Os Hereges de Duna
Por um aperto no peito, Odrade soube…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando a porta se fechou atrás delas, Waff retornou às suas dúvidas.
— Minha gente não examinou estes aposentos. Não sei nada das coisas que podem estar ocultas aqui para registrar minhas palavras.
Odrade passou a usar a linguagem do Islamiyat.
— Então devemos usar Outro idioma que só nós conhecemos.
Os olhos de Waff brilharam. Na mesma linguagem, ele disse:
— Muito bem, vou apostar nisso. E lhe peço que me diga qual a verdadeira causa do desentendimento entre as Bene Gesserit.
Odrade permitiu-se um leve sorriso. Com a mudança de idioma, toda a personalidade de Waff, suas maneiras, mudava. Ele estava agindo exatamente como ela tinha esperado que fizesse. Nenhuma de suas dúvidas era reforçada no idioma dele.
Ela respondeu com igual confiança:
— Algumas tolas temem que possamos criar outro Kwisatz Haderach! É isso que algumas de minhas Irmãs discutem.
— Não há mais uma necessidade de tal criatura — disse Waff. — Aquele que podia estar em muitos lugares simultaneamente existiu e se foi. Ele só podia trazer o Profeta.
— E Deus não mandaria tal mensageiro duas vezes — comentou ela.
Era o tipo de coisa que Waff ouvia com freqüência em sua língua. Não mais considerava estranho que uma mulher pudesse pronunciar tais palavras. A linguagem e as palavras familiares eram o bastante.
— A morte de Schwangyu restaurou a unidade entre suas Irmãs? — perguntou ele.
— Nós temos inimigas comuns — respondeu Odrade.
— As Honradas Madres.
— Foi sábio de sua parte matá-las e aprender tudo que podia com elas.
Waff inclinou-se para a frente, completamente arrebatado pelo idioma familiar e o fluxo da conversa.
— Elas governam pelo sexo! — revelou, exultante. — Extraordinárias técnicas de ampliação do orgasmo! Nós...
Um pouco atrasado, ele se tornou consciente de quem estava sentada diante dele, ouvindo tudo isso.
— Já conhecemos tais técnicas — disse Odrade para tranqüilizá-lo.. — Seria interessante compará-las, mas existem razões óbvias pelas quais nunca tentamos obter o poder de modo tão perigoso. E aquelas prostitutas são estúpidas o suficiente para cometer esse erro!
— Erro?
Ele estava claramente intrigado.
— Elas estão segurando as rédeas desse poder com suas próprias mãos! —
explicou Odrade. — À medida que esse poder for crescendo, o controle que elas exercem terá que crescer do mesmo modo. A coisa vai destruir-se com seu próprio ímpeto!
— Poder, sempre poder — murmurou Waff. Outro pensamento lhe ocorreu.
— Está dizendo que foi deste modo que o Profeta caiu?
— Ele sabia o que estava fazendo — explicou Odrade. — Milênios de paz forçada seguidos pelos Tempos da Fome e da Dispersão. Uma mensagem com resultados diretos. Lembre-se! Ele não destruiu a Bene Tleilax ou a Bene Gesserit.
— E que vocês esperam de uma aliança entre nossa gente? — perguntou Waff. — Esperança é uma coisa, sobrevivência é outra — ela disse.
— Sempre o pragmatismo. E algumas de vocês temem que possam restaurar o Profeta em Rakis com todos os seus poderes intactos?
— Eu não disse isso?
A linguagem do Islamiyat era particularmente poderosa nessa forma questionadora. Ela colocava sobre Waff a tarefa de provar a verdade.
— Então elas duvidam da mão de Deus na criação do seu Kwisatz Haderach —
ele disse. — E também duvidam do Profeta?
— Muito bem, vamos deixar tudo isso claro — disse Odrade, lançando-se no caminho escolhido para iludi-lo. — Schwangyu e aquelas que a apoiavam tinham se afastado da Grande Crença. Nós não guardamos nenhum ódio contra a Bene Tleilax por tê-las destruído. Isso poupou-nos muito trabalho.
Waff aceitou isso inteiramente. Dadas as circunstâncias era precisamente o que esperava ouvir. Sabia ter revelado muita coisa que seria melhor ficar em segredo, mas ainda restavam coisas que a Bene Gesserit não sabia. E as coisas que ele tinha aprendido!
Odrade deixou-o totalmente chocado ao dizer:
— Waff, se acredita que seus descendentes retornados da Dispersão vieram totalmente imutados, então você é um tolo.
Ele manteve-se em silêncio.
— Tem todas as peças do quebra-cabeça em suas mãos — ela continuou. —
Seus descendentes estão dominados pelas prostitutas da Dispersão. E se acredita que qualquer uma delas seria capaz de manter um acordo, então sua estupidez chegou a um ponto além de qualquer descrição!
A reação de Waff revelou que ela atingira o ponto exato. As peças estavam se
ajustando. Odrade dissera a verdade apenas onde isso fora necessário. As dúvidas dele estavam focalizadas onde deviam: no povo da Dispersão. E tudo fora feito usando o próprio idioma dele.
Ele tentou falar, sentiu uma constrição na garganta, e foi forçado a massageá-la antes que pudesse expressar-se.
— Que podemos fazer?
— Isso é óbvio. Os Perdidos encaram-nos como apenas outra conquista.
Acham que com isso vão limpar sua retaguarda. Uma cautela comum.
— Mas eles são tantos!
— A menos que consigamos unir-nos num plano comum para derrotá-los, vão devorar-nos do modo como um lorco mastiga seu almoço.
— Não podemos submeter-nos aos impuros powindah! Deus não permitiria tal coisa!
— Submeter? Quem disse que nos vamos submeter?
— Mas a Bene Gesserit sempre faz uso daquela antiga desculpa: “Se não puder derrotá-los, junte-se a eles.”
Odrade deu um sorriso forçado.
