Os Hereges de Duna
Taraza não tentou esconder sua admiração.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Aquele que vigia não é visto”, pensou Teg. “E os vigias possuem um bilhão de olhos.”
Sua dupla visão revelou que havia perigo nesse lugar; mas nenhuma violência imediata.
Essas sala, com cinco metros de comprimento por quatro de largura, era um lugar para negociações de alto nível. Ali nunca havia troca de dinheiro vivo. As pessoas viam apenas os equivalentes portáteis da riqueza — melange talvez, ou leitosas pedras suaves do tamanho de um globo ocular, perfeitamente redondas e ao mesmo tempo macias e lustrosas, irradiando um arco-íris onde quer que a luz caisse sobre elas ou a carne as tocasse. Esse era um lugar onde um danikin de melange ou um saquinho de pedras suaves seria aceito como moeda. O preço de um planeta podia ser negociado com apenas um aceno da cabeça, um piscar de olho ou um murmúrio em voz baixa. Nenhuma carteira de notas jamais apareceria nesse lugar. A coisa mais próxima de moeda corrente poderia ser uma fina caixa de translux de cujo interior, protegido por veneno, sairiam finas folhas de cristal riduliano com grandes números inscritos nelas com impressão de que não se poderia falsificar.
— Isto é um banco — disse Teg.
— O quê? — Muzzafar estivera olhando para a porta fechada na parede oposta. — Oh sim, ela vai chegar dentro em breve.
— Ela está nos observando agora mesmo, é claro.
Muzzafar não respondeu, mas pareceu melancólico.
Teg olhou em volta. Será que alguma coisa tinha mudado desde a sua última visita? Não percebia qualquer alteração significativa. Perguntou-se se abrigos como esse tinham sofrido muitas modificações através das eras. Ali estava o carpete de orvalho no chão, tão macio quanto a plumagem inferior de um ganso e tão branco quanto o ventre de uma baleia. Refletia um falso senso de umidade que somente os olhos detectavam. Um pé descalço (não que esse lugar jamais tivesse visto um pé descalço) iria sentir uma secura acariciante.
Havia uma mesa estreita, com dois metros de comprimento, quase no centro da sala. O topo tinha quase 20 milímetros de espessura e Teg supôs que fosse de jacarandá Daniano. A superfície marrom-escura fora polida até adquirir um lustro que atraía o olhar, revelando por baixo veios semelhantes a correntes em um rio. Havia quatro cadeiras de recosto alto em torno da mesa, todas feitas do mesmo tipo de madeira trabalhada por um mestre artesão e estofadas no assento e no recosto com
couro de lyr do mesmo tom da madeira envernizada.
Somente quatro cadeiras. Mais seria exagerado. Ele não tentara sentar-se em uma das cadeiras antes e não tentou agora, mas sabia que deviam ser bem confortáveis
— quase tanto como uma desprezível cadeira-cão, mas não com o mesmo grau de suavidade e conformidade com o corpo, é claro. Muito conforto levaria ao relaxamento e essa sala, com sua mobília, dizia: “Fique confortável, mas permaneça alerta.”
Não é preciso apenas manter o bom senso num lugar como esse. Deve-se também dispor de um grande potencial de violência, pensou Teg. Chegara a essa conclusão anteriormente e sua opinião não mudara.
Não havia janelas, mas aquelas que ele tinha visto do exterior tremulavam com fios de luz — barreiras energéticas para repelir intrusos e evitar fugas. Tais barreiras, contudo, acarretavam seus próprios perigos, bem o sabia Teg, mas as implicações eram importantes. Só para manter o fluxo de energia era necessária uma força suficiente para iluminar uma grande cidade por todo o tempo de vida de seu morador mais idoso.
E não havia nada casual nessa exibição de riqueza.
A porta para a qual Muzzafar estava olhando abriu-se com um suave estalido.
“Perigo!”
Uma mulher usando um manto dourado brilhante entrou na sala. Fios de luz vermelho-alaranjada ondulavam no tecido.
“Ela é velha!”
Teg não esperava que a mulher fosse tão velha. Seu rosto era uma máscara enrugada. Os olhos eram profundos, verdes e gélidos, o nariz formava um bico alongado cuja sombra caía sobre os lábios finos e repetia o ângulo pronunciado do queixo. Uma touca negra cobria quase todo o seu cabelo grisalho.
Muzzafar curvou-se.
— Deixe-nos — ela disse.
Muzzafar saiu sem dizer uma palavra, usando a mesma porta pela qual tinha entrado. Quando a porta se fechou atrás dele, Teg disse:
— Honrada Madre.
— Então você reconhece este lugar como sendo um banco.
A voz dela tinha apenas um leve tremor.
— É claro.
— Existem sempre modos pelos quais se pode transferir grandes somas ou vender o poder — ela disse. — Não falo do poder que dirige as fábricas, mas do poder que governa as pessoas.
— E que geralmente recebe os estranhos nomes de governo, sociedade ou civilização — disse Teg.
— Eu suspeitava de que você devia ser muito inteligente — ela disse. Puxou uma cadeira e se sentou, mas não fez sinal para Teg fazer o mesmo. — Costumo
pensar em mim mesma como uma banqueira. Poupa um bocado de subterfúgios aborrecidos.
Teg não respondeu. Parecia não haver necessidade. Continuou a observá-la.
— Por que está olhando para mim desse modo? — indagou ela.
— Não esperava que fosse tão velha.
— Eh, eh, eh! Nós temos muitas surpresas para você, Bashar. Mais tarde uma jovem Honrada Madre pode murmurar seu nome para marcá-lo. Reze para Dur se isso acontecer.
