Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 7 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

Duncan era uma extensão de células que…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Muzzafar olhou para a expressão intrigada de Teg.

— Ora bolas! Vocês não têm árvores modeladoras, é claro. Perdoe minha terrível ignorância. Nós temos um bocado para ensinar um ao outro.

— Você chamou aquilo de lar? — perguntou Teg.

— Oh sim. Com o controle adequado, uma vez que elas aprendem a obedecer, é claro, as árvores modeladoras crescem para se transformarem em magníficas residências. Só leva uns quatro ou cinco Anos Padrão.

“Padrão”, pensou Teg. Então os Perdidos ainda usavam o Ano Padrão.

O tubo elevador assoviou e uma jovem usando um vestido azul de criada entrou de costas na sala, puxando um casulo aquecido que flutuava em suspensores antigravidade. Ela o colocou perto da mesa diante de Teg. Suas roupas eram do tipo que ele vira em sua viagem de inspeção, mas o rosto redondo e agradável que ela voltou em sua direção não era familiar. O crânio da moça tinha sido depilado, mostrando uma extensão de veias dilatadas. Seus olhos eram de um azul aquoso e

havia algo de amedrontado em sua postura. Ela abriu o casulo aquecido e o odor temperado da comida flutuou até as narinas de Teg.

Teg estava alerta, mas não sentiu qualquer ameaça imediata. Podia visualizar-se comendo aquela comida sem qualquer perigo posterior. A moça colocou uma fileira de pratos na mesa diante dele e arrumou os talheres com cuidado de um lado.

— Eu não tenho farejador, mas posso provar a comida se desejar — disse Muzzafar.

— Não é necessário — disse Teg.

Sabia que isso ia levantar suspeitas, mas achava que eles iriam pensar que ele era um Revelador da Verdade. Seu olhar voltou-se para a comida. Sem qualquer decisão consciente, curvou-se para a frente e começou a comer. Estando familiarizado com a fome-Mentat, suas próprias reações o surpreendiam. Usar o cérebro à maneira Mentat consumia calorias a uma taxa alarmante, mas havia agora uma nova necessidade a impulsioná-lo. Sentia sua própria sobrevivência a controlar suas ações.

Essa fome ia além de qualquer coisa que tivesse experimentado anteriormente. A sopa que tomara com cautela na casa do homem arrumado não tinha provocado uma reação como essa.

“O médico Suk escolheu corretamente”, pensou Teg. Essa comida fora selecionada a partir do diagnóstico do aparelho de exame.

E a moça foi trazendo novos pratos, de outros casulos aquecidos, que eram pedidos através do tubo elevador.

Teg teve que se levantar no meio da refeição para usar o sanitário do banheiro adjacente à sala, consciente de que havia olhos observadores mantendo-o sob vigilância. Sabia, por sua reação física, que seu sistema digestivo se havia acelerado de acordo com um novo nível de necessidades corporais. Quando voltou à mesa, sentia-se tão faminto como se ainda não tivesse comido nada.

A criada começou a demonstrar sinais de surpresa e então de preocupação.

Ainda assim continuava trazendo mais comida, segundo seus pedidos.

Muzzafar olhava com admiração crescente, mas não dizia coisa alguma.

Teg sentiu o apoio da nutrição que o alimento lhe trazia, o preciso ajustamento de calorias que o médico ordenara. Obviamente, contudo, eles não tinham pensado em quantidade. Era chocada que a moça obedecia aos seus pedidos.

Muzzafar disse finalmente:

— Devo dizer que nunca tinha visto alguém comer tanto de uma sentada. Não consigo compreender como faz isso e porquê.

Teg recostou-se no sofá, satisfeito afinal, sabendo que havia despertado uma curiosidade que não poderia ser satisfeita de modo sincero.

— É uma coisa Mentat — mentiu. — Tive um dia muito cansativo.

— Extraordinário — disse Muzzafar, levantando-se.

Quando Teg fez menção de fazer o mesmo, ele gesticulou para que

continuasse sentado.

— Não é preciso levantar-se. Preparamos um alojamento para você atrás daquela porta. Ainda não é seguro movimentar-se muito.

A moça saiu com os casulos de comida vazios.

Teg observou Muzzafar. Alguma coisa nas reações dele tinha mudado durante a refeição. Ele o observava agora de um modo frio e avaliador.

— Você tem um comunicador implantado — disse Teg. — E recebeu novas ordens.

— Não seria recomendável para seus amigos atacar este lugar — disse Muzzafar.

— Acha que é esse o meu plano?

— Qual é o seu plano, Bashar?

Teg sorriu.

— Muito bom.

O olhar de Muzzafar ficou desfocalizado enquanto ele ouvia nova mensagem do comunicador implantado em seu corpo. Quando se concentrou novamente em Teg, seu olhar era o de um predador. Teg sentiu-se agredido por aquele olhar, reconhecendo o indício de que alguém estava a caminho daquela sala. O Marechal-de-Campo pensava nesse novo desenvolvimento da situação como algo extremamente perigoso para seu convidado. Teg, contudo, não percebia coisa alguma que pudesse ameaçá-lo com suas novas capacidades.

— Pensa que sou seu prisioneiro? — perguntou ele.

— Pela Rocha Eterna, Bashar! Você não é o que eu esperava!

— E a Honrada Madre que está vindo, que será que ela espera? — perguntou Teg.

— Bashar, quero dar-lhe um conselho: não use esse tom de voz com ela. Não tem a menor idéia do que está a ponto de lhe acontecer.

— Uma Honrada Madre, isso é o que está a ponto de me acontecer.

— E eu desejo que se saia bem com ela!

Muzzafar virou-se e saiu pelo tubo elevador.

