Os Hereges de Duna
Duncan era uma extensão de células que…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Foi esse nome que lhes dei.
— Mas por que...
— Você viveu sob o jugo dos Harkonnen e não aprendeu a mudar de identidade?
Duncan ficou em silêncio. Que significaria isso? Outro disfarce? Ambi...
Tormsa não tinha mudado de aparência. Tormsa. Seria esse um nome Tleilaxu?
O guia estendeu a Duncan uma xícara fumegante.
— Uma bebida para restaurar suas forças, Wose. Beba depressa. Vai mantê-lo aquecido.
Duncan fechou as mãos em torno da xícara. “Wose. Wose e Tormsa. Um Mestre Tleilaxu e seu acompanhante Dançarino Facial.”
Duncan ergueu a xícara em direção a Tormsa no antigo gesto Atreides entre companheiros de luta, então levou os lábios à borda. Quente! Mas esquentava seu corpo enquanto a engolia. Tinha um sabor doce associado a um gosto vegetal. Soprou e bebeu, depois de observar como Tormsa estava fazendo.
“É curioso que eu não suspeite de veneno ou droga”, pensou Duncan. Mas esse Tormsa e os outros, na noite passada, tinham algo do Bashar na maneira como agiam. O gesto a um companheiro de batalha viera naturalmente.
— Por que está arriscando a vida deste modo? — perguntou.
— Conhece o Bashar e precisa fazer essa pergunta?
Duncan ficou em silêncio, envergonhado.
Tormsa inclinou-se para diante e apanhou a xícara vazia. Logo, toda a evidência do lanche desaparecera sob as rochas e a terra.
Esse lanche revelava um planejamento cuidadoso, pensou Duncan. Ele se virou e se agachou no solo frio. A névoa continuava além da barreira de vegetação.
Ramos nus de árvores que tinham perdido as folhas no inverno dividiam o panorama em curiosos fragmentos e peças. Enquanto Duncan observava, a neblina começou a se dissipar, revelando os contornos indistintos de uma cidade, na extremidade do vale.
Tormsa agachou-se ao lado dele.
— Cidade muito antiga — ele disse. — Um lugar dos Harkonnen, olhe! —
Passou a Duncan um pequeno monoscópio. — É para lá que vamos à noite.
Duncan colocou o monoscópio sobre o olho direito e tentou focalizar a lente de óleo. Os controles pareciam diferentes daqueles com que estava familiarizado. Era diferente dos que aprendera a usar em sua juventude pré- ghola ou no Castelo.
Removeu o instrumento do olho e o examinou.
— Ixiano?
— Não, nós o fizemos — respondeu Tormsa, enquanto apontava para dois minúsculos botões acima do tubo negro. — Lento, rápido. Empurre o esquerdo para aproximar, o direito para recuar.
Novamente Duncan ergueu a lente para o olho.
A quem se referia ele ao dizer nós fizemos?
Um toque no botão de aproximação e a visão saltou ao seu olhar. Minúsculos pontos moviam-se na cidade. Gente! Aumentou a ampliação e as pessoas se transformaram em bonecos. Com elas para lhe dar o sentido de escala, Duncan percebeu que a cidade na extremidade do vale era imensa... e estava mais distante do que havia imaginado. Uma única estrutura retangular erguia-se no centro da cidade, seu topo sumindo nas nuvens. Gigantesca.
Duncan sabia agora que lugar era esse. A paisagem em volta havia mudado, mas a estrutura central permanecia fixa em sua memória.
“Quantos de nós sumiram naquele buraco negro do inferno para nunca mais voltar?” — Novecentos e cinqüenta andares — disse Tormsa, vendo para onde o olhar de Duncan se dirigia. — Quarenta e cinco quilômetros de comprimento por trinta de largura. Toda em plasteel e plaz blindado.
— Eu sei. — Duncan abaixou o monoscópio e o devolveu a Tormsa.
— Era chamada de Barony.
— Ysai — disse Tormsa.
— É assim que a chamam agora. Eu tenho alguns nomes diferentes para ela.
Duncan respirou fundo e dominou os antigos ódios. Aqueles a quem odiara estavam todos mortos agora. Somente o prédio permanecia. E as memórias.
Observou a cidade em torno da enorme estrutura. O lugar era uma extensão imensa de prédios baixos. Espaços verdes apareciam dispersos no meio, cada qual cercado por altos muros. Residências com parques particulares, dissera Teg. O monoscópio revelara guardas caminhando sobre os muros.
Tormsa cuspiu no chão diante dele.
— Lugar dos Harkonnen.
— Eles construíam para fazer as pessoas sentirem-se pequenas.
Tormsa concordou.
— Pequenas, sem poder.
O guia agora se tornara quase loquaz, pensou Duncan. Ocasionalmente, durante a noite, ele desafiara a ordem de silêncio e tentara
estabelecer uma conversa.
— Que animais fizeram estas passagens?
Parecera uma pergunta lógica de se fazer quando se caminhava por uma trilha de animais, sentindo-se o cheiro das feras.
— Não fale! — retrucara Tormsa.
Mais tarde Duncan perguntara por que não podiam obter um veículo de algum tipo e escapar nele. Até mesmo um carro de solo teria sido preferível a essa marcha dolorosa através de uma região onde um caminho parecia ser tão bom quanto qualquer outro.
Tormsa o detivera num trecho iluminado pelo luar e olhara para Duncan como se suspeitasse de que seu protegido se tivesse tornado subitamente desprovido de senso.
— Veículos podem ser seguidos!
— E ninguém pode seguir-nos quando andamos a pé?
— Quem segue também deve ir a pé. E aqui eles serão mortos. Eles sabem.