Ele assentiu com a cabeça, não entendendo muito bem o que ela dizia.
— Este é um prédio muito antigo — comentou ela. — Eu o observei quando se aproximava. Isto o surpreende também?
— Não.
— Este prédio tem permanecido essencialmente igual por vários milhares de anos. Foi construído com materiais que ainda vão durar muito tempo.
Ele olhou para a mesa.
— Oh, não a madeira. Mas por baixo é polastine, polaz e pormabat. Os três P-Os nunca são desprezados quando necessários.
Teg permaneceu em silêncio.
— Necessidade — ela disse. — Faz objeção às coisas necessárias que foram feitas com você?
— Minhas objeções não vêm ao caso.
Aonde ela queria chegar? Estava observando-o, é claro. E ele a observava.
— Acha que outras pessoas já fizeram objeção ao que fez com elas?
— Indubitavelmente.
— Você é um comandante natural, Bashar. Creio que nos será muito valioso.
— Sempre me julguei muito valioso para mim mesmo.
— Bashar! Olhe nos meus olhos!
Ele obedeceu, vendo pequenas partículas alaranjadas deslizando pelo branco dos olhos dela. O senso de perigo era agudo.
— Se chegar a ver meus olhos totalmente alaranjados, cuidado! — ela disse. —
Terá me ofendido além da minha capacidade de tolerância.
Ele assentiu com a cabeça.
— Gosto que seja capaz de comandar, mas não pode comandar a mim! Você comanda a escória e essa é a única função que temos para você.
— Escória?
Ela acenou com a mão num movimento negligente.
— Lá fora. Você os conhece. A curiosidade deles é estreita, limitada. Grandes problemas jamais penetram em suas consciências.
— Achei que era isso que queria dizer.
— Nós trabalhamos para mantê-los desse modo — explicou ela. — Tudo que destinamos a eles passa por um filtro estreito que exclui o que não tenha importância
imediata para a sobrevivência.
— Nada de grandes questões.
— Está chocado, mas isso não importa. Para aqueles que estão lá fora, a grande questão é: “Será que vou ter o que comer hoje? Será que terei um abrigo onde dormir esta noite, um lugar que não seja invadido por assaltantes ou bichos?” Luxo?
Luxo é possuir uma droga ou um membro do sexo oposto que possa, por algum tempo, manter as feras afastadas.
“E você é a fera”, pensou Teg.
— Estou dedicando este tempo a você, Bashar, porque percebo que pode vir a ser mais valioso para nós do que Muzzafar. E ele é, de fato, extremamente valioso.
Agora mesmo o estamos recompensando por tê-lo trazido para nós numa condição tão receptiva.
Como Teg continuasse em silêncio, ela riu.
— Não se julga numa condição receptiva?
Teg permaneceu calado. Será que tinham colocado alguma droga em sua comida? Percebia o tremular da segunda visão, mas os movimentos de violência haviam desaparecido como os pontos alaranjados nos olhos da Honrada Madre. Os pés dela deviam ser evitados, contudo. Eram armas mortais.
— Acontece apenas que você pensa do modo errado com relação à escória.
Felizmente eles são quase todos autolimitados. Sabem disso no mais profundo de suas consciências, e não podem dispor de tempo para dedicar a qualquer outra coisa que não seja a luta diária pela sobrevivência.
— E não se pode melhorá-los? — perguntou Teg.
— Oh, eles não devem ser melhorados! Nós cuidamos para que o auto-aperfeiçoamento permaneça como a grande moda entre eles. Mas nada para valer, é claro.
— Outro luxo que deve ser negado.
— Não, luxo não! Algo que não existe! Que deve ser escondido todo o tempo sob a barreira daquilo que chamamos de ignorância protetora.
— Aquilo que não sabe não pode magoá-lo.
— Não gosto do seu tom de voz, Bashar.
Novamente os pontos alaranjados dançavam nos olhos dela. A sensação de violência iminente diminuiu, contudo, enquanto ela ria.
— Aquilo de que deve acautelar-se é o oposto daquilo-que-você-não-sabe.
Nós ensinamos que o novo conhecimento pode ser perigoso. E você percebe a extensão óbvia: todo conhecimento novo é contrário à sobrevivência!
A porta atrás da Honrada Madre se abriu e Muzzafar retornou. Era um novo Muzzafar, com o rosto vermelho e os olhos brilhantes. Parou junto da cadeira ocupada pela Honrada Madre.
— Um dia poderei permitir que fique atrás de mim deste modo — ela disse.
— Está entre meus privilégios permitir isso.
Que teriam feito com Muzzafar? — perguntou-se Teg. O homem parecia drogado.
— Não percebe que possuo esse poder? — perguntou ela.
Teg pigarreou.
— Isso é óbvio.
— Eu sou uma banqueira, lembra-se? Acabamos de fazer um depósito em nome do nosso leal Muzzafar. Não nos agradece, Muzzafar?
— Sim, Honrada Madre.
A voz era rouca.
— Tenho certeza de que compreende esse tipo de poder de maneira generalizada, Bashar. A Bene Gesserit o treinou muito bem. Elas são bem talentosas, mas não, temo, tão talentosas quanto nós.
— E me disseram que vocês são bem mais numerosas — comentou ele.
— Nosso número não é a chave para o nosso poder, Bashar. Um poder como aquele de que dispomos tem uma forma de ser canalizado de modo a poder ser controlado por um pequeno número de pessoas.
Era como uma Reverenda Madre, pensou Teg, na maneira como parecia responder uma pergunta sem revelar muito.