Teg ficou olhando na direção em que ele tinha saído. Podia perceber o tremular de sua segunda visão como uma luz piscando em torno do tubo elevador. A Honrada Madre estava perto, mas ainda não se encontrava preparada para entrar naquele salão. Primeiro iria consultar Muzzafar. Mas o Marechal-de-Campo não seria capaz de revelar nada de importante a essa mulher perigosa.

A memória nunca apreende a realidade. A memória a reconstrói. Toda reconstrução modifica o original, tornando-se uma estrutura externa de referência que inevitavelmente apresenta falhas.

— Manual Mentat

Lucilla e Burzmali entraram em Ysai vindos do sul através de um bairro pobre onde os postes de iluminação eram muito espaçados. Já havia passado uma hora desde a meia-noite e no entanto as ruas ainda estavam cheias de gente nesse bairro. Alguns andavam em silêncio, outros falavam com uma euforia induzida por drogas, outros apenas observavam. Agrupavam-se nos cantos e captavam a atenção fascinada de Lucilla.

Burzmali pediu que andasse mais depressa, um freguês ávido, ansioso para ficar sozinho com ela. Lucilla continuava observando disfarçadamente as pessoas.

Que fariam nesse lugar? Aqueles homens esperando junto às portas: esperavam o que? Trabalhadores usando pesados aventais emergiram de uma larga passagem enquanto Lucilla e Burzmali a atravessavam. Tinham forte cheiro de esgoto e transpiração. Estavam divididos igualmente entre homens e mulheres, todos altos, corpulentos e com braços muito grossos. Lucilla não conseguia imaginar qual seria a ocupação deles, mas formavam um tipo singular de gente, conscientizando-a do quão pouco ela sabia a respeito de Gammu.

Os trabalhadores escarravam e cuspiam na sarjeta assim que saíam para a rua.

“Estarão se livrando de algum contaminante?”

Burzmali aproximou a boca do ouvido de Lucilla e sussurrou:

— Esses trabalhadores são os Bordanos.

Ela arriscou olhar para trás enquanto entravam por uma rua lateral.

“Bordanos?” Ah, sim: gente criada e treinada para trabalhar com as máquinas compressoras que canalizavam os gases do esgoto. Através de procriação controlada, nasciam sem o sentido do olfato e com a musculatura dos ombros e dos braços aumentada. Burzmali a fez virar uma esquina, ficando fora da vista dos Bordanos.

Cinco crianças saíram de um portal escuro ao lado deles e andaram em fila, seguindo Lucila e Burzmali. Lucilla notou que eles traziam nas mãos pequenos objetos e os seguiam com estranha atenção. De repente Burzmali parou e se voltou. As crianças também pararam e ficaram olhando para ele. Era evidente para Lucilla que as crianças estavam preparadas para cometer alguma violência.

Burzmali uniu as mãos diante do peito, curvou-se para as crianças e disse:

— Guldur!

Quando voltou a conduzi-la pelas ruas, as crianças não mais os seguiam.

— Elas iam apedrejar-nos — explicou ele.

— Por quê?

— Essas crianças são de uma seita que segue Guldur, o nome local do Tirano.

Lucilla olhou à procura das crianças que tinham desaparecido. Haviam partido à procura de outras vítimas.

Burzmali levou-a a dobrar outra esquina. Agora estavam numa rua cheia de pequenos comerciantes vendendo suas mercadorias acondicionadas dentro de carrocinhas — comida, roupas, pequenas ferramentas e facas. Um coro de gritos bem-orquestrado erguia-se no ar enquanto os vendedores tentavam atrair fregueses. Mas suas vozes já tinham o som do final de um dia de trabalho — aquele falso entusiasmo composto pela esperança de que velhos sonhos se realizem e, ao mesmo tempo, a consciência de que a vida para eles não ia mudar. Ocorreu a Lucilla que as pessoas dessas ruas seguiam um sonho esquivo no qual a realização que buscavam não passava de um mito que tinham sido condicionadas a perseguir, do mesmo modo como animais em pistas de corridas eram treinados para correr interminavelmente atrás de uma isca.

Diretamente à frente deles, na rua, uma figura corpulenta, usando um casaco muito acolchoado, discutia em voz alta com um vendedor que lhe oferecia uma saca cheia de bulbos vermelhos de uma fruta ácida. O cheiro da fruta era forte. O

vendedor queixava-se:

— Está tirando a comida da boca dos meus filhos.

O sujeito corpulento respondeu com voz aguda, o sotaque terrivelmente familiar a Lucilla:

— Eu também tenho filhos.

Lucilla controlou-se com esforço.

Depois que tinha saído da rua do mercado, ela sussurrou para Burzmali:

— Aquele homem de casaco espesso lá atrás.. era um Mestre Tleilaxu.

— Não podia ser — protestou Burzmali. — Muito alto.

— Eram dois deles. Um em pé sobre os ombros do outro.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Vi outros como ele desde que chegamos, mas não tinha suspeitado.

— Há muitos caçadores procurando por nós nestas ruas.

Lucilla achou que não se importava com a vida que levavam os habitantes das sarjetas desse planeta-sarjeta. Não confiava mais na explicação que a Irmandade dera para trazer o ghola. De todos os planetas onde esse precioso ghola podia ter sido criado, por que tinham escolhido exatamente esse? Será que o ghola era realmente valioso? Ou teria sido meramente uma isca?

Quase bloqueando a passagem na entrada de um beco ao lado deles, havia um homem manipulando um engenho comprido com luzes rodopiantes.

— Vivo! — apregoava. — Vivo!

Lucilla retardou o passo para observar um passante entrar no beco, depois de entregar uma moeda ao sujeito, e se inclinar sobre uma bacia côncava que as luzes tornavam brilhante. O proprietário do aparelho luminoso encarou Lucilla. Ela viu um

homem de face estreita e escura, a face de um Caladaniano primitivo num corpo somente um pouco mais alto que o de um Mestre Tleilaxu. Havia uma expressão de desprezo em seu rosto meditativo enquanto ele recebia o dinheiro do freguês.

