viu o braço direito de Tuek mover-se levemente, quase apontando para ela. Suas intenções tornaram-se claras.

— Meu Senhor Tuek — disse Odrade —, esse Tleilaxu pretende assassinar-nos.

Ao ouvir essas palavras, Waff ergueu ambos os braços num movimento brusco, tentando acertar nos dois diferentes alvos. Antes que seus músculos pudessem responder ao comando do cérebro, Odrade estava em cima dele. Ela ouviu o fraco assovio dos lança-dardos, mas não sentiu picada alguma. Seu braço esquerdo desceu num golpe violento para quebrar o braço direito de Waff. O pé direito quebrou-lhe o braço esquerdo.

Waff gritou.

Nunca suspeitara de que uma Bene Gesserit fosse capaz de movimentos tão rápidos. Ela quase igualara o que ele tinha visto a Honrada Madre fazer na nave de conferência Ixiana. Apesar da dor, percebeu que tinha que relatar isso. As Reverendas Madres comandavam desvios sinápticos quando sob tensão!

A porta atrás de Odrade se abriu bruscamente e os Dançarinos Faciais de Waff entraram correndo na câmara. Mas Odrade já estava atrás dele, com ambas as mãos em sua garganta.

— Parem ou ele morre! — gritou.

Os dois ficaram imóveis.

Waff debatia-se nas mãos dela.

— Fique quieto! — ordenou ela.

Odrade viu Tuek estendido no chão à sua direita. Um dardo tinha atingido o seu alvo.

— Waff matou o Alto Sacerdote — disse Odrade, falando para suas ouvintes secretas.

Os dois Dançarinos Faciais continuavam a olhar para ela. Era fácil notar a indecisão deles. Nenhum dos dois percebia como a situação caíra nas mãos da Bene Gesserit. Uma armadilha para os Tleilaxu, de fato!

Odrade disse aos Dançarinos Faciais:

— Carreguem aquele corpo para o corredor e fechem a porta. Seu senhor fez uma coisa tola. Vai precisar de vocês depois. — E para Waff disse: — Neste momento você precisa mais de mim que dos seus Dançarinos Faciais. Mande-os embora!

— Vão — guinchou Waff.

Como os Dançarmos Faciais continuassem a encará-la, Odrade disse:

— Se não saírem imediatamente, vou matá-lo e depois despacharei vocês dois.

— Façam o que ela manda! — gritou Waff.

Os Dançarinos Faciais receberam isso como uma ordem de seu Mestre.

Odrade percebeu algo mais na voz de Waff. Obviamente, teria que ser convencido a abandonar a histeria suicida em que mergulhara.

Uma vez mais ela estava sozinha com ele. Retirou as armas vazias de suas mangas e as colocou no bolso. Depois poderiam ser examinadas com detalhes. Havia

muito pouca coisa que ela podia fazer pelos ossos partidos de Waff, exceto deixá-lo inconsciente por um breve período e encaná-los. Improvisou talas a partir do material das almofadas e de tiras de tecido verde rasgado da decoração da sala do Alto Sacerdote.

Waff despertou rapidamente. Gemeu quando olhou para Odrade.

— Somos aliados agora — ela disse. — As coisas que transpiraram desta câmara foram ouvidas apenas por minha gente e pelos representantes de uma facção que desejava substituir Tuek por um de seus membros.

Era muito rápido para Waff. Levou um momento para compreender o que ela dizia. Sua mente se agarrou ao que lhe pareceu mais importante.

— Aliados?

— Imagino que Tuek fosse uma pessoa difícil de se lidar — ela disse. —

Eram-lhe oferecidos benefícios óbvios e ele invariavelmente hesitava. Fez um favor a alguns dos sacerdotes quando o matou.

— Eles estão nos ouvindo agora? — guinchou Waff.

— É claro. Vamos discutir seu proposto monopólio da especiaria. O

tristemente falecido Alto Sacerdote disse que mencionou isso. Vejamos se eu posso deduzir a extensão da sua oferta.

— Meus braços — gemeu Waff.

— Você ainda está vivo — ela disse. — Seja grato por minha sabedoria. Podia tê-lo matado.

Ele virou a cabeça para longe dela.

— Isso teria sido melhor.

