Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 8 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

Taraza não tentou esconder sua admiração.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Vai querer um farejador, senhor?

— Não enquanto estiver me servindo — respondeu Teg. Falava com sinceridade, mas se sentia um pouco mentiroso porque sua dupla visão revelava que a comida era segura.

O garçom fez menção de se afastar, satisfeito.

— Um momento — pediu Teg.

— Sim?

— O homem na mesa do centro. É um de seus fregueses costumeiros?

— O professor Delnay? Oh, sim, senhor.

— Delnay? Sim, achei que era.

— Professor de artes marciais, senhor. E a história é a mesma.

— Eu sei. Quando chegar a hora de servir minha sobremesa, por favor, pergunte ao professor Delnay se ele quer me fazer companhia.

— Devo dizer a ele quem é o senhor?

— Não acha que ele já sabe?

— Isso parece muito provável, senhor. Ainda assim...

— Cautela onde deve haver cautela — disse Teg. — Traga-me a comida.

O interesse de Delnay fora despertado muito antes de o garçom transmitir-lhe o convite de Teg. As primeiras palavras do professor, enquanto se sentava diante do bashar, foram:

— Este é o mais extraordinário desempenho gastronômico que já vi. Com certeza de que vai poder comer a sobremesa?

— Duas ou três no mínimo — respondeu Teg.

— Espantoso!

Teg provou uma colher de um alimento que tinha a doçura do mel. Engoliu e então disse:

— Este lugar é um tesouro.

— Eu o tenho mantido como um segredo cuidadoso — explicou Delnay. —

Exceto por alguns amigos mais chegados, é claro. A que devemos a honra de sua visita? — Você já foi... ah, marcado por uma Honrada Madre?

— Deuses da perdição, não! Não sou suficientemente importante para isso.

— Eu estava pensando em lhe pedir para arriscar sua vida, Delnay.

— De que maneira?

Não havia hesitação na voz dele. Isso era tranqüilizador.

— Existe um lugar em Ysai onde meus antigos soldados se reúnem. Quero ir lá e ver o maior número deles que for possível.

— Passando por essas ruas, em uniforme completo como está agora?

— De qualquer modo que puder arranjar.

Delnay colocou um dedo sobre o lábio inferior e se inclinou para trás da cadeira, de modo a poder observar Teg.

— Você não é uma figura fácil de se disfarçar, sabe muito bem. No entanto, pode haver um modo. — Assentiu com a cabeça, pensativo. Sim. — Depois sorriu.

— Temo que não vá gostar.

— Que é que tem em mente?

— Alguns acolchoados, algumas almofadas, outras alterações. Você passaria por um capataz Bordano. Vai ter que cheirar a esgoto, é claro. E fingir que não repara.

— Por que acha que desse modo teremos sucesso?

— Oh, vai haver uma tempestade esta noite. Coisa costumeira nesta época do ano. Descarregando umidade para as colheitas a céu aberto do próximo ano. E

enchendo os reservatórios para os campos aquecidos, você sabe.

— Eu não entendo o seu raciocínio, mas quando eu terminar outro desses doces vamos sair.

— Vai gostar do lugar onde vamos refugiar-nos da tempestade — disse Delnay. — Eu estou louco entrando numa coisa dessas, mas o proprietário aqui disse que eu devia ajudá-lo ou não voltar nunca mais.

Passava uma hora do anoitecer quando Delnay o conduziu ao ponto, fora forçado a usar boa parte de seus poderes mentais para ignorar o cheiro. Os amigos de Delnay haviam-no emplastrado de material dos esgotos, e depois secado. O processo de secagem com ar quente produzira a maior parte do cheiro.

Uma estação remota de monitoração do clima junto à porta do local de encontro revelou a Teg que a temperatura tinha caldo 15 graus na última hora. Delnay entrou na frente dele num salão abarrotado e barulhento, com o som de copos batendo. Teg parou para observar a estação ao lado. O vento estava soprando a 30

diques e a pressão barométrica cair olhou para um cartaz sobre a estação:

“Um serviço para os nossos fregueses.”

Presumivelmente um serviço para o bar também. Os fregueses que estivessem saindo poderiam ver o cartaz e resolver voltar para o calor e a camaradagem que haviam deixado.

Numa grande lareira no fundo do bar, havia um fogo verdadeiro queimando.

Madeiras aromáticas.

Delnay voltou, torceu o nariz ante o cheiro de Teg e o conduziu, contornando a multidão, até uma sala nos fundos com seu banheiro privativo. O uniforme de Teg, limpo e passado, estava lá sobre uma cadeira.

— Eu estarei no canto, junto da lareira, quando sair — disse Delnay.

— De uniforme completo, hein? — perguntou Teg.

— Só é perigoso lá na rua — disse Delnay.

Voltou por onde viera.

Daí a pouco Teg saiu e abriu caminho até junto da lareira, passando por grupos de pessoas que subitamente ficavam em silêncio ao reconhecê-lo. Comentários murmurados eram trocados através do bar. “O velho Bashar em pessoa!” “Oh sim, é Teg, servi com ele!”

“Reconheceria aquele rosto e aquela figura em qualquer lugar.”

Os fregueses tinham se aglomerado junto ao calor da lareira. Havia um cheiro forte de roupa úmida e bafo de bebida.

Então a tempestade tinha atraído essa multidão para o bar? Teg olhou para muitos rostos de militares endurecidos por batalhas ao seu redor, pensando que essa não era uma reunião costumeira, não importava o que Delnay havia dito. As pessoas ali se conheciam, contudo, e haviam marcado encontro para essa hora.

