Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 6 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

Por um aperto no peito, Odrade soube…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Fazer de nós missionárias? E dos Tleilaxu?”

Ela tocou num painel de controle ao lado da janela e a fez abrir-se. Uma brisa morna, perfumada pelas flores da primavera, soprou vinda dos pomares de maçãs. A Irmandade orgulhava-se das frutas que cultivava ali, no centro de poder de sua fortaleza. Não havia pomares melhores em qualquer outra fortaleza, nas sedes dependentes que formavam a teia da Bene Gesserit através da maioria dos planetas que os humanos haviam ocupado durante o Velho Império.

“Pelos frutos que produzem, nós os conheceremos”, pensou ela. “Algumas das antigas religiões ainda eram capazes de revelar sabedoria.”

De seu ponto elevado onde se encontrava, Taraza podia ver toda a extensão da ala sul, formada pelos prédios da sede da Irmandade. A sombra de uma torre de vigília próxima traçava uma linha irregular sobre telhados e pátios.

Quando pensava nisso ela reconhecia que esta era uma base surpreendentemente pequena para o poder que continha. Além do anel de pomares e jardins, estendia-se um tabuleiro de xadrez bem demarcado, formado pelas residências particulares, cada qual cercada por suas próprias plantações. Irmãs aposentadas e famílias leais selecionadas ocupavam essas privilegiadas propriedades. O serrilhado de montanhas distantes, freqüentemente brilhando com a neve, marcava os limites ocidentais. O espaçoporto ficava a 20 quilômetros para o leste. E à volta desse coração da Irmandade havia planícies abertas onde pastava um tipo peculiar de gado, um gado tão suscetível a cheiros estranhos que estourava mugindo ante a menor intromissão de pessoas não marcadas pelo odor local. As residências mais internas, com suas plantações cercadas, tinham sido estabelecidas por um antigo Bashar, de modo que ninguém poderia passar através dos canais serpenteantes, no nível do solo, de dia ou de noite, sem ser observado.

Tudo parecia tão casual e no entanto havia uma ordem rigidamente mantida.

Algo que, Taraza sabia, personificava a Irmandade.

Um pigarrear atrás dela lembrou-lhe que uma daquelas assessoras que tinham discutido de modo mais veemente durante o Conselho permanecia esperando pacientemente na porta aberta.

“Esperando pela minha decisão.”

A Reverenda Madre Bellonda queria que Odrade fosse “morta de imediato”, mas não se chegava a qualquer decisão.

“Você realmente conseguiu desta vez, Dar. Eu esperava sua louca independência. Até a desejava. Mas isto!”

Bellonda, velha, gorda e corada, tinha olhos frios e era valorizada por seu temperamento violento. Queria que Odrade fosse condenada como traidora.

— O Tirano a teria esmagado imediatamente! — argumentara Bellonda.

“Será que foi só isso que aprendemos com ele?”, perguntou-se Taraza.

Bellonda argumentou que Odrade não era apenas uma Atreides, mas igualmente uma Corrino. Eles tinham sido muitos imperadores, vice-regentes e poderosos administradores na ancestralidade dela.

“Com toda a fome de poder que isso implica!”

— Os ancestrais dela sobreviveram a Salusa Secundus! — ficava repetindo Bellonda. — Será que não aprendemos nada com nossas experiências de procriação?

“Aprendemos a fabricar Odrades”, pensou Taraza.

Depois de sobreviver à agonia da especiaria, Odrade fora enviada a Aí Dhanab, um equivalente de Salusa Secundus, para ser condicionada deliberadamente num planeta de testes constantes: altos penhascos e desfiladeiros secos, ventos quentes ou frígidos, umidade escassa ou demasiada. Era considerado um campo de provas adequado para alguém que o destino poderia conduzir a Rakis. Duras sobreviventes emergiam de tal condicionamento. E a alta, ágil e musculosa Odrade era uma das mais duras dentre os sobreviventes.

“Como poderei salvar esta situação?”

A mensagem mais recente de Odrade revelava que qualquer tipo de paz, mesmo os milênios de opressão do Tirano, irradiava uma falsa aura que poderia ser fatal para aqueles que nela confiassem em demasia. Essa era a força e ao mesmo tempo a fraqueza dos argumentos de Bellonda.

Taraza voltou seu olhar para Bellonda, que esperava junto à porta. “Ela é muito gorda! E nos provoca com isso!”

— Não podemos eliminar Odrade assim como não podemos eliminar o ghola

— disse Taraza.

A voz de Bellonda veio baixa e calma.

— Ambos são agora demasiado perigosos para nós. Olhe como Odrade a enfraquece com seu relato daquelas palavras escritas no Sietch Tabr!

— Será mesmo que a mensagem do Tirano me enfraqueceu, Bell?

— Sabe o que quero dizer. Os Bene Tleilax não têm moral.

— Pare de mudar de assunto, Bell. Seus pensamentos estão correndo de um lado para outro como um inseto entre as flores. Que está realmente farejando aqui?

— Tleilaxu! Eles fizeram aquele ghola para seus próprios fins. E agora Odrade quer que...

— Está se repetindo, Bell.

— Os Tleilaxu recorrem a atalhos. Sua visão da genética não é a nossa. Não é uma visão humana. Eles criam monstros.

— Será que é isso que eles fazem?

Bellonda entrou na sala, deu a volta à mesa e ficou junto de Taraza, bloqueando da visão da Madre Superiora o nicho com a estatueta de Chenoeh.

— Aliança com os sacerdotes de Rakis sim, mas não com os Tleilaxu. — Os mantos de Bellonda assoviaram quando ela gesticulou com um punho fechado.

— Bell! O Alto Sacerdote é agora uma simulação feita por um Dançarino Facial. Você fala em se aliar com ele?