— Na essência — continuou ela —, um poder como o nosso pode tornar-se a substância vital para a sobrevivência de muita gente. Então a ameaça de sua retirada é tudo de que precisamos para governá-los. — Ela olhou por sobre o ombro. —
Gostaria que lhe negássemos nossos favores, Muzzafar?
— Não, Honrada Madre.
Ele estava realmente tremendo!
— Vocês encontraram uma nova droga — disse Teg.
A risada dela foi espontânea, alta, quase estridente.
— Não, Bashar, nós dispomos de uma muito antiga.
— E vai fazer de mim um viciado?
— Como todos os outros que controlamos, Bashar. Você tem uma escolha: a obediência ou a morte.
— É uma escolha bem antiga — concordou ele.
Qual seria a ameaça imediata? Ele não podia sentir qualquer prenúncio de violência. Muito pelo contrário. Sua dupla visão mostrava-lhe vislumbres de algo com aspecto extremamente sensual. Será que elas pensavam que poderiam imprimi-lo ao modo de uma Impressora Bene Gesserit?
Ela sorriu para ele, a expressão de quem sabia muita coisa, mas com algo de gélido.
— Ele vai nos servir bem, Muzzafar?
— Acredito que sim, Honrada Madre.
Teg franziu a testa, pensando. Havia alguma coisa profundamente maligna naqueles dois. Eles se opunham a todo tipo de moral que servia a Teg como guia de
conduta. Era ótimo lembrar-se de que nenhum dos dois conhecia essa coisa estranha que havia acelerado suas reações.
Pareciam estar apreciando seu desconforto e sua perplexidade.
Teg obtinha algum consolo do fato de nenhum dos dois apreciar realmente a vida. Podia analisá-los claramente com olhos que tinham sido treinados pela Irmandade. A Honrada Madre e Muzzafar tinham esquecido, ou mais provavelmente abandonado, tudo que sustentava a existência de seres humanos felizes. Ele achou que provavelmente não eram mais capazes de sentir uma verdadeira alegria com seu próprio corpo. A vida deles era uma existência de voyeurs, de eternos observadores, sempre a se lembrarem de como tinham sido antes de ser tornarem o que quer que fosse aquilo em que se haviam convertido. Mesmo quando mergulhavam na representação de algo que um dia significara gratificação, eram obrigados a um esforço extremo para tentar recuperar alguma coisa de suas próprias memórias.
O sorriso da Honrada Madre ampliou-se, revelando uma fileira de dentes brancos brilhantes.
— Olhe para ele, Muzzafar. Não tem a menor idéia do que podemos fazer.
Teg ouviu isso, mas também viu com olhos treinados pela Bene Gesserit. Não havia um miligrama de ingenuidade em qualquer dos dois. Nada poderia surpreendê-los. Nada seria verdadeiramente novo para eles. Ainda assim, treinavam e maquinavam, esperando que esses extremos recuperassem as sensações de que se lembravam. Eles sabiam que isso não ia ocorrer, é claro, e esperavam obter da experiência somente mais ódio para moldar outra tentativa de buscar aquilo que estava fora de seu alcance. Era assim que funcionava a mente deles.
Teg sorriu para eles, usando todas as habilidades que a Bene Gesserit lhe havia ensinado. Era um sorriso cheio de compaixão, compreensão e autêntico prazer pela própria existência. Ele sabia que era o pior insulto que poderia dirigir a esses dois, e viu que tinha atingido o alvo. Muzzafar ficou rubro e a Honrada Madre passou do ódio, com os olhos alaranjados, a uma súbita surpresa, e então, bem lentamente, a um crescente prazer. Não tinha esperado por isso! Era alguma coisa nova!
— Muzzafar — ela disse, o laranja diluindo-se em seus olhos —, traga a Honrada Madre que foi escolhida para marcar o nosso Bashar.
Teg, com sua dupla visão revelando perigo imediato, compreendeu afinal.
Podia sentir o futuro próximo propagando-se como ondas na medida em que aquele poder crescia dentro dele A louca mudança continuava! Sentia a energia expandir-se.
E com ela vinha uma compreensão de suas escolhas. Via-se como um redemoinho açoitando esse prédio — corpos espalhados à sua passagem (os de Muzzafar e da Honrada Madre entre eles) e todo o complexo parecendo um matadouro enquanto ele partia.
“Devo fazer isso?”, perguntou-se.
Para cada um que matasse, mais teriam que ser mortos. Via a necessidade disso, contudo, tal como percebia o último desígnio do Tirano. A dor que podia ver
por si mesmo quase o fez chorar, mas ele se conteve.
— Sim, traga-me essa Honrada Madre — disse ele, sabendo que essa seria menos uma que teria de caçar e destruir dentro desse prédio.
A sala de controles dos escanalisadores deveria ser tomada em primeiro lugar.
E você, que sabe o que sofremos aqui, não nos esqueça em suas preces.
— Letreiro na entrada do Campo de Pouso de Arrakeen (Registros Históricos: Dar-es-Balat)
Taraza observou as flores levadas pelo vento flutuarem como flocos de neve no céu prateado da manhã Rakiana. Havia um brilho opalescente no céu que, a despeito de todas as instruções preparatórias recebidas antes de qualquer viagem, ela não tinha previsto. Rakis mostrava muitas surpresas. O cheiro de falsas laranjas era muito forte ali, na beira do jardim de cobertura de Dar-es-Balat, dominando todos os outros odores.
“Nunca acredite ter alcançado as profundezas de qualquer lugar. ou de qualquer ser humano”, lembrou-se.