— Não para a Bene Tleilax e certamente não para a minha Irmandade — ela disse. — Deixe-me ver... Sim, você prometeu que forneceria a Rakis novas máquinas coletoras de especiaria em grande quantidade. As novas máquinas aéreas, que só tocam o deserto com suas cabeças de varredura.

— Você ouviu — acusou Waff.

— Realmente não. Uma proposta muito atraente, uma vez que estou certa de que os Ixianos as estão fornecendo por seus próprios motivos. Devo continuar?

— Você disse que éramos aliados.

— Um monopólio forçaria a Corporação a comprar mais máquinas de navegação Ixianas — ela disse. — Vocês teriam a Corporação bem nas mandíbulas de seu esmagador.

Furioso, Waff ergueu a cabeça a fim de olhar para ela. O movimento gerou agonia em seus braços quebrados e ele gemeu. A despeito da dor, ele estudou Odrade com seus olhos quase fechados. Será que as bruxas acreditavam realmente que esse era todo o plano dos Tleilaxu? Quase não se atrevia a acreditar que a Bene Gesserit estivesse tão confusa.

— É claro que esse não é o plano básico — disse Odrade.

Os olhos de Waff arregalaram-se. Ela estava lendo a sua mente!

— Estou desonrado — ele disse. — Quando salvou minha vida, salvou uma coisa inútil.

Ele se deixou cair.

Odrade respirou fundo. “E hora de usar as análises feitas na sede da Irmandade.” Inclinou-se para ficar bem perto de Waff e sussurrou no ouvido dele:

— O Shariat ainda precisa de você.

Waff ficou boquiaberto.

Odrade sentou-se diante dele. A expressão de espanto revelava tudo. Análise confirmada.

— Você pensou que tinha aliadas melhores entre a gente da Dispersão —

disse ela. — Essas Honradas Madres e outras da mesma laia. Eu lhe pergunto: será que o lorco faz acordos com o lixo que come?

Waff ouvira tal pergunta apenas dentro do kehl. Com o rosto pálido. respirou lentamente. As implicações das palavras dela! Obrigou-se a ignorar a dor em seus braços. “Aliados”, ela dissera. Sabia a respeito do Shariat! De que modo poderia saber?

— Como cada um de nós pode ignorar as vantagens de uma aliança entre a Bene Tleilax e a Bene Gesserit? — perguntou Odrade.

“Aliança com as bruxas powindah!” A mente de Waff era um redemoinho. A agonia de seus braços estava sendo contida de modo tão tentador... Sentia-se muito frágil naquele momento! Sentiu o gosto da biles ácida no fundo de sua língua.

— Ah — exclamou Odrade. — Está ouvindo isso? O sacerdote Krutansik e sua facção chegaram do outro lado daquela porta. Irão propor que um de seus Dançarinos Faciais assuma o disfarce do falecido Hedley Tuek. Qualquer outro curso de ação causaria muitos distúrbios. Krutansik é um homem razoavelmente sábio, que se manteve na retaguarda até agora. Seu tio Stiros o preparou muito bem.

— O que sua Irmandade ganharia com uma aliança conosco? — perguntou Waff.

Odrade sorriu. Agora poderia falar a verdade. A verdade era sempre muito mais fácil e freqüentemente constituía o argumento mais poderoso.

— Nossa sobrevivência em face da tormenta que se avoluma no meio dos Dispersos — ela disse. — E a sobrevivência dos Tleilaxu também está em jogo. A coisa mais distante dos nossos desejos é a extinção daqueles que preservam a Grande Crença.

Waff estremeceu. Ela falava uma coisa dessas abertamente! Então ele entendeu. Que importava que os outros ouvissem? Eles não poderiam penetrar nos segredos que essas palavras ocultavam.

— Nossas madres procriadoras estão prontas para você — disse Odrade.

Fitou duramente os olhos dele e fez o sinal com a mão dos sacerdotes Zensunni.

Waff sentiu um aperto aliviar-se em seu peito. O inesperado, o impensável, o inacreditável era verdade! As Bene Gesserit não eram powindah! Todo o universo ainda seguiria os Bene Tleilax na Verdadeira Fé. Deus não permitiria outra coisa.

Especialmente ali no planeta do Profeta!

A burocracia destrói a iniciativa. Não existe coisa alguma que os burocratas odeiem mais do que a inovação, especialmente a inovação que produz resultados melhores do que as velhas rotinas. Os aperfeiçoamentos sempre fazem com que aqueles que se situam no topo da pirâmide pareçam inaptos.