Bellonda sacudiu a cabeça, furiosa.

— Os crentes do Shai-hulud formam legiões! Você os encontra em toda parte.

E qual será a reação deles com relação a nós se nossa participação nessa farsa ficar exposta?

— Você não percebe, Bell? Já cuidamos para que apenas os Tleilaxu fiquem vulneráveis nesse aspecto. Nesse ponto Odrade está certa.

— Errada! Se nos aliarmos a eles, compartilharemos de sua vulnerabilidade.

Seremos forçadas a servir às ambições dos Tleilaxu. Vai ser pior que nossa longa subserviência ao Tirano.

Taraza percebia o brilho de fúria nos olhos de Bellonda. As reações dela eram compreensíveis. Nenhuma Reverenda Madre gostava de lembrar o domínio que a ordem sofrera nos tempos do Imperador-Deus, sem trazer com isso outras memórias ainda mais desagradáveis. Forçadas num curso contra a sua vontade, nunca podendo ter certeza de que sua Bene Gesserit sobreviveria de um dia para o outro.

— Acha que vamos assegurar nosso suprimento de especiaria com essa aliança estúpida? — perguntou Bellonda.

Era o mesmo velho argumento, pensou Taraza. Sem a melange e a agonia de sua transformação, não haveria Reverendas Madres. As prostitutas da Dispersão certamente viam na melange um de seus alvos — a especiaria e o domínio que dela possuía a Bene Gesserit.

Taraza voltou para sua mesa e mergulhou o corpo na cadeira-cão, inclinando-se para trás enquanto a peça viva se moldava aos seus contornos. Era um problema.

Um problema peculiar da Bene Gesserit. Embora tivesse procurado e experimentado constantemente, a Irmandade ainda não encontrara um substitutivo para a melange. A Corporação Espacial podia desejar a especiaria para produzir o transe em seus navegadores, mas ela podia substituir os navegadores por máquinas Ixianas. Ix e suas subsidiárias competiam nos mercados da Corporação. Eles tinham alternativas.

“Nós não temos nenhuma.”

Bellonda foi até o outro lado da mesa de Taraza, colocou ambos os punhos sobre a superfície lisa e se inclinou para diante, de modo a encarar a Madre Superiora.

— E ainda não sabemos o que os Tleilaxu fizeram com nosso ghola. Odrade vai descobrir.

— Isso não é razão suficiente para lhe perdoar a traição!

Taraza disse em voz baixa:

— Nós esperamos por este momento, geração após geração, e você abortaria o projeto desse modo.

Ela bateu com a palma da mão sobre o tampo da mesa.

— O precioso projeto Rakiano não é mais nosso — disse Bellonda. — E pode nunca ter sido.

Com todos os seus poderes mentais finamente sintonizados, Taraza reexaminou as implicações desse argumento familiar. Era algo de que se falara com freqüência na sessão tumultuada que tinham realizado ainda há pouco.

Seria o projeto do ghola alguma coisa posta em movimento pelo próprio

Tirano? Se fosse, que poderiam fazer a respeito agora? Que deveriam fazer a respeito?

Durante a longa discussão, o relatório da minoria estivera em todas as cabeças.

Schwangyu podia estar morta, mas sua facção sobrevivia, e agora parecia que Bellonda se unira a ela. Estaria cega a Irmandade ante essa possibilidade fatal? O relatório de Odrade a respeito daquela mensagem oculta em Rakis podia ser interpretado como um sinistro sinal de advertência. Odrade enfatizava isso ao contar como fora alertada pelo seu senso de perigo. Nenhuma Reverenda Madre podia tratar uma coisa dessas de modo leviano.

Bellonda levantou-se e dobrou os braços sobre o peito.

— Nós nunca escapamos de todo à influência dos professores de nossa infância nem dos padrões que formaram nossa personalidade, não é mesmo?

Esse era um argumento peculiar nas disputas da Bene Gesserit. Lembrava-lhes de suas próprias suscetibilidades particulares.

“Nós somos aristocratas secretas e é nossa prole que herda o poder. Sim, nós somos suscetíveis nesse aspecto, e Miles Teg é um exemplo soberbo.”

Bellonda encontrou uma cadeira de recosto rígido e se sentou, colocando os olhos no mesmo nível dos de Taraza.

— Durante o auge da Dispersão — lembrou ela —, perdemos de vista cerca de 20 por cento de nossos fracassos.

— Não são os fracassos que estão voltando para nos ameaçar.

— Mas o Tirano certamente sabia que isso ia acontecer!

— A Dispersão era seu objetivo, Bell. Era esse o seu Caminho Dourado, a chave da sobrevivência da humanidade!

— Mas nós sabemos o que ele pensava a respeito dos Tleilaxu e no entanto ele não os exterminou. Poderia tê-lo feito, mas não fez!

— Ele queria a diversidade.

Bellonda deu um soco no tampo da mesa.

— Foi certamente o que conseguiu!

— Nós já discutimos isso vezes sem conta, Bell, e ainda assim não vejo meio de fugir ao que Odrade fez.

— Subserviência!

— De modo algum. Será que fomos totalmente subservientes a qualquer um dos imperadores que precederam o Tirano? Não fomos subservientes nem para com o Muad'Dib!

— Ainda estamos na armadilha do Tirano — acusou Bellonda. — Diga-me por que os Tleilaxu continuaram a produzir o seu ghola favorito? Milênios se passaram e aquele ghola continua saindo de seu tanque como um polichinelo.

— Acha que os Tleilaxu ainda cumprem uma ordem secreta do Tirano? Se for assim, você está defendendo Odrade. Ela criou condições admiráveis para que examinemos essa questão.

— Ela não ordenou nada desse tipo! Apenas tornou aquele ghola em particular

deliciosamente atraente para os Bene Tleilax.