O freguês ergueu o rosto da bacia com um estremecimento e então saiu do beco cambaleante, os olhos vidrados.

Lucilla reconheceu o engenho. Seus usuários o chamavam de hipnobong e era proibido em todos os mundos mais civilizados. Burzmali apressou-se em afastá-la da vista do meditativo proprietário do hipnobong.

Chegaram a uma larga rua lateral com um portal bem no prédio da esquina.

Gente passava a pé por todos os lados e não havia sinal de veículos. Um homem alto estava sentado nos degraus que conduziam à porta do prédio da esquina, os joelhos dobrados junto ao queixo. Seus braços compridos estavam dobrados em torno dos joelhos, os dedos finos das mãos unindo-se com força. Usava um chapéu preto de aba larga para abrigar o rosto da iluminação da rua, mas o brilho de seus olhos sob a sombra do chapéu revelou a Lucilla que esse não era nenhum tipo de ser humano que ela já tivesse conhecido algum dia. Era alguma coisa a respeito da qual a Bene Gesserit só conseguira especular.

Burzmali esperou até que estivessem bem longe da figura sentada para satisfazer a curiosidade dela.

— Frutar — sussurrou. — É assim que eles chamam a si mesmos. Estão aqui em Gammu há muito tempo.

“Uma experiência dos Tleilaxu”, pensou Lucilla. “Uma falha que voltou da Dispersão.”

— Que é que eles estão fazendo aqui? — perguntou ela.

— Colônia de comerciantes, é o que dizem os nativos.

— Não acredite nisso. Eles são o produto do cruzamento de seres humanos com animais predadores.

— Ah, aqui estamos — disse Burzmali.

Guiou Lucilla por uma porta estreita, entrando num restaurante pouco iluminado. Isso era parte do disfarce. Lucilla sabia muito bem: Faça o que os moradores deste bairro costumam fazer. Mas ela não gostaria de comer num lugar como este, não a partir do que podia interpretar pelos cheiros.

O lugar estivera cheio, mas começava a se esvaziar quando eles entraram.

— Este lugar foi muito recomendado — disse Burzmali enquanto se sentavam numa mecanofenda e esperavam que o cardápio fosse projetado.

Lucilla observou os fregueses saindo. Trabalhadores do turno da noite em fábricas e escritórios próximos, calculou. Pareciam ansiosos e apressados, talvez temerosos do que lhes pudesse acontecer se chegassem atrasados.

Como ficara isolada no Castelo, pensou ela. Não gostava nada do que estava descobrindo a respeito de Gammu. Que lugar sebento era essa lanchonete! Os

banquinhos junto do balcão à sua direita estavam lascados e riscados. O tampo da mesa fora esfregado com utensílios de limpeza de má qualidade que o tinham deixado arranhado até não poder ser mais limpo com a mangueira do aspirador que ela podia notar perto de seu cotovelo esquerdo. Não havia indício do limpador sônico mais barato para manter a higiene desse lugar. Restos de comida e outras evidências de deterioração tinham se acumulado nas fendas da mesa. Lucilla estremeceu. Não podia evitar o pensamento de que fora um erro separar-se do ghola.

O cardápio fora projetado e ela podia notar que Burzmali o estava lendo.

— Farei o pedido por você — ele disse.

O modo como Burzmali falou indicava que ele não queria que ela cometesse um erro ao pedir alguma coisa que uma mulher de Hormu não pediria.

Irritava-a sentir-se dependente. Era uma Reverenda Madre! Estava treinada para assumir o comando em qualquer situação, dona do seu próprio destino. Como isso tudo era cansativo. Ela gesticulou em direção à janela suja à sua esquerda, onde se via gente passando na rua.

— Estou perdendo fregueses enquanto demoramos, Skar.

“Isso está de acordo com meu papel.”

Burzmali quase suspirou. “Afinal!”, pensou. Ela recomeçara a agir como Reverenda Madre. Não conseguia entender-lhe a atitude abstrata, o modo como olhava para a cidade e sua gente.

Duas bebidas leitosas emergiram da fenda para cima da mesa. Burzmali tomou a sua num único gole. Lucilla testou a bebida com a ponta da língua, avaliando seu conteúdo. Uma imitação de cafeinato com um suco com sabor de nozes.

Burzmali gesticulou para cima com o queixo, indicando que ela devia beber rapidamente. Ela obedeceu, disfarçando uma careta ante os sabores químicos. A atenção de Burzmali voltava-se para alguma coisa além do ombro direito dela, mas Lucilla não se atrevia a olhar para trás. Isso não estaria de acordo com o papel que representava.

— Venha.

Ele colocou uma moeda sobre a mesa a saiu com ela apressadamente para a rua. Sorriu como um freguês ávido, mas havia preocupação em seus olhos.

O ritmo da rua tinha mudado. Havia pouca gente agora, e as portas envoltas em sombras transmitiam uma sensação de profunda ameaça. Lucilla lembrou-se de que devia parecer uma integrante de uma poderosa sociedade cujas componentes estavam imunes à violência comum das sarjetas e dos becos. As poucas pessoas na rua de fato lhe abriam caminho, olhando os dragões de seu manto com todo o jeito de admiração.

Burzmali parou junto de uma porta.

Era como as outras ao longo da rua, ligeiramente recuada da calça e tão alta que parecia mais estreita do que realmente era. Um facho de segurança modelo antigo guardava a entrada. Aparentemente, nenhum dos sistemas mais modernos havia

chegado a esses cortiços. As próprias ruas eram testemunho disso: projetadas para carros de solo. Lucilla duvidava de que houvesse uma plataforma de pouso no telhado de algum prédio desse bairro. Não se podia ouvir nenhum som de tópteros ou de voadores. Mas se ouvia o som de música — um fraco sussurrar reminescente da semuta. Algo novo no vício da semuta? Esse certamente seria um lugar onde os viciados poderiam alojar-se.

