Os Hereges de Duna
— Eu vou dançar — disse Sheeana.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A voz dele deixou Teg sufocado. Foi necessário um supremo ato de vontade para que Teg pudesse voltar a respirar normalmente. Sentia as emoções de seus dois companheiros dentro do não-globo como um fluxo e refluxo de maré algo temporariamente removido de outras forças.
“Outras forças.”
A percepção Mentat podia ser uma idiota na presença de outras forças que varriam o universo. Podia haver no universo pessoas cujas vidas eram permeadas de poderes que ele nem podia imaginar. Diante de tais forças ele era uma palha flutuando em correntezas turbulentas. Poderia mergulhar numa cachoeira e emergir intacto?
— O que é que Lucilla poderá fazer se eu continuar resistindo a ela? —
perguntou Duncan.
— Ela já usou a Voz com você? — perguntou Teg.
Sua própria voz lhe parecia distante.
— Um vez.
— E você resistiu?
Uma surpresa remota agitou-se em algum lugar dentro de Teg.
— O próprio Paul Muad'Dib ensinou-me a fazê-lo.
— Ela é capaz de paralisar você e então...
— Acredito que as ordens dela proíbem a violência.
— E que é violência, Duncan?
— Vou tomar uma ducha, Bashar. Vem comigo?
— Em alguns minutos.
Teg respirou fundo, sentindo o quanto estava próximo da exaustão. Essa tarde no salão de treinamento e o que acontecera depois o tinha deixado esgotado.
Observou enquanto Duncan saía. Onde estaria Lucilla? Que estaria planejando? Por quanto tempo mais poderia ela esperar? Essa era a questão central e se ligava à ênfase peculiar do não-globo na questão de seu isolamento do Tempo.
Novamente ele sentiu aquele fluxo e o refluxo que suas três vidas
influenciavam. “Devo conversar com Lucila! Para onde será que ela foi? Fora a biblioteca? Não! Há outra coisa que devo fazer primeiro.”
Lucilla estava sentada num aposento que ela tinha escolhido para seus alojamentos pessoais. Era uma espaço pequeno com um leito decorado encaixando-se em uma depressão na parede. Elementos sutis e grotescos à sua volta revelavam que esse fora o quarto favorito dos Harkonnen. Os tecidos existentes ali eram todos de um azul-pastel com desenhos mais escuros. E, a despeito das esculturas barrocas da cama e do teto da alcova, o quarto podia ser varrido de sua consciência uma vez que ela relaxasse dentro dele. Deitou-se na cama e fechou os olhos às figuras de sexualidade exagerada desenhadas no teto.
“Vou ter que dar um jeito em Teg.”
“Teria que ser feito de um modo que não ofendesse Taraza nem enfraquecesse o ghola. Teg apresentava-lhe um problema especial de muitas maneiras, especialmente no modo como seus processos mentais eram capazes de afundar e emergir de fontes profundas, semelhantes às que eram disponíveis à Bene Gesserit.
“Graças à Reverenda Madre que foi sua mãe, é claro.”
Alguma coisa havia passado de mãe a filho. Algo que começara no ventre e que provavelmente não terminara nem quando ambos tinham sido separados. Ele nunca tinha passado pela devoradora transmutação que produzia as Abominações...
não, isso não. Mas possuía poderes autênticos e muito sutis. Aqueles que nasciam de Reverendas Madres aprendiam coisas que eram impossíveis para os outros.
Teg conhecia precisamente o modo como Lucilla encarava o amor em todas as suas manifestações. Ela percebera isso estampado no rosto dele uma vez, nos alojamentos do Castelo.
“Bruxa calculista!”
Teria sido a mesma coisa se ele tivesse falado em voz alta.
Lembrou-se do modo como lhe tinha dirigido o sorriso benevolente e a expressão dominadora. Isso fora um erro, algo indigno de ambos. Tinha percebido em tais pensamentos uma simpatia latente da parte de Teg. Em algum lugar dentro dele, a despeito de todo o cuidadoso treinamento Bene Gesserit, existiam fendas em sua armadura. Suas professoras a tinham advertido muitas vezes.
Para ser capaz de induzir um amor verdadeiro, você deve ser capaz de senti-lo, ainda que temporariamente. E uma única vez é o bastante!
As reações de Teg para com o ghola Duncan Idaho diziam muita coisa. Teg era ao mesmo tempo atraído e repelido pelo jovem pupilo.
“Exatamente como eu sou.”
Talvez tivesse sido um erro não ter seduzido Teg.
Em sua educação sexual, Lucilla aprendera a ganhar forças numa relação em vez de se entregar nela. Suas professoras tinham enfatizado a análise e as comparações históricas, das quais havia muitos exemplos nas Outras Memórias de uma Reverenda
Madre.
Lucilla focalizou seus pensamentos na presença masculina de Teg. Fazendo isso, podia sentir uma resposta feminina, sua carne desejando Teg junto dela e excitado até o ápice sexual — pronto para o momento do mistério.
Um leve senso de humor penetrou na consciência de Lucilla. Não era chamado de orgasmo nem de qualquer outro rótulo científico! Era típico da cantilena Bene Gesserit: “O momento do mistério”, a especialidade última de uma Impressora. A imersão na longa linhagem da Bene Gesserit exigia esses conceitos. Tinham lhe ensinado a crer profundamente na dualidade: no conhecimento científico através do qual as Madres Procriadoras guiavam suas ações, mas, ao mesmo tempo, no mistério daquele momento que confundia todo o conhecimento. A ciência e a história da Bene Gesserit diziam que o impulso para a procriação devia permanecer irrecuperavelmente enterrado na psique. Ele não podia ser removido sem que isso resultasse na destruição da espécie.
