Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 5 de 8 · parte 2/3

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Os Hereges de Duna

— Eu vou dançar — disse Sheeana.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Eles contam com gente suficiente para explorar muitas possibilidades por aqui.

— Quem suspeitaria da existência de um não-globo do tempo dos Harkonnen? — perguntou Duncan.

— Qualquer um que fizesse a ligação entre Rakis e Dar-es-Balat. — respondeu Teg.

— Se pensa nisso como num jogo — disse Lucilla —, considere então a urgência com que precisamos jogar. — Apoiando-se em um dos pés, virou-se para se concentrar em Teg. — E você desobedeceu Taraza!

— Está errada! Fiz apenas aquilo que ela me ordenou que fizesse. Sou o Bashar dela e você esqueceu como ela me conhece bem.

De um modo tão abrupto que a silenciou, chocada, Lucilla percebeu as sutilezas das manobras de Taraza..

“Não passamos de peões...”

Que toque delicado Taraza sempre demonstrava no modo como movia os peões de seu grande jogo. Lucilla não se sentia diminuída pela conscientização de que não passava de um peão. Esse era um conhecimento que nascia e era criado com cada Reverenda Madre da Irmandade. Até mesmo Teg tinha consciência disso. “Não, diminuída não.” Essa coisa em que estavam envolvidos ganhara a consciência de Lucilla. Ela se sentia assombrada pelas palavras de Teg. Como fora pobre sua visão anterior das forças envolvidas. Era como se ela tivesse visualizado apenas a superfície de um rio turbulento, vislumbrando apenas as correntezas abaixo. Agora, entretanto, sentia o fluxo inteiro à sua volta numa compreensão atordoante.

“Peões podem ser sacrificados”

Pela crença em singularidades, em absolutos granulados, vocês negam o movimento da evolução! E enquanto fazem com que um universo granular persista em sua consciência, ficam cegos ante o movimento. Então as coisas mudam e seu universo de absolutos desaparece, não é mais acessível às suas percepções autolimitadas. O universo colocou-se além do alcance de vocês.

— Primeiro Esboço do Manifesto Atreides, Arquivos da Bene Gesserit

Taraza colocou as mãos sobre as têmporas, as palmas pressionando as orelhas,

e apertou. Mesmo os seus dedos podiam sentir o cansaço ali, bem entre suas mãos —

a fadiga. Num breve tremular de pálpebras, mergulhou num transe relaxante. As mãos de encontro à cabeça eram os únicos focos de sua percepção carnal.

“Cem batimentos cardíacos.”

Tinha praticado isso com regularidade desde que o aprendera, ainda criança.

Uma das primeiras habilidades que a Bene Gesserit ensinava. Exatamente 100

batimentos cardíacos. Depois de todos esses anos de prática, seu corpo podia medi-los automaticamente, como um metrônomo inconsciente.

E quando ela abriu os olhos na contagem de 100 batimentos, sentia-se muito melhor. Esperava poder trabalhar mais duas horas extras antes que o cansaço a dominasse uma vez mais. Aqueles 100 batimentos lhe haviam fornecido anos extras de vigília em seu tempo de vida.

Essa noite, entretanto, o velho truque fez suas memórias rodopiarem para trás no tempo. Viu-se apanhada nas lembranças de sua infância. O dormitório com a Irmã Monitora andando pelos corredores à noite, certificando-se de que todas estavam devidamente em suas camas.

“Irmã Baram, a Monitora da Noite”

Há anos que Taraza não lembrava desse nome. A Irmã Baram era baixinha e gorducha, uma Reverenda Madre fracassada. Não por algum motivo facilmente perceptível, mas as Irmãs Médicas e os doutores Suk tinham descoberto alguma coisa e Baram nunca pudera tentar a agonia da especiaria. Ela fora muito franca no que sabia sobre seu defeito. Algo que descobriram quando ainda era adolescente.

Tremores nervosos periódicos manifestavam-se quando começava a mergulhar no sono. Sintomas de alguma coisa mais grave que fizera com que fosse esterilizada. Os tremores faziam com que Baram andasse durante a noite e, por esse motivo, a guarda dos corredores fora uma tarefa que obviamente lhe deveria ter sido atribuída.

Baram tinha outras fraquezas não-detectadas por suas superiores. Uma criança desperta, andando até o banheiro, podia atrair Baram para conversas em voz baixa.

Questões tolas produziam respostas tolas, mas Baram às vezes transmitia conhecimentos úteis nessas conversas. Fora ela que ensinara a Taraza o truque do relaxamento,

Certa manhã, uma das meninas mais velhas encontrou a Irmã Baram morta no banheiro. Os tremores da Monitora Noturna tinham sido o sintoma de um defeito orgânico fatal, fato importante apenas para as Madres Procriadoras e seus intermináveis registros.

Devido ao fato de a Bene Gesserit não programar uma completa “educação solo para a morte” senão no estágio de acólita, a Irmã Baram foi a primeira pessoa que Taraza viu morta. O corpo dela fora encontrado parcialmente embaixo da pia, o lado direito da face pressionado contra o piso de azulejos, a mão esquerda segurando o cano da pia. Ela havia tentado erguer-se depois da queda e a morte a surpreendera em meio à tentativa, paralisando-a em seu último movimento como um inseto

aprisionado no âmbar.

Quando rolaram o corpo para levá-lo, Taraza viu uma marca vermelha no ponto onde a face fora pressionada de encontro aos azulejos. A Monitora do Dia explicou essa marca com uma frieza científica. Qualquer experiência nova devia ser transformada em fonte de informação para que essas Reverendas Madres em potencial as incorporassem em suas “Conversas com a Morte” na fase de acólita.

Lividez post mortem.