Quem é que gosta de parecer inapto?

— Um guia para a Tentativa e o Erro nos Governos, Arquivos da Bene Gesserit

Os relatórios, os sumários e as pequenas evidências dispersas encontravam-se arrumados em filas na longa mesa diante da qual se sentava Taraza. Exceto pela vigília noturna e os serviços essenciais, o núcleo da Irmandade dormia em torno dela.

Somente os sons familiares das atividades da manutenção penetravam em suas câmaras particulares. Dois globos luminosos flutuavam acima da mesa, banhando a superfície de madeira negra e os maços de papel riduliano com uma luz amarelada, A janela além da mesa era um espelho negro refletindo a sala.

“Arquivos!”

O holoprojetor tremulava em sua produção contínua de informações, funcionando acima do topo da mesa — mais fragmentos e pedacinhos de informação que Taraza havia pedido.

Taraza não confiava muito nas Arquivistas, o que reconhecia como sendo uma atitude ambivalente, pois percebia a necessidade das informações. Mas os Registros da Irmandade eram uma mistura de abreviaturas, notações especiais, acréscimos codificados e notas de rodapé. Um material desse tipo freqüentemente requeria a tradução de um Mentat ou, o que era pior, em ocasiões de extrema fadiga, exigia que ela mergulhasse em suas Outras Memórias. Todas as Arquivistas eram Mentats, é claro, mas isso não tranqüilizava Taraza. Nunca se podia consultar os Arquivos de maneira direta. E muito da interpretação que emergia de tal fonte tinha que ser aceita das palavras da pessoa que a trazia ou (o que era odioso) se tinha que confiar na busca mecânica do holossistema. Isso, por sua vez, exigia uma dependência em relação àquelas que mantinham o sistema em operação. Dava a funcionárias mais poder do que ela gostaria de delegar.

“Dependências!”

Taraza odiava a dependência. Essa era uma admissão triste de ser feita, lembrando-lhe que poucas situações reais ocorriam exatamente da maneira como se imagina que deveriam ocorrer. Mesmo as melhores projeções Mentat acumulavam erros com o tempo.

E apesar disso cada movimento da Irmandade exigia a consulta aos Arquivos e

análises aparentemente intermináveis. Mesmo o comércio rotineiro exigia isso. Era uma fonte contínua de irritação para Taraza. Devemos formar este grupo? Assinar este acordo?

Sempre havia aquele momento, durante uma conferência, em que ela era forçada a introduzir a nota decisória:

— Análise da Arquivista Hesterion aceita.

Ou, o que era mais freqüente:

— Relatório da Arquivista rejeitado. Não é pertinente.

Taraza inclinou-se para diante a fim de estudar a holoprojeção:

— Possível plano de procriação para o Sujeito Waff.

Examinou os números, os planos genéticos obtidos de uma amostra celular fornecida por Odrade. Raspas de unhas raramente produziam material suficiente para uma análise segura, mas Odrade se saíra muito bem, aproveitando a desculpa de entalar os ossos quebrados do homem. Taraza sacudiu a cabeça diante dos dados. A prole seria exatamente como todas as outras que a Irmandade tinha conseguido dos Tleilaxu: as fêmeas seriam imunes à sondagem de memória, enquanto os machos, é claro, seriam um caos impenetrável e repelente.

Taraza recostou-se na poltrona e deixou escapar um suspiro. No que se referia aos registros de procriação, o monumental sistema de referência cruzada assumia proporções arrasadoras. Oficialmente era chamado de “Colégio de Pertinência Ancestral”, ou CPA, na linguagem das Arquivistas. Entre as irmãs em geral, era conhecido como “Registro de Garanhões”, o que, embora fosse uma denominação adequada, deixava de transmitir o senso de detalhes enumerado na denominação oficial dos Arquivos. Ela tinha pedido que as projeções de Waff fossem estendidas até 300 gerações, o que era uma tarefa rápida e fácil, sendo suficiente para todos os propósitos práticos. Trezentas linhagens genéticas principais (e, como no caso de Teg, com os irmãos e consangüíneos) tinham se mostrado dependentes dos milênios. O

instinto dizia-lhe que seria perda de tempo desperdiçar mais horas com as projeções de Waff.