Que lugar estranho! Que lugar primitivo.
Dentro do abrigo do Castelo da Bene Gesserit, Duncan não pudera perceber a natureza do planeta à sua volta. Depois, dentro do não-globo, também estivera isolado de qualquer contato com o mundo exterior. Tinha memórias pré- ghola e memórias como ghola, mas como eram inadequadas! Quando pensava nisso agora, percebia que tinham existido indícios que poderia ter examinado. Era óbvio, por exemplo, que Gammu dispunha de um controle climático muito rudimentar. E Teg dissera que os monitores orbitais, que guardavam o planeta contra ataques de fora, eram os melhores.
Tudo para a proteção e muito pouco para o conforto. Nisso era como Arrakis.
“Rakis”, corrigiu-se.
Teg. Será que o velho tinha sobrevivido? Prisioneiro? Que significaria ser capturado pelo inimigo nessa época? No tempo dos Harkonnen, significara a escravidão brutal. Burzmali e Lucilla... Olhou para Tormsa.
— Vamos encontrar-nos com Burzmali e Lucila nessa cidade?
— Se eles conseguiram escapar.
Duncan olhou para suas roupas. Seriam um disfarce suficiente? Um Mestre Tleilaxu e seu companheiro? As pessoas pensariam que o companheiro era um Dançarino Facial, é claro. E Dançarinos Faciais eram perigosos.
As calças largas que usava eram feitas de um material que nunca tinha visto.
Ao toque, lembrava a lã, mas ele sentia que era artificial. Quando cuspiu nele, a saliva não aderiu e o cheiro não foi o da lã. Seus dedos detectaram uma uniformidade de textura que nenhum material natural poderia ter. As botas longas e macias, assim como o chapéu, eram do mesmo tecido. As roupas eram largas e infladas, exceto nos tornozelos. Não eram acolchoadas, contudo. Eram isoladas do frio por algum truque na manufatura que prendia o ar quente entre camadas. A cor era um verde mosqueado
e cinza, que constituía camuflagem excelente naquele lugar.
Tormsa vestia trajes semelhantes.
— Quanto tempo vamos esperar aqui? — perguntou Duncan.
Tormsa sacudiu a cabeça, pedindo silêncio. O guia agora estava sentado, as pernas dobradas, os joelhos unidos, os braços envolvendo as pernas e a cabeça apoiada nos joelhos. Os olhos vigiavam o vale.
Durante a viagem noturna, Duncan achara as roupas extraordinariamente confortáveis. Exceto por aquele momento na água, seus pés tinham permanecido aquecidos, se bem que não em demasia. Havia espaço suficiente dentro das calças, do blusão e da jaqueta para o corpo movimentar-se livremente. Nada lhe irritava a pele.
— Quem faz roupas assim? — perguntou.
— Nós as fazemos — grunhiu Tormsa. — Fique calado.
Isso não era diferente daqueles dias, antes do despertar, no Castelo da Irmandade, pensou Duncan. Tormsa estava dizendo: “Não há necessidade de você saber.”
Dai a pouco Tormsa esticou as pernas e endireitou o corpo. Parecia preparado para relaxar a vigilância. Olhou para Duncan.
— Amigos na cidade sinalizaram que há equipes de busca acima de nós.
— Tópteros?
— Sim.
— Então, o que vamos fazer?
— Deve repetir o que eu faço e nada mais.
— Você só está aí deitado.
— Por enquanto, mas logo vamos descer para o vale.
— Mas como?
— Quando você atravessa uma região como esta, deve fingir ser um dos animais que vivem aqui. Olhe os rastros e veja como eles caminham e como se deitam para descansar.
— Mas as equipes de busca não podem perceber à diferença entre...
— Se os animais pastam, você imita os movimentos de pastagem. Se a busca vier, você continua fazendo isso, fazendo o que um animal faria. Aqueles que nos procuram vão estar voando muito alto no céu. Sorte nossa. Não podem distinguir seres humanos de animais, a menos que desçam.
— E eles não vão.
— Eles confiam em suas máquinas e nos movimentos que podem ver. São preguiçosos. Voam muito alto. Desse modo a busca termina mais cedo. Confiam em sua própria inteligência para ler os instrumentos e distinguir o que é animal do que é humano.
— De modo que passarão por nós se acharem que somos animais selvagens.
— Se tiverem dúvidas, farão uma segunda varredura. Não devemos mudar o padrão de nossos movimentos depois de sermos observados.
Era um longo discurso para o taciturno Tormsa. Examinou Duncan com cuidado.
— Está entendendo?
— Como se sabe quando eles estão nos observando com os instrumentos de varredura?
— Você sente uma comichão nas tripas. Sente em seu estômago o fervilhar de uma bebida que homem nenhum engoliria.
Duncan assentiu com a cabeça.
— Detectores Ixianos.
— Não se deixe assustar por isso. Os animais aqui estão acostumados. Às vezes eles podem parar, mas apenas por um instante, e então continuam aquilo que estavam fazendo, como se nada tivesse acontecido. Algo que para eles é verdade. É só para nós que alguma coisa má poderia acontecer.
Dai a pouco Tormsa levantou-se.
— Vamos descer para o vale agora. Siga-me de perto. Faça exatamente aquilo que eu fizer e nada mais.
Duncan seguiu o passo de seu guia. Logo se encontravam sob a cobertura das árvores. Em algum ponto de sua caminhada noturna, Duncan passara a aceitar este lugar como aceitava os outros. Havia um novo sentimento de paciência em sua mente.
E havia a excitação estimulada pela curiosidade.
Que tipo de universo se desenvolvera desde o tempo dos Atreides? “Gammu.”
Que lugar estranho se tornara Giedi Prime.