Sentada diante de sua mesa na sede da Irmandade e separada desse acontecimento por tantos anos, Taraza foi forçada a usar todos os seus poderes de concentração, cuidadosamente focalizados, para afastar essa memória. Só então se sentiu livre para concentrar a atenção no trabalho que tinha diante de si. Tantas lições!

Sua memória estava terrivelmente cheia, com tantas memórias de vidas inteiras guardadas dentro dela. Reafirmava sua sensação de estar viva ver todo aquele trabalho à sua frente. Coisas para fazer, coisas para as quais ela era necessária. Avidamente, Taraza curvou-se para cumprir seus deveres.

Maldita necessidade de treinar o ghola em Gammu!

Mas esse ghola exigia isso. A familiaridade com a sujeira sob seus pés precedia a restauração da persona original.

Fora um movimento muito sábio enviar Burzmali para a arena de Gammu. Se Miles realmente encontrara um esconderijo... e fosse sair dele agora, ia precisar de toda a ajuda que pudesse conseguir. Uma vez mais ela considerou a possibilidade de fazer o jogo da presciência. Era tão perigoso! E os Tleilaxu tinham sido avisados de que um ghola substituto poderia ser necessário.

— Preparem-no para entrega.

Sua mente voltou-se para a questão Rakiana. Aquele tolo do Tuek teria que ter sido monitorado de modo mais cuidadoso. Como um Dançarino Facial poderia personificá-lo em segurança? Entretanto, a decisão de momento tomada por Odrade fora correta. Colocara os Tleilaxu numa posição insustentável. O falso Tuek podia ser desmascarado, mergulhando a Bene Tleilax num poço de ódio.

O jogo dentro do projeto Bene Gesserit tornara-se muito delicado. Há gerações que elas acenavam para o clero Rakiano com a isca de uma aliança. Mas agora! Os Tleilaxu deveriam pensar que eles tinham sido os escolhidos em vez dos sacerdotes. O

tripé da aliança de Odrade faria cada sacerdote acreditar que todas as Reverendas Madres iam realizar o Juramento de Subserviência ao Deus Dividido. O Conselho de Sacerdotes iria tagarelar de excitação ante essa perspectiva. Os Tleilaxu, é claro, viam uma chance de monopolizar a melange, controlando a única fonte ainda independente de seu domínio.

Uma batida na porta de Taraza revelou que uma acólita chegara com o chá.

Era um procedimento-padrão quando uma Madre Superiora se encontrava trabalhando tão tarde. Taraza olhou para o cronógrafo de mesa, um engenho Ixiano tão preciso que só ganhava ou perdia um segundo por século. O aparelho registrava:

1:23:11.

Mandou entrar a acólita. A garota, uma loura pálida com olhos friamente observadores, entrou e se curvou para dispor os conteúdos da bandeja diante de Taraza.

A Madre Superiora ignorou a jovem e olhou para o trabalho que permanecia na mesa. Tanta coisa a fazer. O trabalho era mais importante que o sono. Não obstante, sua cabeça doía e ela sentia a sensação de estupor indicativa de um cérebro cansado. Sinal de que era hora de descansar um pouco. Colocara-se numa condição de esgotamento mental e teria que se recuperar antes mesmo de pensar em se levantar.

As costas e os ombros doíam-lhe.

A acólita ia saindo quando Taraza fez sinal para que esperasse.

— Massageie minhas costas por favor, Irmã.

As mãos treinadas de acólita aliviaram as constrições musculares. “Boa moça.”

Taraza sorriu ante esse pensamento. É claro que era boa. Somente as melhores trabalhavam junto da Madre Superiora.

Depois que a jovem saiu, Taraza sentou-se em silêncio, a cabeça mergulhada em pensamentos profundos. “Tão pouco tempo.” Odiava cada minuto de sono e no entanto não havia como escapar. O corpo acabava fazendo suas exigências inevitáveis.

Ela tinha pressionado seu organismo a um ponto em que a recuperação não ia ser fácil, e isso já se prolongava por dias. Ignorando o chá colocado ao seu lado, Taraza levantou-se e foi até a passagem que levava ao pequeno cubículo onde dormia. Lá deixou um aviso para ser acordada às 11h da manhã e se deitou, completamente vestida, no catre duro.

Silenciosamente, regulou a respiração, isolando os sentidos de qualquer distração, e se preparou para dormir.

O sono não veio.

Usou todo o repertório de métodos da Bene Gesserit e ainda assim o sono não veio.

Taraza continuou deitada por longo tempo, reconhecendo afinal a futilidade de tentar adormecer com uma das técnicas que conhecia. Primeiro o estado intermediário de pré-sono teria que fazer o seu trabalho de recuperação. Enquanto isso, sua mente continuava a se agitar.

Nunca considerara o clero Rakiano como um problema. Já dominados pela religião, os sacerdotes poderiam ser manipulados facilmente através dela. Eles encaravam a Bene Gesserit principalmente como um poder capaz de reforçar o seu dogma. Que continuassem pensando assim. Era uma isca que os deixaria cegos.

Maldito Miles Teg! Três meses de silêncio e nenhum relatório favorável da parte de Burzmali. Solo queimado, sinais de decolagem de uma não-nave. Para onde Teg poderia ter ido? O ghola podia estar morto. Teg nunca tinha feito uma coisa assim antes. A velha Confiabilidade. Era por isso que o escolhera. Isso e sua habilidade como militar, sua semelhança com o velho Duque Leto — todas as coisas que tinham

preparado nele.

Teg e Lucilla. Uma equipe perfeita.

Se não estivesse morto, será que o ghola não estaria fora de alcance? Os Tleilaxu não o teriam capturado? Ou Atacantes da Dispersão? Multas coisas podiam ter acontecido. A velha Confiabilidade. Silêncio. Seria o silêncio uma mensagem? Se fosse, que será que ele estaria tentando dizer?