Lucilla examinou a fachada do prédio enquanto Burzmali tomava sua frente e anunciava sua presença, interrompendo o feixe da porta.

Não havia janelas na fachada do prédio. Somente o fraco brilho dos olhos de vigilância e o lustro opaco de plasteel antigo. Eram olhos de vigilância antigos, notou Lucilla, muito maiores que os modelos modernos.

Uma porta oculta nas sombras girou para dentro sobre dobradiças silenciosas.

— Por aqui — disse Burzmali, enquanto estendia um braço para trás e a puxava com uma das mãos no ombro.

Entraram num corredor fracamente iluminado que tinha cheiro de comidas exóticas e essências amargas. Lucilla levou um momento identificando as coisas que lhe atingiam as narinas. Melange, sim, havia o inconfundível cheiro de canela. E

semuta, claro. Identificou o odor de arroz queimado e de sais químicos. Alguém estava disfarçando outro tipo de cozinha. Estavam fabricando explosivos nesse lugar.

Pensou em avisar Burzmali, mas reconsiderou. Não era necessário que ele soubesse, e podia haver ouvidos ocultos nesse espaço confinado.

Burzmali conduziu-a por um escuro lance de escadas com uma fraca tira luminosa ao longo do rodapé. No alto encontrou um botão oculto por trás de um conserto no reboco em ruínas da parede. Não se produziu som algum quando ele acionou o botão, mas Lucilla sentiu uma mudança nos movimentos à sua volta.

Silêncio. Era um novo tipo de silêncio em suas experiências. O silêncio da expectativa de luta ou violência.

Estava frio na escadaria e ela estremeceu, mas não do frio. Passos soaram além da porta, junto do remendo na parede.

Uma bruxa de cabelos grisalhos, usando um vestido amarelo, abriu a porta e olhou para eles.

— É você — ela disse, a voz trêmula.

Abriu caminho para que entrassem.

Lucilla olhou rapidamente à sua volta enquanto ouvia a porta fechar-se atrás dela. Estavam numa sala que uma pessoa pouco observadora poderia considerar pobre, mas essa aparência era superficial. Por baixo da aparente pobreza havia qualidade. A pobreza era outro disfarce. Esse lugar fora arrumado por uma pessoa muito exigente. Isto fica aqui e em nenhum outro lugar! Aquilo tem que ficar ali! A mobília e as quinquilharias pareciam um pouco gastas, mas quem morava ali não fazia objeções nesse sentido. O aposento estava melhor desse modo. Era esse tipo de ambiente.

Quem seria o dono do lugar? A velha? Ela estava caminhando penosamente para a porta à sua esquerda.

— Não queremos ser perturbados até o dia amanhecer — disse Burzmali.

A velha parou e se virou.

Lucilla observou-a com atenção. Seria outra que disfarçava, simulando uma idade avançada? Não. Nessa a idade era verdadeira. Cada movimento era inseguro, fraco — um tremor no pescoço, uma falha do corpo que a denunciava de um modo que ela não poderia evitar.

— Mesmo se for alguém importante? — perguntou a mulher com sua voz trêmula.

Os olhos piscavam quando ela falava e sua boca se abria apenas o mínimo necessário para emitir os sons, as palavras espaçadas como se as retirasse de algum lugar profundo em seu interior. Os ombros, curvados por anos passados dobrada sobre algum trabalho fixo, não se empertigavam o suficiente para que ela pudesse olhar Burzmali nos olhos. Olhava para cima, em direção às sobrancelhas, numa postura curiosamente furtiva.

— Que pessoa importante está esperando? — perguntou Burzmali.

A velha estremeceu e pareceu levar longo tempo para compreender.

— Gente importante vem aqui — ela disse.

Lucilla reconheceu os sinais corporais e falou porque Burzmali precisava saber:

— Ela é de Rakis!

O olhar curioso da velha voltou-se para Lucilla. Sua voz ancestral disse:

— Fui uma sacerdotisa, Senhora de Hormu.

— É claro que ela é de Rakis — disse Burzmali.

Seu tom de voz advertia para não questionar.

— Eu jamais poderia fazer-lhe mal — gemeu a velha.

— Ainda serve o Deus Dividido?

Novamente houve um longo atraso para que a mulher respondesse.

— Muitos servem o Grande Guldur — ela disse.

Lucilla comprimiu os lábios e examinou a sala uma vez mais. A velha fora muito reduzida em sua importância.

— Fico feliz por não precisar matá-la — disse Lucilla.

O queixo da velha caiu numa paródia de surpresa enquanto a saliva escorria de seus lábios.

Seria ela uma descendente dos Fremen? Lucilla deixou escapar sua repugnância num longo estremecimento. Essa escória humilhante fora moldada a partir de um povo que caminhava altivo e orgulhoso, um povo que lutava e morria com bravura.

Essa aqui morreria choramingando.

— Por favor, confiem em mim — disse a velha.

Virou-se e saiu.

— Por que você fez isso? — perguntou Burzmali, irritado. — É essa gente

que vai nos levar para Rakis!

Ela apenas olhou para ele, reconhecendo o temor em sua pergunta. Ele temia por ela. “Mas eu não cheguei a imprimi-lo”, pensou.

Com um sentimento de choque, Lucilla percebeu que Burzmali tinha reconhecido o seu ódio. “Eu os odeio!”, pensou. “Odeio o povo deste planeta!”

Era uma emoção perigosa para uma Reverenda Madre. E ainda assim queimava dentro dela. Esse planeta a tinha mudado de um modo que não desejara.