De modo lento mas distinto, as coisas estavam se revelando, e cada nova descoberta abria a mente para outras coisas que podiam ser aprendidas. Podia sentir os padrões tomando forma. Um dia, acreditava, existirá apenas um padrão, e nesse dia ele saberia por que o tinham trazido de volta à vida.
Sim, era uma questão de abrir novas portas. Você abre uma e ela o conduz a um lugar onde existem novas portas. Você escolhe uma delas e examina o que lhe revelou. Pode haver ocasiões em que seja forçado a tentar abrir todas as portas, mas, quanto mais portas você abrir, mais certezas passará a ter quanto a que porta deverá abrir em seguida. E finalmente se abrirá uma porta para um lugar que você reconhecerá. “Ah”, você vai exclamar, “isto explica tudo.”
— A equipe de busca vem vindo! — avisou Tormsa. — Agora somos animais pastando.
Estendeu a mão para o capim que os cobria e tirou um raminho.
Duncan fez o mesmo.
Devo governar com o olho e com a garra — como um falcão entre pássaros inferiores.
— Declaração Atreides, (Ref: Arquivos BG)
Ao raiar do dia, Teg saiu de trás dos quebra-ventos que o tinham ocultado, à beira da estrada principal. A estrada era larga, uma via plana com piso endurecido por feixe e desprovida de qualquer vegetação. Dez pistas, estimou Teg, adequada para veículos e tráfego de pedestres. A maior parte do tráfego a essa hora era de pedestres.
Ele havia limpado as roupas de quase toda a poeira e se certificado de que não tinham divisas de posto. Seu cabelo grisalho não estava tão bem penteado quanto gostaria, mas tinha apenas os dedos para usar como pente.
O tráfego na estrada dirigia-se para a cidade de Ysai, que ficava a muitos quilômetros de distância, no interior do vale. O céu da manhã apresentava-se sem nuvens. Uma brisa suave que lhe atingia o rosto vinda do mar, que ficava em algum lugar bem atrás.
Durante a noite ele atingira um equilíbrio delicado com sua nova consciência.
As coisas surgiam em segundos na sua percepção. Percebia as coisas à sua volta antes que elas acontecessem, tinha consciência de onde devia colocar o pé antes de cada passo. E por atrás disso se encontrava aquele gatilho reativo que poderia fazê-lo movimentar-se a uma velocidade que a carne não devia ser capaz de suportar. A razão não podia explicar uma coisa dessas. Sentia-se caminhando precariamente no fio de uma navalha.
Embora tentasse, não era capaz de explicar o que lhe acontecera sob a ação da sonda-T. Seria semelhante ao que uma Reverenda Madre experimentava durante a agonia da especiaria? Mas ele não sentia qualquer acumulação de Outras Memórias de seu passado. Achava que as Irmãs não seriam capazes de fazer o que ele fizera. A dupla visão que lhe permitia antecipar cada movimento ao alcance de seus sentidos parecia um tipo novo de verdade.
Os professores Mentat de Teg lhe haviam garantido a existência de uma forma de verdade cuja prova não poderia ser obtida pela reunião costumeira de fatos. Ela aparecia algumas vezes em fábulas e na poesia, e freqüentemente agia contrariamente aos desejos.
— É a experiência mais difícil de ser aceita por um Mentat — disseram-lhe.
Teg sempre reservara sua própria opinião a respeito disso, mas agora era forçado a aceitar. A sonda-T impulsionara-o até o limiar de uma nova realidade.
Não sabia por que tinha escolhido esse momento em particular para sair do esconderijo, exceto por ser uma hora em que podia confundir-se com o fluxo humano normal.
A maior parte do tráfego na estrada era formada por agricultores puxando cestos de frutas e verduras. Os cestos eram sustentados atrás deles por suspensores baratos. A percepção de toda aquela comida lembrou-o da fome aguda que sentia,
mas Teg se dominou. Com a experiência obtida em mundos mais primitivos que visitara durante seu longo serviço para a Bene Gesserit, percebia que essa atividade humana não era muito diferente da executada por fazendeiros puxando animais carregados. Esse fluxo de pedestres parecia-lhe uma curiosa mistura do antigo com o moderno — agricultores andando a pé, seus produtos flutuando atrás deles, sustentados por engenhos tecnológicos perfeitamente comuns. Exceto pelos suspensores antigravidade, era uma cena muito semelhante a outras que se haviam desenrolado no passado mais distante da humanidade. Um animal de carga era um animal de carga, mesmo que fosse produzido na linha de montagem de uma fábrica Ixiana.
Usando sua segunda visão, Teg escolheu um dos agricultores, sujeito atarracado, de pele escura, com feições brutas e mãos cheias de calos. O homem caminhava com uma impressão de independência desafiadora. Puxava oito grandes cestos cheios de melões de casca grossa. O cheiro deles era uma agonia para Teg, enchendo-lhe a boca de saliva enquanto ele igualava o passo com o do agricultor.
Caminhou em silêncio por alguns minutos e então arriscou:
— Esta á a melhor estrada para Ysai?
— É um longo caminho — respondeu o homem.
Tinha voz gutural, com um tom de cautela.
Teg olhou para os cestos carregados.
O agricultor olhou de lado para ele.
— Nós vamos para um mercado. Outros levarão nossos produtos de lá para Ysai.
Enquanto conversavam, Teg percebeu que o agricultor havia guiado (quase pastoreado) seu passo para a beira da estrada. O homem olhou para trás e acenou levemente com a cabeça, fazendo um sinal para a frente. Mais três agricultores vieram colocar-se ao lado deles, cercando Teg e seu companheiro até os cestos ocultarem-nos do resto do tráfego.