Com Patrin e Schwangyu mortos, havia um cheiro de conspiração em torno dos acontecimentos em Gammu. Será que Teg não poderia ser um agente plantado há muito tempo pelos inimigos da Irmandade?

Impossível! Sua própria família era uma prova contra todas as dúvidas. A filha de Teg, no lar da família, estava tão intrigada quanto todo o mundo.

Fazia três meses agora e nem uma palavra.

Cautela. Ela avisara Teg para ter a maior cautela ao proteger o ghola. Teg vira um grande perigo em Gammu é os últimos relatórios de Schwangyu tornavam isso claro.

Para onde Teg e Lucilla poderiam ter levado o ghola?

Onde teriam adquirido uma não-nave? Conspiração?

A mente de Taraza continuava circulando em torno dessas suspeitas profundas. Seria trabalho de Odrade? Então quem conspirava com Odrade? Lucilla?

Odrade e Lucilla nunca se tinham encontrado antes daquela breve ocasião em Gammu. Ou teriam? Quem se curvara junto de Odrade e respirara com ela um ar mútuo, cheio de sussurros? Odrade não demonstrara sinal disso, mas que prova isso dava? A lealdade de Lucilla nunca fora questionada. Ambas agiam perfeitamente como lhes era ordenado. Mas assim também agiriam conspiradoras.

Fatos! Taraza tinha fome de fatos. A cama fez barulho debaixo dela e seu sentimento de isolamento desabou, destruído igualmente pelas preocupações e pelo som de seus próprios movimentos. Resignadamente, Taraza recompôs-se uma vez mais para o relaxamento.

Relaxamento e então sono.

Naves da Dispersão esvoaçaram em sua imaginação enevoada pela fadiga.

Perdidos retornando em suas incontáveis não-naves. Teria sido assim que Teg encontrara uma nave? Essa possibilidade estava sendo estudada, tão discretamente quanto possível, em Gammu e outros lugares. Tentou contar as naves imaginárias, mas elas se recusavam a seguir do modo ordeiro necessário para induzir ao sono.

Taraza ficou subitamente alerta sem se mover em seu catre.

O lado mais profundo de sua mente estava tentando revelar-lhe alguma coisa.

A fadiga bloqueara o caminho para essa comunicação, mas agora! Sentou-se totalmente desperta.

Os Tleilaxu tinham andado negociando com gente que voltava da Dispersão.

Com as prostitutas Honradas Madres e com Bene Tleilax que voltavam. Taraza sentiu uma ligação em todos esses acontecimentos. Os Perdidos não voltavam por simples curiosidade quanto a suas raízes. O desejo gregário de reunificar toda a humanidade não era suficiente para trazê-los todos de volta. As Honradas Madres vinham claramente com sonhos de conquista.

Mas e se os Tleilaxu enviados para a Dispersão não tivessem levado consigo o segredo dos tanques axlotl? Que restaria então? Melange? As prostitutas de olhos alaranjados obviamente usavam um substitutivo inadequado. O povo da Dispersão podia não ter resolvido o mistério dos tanques axlotl. Eles deviam saber a respeito dos tanques axlotl e tentariam recriá-los. Mas se falhassem — melange!

Ela começou a explorar sua projeção.

Os Perdidos tinham esgotado os estoques de autêntica melange que seus ancestrais haviam levado para a Dispersão. Que recursos teriam? Os vermes de Rakis e a Bene Tleilax original. As prostitutas não se atreveriam a revelar seus verdadeiros interesses. Seus ancestrais acreditavam que os vermes não podiam ser transplantados.

Seria possível que os Perdidos tivessem encontrado um planeta adequado para os vermes? É claro que isso era possível. Elas poderiam estar negociando com os Tleilaxu para despistar. Rakis podia ser seu verdadeiro alvo. Ou o inverso podia ser verdade.

“Riqueza transportável.”

Vira os relatórios de Teg sobre a riqueza que se estava acumulando em Gammu. Alguns dos retornados tinham moedas e outras fichas negociáveis. Isso ficava claro pela atividade bancária.

Que outra grande moeda estaria em jogo, contudo, além da especiaria?

Havia muita riqueza, isso era claro, e fosse qual fosse a moeda os negócios já tinham começado.

Taraza tomou consciência de vozes atrás da porta. A acólita Guarda do Sono estava discutindo com alguém. As vozes eram baixas, mas Taraza ouvira o bastante para se colocar inteiramente alerta.

— Ela pediu para ser acordada bem tarde durante a manhã — protestava a Guarda do Sono.

Alguém mais sussurrou:

— Ela disse que devia ser informada no momento em que eu voltasse.

— Eu lhe digo. que ela está muito cansada. Precisa...

— Precisa ser obedecida! Diga-lhe que eu voltei!

Taraza levantou-se e colocou as pernas sobre a borda do catre. Seus pés sentiram o piso. Deuses! Como seus joelhos doíam. Doía-lhe também o fato de não ter conseguido identificar a pessoa que discutia com a guarda.

“A volta de quem eu... Burzmali!”

— Estou acordada — gritou Taraza.

A porta se abriu e a Guarda do Sono entrou.

— Madre Superiora, Burzmali voltou de Gammu.

— Mande-o entrar imediatamente!

Taraza ativou o único globo luminoso na cabeceira de sua cama. Sua luz

amarelada inundou o aposento, varrendo a escuridão.

Burzmali entrou e fechou a porta atrás de si. Sem que ela mandasse, acionou o botão de isolamento sonoro na porta e os ruídos exteriores desapareceram.

“Privacidade?” Então ele trazia más notícias.