— Deus não permitiria que vocês se submetessem! Está dizendo que ele permitiria que isso nos acontecesse?
— Então qual é o seu plano? Que faria contra um inimigo tão numeroso?
— Exatamente o que você planeja fazer: convertê-los. Quando der o sinal, a Irmandade abraçará abertamente a verdadeira fé.
Waff caiu num silêncio atordoado. Então ela conhecia o cerne do plano dos Tleilaxu. Será que também saberia como os Tleilaxu pretendiam executar esse plano?
Odrade olhava para ele de modo especulativo. “Agarre a fera pelo saco se preciso”, pensava. Mas, e se as projeções das analistas da Irmandade estivessem incorretas? Nesse caso, toda essa negociação seria uma piada. E havia algo no fundo dos olhos de Waff que sugeria uma antiga sabedoria... muito mais antiga do que seu corpo. Ela falou com mais confiança do que sentia:
— Aquilo que vocês conseguiram obter com os gholas de seus tanques e mantiveram em segredo, outros pagarão grande preço para obter.
As palavras eram suficientemente enigmáticas (haveria outros ouvindo?), mas Waff não duvidou nem por um instante de que a Bene Gesserit conhecesse até mesmo esse segredo.
— Estão exigindo partilhar isso também? — perguntou ele, a voz rouca na garganta seca.
— Tudo! Vamos partilhar tudo!
— E que vão dar nessa grande partilha?
— Peça.
— Todos os seus registros de procriação.
— Eles são seus.
— Madres Procriadoras à nossa escolha.
— Diga o nome delas.
Waff ficou atônito. Isso era muito mais do que a Madre Superiora tinha oferecido. Era como uma flor se abrindo em sua consciência. Ela estava certa a respeito das Honradas Madres, naturalmente — e a respeito dos Tleilaxu descendentes da Dispersão. Nunca confiara neles, nunca!
— Vão querer uma fonte irrestrita de melange — ele disse.
— É claro.
Olhou para ela, quase não acreditando em tanta boa sorte. Os tanques axlotl ofereciam a imortalidade apenas àqueles que abraçavam a Grande Crença. Ninguém se atreveria a atacar para obter algo que sabiam que os Tleilaxu prefeririam destruir a perder. E agora! Ele tinha conquistado os serviços da força missionária mais poderosa e duradoura que já existira. Certamente que a mão de Deus aparecia nisso. Waff sentiu-se primeiro admirado, depois inspirado. Suavemente, disse a Odrade:
— E você, Reverenda Madre, como chamaria nosso acordo?
— Um nobre propósito — ela disse. — Já conhece as palavras do Profeta no Sietch Tabr. Duvida delas?
— Nunca! Mas... existe uma coisa: que propõem fazer com esse ghola Duncan Idaho e a jovem Sheeana?
— Faremos com que procriem, é claro. E seus descendentes falarão por nós a todos os descendentes do Profeta.
— Em todos os planetas para onde os levarão?
— Em todos os planetas — concordou ela.
Waff recostou-se no assento. “Eu a tenho em minhas mãos, Reverenda Madre!”, pensou ele. “Nós dominaremos este acordo, não vocês. O ghola não lhes pertence, ele é nosso!”
Odrade percebeu uma sombra de reserva nos olhos de Waff, mas sabia ter arriscado o máximo que podia. Conceder mais despertaria novas dúvidas. O que quer que acontecesse, ela havia comprometido a Irmandade desse curso de ação. Agora Taraza não poderia evitar essa aliança.
Waff ergueu os ombros num gesto curiosamente juvenil, traído pela inteligência ancestral em seus olhos.
— Ah, mais uma coisa — ele disse, todo tomado pelo papel de Mestre dos Mestres, falando seu próprio idioma e governando a todos que o ouviam. — Também vão ajudar na divulgação desse... Manifesto Atreides?
— Por que não? Eu o escrevi.
Waff deu um salto.
— Você?
— Pensa que alguém menos hábil poderia tê-lo feito?
Ele assentiu, convencido sem necessidade de qualquer outro argumento. Era o combustível necessário para impulsionar um novo pensamento que entrara em sua
mente, um ponto final na aliança: as mentes poderosas das Reverendas Madres aconselhariam os Tleilaxu a cada passo! Que importava que fossem superadas em número pelas prostitutas da Dispersão? Quem poderia enfrentar tamanha sabedoria combinada com armas invencíveis?
— O titulo do Manifesto também é válido — explicou Odrade. — Sou uma autêntica descendente dos Atreides.
— Procriaria comigo, então? — arriscou ele.
— Quase já passei da idade de ter filhos, mas serei sua quando ordenar.
Eu relembro amigos de guerras quase esquecidas,
Todos eles repartidos em cada ferimento recebido, Ferimentos que lembram lugares dolorosos onde lutamos, Batalhas que é melhor esquecer, coisas que nunca buscamos.
Que foi que perdemos e que conseguimos?
— Canções da Dispersão
Burzmali baseara seu planejamento no melhor que tinha aprendido com seu Bashar, mantendo sua própria opinião quanto às múltiplas opções e posições de retirada. Essa era a prerrogativa de um comandante! Por ser necessário, aprendera tudo que podia sobre o terreno.
Na época do Antigo Império e mesmo sob o reinado do Muad'Dib, a região em torno do Castelo Gammu fora uma reserva florestal, uma região elevada, situada bem acima dos resíduos oleosos que tendiam a cobrir as terras dos Harkonnen. Nesse solo, os Harkonnen haviam cultivado a melhor pilingitam, madeira de uso comercial muito valorizada pelos sumamente ricos. Desde os tempos mais antigos que a classe mais elevada preferia cercar-se de madeiras finas em vez das matérias artificiais produzidas em massa, conhecidas como polastine, polaz e pormabat (mais tarde abreviados para tine, laz e bat). Até mesmo no Antigo Império existira um rótulo pejorativo para os moderadamente ricos e as Famílias Menores, surgido do conhecimento do valor de uma madeira rara.