As conversas tinham terminado, mas não os ecos dos pensamentos que haviam trocado alguns minutos atrás. Todos concordavam, contudo, em que era hora de agir. Logo Sheeana iria “dançar para um verme” e uma vez mais demonstrar-lhes seu domínio.
Waff e o novo representante dos sacerdotes iriam compartilhar desse evento sagrado”, mas Taraza não tinha certeza quanto a se eles conheciam a natureza real daquilo que estavam a ponto de testemunhar. Waff ainda tinha aquele ar de irritada descrença em tudo que via ou ouvia. Isso formava uma estranha mistura com a sua admiração subjacente por estar em Rakis. O catalisador era, obviamente, seu ódio pelo fato de saber que tolos governavam esse lugar.
Odrade voltou da sala de reunião e parou ao lado de Taraza.
— Estou extremamente preocupada com os relatórios de Gammu disse Taraza. — Traz alguma coisa nova?
— Não. As coisas ainda estão caóticas por lá.
— Diga-me, Dar, que acha que devemos fazer?
— Eu fico lembrando as palavras do Tirano a Chenoeh: “A Bene Gesserit está tão próxima do que deveria fazer e no entanto tão distante.”
Taraza apontou para o deserto além do qanat da cidade-museu.
— Ele ainda está lá, Dar, tenho certeza disso. — Voltou-se para encarar Odrade: — E Sheeana fala com ele.
— Ele disse tantas mentiras — comentou Odrade.
— Mas não mentiu sobre sua própria encarnação. Lembre-se do que ele disse:
“Cada parte descendente de mim levará um fragmento de minha consciência preso dentro dela, perdida e desamparada — pérolas de minha mente a se moverem loucamente pela areia, presas a um sonho interminável.”
— Está apostando forte em sua crença no poder daquele sonho.
— Devemos recuperar o projeto do Tirano! Todo ele!
Odrade suspirou mas não respondeu.
— Nunca substime o poder de uma idéia — disse Taraza. — Os Atreides sempre governaram com filosofia. E a filosofia é sempre perigosa, pois ela promove a criação de novas idéias.
Ainda assim Odrade não respondeu.
— O verme carrega isso tudo dentro dele, Dar! Todas as forças que ele colocou em movimento ainda estão lá.
— Está tentando convencer a mim ou a si mesma, Tar?
— Estou punindo você, Dar. Exatamente como o Tirano ainda nos pune.
— Por não sermos o que devíamos? Ah, aí vem Sheeana e os outros.
— A linguagem do verme, Dar. Isso é que é importante.
— Se diz assim, Madre Superiora.
Taraza olhou aborrecida para Odrade, que foi receber os recém-chegados.
Havia uma perturbadora melancolia em Odrade.
A presença de Sheeana, contudo, restaurou em Taraza o sentimento de propósito. Sheeana, aquela coisinha sempre vigilante. Material muito bom. Sheeana demonstrara sua dança na noite anterior, executando-a no grande salão do museu, sobre um fundo de tapeçarias. Fora uma dança exótica diante de cortinas exóticas de fibra de especiaria com a imagem do deserto e seus vermes. Sheeana parecia quase parte daquela imagem nas cortinas, uma figura projetada do meio daquelas dunas estilizadas e de seus vermes elaboradamente detalhados. Taraza lembrava-se de como o cabelo castanho de Sheeana se lançara nos movimentos rodopiantes da dança, girando num arco indistinto. A iluminação lateral acentuava os brilhos avermelhados do cabelo. Seus olhos estavam fechados, mas o rosto não tinha uma expressão de repouso. A excitação revelava-se na disposição apaixonada de sua boca ampla, na dilatação das narinas, no queixo erguido. Os movimentos revelavam uma sofisticação interior que não correspondia à sua juventude.
“A dança é a linguagem dela”, pensou Taraza. “Odrade está certa. Vendo, aprendemos”.
Waff tinha uma aparência retraída nessa manhã. Era difícil determinar se seu olhar se voltava para o exterior ou para o interior. Com Waff estava Tulushan, um escuro e belo Rakiano, o escolhido dos sacerdotes para testemunhar o “evento sagrado” desse dia. Ao encontrá-lo na demonstração de dança, Taraza achara surpreendente que Tulushan nunca precisasse dizer “mas”, embora essa palavra estivesse presente em tudo aquilo que ele dizia. Um
perfeito burocrata. Realmente ambicionava ir longe, mas suas expectativas logo iriam encontrar a derradeira surpresa. Ela não sentia pena dele ao saber disso. Tulushan era um jovem de rosto redondo, com muito pouca capacidade para assumir tal posição de confiança. Não havia mais nada nele, além do que era visível, é claro. E menos ainda.
Waff caminhou para uma extremidade do jardim, deixando Odrade e Sheeana com Tulushan.
O jovem sacerdote era sacrificável, naturalmente. Isso explicava muito sobre os motivos pelos quais ele fora escolhido para esse empreendimento. Revelava a Taraza que ela atingira o nível adequado de violência potencial. Taraza não acreditava, contudo, que qualquer uma das facções do clero se atrevesse a fazer algum mal a Sheeana.
“Nós ficaremos junto de Sheeana”
Elas tinham passado uma semana agitada desde a demonstração das conquistas sexuais das prostitutas. Uma semana muito perturbadora quando se pensava nisso.
Odrade mantivera-se ocupada com Sheeana. Taraza teria preferido ver Lucilla incumbida dessa função educativa, mas era preciso fazer o que fosse possível com aquilo que se tinha em mãos, e Odrade, obviamente, era a melhor pessoa em Rakis para tais ensinamentos.