Não queria a compreensão de que tais coisas podiam acontecer. A compreensão intelectual é uma coisa. A experiência, outra bem diferente.

“Malditos sejam todos eles!”

Mas eles já estavam amaldiçoados.

Sentia uma dor no peito. Frustração! Não havia modo de escapar a essa nova consciência. Que teria acontecido com essa gente?

“Gente?”

As cascas permaneciam ali, mas eles não mais poderiam ser considerados como totalmente vivos. Eram perigosos, contudo. Terrivelmente perigosos.

— Devemos repousar enquanto podemos — disse Burzmali.

— Quer dizer que não tenho que fazer juz ao meu dinheiro?

Burzmali empalideceu.

— Aquilo que fizemos foi necessário! Tivemos sorte de ninguém nos deter, mas podia ter acontecido!

— E este lugar é seguro?

— Tão seguro quanto eu puder torná-lo. Todo o mundo aqui foi escolhido por mim ou por minha gente.

Lucilla encontrou um longo sofá que tinha o cheiro de antigos perfumes e se recostou nele para se livrar das emoções daquele ódio perigoso. Onde o ódio entrava, o amor poderia segui-lo! Ouviu Burzmali espreguiçando-se sobre as almofadas junto da parede. Logo ele estava respirando profundamente, mas Lucilla não conseguia pegar no sono. Continuava sentido multidões de memórias, coisas impulsionadas pelos outros que compartilhavam de seus depósitos internos de pensamentos. De repente uma visão interior lhe deu um vislumbre de ruas e rostos, gente andando sob o brilho da luz do sol. levou um momento para ela perceber que estava vendo aquilo de um ângulo peculiar — estava sendo carregada nos braços de alguém. Sabia que essas eram memórias pessoais suas. Podia lembrar quem a estava carregando, sentir a batida de seu coração e seu rosto morno.

Lucila sentiu o gosto salgado de suas próprias lágrimas.

E percebeu que Gammu a tinha tocado mais profundamente do que qualquer outra experiência que tivera desde seus primeiros dias nas escolas Bene Gesserit.

Guardado por fortes barreiras, o coração transforma-se em gelo.

— Darwi Odrade

Argumento diante do Conselho

Era um grupo dominado por violentas tensões: Taraza (usando uma armadura secreta sob os mantos e consciente das outras precauções que tinha tomado), Odrade (certa de que ia haver violência e por isso extremamente precavida), Sheeana (plenamente instruída quanto ao que podia acontecer ali e resguardada atrás de três Madres da Segurança que andavam em torno dela como uma armadura de carne), Waff (preocupado, achando que seu raciocínio podia ter sido prejudicado por algum artifício da Bene Gesserit), o falso Tuek (demonstrando todos os sinais de estar a ponto de explodir em fúria) e nove conselheiros Rakianos de Tuek (todos altamente preocupados em conseguir a ascensão de suas famílias).

Somando-se a esse grupo, havia cinco acólitas guardiãs, criadas e treinadas para a violência física, todas mantendo-se juntas de Taraza. Waff fazia-se acompanhar de igual número dos novos Dançarinos Faciais.

Estavam reunidos na cobertura no topo do museu de Dar-es-Balat. Era um grande salão, com uma parede de plaz voltada para oeste cruzando um jardim suspenso de plantas delicadas. O interior estava mobiliado com divãs macios e decorado com objetos de arte da não-câmara do Tirano.

Odrade fora contra a inclusão de Sheeana no grupo, mas Taraza permanecera inflexível. O efeito que a jovem exercia sobre Waff e alguns membros do clero representava grande vantagem para a Bene Gesserit.

Escudos dolban baixavam-se sobre a longa fileira de janelas para filtrar o brilho do sol poente. O fato de o salão voltar-se para oeste revelava algo a Odrade. As janelas davam para as terras do crepúsculo, onde repousava o Shai-hulud. Um aposento focalizado no passado, na morte.

Ela admirou os dolbans diante dela. Eram placas negras achatadas, com apenas 10 moléculas de espessura, girando num meio líquido transparente. Regulados automaticamente, os melhores dolbans Ixianos admitiam apenas a passagem de um nível predeterminado de iluminação, sem impedir a visão do exterior. Artistas e comerciantes de antigüidades preferiam-nos ao sistema de polarização, sabia Odrade, porque deixavam passar todo o espectro da luz disponível. Sua instalação revelava os usos desse salão — um lugar de exibição para o melhor que houvesse no tesouro do Imperador-Deus. Sim, ali estava um vestido que fora usado pela escolhida para ser sua noiva.

Os sacerdotes conselheiros discutiam furiosamente entre si, numa extremidade do salão, ignorando o falso Tuek. Taraza mantinha-se por perto ouvindo. Sua expressão revelava que ela os julgava todos.

Waff mantinha-se junto ao seu séquito de Dançarinos Faciais, perto da ampla

porta de entrada. Sua atenção ia de Sheeana para Odrade, de Odrade para Taraza e, ocasionalmente, para a discussão entre os sacerdotes. Cada movimento de Waff traía suas incertezas. Será que a Bene Gesserit iria realmente apoiá-lo? Será que juntos poderiam dominar a oposição Rakiana por meios pacíficos?

Sheeana e sua escolta vieram colocar-se ao lado de Odrade. A jovem ainda mostrava uma musculatura fibrosa, mas estava encorpando e os músculos iam assumindo o padrão definido da Bene Gesserit. A superfície das maçãs do rosto ia se tornando mais arredondada sobre a pele cor de oliva, os olhos castanhos, mais luminosos. Entretanto, ainda havia reflexos vermelhos em seu cabelo castanho. A atenção que ela dedicava aos sacerdotes revelava estar avaliando aquilo que lhe fora revelado.

— Eles vão lutar realmente? — sussurrou ela.