— E para nós não?

— Madre Superiora, precisamos escapar agora da armadilha do Tirano! E

através do método mais direto!

— A decisão é minha, Bell. E ainda me sinto atraída por uma aliança cautelosa.

— Então, pelo menos, deixe-nos matar o ghola. Sheeana pode ter filhos. Nós poderíamos...

— Isso não é nem nunca foi um projeto puramente de procriação!

— Mas poderia ser. E se estiver errada quanto ao poder que se oculta por trás da presciência dos Atreides?

— Todas as suas propostas levariam à nossa alienação de Rakis e dos Tleilaxu, Bell.

— A Irmandade poderia agüentar 50 gerações com nossas atuais reservas de melange. Mais ainda com racionamento.

— E você acha que 50 gerações é um tempo muito longo, Bell? Não percebe que é por essa atitude que você não está sentada aqui na minha cadeira?

Bellonda empurrou sua cadeira para trás, afastando-se da mesa. Os pés da cadeira fizeram um som irritante no piso. Taraza podia notar que ela não fora convencida. Não poderia mais confiar em Bellonda. Ela é que poderia terminar sendo a marcada para morrer. E onde é que estava o nobre propósito em tudo isso?

— Isso não vai nos levar a lugar algum — disse Taraza. — Deixe-me só.

Depois que Bellonda saiu, Taraza refletiu uma vez mais sobre a mensagem de Odrade. Sinistra. Era fácil notar por que Bellonda e as outras tinham reagido com tanta violência. Mas isso demonstrava uma perigosa ausência de controle.

“Ainda não é hora de escrever o testamento da Irmandade” De modo curioso, Odrade e Bellonda compartilhavam do mesmo medo, mas esse medo as conduzia a decisões diferentes. A interpretação de Odrade para aquela mensagem nas pedras transmitia um antigo aviso:

''Isto também deverá passar.”

“Será que agora chegaremos ao fim esmagadas pelas hordas vorazes da Dispersão?”

Mas o segredo dos tanques axlotl encontrava-se quase nas mãos da Irmandade.

“Se conseguirmos isso, nada nos poderá deter!”

Taraza voltou sua atenção para os detalhes da sala. O poder da Bene Gesserit ainda permanecia ali. A sede da Irmandade continuava escondida atrás de uma cerca de não-naves, sua localização fora dos registros e marcada apenas nas mentes de sua própria gente. Invisibilidade.

Invisibilidade temporária! Acidentes aconteciam.

Odrade ergueu os ombros. “Tome precauções, mas não viva nas sombras, sempre furtiva.” A Litania contra o Medo servia ao útil propósito de evitar as sombras.

Partindo de outra pessoa que não Odrade, a mensagem de aviso, com a perturbadora sugestão de que o Tirano ainda conduzia o seu Caminho Dourado, teria parecido muito menos terrível.

Aquele maldito talento dos Atreides!

“Nada mais que uma sociedade secreta?”

Taraza trincou os dentes de frustração.

“Memórias não são o bastante, a menos que elas conduzam a um nobre propósito!”

E se fosse verdade que a Irmandade não mais escutava a música da vida?

“Maldito!” O Tirano ainda podia alcançá-las.

“Que será que está tentando dizer-nos?” Seu Caminho Dourado não podia estar em perigo. A Dispersão havia assegurado isso. Os seres humanos tinham espalhado sua espécie em rumos incontáveis, como os espinhos de um porco-espinho.

Será que ele tivera a visão dos Dispersos retornando? Seria possível que ele tivesse antecipado essa erva daninha ao pé do seu Caminho Dourado?

“Ele sabia que suspeitaríamos de seus poderes. Ele sabia disso!” Taraza pensou no número cada vez maior de relatórios a respeito dos Perdidos que voltavam para suas raízes. Uma extraordinária diversidade de pessoas e artefatos acompanhada de um grau extraordinário de segredo e evidências de conspiração. Não-naves de desenho peculiar, armas e artefatos dotados de um espantoso grau de sofisticação.

Diversos povos e diversos costumes.

“Alguns espantosamente primitivos. Pelo menos superficialmente”

E essa gente queria muito mais que melange. Taraza reconhecia o tipo peculiar de misticismo que trazia de volta os Perdidos: “Eles querem os segredos de seus antepassados!”

A mensagem das Honradas Madres fora muito clara: “Vamos tomar aquilo que desejamos”

“Odrade tem tudo em suas mãos”, pensou Taraza. Ela tinha Sheeana. E, se Burzmali tivesse sucesso, logo ela teria o ghola. Já tinha em seu poder o Mestre dos Mestres Tleilaxu. Poderia dominar o próprio Rakis!

“Se ao menos não fosse uma Atreides.”

Taraza olhou para as palavras projetadas, ainda oscilando acima do topo da mesa: uma comparação desse novo ghola Duncan Idaho com todos os outros que tinham sido mortos. Cada novo ghola fora ligeiramente diferente dos antecessores.

Isso era muito claro. Os Tleilaxu estavam aperfeiçoando alguma coisa. Mas o quê?

Será que a pista estaria oculta nesses novos Dançarinos Faciais? Os Tleilaxu obviamente tinham buscado desenvolver um Dançarino Facial indetectável, mímicos capazes de produzir uma mímica perfeita, copiadores de formas capazes de reproduzir não apenas as memórias superficiais de suas vítimas, mas seus pensamentos mais profundos, sua identidade. Era uma forma de imortalidade até mais atraente do que aquela que os Mestres Tleilaxu usavam atualmente. Era por isso, obviamente, que eles

seguiam esse curso.