Taraza olhou em direção ao deserto. Estavam esperando pelos tópteros de Keen com suas cargas de Observadores Muito Importantes. Os OMIs ainda não estavam muito atrasados, mas deviam ter deixado tudo para a última hora, como essa gente sempre fazia.
Sheeana parecia estar se saindo bem em sua educação sexual, embora a opinião de Taraza quanto aos homens da Irmandade em Rakis não fosse muito entusiástica.
Em sua primeira noite, Taraza solicitara os serviços de um desses servos masculinos e depois achara que ele lhe dera trabalho em demasia pelo pouco prazer e esquecimento que lhe proporcionara. Além disso, que havia para ser esquecido? Esquecer era tolerar a fraqueza.
“Nunca esqueça!”
Isso era o que faziam as prostitutas. Elas vendiam o esquecimento.
E não tinham a menor consciência do contínuo poder do Tirano sobre o destino humano, nem tampouco da necessidade de quebrar esse domínio.
Taraza tinha ouvido em silêncio a sessão do dia anterior entre Sheeana e Odrade.
“Que é que eu queria ouvir?”
A jovem e sua professora tinham estado lá fora no jardim da cobertura, sentadas uma de frente à outra em dois bancos, com um abafador Ixiano portátil ocultando suas palavras de qualquer um que não possuísse um tradutor decodificador.
O abafador de sons, flutuando em suspensores, pairava acima das duas como uma curiosa sombrinha, seu disco negro projetando distorções que ocultavam os movimentos precisos dos lábios e o som das vozes.
Para Taraza, dentro do grande salão de reuniões com o pequeno tradutor colocado sobre a orelha esquerda, a lição parecera uma recordação igualmente distorcida.
“Quando me ensinaram estas coisas, ainda não tínhamos visto o que as prostitutas da Dispersão eram capazes de fazer”
— Por que falamos em complexidade do sexo? — perguntava Sheeana. — O
homem que me enviou na noite passada ficava dizendo isso.
— Muitos pensam que entendem, Sheeana. Mas talvez ninguém jamais tenha entendido, pois tais palavras exigem mais da mente do que cobram da carne.
— Por que não devo fazer nenhuma das coisas que vimos os Dançarinos Faciais fazerem?
— Sheeana, a complexidade oculta-se dentro da complexidade. Grandes proezas e coisas muito perversas já foram realizadas sob o estímulo das forças sexuais.
Nós falamos em “vigor sexual”, “energia sexual” e coisas como “o impulso supremo do desejo”. Não nego que tais coisas sejam observáveis. Mas o que estamos vendo aqui é uma força tão poderosa que poderia destruir você e tudo aquilo que você valoriza.
— É isso que estou tentando entender. Que é que as prostitutas estão fazendo de errado?
— Elas ignoram o funcionamento da espécie, Sheeana. Eu pensava que você já tivesse percebido isto. O Tirano certamente tinha consciência disso. Que era o seu Caminho Dourado senão uma visão das forças sexuais em seu trabalho de recriar interminavelmente os seres humanos?
— E as prostitutas não fazem isso?
— Elas tentam principalmente dominar seus mundos com essa força.
— Parecem estar conseguindo isto.
— Ah, mas e as forças contrárias que elas invocam ao fazê-lo?
— Eu não compreendo.
— Você conhece a Voz e o efeito que ela tem sobre certas pessoas.
— Mas ela não controla todo o mundo.
— Exatamente. Uma civilização que tenha sido sujeita à Voz durante um longo período acaba desenvolvendo meios de se adaptar a essa força, evitando a sua manipulação por parte daqueles que a utilizam.
— Então existem pessoas que sabem como resistir às prostitutas?
— Estamos percebendo indícios inconfundíveis disso. E essa é uma das razões que nos trouxeram a Rakis.
— E as prostitutas vão vir para cá?
— Temo que sim. Elas querem dominar o núcleo do Antigo Império, pois nos julgam uma conquista fácil.
— E não está com medo de que elas vençam?
— Elas não vão vencer, Sheeana. Confie nisso. Mas elas são boas para nós.
— Como podem ser?
O tom de voz de Sheeana refletia o próprio choque de Taraza ao ouvir essas palavras partindo de Odrade. De quanto Odrade suspeitaria? No instante seguinte Taraza compreendeu e se perguntou se essa lição seria igualmente compreensível para a jovem.
— O núcleo é estático, Sheeana. Nós sofremos uma estagnação quase completa por milhares de anos. E a vida e o movimento pertencem àquelas pessoas lá fora que resistem às Prostitutas no meio da Dispersão. O que quer que façamos, devemos tornar essa resistência ainda mais forte.
O som dos tópteros aproximando-se tirou Taraza do devaneio da lembrança.
Os OMIs estavam chegando a Keen. Ainda estavam a boa distância, mas o ar claro levava o som bem longe.
O método de ensinamento de Odrade era muito bom. Taraza teve que admitir isso enquanto esquadrinhava o céu em busca dos tópteros. Aparentemente eles se aproximavam a baixa altura, vindos do outro lado do prédio. Essa era a direção errada, mas talvez tivessem conduzido os OMIs numa breve excursão sobre os restos da muralha do Tirano. Muitas pessoas estavam curiosas quanto ao lugar onde Odrade encontrara o tesouro de especiaria.
Sheeana, Odrade, Waff e Tulushan voltaram para dentro do comprido salão de reuniões. Também tinham ouvido os tópteros. Sheeana estava ansiosa por demonstrar seu poder sobre os vermes. Taraza hesitou. Havia um som forte nos tópteros que se aproximavam. Estariam sobrecarregados? Quantos observadores teriam trazido?