Teg ficou tenso. Que estariam eles planejando? Entretanto, não sentia qualquer ameaça. Sua dupla visão não detectava nada de violento em sua vizinhança imediata.
Um veículo pesado ultrapassou-os em alta velocidade. Teg percebeu sua passagem apenas pelo cheiro de combustível queimado e pelo vento que sacudiu os cestos. Ouviu a batida de um motor poderoso e percebeu a súbita tensão em seus companheiros. Mas os altos cestos ocultaram totalmente a passagem do veículo.
— Estávamos à sua procura para protegê-lo, Bashar — disse o agricultor ao lado dele. — Existem muitos que o estão caçando, mas não há nenhum deles conosco agora.
Teg olhou espantado para o homem.
— Nós servimos com o senhor em Renditai — explicou o agricultor.
Teg engoliu em seco. “Renditai?” levou um momento para se lembrar —
apenas uma escaramuça menor em sua longa carreira de conflitos e negociações.
— Sinto muito, mas não me lembro do seu nome — ele disse.
— Sinta-se feliz por não se lembrar de nossos nomes. É melhor assim.
— Mas fico grato assim mesmo.
— Esta é uma pequena retribuição pelo que fez por nós. Algo que ficamos gratos em poder retribuir.
— Eu devo chegar a Ysai.
— É perigoso lá.
— Há perigo em toda a parte.
— Nós calculamos que fosse para Ysai. Alguém vai chegar logo e levá-lo escondido. Ah, aí vem ele. Nós não o vimos por aqui, Bashar, o senhor não esteve aqui.
Um dos agricultores encarregou-se de puxar a carga do companheiro, arrastando dois cordões de cestos, enquanto o agricultor que Teg tinha escolhido fez com que ele passasse por baixo de uma corda de reboque e entrasse num veículo preto. Teg teve um vislumbre de plasteel e plaz brilhantes enquanto o veículo reduzia a velocidade apenas o suficiente para apanhá-lo. A porta fechou-se rapidamente atrás dele e Teg se encontrou sobre um macio assento acolchoado, sozinho na traseira de um carro de solo. O veículo acelerou e logo ele perdeu de vista o grupo de agricultores. As janelas em torno de Teg tinham sido escurecidas, de modo que ele tinha uma visão crepuscular do cenário passando lá fora. O motorista era uma silhueta escura.
Era sua primeira chance de relaxar em meio a um cálido conforto desde a sua captura, e isso quase o fez adormecer. Não sentia qualquer ameaça. Seu corpo ainda doía, relembrando as agonias da sonda-T.
Disse a si mesmo, contudo, que precisava ficar acordado e alerta.
O motorista inclinou-se para trás e falou sobre o ombro sem se virar:
— Há dois dias que eles o estão caçando, Bashar. Alguns pensam que já fugiu do planeta.
“Dois dias?”
A arma atordoadora ou qualquer outra coisa que tinham feito com ele o deixara desacordado por longo tempo. Isso só aumentava a sua fome. Tentou visualizar o mostrador do cronógrafo que tinha implantado em seu corpo, fazendo-o projetar os números diretamente em seus centros visuais, mas só conseguiu um tremular, como acontecia sempre que tentava visualizar essa projeção, desde que fora submetido à sonda-T. Todas as suas referências e sua noção de tempo tinham sido modificadas.
Então alguns deles acham que já abandonei Gammu?
Teg não perguntou quem o estava caçando. Tleilaxu e gente da Dispersão tinham estado presentes no ataque e na tortura subseqüente.
Teg examinou seu meio de transporte. Era um daqueles lindos carros de solo
dos dias anteriores à Dispersão, com a marca dos melhores fabricantes Ixianos.
Nunca andara num desses, mas sabia a respeito deles. Restauradores compravam-nos para reformá-los e reconstruí-los — tudo que pudessem fazer para recuperar aquele antigo sentimento de qualidade. Tinham contado a Teg que tais veículos eram freqüentemente encontrados abandonados em lugares estranhos — velhos prédios em ruínas, galerias, depósitos de máquinas, campos de fazendas.
Novamente o motorista se inclinou para o lado e falou por sobre o ombro:
— Há um endereço aonde deseje ser levado quando chegarmos a Ysai, Bashar?
Teg lembrou os pontos de contato que identificara em sua primeira viagem de inspeção em Gammu e deu um desses endereços ao homem.
— Conhece o lugar?
— É principalmente um estabelecimento para encontros, onde servem bebidas, Bashar. Já ouvi dizer que servem boa comida também, mas qualquer um pode entrar se pagar o preço.
Sem saber por que tinha feito essa escolha em particular, Teg disse:
— Vamos arriscar.
Não achou necessário dizer ao motorista que naquele endereço também havia salas de jantar particulares.
A menção da comida trouxe de volta a fome. Os braços de Teg começaram a tremer e ele levou vários minutos para controlá-los. As atividades da noite anterior quase o tinham esgotado, percebia agora. Examinou com o olhar o interior do carro, imaginando se poderia haver comida ou bebida guardada ali em algum lugar. O
trabalho de restauração do carro tinha sido feito com um cuidado apaixonado, mas ele não encontrou qualquer compartimento oculto.
Tais carros não eram exatamente raros em certos ambientes, mas sua posse sempre fora sinal de riqueza. Quem seria o dono deste? Não era o motorista, disso tinha certeza. Ele apresentava todos os sinais de ser um profissional contratado. Mas fora enviada uma mensagem para trazer esse carro, então outros conheciam a sua localização.
— Será que vão nos deter para revistar o carro? — perguntou ele.
— Não este carro. Ele pertence ao Banco Planetário de Gammu.