A fadiga dominava Taraza. Ela colocou a cabeça entre as mãos e repousou por um momento sobre a mesa, sentindo o frio da madeira.

“E se eu estiver errada com relação a Rakis?”

Os argumentos da oposição não podiam ser esquecidos na poeira dos Arquivos. “Maldita dependência dos computadores!” A Irmandade mantivera suas linhagens principais registradas em computadores, mesmo nos Dias Proibidos, depois da louca destruição das “máquinas pensantes” pelo Jihad Butleriano. Nesses dias “mais esclarecidos”, não se costumava questionar os motivos inconscientes por trás daquela ancestral orgia de destruição.

“Algumas vezes tomamos decisões muito responsáveis por motivos inconscientes. Um exame consciente dos Arquivos e das Outras Memórias não traz qualquer garantia.”

Taraza liberou uma das mãos e com ela bateu no topo da mesa. Não gostava de lidar com Arquivistas que vinham cheias de respostas para suas perguntas. Era um grupo de gente desdenhosa, cheia de piadas secretas. Ela as tinha ouvido comparar seu trabalho de CPA com as análises de estoque de gado, os Formulários de Fazendas e da Direção de Corridas de Animais. Malditas piadas! A decisão certa era agora muito mais importante do que elas poderiam imaginar. Essas irmãs que só obedeciam ordens não tinham as responsabilidades de Taraza.

Ergueu a cabeça e olhou através da sala para o nicho que continha o busto da Irmã Chenoeh, aquela que conhecera o Tirano e tinha conversado com ele.

“Você sabia”, pensou Taraza. “Nunca chegou a ser uma Reverenda Madre e no entanto sabia. Seus relatórios mostram isso. Como tinha o conhecimento para tomar a decisão certa?”

O pedido de Odrade de ter assistência militar exigia uma resposta imediata. Os limites de tempo eram muito escassos. Mas com Teg, Lucilla e o ghola desaparecidos, o plano de contingência tinha que ser colocado em operação.

“Maldito Teg!”

Mais uma amostra de seu comportamento imprevisível. Ele não podia deixar o ghola em perigo, é claro. As ações de Schwangyu tinham sido previsíveis.

Que teria feito Teg? Escondera-se em Ysai ou alguma outra das grandes cidades de Gammu? Não. Se fosse esse o caso, Teg já teria enviado um relatório a essa altura, através de um dos contatos secretos que tinham preparado. Ele possuía uma lista completa desses contatos e os investigara pessoalmente.

Obviamente, Teg não confiava de todo nos contatos. Vira alguma coisa, durante sua viagem de inspeção, que não tinha transmitido a Bellonda.

Burzmali teria que ser chamado e instruído, é claro. Burzmali era o melhor, treinado pelo próprio Teg, primeiro candidato a Supremo Bashar. Burzmali devia ser enviado a Gammu.

“Estou agindo em cima de um palpite”, pensou Taraza.

Mas se Teg se escondera, a trilha começava em Gammu e poderia terminar lá também. Sim, mandar Burzmali a Gammu. Rakis teria que esperar. Havia certos atrativos óbvios nesse movimento. Ele não alertaria a Corporação. Os Tleilaxu e aqueles outros da Dispersão, contudo, certamente se ergueriam diante dessa isca. Se Odrade fracassasse em pegar os Tleilaxu numa armadilha... não, Odrade não falharia.

Aquele Tleilaxu tornara-se coisa certa.

O inesperado.

“Está vendo, Miles? Aprendi com você.”

Nada disso desviava a oposição dentro da Irmandade.

Taraza colocou ambas as mãos sobre a mesa e pressionou com força, como se tentasse sentir as pessoas dentro da Irmandade, aquelas que compartilhavam das opiniões de Schwangyu. A oposição vocal, aberta, tinha diminuído, mas isso sempre significava que a violência estava sendo preparada.

“Que devo fazer?”

Supunha-se que a Madre Superiora fosse imune à indecisão durante uma crise.

Mas a conexão Tleilaxu desequilibrara seus dados. Algumas das recomendações que deviam ser feitas a Odrade pareciam óbvias e já tinham sido transmitidas. Essa parte do plano era plausível e simples.

Leve Waff para o deserto, para bem longe dos observadores indesejáveis.