“A rede de segurança.”
Lucilla reuniu suas forças sexuais como somente uma Impressora seria capaz de fazer. Começou a focalizar o pensamento em Duncan. A essa altura ele devia estar no chuveiro, pensando em sua sessão de treinamento noturna com sua professora-Reverenda Madre.
“Irei ao encontro de meu aluno dentro em pouco”, pensou ela. “A lição mais importante deve ser ensinada ou ele não estará plenamente preparado para enfrentar Rakis.”
Essas tinham sido as instruções de Taraza.
Lucilla voltou o foco de seus pensamentos inteiramente para Duncan. Era quase como se o visse, de pé nu, debaixo do chuveiro.
Quão pouco ele compreendia do que havia para aprender!
Duncan estava sentado sozinho no vestiário ao lado dos chuveiros, ao lado da sala de exercícios. Encontrava-se mergulhado numa tristeza profunda. Isso lhe trazia à lembrança sofrimentos causados por velhas feridas que essa carne jovem nunca experimentara.
Algumas coisas nunca mudavam! A Irmandade estava metida em seus velhos jogos de novo.
Olhou para cima e à volta desse refúgio dos Harkonnen revestido de painéis escuros. Arabescos tinham sido esculpidos nas paredes e no teto, estranhos desenhos nos cubos do mosaico do piso. Monstros e lindos corpos humanos entrelaçando-se através das mesmas linhas definidas. Somente um olhar atento distinguia uns de outros.
Duncan olhou para o corpo que os Tleilaxu, com seu tanques axlotl, tinham produzido para ele. Parecia-lhe estranho às vezes. Ele fora um homem com muitas experiências de adulto no último instante que recordava de sua vida pré- ghola — combatendo um enxame de guerreiros Sardaukar, dando ao seu jovem Duque uma
chance de escapar.
Seu Duque! Paul então não era mais velho que esse corpo. Condicionado, contudo, à maneira de ser de todos os Atreides: lealdade e honra acima de tudo.
“Do modo como eles me condicionaram depois que me salvaram dos Harkonnen.”
Alguma coisa dentro dele não podia escapar dessa antiga dívida. Conhecia sua fonte e podia delinear o processo através do qual essa dívida de gratidão se havia entranhado nele.
E lá permanecia.
Duncan olhou para o piso azulejado. Palavras tinham sido escritas ao longo do rodapé. Era uma inscrição que parte dele identificava como coisa antiga, dos velhos tempos dos Harkonnen, enquanto outra parte achava que era um Galach muito familiar.
LIMPEZA PURA
PURA LIMPEZA
BRILHANTE PURA LIMPEZA
A inscrição repetia-se ao longo do perímetro da sala como se as próprias palavras pudessem criar alguma coisa que Duncan sabia ser totalmente estranha aos Harkonnen de suas lembranças.
Nas portas dos chuveiros, mais inscrições:
CONFESSE TEU CORAÇÃO E ENCONTRE A PUREZA
Uma advertência religiosa numa fortaleza Harkonnen? Teriam os Harkonnen se modificado nos séculos subseqüentes à sua morte? Duncan achava muito difícil acreditar nisso. Essas palavras eram apenas alguma coisa que os construtores tinham julgado apropriado.
Sentiu mais que ouviu quando Lucilla entrou atrás dele. Levantou-se e prendeu os fechos da túnica que escolhera nos vasos de nulentropia (mas somente depois de arrancar todas as insígnias dos Harkonnen!)
Sem se virar, ele disse:
— Que é agora, Lucilla?
Ela acariciou o tecido da túnica ao longo do braço esquerdo dele.
— Os Harkonnen sabiam o que era bom.
Duncan falou calmamente:
— Lucilla, se você me tocar de novo sem minha permissão, vou tentar matá-la.
E vou tentar com tanto empenho que é muito provável que você tenha que me matar.
Ela recuou imediatamente.
Ele olhou nos olhos dela.
— Não sou nenhum maldito garanhão para os seus projetos de procriação.
— É isso que você acha que queremos de você?
— Ninguém me disse ainda o que vocês querem de mim, mas as suas atitudes são óbvias!
Ele estava nas pontas dos pés, pronto para agir. Aquela coisa ainda não despertada em seu interior remexia-se e fazia seu pulso acelerar-se.
Lucilla observou-o cuidadosamente. “Maldito Miles Teg!” Nunca esperara que a resistência fosse assumir essa forma. Não havia como duvidar da sinceridade de Duncan. Palavras apenas não iam adiantar mais. Ele era imune à Voz.
“Verdade”
Era a única arma que lhe restava.
— Duncan, não sei precisamente o que Taraza espera que você faça em Rakis.
Só posso fazer suposições, mas minhas suposições podem estar erradas.
— Faça as suposições então.
— Existe em Rakis uma garota muito jovem, uma adolescente. O nome dela á Sheeana. Os vermes de Rakis obedecem a ela. De algum modo, a Irmandade deve unir esse talento ao seu patrimônio de habilidades.
— E que poderia eu possivelmente...
— Se eu soubesse lhe diria agora.
Ele notou a sinceridade dela, revelada pelo desespero.
— E que é que seu talento tem a ver com isso? — indagou ele.
— Somente Taraza e suas conselheiras sabem.
— Elas querem ter algum poder sobre mim, alguma coisa da qual eu não possa escapar!
Lucilla já deduzira isso, mas não tinha esperado que ele chegasse a tal conclusão tão rapidamente. O rosto jovem de Duncan ocultava uma mente que funcionava em níveis que ela ainda não tinha avaliado. Os pensamentos de Lucilla aceleraram-se.
