Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 8 · parte 2/3

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Os Hereges de Duna

— Como o mágico no Festival de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Nem sempre favoravelmente — lembrou Stiros. — lembre-se do nome completo dela: Siona Ibn Fuad al-Seyefa Atreides.

— Atreides — sussurrou outro sacerdote.

— Devemos estudá-la cuidadosamente — recomendou Dromind.

Um jovem mensageiro-acólito entrou correndo pelo corredor até encontrar o grupo e localizar Stiros.

— Stiros — disse o mensageiro —, deve desimpedir esta passagem

imediatamente.

— Por quê? — foi a indagação indignada do grupo de sacerdotes rejeitados.

— Ela vai ser transferida para os alojamentos do Alto Sacerdote — revelou o mensageiro.

— Por ordem de quem? — quis saber Stiros.

— Do Alto Sacerdote Tuek em pessoa. Eles estiveram ouvindo.

O mensageiro indicou vagamente com a mão a direção de onde viera.

O grupo inteiro entendeu. Aposentos podiam ser construídos de modo a que as vozes soando em seu interior fossem transmitidas para outros lugares. E sempre havia alguém escutando.

— Que foi que eles ouviram? — quis saber Stiros.

Sua voz de ancião tremia.

— Ela perguntou se seus alojamentos eram os melhores. Eles estão a ponto de transferi-la e ela não deve encontrar nenhum de vocês aqui.

— Mas que devemos fazer? — perguntou Stiros?

— Estudá-la — disse Dromind.

O corredor foi esvaziado imediatamente e todos iniciaram o processo de estudar Sheeana. O padrão de trabalho nascido ali seria impresso em todas as suas vidas durante os anos subseqüentes. A rotina que tomou forma em torno de Sheeana produziu mudanças observadas nos lugares mais distantes da área sob a influência do credo do Deus Dividido. E apenas um verbo iniciara a mudança: estudem-na!

Como ela era ingênua, pensaram os sacerdotes. Como era curiosamente ingênua. Entretanto era capaz de ler e demonstrou um interesse intenso pelos Livros Sagrados que encontrou nos alojamentos de Tuek. Seus alojamentos agora.

Tudo uma questão de sacrifício sendo transmitido dos mais altos escalões para os mais baixos. Tuek mudou-se para o quarto de seu assistente-chefe e o processo de acomodação continuou para baixo. Os alfaiates esperaram a chegada de Sheeana e tomaram suas medidas cuidadosamente. O melhor traje-destilador foi produzido para ela pelos fabricantes. Ela recebeu roupas novas, nas cores sacerdotais branca e dourada, com bainhas roxas.

E as pessoas passaram a evitar o locutor-historiador Dromind. Ele assumira o hábito de expor aos seus companheiros a história da Siona original, como se isso revelasse alguma coisa importante a respeito da atual dona do antigo nome.

— Siona foi a mulher do Sagrado Duncan Idaho — lembrava Dromind a qualquer um que se mostrasse disposto a ouvir. — Os descendentes dela estão por toda parte.

— De fato? Perdoe-me, mas estou realmente com pressa.

A princípio Tuek era mais paciente com Dromind. A história era interessante e, suas lições, muito óbvias.

— Deus nos enviou uma nova Siona — disse Tuek. — Tudo isso deve estar claro.

Dromind foi embora e logo voltou com mais detalhes sobre o passado.

— Os registros de Dar-es-Balat assumem agora novo significado — disse Dromind para o Alto Sacerdote. — Não devemos fazer mais testes ou comparações com essa criança?

Dromind agarrara o Alto Sacerdote logo depois do café da manhã, os restos da refeição de Tuek ainda ocupavam a mesa junto da sacada. Através de uma janela aberta, podiam ouvir os preparativos no quarto de Sheeana.

Tuek colocou um dedo diante dos lábios num gesto de cautela e falou em voz baixa:

— A Sagrada Criança vai partir para o deserto por sua própria escolha. — Foi até o mapa na parede e indicou uma área a sudoeste de Keen. — Aparentemente, esta é a região que lhe interessa... ou, talvez eu deva dizer, que a chama.

— Disseram-me que ela usa os dicionários com freqüência — disse Dromind.

— Certamente isso não pode ser uma...

— Ela está nos testando — respondeu Tuek. — Não se deixe enganar.

— Mas Lorde Tuek, ela faz as perguntas mais infantis a Cania e Alhosa.

— Está questionando meu julgamento, Dromind?

Um tanto tardiamente, Dromind percebeu que havia ultrapassado os limites.

Resolveu ficar calado, mas sua expressão revelava que ainda havia muito por dizer.

— Deus enviou essa menina para ceifar o mal que penetrou nas fileiras dos consagrados — disse Tuek. — Vá embora! Reze e pergunte a si mesmo se o mal não se alojou dentro de você.

Quando Dromind saiu, Tuek chamou um auxiliar de confiança e perguntou:

— Onde está a Sagrada Criança?

— Ela foi para o deserto, Senhor, a fim de comungar com o seu Pai.

— Para sudoeste?

— Sim, Senhor.

— Dromind deve ser levado para o leste, para bem longe, e abandonado na areia. Plante vários batedores para ter certeza de que ele nunca mais volte.

— Dromind, Senhor?

— Dromind.

Muito depois de Dromind ter sido entregue à Boca de Deus, os sacerdotes continuaram a seguir sua sugestão original. Eles estudavam Sheeana.

E Sheeana também estudava.

Gradualmente, tão gradualmente que ela não seria capaz de identificar o ponto de transição, ela veio a reconhecer o poder que possuía sobre as pessoas à sua volta.

No início parecia um jogo, um continuo Dia da Criança, com os adultos pulando para satisfazer cada desejo infantil. Agora parecia que nenhum desejo era impossível de contentar.

Ela pedia uma fruta rara para o lanche?

A fruta lhe era servida numa bandeja de ouro.

Ela via uma criança lá embaixo, nas ruas fervilhantes de gente, e queria brincar com ela?

A criança era trazida aos alojamentos de Sheeana no templo. Depois que passavam o choque e o medo, a criança podia até juntar-se a ela em alguma brincadeira, que sacerdotes e sacerdotisas observavam com toda a atenção. Brincar de correr no jardim do terraço, risinhos e cochichos, tudo era motivo de análise intensa.

E Sheeana sentia como uma carga a admiração de tais crianças. Ela raramente chamava de volta a mesma criança, preferindo aprender coisas novas com novos amigos.

Os sacerdotes não chegaram a consenso quanto à inocência de tais encontros.

As crianças que brincavam com Sheeana eram submetidas a um interrogatório assustador, até que Sheeana descobriu e ameaçou seus guardiães.

Inevitavelmente, os comentários a respeito dela transpiraram pelo planeta e para fora dele. Os relatórios acumularam-se na Irmandade. Os anos se passavam numa espécie de rotina autocrática subliminar — e a curiosidade de Sheeana era alimentada. Era uma curiosidade que parecia não ter limites. Nenhum de seus servidores mais próximos chegou a pensar nisso como uma educação: Sheeana ensinando o clero de Rakis e este a ensinando. A Bene Gesserit percebeu de imediato esse aspecto da vida de Sheeana e o observou com atenção.

— Ela está em boas mãos. Deixem que fique lá até estar pronta para nós —

ordenou Taraza. — Mantenham uma força de defesa em alerta constante e cuidem para que eu receba relatórios regulares.

Nem uma só vez Sheeana revelou suas verdadeiras origens e o que Shaitan tinha feito a sua família e aos seus vizinhos. Essa era uma coisa particular entre ela e Shaitan. Ela pensava em seu silêncio como uma forma de pagamento por ter sido poupada.

Algumas coisas perderam o interesse para Sheeana. Ela passou a fazer poucas viagens ao deserto. A curiosidade continuava, mas se tornava óbvio que uma explicação para o comportamento de Shaitan com relação a ela não seria encontrada nas areias. E, embora ela tivesse conhecimento da existência de embaixadas representando outros poderes em Rakis, as espiãs Bene Gesserit entre suas criadas cuidavam para que Sheeana não expressasse muito interesse pela Irmandade.

Respostas tranqüilizadoras, destinadas a abafar qualquer curiosidade, lhe eram fornecidas sempre que necessário.

A mensagem de Taraza a suas observadoras em Rakis foi simples e direta:

— As gerações de preparativos tornaram-se os anos de refinamento. Nós agiremos apenas no momento que for mais adequado. Não há mais qualquer dúvida de que essa criança é a que desejamos.

Em minha estimativa, mais miséria humana foi provocada pelos reformadores do que por qualquer outra força na história da humanidade. Mostrem-me alguém que diga “Alguma coisa tem que ser feita!” e eu lhes mostrarei uma cabeça cheia de intenções malignas que não possuem outra válvula de escape. O que devemos buscar sempre é encontrar o fluxo natural e seguir com ele.

— Reverenda Madre Taraza

Registro de conversação,

Arquivo BG GSXXMAT9

O céu encoberto foi clareando na medida em que o sol de Gammu subia no céu. Com a névoa se ergueram os perfumes do capim e da floresta ao redor, extraídos e condensados na umidade matutina.

Duncan Idaho encontrava-se na Janela Proibida, inalando esses perfumes.

Nessa manhã, Patrin lhe dissera:

— Você tem 15 anos de idade agora. Pode considerar-se um homem jovem e não mais uma criança.

— É meu aniversário?

Os dois estavam no quarto de Duncan, onde Patrin o despertara com um copo de suco cítrico.

— Não sei quando é seu aniversário.

— Será que os gholas fazem aniversário?

Patrin ficou em silêncio. Era proibido falar de gholas com o ghola.

— Schwangyu diz que você não pode responder essa pergunta — comentou Duncan.

Patrin falou com embaraço evidente.

— O Bashar deseja que eu lhe diga que o seu treinamento será atrasado esta manhã. Ele espera que você faça os exercícios para as pernas e os joelhos até ser chamado.

— Eu fiz esses exercícios ontem!

— Apenas transmito as ordens do Bashar.

Patrin pegou o copo vazio e saiu, deixando Duncan sozinho.

Ele se vestiu rapidamente. Estariam esperando por ele para o café da manhã no refeitório. “Malditos!” Não precisava do café da manhã deles. Que estaria fazendo esse Bashar? Por que não podia começar as aulas em tempo? “Exercícios para as pernas e os joelhos!” Isso era só para preencher o tempo porque Teg tinha algum outro trabalho inesperado para fazer. Com raiva, Duncan percorreu o Caminho Proibido até a Janela Proibida. “Deixe que os malditos guardas sejam punidos!”

Achou que os odores vindos da janela aberta eram evocativos, mas não conseguia identificar as memórias que vagavam nas fronteiras da sua consciência.

Sabia que haveria memórias. Achava isso assustador e ao mesmo tempo atraente —

como caminhar ao longo da borda de um penhasco ou confrontar Schwangyu em

desafio. Ele nunca tinha caminhado na beira de um abismo nem confrontado Schwangyu abertamente, mas podia imaginar tais coisas. Ver uma holofoto num livro-filme mostrando um caminho na beira de um abismo era suficiente para fazer o seu estômago contrair-se. E quanto a Schwangyu, ele freqüentemente imaginava uma desobediência malcriada e sofria da mesma reação física.

“Alguém mais está em minha mente”, pensou.

Não era só em sua mente — em seu corpo. Podia sentir outras experiências como aquelas de que acabara de despertar, sabendo que tinha sonhado com elas, mas incapaz de relembrar os sonhos. Esse material de sonhos evocava conhecimentos que sabia não poder possuir.

E no entanto possuía.

Podia pensar nos nomes de algumas árvores cujo perfume sentia lá fora, mas esses nomes não se encontravam nos registros da biblioteca.

Essa Janela Proibida era proibida porque perfurava a muralha externa do Castelo e podia ser aberta. Era aberta com freqüência, tal como acontecia agora, para ventilação. Podia alcançar a janela desde o seu quarto subindo o gradil da sacada e escorregando através de um duto de ar num depósito. Tinha aprendido a fazer isso sem causar a menor perturbação no gradil, no depósito ou no duto. Aprendera muito cedo que aqueles que tinham sido treinados pela Bene Gesserit podiam detectar sinais e indícios muito pequenos. Podia interpretar alguns desses sinais graças aos ensinamentos de Teg e de Lucila.

Oculto nas sombras da passagem superior, Duncan podia voltar seus olhos para o tapete verde da floresta ondulando sobre as colinas e subindo em direção aos picos rochosos. Achava a floresta muito atraente, e os picos mais distantes possuíam uma qualidade mágica. Era fácil imaginar que nenhum ser humano ainda pisara naquelas terras. Como seria bom perder-se ali, ser apenas ele mesmo, sem ter que se preocupar com aquela outra pessoa habitando dentro dele. Ser um estranho lá longe.

Com um suspiro, Duncan virou as costas para o panorama e voltou para o quarto percorrendo sua rota secreta. Somente quando se encontrava de volta, na segurança de seu quarto, pôde dizer a si mesmo que tinha conseguido uma vez mais.

Ninguém seria punido por sua aventura.

As punições e a dor permaneciam como uma aura desagradável em torno dos lugares que lhe eram proibidos. Isso só fazia com que Duncan usasse de extrema cautela quando quebrava as regras.

Não gostava de pensar na dor que Schwangyu poderia causar-lhe se o descobrisse na Janela Proibida. Mesmo a pior dor não faria com que ele gritasse, pensava consigo mesmo. Nunca gritara, nem durante os piores castigos a que ela o submetera. Apenas olhava para ela, odiando-a mas absorvendo sua lição. Para ele a lição de Schwangyu era muito direta: refine sua habilidade de se mover sem ser visto nem ouvido, sem deixar a menor marca que traia a sua passagem.

Em seu quarto, Duncan sentou-se na beira do catre e contemplou a parede

vazia diante dele. Uma vez, quando olhava para aquela parede, uma imagem se formara — a imagem de uma mulher jovem com cabelos cor de âmbar claro e suaves feições arredondadas. Ela olhou para ele da parede e sorriu. Seus lábios moveram-se sem produzir um som. Duncan já tinha aprendido a leitura labial, de modo que pôde entender as palavras claramente.

— Duncan, meu doce Duncan.

Seria aquela a sua mãe?, perguntou a si mesmo. Sua verdadeira mãe?

Até mesmo os gholas tinham mães verdadeiras em algum ponto do passado remoto. Perdida no tempo, além dos tanques axlotl, existira uma mulher viva que o dera à luz. . e que o amara. Sim, amara, pois ele fora o seu filho. Se o rosto na parede era o de sua mãe, como é que a imagem tinha chegado até ali? Não conseguia identificar o rosto, mas queria que fosse o de sua mãe.

A experiência o assustou, mas o medo não o impediu de querer repeti-la.

Quem quer que fosse a jovem, sua presença passageira o tinha fascinado. O estranho dentro dele conhecia aquela jovem. Tinha certeza disso. Algumas vezes queria ser aquele estranho, ainda que por um instante — um instante suficientemente longo para aprisionar todas aquelas memórias ocultas — e no entanto temia esse desejo. Iria perder sua verdadeira identidade se o estranho penetrasse em sua consciência, pensava.

Isso seria como a morte?, perguntava a si mesmo.

Duncan tivera contato com a morte antes dos seis anos. Sua guarda tinha repelido intrusos e um dos guardas fora morto. Quatro intrusos tinham morrido também, e Duncan observara os cinco corpos serem trazidos para dentro do Castelo

— músculos flácidos, braços pendendo. Alguma coisa essencial escapara deles. Nada permanecia para convocar memórias — próprias ou de um estranho.

Os cinco tinham sido levados para algum lugar bem dentro do Castelo. Ele ouviu um guarda dizer que os intrusos estavam cheios de “shere”. E esse foi seu primeiro contato com a idéia de uma Sonda Ixiana.

— Uma Sonda Ixiana pode vasculhar a mente até mesmo de uma pessoa morta — explicara Geasa. — Shere é uma droga que o protege da sonda. Suas células estarão totalmente mortas antes que passe o efeito da droga.

Ouvindo conversas, Duncan descobriu que os quatro intrusos estavam sendo sondados também de outros modos. Tais métodos não lhe foram explicados, mas Duncan suspeitava de que isso devia ser algum segredo da Bene Gesserit. Pensou nisso como algum truque diabólico das Reverendas Madres. Elas deviam ser capazes de animar os mortos e extrair informações da carne relutante. Duncan visualizou músculos despersonalizados agindo sob o comando de um observador diabólico.

E esse observador era sempre Schwangyu.

Tais imagens preenchiam a mente de Duncan, a despeito de todos os esforços de suas mestras para afastar “as tolices inventadas pelos ignorantes”. As professoras diziam que tais histórias extravagantes eram úteis apenas para espalhar o medo da Bene

Gesserit entre os não iniciados. Duncan recusava-se a acreditar que fazia parte dos iniciados. Olhando para a Reverenda Madre, sempre pensava: “Eu não pertenço a elas!” Lucilla foi muito persistente mais tarde:

— A religião é uma fonte de energia — ela disse. — Você deve reconhecer essa energia. Ela pode ser dirigida para nossos próprios objetivos.

“Os objetivos delas, não os meus”, pensou ele.

Imaginava seus próprios objetivos e projetava imagens de si mesmo triunfando sobre a Irmandade, especialmente sobre Schwangyu. Duncan sentia que suas projeções imaginativas eram uma realidade subterrânea que agia sobre ele a partir daquele lugar habitado pelo estranho. Mas aprendeu a assentir e dar a aparência de que também achava divertida tal credulidade religiosa.

Lucila reconheceu essa dicotomia nele. Ela contou a Schwangyu!

— Ele crê que as forças místicas devem ser temidas e, se possível, evitadas. E

enquanto persistir com essa crença não será capaz aprender a usar nosso conhecimento mais essencial.

As duas se haviam encontrado para aquilo que Schwangyu chamava de “sessão regular de avaliação”. A hora era pouco depois de seu leve jantar. Os sons do Castelo ao redor delas eram sons de transição — as patrulhas noturnas começando, o pessoal que não estava de serviço gozando um de seus breves períodos de tempo livre. O

estúdio de Schwangyu não fora completamente isolado de tais coisas, uma disposição deliberada da parte das restauradoras da Irmandade. Os sentidos treinados de uma Reverenda Madre podiam detectar muitas coisas nos sons que a rodeavam.

Schwangyu sentia-se cada vez mais derrotada nessas “sessões de avaliação”.

Era sempre mais óbvio que Lucilla não poderia ser conquistada por aquelas que se opunham a Taraza. Lucila também era imune aos subterfúgios manipulatórios de uma Reverenda Madre. E, o que era pior que tudo, Lucilla e Teg estavam ensinando habilidades voláteis ao ghola. Habilidades perigosas ao extremo. E, somando-se a todos os seus outros problemas, Schwangyu estava adquirindo um respeito crescente por Lucilla.

— Ele acredita que usamos poderes ocultos na prática de nossas artes — disse Lucilla. — Como foi que ele chegou a essa idéia peculiar?

Schwangyu sentiu a desvantagem imposta por tal pergunta. Lucilla já sabia que isso fora feito para enfraquecer o ghola. Ela estava dizendo implicitamente: “A desobediência é um crime contra a nossa Irmandade!”

— Se ele deseja o nosso conhecimento, certamente vai obtê-lo de você —

respondeu Schwangyu.

Não importava o quão perigoso isso fosse na visão de Schwangyu, certamente era verdade.

— Seu desejo de conhecimento é a minha alavanca — explicou Lucilla. —

Ambas sabemos que isso não é o bastante.

Não havia censura no tom de voz de Lucilla, mas Schwangyu sentiu isso.

“Maldita! Está tentando conquistar-me!”, pensou Schwangyu.

Várias respostas entraram na mente de Schwangyu: “Não desobedeci minhas ordens. Droga!” Uma resposta desprezível! “O ghola tem sido tratado de acordo com as práticas de treinamento-padrão da Bene Gesserit.” Inadequado e falso. Esse ghola não era um objeto-padrão de treinamento. Havia profundidades nele que só poderiam ser igualadas por uma Reverenda Madre em potencial. E esse era o problema!

— Cometi erros — admitiu Schwangyu.

“Aí está!” Uma resposta de duplo sentido que outra Reverenda Madre poderia apreciar.

— Não cometeu erro algum quando o danificou — disse Lucilla.

— Mas errei ao não prever que outra Reverenda Madre pudesse expor as falhas nele existentes — disse Schwangyu.

— Ele deseja os nossos poderes apenas para escapar de nós — comentou Lucilla. — Ele está pensando: “Algum dia vou saber tanto quanto elas e nesse dia fugirei.”

Como Schwangyu não respondesse, Lucilla acrescentou:

— Isso foi muito hábil. Se ele fugir, teremos que caçá-lo e destruí-lo nós mesmas.

Schwangyu sorriu.

— Não cometerei o seu erro — continuou Lucilla. — Digo-lhe abertamente aquilo que sei que vai perceber de qualquer modo. Agora entendo por que Taraza enviou uma Impressora para alguém tão jovem.

O sorriso de Schwangyu desapareceu.

— Que está fazendo?

— Eu o estou prendendo a mim do modo como prendemos todas as nossas acólitas às suas mestras. Eu o estou tratando com candura e lealdade, como se fosse uma de nós.

— Mas ele é homem!

— Assim a agonia da especiaria lhe será negada, mas nada além disso. Acho que ele está respondendo.

— E quando chegar a ocasião para o estágio final da impressão? — perguntou Schwangyu.

— Sim, isso também será delicado. Você pensa que vai destruí-lo. Este, é claro, era o seu plano.

— Lucilla, a Irmandade não é unânime em apoiar o projeto de Taraza para esse ghola. Certamente sabe disso.

Era o argumento mais poderoso de Schwangyu, e o fato de ter ficado reservado para esse momento revelava muito. Os temores de que pudessem produzir outro Kwisatz Haderach eram profundos e a dissensão na Bene Gesserit, comparavelmente poderosa.

— Ele é de um estoque genético primitivo e não foi criado para ser um Kwisatz Haderach — argumentou Lucilla.

— Mas os Tleilaxu interferiram em sua herança genética!

— Sim, por ordem nossa. Eles aceleraram suas respostas musculares e nervosas.

— Será que foi só isso? — perguntou Schwangyu.

— Você viu os estudos celulares — disse Lucilla.

— Se pudéssemos fazer o que fazem os Tleilaxu, não precisaríamos deles.

Teríamos nossos tanques axlotl.

— Acha que eles esconderam alguma coisa de nós?

— Eles o tiveram fora de nossa observação durante nove meses!

— Já ouvi todos esses argumentos — concluiu Lucilla.

Schwangyu ergueu as mãos num gesto de capitulação.

— Ele é todo seu, então, Reverenda Madre. E as conseqüências são do seu conhecimento. Mas não me vai retirar este posto, não importa o que relate à Irmandade.

— Retirar? Certamente que não. Não quero a sua facção enviando alguém que desconhecemos.

— Existe um limite aos insultos que aceitarei de você — advertiu Schwangyu.

— E existe um limite ao volume de traição que Taraza pode aceitar —

respondeu Lucilla.

— Se criarmos outro Paul Atreides, ou, que os Deuses nos livrem, outro Tirano, será culpa de Taraza. Diga-lhe que eu disse isso. Lucilla levantou-se.

— Deve saber que Taraza deixou inteiramente por minha conta a quantidade de melange que entregamos a esse ghola. Já começei a aumentar sua ração de especiaria.

Schwangyu golpeou o tampo da mesa com ambos os punhos.

— Malditas sejam todas vocês! Ainda vão nos destruir!

O segredo dos Tleilaxu deve encontrar-se no esperma. Nossos testes provam que o esperma dos Tleilaxu não transporta informação de modo puramente genético. Ocorrem brechas. Cada Tleilaxu que examinamos escondeu de nós o seu eu interior. Eles são naturalmente imunes a uma Sonda Ixiana! O segredo nos níveis mais profundos — essa é sua derradeira armadura e sua arma final.

— Análise Bene Gesserit

Código de Arquivo:

BTXX44I WOR

Em uma manhã durante o quarto ano de permanência de Sheeana no santuário dos sacerdotes, os relatórios da espionagem Bene Gesserit despertaram um interesse especial na embaixada da Irmandade em Rakis.

— Ela estava no teto, você diz? — indagou a Madre Comandante do Castelo Rakiano.

Tamalane, a comandante, servira previamente em Gammu e sabia, mais do que ninguém, o que a Irmandade esperava produzir ali. O relatório de espionagem tinha interrompido seu lanche matinal, um composto de cifruta e melange. A mensageira ficou à vontade, ao lado da mesa, enquanto Tamalane voltava a se alimentar, relendo o relatório.

— Ela estava no teto, é verdade, Reverenda Madre — disse a mensageira.

Tamalane olhou para a mensageira, Kipuna, uma acólita nativa rakiana que estava sendo preparada para tarefas locais. Engolindo um bocado do composto, Tamalane disse:

“Traga-os de volta.” Foram exatamente essas as palavras dela?

Kipuna confirmou com um gesto de cabeça. Ela entendera a pergunta: Sheeana tinha dado uma ordem direta?

Tamalane voltou a esquadrinhar o relatório, buscando indícios reveladores.

Estava feliz por ter enviado Kipuna para essa missão. Respeitava as habilidades dessa mulher rakiana. Kipuna tinha feições suaves e arredondadas e o cabelo crespo comum à classe de sacerdotes rakianos. O cérebro sob aquele cabelo era extremamente alerta.

— Sheeana ficou aborrecida — explicou Kipuna. — O tóptero passou perto do teto e ela viu os dois prisioneiros algemados lá dentro de modo muito claro. Sabia que estavam sendo levados para a morte no deserto.

Tamalane colocou o relatório sobre a mesa e sorriu.

— Então ordenou que os prisioneiros lhe fossem trazidos de volta? Acho fascinante a escolha das palavras que ela fez.

— Traga-os de volta? — perguntou Kipuna. — Isso me parece uma ordem bem simples. Por que é fascinante?

Tamalane admirou o modo direto do interesse da acólita. Kipuna não queria deixar passar uma chance de aprender como funcionava a mente de uma verdadeira Reverenda Madre.

— Não foi essa parte do desempenho dela que me interessou — explicou Tamalane. Ela se curvou sobre o relatório, lendo em voz alta: — “Vocês são servos de Shaitan, não servos dos servos.” — Tamalane olhou para Kipuna. — Você mesma viu e ouviu tudo isso?

— Sim, Reverenda Madre. E foi julgado importante que eu lhe relatasse isso pessoalmente para o caso de ter outras perguntas.

— Ela ainda o chama de Shaitan — comentou Tamalane. — Como isso deve irritá-los! É claro que o próprio Tirano disse: “Eles me chamarão de Shaitan.”

— Vi os relatórios sobe o tesouro encontrado em Dar-es-Balat — disse

Kipuna.

— Não demoraram em trazer de volta os prisioneiros? — perguntou Tamalane.

— Demoraram o tempo necessário para a mensagem ser transmitida ao tóptero, Reverenda Madre. Eles foram trazidos de volta em coisa de minutos.

— Isso quer dizer que eles a estão observando e ouvindo o tempo todo.

Ótimo. E Sheeana demonstrou algum sinal de conhecer os dois prisioneiros? Houve alguma mensagem entre eles?

— Tenho certeza de que eram perfeitos estranhos, Reverenda Madre. Duas pessoas comuns, das classes inferiores, um tanto sujas e mal vestidas. Tinham o cheiro da gente suja das choupanas do perímetro.

— E Sheeana ordenou que as algemas fossem removidas e falou com essa gente suja? Diga-me agora suas palavras exatas: que foi que ela falou?

— Vocês são do meu povo.

— Adorável, adorável — comentou Tamalane. — E Sheeana então mandou que banhassem os dois e lhes dessem roupas novas antes de serem soltos. Diga-me em suas próprias palavras o que aconteceu em seguida.

— Ela chamou Tuek, que veio com três de seus conselheiros. Foi... quase uma discussão.

— Transe de memória, por favor — pediu Tamalane — Repita a discussão inteira para mim.

Kipuna fechou os olhos, respirou fundo e entrou no transe de memória:

— Sheeana diz: “Não gosto quando alimentam Shaitan com o meu povo.” O

Conselheiro Stiros diz: “Eles são sacrificados ao Shai-hulud!” Sheeana diz: “A Shaitan!”

E bate com o pê no chão, furiosa. Tuek diz: “Basta, Stiros. Não vou continuar ouvindo esta discórdia.” Sheeana diz: “Quando vão aprender?” Stiros faz menção de dizer alguma coisa, mas Tuek o silencia com um olhar de fúria e diz: “Nós aprendemos, Sagrada Criança.” Então Sheeana diz: “Eu quero...”

— É o bastante — interrompeu Tamalane.

A acólita abriu os olhos e esperou em silêncio.

Daí a pouco Tamalane disse:

— Volte para o seu posto, Kipuna. Você agiu realmente muito bem.

— Obrigada, Reverenda Madre.

— Vai haver preocupação entre os sacerdotes — explicou Tamalane.

— O desejo de Sheeana é uma ordem porque Tuek acredita nela. Eles vão parar de usar os vermes como instrumentos de punição.

— E os dois prisioneiros... — observou Kipuna.

— Sim, você é muito observadora. Os dois prisioneiros vão contar o que lhes aconteceu. A história será distorcida. As pessoas vão dizer que Sheeana as protege dos sacerdotes.

— E não é exatamente isso que ela está fazendo, Reverenda Madre?

— Sim, mas considere as opções que ficam abertas aos sacerdotes. Eles irão aumentar suas formas alternativas de punição — açoites e certas privações. E

enquanto o medo de Shaitan diminui por causa de Sheeana, o medo dos sacerdotes vai aumentar.

Em questão de dois meses os relatórios de Tamalane à Irmandade continham a confirmação de suas palavras.

— O racionamento de rações, principalmente o racionamento de água, tornou-se a principal forma de punição — relatou Tamalane. — Rumores extravagantes penetraram nos lugares mais remotos de Rakis e logo encontrarão abrigo em muitos outros planetas também.

Tamalane considerou com cuidado as implicações de seu relatório. Muitos olhos iriam vê-lo, inclusive aqueles que não simpatizavam com Taraza. E qualquer Reverenda Madre seria capaz de visualizar o que deveria estar acontecendo em Rakis.

Muitos naquele planeta tinham visto a chegada de Sheeana montada num verme selvagem do deserto. E a tentativa dos sacerdotes de guardar segredo fora errada desde o começo. A curiosidade insatisfeita tende a criar suas próprias respostas. As suposições são freqüentemente mais perigosas que os fatos. Relatórios anteriores tinham falado a respeito das crianças que eram trazidas para brincar com Sheeana. Histórias confusas sobre tais crianças eram repetidas com distorções crescentes, e tais versões tinham sido enviadas diligentemente para a Irmandade. Os dois prisioneiros, voltando às ruas com suas roupas finas, somente reforçaram a mitologia nascente. A Irmandade, artista em mitologia, possuía em Rakis uma energia pronta para ser sutilmente ampliada e dirigida.

— Nós alimentamos o povo com a crença na satisfação de um desejo —

relatou Tamalane.

Pensou nas frases criadas pela Bene Gesserit enquanto relia seus últimos relatórios.

“Sheeana é aquela que esperávamos há tanto tempo.”

Era uma declaração suficientemente simples, de modo que seu significado pudesse ser espalhado sem distorções inaceitáveis.

“A Filha de Shai-hulud veio para castigar os sacerdotes!”

Essa fora um pouco mais complicada. Alguns sacerdotes morreram em vielas escuras como resultado da efervescência popular. Isso deixou alerta a guarda dos sacerdotes, fazendo com que injustiças previsíveis atingissem a população.

Tamalane pensou na delegação de sacerdotes que tinha esperado por Sheeana como resultado da agitação entre os conselheiros de Tuek. Sete deles, liderados por Stiros, tinham interrompido o almoço de Sheeana com uma criança da rua. Sabendo que isso ia acontecer, Tamalane estivera preparada e uma gravação secreta do incidente lhe fora trazida, as palavras audíveis, cada expressão visível, os pensamentos bem evidentes para o olho treinado de uma Reverenda Madre.

— Nós estávamos fazendo um sacrifício ao Shai-hulud! — protestou Stiros.

— Tuek já lhe disse para não discutir comigo a esse respeito — disse se Sheeana.

Como as sacerdotisas sorriram ante o embaraço de Stiros e dos outros sacerdotes!

— Mas o Shai-hulud... — começou Stiros.

— Shaitan! — corrigiu Sheeana, e sua expressão era facilmente interpretável:

“Será que esses sacerdotes estúpidos não sabem nada?”

— Mas nós sempre pensamos...

— Vocês estavam errados.

Sheeana bateu com o pé.

Stiros fingiu que precisava de explicação.

— Devemos acreditar que o Shai-hulud, o Deus Dividido, também é Shaitan ?

Que tolo completo ele era, pensou Tamalane. Até uma adolescente podia confundi-lo, como Sheeana fez em seguida.

— Qualquer criança das ruas sabe disso assim que começa a andar! — disse Sheeana.

Stiros falou de modo matreiro:

— Como sabe o que se passa na cabeça das crianças da rua?

— Você faz mal duvidando de mim! — acusou Sheeana.

Era uma resposta que ela havia aprendido a usar com freqüência, sabendo que isso traria Tuek e causaria problemas.

Stiros sabia disso muito bem. Esperou com os olhos voltados para o chão, enquanto Sheeana, falando com grande paciência, como alguém que contasse uma velha fábula a uma criança, explicava que deus, o diabo ou ambos habitavam o verme do deserto. Os seres humanos tinham que aceitar isso. Não cabia aos mortais decidir tais coisas.

Stiros tinha mandado abandonar pessoas no deserto por semelhante heresia.

Sua expressão (tão cuidadosamente registrada para análise pela Bene Gesserit) dizia que tais idéias loucas estavam sempre brotando do lixo no fundo das regiões inferiores de Rakis. Mas agora ele tinha que agüentar a insistência de Tuek de que esta Sheeana falava a verdade divina!

Enquanto observava a gravação, Tamalane pensou que o caldo estava fervendo lindamente. Relatou isso à Irmandade. Dúvidas fustigavam Stiros; dúvidas por toda parte, exceto na devoção crescente do povo por Sheeana. Os espiões mais próximos de Tuek revelavam que ele estava começando a duvidar de sua sabedoria ao executar o locutor-historiador Dromind.

— Dromind estaria certo em duvidar dela? — Tuek perguntava àqueles que o cercavam.

— Impossível! — respondiam os bajuladores. Que mais poderiam dizer? O

Alto Sacerdote era incapaz de cometer erros. Deus não permitiria tal coisa. E no entanto Sheeana claramente o confundia. Ela colocava as decisões de muitos Altos

Sacerdotes anteriores a ele num limbo terrível. Reinterpretações eram exigidas de todos os lados.

Stiros continuava perguntando a Tuek:

— Que é que sabemos realmente a respeito dela? — Tamalane tinha uma transcrição completa do mais recente desses confrontos. Stiros e Tuek sozinhos, debatendo noite adentro, julgando-se a sós nos alojamentos de Tuek, confortavelmente instalados nas raras cadeiras-cães azuis, alimentos com melange ao alcance da mão. A holofoto que Tamalane recebera de tal encontro mostrava um único globo luminoso flutuando em seus suspensores logo acima da dupla, a luz reduzida para não cansar os olhos fatigados.

— Talvez aquela primeira vez que a deixamos no deserto com um batedor não tenha sido um bom teste — dizia Stiros.

Era uma declaração astuta. Tuek era notado por não possuir uma mente complexa.

— Não foi um bom teste? Que está querendo dizer?

— Que Deus pode desejar que façamos outros testes.

— Você a viu, com os próprios olhos, muitas vezes no deserto, falando com Deus!

— Sim! — Stiros quase saltou. Evidentemente, essa era a resposta que estava esperando. Se ela pode permanecer ilesa na presença de Deus, talvez possa ensinar outros a fazerem o mesmo.

— Sabe que ela fica zangada sempre que sugerimos tal coisa.

— Talvez não tenhamos abordado o problema do modo certo.

— Stiros! E se a criança estiver certa? Nós servimos o Deus Dividido. Tenho pensado muito a respeito. Por que Deus se dividiria? Não é esse o seu teste final?

A expressão na face de Stiros revelava que esse era o tipo de ginástica mental que sua facção temia. Tentou desviar Tuek desse pensamento, mas Tuek não podia ser arrastado para fora de um mergulho unidirecional no oceano da metafísica.

— O teste derradeiro — insistiu Tuek. — Ver o bem no mal e o mal no bem.

A expressão de Stiros só podia ser descrita como consternada. Tuek era o Supremo Consagrado por Deus. Nenhum sacerdote podia duvidar do que ele dizia. E

o resultado de Tuek, tornando público tal pensamento, causaria um abalo profundo nas fundações da autoridade sacerdotal! Obviamente, Stiros estava perguntando a si mesmo se não chegara a hora de mandar para o deserto esse Alto Sacerdote.

— Eu nunca pensaria poder debater idéias tão profundas com meu Alto Sacerdote — disse Stiros. — Mas talvez eu possa sugerir algo que resolveria muitas dúvidas.

— Sugira então — disse Tuek.

— Instrumentos sutis poderiam ser introduzidos nas roupas dela. Com eles poderíamos ouvir enquanto ela fala com.

— Acha que Deus não teria conhecimento do que fizéssemos?

— Tal pensamento nunca atravessou minha mente!

— Não vou ordenar que ela seja levada para o deserto.

— Mas e se for idéia dela ir? — Stiros assumiu sua expressão mais cativante.

— Ela fez isso muitas vezes.

— Mas não recentemente. Parece ter perdido sua necessidade de consultar Deus.

— Não poderíamos sugerir isso a ela? — indagou Stiros.

— De que modo?

— Sheeana, quando vai falar novamente com seu Pai? Você não se coloca mais em Sua presença.

— Isso parece mais uma provocação do que uma sugestão.

— Estou apenas propondo que..

— Essa Sagrada Criança não é tola! Ela fala com Deus, Stiros. Deus poderia punir-nos apenas por tal presunção.

— Deus não a colocou aqui para que a estudássemos? — indagou Stiros.

Para o gosto de Tuek, isso estava muito próximo da heresia de Dromind.

Olhou furioso para Stiros.

— O que eu quero dizer — continuou Stiros — é que certamente Deus deseja que aprendamos com ela.

O próprio Tuek dissera isso muitas vezes, nunca ouvindo em suas próprias palavras um curioso eco das palavras de Dromind.

— Ela não deve ser provocada nem testada — insistiu Tuek.

— Os céus o proíbem! — disse Stiros. — Eu serei a fonte da sagrada cautela.

E tudo que eu aprender a respeito da Sagrada Criança lhe será relatado imediatamente.

Tuek meramente acenou com a cabeça. Ele tinha seus próprios modos de se certificar de que Stiros falava a verdade.

Os testes subseqüentes foram imediatamente relatados à Irmandade por Tamalane e suas subordinadas.

— Sheeana tem um olhar pensativo — relatou Tamalane. Entre as Reverendas Madres em Rakis e entre aquelas a quem elas informavam, esse olhar pensativo tinha uma interpretação muito óbvia. Os antecedentes de Sheeana tinham sido deduzidos muito tempo atrás e as intromissões de Stiros faziam a menina ficar com saudades de casa. Sheeana mantinha o silêncio com muita sabedoria, mas era evidente que estimava muito a vida que levara numa vila de pioneiros. A despeito do perigo e de todos os temores, aqueles tinham sido tempos felizes para ela. Lembrava-se do riso, de colocar bastões na areia para prever o tempo, caçar escorpiões nas fendas das cabanas ou farejar especiaria nas dunas. Pelas viagens seguidas que Sheeana fazia naquela área, a Irmandade fizera uma suposição razoavelmente precisa quanto à localização do vilarejo perdido e ao que lhe acontecera. Sheeana olhava com freqüência para um velho mapa de Tuek na parede de seu quarto.

E, como Tamalane esperava, certa manhã Sheeana apontou o dedo para uma

posição no mapa da parede, o mesmo lugar aonde fora muitas vezes.

— Leve-me até este lugar — ordenou a suas criadas.

Um tóptero foi solicitado.

Enquanto os sacerdotes escutavam avidamente, num tóptero pairando muito alto, Sheeana confrontou uma vez mais seu inimigo na areia. Tamalane e suas assessoras, sintonizadas nos circuitos dos sacerdotes, observavam com igual interesse.

Nada que sugerisse mesmo remotamente um vilarejo permanecia na vastidão varrida pelas dunas onde Sheeana pediu para ser deixada. Dessa vez, entretanto, ela usou um batedor para chamar o verme. Outra das matreiras sugestões de Stiros, acompanhada de instruções cuidadosas sobre o modo antigo de convocar o Deus Dividido.

O verme veio.

Tamalane, que observava em seu próprio projetor, considerou o verme um monstro mediano. Seu comprimento foi estimado em aproximadamente 50 metros e Sheeana ficou a apenas três metros da boca aberta. O bafejar dos fogos interiores do verme era claramente audível aos observadores.

— Vai me contar por que fez aquilo? — perguntou Sheeana.

Ela nem estremecia diante do bafo quente do verme. A areia estalava embaixo do monstro, mas ela não dava qualquer sinal de estar ouvindo.

— Responda-me! — ordenou.

Nenhuma voz partiu do verme, mas Sheeana parecia estar ouvindo alguma coisa, a cabeça inclinada para um lado.

— Então volte para o lugar de onde veio — ela disse.

E acenou para que o verme fosse embora.

Obedientemente, o verme recuou e mergulhou na areia.

Durante dias, enquanto a Irmandade observava com satisfação, os sacerdotes debateram esse breve encontro. Sheeana não podia ser questionada a respeito, ou saberia ter sido espionada. E, como de hábito, ela se recusava a comentar suas visitas ao deserto.

Stiros continuou com suas astutas sondagens. O resultado foi exatamente aquele que a Irmandade esperava. Sem qualquer aviso, Sheeana acordava num determinado dia e dizia:

— Hoje eu irei ao deserto.

Algumas vezes ela usava um batedor, outras vezes dançava para chamar a criatura. De bem longe na areia, além do alcance da visão a partir de Keen ou qualquer outro lugar habitado, os vermes atendiam ao seu chamado. E Sheeana, sozinha diante de um verme, falava com ele enquanto outros ouviam. Tamalane achou fascinantes os registros acumulados, na medida em que passavam por suas mãos a caminho da sede da Irmandade.

— Eu devia odiá-lo!

Que rebuliço isso não causou entre os sacerdotes! Tuek queria um debate

aberto: devemos odiar o Deus Dividido ao mesmo tempo em que O amamos?

Stiros mal conseguiu calar essa sugestão com o argumento de que os desejos de Deus ainda não estavam claros.

E Sheeana indagou a um de seus gigantescos visitantes:

— Vai me deixar cavalgá-lo novamente?

Quando ela se aproximou, o verme recuou e não permitiu que o montasse.

Em outra ocasião ela perguntou:

— Devo permanecer entre os sacerdotes?

Esse verme em particular mostrou-se o alvo de muitas perguntas, entre elas:

— Para onde vão as pessoas que você come?

— Por que as pessoas são falsas comigo?

— Devo punir os maus sacerdotes?

Tamalane riu diante dessa última pergunta, sabendo a agitação que ela causaria no meio do pessoal de Tuek. Suas espiãs relataram obedientemente o temor entre os sacerdotes.

— Como Ele responde a ela? — perguntou Tuek. — Alguém já ouviu Deus responder?

— Talvez ele fale diretamente à alma dela — arriscou um conselheiro.

Tuek aceitou de imediato a sugestão:

— É isso! Devemos perguntar a ela o que Deus lhe diz.

Sheeana recusou-se a participar de tais debates.

— Ela tem razoável consciência de seus poderes — relatou Tamalane. — Não está incursionando no deserto com muita freqüência agora, a despeito das sugestões de Stiros. Como era de se esperar, a atração diminuiu. O medo e o entusiasmo não podem levá-la muito além. Ela aprendeu, entretanto, a dar uma ordem efetiva:

— Vá embora!

A Irmandade marcou isso como um progresso importante. E quando até mesmo o Deus Dividido passou a obedecer, nenhum sacerdote ou sacerdotisa era mais capaz de questionar a autoridade de Sheeana nesse aspecto.

— Os sacerdotes estão construindo torres no deserto — relatou Tamalane. —

Eles querem ter um número maior de locais de onde possam observar Sheeana em suas saídas para o deserto.

A Irmandade tinha antecipado isso e até fizera algumas sugestões veladas para acelerar o projeto. Cada torre tinha a própria armadilha de vento, a própria equipe de manutenção, jardins, barreira de água e outros elementos da civilização. Cada uma representava uma pequena comunidade expandindo-se além das áreas povoadas de Rakis, bem dentro do domínio dos vermes.

As vilas de pioneiros não eram mais necessárias e Sheeana recebeu o crédito por esse desenvolvimento.

— Ela é nossa sacerdotisa — dizia a população.

Tuek e seus conselheiros continuavam presos ao paradoxo: Shaitan e Shai-hulud

em um só corpo? Stiros vivia sob o constante temor de que Tuek anunciasse esse fato.

Os assessores de Stiros rejeitaram categoricamente a sugestão de que Tuek fosse entregue aos vermes. Outra sugestão, de que Sacerdotisa Sheeana devia sofrer um acidente fatal, foi recebida por todos com horror, e até mesmo Stiros achou muito grande a ousadia.

— Mesmo que removêssemos esse espinho, Deus poderia enviar-nos algo mais terrível — ele disse. E advertiu: — Os livros mais antigos dizem que uma criança vai nos guiar.

Stiros era o mais recente acréscimo ao grupo que olhava para Sheeana como alguém não inteiramente mortal. Era visível que aqueles que a cercavam, inclusive Cania, tinham aprendido a amar Sheeana. Ela era brilhante, sagaz, compreensiva.

E muitos repararam que esse afeto crescente com relação a Sheeana dominava até mesmo Tuek.

Para as pessoas tocadas por esse poder, a Irmandade tinha uma classificação imediata. A Bene Gesserit tinha um rótulo para este efeito ancestral: adoração crescente.

Tamalane relatou mudanças profundas acontecendo em Rakis na medida em que as pessoas, por todo o planeta, começavam a orar a Sheeana em vez de ao Shai-hulud ou a Shaitan.

— Eles percebem que Sheeana intercede pelas pessoas mais humildes —

relatou Tamalane. — É um padrão familiar. Tudo acontece como foi ordenado.

Quando vai enviar o ghola?

A superfície externa de um balão é sempre maior que o centro da maldita coisa! Esse é todo o motivo por trás da Dispersão!

— Resposta da Bene Gesserit ante uma sugestão ixiana de que novas sondas investigadoras fossem enviadas para o meio dos Perdidos

Uma naveta rápida da Irmandade levou Miles Teg até o transporte da Corporação circulando acima de Gammu. Miles não gostava da idéia de ter que deixar o Castelo num momento como esse, mas as prioridades eram óbvias. Ele também tinha uma reação instintiva a essa aventura. Em seus três séculos de experiência, aprendera a confiar em suas reações instintivas. As coisas não andavam bem em Gammu. Cada patrulha, cada informação dos sensores remotos, os relatórios dos espiões de Patrin nas cidades — tudo alimentava a inquietação de Teg.

Continuar: parte 3 de 3