Teg absorveu em silêncio essa informação. Esse banco tinha sido um de seus pontos de contato. Havia estudado cuidadosamente a localização das filiais mais importantes durante sua inspeção. Tal lembrança conduziu-o de volta às suas responsabilidades como guardião do ghola.
— Meus companheiros — arriscou. — Eles...
— Outros estão encarregados deles. Eu não sei dizer, Bashar.
— Podem enviar uma mensagem para...
— Quando for seguro, Bashar.
— É claro.
Teg afundou de novo no estofamento e observou o ambiente à sua volta.
Esses carros de solo tinham sido construídos com muito plaz e um plasteel quase indestrutível. Eram outras coisas que se estragavam com o tempo — o estofamento, os componentes eletrônicos, a instalação dos suspensores, os revestimentos ablativos e os dutos dos turboventiladores. E os adesivos se estragavam, não importava o que se fizesse para tentar conservá-los. Os restauradores, contudo, tinham feito esse parecer como se tivesse acabado de sair da fábrica — todo o polimentos dos metais, o estofamento que se ajustava ao seu corpo com um ruído de coisa nova se dobrando.
E o cheiro: aquele aroma indefinível de coisa nova, mistura de polimento e tecidos finos com apenas um toque de ozônio a indicar a eletrônica funcionando impecavelmente. Mas em parte alguma havia cheiro de comida.
— Quanto tempo até chegarmos a Ysai? — perguntou ele.
— Outra meia hora, Bashar. Há algum problema que exija maior velocidade?
Não quero atrair...
— Estou com muita fome.
O motorista olhou para a esquerda e para a direita. Não havia mais agricultores em torno deles. A estrada estava quase vazia, exceto por dois casulos de transporte pesado com seus reboques propulsores mantendo-se na pista da extrema direita e um grande caminhão carregando um alto apanhador de frutas automático.
— É perigoso nos atrasarmos — disse o motorista. — Mas conheço um lugar onde acho que pelo menos poderemos conseguir uma tigela de sopa.
— Qualquer coisa seria ótimo. É que eu não como há dois dias e fiz um bocado de exercício.
Chegaram a uma encruzilhada e o motorista virou para a esquerda, pegando uma estrada estreita através de um bosque de coníferas altas e igualmente espaçadas.
Daí a pouco viraram numa estrada de pista única que penetrava entre árvores. O
prédio baixo na extremidade desse caminho fora construído com pedras escuras e tinha um teto de plaz negro. As janelas eram estreitas e brilhavam com os canos de queimadores de proteção.
O motorista disse:
— Só um minuto, senhor.
Saiu e Teg obteve sua primeira visão da face do homem: extremamente magra, com nariz grande e boca pequena. As cicatrizes visíveis de uma reconstrução cirúrgica percorriam as maçãs do rosto. Os olhos tinham um brilho prateado obviamente artificial. O sujeito virou-se e foi para a casa. Quando voltou, abriu a porta de Teg.
— Por favor se apresse, senhor. O sujeito lá dentro está esquentando uma sopa para o senhor. Eu disse a ele que é um banqueiro. Não vai precisar pagar.
O solo estava congelado sob seus pés e Teg teve que andar curvado para a frente até alcançar a porta. Entrou por um corredor escuro, revestido de madeira e com um salão bem iluminado no final. O cheiro de comida o atraiu como um ímã.
Seus braços estavam tremendo uma vez mais. Uma pequena mesa fora arrumada junto a uma janela que revelava um jardim interior fechado e coberto. Arbustos cheios
de flores vermelhas quase escondiam o muro de pedras que definia os limites do jardim. Plaz quente amarelo brilhava acima desse espaço, banhando-o com a luz de um verão artificial. Teg deu graças por se sentar na única cadeira junto da mesa.
Toalha de linho branco com bordas trabalhadas em relevo. Uma única colher de sopa.
Uma porta estalou à direita e uma figura atarracada entrou, carregando uma tigela que exalava vapor. O homem hesitou quando viu Teg, depois trouxe a tigela, colocando-a na mesa diante dele. Alertado por aquela hesitação, Teg forçou-se a ignorar o aroma tentador que flutuava para suas narinas e em vez disso se concentrou no outro.
— É uma boa sopa, senhor. Eu a preparei pessoalmente.
Voz artificial. Teg viu as cicatrizes em torno da mandíbula. Havia uma aparência de algo antigo e mecânico nesse homem — uma cabeça quase desprovida de pescoço prendendo-se a ombros fortes e braços que pareciam ter juntas estranhas nos cotovelos e nos ombros. E as pernas pareciam articular-se apenas a partir dos quadris. Estava imóvel agora, mas tinha entrado com um andar oscilante e espasmódico que revelava que esse sujeito era feito quase inteiramente de próteses. A expressão de sofrimento nos olhos não podia ser ignorada.
— Sei que não sou nada bonito, senhor — disse o homem com voz rouca. —
Fiquei arruinado na explosão de Alajory.
Teg não tinha a menor idéia do que poderia ter sido a explosão de Alajory, mas o sujeito obviamente presumia que ele sabia a respeito. “Arruinado”, entretanto, constituía uma acusação curiosa contra o Destino.
— Eu estava me perguntando se o conheço de algum lugar — disse Teg.
— Ninguém aqui conhece mais ninguém — retrucou o homem. — Tome sua sopa. — Apontou para o teto, em direção à ponta enrolada de um farejador ativado, o brilho de suas luzes revelando que o instrumento estava sondando o ambiente e não detectava qualquer veneno.
— A comida é segura aqui.