— Controle os vermes e poderá reviver a antiga religião — era a voz de Teg vindo da porta atrás de Lucilla.
“Não o ouvi chegar!”
Ela girou num movimento rápido. Teg estava posicionado com uma das antigas armas laser dos Harkonnen apoiada naturalmente sobre o braço esquerdo, o cano apontado para Lucila.
— Isto é para garantir que você vai me ouvir — ele disse.
— Há quanto tempo estava nos ouvindo?
O olhar furioso de Lucilla não mudou a expressão de Teg.
— A partir do momento em que admitiu que não sabe o que Taraza espera de Duncan. Nem eu sei — disse Teg. — Mas posso fazer algumas projeções Mentat.
Nada muito preciso ainda, mas todas muito sugestivas. Diga-me se estou errado.
— A respeito do quê?
Ele olhou para Duncan.
— Uma das coisas que lhe ordenaram que fizesse foi torná-lo irresistível para a maioria das mulheres.
Lucilla tentou ocultar o desapontamento. Taraza a advertira para que escondesse isso de Teg por quanto tempo fosse possível. Percebia agora que não poderia mais esconder. Teg notara sua reação com uma daquelas malditas habilidades que a maldita mãe lhe havia ensinado!
— Um bocado de energia está sendo reunida e dirigida para Rakis —
continuou Teg. Olhou firme para Duncan. — Não importa o que os Tleilaxu tenham enterrado dentro dele, ele tem a marca da antiga humanidade em seus genes. Não é disso que precisam as Madres Procriadoras?
— Um maldito garanhão para as Bene Gesserit — acusou Duncan.
— Que é que você pretende fazer com essa arma? — perguntou Lucilla, indicando a antiga arma laser nas mãos de Teg.
— Isto? Eu ainda nem coloquei o carregador de energia.
Ele abaixou a arma laser e a apoiou no canto da porta ao seu lado
— Miles Teg, você será punido! — ameaçou Lucilla.
— Isso vai ter que esperar — retrucou ele. — É quase noite lá fora e eu saí sob a proteção de um escudo vital. Burzmali esteve aqui. Deixou seu sinal para indicar que leu a mensagem que deixei rabiscada com aquelas marcas de animais nas árvores.
Um brilho de vigilância surgiu nos olhos de Duncan.
— Que vai fazer? — perguntou Lucilla.
— Deixei novas marcas preparando um encontro. Agora vamos todos para a biblioteca, onde estudaremos os mapas. Vamos gravá-los na memória. No mínimo ficaremos sabendo onde estamos quando fugirmos.
Ela concedeu-lhe um curto meneio de aceitação com a cabeça. Duncan notou o movimento de Lucilla com apenas uma pequena fração de sua consciência. Sua mente já tinha saltado adiante, para o antigo equipamento da biblioteca dos Harkonnen. Fora ele quem demonstrara a Teg e Lucila como usá-lo corretamente, pedindo um mapa de Giedi Prime de uma época em que nenhum não-globo ainda fora construído.
Com a memória pré- ghola do Duncan como guia, e seu conhecimento mais moderno do planeta, Teg tentava atualizar o mapa.
“Estação da Guarda Florestal” tornou-se “Castelo da Bene Gesserit”
— Parte dele era um chalé de caça dos Harkonnen — explicara Duncan. —
Eles caçavam seres humanos especialmente criados e condicionados para esse propósito.
Cidades desapareciam na atualização de Teg. Algumas delas permaneciam, mas recebiam novos nomes. “Ysai”, a metrópole mais próxima, tornou-se “Baronja” no mapa original.
Os olhos de Duncan ficaram cruéis ante essa lembrança.
— Foi onde eles me torturaram.
Quando Teg esgotou sua memória do planeta, muita coisa estava marcada ainda como desconhecida, mas havia símbolos encaracolados da Bene Gesserit identificando os lugares onde, segundo o pessoal de Taraza explicara a Teg, ele poderia encontrar refúgio temporário.
Eram esses lugares que Teg queria gravar na memória.
Enquanto se virava para guiá-los até a biblioteca, Teg disse:
— Vou apagar o mapa quando o tivermos memorizado. Ninguém pode prever quem é capaz de encontrar este lugar e examiná-lo.
Lucilla passou por ele.
— Está em sua cabeça, Miles! — ela disse.
Teg olhou para as costas dela enquanto se afastava:
— Um Mentat lhe diz que fiz aquilo que me era exigido.
Ela falou sem se virar:
— Que lógico, Miles!
Esta sala reconstrói um trecho do deserto de Duna. O Trator da Areia diretamente em frente é da época dos Atreides. Agrupadas em torno dele, no sentido dos ponteiros do relógio a partir da sua esquerda, encontram-se uma pequena colhedeira, uma asa transporta-tudo, uma primitiva fábrica de especiaria e outros equipamentos de apoio. As explicações estão nos stand. Observe-se a citação iluminada em cima de cada stand. “POIS ELES SUGARÃO A ABUNDÂNCIA DOS MARES E OS TESOUROS DAS AREIAS.” Essa antiga citação religiosa era freqüentemente repetida pelo célebre Gurney Halleck.
— Texto-guia,
Museu de Dar-es-Balat
O verme não reduziu sua marcha implacável senão pouco antes do anoitecer.
A essa altura Odrade já estudara meticulosamente todas as suas indagações e ainda não obtivera respostas. Como Sheeana podia controlar os vermes? Ela dizia que não estava dirigindo o seu Shaitan naquela direção. Qual seria a linguagem oculta a que respondia o monstro do deserto? Odrade sabia que suas irmãs-guardiãs nos tópteros lá em cima deviam estar se fazendo as mesmas perguntas, e mais uma:
“Por que Odrade deixa essa cavalgada continuar?”