Delnay estava sentado em um dos bancos junto à lareira, um copo contendo uma bebida cor de âmbar na mão.

— Você passou o aviso para nos encontrarmos aqui? — perguntou

— Não é o que desejava, Bashar?

— Quem é você, Delnay?

— Eu tenho uma fazenda de inverno alguns cliques ao sul daqui, e tenho amigos banqueiros que às vezes me emprestam um carro de solo. Se quer que eu seja mais específico, sou como o resto das pessoas nesta sala: alguém que deseja ver as Honradas Madres longe dos nossos pescoços.

Um homem atrás de Teg perguntou:

— É verdade que matou uma centena deles hoje, Bashar?

Teg disse secamente, sem se virar:

— O número foi muito exagerado. Pode me arranjar uma bebida, por favor?

Com sua grande altura, Teg esquadrinhou o salão enquanto alguém ia buscar-lhe um copo. Quando o colocaram em sua mão, era o que ele tinha esperado — um drinque azul Daniano. Esses velhos soldados conheciam o seu gosto.

O consumo de bebidas dentro do salão continuou, mas a um ritmo mais controlado. Eles estavam esperando que ele declarasse suas intenções.

A natureza gregária do ser humano ganhava um impulso natural numa noite tempestuosa como essa, pensou Teg. Reunam-se junto ao fogo na entrada da caverna, companheiros de tribo! Nenhum perigo passará por nós, especialmente quando as feras virem nosso fogo. Quantas reuniões semelhantes a essa não estariam ocorrendo em Gammu esta noite?, perguntou-se ele provando da bebida. O mau tempo poderia disfarçar movimentos que seus companheiros de reunião não desejariam que fossem observados. O tempo também manteria fora das ruas certas pessoas que de outro modo estariam observando.

Teg reconheceu alguns rostos de seu passado — oficiais e soldados — um grupo misturado. A alguns ele associava boas lembranças: gente confiável. Alguns iriam morrer nessa noite.

O nível de ruído começou a aumentar à medida que todos iam ficando mais à vontade em sua presença. Ninguém o pressionava para obter uma explicação. Eles também conheciam esse detalhe a seu respeito. Teg guiava-se pelo seu próprio ritmo.

Os sons de riso e de conversa eram do tipo que deviam ter acompanhado reuniões como essa desde a aurora dos tempos, quando os seres humanos se aglomeravam em busca de proteção mútua. Copos tilintando, risadas súbitas, alguns risinhos mais controlados. Esses deviam ser os mais conscientes de seu poder pessoal.

Risos controlados revelavam uma pessoa que podia divertir-se, mas não precisa se fazer de tola alardeando esse divertimento. Delnay era uma delas.

Teg olhou para cima e viu que o teto, sustentado por vigas, era baixo, construído de acordo com as convenções. Fazia aquele espaço fechado parecer ao mesmo tempo mais amplo e mais aconchegante Houvera uma atenção cuidadosa com relação à psicologia humana na construção desse lugar. Era uma coisa que tinha observado muitas vezes nesse planeta. Um cuidado em manter as pessoas fora de guarda. “Faça-os sentirem-se seguros e confortáveis. Eles não estão, é claro, mas não

deixe que percebam isso.”

Por mais alguns momentos, Teg observou as bebidas sendo distribuídas por um grupo habilidoso de garçons: cervejas escuras produzidas lá mesmo e algumas bebidas importadas, caras. Espalhadas pelo bar, sobre as mesas iluminadas com luz indireta, havia tigelas contendo salgadinhos, frituras e picles. Esse movimento óbvio no sentido de promover a sede não ofendia ninguém. Era algo esperado nesse tipo de negócio. As cervejas também deviam conter sal, é claro. Sempre continham. Os donos das cervejarias sabiam como aumentar o consumo.

Alguns dos grupos estavam começando a ficar agitados, falando alto. Era a bebida fazendo sua mágica ancestral. Baco dominava o ambiente! Teg sabia que se deixasse essa reunião seguir o curso natural haveria um ápice de animação e ruído no final da noite e então, gradualmente, muito gradualmente, o nível do ruído iria diminuindo. Alguém olharia para a estação meteorológica junto da porta e, dependendo do que visse, o lugar poderia esvaziar-se rapidamente, ou continuar como estava, num passo mais contido, por algum tempo. Percebeu então que em algum lugar desse bar devia haver um dispositivo para distorcer as leituras da estação meteorológica. Os proprietários não desprezariam esse artifício para aumentar o lucro.

“Faça-os entrar e os mantenha aqui por qualquer meio que não os ofenda.”

As pessoas que dirigiam o lugar iriam aliar-se às Honradas Madres sem piscar o olho.

Teg colocou de lado a bebida e disse em voz alta:

— Posso ter a atenção de vocês por favor?

Silêncio.

Até mesmo os empregados do bar interromperam o que estavam fazendo.

— Alguns de vocês vigiem as portas — ordenou Teg. — Ninguém sai, ninguém entra aqui até que eu dê a ordem. Aquelas portas dos fundos também, por favor.

Quando isso fora feito, ele olhou cuidadosamente para as pessoas no salão, escolhendo aquelas que sua dupla visão e a antiga experiência militar lhe diziam serem confiáveis. O que tinha a fazer agora tornara-se claro. Burzmali, Lucilla e Duncan estavam lá, na extremidade de sua segunda visão, suas necessidades fáceis de discernir.

— Presumo que possam conseguir armas rapidamente — ele disse.

— Nós viemos preparados, Bashar! — gritou alguém no salão.

Teg percebeu o efeito da bebida naquela voz, mas também o velho efeito da adrenalina que essas pessoas tanto apreciavam.