Teg olhou para o líquido marrom-escuro em sua tigela. Pedaços de carne sólida eram visíveis. Estendeu a mão para colher, mas sua mão trêmula o obrigou a fazer duas tentativas antes mesmo que pudesse segurá-la. Ainda assim, derramou a maior parte do líquido na colher antes que pudesse erguê-la um milímetro.
Uma mão firme segurou-lhe o pulso e a voz artificial falou, tranqüilizadora, junto de seu ouvido:
— Não sei o que eles fizeram com o senhor, Bashar, mas ninguém irá feri-lo sem antes passar por cima do meu cadáver.
— Você me conhece?
— Muitos morreriam pelo senhor, bashar. Meu filho vive graças ao senhor.
Teg deixou que o homem o ajudasse. Não tinha outra alternativa para conseguir engolir a primeira colheirada da sopa. O líquido era saboroso, quente e nutritivo. Sua mão firmou-se daí a pouco e ele fez sinal para que o homem lhe soltasse
o pulso.
— Quer mais, senhor?
Teg percebeu que tinha esvaziado a tigela. Era uma tentação dizer “sim”, mas o motorista tinha dito para andar depressa.
— Muito obrigado, mas tenho que seguir em frente.
— O senhor não esteve aqui — disse o homem.
Depois que tinham retornado à estrada principal, Teg recostou-se nas almofadas do carro e refletiu sobre o curioso caráter repetitivo daquilo que o homem arruinado lhe dissera. Eram as mesmas palavras que o agricultor tinha usado: “O
senhor não esteve aqui.” Tinha a impressão de que essa era uma resposta comum agora, e ela revelava algo das mudanças por que passara Gammu desde sua viagem de inspeção.
Daí a pouco penetravam nos subúrbios de Ysai e Teg se perguntou se deveria tentar usar um disfarce. O homem arruinado o reconhecera prontamente.
— Onde as Honradas Madres estão me procurando agora? — perguntou.
— Elas o estão caçando por toda parte, Bashar. Não posso garantir a sua segurança, mas medidas estão sendo tomadas. Informarei onde o deixei.
— Elas dizem por que estão me caçando?
— Elas nunca explicam nada, Bashar.
— Há quanto tempo está em Gammu?
— Há muito tempo, senhor. Eu era criança e fui interno em Renditai.
“Cem anos se passaram”, pensou Teg. “Tempo para reunir muito poder em suas mãos... se é que se deve dar crédito aos temores de Taraza”
E Teg lhes dava crédito.
“Não confie em ninguém que possa ter sido influenciado por essas prostitutas.”
Não sentia qualquer ameaça imediata em sua presente situação. Podia apenas perceber o segredo que obviamente o envolvia agora. Não pressionou por maiores detalhes.
Estavam bem dentro de Ysai e ele podia vislumbrar agora a massa negra que alojara o antigo Baronato dos Harkonnen através de aberturas ocasionais nos muros das grandes residências particulares. O carro entrou numa rua de pequenos estabelecimentos comerciais: prédios baratos construídos em sua maior parte com material de sucata que revelava suas origens nos encaixes malfeitos e nas cores desiguais. Anúncios vistosos advertiam que as mercadorias lá dentro eram as mais finas e os serviços de consertos, melhores que em qualquer outro lugar.
Não era que Ysai se tivesse deteriorado ou mesmo se tornado um conjunto de cortiços. O crescimento da cidade fora direcionado para alguma coisa pior do que feia.
Alguém escolhera tornar esse lugar repelente. Essa era a explicação para a maior parte do que tinha visto até então.
O Tempo não tinha parado nesta cidade, tinha recuado. Não era uma cidade
moderna, com reluzentes casulos transportadores e prédios utilitários isolados. Era uma massa desconjuntada de antigos prédios unidos a prédios mais antigos ainda, alguns erguidos de acordo com preferências individuais, outros para alguma função que há muito tempo caíra em desuso. Tudo em Ysai era apinhado para manter uma proximidade cuja confusão por pouco evitava o caos. O que salvava era o antigo padrão de vias principais ao longo das quais essa mixórdia fora montada. O caos fora contido, mas o padrão que restava nas ruas não obedecia mais a qualquer planejamento. Ruas encontravam-se e se cruzavam em ângulos irregulares, com raras praças. Visto do ar, o lugar seria uma louca colcha de retalhos, com apenas o retângulo negro da antiga sede do Baronato para revelar algum plano de urbanização organizada. O resto era uma rebelião arquitetônica.
Teg percebeu de repente que esse lugar era uma mentira armada em cima de outras mentiras, baseadas em mentiras anteriores, tudo formando uma louca mixórdia que nunca seria possível desenredar para encontrar uma verdade útil. Tudo em Gammu estava desse modo. E onde teria começado tamanha insanidade? Teria sido obra dos Harkonnen?
— Chegamos, senhor.
O motorista parou diante da calçada de um prédio sem janelas, todo feito em plasteel negro liso e com uma única porta ao nível do solo. Não havia material de sucata nessa construção. Teg reconheceu o lugar. Era o esconderijo que tinha escolhido. Coisas não-identificadas tremeluziram em sua segunda visão, mas Teg não sentiu qualquer ameaça imediata. O motorista abriu a porta para ele e ficou de lado.
— Não há muita atividade por aqui a esta hora, senhor. Eu entraria depressa.
Sem olhar para trás, Teg atravessou a calçada estreita e entrou no prédio.
Encontrou um vestíbulo pequeno e brilhantemente iluminado, feito de plaz branco, e somente painéis de olhos comunicadores para recebê-lo. Entrou num tubo elevador e teclou as coordenadas de que se recordava. Esse tubo, se bem se lembrava, subia em ângulo através do prédio até o 57° andar, na parte de trás, onde havia algumas janelas.