Elas poderiam até mesmo aventar algumas hipóteses: “Ela não nos chama porque isso poderia perturbar a fera.” “Ela não confia em nossa capacidade de resgatar o seu grupo”
Mas a verdade era muito mais simples: curiosidade.
A sibilante passagem do verme lembrava o avanço de um navio fendendo os
oceanos. Mas os odores de pó de pedra e da areia superaquecida que passavam em torno deles, soprados pelos ventos, revelavam o contrário. Somente o deserto aberto os envolvia agora, quilômetros após quilômetros de dunas dorso-de-baleia, tão regulares em seu espaçamento quanto as ondas de um mar.
Waff estava em silêncio já havia um bom tempo. Agachara-se numa reprodução, em miniatura, da posição de Odrade, sua atenção dirigida para a frente, uma expressão vazia no rosto. Sua declaração mais recente fora:
— Deus guarda os fiéis na hora do nosso julgamento!
Odrade pensava nele como a prova viva de que um fanatismo suficientemente forte era capaz de sobreviver durante eras. Os Zensunni e os antigos Sufi sobreviviam nos Tleilaxu. Era como um vírus mortífero que tivesse permanecido incubado por todos esse milênios, esperando o hospedeiro certo para alimentar sua virulência.
“Que acontecerá com aquilo que plantei no clero Rakiano?”' ela se perguntava.
Santa Sheeana era uma certeza.
Sheeana estava sentada num anel de seu Shaitan, o manto puxado para cima a fim de revelar suas canelas magras. Segurava o anel com ambas as mãos colocadas entre as pernas.
Sheeana contara que seu primeiro verme levara-a diretamente para Keen. Por que para lá? Será que o verme estava simplesmente levando-a para junto de sua própria gente?
Este aqui tinha certamente um objetivo diferente. Sheeana não mais o questionava e Odrade ordenara que ela ficasse em silêncio e praticasse o baixo transe.
Isso pelo menos garantiria que os mínimos detalhes dessa experiência poderiam ser recuperados facilmente da memória dela. Se houvesse uma linguagem oculta entre Sheeana e o verme, elas descobririam depois.
Odrade olhou para o horizonte. O que restava da base da antiga muralha em torno do Sareer encontrava-se apenas alguns quilômetros à frente. Longas sombras partindo dessas elevações projetavam-se sobre as dunas, revelando a Odrade que esses restos eram mais altos do que ela havia suspeitado. Agora parecia um contorno partido e despedaçado ao longo do horizonte, com grandes pedras lançadas ao longo da base. A fenda onde o Tirano despencara de sua ponte para o rio Idaho estava bem à direita, pelo menos uns três quilômetros fora de seu caminho. Nenhum rio passava por lá agora.
Waff mexeu-se ao lado dela.
— Eu ouço teu chamado, ó Deus — exclamou ele. — É Waff dos Entio que ora em Teu Lugar Sagrado.
Odrade voltou a atenção para ele sem mover a cabeça. “Entio?” Suas outras Memórias conheciam um Entio, líder tribal dos grandes Peregrinos Zensunni, de uma época muito anterior a Duna. Que seria isso? Que antigas memórias esses Tleilaxu ainda manteriam vivas?
Sheeana quebrou seu silêncio.
— Shaitan está diminuindo a marcha.
Os restos da antiga muralha bloqueavam o caminho. Erguiam-se a uma altura de pelo menos uns 50 metros acima das dunas mais altas. O verme virou-se ligeiramente para a direita e passou entre duas rochas colossais que se erguiam em torno deles. Então parou, o longo dorso anelado paralelo a uma seção quase intacta da base da muralha.
Sheeana levantou-se e olhou para a barreira.
— Que lugar é este? — perguntou Waff.
A voz dele ergueu-se acima do som dos ornitópteros que circulavam lá no alto.
Odrade soltou as mãos cansadas do anel do verme e flexionou os dedos.
Continuou agachada enquanto estudava o ambiente ao redor. Sombras das pedras derrubadas traçavam faixas de escuridão definidas sobre os montes de areia desmoronada e as pequenas rochas. Vista de perto, a muralha, a menos de 20 metros de distância, revelava fendas e aberturas, entradas negras para as suas antigas fundações.
Waff levantou-se, massageando as mãos.
— Por que fomos trazidos aqui? — perguntou ele, sua voz ligeiramente suplicante.
O verme contorceu-se.
— Shaitan deseja que saltemos — explicou Sheeana.
“Como é que ela sabe?”, perguntou-se Odrade. Os movimentos do verme não tinham sido suficientes para que nenhum deles caísse. Podia ter sido um reflexo depois de uma jornada muito longa.
Mas Sheeana se voltou para as antigas fundações da muralha, sentou-se na curva do verme e escorregou. Caiu agachada na areia macia.
Odrade e Waff avançaram até a frente do verme e observaram fascinados enquanto Sheeana caminhava com dificuldade através da areia até ficar diante da boca do animal. Lá ela colocou ambas as mãos na cintura e olhou para dentro da criatura, enquanto o brilho das chamas alaranjadas tremulava em seu rosto jovem.
— Shaitan, por que estamos aqui? — indagou ela.
Novamente o verme se agitou.
— Ele quer que vocês desçam — avisou ela.
Waff olhou para Odrade.
— Se Deus desejar que morras, fará com que teus passos o conduzam ao local de tua morte.
Odrade devolveu-lhe uma frase do canto de Shariat.
— Obedeça a mensageira de Deus em todas as coisas.