Produza uma situação extrema e a conseqüente experiência religiosa dentro daquele antigo e confiável padrão ditado pela Missionaria Protectiva. Teste se os Tleilaxu estão usando o processo ghola para obter seu próprio tipo de imortalidade. Odrade era perfeitamente capaz de realizar essa parte do plano revisto. Mas a coisa toda dependia muito dessa jovem, Sheeana.

“O verme é o desconhecido.”

Taraza lembrou-se de que os vermes atuais não eram os vermes originais de Rakis. A despeito do comando que Sheeana demonstrara ter sobre eles, eram imprevisíveis. Como diziam os Arquivos, eles não tinham registros. Taraza não duvidava de que Odrade tivesse feito uma dedução precisa a respeito dos Rakianos e suas danças. Isso era importante.

“Uma linguagem.”

“Mas nós ainda não a falamos.” Isso era negativo.

“Devo tomar uma decisão esta noite!”

Taraza fez sua consciência superficial mergulhar para trás, ao longo da linhagem continua das Madres Superioras, todas memórias femininas capturadas dentro da frágil consciência de si mesma e das duas outras — Bellonda e Hesterion.

Era uma trilha tortuosa através das Outras Memórias, a qual ela se sentia muito cansada para seguir agora. E bem no final da trilha estariam as observações do Muad'Dib, o bastardo Atreides que abalara o universo duas vezes — a primeira ao dominar o Império com suas hordas Fremen, a segunda ao gerar o Tirano.

“Se formos derrotadas desta vez, esse pode ser o nosso fim”, pensou ela.

“Poderíamos ser engolidas inteiras por essas mulheres infernais da Dispersão”

As alternativas se apresentavam: a menina em Rakis podia ser trazida para o núcleo da Irmandade, de modo a viver toda a sua vida em algum lugar no ponto final de vôo de uma não-nave. Uma retirada vergonhosa.

Tanta coisa dependia de Teg. Será que ele afinal tinha fracassado ante a Irmandade, ou teria encontrado um meio inesperado de esconder o ghola?

“Devo descobrir um meio de atrasar as coisas”, pensou Taraza. “Devemos dar um pouco de tempo ao Teg, tempo para ele comunicar-se conosco. Odrade terá que atrasar o plano em Rakis.”

Era perigoso, mas precisava ser feito.

Rigidamente, Taraza levantou-se da cadeira-cão e foi até a janela escurecida diante dela. O Planeta da Irmandade encontrava-se mergulhado na escuridão estrelada. Um refúgio: o Planeta da Irmandade. Tais planetas nem recebiam mais

nomes, somente números em algum lugar dos Arquivos. Esse planeta tinha assistido a 1.400 anos de ocupação Bene Gesserit, mas até isso devia ser considerado temporário.

Ela pensou nas não-naves guardiãs orbitando acima: o próprio sistema profundo de defesa de Teg. E apesar de tudo isso a Irmandade permanecia vulnerável.

O problema tinha um nome: “descoberta acidental”

Era uma falha eterna. Lá fora, durante a Dispersão, a humanidade expandira-se exponencialmente, enxameando através de um espaço ilimitado. O Caminho Dourado do Tirano, seguro afinal. Será que estava? Certamente o verme Atreides planejara algo mais que a simples sobrevivência da espécie.

“Ele fez alguma coisa conosco que ainda nem entendemos, mesmo depois de todos esses milênios. Creio saber o que ele fez. Mas a oposição acha que não.”

Nunca era fácil para uma Reverenda Madre contemplar a escravidão que tinham sofrido durante o governo de Leto II, enquanto ele lançava o seu Império através de 3.500 anos ao longo do Caminho Dourado.

“Nós hesitamos, trôpegas, quando relembramos esses tempos.”

Vendo seu próprio reflexo no plaz escuro da janela, Taraza fez uma cara furiosa. Era um rosto sombrio, com a fadiga muito evidente.

“Tenho todo o direito de estar cansada e aborrecida!”

Sabia que seu treinamento canalizara seus pensamentos deliberadamente em direção a padrões negativos. Essas eram suas defesas e sua força. Ela permanecia distante de qualquer relacionamento humano, mesmo durante as seduções que fizera para as Madres Procriadoras. Taraza era a eterna advogada do diabo, e isso se tinha tornado uma força dominante por toda a Irmandade, conseqüência natural de sua ascensão ao posto de Madre Superiora. A oposição ganhava forças naturalmente em tal ambiente.