O primeiro tóptero ergueu-se sobre o telhado da cobertura e Taraza viu a cabina blindada. Reconheceu a traição antes mesmo que o primeiro feixe de laser partisse da máquina, cortando-lhe as pernas abaixo dos joelhos. Ela caiu pesadamente de encontro a um arvoredo que crescia dentro de um vaso, as pernas totalmente separadas do corpo. Outro raio a atingiu, cortando em ângulo sobre seus quadris. O
tóptero passou sobre ela num abrupto rugido de jatos impulsores e fez uma curva brusca para a esquerda.
Taraza ficou agarrada na árvore, controlando a agonia. Conseguiu interromper a maior parte do fluxo de sangue para os ferimentos, mas a dor era muito grande. Não tão forte quanto a da agonia da especiaria, contudo. Isso ajudava, mas ela sabia estar condenada. Ouviu gritos e os sons múltiplos da violência em torno do museu.
“Eu venci!”, pensou Taraza.
Odrade veio correndo de dentro da cobertura e se curvou sobre Taraza. Ela não disse coisa alguma, mas Odrade mostrou que compreendia ao colocar a testa sobre a têmpora de Taraza. Era um antigo sinal da Bene Gesserit, e Taraza começou a verter sua vida para Odrade — as Outras Memórias, suas esperanças, seus temores...
tudo.
Uma delas ainda poderia escapar.
Sheeana observava da cobertura, permanecendo onde lhe haviam ordenado
que esperasse. Sabia o que estava acontecendo lá no jardim. Era o mistério final da Bene Gesserit, e cada postulante tinha conhecimento dele.
Waff e Tulushan já estavam fora do salão quando o ataque começara, e não voltaram.
Sheeana estremeceu, apreensiva.
De súbito, Odrade levantou-se e correu de volta para a cobertura. Havia uma expressão enlouquecida em seus olhos, mas ela agia com um propósito bem-definido.
Saltando, agarrou um punhado de globos luminosos, reunindo-os em feixes por seus cordões de amarração. Entregou vários feixes a Sheeana e esta sentiu o corpo tornar-se mais leve devido aos campos suspensores dos globos. Arrastando outros conjuntos de globos para fora do alcance dos campos de fixação, Odrade correu para a extremidade mais estreita do salão, onde uma grade na parede indicava o que ela buscava. Com a ajuda de Sheeana, arrancou a grade e descobriu um profundo poço de ventilação. A luz dos globos luminosos revelava que as paredes interiores eram ásperas.
— Mantenha os globos juntos para conseguir o máximo efeito do campo! —
explicou Odrade. — Afaste-os para baixar. Vá.
Sheeana agarrou um punhado de globos com a mão suada e saltou para dentro do poço. Deixou-se cair e então, assustada, comprimiu os globos uns contra os outros. A luz acima dela revelou que Odrade a estava seguindo.
Lá embaixo, emergiram numa sala de bombeamento, com os sussurros de muitos ventiladores girando, espécie de fundo para os ruídos de violência vindos do exterior.
— Devemos chegar à não-câmara e de lá partir para o deserto — explicou Odrade — Todos esses sistemas de máquinas são interligados. Vai haver uma passagem.
— Ela está morta? — sussurrou Sheeana.
— Sim.
— Pobre Madre Superiora.
— Eu sou a Madre Superiora agora, Sheeana. Pelo menos temporariamente.
— Apontou para o alto. — Aquelas eram as prostitutas nos atacando. Precisamos correr.
O mundo é dos vivos. E quem são eles?
Nós enfrentamos as trevas para alcançar a claridade e o calor.
Ela era o vento, quando o vento ficava em meu caminho.
Viva ao meio-dia, morri com a sua forma,
Que se ergue da carne, no espirito que sai.
Um mundo supera o outro e tudo é luz.
— Theodore Roethke (Citações Históricas: Dar-es-Balat) Fora necessário muito esforço consciente da parte de Teg para ele transformar-se no redemoinho. Reconhecera, afinal, a ameaça das Honradas Madres.
E o reconhecimento se encaixava nas necessidades obscuras da nova consciência Mentat que o acompanhava nessa velocidade ampliada com que era capaz de se mover.
Uma ameaça monstruosa exigia uma reação monstruosa. O sangue respingou enquanto ele atravessava o prédio do quartel-general, matando a todos que encontrava.
Como tinha aprendido com a Bene Gesserit, o maior problema do universo humano resumia-se no modo como se controlava a procriação. Podia ouvir a voz de sua primeira professora enquanto levava a destruição por todo o prédio.
“Você pode pensar nisso apenas como sexualidade, mas nós preferimos o termo básico: procriação. Ela tem muitas facetas e muitas conseqüências, além de uma energia aparentemente ilimitada. A emoção a que chamam de 'amor' é apenas um aspecto menor.”
Teg esmagou a garganta de um homem que estava de pé, rígido em seu caminho, e afinal encontrou a sala de controle para as defesas do prédio. Havia apenas um homem sentado, a mão direita quase tocando um botão vermelho no console à sua frente.
Com uma cutelada de esquerda, Teg quase decapitou o homem. O corpo inclinou-se para trás em câmara lenta, os sangue jorrando do pescoço aberto.
“A Irmandade está certa em chamá-las de prostitutas.”