Waff suspirou. Havia dúvida, bem visível em seu rosto. Mas ele se virou e foi o primeiro a pular de cima do verme, bem na frente de Odrade. Eles seguiram o exemplo de Sheeana, andando até ficarem em frente à criatura. Odrade, com cada um de seus sentidos em alerta, fixou o olhar em Sheeana.
Era muito quente na frente da boca aberta. O cheiro familiar de melange enchia o ar em torno deles.
— Aqui estamos, ó Deus! — disse Waff.
Odrade, já muito cansada dessa admiração religiosa, deu uma olhada no lugar em que se encontravam — as rochas partidas, a barreira destruída pela erosão subindo ao encontro do céu do entardecer, a areia escorrendo em declives a partir das pedras marcadas pelo tempo, o lento ressecamento do calor vindo dos fogos internos do verme.
“Mas onde estamos?”, perguntou-se Odrade. “Que há de especial neste lugar para fazer dele o destino do verme?”
Quatro tópteros da escolta passaram em fileira acima. O som de suas asas e o sussurro dos jatos abafaram momentaneamente o rumor proveniente do interior do verme.
“Devo pedir que desçam?”, pensou Odrade. Seria preciso apenas um sinal com a mão. Em vez disso ela ergueu ambas as mãos, fazendo o sinal para que os observadores permanecessem no ar.
O frio da noite já tomava conta das areias. Odrade tremeu e ajustou seu metabolismo às novas exigências. Sentia-se confiante em que o verme não os engoliria na presença de Sheeana.
Sheeana virou as costas para a criatura.
— Ele quer que fiquemos aqui — explicou ela.
Como se suas palavras fossem uma ordem, o verme virou a cabeça para longe deles e deslizou através do grupo de pedras altas. Puderam ouvi-lo ganhar velocidade enquanto voltava para o deserto.
Odrade olhou para a base da antiga muralha. A escuridão logo os envolveria, mas ainda havia luz suficiente, no longo crepúsculo do deserto, para que pudessem procurar alguma explicação do motivo de aquela criatura tê-los levado até ali. Havia uma fenda comprida na rocha à direita que parecia um lugar melhor que qualquer outro para merecer uma investigação. Mantendo parte de sua atenção voltada para os sons de Waff e Sheeana, Odrade subiu a aclive de areia em direção à abertura escura.
Sheeana acompanhou-a.
— Por que estamos aqui, Madre?
Odrade sacudiu a cabeça enquanto ouvia Waff seguindo-as.
A fenda diretamente à frente era uma sombria abertura para a escuridão.
Odrade parou e segurou Sheeana para que ficasse ao lado dela. Calculava que a abertura tivesse um metro de largura e quatro vezes isso em altura. Os lados rochosos eram curiosamente lisos, como que polidos por mãos humanas. A areia tinha escorregado para dentro da abertura e a luz do Sol poente nela se refletia para dar a um dos lados dessa entrada um banho de ouro.
Waff disse atrás delas:
— Que lugar é este?
— Existem muitas cavernas antigas — explicou Sheeana. — Os Fremen escondiam a especiaria em cavernas. — Inalou profundamente. — Está sentido o cheiro, Madre?
Havia definitivamente um odor de melange naquele lugar, concordou Odrade.
Waff passou por elas e entrou na fissura. Virou-se, olhando para as paredes no ponto em que elas se encontravam num ângulo agudo acima dele. Voltando-se para Odrade e Sheeana, recuou para dentro da abertura, a atenção concentrada nas paredes.
Odrade e Sheeana avançaram para ficar mais perto dele e, com um súbito assovio de areia desmoronando, Waff desapareceu de suas vistas. Ao mesmo tempo, toda a areia em torno de Odrade e Sheeana escorregou para dentro da fissura, arrastando as duas enquanto Odrade segurava a mão de Sheeana.
— Madre! — gritou a jovem.
O som ecoou nas paredes de rocha, invisíveis na escuridão, enquanto elas desciam um longo declive de areia. A areia levou-as até parar num suave movimento.
Odrade, enterrada até os joelhos, safou-se e puxou Sheeana para uma superfície mais firme.
Sheeana começou a falar, mas Odrade fez com que ela se calasse:
— Xii. Ouça!
Havia um movimento à esquerda.
— Waff?
— Estou enterrado até a cintura.
Havia terror na voz dele.
Odrade disse secamente:
— Deus deve querer assim. Saia daí com cuidado. Parece que temos rocha sob nossos pés. Cuidado agora! Não queremos outra avalanche.
Enquanto seus olhos se ajustavam à escuridão, Odrade olhou para o declive de areia por onde tinham caído. A abertura por onde haviam entrado era agora uma fenda distante, uma estilha de luz dourada lá em cima.
— Madre — sussurrou Sheeana —, estou apavorada.
— Recite a Litania contra o Medo — ordenou Odrade. — E fique quieta.
Nossas amigas sabem onde estamos. Vão ajudar-nos a sair.
— Deus nos trouxe a este lugar — comentou Waff.
Odrade não respondeu. No silêncio, comprimiu os lábios e deu um assovio agudo, escutando para ouvir os ecos. Seus ouvidos indicaram-lhe que se encontravam num amplo espaço aberto com algum tipo de obstrução baixa atrás. Voltou as costas para a fenda estreita e deu outro assovio.
A barreira baixa encontrava-se a 100 metros de distância.
Odrade soltou a mão de Sheeana.
— Fique aqui mesmo, por favor, Waff.
— Eu ouço os tópteros — ele disse.
— Estamos ouvindo — disse Odrade. — Estão pousando. Vamos ter ajuda
dentro em pouco. Enquanto isso, por favor, fiquem onde estão e permaneçam em silêncio. Preciso desse silêncio.