As próprias análises de Taraza concordavam com as da maioria de suas assessoras: tal cópia se tornaria a pessoa copiada. Os relatórios de Odrade a respeito do Tuek-Dançarino Facial eram altamente sugestivos. Mesmo um Mestre Tleilaxu não seria capaz de afastar um Dançarino Facial desse tipo de sua forma copiada e de seu comportamento.

Sem falar de suas crenças.

“Maldita Odrade!” Deixara suas Irmãs sem opção. Elas não tinham outra escolha senão seguir a liderança de Odrade. E Odrade sabia disso!

Como será que ela sabe? Será aquele talento louco de novo?

“Não posso agir às cegas. Preciso saber.”

Taraza induziu seu conhecido método de restaurar o sentimento de calma.

Não se atrevia a tomar decisões importantes quando se sentia frustrada. Uma olhada demorada para a estatueta de Chenoeh ajudava nisso. Erguendo-se da cadeira-cão, Taraza voltou para sua janela favorita.

Freqüentemente a acalmava o simples ato de olhar para aquela paisagem, observando como as distâncias pareciam alterar-se como movimento diário da luz do sol e as mudanças do clima bem controlado desse planeta.

Sentiu fome.

“Hoje vou comer com as acólitas e as Irmãs leigas.”

Em ocasiões como essa, ajudava reunir as jovens em torno dela e lembrar a persistência dos rituais de alimentação, os ritmos diários a manhã, o meio-dia, a tarde.

Isso formava uma base confiável. Gostava de observar sua gente. Elas eram como uma maré indicando coisas profundas, revelando forças invisíveis e grandes poderes que persistiam porque a Bene Gesserit encontrara modos de fluir como fluíam as coisas persistentes.

Tais pensamentos renovavam o equilíbrio de Taraza. As questões e dúvidas que permanecessem podiam ser mantidas a distância. Ela podia olhar para elas sem paixões.

Odrade e o Tirano estavam certos: “Sem um nobre propósito, não somos nada.”

Não se podia escapar, entretanto, ao fato de que decisões críticas estavam sendo tomadas em Rakis por uma pessoa afetada pelas fraquezas peculiares aos Atreides. Fraquezas que Odrade sempre exibira. Ela fora positivamente benevolente com acólitas que cometiam erros. De tal comportamento surgiam afeições!

Afeições perigosas por prejudicarem o raciocínio.

Isso enfraquecia as outras, que eram então obrigadas a compensar tal descuido.

Irmãs mais competentes tinham que ser convocadas para corrigir as fraquezas dessas acólitas. É claro que o próprio comportamento de Odrade é que tinha revelado as fraquezas das acólitas. Era algo que precisava ser considerado. Talvez Odrade raciocinasse desse modo.

Enquanto assim pensava, algo sutil e poderoso se movia na percepção de Taraza. Era forçada a dominar um profundo sentimento de solidão. Algo que amargurava. A melancolia podia prejudicar a clareza dos pensamentos do mesmo modo que a afeição... e mesmo o amor.

Taraza e suas vigilantes Irmãs das Memórias consideravam tais respostas emocionais como resultantes da consciência da mortalidade. Era forçada a confrontar a realidade de que um dia não seria nada mais que um conjunto de memórias guardadas no cérebro de outra pessoa.

As memórias e as descobertas casuais, percebia ela, tinham-na tornado vulnerável. E logo quando precisava de todas as suas faculdades!

“Mas ainda não estou morta.”

Taraza sabia como restaurar sua confiança. E sabia quais seriam as conseqüências. Depois desses ataques de melancolia, sempre conquistava um domínio mais poderoso de sua vida e de seus propósitos. As fraquezas de Odrade eram uma fonte de força para sua Madre Superiora.

E Odrade sabia disso. Taraza sorriu amargamente ante essa percepção. A autoridade da Madre Superiora sobre suas Irmãs sempre ficava mais forte quando ela se recuperava de um acesso de melancolia. Outras tinham observado tal coisa, mas só Odrade sabia a respeito da raiva.

“Lá dentro!”

Taraza estava enfrentando as sementes de suas próprias frustrações.

Em muitas ocasiões Odrade notara o que havia no núcleo, na origem do comportamento da Madre Superiora. Uma fúria gigantesca contra os usos que outras tinham feito de sua vida. E o poder dessa ira reprimida era surpreendente, mesmo que não pudesse ser usado do modo desejado. Ela nunca poderia permitir que tal ira desaparecesse. Mas como doía! E a percepção por parte de Odrade só tornava a dor ainda mais intensa.

Tais coisas faziam o que deviam fazer, é claro. As imposições da Bene Gesserit desenvolviam determinados músculos mentais. Construíam camadas de dureza que nunca poderiam ser penetradas por gente de fora. O amor era uma das forças mais perigosas do universo. Elas tinham que se proteger dele. Uma Reverenda Madre nunca poderia comprometer-se intimamente, nem mesmo a serviço da Bene Gesserit.

“Dissimulação: desempenhamos os papéis necessários para a nossa salvação. A Bene Gesserit vai permanecer!”

E por quanto tempo iriam permanecer subservientes dessa vez? Mais 3.500

anos? Bem, que se danassem todos! Ainda assim seria uma coisa apenas temporária.

Taraza voltou sua atenção para a janela e sua visão tranqüilizadora. Realmente se sentia recuperada. Uma nova força fluía em seu corpo. Força suficiente para vencer aquela relutância que a impedira de tomar as decisões necessárias.

“Vou para Rakis”

Não podia mais escapar à fonte de sua hesitação.

“Talvez tenha que fazer aquilo que Bellonda deseja.”

A sobrevivência do eu, da espécie e do meio ambiente, isso é que impulsiona os seres humanos. Pode-se observar como a ordem de importância se altera durante o tempo de vida. Quais são as preocupações imediatas em determinada idade? O estado do clima? Da digestão? Será que ele (ou ela) realmente se importa? Todos aqueles vários tipos de fome que a carne pode sentir e esperar satisfazer. Que mais poderia importar?