Lembrava-se de um restaurante reservado, decorado em vermelhos-escuros e com mobília marrom, de uma mulher de olhar duro demonstrando os indícios óbvios do treinamento Bene Gesserit, mas que não era ainda uma Reverenda Madre.
O tubo deixou-o no lugar de que se lembrava, mas não havia ninguém para recebê-lo. Teg olhou em volta, observando a mobília sólida. Quatro janelas na parede oposta estavam ocultas por espessas cortinas marrons.
Sabia que tinha sido visto. Aguardou pacientemente, usando a dupla visão, recém-aprendida para prever qualquer dificuldade. Não havia qualquer indício de ataque. Tomou posição ao lado da saída do tubo elevador e olhou à sua volta uma vez mais.
Teg tinha uma teoria a respeito da relação entre salas e janelas — o número de janelas, sua disposição, tamanho e altura a partir do piso, a relação entre o tamanho do aposento e o das janelas, a altura em se situava o andar e o fato de as janelas
possuírem cortinas ou não, tudo isso um Mentat interpretava à luz do conhecimento dos usos do aposento. Este podia ser arrumado com um sentido de ordem meticuloso, definido por uma extrema sofisticação. É claro que usos de emergência podiam acabar com tudo isso, mas de outro modo era possível obter indícios muito confiáveis.
A falta de janelas num aposento muito acima do nível do solo, por exemplo, transmitia uma mensagem especial. Se pessoas ocupavam esse aposento, isso não significava necessariamente que o segredo e a privacidade fossem seu objetivo principal. Ele tinha visto sinais inconfundíveis, em locais de estudo, de que salas de aula sem janelas significavam um desejo de isolamento com relação ao mundo exterior ou uma forte declaração de aversão a crianças.
Mas esse aposento lhe apresentava algo diferente: um segredo provisório mais a necessidade ocasional de vigiar o que acontecia no mundo exterior. “Privacidade protetora quando necessário.” Essa opinião foi reforçada quando ele andou até uma das janelas e afastou a cortina. As janelas eram de plaz blindado triplo. Sim! Isso significava que vigiar o mundo exterior poderia ser um convite ao ataque. Essa era a opinião de quem tinha ordenado que esse lugar fosse protegido desse modo.
Uma vez mais Teg afastou a cortina. Olhou para os cantos. Refletores prismáticos ampliavam a visão ao longo da parede adjacente em ambos os lados e do telhado até o solo.
“Muito hábil.”
Sua visita anterior não lhe dera tempo para um exame tão minucioso. Agora podia fazer um julgamento mais preciso. Uma sala muito interessante. Teg deixou cair a cortina e se virou bem a tempo de ver um homem entrar pelo tuboelevador.
A dupla visão de Teg forneceu-lhe uma previsão precisa sobre o estranho.
Esse homem representava um perigo oculto. O recém-chegado era evidentemente um militar o modo como andava, o olhar rápido em busca de detalhes que somente um oficial treinado e cheio de experiência observaria. E havia mais alguma coisa nos seus modos que fez Teg enrijecer-se. Este era um traidor! Um mercenário que se colocava a serviço de quem pagasse mais.
— Foi terrível o modo como eles o trataram — disse ele para Teg.
A voz era de um barítono profundo com a inconsciente presunção de poder pessoal. O sotaque era de uma variedade que Teg nunca ouvira antes. Esse homem era um dos Perdidos da Dispersão! Um Bashar ou coisa equivalente, estimou Teg.
Ainda assim não havia nele qualquer indício de ataque imediato. Como Teg não disse esse nada, o homem apresentou-se:
— Oh, desculpe-me. Sou Muzzafar. Jafa Muzzafar, comandante regional das forças de Dur.
Teg nunca tinha ouvido falar nas forças de Dur.
Havia um monte de perguntas em sua cabeça, mas ele as manteve para si mesmo. Qualquer coisa que dissesse poderia ser um sinal de fraqueza.
Onde estariam as pessoas que havia encontrado ali anteriormente? “Por que escolhi este lugar?” A decisão de ir para lá fora tomada com muita segurança interior.
— Por favor, fique à vontade — disse Muzzafar, indicando um pequeno divã com uma mesa baixa em frente. — Eu lhe asseguro que nada do que lhe aconteceu foi responsabilidade minha. Tentei detê-los quando soube, mas então você já tinha. .
saído de lá.
Teg percebeu outra coisa na voz de Muzzafar: uma cautela que chegava às raias do medo. Então esse homem ouvira falar ou tinha visto o barracão e a clareira.
— Foi muito hábil da parte de vocês — continuou Muzzafar. — Fazer com que suas forças de ataques esperassem até que seus captores estivessem concentrados na tarefa de tentar arrancar-lhe informações. Eles conseguiram tirar alguma coisa?
Teg sacudiu a cabeça de um lado para o outro. Sentia-se à beira de responder com um ataque na sua alta velocidade, mas não sentia qualquer violência imediata nesse lugar. Que estariam fazendo os Perdidos? Muzzafar e sua gente tinham feito uma suposição errada quanto ao que acontecera no barracão da sonda-T. isso era óbvio.
— Por favor, sente-se — pediu Muzzafar.
Teg sentou-se no divã oferecido.
Muzzafar escolheu uma cadeira de frente para ele, colocando-se num pequeno ângulo em relação à mesinha de refeições. Havia em Muzzafar uma impressão de animal agachado, pronto a dar o bote. Ele estava preparado para a violência.
Teg observou o homem com interesse. Muzzafar não revelara nenhum posto verdadeiro — somente o de comandante. Alto, rosto vermelho e largo, nariz grande.