Assoviando e ouvindo os ecos, colocando cada um dos pés com cuidado, Odrade avançou na escuridão profunda. Uma de suas mãos estendidas encontrou uma superfície de rocha áspera. Ela tateou ao longo desse obstáculo. A altura chegava até sua cintura apenas. Não era capaz de sentir nada além. Os ecos de seus assovios indicavam tratar-se de um espaço menor adiante, parcialmente fechado.
Uma voz chamou de algum ponto alto atrás dela.
— Reverenda Madre? Está aí?
Odrade voltou-se, colocou as mãos em concha em torno da boca e gritou:
— Afastem-se! Escorregamos para dentro de uma grande caverna. Tragam uma luz e uma corda comprida.
Uma minúscula silhueta escura afastou-se na abertura distante. A luz lá em cima estava ficando cada vez mais fraca. Ela abaixou as mãos e falou para a escuridão:
— Sheeana? Waff? Avancem 10 passos e esperem.
— Onde estamos Madre? — perguntou Sheeana.
— Paciência, criança.
Um som baixo e murmurante vinha de Waff, e Odrade reconheceu as antigas palavras do Islamiyat. Ele estava rezando. Waff abandonara qualquer tentativa de lhe esconder suas origens. Ótimo. O crente era um receptáculo para ela encher com as dádivas da Missionária Protectiva.
Enquanto isso, as possibilidades desse local para onde o verme os trouxera deixavam Odrade excitada. Guiando-se com uma das mãos de encontro à pedra, explorou a barreira para a esquerda. O topo era bem liso em certos lugares.
Escorregava para baixo na direção oposta. As Outras Memórias ofereceram-lhe uma súbita projeção.
“Bacia de recolhimento!”
Esse era um tanque Fremen para armazenagem de água. Odrade inalou profundamente, buscando umidade. O ar estava seco e cheio de pó.
Uma luz brilhante apareceu no alto da fissura e afastou a escuridão. Uma voz chamou lá de cima e Odrade a reconheceu como sendo de uma de suas Irmãs.
— Podemos vê-la.
Odrade recuou, afastando-se do muro baixo e se virando para olhar em torno.
Waff e Sheeana encontravam-se a seis metros de distância, olhando em volta. A câmara era quase circular, com uns 200 metros de diâmetro. Uma cúpula de rocha erguia-se bem alto. Odrade examinou o muro baixo ao seu lado: sim, era uma bacia de recolhimento dos Fremen. Ela era capaz de discernir, no centro, a pequena ilha rochosa onde um verme cativo podia ser mantido, pronto a ser jogado na água. As Outras Memórias reproduziram as contorções daquela morte em agonia que produzia o veneno de especiaria para incendiar uma orgia Fremen.
Uma arcada baixa emoldurava mais escuridão do outro lado do tanque Odrade
podia ver o vertedouro por onde a água era trazida para esse lugar, a partir de uma armadilha de vento. Haveria outras bacias de recolhimento por lá, todo um conjunto delas projetado para reter a riqueza de umidade de uma tribo ancestral. Odrade sabia o nome desse lugar agora.
— Sietch Tabr — sussurrou ela.
As palavras provocaram um fluxo de memórias úteis. Essa tinha sido a base de Stilgar nos tempos do Muad'Dib. “Por que aquele verme nos trouxe para o Sietch Tabr?”
Um verme conduzira Sheeana para a cidade de Keen. Outros teriam conhecimento dela? Que haveria para ser descoberto nesse lugar? Haveria pessoas escondidas lá dentro, na escuridão? Odrade não sentia qualquer sinal de vida naquela direção.
Sua Irmã na abertura interrompeu tais pensamentos.
— Tivemos que pedir uma corda em Dar-es-Balat! O pessoal do museu diz que este lugar é provavelmente o Sietch Tabr! Pensavam que tivesse sido destruído!
— Mande uma luz para que possamos explorá-lo — pediu Odrade.
— Os sacerdotes pedem que não perturbemos o local!
— Mande-me uma luz! — insistiu Odrade.
Dai a pouco um objeto escuro escorregou pelo declive de areia com um pequeno desmoronamento. Odrade mandou Sheeana buscá-lo. Um toque num botão e um brilhante raio de luz iluminou a escuridão da arcada além da bacia de recolhimento. Sim, havia outras bacias. E depois dessa em que estavam havia uma escadaria estreita, cortada na rocha. Os degraus conduziam para o alto, fazendo uma curva que os ocultava à visão.
Odrade abaixou-se e sussurrou no ouvido de Sheeana:
— Vigie Waff com cuidado. Se ele se mover atrás de nós, avise.
— Sim, Madre. Aonde vamos?
— Devo explorar este lugar. Fui eu a pessoa trazida aqui com um propósito.
Ela ergueu a voz e se dirigiu a Waff:
— Waff, por favor, espere aqui pela corda.
— Que foi que vocês andaram cochichando? — indagou ele. — Por que devo esperar? Que está fazendo?
— Estive rezando — respondeu Odrade. — Agora devo continuar esta peregrinação sozinha.
— Por que sozinha?
Na velha linguagem do Islamiyat, ela disse:
— Assim está escrito.
“Isso o deteve!”
Odrade saiu na frente, caminhando rapidamente para as escadarias.
Sheeana, correndo para manter o passo com ela, disse:
— Nós devemos contar ao povo a respeito deste lugar. As velhas cavernas
Fremen são seguras contra Shaitan.
— Fique quieta, criança — censurou Odrade.
Ela apontou a luz para a escadaria. A escada curvava-se na rocha, fazendo um ângulo pronunciado para a direita e para cima. Odrade hesitou. O sentimento de advertência e perigo latente que ela sentira no início dessa aventura, intensificou-se.
Era algo quase palpável dentro dela.