— Ali está um três P-O — diziam eles, querendo indicar uma pessoa que se cercava das cópias baratas, feitas com substâncias pouco nobres.
E até mesmo quando os sumamente ricos eram forçados a empregar um dos três P-O, eles os disfarçavam, onde era possível, atrás de um U-P (o único P), a pilingitam.
Burzmali sabia disso e muito mais quando fez sua gente procurar por pilingitam estrategicamente colocada perto de um não-globo. A madeira da árvore tinha muitas qualidades que a tornavam preferida pelos artesãos: recém-cortada, ela era macia; seca
e envelhecida, tornava-se dura. Era capaz de absorver muitos pigmentos e o acabamento podia ser feito de modo a parecer natural. Mais importante que tudo, a pilingitam era à prova de fungos e nenhum inseto conhecido chegara a considerá-la um jantar adequado. Por último, era resistente ao fogo e os espécimes mais velhos da árvore viva cresciam a partir de um amplo tubo vazio situado no núcleo.
— Nós faremos o inesperado — dissera Burzmali ao seu grupo de busca.
Notara o distinto verde-limão das folhas de pilingitam durante seu primeiro vôo sobre a região. As florestas desse planeta tinham sido devastadas durante os Tempos da Fome, mas antigas O-Ps ainda eram cultivadas entre as sempre-vivas e as madeiras resistentes replantadas por ordem da Irmandade.
A equipe de busca de Burzmali encontrara uma colina dominada por O-Ps acima do local do não-globo. Ela estendia suas folhas sobre quase três hectares. Na tarde do dia crítico, Burzmali colocou engodos a certa distância de sua posição e abriu um túnel, desde um trecho de terreno baixo até o centro do bosque de pilingitam. Lá posicionou seu posto de comando e o material necessário para a fuga.
— A árvore é uma forma de vida — explicou à sua gente. — Vai ocultar-nos dos rastreadores.
“O inesperado.”
Em parte alguma de seus planos Burzmali supôs que suas ações fossem permanecer indetectadas. Tudo que podia fazer era dispersar sua vulnerabilidade.
Quando o ataque viesse, sabia que ia seguir um plano previsível. Burzmali previa que os atacantes contariam com não-naves e superioridade numérica, como acontecera em seu assalto ao Castelo de Gammu. As analistas da Irmandade garantiam que a maior ameaça viria das forças da Dispersão — descendentes dos Tleilaxu comandados por mulheres selvagens e brutais que chamavam a si mesmas de Honradas Madres. Ele via isso como excesso de confiança e não audácia. A verdadeira audácia fazia parte do arsenal de cada aluno do Bashar Miles Teg. Também ajudava o fato de poder confiar nos improvisos que Teg, de sua parte, acrescentaria ao plano.
Através de seus receptores, Burzmali seguiu a corrida de Duncan e Lucilla para a liberdade. Tropas com capacetes de comunicação e visores noturnos criavam uma falsa exibição de atividade nas posições falsas, enquanto Burzmali e seu grupo selecionado vigiavam os atacantes sem jamais revelarem sua posição. Os movimentos de Teg podiam ser acompanhados com facilidade a partir da resposta violenta do inimigo.
Burzmali notou com aprovação que Lucilla não parou ao ouvir os sons da batalha se intensificarem. Duncan, contudo, tentou parar e quase arruinou todo o plano. Lucila salvou o dia ao atingir um nervo sensível do rapaz, gritando:
— Você não pode ajudá-lo!
Ouvindo a voz dela com clareza através dos amplificadores do capacete, Burzmali amaldiçoou em silêncio. Outros poderiam ouvi-la também! Não havia dúvida de que já devia estar sendo rastreada.
Burzmali deu uma ordem subvocal através do microfone implantado em seu pescoço e se preparou para abandonar o posto. Mantinha a maior parte de sua atenção focalizada na aproximação de Lucilla e Duncan. Se tudo corresse como planejado, sua gente traria os dois enquanto dois soldados, sem capacetes e vestidos adequadamente, continuariam a correr em direção às falsas posições.
Enquanto isso, Teg estava criando uma admirável trilha de destruição através da qual um carro de solo poderia escapar.
Um auxiliar entrou em contato com Burzmali:
— Dois atacantes estão se aproximando por trás do Bashar!
Burzmali fez sinal para que o homem saísse. Sabia que as chances de Teg eram poucas. Tudo teria que se concentrar agora no salvamento do ghola. Os pensamentos de Burzmali eram intensos enquanto ele vigiava:
— Vamos! Corra! Corra!
Lucilla tinha pensamentos semelhantes enquanto mantinha Duncan correndo, conservando-se atrás dele para protegê-lo de qualquer ataque pelas costas. Tudo em seu treinamento e no modo como fora criada entrava em ação nesses momentos, reunido para uma resistência final. “Jamais desista!” Desistir seria passar sua consciência para as Vidas Memorizadas de Outra Irmã ou então morrer. Mesmo Schwangyu se redimira no final, revertendo à resistência total e morrendo admiravelmente dentro da tradição Bene Gesserit — resistindo até o fim. Burzmali relatara isso através de Teg. E Lucilla, reunindo suas incontáveis vidas, pensava: “Não posso deixar por menos.”
Ela seguiu Duncan numa depressão rasa junto ao tronco de um gigantesco pilingitam e, quando vultos se ergueram da escuridão em torno deles, quase reagiu de modo enlouquecido. Uma voz, falando em Chakobsa junto de seu ouvido direito, disse: “Amigos!” Isso retardou sua resposta pelo espaço de uma batida de coração enquanto ela via os dois falsos fugitivos saírem correndo da depressão para cobrir sua retirada. Isso, mais que qualquer outra coisa, revelou o plano e a identidade das pessoas, contendo-os em meio aos ricos odores de folhas e de terra. Quando aquela gente fez Duncan escorregar adiante dela num túnel escavado na árvore gigantesca e aconselhou (ainda em Chakobsa) a que ela se apressasse, Lucilla soube estar envolvida num plano audacioso, típico de Teg.