— Leto II a Hwi Noree,

Sua Voz: Dar-es-Balat

Miles Teg despertou em meio à escuridão para se encontrar numa liteira carregada sobre suspensores. Através de seu fraco brilho energético, podia ver as pequeninas bolhas suspensoras pendendo para cima numa fileira à sua volta.

Havia uma mordaça em sua boca. Suas mãos estavam firmemente amarradas às costas. Mas os olhos permaneciam descobertos.

“Eles não se importam com o que eu veja.”

Quem seriam eles, não podia dizer. Os movimentos ondulantes das formas escuras à sua volta sugeriam que estavam descendo por um terreno irregular. Uma trilha? A liteira deslizava suavemente em seus suspensores. Podia sentir o fraco zumbido dos suspensores quando o grupo parava para transpor um trecho particularmente difícil.

De vez em quando, através de alguma obstrução, podia ver uma luz tremulando adiante. Daí a pouco penetraram na área iluminada e pararam. Teg viu um único globo luminoso flutuando a uns três metros do solo, preso a um poste e se movendo livremente ao sabor dos ventos frios. Através de seu brilho amarelo, pôde discernir um barracão ao centro de uma clareira enlameada, com muitos rastros aparecendo na neve pisada. Viu arbustos e algumas árvores esparsas em torno da clareira. Alguém passou o facho de uma lanterna brilhante sobre o seu rosto. Nada foi dito, mas Teg percebeu um gesto de mão em direção ao barracão. Poucas vezes tinha visto uma estrutura tão arruinada quanto essa. Parecia a ponto de desabar ao mais leve toque. Apostou como o teto tinha goteiras.

Uma vez mais o grupo que o carregava se colocou em movimento, levando-o para o barracão. Ele observou sua escolta àquela luz fraca — rostos cobertos até os olhos com máscaras que escondiam o queixo e a boca. Capuzes ocultavam os cabelos.

A roupa era volumosa e escondia os detalhes do corpo, exceto pela articulação dos braços e das pernas.

O globo luminoso preso ao poste apagou-se.

Uma porta se abriu no barracão, lançando uma luz brilhante sobre a clareira. O

grupo conduziu-o para dentro e o deixou lá. Teg ouviu a porta ser fechada.

A iluminação lá dentro era quase cegante depois da escuridão que tinha atravessado. Teg piscou até que seus olhos se tivessem adaptado à mudança. Com o estranho sentimento de que aquilo não estava acontecendo realmente com ele, Teg olhou à sua volta. Tinha esperado que o interior do barracão fosse igual ao exterior, mas ali havia uma sala muito bem arrumada, quase sem móveis — somente três cadeiras, uma mesa e... respirou fundo: uma Sonda Ixiana! Será que eles não podiam sentir o aroma de shere em sua respiração?

Se não tinham consciência disso, então que usassem a sonda. Seria uma agonia para ele, mas não iriam arrancar nada de sua mente.

Alguma coisa estalou atrás dele e Teg ouviu um movimento. Três pessoas entraram em seu campo de visão e ficaram enfileiradas junto à liteira. Olhavam para ele em silêncio. Teg observou os três com atenção. O que estava à sua esquerda usava um macacão negro com lapelas abertas. Era homem. Tinha o rosto quadrado que Teg observara em certos nativos de Gammu pequeno, com olhos que pareciam contas olhando diretamente para ele. Era o rosto de um inquisidor, alguém que não sentiria pena diante de sua agonia. No seu tempo, os Harkonnen haviam importado um monte de gente assim tipos bitolados, capazes de provocar a dor sem a menor mudança de expressão.

O sujeito diretamente aos pés de Teg usava roupas volumosas, pretas e cinzentas, semelhantes às usadas pela escolta, mas com o capuz lançado para trás de modo a revelar um rosto sem expressão sob cabelos grisalhos cortados curtos. O

rosto não revelava coisa alguma, muito menos as roupas. Não havia meio de dizer se era homem ou mulher. Teg gravou o rosto: testa larga, queixo quadrado, grandes olhos verdes sobre nariz aquilino, boca pequena comprimida em expressão de desagrado.

O terceiro membro do grupo foi o que mais atraiu a atenção de Teg: alto, com um macacão negro feito sob medida e uma jaqueta sobre os ombros. Tudo com um caimento perfeito. Roupa cara. Sem insígnias ou enfeites. Definitivamente, um homem. Aparentava tédio e isso deu a Teg uma indicação. Rosto estreito e arrogante, olhos castanhos, boca de lábios finos. Entediado, muito entediado! Tudo aquilo era uma interrupção indesejável muito importante em sua vida. Tinha negócios vitais em algum outro lugar, e esses dois, esses inferiores, tinham que perceber isso.

“Este”, pensou Teg, “é o observador oficial.”

O sujeito entediado fora enviado pelos mandachuvas desse lugar para observar e relatar o que visse. Onde estava sua pasta registradora de dados? Ah, sim: lá estava, apoiada de encontro à parede atrás dele. Essas pastas eram como distintivos para tais sujeitos. Em sua viagem de inspeção, Teg vira muitos funcionários como esse caminhando pelas ruas de Ysai e outras cidades de Gammu. Pastas pequenas e finas.

Quanto mais importante o funcionário, menor a pasta. A desse mal conteria alguns rolos de dados e um minúsculo olho comunicador. Ele nunca andaria sem um olho

para mantê-lo em contato com seus superiores. Pasta fina: esse era um funcionário importante.

Teg viu-se imaginando o que esse observador diria se ele perguntasse:

“Que vai dizer a eles a respeito da minha serenidade?”