— Nós vamos capturar uma não-nave — disse Teg.

Isso os fascinou. Nenhum Outro produto da civilização era mais bem guardado. Essas naves desciam em campos de pouso e outros lugares e partiam logo em seguida. Suas superfícies blindadas estavam sempre cheias de armas. As tripulações permaneciam em alerta constante nos lugares mais vulneráveis. Algum estratagema poderia ter sucesso; um ataque aberto seria impossível. Mas ali naquele

salão Teg havia atingido uma nova percepção, impulsionado pela necessidade e pelos genes loucos de sua ancestralidade Atreides. As posições das não-naves pousadas em Gammu e em torno do planeta eram-lhe visíveis. Pontos brilhantes preenchiam sua visão interior, como contas levando de um lugar a outro, mostrando o caminho para fora desse labirinto.

“Oh, mas eu não quero ir”, pensava ele.

A coisa que o impulsionava não podia ser contrariada.

— Especificamente, vamos capturar uma não-nave da Dispersão — ele disse.

— Eles possuem algumas das melhores. Você, você, você e você! — apontou, destacando os indivíduos. — Vocês vão ficar aqui e cuidar para que ninguém saia nem se comunique com qualquer pessoa fora deste estabelecimento. Eu acho que vão ser atacados. Agüentem o quanto puderem. O resto de vocês, peguem suas armas e vamos.

Justiça? Quem clama por justiça? Nós fazemos nossa própria justiça. Nós a exercemos aqui em Arrakis — vencer ou morrer. Não vamos gritar por justiça enquanto tivermos armas e liberdade para usá-las.

— Leto I: Arquivos de Bene Gesserit

A não-nave aproximou-se em vôo baixo sobre as areias Rakianas. Sua passagem ergueu redemoinhos de poeira que rodopiaram em torno dela enquanto pousava esmagando dunas. O sol amarelo-prateado mergulhava num horizonte agitado pelas miragens causadas pelo calor de um dia longo e sufocante. A não-nave imobilizou-se e estalou, uma brilhante bola de aço cuja presença poderia ser detectada por olhos e ouvidos, mas não por qualquer ato de presciência ou instrumento de longo alcance. A dupla visão de Teg tornava-o confiante em que olhos indesejáveis não tinham visto sua chegada.

— Eu quero os tópteros blindados e os carros lá fora em menos de 10

minutos — ele disse.

Pessoas saltaram em ação atrás dele.

— Tem certeza de que eles estão aqui, Bashar?

A voz era a de um companheiro de copo do bar de Gammu, um oficial de confiança vindo de Renditai, cujo estado de espírito não era mais o de alguém em busca das emoções da juventude. Esse tinha visto velhos amigos morrerem combatendo em Gammu. Como a maioria dos outros que haviam sobrevivido para chegar a Rakis, ele deixara para trás uma família cujo destino não sabia agora qual ia ser. Havia um toque de amargura em sua voz, como se ele estivesse tentando convencer-se de que fora enganado ao embarcar nessa aventura.

— Eles logo estarão aqui — disse Teg. — Vão chegar cavalgando no dorso de

um verme.

— Como sabe disso?

— Foi tudo arranjado.

Teg fechou os olhos. Não precisava dos olhos para enxergar toda a atividade à sua volta. Esse era como muitos outros postos de comando que tinha ocupado ao longo de sua vida: uma sala oval cheia de instrumentos e das pessoas que os operavam, oficiais aguardando ordens.

— Que lugar é esse? — perguntou alguém.

— Está vendo aquelas rochas ao norte — disse Teg. — Pode vê-las? Já foram um penhasco elevado. Era chamado de Armadilha de Vento. Havia um sietch Fremen ali, pouco mais que uma caverna agora. Alguns pioneiros Rakianos vivem nela.

— Fremen — sussurrou alguém — Deuses! Quero ver aquele verme chegando. Nunca pensei que fosse testemunhar uma coisa dessas.

— Outros de seus arranjos inesperados, hein? — perguntou o oficial, cada vez mais amargurado.

“Que diria ele se eu revelasse minhas novas habilidades?”, pensou Teg.

“Poderia pensar que ocultei motivos que não suportariam um exame minucioso. E

estaria certo. Esse homem está à beira de uma revelação. Será que continuaria leal se seus olhos fossem abertos?” Teg sacudiu a cabeça. Esse oficial não teria escolha.

Nenhum deles tinha muita opção, exceto lutar ou morrer.

Era verdade, pensou Teg, que o processo de organizar conflitos envolvia sempre o ato de enganar as grandes massas. Como era fácil mergulhar na atitude das Honradas Madres.

“Escória!”

E iludir as massas não era tão difícil quanto alguns supunham. A maioria das pessoas queria ser liderada. Aquele oficial resmungando agora desejara isso. Havia instintos tribais muito profundos (motivações inconscientes muito poderosas) que respondiam por isso. E a reação natural quando se começava a perceber com que facilidade se fora arrastado numa aventura que depois causava o arrependimento era buscar bodes expiatórios. E o oficial lá atrás queria um bode expiatório agora.

— Burzmali quer vê-lo — disse alguém à esquerda de Teg.

— Agora não — ele respondeu.

Burzmali podia esperar, logo teria o seu dia como comandante. Enquanto isso ele representava uma distração. Haveria tempo depois para ele aproximar-se perigosamente do papel de bode expiatório.

Como era fácil criar bodes expiatórios e com que facilidade eles eram aceitos!

Tal atitude era particularmente atraente quando a alternativa era admitir a culpa, a estupidez ou ambas. Teg queria dizer isso a todos aqueles à sua volta.