— Escute o que dizem — respondeu Odrade.

— Que vai fazer a Madre Superiora?

— Observe-a com cuidado.

Ambas olharam para Taraza que se destacava em meio à sua escolta de acólitas musculosas. Taraza agora parecia divertida enquanto continuava a observar os sacerdotes.

O grupo Rakiano começara a discussão no jardim da cobertura e fora entrando à medida que as sombras do poente se tornavam mais longas. Respiravam agitados, murmuravam por vezes e então erguiam as vozes. Será que não percebiam como o falso Tuek os vigiava?

Odrade voltou sua atenção para o horizonte, visível além do jardim. Não havia sinal de vida lá no deserto. Em qualquer direção em que se olhasse a partir de Dar-es-Balat, só se viam areia e vazio. As pessoas ali nascidas e criadas tinham uma visão da vida e de seu planeta diferente daquela da maioria desses sacerdotes. Esse não era o Rakis dos cinturões verdes e dos oásis irrigados, que se agrupavam nas altas latitudes como pétalas de flores apontando para as trilhas do deserto. Lá, além de Dar-es-Balat, se encontrava o deserto equatorial a se estender como um cinturão em volta do planeta inteiro.

— Já ouvi o bastante dessa tolice! — explodiu o falso Tuek. Puxou para o lado, violentamente, um dos conselheiros e entrou no meio do grupo que discutia, virando-se para olhar cada um dos rostos. — Vocês ficaram malucos? Todos vocês?

Um dos sacerdotes (era o velho Albertus, por todos os deuses!) olhou na direção de Waff e disse:

— Sr. Waff! Quer por favor controlar seu Dançarino Facial?

Waff hesitou e depois caminhou em direção ao grupo que discutia, seu séquito a acompanhá-lo logo atrás.

O falso Tuek virou-se e apontou o dedo para Waff:

— Você! Fique onde está! Não aceitarei qualquer interferência Tleilaxu! Sua conspiração está muito clara para mim!

Odrade observava Waff enquanto o falso Tuek falava. Surpresa! O Mestre Bene Tleilaxu nunca fora tratado desse modo por um de seus asseclas. Que choque! A raiva desfigurou-lhe o rosto. Um zumbido, como o som de insetos irritados, saiu de sua boca, uma coisa modulada que era evidentemente algum tipo de linguagem. Os Dançarinos Faciais da escolta ficaram imobilizados, congelados, mas o falso Tuek apenas voltou sua atenção para os conselheiros.

Waff parou de zumbir. A consternação tomou conta de seu rosto! Seu Tuek Dançarino Facial não se deixava dominar! Andou furioso na direção dos sacerdotes, mas o falso Tuek o viu e uma vez mais apontou a mão para ele, o dedo trêmulo.

— Eu lhe disse para ficar fora disto! Você pode ser capaz de me eliminar, mas não vai me enterrar em sua sujeira Tleilaxu!

Foi o suficiente. Waff parou, compreendendo afinal. Olhou para Taraza, cuja expressão de divertimento revelava que ela reconhecia suas dificuldades. Agora ele tinha um novo alvo para o seu ódio.

— Você sabia!

— Eu suspeitava.

— Você... você...

— Você o moldou muito bem — comentou Taraza. — Ele é sua criação.

Os sacerdotes ignoravam essa troca de palavras e gritavam para o falso Tuek, mandando-o calar-se e sair dali. Chamavam-no de “maldito Dançarino Facial”.

Odrade observou cuidadosamente o objeto desse ataque. A que profundidade chegaria a impressão? Estaria ele realmente convencido de que era Tuek?

Numa súbita interrupção das vozes, o mímico reuniu sua dignidade e olhou, cheio de desprezo, para seus acusadores.

— Vocês todos me conhecem — ele disse. — Todos têm consciência dos meus anos de serviço ao Deus Dividido que é o Único Deus. Irei ao encontro dele agora, se sua conspiração chega a esse ponto, mas lembrem-se disto: Ele sabe o que se passa em seus corações!

Os sacerdotes voltaram-se para Waff como se fossem uma única pessoa.

Nenhum deles tinha visto o Dançarino Facial substituir seu Alto Sacerdote. Não houvera nenhum cadáver para ser visto. Toda a evidência eram vozes humanas dizendo coisas que poderiam ser mentiras. Um pouco tardiamente, vários deles olharam para Odrade. A voz dele fora uma daquelas que os tinham convencido.

Waff também estava olhando para Odrade.

Ela sorriu e se dirigiu ao Mestre Tleilaxu:

— Convém aos nossos propósitos que o posto de Alto Sacerdote não caia em outras mãos nesta ocasião — ela disse.

Waff imediatamente percebeu a vantagem para si próprio. Estava numa corda bamba entre o clero e a Bene Gesserit. E isso afastava um dos trunfos mais perigosos que a Irmandade tinha sobre os Tleilaxu.

— Convém aos meus propósitos também — ele disse.

Quando os sacerdotes ergueram uma vez mais suas vozes em fúria, Taraza entrou na deixa:

— Qual de vocês quebraria nosso acordo? — perguntou.

Tuek empurrou para o lado dois de seus conselheiros e caminhou ao encontro da Madre Superiora. Parou a um passo dela.

— Que jogo é esse? — perguntou.

— Nós o apoiamos contra aqueles que iriam derrubá-lo — ela disse. — E a Bene Tleilax se une a nós. E nosso modo de demonstrar que também temos direito a votar na escolha do Alto Sacerdote.

Vários sacerdotes ergueram suas vozes ao mesmo tempo:

— Ele é ou não é um Dançarino Facial?

Com expressão benevolente, Taraza olhou para o homem diante dela:

— Você é um Dançarino Facial?

— É claro que não!

Taraza olhou para Odrade, que disse:

— Parece que houve um engano.