“Que haverá lá em cima?”
— Espere aqui, Sheeana — disse Odrade. — Não deixe Waff seguir-me.
— Como poderei detê-lo?
Sheeana olhou com medo para a câmara onde Waff se encontrava.
— Diga-lhe que Deus quer que ele permaneça aqui. Fale deste modo... —
Odrade curvou-se junto ao ouvido de Sheeana e repetiu as palavras na antiga linguagem de Waff, depois acrescentou: — Não diga mais nada. Fique na frente dele e repita se ele tentar passar.
Sheeana repetiu as palavras baixinho. Tinha decorado, percebeu Odrade. Essa garota era rápida.
— Ele tem medo de você — explicou Odrade. — Não tentaria feri-la. — Sim, Madre.
Sheeana virou-se, dobrou os braços sobre o peito e olhou através da câmara para Waff do outro lado.
Apontando a luz à sua frente, Odrade subiu a escadaria de rocha. “Sietch Tabr!
Que surpresas guardou para nós aqui, velho verme?”
Num longo corredor no fim da escadaria, Odrade encontrou os primeiros cadáveres mumificados pelo deserto. Eram cinco, dois homens e três mulheres, sem roupas ou marcas de identificação. Alguém os despira e os deixara completamente nus para serem preservados pelo ar seco do deserto. O processo de desidratação havia esticado a pele por sobre ossos. Os corpos estavam sentados em fila, as pernas esticadas para o meio do corredor, e Odrade foi obrigada a pular por cima desses macabros obstáculos.
Lançou o facho da lanterna sobre cada corpo ao passar. Todos tinham sido apunhalados de modo quase idêntico. Uma lâmina havia penetrado bem abaixo do arco do esterno.
“Assassinatos rituais?”
A carne seca e perfurada tinha entrado nos ferimentos, deixando uma nódoa negra para marcá-los. Esses cadáveres não eram da época dos Fremen. Odrade sabia que os alambiques da morte dos Fremen transformavam os corpos em cinzas a fim de recuperar sua água.
Odrade examinou com a luz o corredor adiante e parou para considerar sua situação. A descoberta desses corpos intensificava seu sentimento de perigo. “Eu devia ter trazido uma arma.” Mas isso teria levantado as suspeitas de Waff.
A persistência desse aviso interior não podia ser esquecida. Essa relíquia do
Sietch Tabr era perigosa.
O facho de luz revelou outra escadaria no final do corredor. Odrade avançou com cautela. No primeiro degrau, apontou a luz para cima. Degraus estreitos.
Somente um lance pequeno, mais rochas e um espaço mais amplo lá em cima. Odrade virou-se e examinou com a luz esse corredor. Lascados e marcas de queimadura ao longo das paredes de rocha. Uma vez mais ela olhou para a escadaria.
“Que haverá lá em cima?”
Subiu devagar um degrau de cada vez, parando freqüentemente. Emergiu numa passagem maior, escavada na rocha nativa. Mais corpos a esperavam. Esses tinham sido abandonados em desarranjo nos seus momentos finais. Novamente Odrade viu apenas carne mumificada, sem roupas. Estavam espalhados ao longo da passagem ampla — 20 corpos. Odrade passou com cuidado no meio deles. Alguns tinham sido apunhalados do mesmo modo que os cinco no nível inferior. Outros tinham sido desmembrados, queimados e despedaçados por feixes de armas laser. Um fora decapitado e o crânio, com sua máscara de pele ressequida, encontrava-se junto da parede como uma bola abandonada depois de um jogo terrível.
Esse novo corredor conduzia diretamente à frente, passando pelas aberturas de pequenas câmaras em ambos os lados. Odrade não viu nada de valor nelas: alguns fios dispersos de fibra de especiaria, pequenas poças de rocha derretida, bolhas de rocha coagulada aparecendo às vezes nos pisos, nas paredes e no teto.
“Que violência foi essa?”
Manchas sugestivas podiam ser vistas no piso de algumas das câmaras. Sangue derramado? Uma câmara tinha um pequeno montinho de roupas escuras num canto.
havia fragmentos de tecido rasgado aos pés de Odrade.
E havia o pó. Pó em toda parte. Seus pés erguiam-no ao passar.
A passagem terminava numa arcada que se abria para uma saliência na rocha.
Odrade iluminou a câmara além dessa plataforma e viu um espaço enorme, bem maior do que aquele que deixara lá embaixo. O teto curvo subia a tamanha altura que devia entrar na base rochosa da Grande Muralha. Amplos degraus conduziam do alto dessa plataforma ao piso da câmara. Hesitantemente, Odrade desceu por eles e iluminou ao redor com seu facho de luz. Outras passagens saíam dessa grande câmara.
Algumas, percebia ela, tinham sido bloqueadas por rochas, e algumas pedras ficavam espalhadas sobre o chão da câmara e da saliência rochosa acima.
Odrade cheirou o ar. Havia um perfume de melange na poeira agitada por seus pés. O cheiro penetrou em seu senso de perigo. Queria sair dali, voltar para junto dos outros. Mas o perigo era um farol a atraí-la. Tinha que descobrir para onde conduzia esse farol.
Sabia onde se encontrava. Essa era a grande câmara de reunião do Sietch Tabr, local de incontáveis orgias de especiaria dos Fremen e de conselhos tribais. Ali havia exercido a presidência o Naib Stilgar. Gurney Halleck estivera ali. Lady Jessica, Paul Muad'Dib, Chani, a mãe de Ghanima. Ali o Muad'Dib treinara seus guerreiros. O
Duncan Idaho original tinha estado ali... e também o primeiro ghola Idaho!
“Por que fomos trazidos para cá? Qual é o perigo?”