Duncan também tinha percebido isso. Numa abertura do túnel, ele a identificou pelo cheiro e bateu uma mensagem na pele de seu braço, na antiga e silenciosa linguagem de batalha dos Atreides.
— Deixe que eles liderem.
A forma da mensagem espantou-a momentaneamente, até ela perceber que o ghola devia conhecer esse método de comunicação.
Sem falar coisa alguma, as pessoas que os rodeavam retiraram o antiquado e volumoso laser das mãos de Duncan e fizeram os fugitivos entrar pela escotilha de um veículo que Lucilla não foi capaz de identificar. Uma breve luz vermelha brilhou na
escuridão.
Burzmali disse subvocalmente à sua gente:
— Lá vão eles!
Vinte e oito carros de solo e tópteros esvoaçantes partiram das posições falsas. Uma distração adequada, pensou Burzmali.
A pressão no ouvido de Lucilla revelou que a escotilha fora fechada. Novamente a luz vermelha brilhou e se apagou.
Explosivos destruíram a grande árvore em torno deles e seu veículo, agora identificado como um carro de solo blindado, partiu sobre seus jatos e suspensores de sustentação. Lucilla podia seguir o curso somente pelos relâmpagos de fogo e pelos padrões de céu estrelado passando pelas janelas ovais de plaz. O campo suspensor em torno deles fazia os movimentos parecerem bizarros, sensíveis apenas ao olho.
Estavam sentados em assentos de plasteel enquanto o carro disparava colina abaixo, diretamente por cima da posição onde Teg se ocultara em sua resistência final. O
carro fazia violentas mudanças de direção, mas nada de seu movimento louco se transmitia à carne dos ocupantes. Eles só viam o borrão das árvores passando e as estrelas no céu, o capim queimado aparecendo às vezes.
Estavam passando por cima dos restos da floresta que Teg destruíra com suas armas laser! Só então Lucilla começou a ter esperanças de que pudessem vir a escapar.
De repente o veículo estremeceu, passando para um vôo lento. As estrelas visíveis nos ovais de plaz inclinaram-se e foram tapadas por uma obstrução escura. A gravidade retornou e surgiu uma iluminação fraca. Lucilla viu Burzmali abrir uma comporta à sua esquerda.
— Saiam! — gritou ele. — Não podemos perder um segundo!
Com Duncan à frente, Lucilla pulou para fora da escotilha, caindo na terra úmida. Burzmali bateu nas costas dela, agarrou Duncan pelo braço e os puxou para longe do carro.
— Rápido, nesta direção!
Despencaram através do capim alto, entrando numa estreita via pavimentada.
Burzmali, agora segurando os dois, os fez atravessar a pista e deitar na valeta ao lado.
Puxou sobre eles um cobertor de escudo vital para tapá-los e depois ergueu a cabeça a fim de olhar na direção por onde tinham vindo.
Lucilla olhou por trás dele e viu apenas um céu estrelado acima de uma colina nevada. Sentiu Duncan mexer-se ao lado dela.
Lá no alto da colina, o carro subiu, deixando um rastro de fogo vermelho a partir dos casulos de jatos que o tinham modificado para se tornar carro aéreo. Visível contra o céu estrelado, continuou subindo, subindo, subindo... De súbito, partiu velozmente para a direita.
— Nosso? — sussurrou Duncan.
— Sim.
— Como ele chegou lá em cima sem deixar um...
— Um túnel abandonado de um aqueduto — explicou Burzmali. — O carro estava programado para seguir automaticamente.
Ele continuou a olhar para o distante rastro vermelho. De repente, uma gigantesca descarga de luz azul expandiu-se na extremidade daquele distante traço vermelho. A luz foi seguida imediatamente por uma pancada surda.
— Ah — sussurrou Burzmali.
Duncan, com a voz baixa, disse:
— Eles vão pensar que nós sobrecarregamos a propulsão.
Burzmali lançou um olhar espantado para o rosto do jovem, de um cinza fantasmagórico sob a luz das estrelas.
— Duncan Idaho foi um dos melhores pilotos a serviço dos Atreides —
explicou Lucila.
Era um dado de conhecimento esotérico que servia a seu propósito. Burzmali percebeu imediatamente que não era apenas o guardião de dois fugitivos. Eles possuíam habilidades que poderiam ser usadas quando fosse necessário.
Centelhas azuis e vermelhas correram através do céu em direção ao local onde o carro de solo modificado havia explodido. As não-naves estavam farejando aquele distante globo de gases quentes em dispersão. Que iriam decidir os caçadores? As centelhas azuis e vermelhas mergulharam de novo atrás das colinas.
Burzmali voltou-se ante o som de passos na estrada. Duncan sacou de uma pistola tão rapidamente que Lucilla soltou uma exclamação de espanto. Ela colocou uma das mãos sobre seu braço para contê-lo, mas ele a repeliu. Não percebia que Burzmali tinha aceito o intruso?
Uma voz chamou baixinho da estrada acima deles.
— Sigam-me, depressa!
A pessoa que falara era uma mancha movendo-se na escuridão. Ela saltou ao lado deles e saiu correndo por uma abertura no meio do mato que cercava a estrada.
Manchas negras, na colina nevada além do abrigo da vegetação transformaram-se em pelo menos uma dúzia de pessoas armadas. Cinco delas agruparam-se em torno de Duncan e Lucilla, fazendo sinal para que os seguissem ao longo de uma trilha coberta de neve ao lado dos arbustos. O resto do grupo armado correu abertamente, descendo o declive nevado e rumando para uma fileira escura de árvores.