A resposta já estava lá naquele rosto entediado. Ele nem mesmo responderia.

Não estava ali para responder coisa alguma. “Quando sair”, pensou Teg, “vai caminhar com passadas largas. Sua atenção estará nas distâncias onde só ele conhece os poderes que o aguardam. Vai bater na perna com essa pasta para se lembrar de sua importância e chamar a atenção desses outros para o distintivo de sua autoridade.”

A figura volumosa aos pés de Teg falou, uma voz dominadora e definitivamente feminina em seus tons vibrantes.

— Está vendo como ele se domina e nos observa? O silêncio não vai fazê-lo quebrar. Eu lhe disse isso antes de entrarmos. Está desperdiçando nosso tempo, e não temos tempo para desperdiçar com tal tolice.

Teg olhou para ela. Havia alguma coisa vagamente familiar em sua voz. Tinha algo daquela qualidade dominadora encontrada em uma Reverenda Madre. Seria possível?

O tipo de Gammu, de rosto quadrado, assentiu com a cabeça.

— Está certa, Senhora. Mas eu não dou as ordens aqui.

“Senhora?”, perguntou-se Teg. “Um nome ou título?”

Os dois olharam para o funcionário. Este voltou-se e se curvou junto à sua pasta de dados. Retirou o pequeno olho com indicador e se levantou com a tela escondida da vista de seus companheiros e de Teg. O olho iluminou-se com um brilho esverdeado que lançou uma iluminação doentia sobre as feições do observador.

Seu sorriso de importância desapareceu. Ele moveu os lábios silenciosamente, as palavras sendo formadas apenas para alguém que observava através daquele olho.

Teg ocultou sua habilidade de ler nos lábios. Qualquer um treinado pela Bene Gesserit seria capaz de ler nos lábios a partir de quase qualquer ângulo em que fossem visíveis. E esse homem falava numa versão do Galach Antigo.

— É sem dúvida o Bashar Teg — ele disse. — Já fiz a identificação. A luz verde dançou no rosto do funcionário enquanto ele observava o olho.

Quem estivesse se comunicando com ele movia-se agitadamente. Se é que aquela luz significava isso.

Novamente os lábios do funcionário moveram-se sem emitir som:

— Nenhum de nós duvida de que ele tenha sido condicionado contra a dor, e eu posso sentir nele o cheiro de shere. Ele vai...

O sujeito ficou em silêncio enquanto a luz verde uma vez mais tremeluzia em seu rosto.

— Não estou inventando desculpas. — Os lábios moldavam as palavras no Galach Antigo como maior cuidado. — Sabe que faremos o melhor que pudermos, mas recomendo colocarmos toda a ênfase na interceptação do ghola.

A luz verde apagou-se.

O funcionário prendeu o olho comunicador à cintura e se virou para os companheiros, acenando com a cabeça uma vez.

— A sonda-T — disse a mulher.

Eles giraram a sonda, posicionando-a sobre a cabeça de Teg.

“Ela chamou isso de sonda-T”, pensou Teg. Olhou para o capacete da coisa enquanto o posicionavam sobre ele. Não havia nela qualquer marca Ixiana.

Teg experimentou um curioso sentimento de déjà vu. Tinha a impressão de que seu cativeiro nesse lugar já acontecera antes, muitas vezes. Não era a sensação de déjà vu de um acontecimento único, era um sentimento familiar de reconhecimento: o prisioneiro e seus interrogadores — esses três... a sonda. Sentiu-se esvaziado. Como poderia conhecer esse momento? Nunca tinha usado uma sonda dessas pessoalmente, mas estudara seu uso com atenção. A Bene Gesserit freqüentemente empregava a dor, mas confiava principalmente nas Reveladoras da Verdade. Ainda mais que isso, a Irmandade acreditava que certos equipamentos a deixariam sob demasiada influência dos Ixianos. Seria uma admissão de fraqueza, sinal de que dependiam de engenhos desprezíveis. Teg até mesmo suspeitava de que parte dessa atitude era uma ressaca do Jihad Butleriano, a rebelião contra as máquinas capazes de copiar a essência dos pensamentos humanos e de suas memórias.

Déjà vu!

A lógica Mentat exigia-lhe uma explicação: “Como é que conheço este momento?” Sabia que nunca antes fora um prisioneiro. Era uma mudança de papéis muito ridícula. O grande Bashar Teg prisioneiro? Podia quase sorrir. Mas aquele profundo sentimento de familiaridade persistia.

Seus captores posicionaram o capacete do aparelho diretamente sobre sua cabeça e começaram a desenrolar os contatos, que lembravam uma cabeleira de medusa, um por um, fixando-os em seu crânio. O funcionário observava seus colegas trabalharem, dando pequenos sinais de impaciência num rosto de outro modo livre de qualquer demonstração de sentimentos.

Teg prestou atenção aos três rostos. Qual deles iria fazer o papel de “amigo”?

Ah, sim, seria a mulher. Fascinante. Será que pertencia às Honradas Madres? Só que nenhum dos outros demonstrava o respeito ou a reverência com relação a ela que tal fato implicaria, como Teg tinha ouvido muitas vezes dos Perdidos retornados.

E no entanto essa gente era da Dispersão — exceto, possivelmente, o homem de rosto quadrado no macacão marrom. Teg observou a mulher com muita atenção: o capuz de cabelo grisalho, a calma naqueles olhos verdes bem espaçados, o queixo levemente proeminente com sua impressão de solidez e confiabilidade. Fora muito bem escolhida para fazer o papel de “amiga”. Seu rosto era um mapa de respeitabilidade, alguém em quem se confiaria de imediato. Mas Teg percebia uma qualidade que ela ocultava. Sua função seria igualmente a de observar com cuidado até perceber o momento ideal para se envolver. Certamente devia ter sido, no mínimo,

treinada pela Bene Gesserit.