— Procurem ver como foram logrados! Então conhecerão nossas verdadeiras intenções!

O oficial de comunicações à esquerda de Teg disse:

— Aquela Reverenda Madre está com Burzmali agora. Ela insiste em que recebam permissão para vê-lo.

— Diga a Burzmali que eu quero que ele volte e fique junto de Duncan —

disse Teg. — E mande ele dar uma olhada em Murbella e se certificar de que ela está bem presa. Lucilla pode vir.

“Tinha que ser.” — pensou Teg.

Lucilla tinha crescentes suspeitas a respeito das mudanças ocorridas com ele.

Era próprio de uma Reverenda Madre perceber diferenças.

Lucilla entrou num sussurro de mantos que acentuavam sua veemência. Estava furiosa, mas ocultava isso muito bem.

— Eu exijo uma explicação, Miles!

Era uma boa abordagem, pensou ele, e perguntou:

— Sobre o quê?

— Por que nós simplesmente não vamos lá e...

— Porque as Honradas Madres e seus companheiros Tleilaxu da Dispersão apoderaram-se da maioria dos centros Rakianos.

— Como... como você...

— Elas mataram Taraza, você sabe.

Ela se conteve, mas não por muito tempo.

— Miles, eu insisto em que me diga.

— Nós não temos tanto tempo assim. O próximo satélite que cruzar o céu vai nos mostrar pousados aqui.

— Mas as defesas de Rakis..

— São vulneráveis como qualquer outro tipo de defesa estática — ele disse. —

As famílias dos defensores estão aqui embaixo. Tome as famílias como reféns e você terá um controle efetivo sobre os defensores.

— Mas por que estamos parados aqui no...

— Para apanhar Odrade e aquela moça que está com ela. Ah, e o verme delas também.

— O que vamos fazer com um...

— Odrade saberá o que fazer com o verme. Ela é sua Madre Superiora agora, você sabe.

— Então vai nos levar para...

— Vocês vão aonde quiserem! Eu e minha gente ficamos para criar uma manobra diversiva.

Essa declaração produziu um silêncio profundo na estação de comando.

“Manobra diversiva”, pensou Teg. “Mas que termo inadequado.” A resistência que ele planejava criar produziria histeria entre as Honradas Madres, especialmente quando elas fossem levadas a acreditar que o ghola estava ali. Não somente elas contra-atacariam como recorreriam a procedimentos de esterilização. A maior parte de Rakis se tornaria uma ruína carbonizada. Havia pouca probabilidade de que qualquer ser

humano, verme ou truta da areia sobrevivesse.

— As Honradas Madres têm tentado localizar e capturar um verme sem sucesso — ele disse — Realmente não compreendo como elas podem ser tão cegas em sua concepção de como transplantá-los.

— Transplantar?

Lucilla estava boiando. Teg raramente vira uma Reverenda Madre tão pouco informada. Ela estava tentando concatenar as coisas que ele dissera. A Irmandade compartilhava de algumas das habilidades dos Mentats, ele observara. Um Mentat podia alcançar uma convicção válida sem ter dados suficientes. Ele pensou que estaria bem longe, fora do alcance dela (ou de qualquer outra Reverenda Madre!), muito antes que Lucilla tivesse reunido os dados de que precisava para obter uma conclusão. Então haveria uma correria atrás de sua prole! Elas pegariam Dimella para ser uma Madre Procriadora, é claro. E Odrade. Essa não ia escapar.

Elas tinham a chave para os tanques axlotl dos Tleilaxu, também. Seria apenas uma questão de tempo até que a Irmandade dominasse seus escrúpulos e conquistasse essa fonte de especiaria. Um corpo humano a produzia!

— Estamos correndo perigo aqui, então — comentou Lucilla.

— Algum perigo, é verdade. O problema com as Honradas Madres é que elas são muito ricas. E cometem os erros dos muito ricos.

— Prostitutas depravadas! — exclamou Lucilla.

— Sugiro que vá para a comporta de entrada — ele disse. — Odrade logo estará aqui.

Ela saiu sem dizer mais nada.

— Os blindados foram todos desembarcados e assumiram posições — disse o oficial de comunicações.

— Alerte Burzmali para estar pronto a assumir o comando aqui — disse Teg.

— O restante de nós sairá logo.

— O senhor espera que nós todos nos unamos ao senhor? — perguntou o que buscava o bode expiatório.

— Eu vou sair — disse Teg. — Vou sair sozinho se for necessário. Só aqueles que quiserem devem ir comigo.

Depois disso todos o seguiriam, pensou Teg. A pressão do grupo era algo que poucos compreendiam fora da Bene Gesserit.

O silêncio caiu sobre a estação de comando, exceto pelo fraco zumbido e os estalidos dos instrumentos. Teg começou a pensar nas “prostitutas depravadas”.

Não era correto defini-las como depravadas, pensou. Por vezes os demasiadamente ricos tornavam-se depravados. Isso vinha da crença de que o dinheiro (poder) pode comprar tudo e todos. E por que eles não deveriam acreditar nisso? Viam isso acontecer todo dia. Era fácil acreditar em absolutos.

“A esperança brota eterna e todo esse tipo de bobagem!”

Era como uma religião. O dinheiro pode comprar o impossível.

E ai vinha a depravação.

Não acontecia o mesmo com as Honradas Madres. Elas estavam, de certo modo, além da depravação. Tinham passado por ela, ele percebia. Mas agora se encontravam mergulhadas em alguma coisa muito além de mera depravação, e Teg se perguntou se realmente queria entender uma coisa dessas.