Depois de uns 500 passos, as cinco figuras silenciosas fizeram o grupo formar fila indiana, com dois deles na frente e três atrás, e os fugitivos abrigados no meio —
Burzmali na frente de Duncan e Lucilla atrás. Daí a pouco chegaram a uma fenda em rochas escuras onde esperaram debaixo de uma saliência. Ouviram outros carros de solo modificados trovejarem no ar acima.
— Engodos em cima de engodos — sussurrou Burzmali. — Nós os sobrecarregamos de pistas falsas. Eles sabem que devemos fugir em pânico, tão depressa quanto pudermos. Agora vamos aguardar escondidos. Depois prosseguiremos, lentamente e a pé.
— O inesperado — sussurrou Lucilla.
— Teg?
A voz de Duncan era menos que um sussurro.
Burzmali inclinou-se junto do ouvido esquerdo do rapaz.
— Acho que eles o pegaram.
O sussurro de Burzmali carregava um profundo sentimento de tristeza.
Um de seus companheiros escuros disse:
— Rápido agora. Aqui embaixo.
Foram guiados através da fenda estreita. Alguma coisa estalou por perto. Mãos empurraram-nos para uma passagem oculta. O estalido soou atrás deles.
— Arrumem aquela porta — alguém disse.
Uma luz acendeu-se em torno deles.
Duncan e Lucila olharam para uma grande sala ricamente mobiliada e aparentemente escavada na rocha. Tapetes macios cobriam o chão cores escuras, encarnados e dourados, com um padrão semelhante a ameias bordado em verde pálido. Um monte de roupas encontrava-se numa mesa perto de Burzmali, que conversava baixinho com uma pessoa do grupo de escolta: um homem de cabelos louros com testa ampla e olhos verdes penetrantes.
Lucilla ouviu cuidadosamente. As palavras eram compreensíveis, relacionadas com o modo como os guardas deviam ser posicionados, mas o sotaque do homem de olhos verdes era de um tipo que ela nunca tinha ouvido antes, mistura de consoantes e vogais produzidas de um modo abrupto surpreendente.
— Isto é uma não-câmara? — perguntou ela.
— Não. — A resposta foi dada por um homem ao lado dela, falando com o mesmo sotaque. — As algas nos protegem.
Ela não se voltou em direção ao homem que falara. Em vez disso, olhou para o teto e as paredes. Somente alguns trechos de rocha escura eram visíveis junto do piso.
Burzmali interrompeu a conversa.
— Estamos em segurança aqui. A alga é cultivada especialmente para esta função. Os detectores de vida registram apenas a presença de vida vegetal e nada do que a alga encobre.
Lucilla girou sobre um dos calcanhares, examinando os detalhes do aposento: o grifo Harkonnen trabalhado sobre uma mesa de cristal, os tecidos exóticos das poltronas e sofás. Uma prateleira de armas colocada de encontro a uma das paredes segurava duas fileiras de longas armas laser de campo de um tipo que Lucila nunca tinha visto. Cada uma tinha um cano com a extremidade abrindo-se em forma de cometa e uma proteção trabalhada em ouro sobre o gatilho.
Burzmali voltara à conversa com o homem de olhos verdes. Era uma discussão sobre o modo como deviam disfarçar-se. Lucilla prestou atenção com uma parte de sua mente, enquanto observava os dois outros membros da escolta que
permaneciam na sala. O terceiro tinha penetrado por uma passagem ao lado do armário de armas, uma abertura coberta por uma espessa cortina de fios prateados formados por algas pendentes. Duncan, percebia ela, a estava observando com cuidado, a mão em uma pequena pistola laser em seu cinturão.
“Gente da Dispersão”, pensou Lucilla. “Para quem se voltarão suas lealdades?”
Como quem não quer nada, ela andou até ficar ao lado do Duncan e, usando a linguagem de toques, batendo com a ponta dos dedos em seu braço, transmitiu-lhe suas desconfianças. Ambos olharam para Burzmali.
“Traição?”
Lucilla voltou a estudar a sala. Estariam sendo vigiados por olhos ocultos?
Nove globos luminosos iluminavam o espaço, criando seus peculiares techos de iluminação intensa. Estendiam-se numa concentração perto do ponto onde Burzmali ainda conversava com o homem de olhos verdes. Parte da luz vinha diretamente dos globos flutuantes, todos eles regulados para uma intensa iluminação dourada, e parte se refletia mais suavemente nas algas.
O resultado era a ausência total de sombras escuras, mesmo debaixo das mobílias.
Os reluzentes fios prateados do portal do corredor interno separaram-se. Uma velha entrou na sala. Lucilla olhou para ela. A mulher tinha o rosto vincado, tão escuro quanto jacarandá antigo. Suas feições eram bem-definidas numa estreita moldura de cabelos grisalhos emaranhados que caía quase até os ombros. Usava um longo manto escuro, com um bordado de fios dourados reproduzindo dragões mitológicos. A mulher parou atrás de um sofá e colocou as mãos com veias proeminentes sobre o recosto.
Burzmali e o companheiro interromperam a conversa.
Lucilla olhou para a velha e para seu próprio manto. Exceto pelos dragões dourados, a vestimenta era semelhante em estilo, os capuzes caídos sobre os ombros.
Somente na lateral e no modo como se abria na frente é que o desenho do manto do dragão era diferente.
Quando a mulher ficou quieta, Lucilla olhou para Burzmali, buscando uma explicação. Burzmali olhou para ela com uma concentração intensa. A velha continuava a observar Lucilla em silêncio.
A intensidade da atenção dela deixou Lucilla inquieta. Duncan também tinha percebido isso. Mantinha a mão posicionada sobre a pequena arma laser. O longo silêncio enquanto aquele olhos a estudavam com tanto cuidado aumentava o sentimento de desconforto. Havia algo quase Bene Gesserit no modo como a velha ficava ali, só observando.
Duncan quebrou o silêncio, perguntando a Burzmali:
— Quem é ela?
— Eu sou aquela que vai salvar a pele de vocês — respondeu a velha.