Olhou para Burzmali. Era baixo, magro, com um rosto muito triangular estreitando-se para um queixo fino. O cabelo louro caía sobre a testa larga, os olhos verdes bem espaçados estavam alertas e vigilantes. Parecia muito jovem para as responsabilidades do posto de Bashar, mas, afinal, Teg parecera ainda mais jovem em Arbelough. “Estamos ficando velhas, maldição!” Forçou-se a relaxar e confiar no fato de Teg ter treinado esse homem e expressado plena confiança nele.

— Dê-me as más notícias.

Burzmali pigarreou.

— Ainda não há sinal do Bashar e de seu grupo em Gammu, Madre Superiora.

Ele tinha uma voz forte, masculina.

“E isso não é o pior de tudo”, pensou Taraza. Percebia claros indícios no nervosismo de Burzmali.

— Conte tudo — ordenou ela. — Obviamente você completou seu exame das ruínas do Castelo.

— Não houve sobreviventes — ele disse. — Os atacantes não deixaram escapar ninguém.

— Tleilaxu?

— Possivelmente.

— Você tem dúvidas?

— Os atacantes usaram o novo explosivo Ixiano 12-Uri. Eu... Eu acho que ele pode ter sido usado para nos confundir. Havia orifícios de sondas cerebrais mecânicas no crânio de Schwangyu, também.

— E quanto a Patrin?

— Exatamente como Schwangyu — disse Burzmali. — Explodiu naquela nave chamariz. Conseguiram identificá-lo a partir dos fragmentos de dois dedos e de um olho intacto. Não sobrou nada suficientemente grande para eles sondarem.

— Mas você tem dúvidas! Vá direto a elas!

— Schwangyu deixou uma mensagem que só nós poderíamos ler.

— Nas marcas gastas da mobília?

— Sim, Madre Superiora. e...

— Então percebeu que ia ser atacada e teve tempo de deixar uma mensagem.

Vi seu relatório anterior sobre a devastação do ataque.

— Foi rápido e totalmente esmagador. Os atacantes não tentaram fazer prisioneiros.

— E que foi que ela disse?

— Prostitutas.

Taraza tentou a conter o choque, embora já estivesse esperando por essa

palavra. O esforço para se manter calma quase lhe esgotou as energias. Isso era muito ruim. Taraza permitiu-se um suspiro profundo. A oposição de Schwangyu tinha persistido até o fim. Então, percebendo o desastre, ela tomara a decisão adequada.

Sabendo que ia morrer sem ter a oportunidade de transferir suas Vidas Memorizadas para outra Reverenda Madre, agira motivada pela lealdade mais básica. Se não pode fazer mais nada, arme suas Irmãs e frustre o inimigo.

“Então as Honradas Madres agiram!”

— Fale-me de sua busca do ghola — ordenou Taraza.

— Não fomos os primeiros a procurar naquela região, Madre Superiora. Havia mais árvores queimadas, rochas e arbustos.

— Mas foi uma não-nave?

— As marcas de uma não-nave.

Taraza assentiu para si mesma. Uma mensagem silenciosa da Velha Confiabilidade?

— De que distância examinaram a área?

— Voamos sobre ela numa viagem de rotina de um lugar para outro.

Taraza fez sinal para que Burzmali se sentasse em uma cadeira ao pé de seu catre.

— Sente-se e relaxe. Quero que você me faça algumas suposições.

Burzmali sentou-se cuidadosamente.

— Suposições?

— Você foi o aluno favorito de Teg. Quero que imagine que é ele. Sabe que tem que tirar o ghola do Castelo. Não confiava inteiramente em ninguém ao seu redor, nem mesmo em Lucilla. Que é que você faz?

— Algo inesperado, claro.

— É claro.

Burzmali esfregou o queixo estreito. Daí a pouco ele disse:

— Confio em Patrin, confio nele inteiramente.

— Está certo, você e Patrin. Que é que vocês fazem?

— Patrin é um nativo de Gammu.

— Estive pensando nisso.

Burzmali olhou para o piso diante dele.

— Patrin e eu teremos elaborado um plano de emergência muito antes de ele ser necessário. Sempre deixo preparadas alternativas secundárias de enfrentar problemas.

— Muito bem. Agora o plano. Que é que vocês fazem?

— Por que Patrin se matou? — perguntou Burzmali.

— Tem certeza de que foi isso que ele fez?

— A senhora viu os relatórios. Schwangyu e vários outros tinham certeza disso. Patrin era suficientemente leal para fazer isso por seu Bashar.

— Por você! Você é Miles Teg agora. Que plano você e Patrin elaboraram?

— Eu nunca mandaria Patrin para a morte deliberadamente.

— A menos?

— Patrin fez aquilo por sua conta. Poderia fazê-lo se o plano de fuga tivesse se originado dele e não... de mim. Ele o faria para me proteger, para se certificar de que ninguém descobriria o plano.

— Como Patrin poderia chamar uma não-nave sem que nós soubéssemos disso?

— Patrin era um nativo de Gammu. Sua família vem dos dias em que o planeta ainda era Giedi Prime.

Taraza fechou os olhos e voltou o rosto para a direção oposta a Burzmali.

Então ele seguia as mesmas trilhas sugestivas que ela estivera sondando mentalmente.

“Nós conhecemos as origens de Patrin” Qual seria o significado dessa ligação com Gammu? Sua mente recusava-se a especular. Isso era o que acontecia por se ter permitido ficar tão esgotada! Olhou novamente para Burzmali.

— Será que Patrin encontrou um meio secreto de fazer contato com a família e os velhos amigos?

— Investigamos cada contato que pudemos encontrar.

— Mas não confia nessa informação. Vocês não localizaram todos eles.

Burzmali deu de ombros.

— É claro que não. E não agi baseado nessa pressuposição.

Taraza respirou fundo.