O conhecimento, contudo, estava lá, inescapável em sua nova consciência.

Nenhuma daquelas pessoas hesitaria um instante sequer antes de torturar um planeta inteiro se isso significasse algum lucro pessoal. Ou se o resultado fosse algum prazer imaginado. Ou se a tortura lhes proporcionasse mais alguns dias ou horas de vida.

Que é que lhes dava prazer? Que é que os gratificava? Elas eram como viciados em semuta. O que quer que simulasse o prazer para elas, elas precisavam de uma quantidade maior em cada ocasião.

“E elas sabem disso!”

Que ódio deviam sentir por dentro! Apanhadas numa armadilha dessas!

Tinham visto tudo, feito tudo e nada era suficiente — nenhum bem, nenhum mal.

Tinham perdido inteiramente a noção de moderação.

Mas eram perigosas. E talvez ele estivesse errado quanto a uma coisa: talvez elas não mais se lembrassem de como tinha sido antes daquela terrível transformação, antes do estranho estimulante de cheiro ácido que tingira seus olhos de laranja.

Memórias de memórias podem tornar-se distorcidas. Todo Mentat era sensibilizado quanto a essa falha.

— Lá está o verme!

Era o oficial de comunicações.

Teg girou no assento e olhou para a projeção. Um holograma em miniatura da paisagem exterior na direção sudoeste. O verme, com os dois pontos minúsculos de seus passageiros humanos, era uma lasca distante e em movimento ondulantes.

— Tragam Odrade aqui sozinha quando ela chegar — ele disse. — Sheeana é a jovem. Ela vai ficar para trás, a fim de ajudar a colocar o verme no porão da nave Ele vai obedecer a ela. Cuidem para que Burzmali fique de prontidão por perto. Não vamos ter muito tempo para a transferência de comando.

Quando Odrade entrou na estação de controle, ainda respirava acelerado e tinha o cheiro do deserto, mistura de melange, pó de pedra e suor humano. Teg estava sentado em sua poltrona, aparentemente repousando. Seus olhos permaneciam fechados.

Odrade julgou ter surpreendido o Bashar numa atitude de repouso pouco característica dele, quase melancolicamente pensativo. Ele abriu os olhos então e Odrade viu a mudança a respeito da qual Lucilla só fora capaz de esboçar um aviso —

juntamente com algumas rápidas palavras a respeito da transformação do ghola. Que teria acontecido com Teg? Ele estava quase se exibindo para ela, desafiando-a a perceber o que lhe acontecera. O queixo erguido continuava firme numa atitude normal de observação. O rosto estreito, com sua rede de rugas, não tinha perdido

nada de sua aparência alerta. O nariz comprido e fino, tão característico de seus ancestrais Corrino e Atreides, tornava-se um pouco mais comprido com o avançar da idade. Mas o cabelo grisalho permanecia espesso, e aquela pequena elevação na testa atraía os olhos de um observador..

“Ah, os olhos dele!”

— Como sabia que nos ia encontrar aqui? — perguntou Odrade. — Nós não tínhamos idéia de aonde o verme nos levava.

— Existem poucos lugares habitáveis aqui no deserto meridional — disse Teg.

— Palpite de jogador. Este lugar perecia provável.

“Palpite de jogador?” Ela conhecia essa expressão Mentat, mas nunca conseguira entendê-la.

Teg levantou-se da poltrona.

— Pegue esta nave e vá para o lugar que vocês conhecem — ele disse.

“O planeta da Irmandade?” Ela quase fez essa pergunta e então pensou nos outros à sua volta, naqueles estranhos militares que Teg reunira em torno dele. Quem seriam? A breve explicação de Lucilla não a satisfizera.

— Nós mudamos um pouco os planos de Taraza — explicou Teg. — O ghola não vai ficar. Ele deve ir com vocês.

Ela compreendia. Elas iam precisar dos novos talentos de Duncan Idaho para enfrentar as prostitutas. Ele não era mais apenas uma isca para a destruição de Rakis.

— Ele não será capaz de deixar a proteção da não-nave, é claro — acrescentou Teg.

Ela assentiu com a cabeça. Duncan não tinha proteção contra investigadores prescientes, tais como... os navegadores da Corporação.

— Bashar! — Era o oficial de comunicações. — Fomos detectados por um satélite!

— Muito bem, seus ratos do deserto! — gritou Teg. — Todo o mundo para fora! Mandem Burzmali para cá.

Uma comporta na parte de trás do posto de comando se abriu e Burzmali entrou.

— Bashar, que vamos...

— Não há tempo! Assuma o comando! — Teg ergueu-se do assento de comando e fez sinal para que Burzmali o ocupasse. — Odrade lhe dirá para onde deve ir.

Num impulso que sabia ser parcialmente defensivo, Teg agarrou Odrade pelo braço esquerdo e a beijou na face, sussurrando:

— Faça o que é preciso, filha. Aquele verme no porão logo será o único no universo.

Odrade percebeu então: Teg conhecia todo o plano de Taraza e planejava executar até o fim as ordens de sua Madre Superiora.

“Faça o que é preciso” Isso dizia tudo.

O que estamos vendo não é um novo estado da matéria e sim uma relação recentemente reconhecida entre matéria e consciência, a qual nos fornece uma compreensão mais profunda do funcionamento da presciência. O oráculo molda a projeção de um universo interior para produzir novas probabilidades externas a partir de forças que ainda não compreendemos. Não é preciso entender essas forças para usa-las de forma a moldar o universo físico. Os antigos ferreiros não precisavam compreender as complexidades moleculares e submoleculares do aço, do bronze, do cobre, do ouro ou do latão. Eles inventavam poderes místicos para descrever aquilo que desconheciam, enquanto continuavam a operar suas forjas e empunhar seus martelos.