“Ou pelas Honradas Madres.”

Eles acabaram de prender os contatos em sua cabeça. O sujeito com a aparência de nativo de Gammu colocou o consolo da sonda em uma posição na qual os três pudessem observar os medidores. Mas a tela visora da sonda estava oculta à visão de Teg.

A mulher tirou-lhe a mordaça, confirmando seu julgamento. Ela seria a fonte de conforto. Ele moveu a língua em torno da boca, restaurando a sensação. O rosto e o peito ainda lhe pareciam um tanto dormentes do atordoador que o tinha derrubado.

Há quanto tempo isso teria acontecido? Mas, se podia acreditar nas palavras silenciosas do funcionário, Duncan escapara.

O sujeito de Gammu olhou para o observador.

— Pode começar, Yar — disse o funcionário.

“Yar?”, perguntou-se Teg. “Nome curioso.” Soava quase como Tleilaxu. Mas Yar não era um Dançarino Facial... nem um Mestre Tleilaxu. Muito grande para ser um e sem os sinais de ser o outro. Como pessoa treinada pela Irmandade, Teg sentia-se confiante quanto a isso.

Yar tocou num controle no consolo da sonda.

Teg ouviu seu próprio grunhido de dor. Nada o preparara para tanta dor. Eles deviam ter regulado a maldita máquina ao máximo para o primeiro golpe. Não havia dúvida a esse respeito! Sabiam que ele era um Mentat. Um Mentat podia desligar-se dos clamores da carne. Mas aquilo ali era excruciante! Não seria capaz de escapar. A agonia estremeceu todo o seu corpo, ameaçando apagar-lhe a consciência. Será que o shere poderia protegê-lo de uma coisa dessas?

A dor diminuiu gradualmente e se foi, deixando apenas memórias que o faziam estremecer.

De novo!

Teg pensou subitamente que a agonia da especiaria devia ser assim para uma Reverenda Madre. Certamente não podia haver dor maior do que essa. Ele lutava para ficar em silêncio, mas podia ouvir a si próprio gemendo e grunhindo. Cada habilidade que aprendera como Mentat, e da Bene Gesserit, foi colocada em ação, evitando que sua boca formasse palavras, evitando que suplicasse pelo fim dessa agonia, que lhe prometesse dizer qualquer coisa que quisessem ouvir, apenas para que parassem.

Uma vez mais a agonia diminuiu e depois aumentou.

— É o bastante.

Fora a voz da mulher. Teg tentou lembrar o nome dela.

Yar falou com uma voz mal-humorada:

— Ele está carregado com shere suficiente para durar um ano. — Indicou o consolo. — Em branco.

Teg respirava ofegante. A agonia! Ela continuava a aumentar, a despeito do pedido da mulher.

— Eu falei que é o bastante! — retrucou ela.

Tamanha sinceridade, pensou Teg. Sentiu a dor recuar, afastando-se como se cada nervo tivesse sido removido de seu corpo, tirado como fios de uma agonia lembrada.

— É errado o que estamos fazendo — disse a mulher. — Este homem é...

— Ele é como qualquer outro homem — disse Yar. — Devo ligar o contato especial ao seu pênis?

— Não enquanto eu estiver aqui — disse a mulher.

Teg sentiu-se quase sensibilizado por tamanha sinceridade. O último dos fios de agonia deixou sua carne e ele ficou lá, sentindo-se como se flutuasse acima da superfície que o suportava. A sensação de déjà vú permanecia. Ele estava ali e não estava. Estivera ali e não estivera.

— Não vão gostar se fracassarmos — disse Yar. — Está preparada para enfrentá-los com outro fracasso?

A mulher sacudiu a cabeça. Curvou-se sobre Teg, colocando o rosto em sua linha de visão através do emaranhado dos eletrodos.

— Bashar, sinto muito pelo que estamos fazendo. Acredite-me, isto não é responsabilidade minha. Acho tudo isso extremamente desagradável. Diga-nos o que precisamos saber e permita que o deixemos à vontade.

Teg formou para ela um sorriso em sua boca. Era muito boa! Voltou a atenção para o funcionário vigilante.

— Diga isto a seus mestres por mim: ela é muito boa em seu trabalho.

O sangue avermelhou o rosto do funcionário. Ele ficou furioso.

— Dê-lhe o máximo, Yar.

Sua voz era um tenor controlado, sem aparentar o treinamento visível na voz da mulher.

— Por favor! — ela implorou.

Levantou-se, mas manteve sua atenção nos olhos de Teg.

As professoras Bene Gesserit de Teg tinham-lhe ensinado isso.

— Vigie os olhos! Observe como eles mudam de foco. Enquanto o foco se move no sentido do exterior, a consciência se move para dentro.

Ele focalizou a atenção deliberadamente no nariz dela. Não era um rosto feio.

Na verdade, era singular. Imaginou que figura não devia existir escondida naquelas roupas volumosas.

— Yar!

Essa era a voz do funcionário.

Yar ajustou alguma coisa no consolo e apertou um botão.

A agonia que atravessou o corpo de Teg revelou-lhe que o nível anterior tinha sido, de fato, mais brando. E com a nova dor veio uma nova claridade. Teg descobriu-se quase capaz de remover sua consciência dessa intromissão. Toda essa dor estava acontecendo com outra pessoa, não com ele. Encontrara um refúgio onde muito

pouca coisa o atingia. Sim, havia dor, até mesmo agonia. Aceitava as informações que chegavam a respeito dessas sensações. Isso era parcialmente a ação do shere, ele sabia.

E por isso se sentia grato.

A voz da mulher penetrou em sua consciência:

— Creio que o estamos perdendo. É melhor reduzir.