— Volte para Gammu. Leve com você tanta ajuda quanto nossa Segurança puder dispensar. Diga a Bellonda que essas são minhas ordens. Você deve insinuar agentes em todos os lugares. Descubra as pessoas que Patrin conhecia. E quanto à sua família? Quantos ainda restam? Amigos? Descubra-os.

— Isso vai causar uma agitação, não importa o quanto sejamos cuidadosos.

Outros vão saber.

— Isso não pode ser evitado. E, Burzmali...

Ele se colocou de pé imediatamente.

— Sim, Madre Superiora?

— Quanto aos outros que estão procurando. Você deve ficar na dianteira.

— Posso usar um navegador da Corporação?

— Não!

— Então como...

— Burzmali, e se Miles e Lucilla ainda estiverem em Gammu com o nosso ghola?

— Já disse que não aceito a idéia de que eles tenham partido em uma não-nave!

Por um longo período de silêncio, Taraza estudou o homem que aguardava de pé junto de seu catre. Treinado por Miles Teg. O aluno favorito do velho Bashar. Que estaria sugerindo o instinto treinado de Burzmali?

Em voz baixa, ela o estimulou a dizer o que pensava.

— Sim?

— Gammu foi Giedi Prime, um dos lares dos Harkonnen.

— E o que é que isso lhe sugere?

— Eles eram ricos, Madre Superiora. Muito ricos.

— E daí?

— Ricos o suficiente para conseguirem instalar uma não-sala, talvez mesmo um não-globo de bom tamanho.

— Não há registros disso! Ix jamais sugeriu, mesmo vagamente, tal coisa. Eles não foram sondados em Gammu para...

— Subornos, compras por uma terceira parte, baldeações de uma nave para outra — explicou Burzmali. — Os tempos da Fome foram muito destrutivos, e antes houve todos aqueles milênios sob o jugo do Tirano.

— Quando os Harkonnen mantiveram suas cabeças abaixadas e as perderam.

Bem, admito a possibilidade.

— Registros podem ter sido perdidos — disse Burzmali.

— Não por nós, nem por qualquer outro governo que tenha sobrevivido. Que o leva a essa linha de especulação?

— Patrin.

— Ah.

Ele falou rapidamente:

— Se tal coisa foi descoberta, um nativo de Gammu poderia saber a respeito.

— E quantos deles saberiam? Acha que poderiam ter mantido um segredo desses por... Sim! Percebo o que quer dizer. Se fosse um segredo da família de Patrin...

— Não me atrevi a questioná-los a esse respeito.

— É claro que não! Mas aonde você iria procurar... sem alertar...

— Naquele lugar na montanha onde foram deixadas as marcas de uma não-nave

— Vai exigir que você viaje até lá em pessoa!

— Muito difícil de esconder de espiões — concordou ele — A menos que eu vá com uma pequena força e aparentando outro propósito.

— Que outro propósito?

— Colocar um marco funerário em memória do meu antigo Bashar. Sugerindo que nós já sabemos que ele está morto?

— Sim!

— Já pediu aos Tleilaxu um substituto para o ghola?

— Isso é apenas mera precaução e não significa que... Burzmali, isso é extremamente perigoso. Duvido de que possamos enganar o tipo de gente que vai observá-los em Gammu.

— Minha tristeza e a das pessoas que levarei comigo será dramática e convincente.

— Isso não vai convencer necessariamente um observador prevenido?

— Não confia na minha lealdade e na das pessoas que vou levar comigo?

Taraza comprimiu os lábios, pensando. Lembrou a si mesma que a lealdade fixa era algo que tinham aprendido a aperfeiçoar no padrão Atreides. Como produzir pessoas que gerem a mais profunda devoção? Burzmali e Teg eram ótimos exemplos.

— Pode dar certo — concordou Taraza.

Olhou especulativamente para Burzmali. O aluno favorito de Teg podia estar certo!

— Então vou partir — ele disse, virando-se para sair.

— Um momento — disse Taraza.

Burzmali virou-se.

— Vocês devem saturar-se de shere, todos vocês. E, se forem capturados por um desses novos Dançarinos Faciais, devem queimar suas próprias cabeças, estourá-las totalmente. Tome as precauções necessárias.

A expressão subitamente séria no rosto de Burzmali tranqüilizou Taraza. Por um momento ele ficara orgulhoso de si mesmo. Melhor sufocar esse orgulho. Não devia deixá-lo descuidado.

Há muito sabemos que os objetos de nossa experiência palpável podem ser influenciados por uma escolha consciente e inconsciente. Isso é um fato demonstrável e não exige a nossa crença em alguma força interior que se estende de dentro de nós para tocar o universo. Falo de um relacionamento pragmático entre as nossas crenças e aquilo que identificamos como “real”. Todos os nossos julgamentos contém uma pesada carga de crenças ancestrais a que nós, da Bene Gesserit, somos mais suscetíveis que a maioria. E não é suficiente termos consciência e nos prevenirmos contra isso.

As interpretações alternativas devem sempre receber nossa atenção.

— Madre Superiora Taraza:

Discussão no Conselho

— Deus vai nos julgar aqui — exultara Waff.

Ele andava dizendo isso nos momentos mais imprevisíveis da longa jornada pelo deserto. Sheeana parecia não notar, mas a voz e os comentários de Waff estavam começando a cansar Odrade.

O sol Rakiano deslocara-se bem para oeste, mas o verme continuava a carregá-los, aparentemente incansável, em seu impulso através do Sareer, rumo aos montes remanescentes da antiga muralha do Tirano.

“Por que esta direção?”, perguntava-se Odrade.

Não havia resposta satisfatória. O fanatismo e o perigo renovado da parte de Waff exigiam uma resposta imediata. Ela lembrou o canto do Shariat que sabia

impulsioná-lo.