— Madre Superiora Taraza, Argumento perante o Conselho A antiga estrutura em que a Irmandade abrigava sua sede, seus arquivos e os escritórios de sua mais preciosa liderança não produzia ruídos noturnos comuns. Os ruídos eram mais como sinais que Odrade aprendera a interpretar com seus muitos anos de permanência ali. Um estalar tenso vinha de uma viga de madeira no piso que não era substituída há 800 anos. Ela se contraía à noite, produzindo esses sons.

Odrade fazia as memórias de Taraza expandirem-se ante esses sinais. As memórias não estavam completamente integradas, houvera muito pouco tempo. E

agora, à noite, no velho gabinete de trabalho de Taraza, Odrade usava os poucos momentos que lhe eram disponíveis para continuar a integração:

“Dar e Tar, uma só afinal.”

Esse era um comentário bem identificável de Taraza.

As Outras Memórias deviam existir em vários planos simultaneamente, alguns deles muito profundos, mas Taraza permanecia junto à superfície. Odrade deixou-se mergulhar mais fundo nas múltiplas existências. Dai a pouco reconheceu uma identidade que continuava respirando, afastada, enquanto outras exigiam que ela mergulhasse em visões envolventes completas, com cheiros, toques, emoções —

todas as sensações originais mantidas intactas dentro de sua própria consciência.

“É perturbador sonhar os sonhos de outra pessoa.”

Taraza de novo.

Taraza que fizera um jogo tão perigoso com o futuro de toda a Irmandade!

Com que cuidado ela deixara vazar para as prostitutas a notícia de que os Tleilaxu tinham embutido habilidades perigosas no ghola. E o ataque ao Castelo de Gammu confirmara que a informação havia alcançado o seu alvo. A natureza brutal do ataque, contudo, advertira Taraza de que ela dispunha de muito pouco tempo. As prostitutas certamente reuniriam forças para a destruição total de Gammu — só para eliminar o ghola.

Tanta coisa dependera de Teg.

Ela via o Bashar em sua própria reunião de Outras Memórias: o pai que nunca chegara a conhecer realmente.

“E não o conheci nem no fim!”

Mergulhar nessas memórias podia enfraquecê-la, mas ela não podia escapar à atração desse reservatório de conhecimento.

Odrade pensou nas palavras do Tirano: “A terrível extensão do meu passado!

Respostas saltam ao meu encontro como um bando de aves assustadas escurecem o céu de minhas inescapáveis memórias.”

Odrade permanecia como uma nadadora, boiando logo abaixo da superfície.

“É mais provável que eu seja substituída”, pensou ela. “ Talvez até desonrada.” Bellonda certamente não estava aceitando de bom grado o novo comando. Não importava. A sobrevivência da Irmandade era tudo que devia preocupar qualquer uma delas agora.

Odrade flutuou para fora das Outras Memórias e ergueu o olhar para o outro lado da sala, onde um nicho alojando um busto de mulher podia ser visto à luz reduzida dos globos luminosos. O busto permanecia uma forma vaga, nas sombras, mas Odrade reconhecia muito bem o rosto ali representado: Chenoeh, guardiã-símbolo da Irmandade.

“Aqui estou pela graça de Deus...”

Cada Irmã que superava a agonia da especiaria (como Chenoeh não conseguira) dizia ou pensava a mesma coisa, mas que significava isso realmente? A procriação altamente controlada e o treinamento cuidadoso produziam em número suficiente daquelas capazes de sobreviver à agonia. Onde estaria a mão de Deus nisso?

Deus certamente não era o verme que tinham trazido de Rakis. Será que a presença de Deus era sentida apenas nos êxitos da Irmandade?

“Eu cai prisioneira das pretensões de minha própria Missionaria Protectiva!”

Ela sabia que pensamentos e perguntas semelhantes tinham sido ouvidos nesse gabinete em ocasiões sem conta. Inúteis! Ainda assim, não seria capaz de remover aquele busto protetor do nicho onde repousava há tanto tempo.

“Não sou supersticiosa”, disse ela para si mesma. “Não sou uma pessoa compulsiva. E apenas uma questão de tradição. Tais coisas têm um valor que conhecemos bem.”

“Certamente nenhum busto meu jamais será tão honrado.” Pensou em Waff e seus Dançarinos Faciais, mortos junto com Miles Teg na terrível destruição de Rakis.

Era melhor não pensar muito no terrível massacre que o Antigo Império estava sofrendo. Melhor pensar na retaliação que estava sendo armada pela violência desastrosa das Honradas Madres.

“Teg sabia!”

A sessão do Conselho, recentemente concluída, acabara em fadiga sem chegar a qualquer conclusão. Odrade ficara satisfeita em desviar a atenção para algumas preocupações imediatas. Tão caras a todas elas.

As punições: isso as ocuparia por algum tempo. Os precedentes históricos consubstanciavam as Análises dos Arquivos de forma satisfatória. Aqueles grupos humanos que se haviam aliado às Honradas Madres iam sofrer alguns choques.

Ix certamente se tornaria supercooperativo. Eles não tinham a menor idéia de como a competição da Dispersão os esmagaria.

A Corporação poderia ser isolada e obrigada a pagar muito caro por sua melange e seu equipamento. Ix e a Corporação cairiam juntos. As Oradoras Peixes podiam ser ignoradas. Satélites de Ix, já estavam desaparecendo num passado que os seres humanos logo abandonariam.