Ela tinha a voz fina e fraca, mas o mesmo sotaque estranho daqueles homens.
As Outras Memórias de Lucilla trouxeram-lhe uma comparação sugestiva para o traje da velha: semelhante ao que era usado pelas antigas playfêmeas.
Lucilla quase sacudiu a cabeça. Certamente essa mulher estava muito velha para tal profissão. E a forma do dragão mitológico desenhado no tecido diferia daquela fornecida pela memória. Lucilla voltou a atenção para o rosto da velha: os olhos úmidos com as doenças da idade. Uma crosta seca acumulava-se sobre os vincos onde as pálpebras tocavam os canais ao lado do nariz. Muito velha para ser uma playfêmea.
A velha disse a Burzmali:
— Acho que ela pode usar este traje muito bem. — Começou a despir a roupa com o dragão. A Lucilla ela disse: — Isto é para você. Use-o com respeito. Tivemos que matar para consegui-lo.
— Quem vocês mataram? — indagou Lucilla.
— Uma candidata a Honrada Madre!
Havia orgulho na voz rouca da mulher.
— E por que eu deveria usar esse manto?
— Você vai trocar de roupa comigo — disse a velha.
— Não. — Sem uma explicação, Lucilla recusou-se a pegar o manto que lhe era estendido.
Burzmali deu um passo à frente.
— Você pode confiar nela.
— Sou amiga de seus amigos — disse a velha. Sacudiu o manto na frente de Lucilla. — Aqui, pegue-o.
Lucila voltou-se para Burzmali.
— Devo conhecer o seu plano.
— Ambos devemos conhecê-lo — disse Duncan. — Sob que autoridade nos pede para confiar nessa gente?
— Sob a autoridade de Teg — disse Burzmali. — E sob a minha. — Olhou para a velha. — Pode contar a eles, Sirafa. Temos tempo.
— Você vai usar este manto enquanto acompanha Burzmali até Ysai —
explicou Sirafa.
“Sirafa”, pensou Lucilla. O nome tinha quase o som de uma Variante Bene Gesserit.
Sirafa examinou Duncan.
— Sim, ele ainda é suficientemente pequeno. Vamos disfarçá-lo e transportá-lo separadamente.
— Não! — protestou Lucilla. — Recebi ordens de guardá-lo pessoalmente!
— Está sendo tola — retrucou Sirafa. — Eles estarão procurando por uma mulher de sua aparência, acompanhada por alguém semelhante a este jovem. Não vão dar atenção a uma playfêmea das Honradas Madres com seu companheiro noturno...
nem a um Mestre Tleilaxu e seu séquito.
Lucilla umedeceu os lábios com a língua. Sirafa falava com a segurança de uma Inspetora da Irmandade.
A velha depositou o manto do dragão sobre o recosto do sofá. Usava agora apenas uma malha negra colante que nada escondia de um corpo ainda flexível e firme, com muitas curvas. Um corpo que parecia extraordinariamente mais jovem do que o rosto. Enquanto Lucilla a observava, Sirafa começou a passar as palmas das mãos sobre a testa e as faces, esfregando-as para trás. Os vincos da idade foram desaparecendo para revelar um rosto jovem.
“Um Dançarino Facial?”
Lucilla olhou com firmeza para a mulher. Não aparecia nela qualquer dos outros estigmas de um Dançarino Facial. Ainda assim.
— Tire o seu manto! — ordenou Sirafa.
Ela agora tinha uma voz de jovem, muito mais dominadora.
— Deve fazer isso — pediu Burzmali. — Sirafa vai tomar seu lugar como outro chamariz. É o único modo pelo qual poderemos passar.
— Passar para onde? — indagou Duncan.
— Para uma não-nave — explicou Burzmali.
— E para onde ela irá nos levar? — indagou Lucilla.
— Para a segurança — explicou Burzmali. — Vamos ser saturados de shere, mas não posso dizer mais nada. Até mesmo o shere se esgota com o tempo.
— Como é que vão disfarçar-me de Tleilaxu? — perguntou Duncan.
— Confie em nós que isso será feito — disse Burzmali, sua atenção ainda voltada para Lucilla. — Reverenda Madre?
— Vocês não me deixam escolha — respondeu ela.
Soltou os fechos e deixou cair o manto. Tirou a pequena pistola da cintura e a atirou sobre o sofá. Sua própria malha era de um cinza claro e ela percebeu que Sirafa estava reparando nisso, bem como nas facas colocadas nas bainhas em suas pernas.
— As vezes usamos malhas negras — explicou Lucilla, enquanto colocava o manto do dragão.
O tecido parecia pesado, mas na verdade era só aparência. Ela girou para sentir o caimento do novo traje, enquanto ele se erguia no giro e lhe envolvia o corpo como se tivesse sido feito de encomenda para ela. Mas havia um ponto áspero no pescoço.
Ela estendeu a mão e correu um dedo sobre ele.
— Foi aí que o dardo atingiu a mulher que matamos — explicou Sirafa. —
Nós agimos depressa, mas o ácido marcou levemente o tecido. Não é visível.
— A aparência está correta? — perguntou Burzmali.
— Muito boa. Mas vou ter que instruí-la. Ela não deve cometer erros ou eles pegarão vocês dois.
Sirafa bateu com ambas as mãos para dar ênfase ao que dizia.
“Onde foi que vi tal gesto?”, perguntou-se Lucilla.
Duncan tocou a parte de trás do braço direito de Lucilla, seus dedos transmitindo uma mensagem secreta: “Aquela batida de mão! Um maneirismo de Giedi Prime.”
As Outras Memórias confirmaram isso para Lucilla. Seria essa mulher integrante de uma comunidade isolada, que preservava os costumes arcaicos?
— O rapaz deve ir agora — disse Sirafa. Fez um gesto para os dois membros remanescentes de seu grupo. — Levem-no até o lugar.