— Deixe que Deus faça o julgamento e não os homens.

Waff olhou carrancudo ante o tom de desafio na voz dela. Fitou o horizonte adiante e depois os tópteros que continuavam a segui-los.

— Os homens devem realizar o trabalho de Deus — murmurou ele. Odrade não respondeu. Waff fora jogado de encontro às suas dúvidas e agora devia estar se perguntando: “Será que essas bruxas Bene Gesserit realmente compartilham da Grande Crença?”

Seus pensamentos impulsionaram-na de volta às questões sem resposta, tropeçando em tudo que sabia a respeito dos vermes de Rakis. Suas memórias pessoais e as Outras Memórias teceram uma colagem louca. Podia visualizar Fremen envoltos em mantos, no topo de um verme ainda maior do que esse, cada cavaleiro inclinando-se para trás enquanto segurava uma longa vara cujo gancho se prendia nos anéis do verme. Anéis como esse que suas mãos agarravam. Sentia o vento em sua face, o manto chicoteando nos joelhos. Essa e outras cavalgadas fundiam-se numa longa familiaridade.

“Já se passou longo tempo desde que um Atreides cavalgou um verme.”

Haveria algum indício de seu destino em Dar-es-Balat? Como poderia haver?

Estivera tão quente e sua mente se voltava então para o que poderia acontecer nessa aventura no deserto. Não estivera tão alerta quando devia.

Em comum com todas as outras comunidades em Rakis, Dar-es-Balat encolhia durante o calor do início da tarde. Odrade lembrava-se da aspereza de seu traje destilador novo, enquanto aguardava à sombra de um prédio perto dos limites ocidentais de Dar-es-Balat. Esperava que as escoltas trouxessem Sheeana e Waff das residências seguras onde ela os instalara.

Que alvo tentador tinha sido ela! Mas eles tinham que ter certeza da concordância Rakiana. E as escoltas da Bene Gesserit se haviam atrasado deliberadamente.

— Shaitan gosta do calor — comentara Sheeana.

Os Rakianos escondiam-se do calor, mas os vermes saíam dele. Haveria algum fator significativo, alguma razão reveladora para que esse verme os conduzisse nessa direção em particular?

“Minha mente está pulando como uma bola de criança!”

Que significado teria o fato de os Rakianos se esconderem do sol enquanto um pequeno Tleilaxu, uma Reverenda Madre e uma mocinha selvagem estavam viajando através do deserto nas costas de um verme? Era um padrão muito antigo de Rakis e nada havia de surpreendente nisso. Os Fremen, contudo, tinham sido criaturas noturnas. Seus descendentes modernos dependiam mais das sombras para protegê-los do sol quente.

Como os sacerdotes se sentiam seguros atrás de seus fossos protetores!

Cada morador de um centro urbano Rakiano sabia que o qanat estava lá fora,

água correndo nas sombras, pequenos cursos desviados para alimentar os canais estreitos cuja evaporação era recapturada nas armadilhas de vento.

“Nossas preces nos protegem”, diziam eles, mas sabiam o que realmente os protegia.

“Sua sagrada presença pode ser vista no deserto.”

“O Verme Sagrado.”

“O Deus Dividido.”

Odrade olhou para os anéis do verme diante dela. “E aqui está ele!”

Pensou nos sacerdotes entre os observadores nos tópteros acima. Como adoravam espionar os outros! Sentira que a observavam em Dar-es-Balat, enquanto esperava pela chegada de Sheeana e Waff. Olhos por trás das venezianas em altas sacadas ocultas. Olhos espiando através de fendas estreitas em paredes espessas.

Olhos ocultos atrás de plaz espelhado ou olhando de dentro das sombras.

Odrade forçara-se a ignorar os perigos enquanto marcava a passagem do tempo pelo movimento de uma linha de sombra na parede acima dela — um relógio preciso nessa terra onde todos se guiavam pela hora solar.

As tensões se haviam acumulado devido à necessidade de parecer despreocupada. Por que iriam atacar? Será que se atreveriam sabendo que ela tinha tomado suas próprias precauções? Como estariam irritados os sacerdotes por terem sido forçados a se unir aos Tleilaxu nesse triunvirato? Suas assessoras, Reverendas Madres do Castelo, não tinham gostado de ela estar bancando a isca para os sacerdotes.

— Deixe que uma de nós seja a isca!

Odrade fora inflexível:

— Eles não acreditariam e a suspeita os manteria afastados. Além disso, com certeza eles enviarão Albertus.

E assim Odrade aguardara naquele pátio em Dar-es-Balat, um pátio sombreado pelo verde nas profundezas onde ela se encontrava a olhar para o alto em direção ao ponto em que a sombra dava lugar à luz do sol, seis andares acima —

balaustradas rendilhadas nas sacadas de cada andar: plantas verdes, flores vermelhas, alaranjadas e azuis e, acima de tudo, um retângulo de céu prateado.

“E os olhos ocultos.”

Um movimento numa ampla porta de rua à sua direita! Uma única figura usando o traje dourado, púrpura e branco de sacerdote saiu para o pátio. Ela a observou, procurando indícios de que os Tleilaxu tivessem estendido seu domínio com outra mímica de Dançarino Facial. Mas esse era o homem, um sacerdote que ela reconhecia: Albertus, o senhor de Dar-es-Balat.

''Exatamente como esperávamos.”

Albertus atravessou o amplo átrio em direção a ela, caminhando com cuidadosa dignidade. Haveria indícios de perigo nele? Faria algum sinal para seus assassinos? Ela olhou para cima, em direção às sacadas: pequenos movimentos

tremulantes nos níveis mais elevados. O sacerdote que se aproximava não estava sozinho.