E a Bene Tleilax. Sim, os Tleilaxu. Waff sucumbira às Honradas Madres. Ele nunca admitira isso, mas a verdade era clara. “Só uma vez e com um de meus próprios Dançarinos Faciais”

Odrade sorriu com amargura, lembrando o último beijo do pai. “Vou mandar fazer outro nicho”, pensou. “E vou encomendar outro busto: Miles Teg, o Grande Herege!”

As suspeitas de Lucilla com relação a Teg eram inquietantes, contudo. Será que no final ele se tornara presciente e capaz de ver as não-naves? Bem, as Madres Procriadoras poderiam explorar tais suspeitas.

— Nós acampamos! — acusara Bellonda.

Elas todas conheciam o significado dessa palavra: elas se haviam refugiado numa fortaleza para a longa noite das prostitutas.

Odrade reconheceu que não gostava muito de Bellonda, não gostava do modo como ela ria ocasionalmente para expor aqueles dentes rombudos.

Elas tinham discutido por longo tempo as amostras celulares de Sheeana. A

“prova de Siona” estava ali. Ela tinha uma ancestralidade que a protegia da presciência, e podia deixar a não-nave.

— Duncan era um caso desconhecido.

Odrade voltou seus pensamentos para o ghola, lá na não-nave pousada.

Erguendo-se de sua cadeira, foi até a janela escura e olhou na direção do distante campo de pouso.

Será que elas poderiam arriscar-se a libertar Duncan do abrigo daquela nave?

Os estudos celulares revelavam que ele era uma mistura de muitos ghola Idaho —

alguns deles descendentes de Siona. Mas e quanto à mácula do original?

“Não. Ele deve permanecer confinado.”

E quanto a Murbella — a grávida Murbella? Uma Honrada Madre desonrada?

— Os Tleilaxu queriam que eu matasse a Impressora — dissera Duncan.

— Tentará matar a prostituta? — perguntara Lucilla.

— Ela não é Impressora — respondera ele.

O Conselho discutira longamente a possível natureza da união entre Duncan e Murbella. Lucilla insistira em que não havia união alguma, os dois permanecendo como oponentes ferrenhos.

“Melhor não correr o risco de deixá-los juntos.”

A capacidade sexual das prostitutas, contudo, teria que ser estudada longamente. Talvez pudessem arriscar um encontro entre Murbella e Duncan dentro

da não-nave Com medidas cuidadosas de proteção, é claro.

Finalmente ela pensou no verme dentro do porão da não-nave — um verme que se aproximava do momento da metamorfose. Uma pequena bacia cercada de terra e cheia de melange esperava esse verme. Quando chegasse a hora, ele seria atraído por Sheeana para o banho de água e melange e as trutas da areia resultantes poderiam então começar sua longa transformação.

“Você estava certo, pai. E tão simples quando se olha com clareza!”

Não havia necessidade de buscar um planeta deserto para os vermes. A truta da areia criaria seu próprio habitat para eles. Não era agradável pensar no mundo da Irmandade com vastas áreas de deserto, mas isso teria que ser feito.

A “Última Vontade e Testamento de Miles Teg”, que ele plantara nos sistemas de armazenagem submoleculares da não-nave, não poderia ser desacreditada. Até mesmo Bellonda concordava com isso.

A Irmandade exigira a completa revisão de todos os registros históricos. Pedia-se nova visão deles à luz do que Teg tinha observado nos Perdidos — as prostitutas da Dispersão.

“Raramente se fica sabendo os nomes dos verdadeiramente ricos e poderosos.

Só se conhecem os seus porta-vozes. A arena política faz algumas exceções a essa regra, mas não revela toda a estrutura de poder.”

O filósofo Mentat tinha mastigado devidamente tudo que elas aceitavam, e o que ele digerira não concordava com a dependência dos Arquivos nos “nossos invioláveis resumos”.

“Nós sabíamos disso, Miles, só que nunca o encaramos. Todas nós vamos consultar nossas Outras Memórias através das próximas gerações”

Sistemas fixos de armazenagem de dados não eram confiáveis.

“Se você destruir a maioria das cópias, o tempo se encarregará do resto.”

Como o pessoal dos Arquivos se enfurecera com essa declaração reveladora do Bashar!

“A história escrita é um processo diversivo. A maioria dos registros históricos afasta a atenção das influências secretas em torno dos eventos registrados”

Essa era uma das coisas que tinham conquistado Bellonda. Ela o admitira ao dizer: “As poucas histórias que escapam desse processo restritivo desaparecem na obscuridade através de processos óbvios.”

Teg havia enumerado muitos desses processos: destruir tantas cópias quanto fosse possível, ridicularizar os relatos muito precisos, ignorando-os nos centros educacionais, assegurando-se de que não fossem citados em outros lugares e, em alguns casos, eliminando-se fisicamente os autores.

“Sem mencionar o processo de bode expiatório que levou à morte mais de um mensageiro de más noticias”, pensou Odrade. Lembrava-se de um antigo governante que mantinha à mão uma lança para matar mensageiros que trouxessem más notícias.

Temos uma boa base de informações para construir um melhor entendimento

de nosso passado — argumentara Odrade. — Sempre soubemos que aquilo que está em jogo nos conflitos é a determinação de quem vai controlar a riqueza ou seu equivalente.

Talvez esse não fosse um “nobre propósito” autêntico, mas por ora serviria.

“Estou evitando a questão central”, pensou ela.

Alguma coisa teria que ser feita com relação a Duncan Idaho, e todas sabiam disso.

Com um suspiro, Odrade chamou um tóptero e se preparou para o curto trajeto até a não-nave.