Outra voz respondeu, mas o som se apagou no silêncio antes que Teg pudesse identificar as palavras. Percebeu subitamente que não tinha mais ponto de apoio para sua consciência. Quietude! Pensou ter ouvido o próprio coração batendo muito depressa, de medo, mas não tinha certeza quanto a isso. Tudo era calmo, profundamente quieto, sem nada por trás.

“Será que ainda estou vivo?”

Ouviu a batida de coração, mas não tinha certeza de que fosse o dele. Tum-tum!Tum-tum! Era uma sensação de movimento, não de som. Não podia localizar a fonte.

“Que é que está acontecendo comigo?”

Palavras escritas num branco brilhante, delineadas contra um fundo preto, surgiram diante de seus centros visuais:

— Estou de volta em um terço.

— Deixe aí. Veja se podemos registrá-lo através de suas reações físicas.

— Será que ele ainda pode nos ouvir?

— Não conscientemente.

Nenhuma das instruções que Teg recebera dissera que uma sonda seria capaz de realizar seu trabalho diabólico na presença de sheere. Mas eles tinham chamado a coisa de sonda-T. Será que reações corporais poderiam revelar indícios de pensamentos suprimidos? Haveria revelações que poderiam ser exploradas por meios físicos?

Novamente as palavras surgiram nos centros visuais de Teg.

— Ele ainda está isolado?

— Completamente.

— Certifique-se. Leve-o um pouquinho mais fundo.

Teg tentou erguer a consciência acima de seus temores.

“Devo manter o controle!”

Que é que seu corpo poderia revelar se não tinha contato com ele? Podia imaginar o que estavam fazendo e sua mente registrava o pânico mas sua carne não podia senti-lo.

“Isolar o paciente. Não lhe deixar um lugar para por sua identidade.”

Quem é que tinha dito isso? Alguém. O sentimento de déjà vu retornou a plena força.

“Sou um Mentat”, lembrou a si mesmo. “Minha mente e seu funcionamento estão no meu centro.” Ele tinha experiências e memórias sobre as quais esse centro podia apoiar-se.

A dor voltou. Sons. Altos! Muito altos!

— Ele está ouvindo de novo.

Esse era Yar.

— Como pode ser?

Esse era o tenor do funcionário.

— Talvez você tenha ajustado profundo demais.

Essa era a voz da mulher.

Teg tentou abrir os olhos. As pálpebras não obedeciam. Lembrou-se então.

Eles tinham chamado a coisa de sonda-T. Esse não era um engenho Ixiano, era alguma coisa da Dispersão. Podia identificar onde a coisa dominava seus músculos e seus sentidos. Era como outra pessoa compartilhando da sua carne, esvaziando seus próprios padrões de reação. Permitiu-se seguir o funcionamento das intrusões da máquina. Era um engenho infernal! Aquilo poderia ordenar que ele piscasse, arrotasse, respirasse, cagasse ou mijasse — qualquer coisa. Podia comandar-lhe o corpo como se a consciência não desempenhasse função alguma em seu funcionamento. Estava relegado à simples função de observador.

Odores atingiram-no, tomando de assalto a sua consciência. Não podia ordenar aos músculos que franzissem a testa, mas pensou em fazê-lo. Isso era o suficiente. Esses odores desagradáveis estavam sendo produzidos pela sonda. Ela estava jogando com seus sentidos, aprendendo com eles.

— Já tem o suficiente para registrá-lo? — perguntou o funcionário.

— Ele ainda está nos ouvindo! — disse a voz de Yar.

— Malditos sejam todos os Mentats! — disse a mulher.

— Dit, Dat e Dot — disse Teg, relembrando os nomes das marionetes do Espetáculo de Inverno a que assistira em sua infância, muito tempo atrás em Lernaeus.

— Ele está falando! — disse o funcionário.

Teg sentiu sua consciência sendo bloqueada pela máquina. Yar estava fazendo alguma coisa com o console. Ainda assim Teg sabia que sua própria lógica Mentat lhe revelara uma coisa vital: esses três eram marionetes. E somente os manipuladores dos bonecos eram importantes. Como os bonecos se moviam — isso revelava o que os manipuladores faziam.

A sonda continuava a penetrar. Mas, a despeito da força que era aplicada, Teg sentia sua consciência igualando a força da coisa. Estava aprendendo com ele, mas ele também aprendia com ela.

Podia compreendê-la agora. Todo o espectro de seus sentidos podia ser copiado por essa sonda-T e identificado, mostrado a Yar para ser acionado quando fosse necessário. Havia uma cadeia orgânica de respostas dentro de Teg. A máquina podia rastreá-la como se fizesse uma duplicata dele. O sheere e sua resistência de Mentat desviavam os rastreadores de sua memórias, mas tudo mais podia ser copiado.

“Não vai pensar como eu penso”, tranqüilizou a si mesmo.

A máquina não seria a mesma coisa que seus nervos e sua carne. Ela não teria as memórias de Teg ou suas experiências. Não nascera de uma mulher, como ele.

Nunca tinha viajado por um canal de parto e emergido para esse universo assombroso.

Parte da consciência de Teg aplicou um marco de memória, dizendo-lhe que suas observações tinham revelado alguma coisa a respeito do ghola.

“Duncan foi decantado num tanque axlotl.”

A observação entrou na mente de Teg com uma súbita queimação de ácido na sua língua.

“A sonda-T novamente”

Teg deixou-se fluir numa consciência múltipla. Seguiu o funcionamento da sonda-T e continuou a explorar suas observações a respeito do ghola, enquanto ouvia o tempo todo Dit, Dat e Dot. Os três marionetes encontravam-se curiosamente silenciosos. Sim, esperando que a sonda-T completasse a tarefa.

“O ghola”