“Mas eu também não estou!”

Albertus parou a dois passos de Odrade e ergueu a cabeça, olhando para ela.

Até agora mantivera a atenção voltada para os intrincados arabescos de ouro e púrpura nos azulejos do pátio.

“Ele tem ossos fracos”, pensou Odrade.

Ela não deu sinal de reconhecê-lo. Albertus era um dos que sabiam que seu Alto Sacerdote fora substituído por um Dançarino Facial.

Ele pigarreou e respirou, trêmulo.

“Ossos fracos! Carne fraca!”

Embora o pensamento divertisse Odrade, ela não reduziu a vigilância.

Reverendas Madres sempre notavam esse tipo de coisa. Procuravam as marcas hereditárias. E a seletividade que existira no passado de Albertus tinha falhas, elementos que a Irmandade tentaria corrigir em seus descendentes se um dia fosse importante cultivá-los. Isso seria considerado, é claro. Albertus galgara uma posição de poder, de modo discreto mas definitivo, e seria determinado se tal coisa implicava um valor genético. Fora muito mal-educado, contudo. Uma acólita de primeiro ano o teria dominado. O condicionamento do clero Rakiano degenerara muito desde os dias das Oradoras Peixes.

— Por que está aqui? — perguntou Odrade, fazendo da pergunta uma acusação.

Albertus tremeu.

— Trago uma mensagem de sua gente, Reverenda Madre.

— Então diga!

— Houve um ligeiro atraso, algo a respeito de a rota para cá ser conhecida por muitos.

Pelo menos essa era a história que todos tinham concordado em contar aos sacerdotes. Mas outras coisas podiam ser lidas facilmente no rosto de Albertus. Os segredos compartilhados com ele ficavam perigosamente próximos de serem expostos.

— Quase chego a desejar ter dado a ordem para que o matassem — disse Odrade.

Albertus recuou dois passos. Seus olhos ficaram desfocados, como se tivesse morrido ali, na frente dela. Ela reconheceu a reação. Albertus entrara naquela fase reveladora em que o medo lhe contraía o escroto. Sabia que essa terrível Reverenda Madre Odrade podia passar-lhe uma sentença de morte com toda a naturalidade ou mesmo matá-lo com as próprias mãos.

— Você tem estado a estudar se deve matar-me ou destruir nosso Castelo em Keen — acusou Odrade.

Albertus tremeu violentamente.

— Por que diz uma coisa dessas, Reverenda Madre?

Havia um chiado revelador na voz dele.

— Não tente negar — ela disse. — Eu me pergunto quantas pessoas já acharam tão fácil ler seus pensamentos quanto eu acho. Supõe-se que você seja capaz de manter segredos! Não se espera que ande por aí com todos os seus segredos escritos no rosto!

Albertus caiu de joelhos. Ela pensou que ele ia prostrar-se.

— Mas sua própria gente me enviou!

— E você ficou muito satisfeito em vir e verificar se seria possível me matar.

— Por que eu faria isso?

— Silêncio! Vocês não gostam do fato de controlarmos Sheeana. Têm medo dos Tleilaxu. Há coisas que foram retiradas do controle de vocês e coisas que foram colocadas em andamento que os aterrorizam.

— Reverenda Madre! Que devemos fazer? Que devemos fazer?

— Vocês vão obedecer-nos! Mais do que isso, vão obedecer Sheeana! Estão com medo do que vamos fazer hoje? Há coisas piores para vocês temerem!

Ela sacudiu a cabeça fingindo decepção. Sabia o efeito que tudo isso teria sobre o pobre Albertus. Ele encolheu-se debaixo do peso do ódio de Odrade.

— Fique de pé — ordenou ela. — Lembre-se de que é um sacerdote de quem se exige a verdade!

Albertus cambaleou, colocando-se de pé a cabeça ainda curvada. Podia ver no corpo dele que decidira abandonar os subterfúgios. Que prova devia ter sido para ele!

Respeitoso para com a Reverenda Madre que tão facilmente lera seus pensamentos, agora devia obedecer sua religião. Devia confrontar o paradoxo final de todas as religiões.

“Deus sabe!”

— Vocês não escondem nada de mim, nada de Sheeana e nada de Deus.

— Perdoe-me, Reverenda Madre.

— Perdoá-lo? Não depende de mim perdoá-lo, nem devia pedir isso de mim.

Você é um sacerdote!

Ele ergueu os olhos para o rosto furioso de Odrade.

O paradoxo estava totalmente em cima dele agora. Deus certamente estava ali!

Mas Deus em geral estava muito longe e as confrontações podiam ser adiadas.

Amanhã seria outro dia, decerto que seria. E era aceitável que uma pessoa se permitisse cometer pequenos pecados, talvez uma mentira ou duas. Por ora, apenas isso. E talvez um grande pecado se a tentação fosse grande. Supunha-se que os deuses fossem mais compreensivos com relação aos grandes pecadores. Haveria tempo para pedir perdão.

Odrade fitou Albertus com o olhar analítico da Missionaria Protectiva.

“Ah, Albertus” pensou. “Mas agora você se vê na presença de outro ser humano que conhece todas as coisas que você pensava serem um segredo partilhado

apenas por você e por seu deus.”

Para Albertus, a atual situação devia ser pouco diferente da morte, aquela submissão derradeira, o julgamento final de seu deus. Isso certamente explicava a razão inconsciente pela qual ele deixara seu poder desmoronar nesse momento. Todos os seus temores religiosos tinham sido invocados e focalizados numa “Reverenda”

Madre.

Em seu tom de voz mais seco, sem ao menos usar a Voz para forçá-lo, Odrade disse:

— Quero que esta farsa termine imediatamente.