A prisão de Duncan era pelo menos confortável, pensou Odrade quando entrou nela. Tinha sido o alojamento do comandante da não-nave, ocupado por último por Miles Teg. Ainda restavam sinais de sua presença ali — um pequeno projetor holostático revelando uma cena de seu lar em Lernaeus: a velha casa de fazenda. o longo gramado, o rio. Teg deixara um estojo de costura ao lado da mesinha-de-cabeceira.

O ghola estava sentado numa cadeira, vendo a projeção. Olhou para Odrade com indiferença quando ela entrou.

— Você apenas o deixou lá para morrer, não? — perguntou ele.

— Nós fazemos o que é preciso — ela respondeu. — E eu obedecia às ordens dele.

— Eu sei por que está aqui. E não vai mudar minha opinião. Não sou um maldito garanhão para as bruxas. Está me entendendo?

Odrade alisou seu manto e se sentou na beirada da cama, olhando para Duncan.

— Você examinou a mensagem que meu pai nos deixou?

— Seu pai?

— Miles Teg era meu pai. E eu lhe entrego suas últimas palavras. Ele foi os nossos olhos no fim. Tinha que ver a morte de Rakis. A mente em seu princípios entende as dependências e os troncos-chaves.

Como Duncan parecesse intrigado, ela explicou:

— Nós ficamos presos muito tempo no labirinto das previsões do Tirano.

Odrade percebeu como ele se sentava mais alerta, os movimentos felinos revelando músculos bem-condicionados para o ataque.

— Não existe modo de você escapar vivo desta nave — ela explicou. — E

sabe por quê.

— Siona.

— Você é um perigo para nós, mas preferíamos que vivesse uma vida útil.

— Não vou gerar filhos para vocês, especialmente com aquela pequena de Rakis.

Odrade sorriu, perguntando-se como Sheeana responderia se ouvisse isso.

— Acha que é engraçado? — perguntou ele, furioso.

— Não realmente. Mas ainda assim teremos a criança de Murbella, é claro.

Creio que isto nos satisfará.

— Eu estive falando com Murbella pelo comunicador — ele disse. — Ela pensa que vai tornar-se uma Reverenda Madre, que vão aceitá-la na Bene Gesserit.

— E por que não? Suas células passaram na prova de Siona. Creio que ela dará uma irmã soberba.

— Ela realmente as enganou?

— Acha que não observamos que ela pensa que vai fingir aliar-se a nós para aprender nossos segredos e então fugir? Nós sabemos disso, Duncan.

— E acham que ela não é capaz de fazer isso?

— Uma vez que as pegamos, Duncan, nunca as perdemos.

— Não acham que perderam Lady Jessica?

— Ela voltou para nós no fim.

— Por que veio me ver realmente?

— Achei que merecia uma explicação sobre as intenções da Madre Superiora.

O objetivo dela era a destruição de Rakis. O que ela realmente queria era eliminar quase todos os vermes.

— Grandes Deuses, por quê?

— Eles eram uma força profética que nos mantinha sob escravidão. Aquelas pérolas de consciência do Tirano ampliavam esse domínio. Ele não previa os acontecimentos, ele os criava.

Duncan apontou para a traseira da nave.

— Mas e quanto ao...

— Aquele? É apenas um. Na ocasião em que se multiplicar até um número suficiente para exercer outra vez sua influência, a humanidade já estará fora do seu alcance. Seremos muito numerosos então, fazendo muitas coisas diferentes por nossa própria vontade. Nenhuma força única dominará completamente todos os nossos futuros. Nunca mais.

Ela se levantou.

Corno ele não respondesse, Odrade disse:

— Dentro dos limites impostos que eu sei que aprecia, por favor, pense no tipo de vida que quer levar. Prometo ajudá-lo de qualquer modo que possa.

— Por que faria isso?

— Porque minhas ancestrais o amaram. Porque meu pai o amava.

— Amor? Vocês bruxas não são capazes de sentir amor!

Ela olhou para ele por quase um minuto. O cabelo clareado estava ficando escuro nas raízes e se encrespando outra vez, principalmente na nuca.

— Eu sinto o que sinto — ela disse. — E sua água é nossa, Duncan Idaho.

Ela viu que a advertência Fremen surtiu o efeito esperado nele, e então se virou, saindo da sala e passando pelos guardas.

Antes de deixar a nave, ela voltou ao porão, onde olhou para o verme

 

dormente em seu leito de areia Rakiana. A escotilha oferecia-lhe um panorama de uma altura de 200 metros sobre o animal cativo. Enquanto olhava, Odrade compartilhou de um riso silencioso com Taraza, cada vez mais integrada em sua memória.

“Nós estávamos certas e Schwangyu e sua gente, erradas. Sabíamos que ele queria escapar. Tinha que desejar isso depois do que fez.”

Ela falou num suave sussurro, tanto para si mesma quanto para as observadoras que aguardavam o momento em que começaria a metamorfose:

— Agora temos sua linguagem.

Não havia palavras na linguagem, só uma adaptação móvel e dançante a um universo móvel e dançante. Só era possível falar a linguagem, nunca traduzi-la. Para conhecer o significado era preciso passar pela experiência, e ainda assim o significado mudava constantemente. O “nobre propósito” era, afinal, uma experiência intraduzível. Mas quando olhava para o couro áspero e imune ao calor do verme do deserto Rakiano, Odrade sabia o que via: a evidência palpável de um nobre propósito.

Baixinho, ela o chamou:

— Ei! Velho Verme! Esse era o seu objetivo?

Não houve resposta, mas afinal ela nunca tinha esperado por uma.

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