Como tinham dito os Sufis: “A podridão no núcleo sempre se propaga para fora.”

O que eles não diziam é que certas formas de podridão eram nobres e valiosas.

Ela se tranqüilizava agora com suas informações mais confiáveis: a Dispersão tinha carregado as lições do Tirano nas migrações humanas para o exterior, mudando de modos desconhecidos, mas, em última análise, submissos ao reconhecimento. E no devido tempo seria encontrado um modo de anular a invisibilidade de uma não-nave.

Taraza não acreditava que os povos da Dispersão tivessem descoberto isso pelo menos não aqueles que agora voltavam aos lugares de origem.

Não havia curso seguro através das forças conflitantes, mas Taraza achava que a Irmandade se armara do modo como podia. O problema era semelhante ao de um Navegador da Corporação conduzindo sua nave através das dobras do espaço de um modo que evitasse colisões e aprisionamentos.

Aprisionamentos, essa era a chave, e lá estava Odrade, armando as arapucas da Irmandade para pegar os Tleilaxu.

Quando Taraza pensava em Odrade, o que acontecia com freqüência nessa

época de crise, a longa ligação das duas se firmava. Era como se ela fitasse um tapete gasto onde apenas as imagens mais brilhantes permanecessem. E a mais brilhante de todas, assegurando a posição de Odrade perto dos assentos do comando da Irmandade, era sua capacidade de dispensar os detalhes e ir direto ao âmago de um conflito. Era uma forma daquela perigosa presciência dos Atreides agindo secretamente dentro dela. O uso desse talento oculto era uma das coisas que tinham levantado a maior oposição, e era o argumento que Taraza admitia ter a maior validade. Isso funcionava muito abaixo da superfície, seus movimentos ocultos revelados apenas por alguma turbulência ocasional. E esse era o problema!

— Usá-la, mas estar pronta para eliminá-la — argumentara Taraza.

— Ainda temos conosco a maior parte de sua prole.

Taraza sabia poder confiar em Lucilla. desde que Lucilla tivesse conseguido abrigo em algum lugar com Teg e o ghola. Havia outros assassinos no Castelo de Rakis, é claro. Aquela arma talvez tivesse que ser armada logo.

Taraza experimentou uma súbita agitação dentro de si. As outras Memórias aconselharam-na a ter a máxima cautela. Não torne a perder o controle das linhas de procriação! Sim, se Odrade escapasse a uma tentativa de eliminação, estaria alienada para sempre. Odrade era uma Reverenda Madre plena e outras como ela ainda deviam estar lá no meio da Dispersão — não entre as Honradas Madres que a Irmandade havia observado... ainda assim...

“Nunca mais!” Isso se tornara um slogan operacional. Nunca mais outro Kwisatz Haderach ou outro Tirano.

Controle os reprodutores! Controle sua prole!

As Reverendas Madres não morrem quando morre sua carne. Elas afundam cada vez mais no núcleo vivo da Bene Gesserit, até que suas instruções casuais e mesmo suas observações inconscientes se tornam parte do todo da Irmandade.

“Não cometa enganos com Odrade!”

A resposta a Odrade exigia um planejamento minucioso e um cuidado extremo. Odrade, que se permitia ter certas afeições limitadas, “um calor moderado”, como as definia, argumentava que as emoções produziam discernimentos valiosos,

“desde que você se deixe governar por elas”. Taraza via esse calor moderado” como um meio de penetrar no coração de Odrade, uma abertura vulnerável.

“Eu sei o que você pensa de mim, Dar, com seu calor moderado voltado para uma antiga colega dos dias de escola. Você me julga um perigo potencial para a Irmandade, mas acha que posso ser salva de mim mesma por 'amigas' vigilantes.”

Taraza sabia que algumas de suas assessoras compartilhavam da opinião de Odrade, ouvindo em silêncio e guardando seu próprio julgamento. A maioria ainda seguia a liderança da Madre Superiora, mas muitas conheciam o talento selvagem de Odrade e tinham reconhecido suas dúvidas. Somente uma coisa ainda mantinha a maioria das Irmãs alinhadas com Taraza, e ela não se iludia a esse respeito.