Os olhos eram cinza-esverdeados e tinham o costume de se focalizar num ponto logo atrás do ombro direito de Teg quando um dos dois falava. Teg conhecera certa vez um espião que era dado a esse tipo de coisa.
— Bem, bem — disse Muzzafar. — Já li e ouvi um bocado a seu respeito desde que vim para cá.
Teg continuou a examiná-lo em silêncio. O cabelo de Muzzafar tinha sido cortado rente e havia uma cicatriz vermelha, de uns três centímetros de comprimento, acima do olho esquerdo, bem na linha do couro cabeludo. Usava uma jaqueta folgada de cor verde-clara e calças que combinavam com ela — não era exatamente um uniforme, mas estava tão bem passado que revelava um asseio costumeiro. Os sapatos engraxados confirmavam isso. Teg achou que poderia ver neles o próprio reflexo caso se curvasse o suficiente.
— Nunca esperei conhecê-lo pessoalmente, é claro — continuou Muzzafar.
— Considero isto uma grande honra.
— Sei muito pouco a seu respeito, exceto que comanda uma das forças da Dispersão — disse Teg.
— Hummmm! Não é muito realmente.
Uma vez mais a fome assaltou Teg. Seu olhar voltou-se para o botão ao lado do tubo elevador que, lembrava-se, chamaria um serviçal. Esse era um lugar onde seres humanos faziam o trabalho que normalmente seria entregue aos autômatos —
uma desculpa para manter uma grande força reunida e pronta.
Interpretando mal o interesse de Teg no tubo elevador, Muzzafar disse:
— Por favor, não pense em partir. Pedi ao meu médico que viesse dar uma olhada em você. Ele deve chegar num momento. Apreciaria se esperasse calmamente até ele chegar.
— Eu estava apenas pensando em ordenar um pouco de comida — disse Teg.
— Eu o aconselho a esperar até que o doutor faça o seu exame. Atordoadores deixam terríveis efeitos secundários.
— Então sabe o que aconteceu?
— Sei tudo a respeito daquele terrível fiasco. Você e seu camarada Burzmali são uma força para se respeitar.
Antes que Teg pudesse responder, um homem alto saiu do tubo elevador, vestido com jaqueta e um macacão vermelhos. Era tão magro que a roupa ficava folgada nele. A tatuagem em forma de diamante, indicando um médico Suk, fora marcada a fogo em sua testa, mas a marca era de cor laranja, e não do negro habitual.
Os olhos do médico estavam cobertos por lentes alaranjadas brilhantes que ocultavam sua verdadeira cor.
“Um viciado de algum tipo?”, perguntou-se Teg. Não havia cheiro dos narcóticos familiares no homem, nem mesmo de melange. Mas havia um perfume azedo, como se fosse proveniente de alguma fruta.
— Ah, ai está você, Solitz! — disse Muzzafar. Indicou Teg. — Dê-lhe uma boa varredura. Um atordoador o atingiu anteontem.
Solitz exibiu um aparelho que Teg reconheceu como um detector Suk, instrumento pequeno e compacto que cabia na palma da mão. Seu campo de sondagem produzia um zumbido baixo.
— Então você é um médico Suk — disse Teg, olhando para a marca alaranjada na testa do homem.
— Sim, Bashar. Meu treinamento e meu condicionamento são os melhores de acordo com a antiga tradição.
— Nunca tinha visto a marca identificadora dessa cor — comentou Teg.
O médico passou o instrumento em torno da cabeça de Teg.
— A cor da tatuagem não faz diferença, Bashar. O que está por trás é o que importa.
Ele abaixou o scanner para examinar os ombros de Teg e depois o corpo.
Teg esperou até que o zumbido parasse.
O médico recuou e se dirigiu a Muzzafar.
— Ele está em boa forma, Marechal-de-Campo. Extraordinariamente em forma, considerando-se a idade, mas precisa desesperadamente de alimentação.
— Sim... bem, isso é ótimo, Solitz. Cuide para que ele receba alimento. O
Bashar é nosso hóspede.
— Vou ordenar que lhe tragam uma refeição adequada para suas necessidades — disse Solitz. — Coma lentamente, Bashar.
Solitz fez uma careta esperta que fez as calças e a jaqueta estremecerem.
Depois o tubo elevador o engoliu.
— Marechal-de-Campo? — perguntou Teg.
— Houve um retorno aos títulos ancestrais em Dur — explicou Muzzafar.
— Em Dur? — perguntou Teg.
— Oh, que estupidez a minha!
Muzzafar tirou uma pequena pasta de um bolso lateral da jaqueta e de dentro extraiu um folheto. Teg reconheceu um holostato semelhante ao que tinha carregado consigo durante seu longo tempo de serviço — imagens do lar e da família. Muzzafar colocou o holostato em cima da mesa entre eles e acionou o botão de controle.
A imagem colorida, tridimensional, de uma floresta verde tomou conta do topo da mesa.
— Meu lar — explicou Muzzafar. — Olhe a árvore modeladora no centro. —
Indicou com o dedo um lugar na projeção.— Foi a primeira que me obedeceu. As pessoas riam de mim por escolher a primeira daquele modo e ficar com ela.
Teg olhou para a projeção, consciente da profunda tristeza que havia na voz de Muzzafar. A árvore indicada era um agrupamento de ramos esqueléticos com bulbos azuis brilhantes pendendo das pontas.
“Árvore modeladora?”
— E uma coisa esquálida, eu sei — disse Muzzafar, tirando o dedo da projeção. — E não é nem um pouco segura. Tive que me defender sozinho algumas vezes nos meus primeiros meses com ela. Mas acabei me orgulhando dela. Eles correspondem a isso, você sabe. É agora o melhor lar dos vales profundos, pela Rocha Eterna de Dur!