Albertus tentou engolir em seco. Sabia que não podia mentir. Podia conhecer uma remota possibilidade de mentir, mas seria inútil. Submisso, olhou para a testa de Odrade, onde a linha do capuz do traje destilador lhe comprimia a pele. Então disse, a voz pouco mais que um sussurro:

— Reverenda Madre, é só que nos sentimos destituídos daquilo que é nosso.

Vocês e os Tleilaxu vão para o deserto com a nossa Sheeana. Vão aprender com ela e...

— Os ombros dele caíram. — Por que leva o Tleilaxu?

— Sheeana assim o deseja — mentiu Odrade.

Albertus abriu a boca e a fechou sem falar. Ela podia perceber a aceitação fluindo através dele.

— Você vai voltar para junto de seus companheiros com um aviso — disse Odrade. — A sobrevivência de Rakis e do seu clero depende inteiramente de como me obedecerem agora. Não devem atrapalhar-nos nem um pouquinho! E quanto a essas tramas infantis que concebem contra nós... Sheeana revela-nos o menor de seus pensamentos malévolos!

Albertus surpreendeu-a então. Ele sacudiu a cabeça e emitiu uma risada seca.

Odrade já tinha notado que muitos desses sacerdotes se deleitavam com o constrangimento alheio, mas não imaginava que pudessem achar divertidos os próprios fracassos.

— Acho seu riso vazio — ela disse.

Albertus deu de ombros e recuperou um pouco de sua máscara facial. Odrade já tinha visto muitas máscaras como essa. Fachadas! Eles as usavam em camadas. E

bem embaixo de todas aquelas defesas havia alguém que se importava, alguém que ela expusera ali tão brevemente. Esses sacerdotes tinham o perigoso costume de recorrer a explicações muito floridas quando pressionados com perguntas.

“Devo trazer de volta aquele que se importa”, pensou Odrade. Ela o interrompeu quando ele começou a falar.

— Chega! Você vai esperar por mim quando eu voltar do deserto. Por enquanto você é o meu mensageiro. Leve minha mensagem com precisão e ganhará uma recompensa maior do que pode imaginar. Fracasse e sofrerá as agonias de Shaitan!

Odrade observou Albertus sair apressadamente do pátio, os ombros caídos e a

cabeça inclinada para a frente, como se quisesse chegar antes do corpo ao alcance da voz de seus companheiros.

No cômputo geral, pensou, saíra-se muito bem. Fora um risco calculado e muito perigoso no que se referia a ela pessoalmente. Tinha certeza de que havia assassinos naquelas sacadas, esperando por um sinal de Albertus. E agora o medo que ele levava dentro de si era algo que a Bene Gesserit compreendia intimamente através de milênios de manipulações. Algo tão contagiosamente virulento quanto uma praga. As Irmãs Instrutoras chamavam isso de “histeria dirigida”. E fora dirigida (apontada seria o termo mais preciso) para o coração do clero Rakiano. Era algo em que se podia confiar, especialmente agora em que um reforço entraria em ação. Os sacerdotes se submeteriam e somente alguns hereges imunes deviam ser temidos..

Este é um universo mágico que inspira a admiração: não existem átomos, apenas ondas e movimentos à nossa volta. E aqui a pessoa se livra de toda a crença em barreiras a compreensão.

Coloca-se de lado a própria idéia de compreensão. Este universo não pode ser visto, não pode ser ouvido, não pode ser detectado de modo algum pelos sentidos fixos. É o derradeiro vazio, onde não existem telas em que se possam projetar as formas pré-ordenadas. Tem-se apenas uma consciência aqui — a tela dos magos que é a imaginação. Aqui a pessoa compreende o que significa ser humano.

É um criador de ordem, de sistemas e formas de beleza, é um organizador do caos.

— O Manifesto Atreides, Arquivos da Bene Gesserit

— O que você está fazendo é muito perigoso — advertiu Teg. — Minhas ordens são para protegê-lo e torná-lo mais forte. Não posso permitir que isso continue.

Teg e Duncan encontravam-se no corredor revestido de painéis de madeira do lado de fora da sala de exercícios do não-globo. Era o final da tarde pelo relógio de suas rotinas arbitrárias e Lucilla acabara de sair, cheia de ódio depois de um confronto injurioso.

Todos os encontros entre Duncan e Lucilla vinham adquirindo ultimamente as características de uma batalha. Agora há pouco ela tinha parado na porta do salão de exercícios, uma figura rígida que não chegava a ser impassível devido às suas curvas, os movimentos sedutores óbvios aos dois homens.

— Pare com isso, Lucilla! — ordenara Duncan.

Somente a voz traía o ódio dela.

— Por quanto tempo acha que vou esperar para cumprir minhas ordens?

— Até que você ou outra pessoa me diga que eu...

— Taraza exige coisas de você que nenhum de nós aqui sabe — dissera Lucilla.

Teg tentara acalmar os ódios crescentes.

— Por favor. Não é suficiente que Duncan continue a melhorar seu desempenho? Dentro de alguns dias vou começar a manter uma vigília regular do lado de fora. Nós poderemos...

— Você pode parar de interferir no meu trabalho, maldito! — retrucou Lucilla enquanto se virava e saía rapidamente.

Enquanto percebia a dura resolução no rosto de Duncan, uma coisa furiosa começou a trabalhar dentro de Teg. Sentia-se impulsionado pelas necessidades daquela situação de isolamento. Seu intelecto, aquele instrumento maravilhosamente afiado pela Bene Gesserit, estava abrigado do ruído mental ao qual tinha que se ajustar no exterior. Achava que, se pudesse apenas silenciar sua mente, colocar tudo num estado de calma, então todas as coisas se tornariam claras para ele.

— Por que está contendo o seu fôlego, Bashar? — perguntou Duncan.

Continuar: parte 3 de 3