Era possível conduzir a humanidade em praticamente qualquer direção através da manipulação das imensas energias da procriação. Podia-se levar as pessoas a agirem de modos que nunca acreditariam serem possíveis. Uma de suas instrutoras dissera isso abertamente:
— Essa energia deve ter uma válvula de escape. Prenda-a e ela se tornará monstruosamente perigosa. Redirecione-a e ela varrerá tudo em seu caminho. Esse é o derradeiro segredo de todas as religiões.
Teg estava consciente de ter deixado mais de 50 corpos espalhados em seu caminho quando saiu do prédio. O último a morrer fora o soldado em uniforme de camuflagem, de pé na porta aberta, aparentemente a ponto de entrar no prédio.
Enquanto ele passava correndo por pessoas e veículos aparentemente imóveis,
sua mente acelerada teve tempo para refletir sobre o que deixara lá atrás. Haveria algum consolo no fato de a última expressão da vida da Honrada Madre ter sido de verdadeira surpresa? Será que poderia congratular-se com o fato de que Muzzafar nunca mais veria seu lar na árvore modelada?
A necessidade daquilo que fizera no espaço de umas poucas batidas de coração era clara, contudo, para uma pessoa treinada pela Bene Gesserit. Teg conhecia a história.
Havia muitos planetas paradisíacos no Antigo Império, e provavelmente mais ainda em meio aos mundos da Dispersão. E os seres humanos sempre pareciam capazes de tentar aquela experiência tola. Nesses lugares as pessoas levavam uma vida de ócio.
Uma análise imediatista dizia que isso se devia ao clima ameno desses planetas. Ele achava isso estúpido. A verdade é que as energias sexuais eram facilmente liberadas em tais lugares. Deixe as Missionárias do Deus Dividido ou qualquer outra instituição eclesiástica entrar em um desses paraísos e o resultado será a violência extrema.
— Nós da Irmandade sabemos disso — dissera uma das professoras de Teg.
— Já acendemos esse estopim mais de uma vez com nossa Missionaria Protectiva.
Teg não parou de correr até se encontrar num beco a pelo menos cinco quilômetros do abatedouro que tinha sido o quartel-general da velha Honrada Madre.
Sabia que muito pouco tempo se passara, mas havia algo mais importante em que focalizar sua atenção agora. Não tinha morto todos os ocupantes do prédio. Havia olhos lá que tinham visto o que ele podia fazer. Viram-no matar Honradas Madres.
Viram Muzzafar cair morto em suas mãos. A evidência dos corpos deixados em seu caminho e a reprodução das gravações em baixa velocidade revelariam tudo.
Teg apoiou-se em uma parede. A pele fora arrancada da palma de sua mão esquerda. Deixou-se retornar ao tempo normal de reação e viu o sangue saindo do ferimento. Era quase negro.
“Mais oxigênio em meu sangue?”
Estava ofegante, mas não tanto quanto seria de esperar após uma atividade daquelas.
“Que está acontecendo comigo?”
Era alguma coisa vinda de sua ancestralidade Atreides, ele sabia. A crise empurrara-o para uma nova dimensão das capacidades humanas. E o que quer que fosse, a transformação era profunda. Podia enxergar agora muitas necessidades novas.
E as pessoas por que passara em sua corrida até esse beco tinham parecido estátuas.
“Será que algum dia vou pensar nelas como escória?”
Só aconteceria se ele deixasse acontecer, sabia muito bem. Mas a tentação estava lá, e ele se permitiu um breve sentimento de piedade para com as Honradas Madres. A Grande Tentação derrubara-as sobre sua própria escória.
Que fazer agora?
A principal linha de ação estava aberta para ele. Havia um homem em Ysai, um homem que certamente conhecia todas as pessoas de quem Teg precisava. Olhou para o beco. Sim, esse homem estava perto.
Um perfume de flores e ervas flutuou até ele de algum ponto desse beco.
Caminhou em direção ao perfume, consciente de que ele o conduziria aonde precisava ir e de que nenhum ataque violento o esperava ali. Esse era, temporariamente, um afluente calmo.
Chegou rapidamente à fonte do perfume. Era uma porta marcada por um toldo azul, com duas palavras em Galach moderno: “Serviços Pessoais”.
Teg entrou e percebeu imediatamente o que havia encontrado. Esses lugares podiam ser vistos em muitos pontos do Antigo Império: estabelecimentos que serviam refeições como nos tempos ancestrais, sem usar autômatos na cozinha ou nas mesas. Em sua maioria eram lugares “in”. As pessoas contavam aos amigos sobre sua última “descoberta”, advertindo-os para não espalhar a novidade.
“Não queremos estragar o lugar fazendo-o ficar cheio de gente.”
Essa idéia sempre divertira Teg. As pessoas espalhavam a notícia sobre um lugar desses, mas o faziam sob o disfarce de manter o segredo.
Odores que faziam sua boca ficar cheia d'água emergiam da cozinha nos fundos. Um garçom passou com uma bandeja da qual se erguia vapor, prometendo boa comida.
Uma jovem de vestido preto curto e avental branco veio ao encontro dele.
— Por aqui, senhor. Temos uma mesa vaga no canto.
Ela puxou uma cadeira para que Teg se sentasse com as costas para a parede.
— Alguém virá atendê-lo num minuto, senhor. — Passou-lhe uma folha dura de papelão barato. — Nosso cardápio está impresso, senhor. Espero que não se incomode.
Ele a observou sair. O garçom que tinha visto passou na direção oposta, a caminho da cozinha. A bandeja estava vazia.
Os pés de Teg o haviam conduzido até ali como se tivessem andado num trilho fixo. E ali estava o homem de quem precisava. Comendo na mesa ao lado.