Odrade olhou para Albertus no meio dos outros sacerdotes e chamou:

— Sheeana, que é que a Igreja do Deus Dividido deve fazer agora?

Como tinha sido instruída a fazer, Sheeana saiu do meio da sua escolta e falou com toda a altivez que lhe tinham ensinado:

— Ela deve continuar servindo a Deus!

— O assunto deste encontro parece ter sido concluído — comentou Taraza.

— Se precisar de proteção, Alto Sacerdote Tuek, um grupo de nossas guardas estará à espera no corredor. Elas obedecerão ao seu comando.

Ela podia notar nele a aceitação e o entendimento. Ele se tornara uma criatura da Bene Gesserit. Não lembrava mais nada de suas origens como Dançarino Facial.

Depois que Tuek e os sacerdotes tinham saído, Waff dirigiu uma única palavra a Taraza, falando na linguagem do Islamiyat:

— Explique!

Taraza saiu do meio de sua guarda, fingindo tornar-se vulnerável. Era um movimento calculado que ela tinha debatido diante de Sheeana. Na mesma linguagem, respondeu:

— Nós renunciamos ao nosso domínio sobre a Bene Tleilax.

Aguardou enquanto ele avaliava essas palavras. Taraza lembrava-se de que o nome Tleilax podia ser traduzido como “os impronunciáveis”. Esse era um rótulo freqüentemente reservado apenas aos deuses.

Esse deus, obviamente, não havia estendido a descoberta que fizera aqui do que deveria estar acontecendo com seus outros substitutos ante os Ixianos e as Oradoras Peixes. Waff teria outras surpresas e outros choques no futuro. Parecia muito intrigado, contudo. Estava confrontando muitas perguntas sem respostas. Não estava satisfeito com os relatórios que recebera de Gammu. Agora estava fazendo um

jogo duplo muito perigoso. Será que a Irmandade fazia um jogo semelhante? Mas os Tleilaxu que estavam entre os Perdidos não poderiam ser afastados sem provocar um ataque das Honradas Madres. A própria Taraza lhe advertira quanto a isso. Será que o velho Bashar em Gammu ainda representava uma força digna de ser considerada?

Ele verbalizou essa pergunta.

Taraza respondeu com sua própria pergunta:

— Como alterou nosso ghola? O que vocês esperavam ganhar? Ela tinha quase certeza de que já sabia. Mas a ilusão de ignorância era necessária.

Waff queria dizer: “A morte de todas as Bene Gesserit!” Elas eram perigosas demais. E no entanto seu valor era incalculável. Mergulhou num silêncio sorumbático, olhando para as Reverendas Madres com uma expressão meditativa que tornava suas feições de duende ainda mais infantis.

“Uma criança petulante, pensou Taraza. lembrou a si mesma que era perigoso subestimar Waff. Quebra-se a casca dos Tleilaxu apenas para encontrar outra casca por dentro — ad infinitum! Tudo levava de volta às suspeitas de Odrade com relação a discórdias que ainda poderiam provocar uma violência sangrenta dentro desse salão.

Será que os Tleilaxu tinham realmente revelado aquilo que haviam aprendido com as prostitutas e com os outros Perdidos? Será que o ghola era apenas uma arma potencial dos Tleilaxu?

Taraza resolveu sondá-lo uma vez mais, usando como abordagem a “Análise Nove” de seu Conselho. Ainda na linguagem do Islamiyat, ela disse:

— Você iria desonrar-se na terra do Profeta? Ainda não compartilhou abertamente tudo que disse que iria.

— Nós lhe contamos sobre o controle sexual.

— Não contaram tudo! — interrompeu ela. — E por causa do ghola e sabemos disso.

Ela podia perceber suas reações. Waff era uma animal encurralado. E um animal nessa situação era extremamente perigoso. Tinha visto uma vez um cão mestiço, um sobrevivente selvagem dos animais de estimação de Dan, ser encurralado por uma matilha de animais jovens. O animal voltou-se contra seus perseguidores, abrindo caminho para a liberdade com uma fúria totalmente inesperada.

Dois dos perseguidores tinham ficado aleijados para o resto da vida e somente um escapara sem ferimentos! Waff era como esse animal agora. Podia ver suas mãos procurando uma arma, mas os Tleilaxu e as Bene Gesserit tinham examinado uns aos outros com extremo cuidado antes de virem para cá. Sentia-se segura de que ele não tinha arma alguma.

Ainda assim...

Waff falou, depois de usar o suspense à sua maneira:

— Pensa que não conheço o modo como esperam governar-nos?

— E existe a podridão que a gente da Dispersão levou consigo — ela disse. —

A podridão interior.

As maneiras de Waff modificaram-se. Ele não ignorava as profundas implicações do pensamento Bene Gesserit. Mas não estaria ela semeando a discórdia?

— O Profeta deixou um localizador funcionando nas mentes de cada ser humano. Disperso ou não — disse Taraza. — Ele os trouxe de volta para nós com toda a podridão intacta.

Waff comprimiu os dentes. Que estaria ela fazendo? Imaginou se a Bene Gesserit não teria confundido sua mente com alguma droga secreta vaporizada no ar. Elas conheciam coisas que eram negadas aos outros! Olhou de Taraza para Odrade e de novo para Taraza. Sabia que era velho através das ressurreições em série como ghola, mas não velho do modo como o eram as Bene Gesserit. Essa gente era realmente antiga.

Elas raramente aparentavam a velhice, mas eram velhas, velhas além de qualquer coisa que se atrevia a imaginar.