— Eu não gosto disso — comentou Lucilla.
— Não temos escolha — disse Burzmali, furioso.
Lucilla só podia concordar. Estava dependendo totalmente do juramento de lealdade de Burzmali para com a Irmandade. E Duncan não era nenhuma criança, procurou lembrar-se. Suas reações prana-bindu tinham sido condicionadas pelo velho Bashar e por ela mesma. Havia habilidades ao alcance do ghola que poucas pessoas fora da Bene Gesserit poderiam igualar. Ela observou em silêncio enquanto Duncan e os dois homens saíam através da cortina brilhante.
Depois que eles tinham saído, Sirafa deu a volta no sofá e ficou diante de Lucila com as mãos nas cadeiras. O olhar das duas encontrou-se de igual para igual.
Burzmali pigarreou e remexeu na pilha de roupas na mesa ao seu lado.
O rosto de Sirafa, principalmente seus olhos, tinha uma qualidade fascinante.
Olhos de um verde claro, com a parte branca muito límpida. Não havia lentes de contato nem qualquer outro artificio a mascará-los.
— Você tem a aparência certa — disse Sirafa. — Lembre-se de que é um tipo especial de playfêmea e que Burzmali é seu cliente. Nenhuma pessoa comum interferiria nisso.
Lucilla percebeu uma sugestão oculta na frase:
— Mas há aqueles que poderiam interferir?
— Existem embaixadas de grandes religiões em Gammu agora — explicou Sirafa. — Algumas que você nunca conheceu. São daquilo que chamam de Dispersão.
— E de que vocês os chamam?
— Os Caçadores. — Sirafa ergueu a mão num gesto tranquilizador. — Não tema! Temos um inimigo comum.
— As Honradas Madres?
Sirafa virou a cabeça para a esquerda e cuspiu no chão.
— Olhe para mim, Bene Gesserit! Fui treinada unicamente para matá-las. É
minha única função e propósito.
Lucilla falou com cuidado:
— Pelo que sabemos, deve ser muito boa nisso.
— Em certas coisas, talvez, sou melhor que você. Agora ouça! Você é uma perita em sexo. Está entendendo?
— Por que os sacerdotes iriam interferir?
— Você os chama de sacerdotes? Bem... sim. Eles não iriam interferir por
qualquer razão que possa imaginar. Sexo por prazer, o inimigo da religião, ah?
— Não aceite qualquer substitutivo para o êxtase religioso — comentou Lucilla. — Que Tantrus a proteja, mulher! Existem sacerdotes diferentes entre os Caçadores, que não se importam de acenar com o êxtase imediato em lugar de um paraíso em outro mundo.
Lucilla quase sorriu. Será que essa matadora independente de Honradas Madres achava realmente que podia dar aulas de religião a uma Reverenda Madre?
— Há pessoas por aqui que andam disfarçadas de sacerdotes explicou Sirafa.
— Isso é muito perigoso. E os mais perigosos são os seguidores de Tantrus, que afirmam que o sexo é seu modo exclusivo de cultuar seu deus.
— Como poderei reconhecê-los?
Lucilla percebia a sinceridade e a idéia de perigo na voz da mulher.
— Não deve preocupar-se com isso. Nunca demonstre reconhecer tais distinções. Sua maior preocupação é certificar-se de que será paga. Você, eu acho, devia cobrar 50 solares.
— Não me disse ainda por que eles iriam interferir.
Lucila olhou de novo para Burzmali. Ele tinha espalhado sobre a mesa as roupas de tecido grosseiro e estava tirando seus trajes de combate. Ela voltou sua atenção para Sirafa.
— Alguns seguem uma antiga convenção que lhes garante o direito de interromper seu acordo com Burzmali. Na verdade, alguns deles a estarão testando.
— Ouça com cuidado — advertiu Burzmali. — Isso é importante.
Sirafa disse:
— Burzmali estará vestido como um trabalhador do campo. Nada mais disfarçaria os calos provenientes do treinamento com as armas. Você o chamará de Skar, nome comum aqui.
— Mas como devo reagir à interrupção de um sacerdote?
Sirafa tirou um pequeno saco da cintura e o passou para Lucilla, que sentiu seu peso em uma das mãos.
— Isso aí contém 238 solares. Se alguém se identificar como um divino...
lembre-se, divino.
— Como poderia esquecer?
A voz de Lucilla era quase zombeteira. Sirafa não deu atenção.
— Se alguém assim interferir, você devolverá a Burzmali 50 solares e lhe pedirá desculpas. Também nesse saco está seu cartão de identificação como playfêmea, com o nome de Pira. Deixe-me ouvir você dizer o seu nome.
— Pira.
— Não! Acentue mais o “a”
— Pira!
— Está passável. Agora ouça com cuidado. Você e Burzmali estarão andando
pelas ruas tarde da noite. Eles imaginarão que você tenha atendido outros clientes anteriormente. Deve haver evidências. Portanto, você irá... ah, entreter Burzmali antes de sair daqui. Está entendendo?
— Que gentileza! — comentou Lucilla.
Sirafa recebeu o comentário como sinal de aprovação e sorriu, mas sua expressão permaneceu controlada. As reações dela eram tão estranhas!
— Uma coisa — disse Lucilla. — Se eu tiver que entreter um divino, como vou reencontrar Burzmali depois?
— Skar!
— Sim, como vou encontrar Skar?
— Ele vai esperar por perto, aonde você for. Irá ao seu encontro quando sair.
— Muito bem. Se um divino interromper-nos, devolverei 100 solares para Skar e...
— Cinqüenta!
— Não creio que seja esse o preço adequado, Sirafa — Lucilla sacudiu a cabeça. — Depois de ter sido entretido por mim, o divino vai saber que 50 solares é muito pouco.
Sirafa comprimiu os lábios e olhou além de Lucilla para Burzmali.
— Você me avisou a respeito dela, mas eu não supunha que...
Usando apenas um leve toque da Voz, Lucilla disse:
— Você não deve supor coisa alguma a meu respeito, a menos que ouça de minha boca!
Sirafa olhou com desprezo. Estava obviamente espantada com a Voz, mas se mostrou tão arrogante quanto antes quando voltou a falar.
— Acha que pode dispensar qualquer explicação a respeito de variações eróticas?
— Pode contar com isso — respondeu Lucilla.
— E não preciso dizer-lhe que seu manto a identifica como perita do quinto estágio na Ordem de Hormu?
Foi a vez de Lucilla olhar com desdém.
— E se eu mostrar habilidades além do quinto estágio?
— Ah — respondeu Sirafa. — Ainda aceita meus conselhos, então?
Lucilla fez que sim com a cabeça.
— Muito bem. Posso presumir que é capaz de administrar pulsações vaginais?
— Posso.
— De qualquer posição?
— Posso controlar qualquer músculo do meu corpo!
Sirafa olhou para Burzmali.
— É verdade?
Burzmali respondeu de um ponto logo atrás de Lucilla:
— Se não fosse ela não diria.
Sirafa olhou pensativa, os olhos focalizados no queixo de Lucilla.
— Isso complica as coisas, acho.
— Não me entenda mal — disse Lucilla. — As habilidades que me foram ensinadas não são para exibição. Têm outro propósito.
— Oh, tenho certeza que sim — disse Sirafa. — Mas a agilidade sexual é uma...
— Agilidade! — Lucila deixou que seu tom de voz transmitisse toda a força da indignação de uma Reverenda Madre. Não importava se era isso que Sirafa desejava, ela tinha que ser colocada em seu devido lugar:
— Agilidade! Eu posso controlar até a temperatura genital. Conheço e posso estimular os 51 pontos de excitação. Eu...
— Cinqüenta e um? Mas existem apenas.
— Cinqüenta e um! — retrucou Lucilla. — E a seqüência com mais as combinações possíveis chega a 2.008. Além disso, em conjugação com as 205
posições de coito.
— Duzentas e cinco? — Sirafa estava evidentemente espantada. —
Certamente não quer dizer que...
— Há mais, realmente, se contar com as variações menores. Sou uma Impressora, o que significa que domino os 300 passos da ampliação orgásmica!
Sirafa pigarreou e umedeceu os lábios com a língua.
— Devo avisá-la para que se contenha. Mantenha suas habilidades ocultas ou...
— Uma vez mais ela olhou para Burzmali. — Por que não me avisou?
— Eu avisei.
Lucilla percebia claramente o divertimento na voz dele, mas não olhou para trás para confirmar isso.
Sirafa inalou e expirou duas vezes.
— Se lhe fizerem alguma pergunta, diga que está a ponto de ser testada para promoção. Isso pode abafar as suspeitas.
— E se me perguntarem quanto ao teste?
— Oh, isso é fácil. Você sorri misteriosamente e fica calada.
— E se me fizerem perguntas a respeito dessa Ordem de Hormu?
— Ameace denunciar quem perguntar aos seus superiores. As perguntas devem parar.
— E se continuarem?
Sirafa deu de ombros.
— Invente a história que quiser. Mesmo uma Reveladora da Verdade se divertiria com suas evasivas.
Lucilla manteve no rosto uma expressão calma enquanto pensava em sua situação. Ouvira Burzmali — Skar! — mexendo-se diretamente atrás dela. Não via qualquer dificuldade séria em realizar aquilo que lhe pediam. Podia até mesmo proporcionar um divertido interlúdio que ela poderia depois contar na sede da
Irmandade. Sirafa, percebia ela, estava sorrindo para Burzmali... Skar! Lucilla virou-se e olhou para o seu cliente...
Burzmali encontrava-se nu, o capacete e o uniforme de combate bem dobrados ao lado do pequeno monturo de roupas de tecido grosso.
— Percebo que Skar aprova seus preparativos para esta aventura — comentou Sirafa. Indicou com a mão o pênis rígido e ereto de Burzmali. — Devo deixá-los agora.
Lucilla ouviu Sirafa sair através da cortina brilhante. Enchendo seus pensamentos havia uma constatação aborrecida:
“Esse aí devia ser o ghola!”
O esquecimento é seu destino. Todas as antigas lições da vida, você perde e ganha, perde e ganha de novo.
— Leto II a Voz de Dar-es-Balat
“Em nome de nossa Ordem e de sua inquebrantável Irmandade, este relato é considerado confiável e válido para fazer parte das Crônicas da Irmandade.”
Taraza olhou para as palavras projetadas pelo equipamento de exibição com uma expressão de desgosto. A luz matinal pintava um indistinto reflexo amarelo na projeção, fazendo com que as palavras parecessem enevoadas e misteriosas.
Com um movimento irritado, levantou-se da mesa de projeção e foi para a janela que dava para o sul. O dia estava apenas começando e as sombras pareciam longas lá no pátio.
“Devo comparecer em pessoa?”
Ela hesitou ao pensar nisso. Esses alojamentos davam-lhe um sentimento de tamanha... segurança. Mas isso era tolice, e ela o sabia com cada fibra de seu ser. A Bene Gesserit estava nesse planeta há 1.400 anos e ainda assim o planeta da Irmandade devia ser considerado um abrigo temporário.
Repousou a mão esquerda sobre a moldura lisa da janela. Cada janela fora posicionada para oferecer uma esplêndida visão. A sala, suas proporções, a mobília, as cores — tudo refletia o pensamento de arquitetos e construtores que tinham agido com o único propósito de criar um sentimento de conforto para os ocupantes.
Taraza tentou mergulhar nesse sentimento de conforto e fracassou.
As discussões por que passara a tinham deixado com um sentimento de amargura, muito embora as palavras tivessem sido ditas nos tons mais brandos. Suas conselheiras haviam sido inflexíveis e (ela concordava sem reservas) por motivos justos.