Estava ali, bem ali! Podia senti-lo.
Nesse lugar o Tirano escondera um tesouro de especiaria. Os registros da Bene Gesserit revelavam que o tesouro tinha enchido toda essa câmara, até o teto, e muitas das passagens adjacentes.
Odrade virou-se, o olhar seguindo o caminho aberto pelo facho de luz. Lá estava a plataforma dos Naibs. E ali a Plataforma Real, mais ampla, que o Muad'Dib mandara construir.
“E lá está a arcada por onde entrei”
Examinou o piso com a lanterna, notando os locais onde grupos de caçadores de tesouros tinham lascado e queimado as rochas, buscando o resto do tesouro do Tirano. As Oradoras Peixes haviam levado a maior parte, o lugar em que fora oculto tendo sido revelado pelo ghola Idaho, que fora consorte da célebre Siona. Os registros diziam que exploradores subseqüentes tinham encontrado outros depósitos de melange atrás de pisos e paredes falsas. Havia muitos relatos autenticados a esse respeito, checados pelas Outras Memórias. Os Tempos da Fome tinham trazido muita violência a esse lugar, quando gente desesperada o conquistara. Isso poderia explicar os corpos. Muita gente havia lutado e morrido ali, buscando uma chance de procurar os tesouros do Sietch Tabr.
Como lhe tinham ensinado, Odrade tentou usar como guia seu senso de perigo. Será que o miasma da violência do passado ainda fazia parte dessas paredes depois de tantos milênios? Seu aviso não era a esse respeito, era uma advertência quanto a alguma coisa mais imediata. O pé esquerdo de Odrade sentiu um desnível no piso. A lanterna revelou uma linha escura na poeira. Espalhou a poeira com o pé revelando uma letra e depois uma palavra inteira gravada na pedra numa caligrafia fluida.
Odrade leu a palavra em silêncio e depois a repetiu em voz alta.
— Arafel.
Conhecia a palavra. As Reverendas Madres que tinham vivido nos tempos do Tirano, haviam-na deixado impressa na consciência da Bene Gesserit, suas origens recuando até ás fontes mais antigas.
— Arafel: a nuvem de escuridão no fim do universo.
Odrade sentiu uma acumulação sufocante de seu senso de perigo. Focalizava-se naquela única palavra.
“O julgamento sagrado do Tirano”, era como os sacerdotes chamavam essa palavra, “A nuvem escura do julgamento sagrado!”
Odrade caminhou em torno da palavra, fitando-a, notando a curva da caligrafia no final, que acabava formando uma pequena flecha. Olhou para onde a flecha apontava. No passado, outra pessoa tinha visto a flecha e escavado a saliência para onde ela apontava. Odrade aproximou-se do ponto em que a tocha do caçador de
tesouros deixara um monte escuro de pedra derretida no piso da câmara. Fios de pedra derretida escorriam como dedos da saliência, cada qual partindo de um profundo orifício queimado na rocha.
Curvando-se, Odrade olhou dentro de cada buraco com a ajuda da lanterna: nada! Sentia a excitação do caçador de tesouros misturando-se com o temor de seu pressentimento. A extensão da riqueza contida nessa câmara já tinha atordoado as imaginações. Na pior época dos tempos da escassez, uma valise carregada de melange era suficiente para se comprar um planeta. E as Oradoras Peixes tinham desperdiçado essa riqueza em disputas mesquinhas, enganos terríveis e rixas insignificantes demais para que a história as registrasse. Tinham ficado satisfeitas ao aceitarem a aliança com os Ixianos quando os Tleilaxu quebraram o monopólio da melange.
“Será que os caçadores encontraram tudo? O Tirano era de uma astúcia soberba. Arafel.”
“No fim do universo.”
Teria ele enviado uma mensagem através das eras para a Bene Gesserit dos dias atuais?
Odrade vasculhou a câmara com sua lanterna uma vez mais, depois apontou o facho para o alto.
O teto era uma cúpula perfeita. Fora concebido, Odrade sabia, como um modelo do céu noturno visto da entrada do Sietch Tabr. Mas mesmo no tempo de Liet Kynes, o primeiro planetólogo que chegara a esse lugar, as estrelas originais, pintadas no teto, já tinham desaparecido, perdidas durante pequenos tremores de terra e na abrasão diária da vida.
A respiração de Odrade acelerou-se. O sentimento de perigo nunca fora tão forte. O farol do perigo brilha dentro dela! Rapidamente, Odrade atravessou para o outro lado dos degraus por onde havia descido até esse piso. Voltando-se naquele ponto, deixou a mente recuar no tempo, fazendo as Outras Memórias iluminarem o lugar. Elas vieram lentamente, passando com dificuldade pelas sensações daquele coração batendo muito forte na antevisão do fim. Apontando o facho de luz para cima e olhando na direção dele, Odrade fez suas Outras Memórias sobreporem-se ao cenário diante dela.
“Fragmentos de brilho refletido!”
As Outras Memórias posicionaram-nos: representações de estrelas num céu há muito desaparecido, mostrando que fora bem ali! O semi-círculo prata-amarelado do sol de Arrakeen. Ela sabia que era o símbolo do poente.
“O dia do Fremen começa à noite.”
“Arafel!”
Mantendo o foco da lanterna sobre o marco do sol poente, Odrade subiu os degraus de costas e deu a volta na câmara até a posição exata que vira em suas Outras Memórias.
Nada restara daquele arco de sol ancestral.
Os caçadores de tesouros tinham escavado a parede no ponto onde estivera o marco. Bolhas de pedra fundida e solidificada brilhavam onde uma tocha passara ao longo da parede. Mas não conseguira penetrar na rocha original.