Taraza estava tendo pensamentos semelhantes. Vira o brilho de uma consciência profunda nos olhos de Waff. A necessidade abria novas portas para a razão. Que profundidade teriam atingido os Tleilaxu? Os olhos dele aparentavam tamanha antigüidade! Ela tinha a impressão de que o que quer que tivesse sido um cérebro nesses Mestres Tleilaxu transformara-se numa outra coisa — uma hologravação da qual todas as emoções que pudessem enfraquecê-los tivessem sido apagadas. Taraza compartilhava da desconfiança em relação às emoções que suspeitava em Waff. Seria isso um laço de união entre eles?

“O tropismo dos pensamentos comuns?”

— Você diz que renunciou à vantagem que tinha sobre nós — resmungou Waff —, mas eu sinto seus dedos em torno de minha garganta.

— Então, eis um aperto em nossa garganta — replicou ela. — Alguns de seus Perdidos voltaram para vocês. Nenhuma Reverenda Madre regressou para nós vinda da Dispersão.

— Mas você disse que sabia tudo sobre...

— Nós possuímos outros modos de obter conhecimento. Que supõe ter acontecido com as Reverendas Madres que enviamos para a Dispersão?

— Um desastre comum?

Ele sacudiu a cabeça. Essa era uma informação absolutamente nova. Nenhum dos Tleilaxu que tinham retornado dissera coisa alguma a respeito. A discrepância alimentava suas suspeitas. Em quem deveria acreditar?

— Elas foram subvertidas — disse Taraza.

Odrade, ouvindo essa suspeita generalizada ser revelada abertamente pela Madre Superiora, sentiu o enorme poder implícito na simples declaração de Taraza.

Sentiu-se intimidada. Conhecia os recursos, os planos de contingência, os modos improvisados a que uma Reverenda Madre era capaz de recorrer para superar barreiras. Alguma coisa lá fora era capaz de vencer tudo isso?

Como Waff não respondesse, Taraza disse:

— Veio ao nosso encontro com as mãos sujas.

— Atreve-se a dizer isso? — perguntou Waff. — Vocês, que continuam a minar nossos recursos pelos modos que lhes foram ensinados pela mãe do Bashar?

— Sabíamos que vocês poderiam tolerar suas perdas se contassem com recursos da Dispersão.

Waff inspirou, trêmulo. Então a Bene Gesserit sabia até disso? Percebia, em parte, como ela tinha descoberto. Bem, poderia encontrar um modo de colocar o falso Tuek novamente sob controle. Rakis era o prêmio que os Dispersos realmente buscavam, e isso poderia ser exigido dos Tleilaxu.

Taraza caminhou para ficar ainda mais perto de Waff, sozinha e vulnerável.

Viu sua guarda ficar tensa. Sheeana deu um passo em direção à Madre Superiora, mas Odrade a puxou de volta.

Odrade mantinha sua atenção na Madre Superiora e não em seus atacantes em potencial. Será que os Tleilaxu estavam realmente convencidos de que a Bene Gesserit iria servi-los? Taraza tinha testado os limites dessa crença, não havia dúvida disso. E

usando a linguagem do Islamiyat. Entretanto, parecia muito solitária, afastada de sua guarda e tão perto de Waff e sua gente. Aonde as óbvias suspeitas de Waff iriam conduzi-lo agora?

Taraza estremeceu.

Odrade percebeu isso. Quando criança, Taraza fora anormalmente magra e nunca tivera um quilo em excesso. Isso a tornava extremamente sensível a mudanças de temperatura, intolerante para com o frio. Odrade, contudo, não tinha sentido qualquer mudança de temperatura nesse salão. Então Taraza devia ter tomado uma decisão perigosa, algo tão perigoso que seu corpo a havia traído. Não perigoso para ela, é claro, mas para a Irmandade. Ali estava o crime mais terrível que uma Bene Gesserit poderia cometer: ser desleal para com sua ordem.

— Nós vamos servi-los de todos os modos, exceto um — disse Taraza. —

Jamais nos tornaremos receptáculos de gholas!

Waff empalideceu.

Taraza continuou:

— Agora e nunca nenhuma de nós jamais servirá de... — Ela fez uma pausa

— ... de tanque axlotl.

Waff ergueu a mão direita para iniciar um gesto que toda Reverenda Madre conhecia: o sinal para seus Dançarinos Faciais atacarem.

Taraza apontou para a mão erguida:

— Se completar esse gesto, os Tleilaxu perderão tudo. A mensageira de Deus

— Taraza indicou Sheeana — vai virar as costas a vocês e as palavras do Profeta serão pó em suas bocas.

Na linguagem do Islamiyat, tais palavras foram demais para Waff. Ele abaixou a mão, mas continuou olhando furioso para Taraza.

— Minha embaixadora disse que compartilharíamos tudo que sabíamos —

continuou Taraza. — Você também disse isso. A mensageira de Deus escuta com os

ouvidos do Profeta! E que diz o Abdl dos Tleilaxu?

Waff abaixou os ombros.

Taraza virou-lhe as costas. Era um movimento ensaiado, e as outras Reverendas Madres sabiam que ela o fazia agora em perfeita segurança. Olhando para Odrade do outro lado do salão, Taraza permitiu-se um sorriso que ela sabia que Odrade interpretaria corretamente. Hora de um pouco de punição Bene Gesserit!

— Os Tleilaxu desejam uma Atreides para procriação — ela disse. — Eu lhes dou Darwi Odrade. Mais lhe será fornecido.

Waff tomou uma decisão.

— Vocês podem achar que sabem muito sobre as Honradas Madres — ele disse —, mas vocês...

— Prostitutas! — exclamou Taraza, voltando-se para ele.

— Como quiser. Mas há uma coisa a respeito delas que suas palavras desconhecem. Eu selo nosso acordo contando-lhe isso. Elas são capazes de amplificar as sensações de uma plataforma orgásmica, trasmitindo-as através de um corpo masculino. Elas produzem um envolvimento sensual no homem. Ondas de orgasmo amplificadas são criadas e podem continuar... sob controle da mulher durante um extenso período.