O garçom tinha parado para falar com o homem que, Teg sabia, teria a resposta para o próximo movimento que deveria fazer. Os dois riam juntos. Teg observou o resto do restaurante. Apenas mais três mesas estavam ocupadas. Uma velha sentava-se a uma das mesas, mordiscando alguma coisa gelada. Vestia-se no que Teg julgou ser o máximo da moda no momento, um vestido justo vermelho com gola baixa. Os sapatos combinavam. Um jovem casal sentava-se a uma mesa à direita.
Nenhum dos dois via ninguém, exceto um ao outro. Um velho de túnica marrom justa, estilo antigo, comia um prato de vegetais verdes perto da porta. Só tinha olhos para a comida.
O homem que falava com o garçom riu alto.
Teg olhou para a parte de trás da cabeça do garçom. Tufos de cabelo louro projetavam-se da nuca como feixes arrancados do feno. O colarinho do homem estava puído embaixo dos tufos de cabelo. Teg abaixou os olhos. Os sapatos do garçom também eram gastos e a bainha de seu paletó fora remendada. Seria alguma
forma de economia neste lugar? Economia ou algum outro tipo de pressão econômica? Os odores vindos da cozinha não sugeriam qualquer forma de economia por lá. A mesa era limpa e brilhante. Não havia pratos rachados. Mas a toalha vermelha e branca sobre a mesa tinha sido remendada em vários lugares, com cuidado para igualar o tecido original.
Uma vez mais Teg observou os outros fregueses. Pareciam gente abastada.
Nada de pobres famintos. Não apenas era um lugar chique como fora projetado justamente para obter esse efeito. Havia uma mente muito habilidosa por trás de um estabelecimento como esse. Era o tipo de restaurante que jovens executivos revelavam para ganhar pontos diante de clientes em potencial ou para agradar um superior. A comida devia ser soberba, servida em porções generosas. Teg percebia que seus instintos o haviam guiado corretamente até esse lugar. Voltou a atenção para o cardápio, permitindo que afinal a fome penetrasse em sua consciência, uma fome tão violenta quanto aquela que deixara admirado o falecido Marechal-de-Campo Muzzafar.
O garçom apareceu ao lado dele com uma bandeja sobre a qual havia uma caixinha aberta e um jarro do qual subia um odor forte de óleo medicinal.
— Vejo que feriu a mão, Bashar — disse o homem. Colocou a bandeja sobre a mesa. — Permita-me fazer um curativo antes de ouvir seu pedido.
Teg ergueu a mão ferida e observou a rápida competência com que era realizado o curativo.
— Você me conhece? — perguntou Teg.
— Sim, senhor. E depois do que andei ouvindo me parece estranho vê-lo completamente uniformizado. Aí está!
Ele terminou o curativo.
— Que andou ouvindo? — perguntou Teg em voz baixa.
— Que as Honradas Madres o estão caçando.
— Acabei de matar algumas delas e muitos de seus... De que deveria chamá-los?
O homem empalideceu, mas falou com firmeza.
— Escravos seria uma palavra adequada, senhor.
— Você estava em Renditai, não estava?
— Sim, senhor. Muitos de nós nos estabelecemos aqui depois da guerra.
— Eu preciso de comida, mas não tenho como pagá-la.
— Ninguém de Renditai precisa do seu dinheiro, Bashar. Elas sabem que veio para cá?
— Não acredito que saibam.
— As pessoas que estão aqui são fregueses costumeiros. Nenhum deles o denunciaria. Vou tentar avisá-lo se entrar alguém perigoso. Que deseja comer?
— Um bocado de comida. Deixo por sua conta. Duas vezes mais carboidratos do que proteína. Nada de estimulantes.
— Que quer dizer com um bocado de comida, senhor?
— Vá trazendo até que eu lhe diga para parar... ou até que sinta que estou abusando de sua generosidade.
— A despeito das aparências, senhor, este estabelecimento não é um lugar pobre. As gorjetas tornaram-me um homem rico.
Um aspecto para avaliar, pensou Teg. A pobreza ali era uma pose calculada.
O garçom saiu e falou com o homem na mesa do centro. Teg observou o homem abertamente depois de o garçom entrar na cozinha. Sim, aquele era o homem.
A refeição concentrada em um prato cheio de uma pasta verde.
Esse homem demonstrava poucos sinais dos cuidados de uma mulher, pensou Teg. O colarinho fora abotoado de um modo descuidado, os feixes pendendo. Havia manchas de molho verde do lado esquerdo.
Ele era destro, mas comia com a mão esquerda. As calças tinham bainhas puídas, uma delas parcialmente solta da costura. As meias eram desiguais — uma azul e outra amarela clara. Nada disso parecia incomodá-lo. Nenhuma mãe ou qualquer outra mulher jamais o trouxera de volta da porta com ordem de se arrumar direito.
Sua atitude básica era anunciada em toda a sua aparência:
“O que está vendo é tão apresentável quanto poderia ser.”
O homem olhou para cima num movimento súbito, como se tivesse sido espetado. Olhou pela sala, parando para observar cada rosto como se procurasse alguém em particular. Feito isso, tornou a voltar sua atenção para o prato.
O garçom retornou com um prato de sopa clara com pedacinhos de ovo e vegetais verdes.
— Para comer enquanto estamos preparando o resto de sua refeição, senhor.
— Você veio para cá logo depois de Renditai?
— Sim, senhor. Mas também servi com o senhor em Acline.
— O 67º Gammu — disse Teg.
— Sim senhor!
— Nós salvamos muitas vidas naquela ocasião — comentou Teg. — As deles e as nossas.
Como Teg não começasse a comer, o garçom disse com uma voz um tanto fria: