Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

— Como o mágico no Festival de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

À maneira Mentat, ele sentia o movimento das forças em torno do Castelo e dentro de si. O ghola pelo qual era responsável estava ameaçado. A ordem para que fosse a bordo do Transporte da Corporação sugeria que se preparasse para violência.

E no entanto vinha da parte da própria Taraza, com um inconfundível cripto-identificador.

Enquanto a naveta o levava para o alto, Teg se condicionava para a batalha. Os preparativos que poderia fazer tinham sido feitos. Lucilla fora avisada. Tinha confiança em relação a ela. Já Schwangyu era diferente. Pretendia discutir com Taraza algumas mudanças que se faziam necessárias no Castelo Gammu. Antes tinha que vencer outra batalha. Não tinha a menor dúvida de que fosse entrar em combate.

Enquanto a naveta se posicionava para o acoplamento, Teg olhou por uma vigia e viu o gigantesco símbolo ixiano dentro do emblema da Corporação sobre o lado escurecido do Transporte. Essa era uma nave da Corporação convertida para navegar com um mecanismo ixiano substituindo o navegador tradicional. Haveria técnicos ixianos a bordo para a manutenção do equipamento. E um navegador genuíno estaria lá também. A Corporação nunca aprendera a confiar numa máquina, mesmo quando exibia esses transportes convertidos como um aviso aos Tleilaxu e aos Rakianos.

“Estão vendo? Não dependemos inteiramente da sua melange!”

Este era o aviso implícito no gigantesco símbolo de Ix no costado da nave.

Teg sentiu uma leve sacudidela quando as garras de atracação seguraram a naveta, e se acalmou respirando fundo. Sentia-se sempre do mesmo modo antes do combate: vazio de todos os falsos sonhos. Isso era uma falha. As conversações tinham fracassado e agora vinha a disputa de sangue... a menos que pudesse prevalecer de algum outro modo. Naquela época, o combate era raramente de grande porte, mas isso não impedia que a morte se fizesse presente. Isso representava um modo mais permanente de fracasso. “Se não somos capazes de acertar nossas diferenças pacificamente, somos menos humanos.”

Um comissário, com o sotaque inconfundível de Ix em sua voz, guiou Teg até o compartimento onde Taraza esperava por ele. E ao longo de todos os corredores e pneumotubos que o conduziam ao encontro de Taraza, Teg buscou os indícios que confirmassem a advertência secreta contida na mensagem da Madre Superiora. Tudo parecia calmo e costumeiro — inclusive a cortesia do comissário para com o Bashar.

— Fui um comandante Tireg em Andioyu — ele disse, citando o nome de uma das quase-batalhas que Teg vencera.

Chegaram diante de uma comporta oval na parede de um corredor comum. A comporta se abriu e Teg entrou numa sala confortável de paredes brancas, com cadeiras-fundas, mesas baixas e globos luminosos ajustados na faixa do amarelo. A comporta deslizou para dentro de seu selo de ar com uma pancada abafada atrás dele, deixando seu guia lá fora, no corredor.

Uma acólita Bene Gesserit abriu as rendas que ocultavam uma passagem à direita de Teg. Acenou com a cabeça para ele. Tinha sido visto e Taraza seria notificada.

Teg controlou um tremor nos músculos da barriga da perna.

“Violência?”

Não interpretara erroneamente o aviso secreto de Taraza. Teriam sido adequados seus preparativos? Havia uma cadeira à sua esquerda, uma mesa baixa diante dela e outra cadeira no lado oposto da mesa. Teg caminhou até esse lado do aposento e esperou com as costas voltadas para a parede. A poeira marrom de Gammu ainda aderia às suas botas, notou.

Havia um cheiro peculiar nessa sala. Ele avaliou e percebeu: shere!

Taraza e sua gente se teriam prevenido contra uma Sonda Ixiana? Teg tomara sua cápsula habitual de shere antes de embarcar na naveta. Havia em sua cabeça muito conhecimento que poderia ser útil a um inimigo. E o fato de Taraza ter deixado o cheiro de shere em seus alojamentos tinha outras implicações: era uma declaração para algum observador cuja presença ela não pudesse evitar.

Taraza entrou passando pelo rendado de cortinas. Teg achou que ela parecia cansada. Considerou isso extraordinário, pois as irmãs eram capazes de ocultar a fadiga até estarem quase no ponto de caírem. Estaria ela realmente esgotada ou seria esse outro gesto em beneficio de observadores ocultos?

Parando na entrada, Taraza observou Teg. O Bashar parecia muito mais velho do que na última vez em que o vira, pensou ela. Seu trabalho em Gammu estava tendo um efeito sobre ele, mas Taraza achou essa observação tranqüilizadora. Era sinal de que Teg estava fazendo bem o seu trabalho.

— Sua resposta rápida é muito apreciada, Miles — ela disse.

“Apreciada!” Essa era a palavra-código para: “Estamos sendo observados secretamente por um adversário perigoso.”

Teg fez sinal com a cabeça enquanto seu olhar se voltava para o cortinado por onde Taraza tinha entrado.

Ela sorriu e caminhou mais para dentro da sala. Não havia sinal do ciclo da melange em Teg, observou ela. A idade avançada de Teg sempre levantava a suspeita de que ele pudesse recorrer ao efeito da especiaria. Mas nada nele indicava o menor sinal do vício em que caíam até os mais fortes quando sentiam o fim se aproximando.

Teg usava sua velha jaqueta do uniforme de Supremo Bashar, mas sem os asteriscos dourados nos ombros e no colarinho. Esse era um sinal que ela reconhecia. Dizia:

“lembre-se de como conquistei isto a seu serviço. E desta vez também não falharei.”

Os olhos que a observavam estavam nivelados com os seus e nenhum indício de julgamento aparecia neles. Toda a aparência de Teg transmitia uma calma interior, tudo de acordo com o que ela sabia dever estar lhe ocorrendo nesse momento.

Esperava seu sinal.

— Nosso ghola deve ser despertado na primeira oportunidade — ela disse.

Ergueu a mão para silenciá-lo quando tentou responder. — Vi os relatórios de Lucilla e sei que ele ainda é muito jovem. Mas é preciso que entremos em ação.

Taraza falava para aqueles que estavam observando, ele percebeu. Devia acreditar em suas palavras?

— Agora lhe dou a ordem para despertá-lo — disse ela, enquanto flexionava o

punho esquerdo num sinal confirmador de sua linguagem secreta.

Era verdade! Teg olhou para as cortinas que ocultavam as passagens por onde Taraza tinha entrado. Quem estaria ouvindo lá?

Colocou seus talentos de Mentat voltados para o problema. Faltavam alguns elementos, mas isso não o detinha. Um Mentat era capaz de trabalhar sem determinados dados, desde que possuísse o suficiente para criar um padrão. Era raro os Mentats possuírem todos os dados de que necessitavam, e algumas vezes bastava o mais leve esboço. Isso fornecia o padrão oculto a partir do qual eles poderiam encaixar as peças que faltavam para completar o todo. Teg fora treinado para sentir padrões, reconhecer unidades e sistemas. Lembrava-se agora de que fora treinado no derradeiro sentido militar: treina-se um recruta para treinar uma arma, para apontar a arma corretamente.

Taraza o estava apontando. E seu julgamento da situação foi confirmado.

— Serão feitas tentativas desesperadas de matar ou capturar o ghola antes que você possa despertá-lo — ela disse.

Teg reconheceu-lhe o tom de voz: a fria e analítica oferta de dados a um Mentat. Ela percebia que ele estava pensando como Mentat. O padrão de busca Mentat desenrolou-se em sua mente. Em primeiro lugar havia o projeto da Irmandade para o ghola, o que lhe era na maior parte desconhecido, mas que girava de algum modo em torno da presença em Rakis de uma jovem que (assim diziam) podia controlar os vermes. Os gholas Idaho possuíam uma personalidade envolvente e algo mais que fizera com que o Tirano e os Tleilaxu os tivessem produzido incontáveis vezes. Duncans aos montes! Que serviços esse ghola podia realizar para que o Tirano não o deixasse ficar esquecido entre os mortos? E

quanto aos Tleilaxu? Eles tinham decantado gholas Duncan Idaho a partir de seus tanques axlotl durante milênios, mesmo depois da morte do Tirano. Tinham vendido esse ghola para a Irmandade 12 vezes, e a Irmandade pagara na moeda mais valiosa: melange de suas preciosas reservas. Por que os Tleilaxu aceitariam como pagamento coisa que eles produziam com fartura? Era óbvio: para esgotar as reservas da Irmandade. Havia nisso uma forma especial de cobiça. Os Tleilaxu estavam comprando a supremacia — um jogo de poder!

Teg voltou sua atenção para a Madre Superiora, que aguardava calmamente.

— Os Tleilaxu têm matado nossos gholas para controlar nosso cronograma —

disse ele.

Taraza fez sinal com a cabeça, mas não falou. Então ainda havia mais. Tornou a mergulhar no modo de pensamento Mentat.

A Bene Gesserit era um mercado valioso para a melange dos Tleilaxu. Não a única fonte, pois havia sempre um fio escorrendo de Rakis, mas era um mercado valioso, sim, muito valioso. Não era lógico que os Tleilaxu alienassem um mercado valioso, a menos que possuíssem outro ainda mais lucrativo em vista.

Quem mais se interessava pelas atividades da Bene Gesserit? Os ixianos, sem

dúvida. Mas os ixianos não eram um bom mercado para melange. A própria presença ixiana nessa nave revelava sua independência. Desde que os ixianos e as Oradoras Peixes se tinham unido, aderindo a uma causa comum, as Oradoras podiam ser deixadas de fora desse padrão de busca.

Que maior poder ou união de poderes nesse universo possuía...

Teg gelou ante esse pensamento como se tivesse aplicado os freios de mergulho num tóptero. Deixou que sua mente flutuasse livre enquanto examinava as outras considerações.

“Não neste universo”

O padrão tomou forma. “Riqueza.” Gammu assumiu novo papel em suas computações Mentat. Gammu fora esgotado pelos Harkonnen, abandonado como um carcaça apodrecendo, até que os Danianos o haviam restaurado. Mas tinha havido um tempo em que até as esperanças em Gammu se tinham esgotado. E sem esperanças não havia nem mesmo sonhos. Erguendo-se desse abismo, a população aderira ao pragmatismo mais elementar. “Se funcionar, é bom.”

“Riqueza”

Em sua primeira avaliação de Gammu, ele tinha notado o número de bancos.

Alguns eram mesmo marcados como cofres Bene Gesserit. Gammu servia de eixo para a manipulação de uma enorme riqueza. O banco que tinha visitado para estudar seu uso como contato de emergência entrou em sua consciência Mentat. Soubera de imediato que aquele estabelecimento não se restringia puramente aos negócios planetários. Era um banco para banqueiros.

“Não se tratava meramente de riqueza, mas de RIQUEZA.”

Um padrão primário de desenvolvimento não se formou na mente de Teg, mas ele já possuía o suficiente para uma projeção de teste. Riqueza de fora desse universo. Gente da Dispersão.

Todo esse exame Mentat levara apenas alguns segundos. Tendo alcançado uma proposição de teste, Teg relaxou os músculos e os nervos, uma só vez para Taraza e caminhou até a entrada oculta. Notou que Taraza não dera o menor sinal de ficar alarmada com seus movimentos. Abrindo bruscamente as cortinas, Teg confrontou um homem tão alto quanto ele mesmo: um homem vestido em estilo militar, com lanças cruzadas no emblema do colarinho. O rosto era pesado, os maxilares largos, os olhos verdes. Havia uma expressão de vigília surpreendida, uma das mãos acima de um bolso obviamente estufado com uma arma.

Teg sorriu para o homem e deixou as cortinas caírem em sua posição normal, voltando para junto de Taraza.

— Estamos sendo observados por gente da Dispersão — ele disse.

Taraza relaxou. O desempenho de Teg fora memorável.

As cortinas fizeram ruído, abrindo-se. O estranho alto entrou e parou a dois passos de Teg. Havia uma expressão de ódio frio fixa em suas feições.

— Eu lhe avisei para não dizer nada a ele!

A voz era um barítono áspero com um sotaque novo para Teg.

— E eu lhe avisei a respeito dos poderes deste Bashar Mentat — respondeu Taraza. Uma expressão de desprezo passou rapidamente em suas feições.

O homem acalmou-se e uma sutil expressão de temor surgiu em seu rosto.

— Honrada Madre, eu...

— Não se atreva a me chamar disso!

O corpo de Taraza ficou tenso numa postura de combate que Teg nunca a tinha visto exibir.

O homem inclinou a cabeça levemente.

— Cara senhora, não está no controle da situação aqui. Devo lembrá-la de que minhas ordens.

Teg já tinha ouvido o bastante.

— Através de mim ela está no controle aqui — disse ele. — Antes de vir para cá, coloquei em ação certos procedimentos de proteção. Esta... — olhou em torno e voltou a atenção para o intruso, cujo rosto agora tinha uma expressão circunspecta —

não é uma não-nave. E duas de nossas não-naves monitoras têm vocês na mira neste exato momento.

— Vocês não sobreviveriam — retrucou o homem.

Teg sorriu amigavelmente.

— Ninguém nesta nave sobreviveria. — Ele comprimiu o maxilar para disparar a minúscula chave de sinal nervoso, que ativou o cronômetro de pulsos dentro de seu crânio. Os sinais gráficos foram projetados em seus centros de visão. —

E vocês não têm muito tempo para tomar uma decisão.

— Diga-lhe como tomou conhecimento disso — pediu Taraza.

— A Madre Superiora e eu temos nossos próprios meios particulares de comunicação — explicou Teg. — Além disso, não havia necessidade de ela me avisar.

Seu chamado era o bastante. A Madre Superiora num Transporte da Corporação numa época como esta? Impossível!

— Impasse — rosnou o homem.

— Talvez — disse Teg. — Acho que nem Ix nem a Corporação se arriscariam a um ataque total por forças da Bene Gesserit sob o comando de um líder treinado por mim. Refiro-me ao Bashar Burzmali. Seu apoio acaba de se dissolver e desaparecer.

— Eu não lhe contei nada disso — explicou Taraza. — Acaba de testemunhar o desempenho de um Bashar Mentat que eu duvido possa ser igualado em seu universo. Pense nisso antes de considerar a possibilidade de enfrentar Burzmali, homem treinado por este Mentat.

O intruso olhou de Taraza para Teg e então de volta para Taraza.

— Esta é a saída do seu aparente impasse — disse Teg. — A Madre Superiora Taraza e seu séquito partem comigo. Você deve decidir rapidamente. O tempo está correndo.

— Está blefando — disse o homem, mas não havia força em suas palavras.

Teg voltou-se para Taraza e curvou a cabeça.

— Foi uma grande honra servi-la, Reverenda Madre Superiora. Eu lhe dou o meu adeus.

— Talvez a morte não nos separe — disse Taraza.

Era o tradicional adeus de uma Reverenda Madre a uma Irmã.

— Vão embora! — disse o homem de feições carregadas, enquanto corria para a comporta do corredor e a escancarava. O movimento revelou dois guardas ixianos com olhares de surpresa em seus rostos. Numa voz rouca, o homem ordenou: —

levem-nos para a naveta.

Ainda calmo e relaxado, Teg disse:

— Chame sua gente, Reverenda Madre. — Para o homem de pé junto a porta ele disse: — Você dá muito valor à própria pele para ser um bom soldado. Ninguém entre minha gente teria cometido tal erro.

— Existem autênticas Honradas Madres a bordo desta nave — respondeu o homem. — Eu jurei protegê-las.

Teg sorriu e se voltou para o ponto onde Taraza reunira seu pessoal da sala adjacente: havia duas Reverendas Madres e quatro acólitas. Teg reconheceu uma das Reverendas Madres: Darwi Odrade. Ele a vira antes, mas apenas de longe. Mas o rosto oval e aqueles olhos adoráveis prendiam a atenção: tão parecida com Lucila.

— Temos tempo para apresentações? — perguntou Taraza.

— É claro, Madre Superiora.

Teg fez uma mesura e segurou a mão de cada uma das mulheres, enquanto Taraza fazia as apresentações.

Depois, enquanto saíam, Teg se voltou mais uma vez para o estranho uniformizado e disse:

— Devemos sempre manter a educação e as regras de polidez. Do contrário nos tornamos subumanos.

Somente quando já se encontravam dentro da naveta, com Taraza sentada ao lado dele e as acompanhantes por perto, foi que Teg fez a pergunta principal:

— Como foi que eles a capturaram?

A naveta mergulhava em direção ao planeta. A tela de visão diante de Teg mostrava a nave da Corporação, com a marca ixiana, obedecendo sua ordem de permanecer em órbita até que o grupo se encontrasse seguramente atrás das defesas planetárias.

Antes que Taraza respondesse, Odrade inclinou-se sobre o corredor que os separava e disse:

— Eu anulei as ordens do Bashar para que a nave da Corporação fosse destruída, Madre.

Teg virou a cabeça bruscamente e olhou furioso para Odrade.

— Mas eles mantiveram vocês cativas e... — Seu rosto ficou carregado. —

Como sabia que eu..

— Miles!

A voz de Taraza carregava uma total reprovação. Ele sorriu magoado. Sim, ela o conhecia quase tanto quanto ele próprio... até melhor em certos aspectos.

— Eles não nos capturaram, Miles — explicou Taraza. — Nós nos deixamos capturar. Ostensivamente, eu estava escoltando Dar até Rakis. Nós deixamos nossa não-nave em uma Junção e pedimos pelo transporte mais rápido da Corporação.

Todo o meu Conselho, inclusive Burzmali, concordou em que esses intrusos da Dispersão iriam tomar o Transporte e nos levar até você, tentando reunir todos os elementos do projeto ghola.

Teg estava abismado. O risco que tinham corrido!

— Nós sabíamos que você nos resgataria — disse Taraza. — Burzmali estava de prontidão para o caso de você falhar.

— Aquela nave da Corporação que a senhora poupou — disse Teg — vai pedir reforços e atacar nosso...

— Eles não vão atacar Gammu — respondeu Taraza. — Há muitas forças diferentes da Dispersão reunidas em Gammu. Eles não se atreveriam a eliminar tantos.

— Gostaria que estivesse tão certa disso quanto tenta aparentar.

— Pode ter certeza, Miles. Além disso, havia outras razões para não destruir a nave da Corporação. Ix e a Corporação foram apanhados tomando partido. Isso é mal para os negócios, e eles vão precisar de todos os negócios que puderem conseguir.

— A menos que possuam clientes mais importantes oferecendo lucros ainda maiores!

— Ah, Miles — disse ela numa voz pensativa. — O que nós, as Bene Gesserit de hoje em dia, fazemos é tentar conseguir um equilíbrio em todas essas questões, uma condição mais calma. Você sabe disso.

Teg achou a afirmação verdadeira, mas sua atenção ficou presa a um termo...

de hoje em dia. As palavras tinham um sentido de resumo final. Antes que ele pudesse questionar, Taraza continuou:

— Gostaríamos de resolver as situações mais acaloradas longe do campo de batalha. Tenho que admitir que devemos agradecer ao Tirano por essa mudança de atitude. Não creio que algum dia tenha pensado em si próprio como um produto do condicionamento do Tirano, Miles, mas vocês é.

Teg aceitou isso sem comentários. Era um fator comum em todo o vasto panorama da sociedade humana. Nenhum Mentat podia escapar a esse dado.

— Foi essa qualidade sua que nos atraiu em primeiro lugar — continuou Taraza — Você pode ser terrivelmente frustrante às vezes, mas não o desejaríamos de outro modo.

Através de uma revelação sutil, contida nas maneiras e no tom de voz, Teg percebia que Taraza não estava falando unicamente para ele, mas também dirigia as palavras às suas acompanhantes.

— Tem idéia de o quanto é frustrante, Miles, ouvir você apresentar os dois lados de uma questão discutindo com igual força de argumentos? No entanto sua personalidade é uma arma poderosa. Como alguns de nossos inimigos ficaram aterrorizados ao descobrir você a enfrentá-los onde não tinham a menor suspeita de que fosse aparecer!

Teg permitiu-se um sorriso. Olhou para a mulher sentada no outro lado do corredor, separando as filas de poltronas. Por que Taraza estaria falando assim com o seu grupo? Darwi Odrade parecia estar repousando, a cabeça para trás, os olhos fechados. Algumas das outras conversavam entre si. Nada disso era conclusivo para Teg. Mesmo acólitas Bene Gesserit podiam acompanhar várias linhas de raciocínio ao mesmo tempo. Voltou a atenção para Taraza.

— Você realmente tem um tipo de empatia, sente as coisas do modo como o inimigo sente — disse Taraza. — É isso que eu quero dizer. E é claro que, quando assume essa postura mental, não existe inimigo para você.

— Sim, aí está!

— Não confunda minhas palavras, Miles. Nunca duvidamos da sua lealdade.

Mas é estranha a maneira como nos faz ver coisas que não temos outra maneira de enxergar. Há ocasiões em que você é os nossos olhos.

Darwi Odrade, Teg percebia, tinha aberto os olhos e estava olhando para ele.

Era uma mulher encantadora. Havia algo perturbador em sua aparência adorável.

Como Lucilla, ela lhe recordava alguém de seu passado. Mas antes que Teg pudesse seguir esse pensamento Taraza disse:

— O ghola possui essa habilidade de equilíbrio entre forças opostas?

— Ele poderia ser um Mentat — disse Teg.

— Ele foi um Mentat em uma de suas encarnações, Miles.

— Realmente deseja que ele seja despertado ainda tão jovem?

— É necessário, Miles. Mortalmente necessário.

O fracasso da CHOAM? Muito simples: Eles ignoram o fato de que forças comerciais muito maiores aguardam na fronteira de suas atividades. Forças que poderiam engoli-los como uma caçamba engole o lixo. Essa é a verdadeira ameaça da Dispersão — para eles e para todos nós.

— Notas do Conselho da Bene Gesserit, Arquivos SXX9OCH

Odrade voltara apenas uma parte de sua consciência para a conversa entre Teg e Taraza. Essa naveta era das pequenas, a cabine de passageiros apertada. Ela usaria a resistência atmosférica para frear sua descida e Odrade se preparou para a turbulência.

O piloto economizaria os Suspensores numa nave assim, poupando a energia.

Ela usava esse momentos, como usava todo o tempo que tinha agora, preparando-se para as necessidades prementes. O tempo se esgotava e um calendário especial lhe dirigia a vida. Tinha olhado para esse calendário antes de deixar a sede da Irmandade, impressionada, como sempre lhe acontecia, pela persistência do tempo e da linguagem a ele relacionada: segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos...

Anos-Padrão, para ser mais precisa. Persistência era um termo inadequado para o fenômeno. Inviolabilidade seria melhor. Tradição. Nunca perturbe a tradição.

Mantinha as comparações firmes em sua mente, o fluxo de tempo ancestral imposto a planetas que não se ajustavam ao primitivo relógio humano. Uma semana tem sete dias. Sete! Como esse número permanecia poderoso, místico. Estava lá, na Bíblia Universal Laranja: “O Senhor fez o mundo em seis dias e no sétimo dia descansou.”

“Ótimo para ele!”, pensou Odrade. “Todos nós devíamos descansar depois de grandes tarefas.”

Odrade virou a cabeça levemente e olhou para Teg do outro lado do corredor.

Ele não tinha idéia de quantas memórias provocava em Odrade, o quanto ela se lembrava dele. Podia notar facilmente a maneira como os anos tinham marcado aquele rosto forte. Ensinar o ghola lhe esgotava as energias, ela podia notar. Aquela criança no Castelo Gammu devia ser como uma esponja, absorvendo tudo à sua volta.

“Miles Teg, será que você tem consciência de como nós o usamos?”, ela se perguntou.

Era um pensamento que a enfraquecia mas que ela permitiu permanecesse em sua consciência quase num sentimento de desafio. Como seria fácil amar aquele velho!

Não como um parceiro de procriação, é claro... mas amá-lo, apesar disso. Podia sentir os laços que a puxavam para ele, reconhecendo-os com a agudeza de suas capacidades de Bene Gesserit. Amor, maldito amor, amor que enfraquece.

Odrade sentira a mesma coisa com relação ao primeiro homem que fora mandada seduzir. Uma sensação curiosa. Seus anos de condicionamento como Bene Gesserit a tinham tornado cautelosa a esse respeito. Nenhuma das inspetoras Bene Gesserit lhe havia permitido o luxo de uma paixão sem questionamentos, e com o tempo Odrade aprendera as razões desse cuidado. Não obstante, ali estava ela, enviada pelas Madres Procriadoras, com ordens para se aproximar de um indivíduo e deixar que ele a penetrasse. Todos os dados clínicos estavam lá, em sua consciência, e ela poderia medir a excitação sexual em seu parceiro ao mesmo tempo em que a permitia em si mesma. Afinal, tinha sido cuidadosamente preparada para esse papel pelos homens a serviço das Madres Procriadoras. Homens que elas selecionavam e condicionavam com primoroso cuidado para isso.

Odrade suspirou e olhou na direção oposta a Teg, fechando os olhos em recordações. Os Homens do Treinamento nunca deixavam que suas emoções refletissem uma união arrebatada com as alunas. Era uma lacuna necessária da educação sexual.

Pensou na primeira sedução que fora mandada realizar: estava totalmente despreparada para o êxtase mútuo de um orgasmo simultâneo, aquela fusão, aquele compartilhar tão velho quanto a própria humanidade... mais antigo ainda! E com poderes que poderiam facilmente sobrepujar a razão. O olhar no rosto do companheiro, o beijo suave, seu total abandono de toda a reserva autoprotetora, desguardado e supremamente vulnerável. Nenhum Homem do Treinamento jamais tinha feito isso! Desesperada, ela se agarrou às suas lições de Bene Gesserit. Através dessas lições pôde ver a essência daquele homem em seu rosto, sentindo aquela essência em suas fibras mais profundas. E por apenas um único instante se permitiu uma resposta equivalente, experimentando um novo ápice de êxtase que nenhum treinamento jamais sugerira que pudesse ser atingido. Naquele instante compreendeu o que tinha acontecido com Lady Jessica e com todas as outras Bene Gesserit que tinham fracassado.

Esse sentimento era o amor!

Sua força a assustou (como as Madres Procriadoras sabiam que assustaria) e ela se refugiou no cuidadoso condicionamento da Bene Gesserit, permitindo que uma máscara de prazer cobrisse a breve expressão natural que surgira em seu rosto, empregando carícias calculadas onde carícias espontâneas teriam sido mais fáceis (porém menos eficientes).

O homem respondeu como esperado, de modo estúpido. Isso a ajudou a pensar nele como uma pessoa estúpida.

Sua segunda sedução fora mais fácil. Mas ela ainda podia relembrar as feições do primeiro, fazendo isso às vezes com um calejado senso de admiração. Algumas vezes aquele rosto surgia em sua mente sem ser invocado, sem qualquer razão imediatamente identificável.

Com os outros homens com quem ela fora mandada procriar as marcas da memória eram diferentes. Ela tinha que sondar o passado para lembrar a aparência deles. O registro sensorial de tais experiências não tinha sido tão profundo. Não como no primeiro!

Era assim o poder perigoso do amor.

Vejam-se os problemas que essa força oculta tinha causado à Bene Gesserit através dos milênios. O amor de Lady Jessica pelo seu Duque fora apenas um exemplo entre incontáveis outros. O amor turvava a razão. Afastava as irmãs de seus deveres. Só poderia ser tolerado quando não causasse qualquer transtorno imediato ou evidente, ou onde pudesse servir aos propósitos maiores da Bene Gesserit. De outro modo, devia ser evitado.

E no entanto permanecia sempre como objeto de inquieta vigilância. Odrade abriu os olhos e tornou a olhar para Teg e Taraza. A Madre Superiora abordava um novo assunto. Como a voz de Taraza podia ser irritante às vezes! Odrade fechou novamente os olhos e ficou ouvindo a conversa, presa àquelas duas vozes por algum elo em sua consciência que não podia ser evitado.

— Muito poucas pessoas percebem o quanto a infra-estrutura de uma civilização consiste numa infra-estrutura de dependência — dizia Taraza. — Fizemos um bom estudo disso.

“O amor é uma infra-estrutura de dependência”, pensou Odrade. Por que Taraza tinha resolvido abordar esse assunto numa ocasião dessas? A Madre Superiora raramente fazia alguma coisa sem motivos muito profundos.

— Infra-estrutura de dependência é um termo que inclui todas as coisas necessárias para que uma população humana sobreviva em número fixo ou crescente

— explicou Taraza.

— Melange? — perguntou Teg.

— É claro, mas a maioria das pessoas olha a especiaria e diz: “Como é formidável que possamos ter isto aqui para nos dar vidas mais longas do que as vividas por nossos ancestrais”

— Desde que possam pagar o preço.

A voz de Teg tinha uma ponta de sarcasmo, notou Odrade.

— Desde que não se permita que um único poder controle todo o mercado, existirá o bastante para a maioria das pessoas.

— Eu aprendi economia sentado no joelho de minha mãe — disse Teg. —

Comida, água, ar respirável, espaço para se morar que não esteja contaminado por venenos... Existem muitos tipos de moedas, e o valor varia de acordo com a dependência.

Enquanto ouvia, Odrade quase acenou com a cabeça em concordância. A resposta dele seria a sua. “Não insista no óbvio, Taraza! Vá direto ao ponto”

— Quero que lembre muito claramente os ensinamentos de sua mãe — disse Taraza.

E como a sua voz se tornou gentil! A voz de Taraza mudou de tom abruptamente e de repente ela disse:

— Despotismo hidráulico!

“Ela faz a mudança de ênfase muito bem”, pensou Odrade. A memória derramou informações como uma torneira subitamente aberta a plena força.

“Despotismo hidráulico: controle central de uma energia essencial, como por exemplo água, eletricidade, combustível, remédios, melange... Obedeça a esse poder controlador central ou a energia será desligada e você morrerá!”

Taraza estava falando novamente:

— Existe outro conceito útil que tenho certeza que a sua mãe lhe ensinou... o tronco-chave.

Odrade estava muito curiosa agora. Taraza estava se dirigindo a alguma revelação importante com essa conversa. “Tronco-chave”. Era um conceito verdadeiramente antigo, dos dias anteriores aos suspensores, quando os madeireiros lançavam a madeira cortada rio baixo até as serrarias centrais. Algumas vezes os troncos se prendiam uns sobre os outros num ponto estreito do rio e um especialista

era chamado para descobrir qual tronco, o tronco-chave, soltaria o encalhe quando liberado. Teg, sabia ela, teria uma compreensão intelectual do termo, mas Odrade e Taraza podiam invocar memórias ancestrais de testemunhas e ver a explosão de lascas de madeira e água quando o encalhe era liberado.

— O Tirano era um tronco-chave — explicou Taraza. — Ele criou o encalhe, o engarrafamento, e ele o desfez.

A nave começou a estremecer em seu mergulho inicial na atmosfera de Gammu. Odrade sentiu o aperto de seu arnês de segurança por alguns segundos e então o vôo retornou à calma. A conversa se havia interrompido nesse momento.

Taraza continuou:

— Além das chamadas dependências naturais, existem as psicológicas, criadas por algumas religiões. Até mesmo as necessidades físicas podem possuir um componente psicológico subjacente.

— Um fato que a Missionaria Protectiva entende muito bem — disse Teg.

Novamente Odrade notou um toque de profundo ressentimento na voz dele.

Taraza certamente devia perceber também. Que estaria ela fazendo? Podia enfraquecer Teg!

— Aahh, sim — concordou Taraza. — Nossa Missionaria Protectiva. Os seres humanos possuem uma necessidade muito grande de que a sua estrutura de crenças seja a “verdadeira crença”. Se uma coisa lhes dá satisfação ou um sentimento de segurança e se pode ser incorporada à sua estrutura de crenças, que dependência poderosa isso não cria!

Novamente Taraza ficou em silêncio, enquanto a naveta passava através de outra turbulência atmosférica.

— Gostaria de que ele usasse os suspensores! — queixou-se Taraza.

— Está economizando combustível — lembrou Teg. — Menos dependência.

Taraza riu baixinho.

— Oh sim, Miles. Você sabe muito bem a lição. Percebo nisso a mão de sua mãe. Se a criança faz algo errado, a culpa é da mãe.

— A senhora me vê como criança?

— Vejo você como alguém que acaba de ter seu primeiro encontro com as maquinações das chamadas Honradas Madres.

“Então é isso”, pensou Odrade. Com um sentimento de choque, ela percebeu que Taraza dirigia suas palavras a um alvo muito mais amplo do que simplesmente Teg. “Ela está falando para mim!”

— Essas Honradas Madres, como chamam a si mesmas, combinaram o êxtase sexual com a adoração. Duvido de que tenham calculado os perigos que isso implica.

Odrade abriu os olhos e fitou Taraza no outro lado do corredor, entre as poltronas. A atenção de Taraza estava fixa em Teg, uma expressão inescrutável em seu rosto, exceto pelos olhos que flamejavam a necessidade de que ele entendesse.

— Perigos — repetiu Taraza. — Uma grande massa da humanidade possui uma inconfundível identidade unitária. Ela pode ser uma coisa única. Pode agir como um único organismo.

— Assim falou o Tirano — retrucou Teg.

— Assim demonstrou o Tirano! A Alma Grupal foi sua para que a manipulasse. Existem ocasiões, Miles, em que as necessidades da sobrevivência exigem que comunguemos com essa alma. Almas, você sabe, estão sempre buscando uma válvula de escape.

— Será que a comunhão com as almas não saiu de moda em nossa época? —

perguntou Teg.

Odrade não gostou do tom provocador em sua voz e notou que despertava uma irritação equivalente em Taraza.

— Você pensa que estou falando de modismos religiosos? — perguntou Taraza, sua voz aguda insistentemente ríspida. — Ambos sabemos que as religiões podem ser criadas! Estou falando dessas Honradas Madres, que imitam alguns de nossos costumes, mas não possuem a nossa percepção profunda. Elas se atrevem a se colocar no centro de uma adoração!

— Algo que a Bene Gesserit sempre evitou — reconheceu Teg. — Minha mãe dizia que adorados e adoradores estão unidos pela fé.

— E pela fé podem ser divididos!

Odrade notou que Teg mergulhara no modo Mentat de pensamento. Havia uma aparência desfocada nos olhos dele, mas as feições estavam tranqüilas. Agora percebia parte do que Taraza estava tentando fazer. “O Mentat cavalga à maneira romana, um pé em cada cavalo, cada pé apoiado em uma realidade diferente, enquanto o padrão de busca o lança para a frente. Ele deve cavalgar diferentes realidades com um único objetivo.”

Teg falou na voz meditativa de um Mentat, a voz sem qualquer sotaque:

— Forças divididas vão lutar pela supremacia.

Taraza soltou um suspiro de prazer quase sensual, no seu modo natural de expirar.

— Infra-estrutura de dependência — disse ela. — Essas mulheres da Dispersão são capazes de controlar forças divididas, todas as forças engajadas na busca da supremacia. Aquele oficial na nave da Corporação, quando falou em suas Honradas Madres, havia admiração e ódio em sua voz. Tenho certeza de que percebeu isso na voz dele, Miles. Sei como sua mãe o ensinou bem.

— Eu percebi.

Teg voltara sua atenção uma vez mais para Taraza, ouvindo cada palavra que ela dizia, exatamente como Odrade.

— Dependências — continuou Taraza. — Como elas podem ser simples e, ao mesmo tempo, complexas. Tome por exemplo a perda dos dentes.

— Perda dos dentes?

Teg foi sacudido para fora de sua trilha Mentat e Odrade, observando isso, percebeu que Taraza conseguira exatamente a reação que desejava. Ela estava conduzindo o seu Bashar Mentat com mão extremamente hábil.

“E eu devo ver isso e aprender”, pensou Odrade.

— Perda dos dentes — repetiu Taraza. — Um simples implante ao nascer evita esse problema para a maioria da humanidade. E ainda assim precisamos escovar os dentes e cuidar deles. E tão natural para nós que raramente pensamos a respeito.

Os acessórios que usamos para isso são considerados elementos totalmente naturais de nosso ambiente. E no entanto esses utensílios, os materiais existentes neles, os instrutores na área de cuidados com os dentes, os monitores Suk, todos possuem relacionamentos interligados.

— Um Mentat não necessita que lhe expliquem sobre interdependências —

disse Teg. Ainda havia curiosidade em sua voz, mas com um tom subjacente de ressentimento.

— Certo. Esse é o ambiente natural dos processos de pensamento Mentat.

— Então por que insiste nisso?

— Mentat, examine o que sabe a respeito dessas Honradas Madres e me diga: qual a fraqueza delas?

Teg falou sem hesitação:

— Elas só poderão sobreviver se continuarem a aumentar a dependência daqueles que as apoiam. É o beco sem saída do viciado.

— Precisamente. E qual é o perigo?

— Podem levar consigo boa parte da humanidade quando caírem.

— Esse foi o problema do Tirano, Miles. E tenho certeza de que ele tinha consciência disso. Agora preste atenção com muito cuidado. E você também, Dar. —

Taraza olhou para o outro lado do corredor e encontrou o olhar de Odrade atento a ela. — Vocês dois me escutem. Nós da Bene Gesserit estamos liberando... elementos muito poderosos na corrente humana. Eles podem encalhar. Certamente vão causar danos. E nós...

Uma vez mais a naveta enfrentou uma área de forte turbulência. A conversa tornou-se impossível enquanto eles se agarravam aos assentos e ouviam o rugir e estalar à sua volta. Quando cessou essa interrupção, Taraza ergueu a voz:

— Se sobrevivermos a esta maldita máquina e descermos em Gammu, Miles, você deve reunir-se com Dar. Você viu o Manifesto Atreides. Ela vai lhe falar a respeito e prepará-lo. Isso é tudo.

Teg voltou-se e olhou para Odrade. Uma vez mais as feições dela estimulavam-lhe as memórias: uma semelhança extraordinária com Lucilla, mas havia algo mais. Ele colocou isso de lado. “O Manifesto Atreides?” Tinha lido, pois viera de Taraza com instruções para que o fizesse. “Preparar-me? Para quê?”

Odrade notou o olhar questionador no rosto de Teg. Agora entendia os motivos de Taraza. E as ordens da Madre Superiora assumiam novo significado, assim

como as palavras do próprio Manifesto.

“Assim como o universo é criado pela participação da consciência, o ser humano presciente carrega essa faculdade criativa até seu extremo absoluto. Esse foi o poder profundamente mal-entendido do bastardo Atreides. O poder que ele transmitiu a seu filho, o Tirano.”

Odrade conhecia tais palavras com a intimidade do autor, mas agora elas voltavam em sua memória como se nunca as tivesse encontrado antes.

“Maldita seja, Tar!'; pensou Odrade. “E se você estiver errada?”

No nível do quantum nosso universo pode ser visualizado como um lugar indeterminado, estatisticamente previsível somente quando se empregam números suficientemente elevados. Entre este universo e um outro, relativamente previsível, onde a passagem de um único planeta pode ser cronometrada em picossegundos, outras forças entram em ação. E no universo intermediário, onde se passam nossas vidas diárias, aquilo em que você acredita torna-se a força dominante. Suas crenças dirigem o desdobramento dos eventos diários. Se um número suficiente de pessoas acredita em alguma coisa, essa coisa passa a existir. A estrutura da crença cria um filtro através do qual o caos se transforma em ordem.

— Análise do Tirano. O Arquivo de Taraza: Arquivos BG

Os pensamentos de Teg encontravam-se em agitação quando ele retornou a Gammu, vindo da nave da Corporação. Saltou da naveta na extremidade carbonizada do campo de pouso particular do Castelo e olhou à sua volta como se estivesse chegando àquele lugar pela primeira vez. Era quase meio-dia. Tão pouco tempo se passara e quanta coisa tinha mudado.

Até que ponto a Bene Gesserit iria ao transmitir sua lição essencial?, ele se perguntou. Taraza o arrancara de seus processos Mentat familiares. Sentia que todo o incidente a bordo da nave da Corporação fora encenado para seu beneficio. Ele tinha sido sacudido para fora de um curso previsível. Como Gammu lhe pareceu estranho enquanto ele atravessava a pista guardada em direção aos fossos de entrada.

Teg tinha estado em muitos planetas, aprendido seus costumes e a maneira como eles influenciavam seus habitantes. Alguns planetas possuíam um grande sol amarelo, que se mantinha próximo e conservava quentes todas as coisas vivas, evoluindo e crescendo. Já outros planetas tinha sóis pequenos, mortiços, que pareciam muito distantes num céu escurecido e cuja luz realizava muito pouco. É claro que existiam variações dentro e fora dessa faixa. Gammu era uma variante com sol

amarelo-esverdeado, dia de 31:27 horas-padrão e Ano-Padrão de 2,6. Teg pensara já conhecer Gammu.

Quando os Harkonnen foram forçados a abandoná-lo, colonizadores deixados pela Dispersão vieram do grupo Daniano e deram ao planeta o nome de Halleck, o qual fora conservado no grande remapeamento. Os colonizadores eram conhecidos naqueles dias como Caladanianos, mas os milênios tendem a encurtar certos rótulos.

Teg parou na entrada dos revestimentos que conduziam dos subterrâneos do campo até embaixo do Castelo. Taraza e seu grupo ficaram atrás dele. Ele viu que Taraza estava falando com Odrade.

“O Manifesto Atreides”, pensou.

Mesmo em Gammu, poucos admitiam ter ancestrais Atreides ou Harkonnen, embora os genótipos fossem visíveis — especialmente o Atreides dominante: narizes longos e pontudos, testas elevadas, bocas sensuais. Freqüentemente os elementos se encontravam dispersos — a boca em um rosto, os olhos penetrantes em outro, além das incontáveis misturas. Algumas vezes, entretanto, uma pessoa trazia todos os elementos, e então se podia perceber o orgulho, a certeza interior:

“Eu sou um deles!”

Os nativos de Gammu reconheciam isso e abriam caminho para a pessoa, mas poucos chegavam a rotular essa característica.

Por baixo estava aquilo que os Harkonnen tinham deixado para trás linhas de parentesco que recuavam até os tempos ancestrais dos gregos, patames e mamelucos, sombras de uma história antiga da qual poucos, fora do círculo dos historiadores profissionais e daqueles treinados pela Bene Gesserit, poderiam até mesmo citar os nomes.

Taraza e seu grupo alcançaram Teg. Ele a ouviu dizer para Odrade:

— Você deve contar tudo a Miles.

Muito bem, ela lhe iria contar, pensou. Virou-se e liderou a caminhada, passando pela guarda interna e o longo corredor sob as casamatas que levava ao Castelo propriamente dito.

“Maldita Bene Gesserit!”, pensou. “Que estiveram realmente fazendo aqui em Gammu?”

Podia ver um bocado de sinais da Bene Gesserit nesse planeta, resultados do estímulo a uma reprodução humana controlada para fixar certas características desejáveis, evidentes, aqui e ali, nos olhos sedutores das mulheres.

Teg respondeu à saudação da capitã da guarda sem mudar de foco sua atenção.

“Olhos sedutores, sim, isso mesmo.” Tinha notado isso desde sua chegada ao Castelo do ghola e especialmente durante sua primeira viagem de inspeção pelo planeta. Tinha visto a si mesmo em muitos rostos também, e se lembrara de uma coisa que Patrin havia mencionado muitas vezes.

— Você tem o olhar de Gammu, Bashar.

Olhos sedutores! Aquela capitã da guarda, lá atrás, os tinha também. Ela e

Odrade e Lucilla eram semelhantes nesse pormenor. Poucas pessoas prestavam atenção à importância dos olhos em matéria de sedução, pensou. Fora preciso o controle genético da Bene Gesserit para chamar a atenção para esse aspecto. Seios grandes em uma mulher e quadris fortes em um homem (aquela aparência musculosa nas nádegas) eram elementos naturalmente importantes em relações sexuais. Mas sem os olhos o resto nada poderia fazer. Os olhos eram essenciais. A pessoa podia perder-se no tipo certo de olhar, tinha aprendido, sendo atraído por ele e ficando totalmente inconsciente do que lhe estava sendo feito até que o pênis estivesse firmemente encaixado na vagina.

Ele notara os olhos de Lucilla imediatamente após sua chegada a Gammu, e passara a ter cuidado. Não havia dúvidas quanto ao modo pelo qual a Irmandade usava os talentos dela!

E lá estava Lucilla, esperando por eles na câmara central de inspeção e descontaminação. Ela lhe deu o sinal com a mão de que tudo estava bem com o ghola.

Teg relaxou e observou enquanto Lucilla e Odrade se confrontavam. As duas mulheres tinham feições extraordinariamente similares, a despeito da diferença de idade. Seus corpos eram diferentes, no entanto, Lucilla mais robusta em relação à forma delgada de Odrade.

A capitã da guarda de olhar sedutor chegou por trás de Teg e se curvou junto dele.