Cada Madre Superiora demonstrava uma profunda lealdade para com a

Irmandade. Nada deveria colocar em risco a continuidade da Bene Gesserit, nem mesmo ela própria. Em seu modo duro e preciso de autojulgamento, Taraza examinou seu relacionamento com a existência contínua da Irmandade.

Obviamente não havia uma necessidade imediata de mandar eliminar Odrade.

E no entanto Odrade estava agora tão próxima do centro dos motivos do projeto do ghola que pouca coisa que acontecesse em torno disso lhe escaparia à observação.

Muito do que não lhe fora revelado se tornaria óbvio. O Manifesto Atreides fora quase um jogo. Odrade, a pessoa óbvia para produzir o Manifesto, só podia ter alcançado uma percepção profunda enquanto escrevia o documento, mas as próprias palavras eram a barreira final a impedir a revelação.

Waff gostaria disso, sabia Taraza.

Voltando-se para se afastar da janela escurecida, Taraza retornou à sua cadeira-cão. O momento da decisão crucial — ir em frente ou não — podia ser adiado, mas os passos intermediários tinham que ser tomados. Ela preparou uma mensagem em sua mente e a examinou enquanto mandava convocar Burzmali. O aluno favorito do Bashar teria que ser posto em ação, mas não do modo como Odrade desejava.

A mensagem para Odrade era essencialmente simples:

“Ajuda está a caminho. Você esta no local da ação, Dar. No que concerne à segurança da garota, Sheeana, use o seu próprio julgamento. Em todas as outras questões, onde não houver conflito com minhas ordens, siga o plano”

Aí estava. Era isso. Odrade já tinha as suas instruções, o essencial que ela aceitaria como “o plano”, mesmo que não reconhecesse o padrão completo. Odrade obedeceria. O “Dar” era um toque excelente, pensou Taraza. Dar e Tar. Aquela abertura na direção do “calor limitado” de Odrade não estaria bem guardada com relação ao Dar e Tar.

A longa mesa, à direita, está posta para um banquete de lebre do deserto assada em molho cepeda. Os outros pratos, seguindo no sentido dos ponteiros do relógio para a direita, desde a extremidade mais distante da mesa são: Aplomage siriana, chukka sob o vidro, café com melange (Note a crista do falcão Atreides na urna), pot-a-oie e dentro da garrafa de cristal Balut há o cintilante vinho Caladaniana. Note o antigo detector de venenos escondido no candelabro.

— Dar-es-Balat, Descrição de uma Exibição do Museu.

Teg encontrou Duncan na pequena alcova que servia como sala de refeições dentro da reluzente cozinha do não-globo. Parando na passagem para a alcova, Teg observou cuidadosamente o Duncan: oito dias passados ali dentro e o rapaz parecia recuperado da ira peculiar que o dominara quando tinham entrado no tubo de acesso

ao não-globo.

Eles tinham penetrado em uma caverna rasa, cheia dos odores de um urso nativo. As rochas no fundo da toca não eram rochas, embora pudessem ter enganado o exame mais sofisticado. Uma ligeira projeção nas rochas se moveria se a pessoa soubesse ou, casualmente, acertasse o código secreto. O movimento circular, ou de torção, abria toda a parede do fundo da caverna.

O tubo de acesso que se iluminava automaticamente assim que se fechava o portal atrás, fora decorado com grifos, o símbolo dos Harkonnen nas paredes e no teto. Teg pensou no jovem Patrin descobrindo esse lugar pela primeira vez (“O

choque! A admiração! A emoção!”) e, fazendo isso, deixou de observar a reação de Duncan até que um grunhido baixo se ergueu no espaço fechado.

Duncan estava parado grunhindo (quase gemendo), os punhos cerrados, os olhos fixos num grifo Harkonnen pintado ao longo da parede direita. O ódio e a confusão lutaram pelo domínio da expressão em seu rosto. Ele ergueu ambos os punhos e com eles golpeou a figura, fazendo sangrar as mãos.

— Malditos sejam nos poços mais profundos do inferno! — gritou ele.

Era uma praga curiosamente madura, saindo de boca tão jovem.

No instante em que acabou de pronunciar essas palavras, o jovem mergulhou de novo em soluços e tremores descontrolados. Lucila colocou um braço em torno dele e lhe acariciou o pescoço de um modo tranqüilizador, quase sensual, até que os tremores cessaram.

Continuar: parte 3 de 3