Os Hereges de Duna

Frank Herbert · Capítulo 3 de 8 · parte 3/3

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Os Hereges de Duna

— Schwangyu acaba de saber quem o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Como Lucilla não respondesse, Teg disse:

— Sim, ela teria feito isso.

Lucilla não negou. lembrava-se agora da incrível rapidez com que o Duncan se movera, das atordoantes mudanças de direção de seu ataque.

— Foram decisões de Batalha — Teg acrescentou, olhando para Lucilla.

Ela aceitou isso. Como de hábito, Teg tinha tomado a decisão certa. Ela sabia, entretanto, que teria que relatar isso a Taraza. As acelerações prana-bindu do ghola iam além de qualquer coisa que se pudesse esperar. Seu corpo enrijeceu-se quando Teg se virou, completamente alerta, seu olhar no portal atrás dela. Lucila olhou para trás.

Schwangyu estava lá, com Patrin atrás dela segurando outro laser pesado. O

cano, percebeu Lucilla, estava apontado para Schwangyu.

— Ela insistiu — disse Patrin.

Havia uma expressão furiosa no rosto do velho ajudante. As linhas profundas ao lado de sua boca apontavam para baixo.

— Há um rastro de corpos indo até a casamata do sul — disse Schwangyu. —

Sua gente não permite que eu vá até lá inspecionar. Eu lhe ordeno que retire essas ordens imediatamente.

— Não até que minhas equipes de limpeza tenham terminado — disse Teg.

— Eles estão matando gente lá fora! Eu posso ouvir!

Um tom de raiva tinha surgido na voz de Schwangyu. Ela olhou furiosa para Lucilla.

— Também estamos interrogando gente lá fora — acrescentou Teg.

Schwangyu voltou seu olhar de fúria para Teg.

— Se aqui é muito perigoso, então vamos levar a... criança para os meus alojamentos. Agora!

— Não vamos fazer isso — replicou Teg.

Seu tom de voz era baixo, mas afirmativo.

Schwangyu enrijeceu-se contrariada, e os nós dos dedos de Patrin ficaram brancos em torno do cabo da arma laser. O olhar de Schwangyu passou pela arma, encontrando o olhar avaliador de Lucilla. As duas mulheres olharam nos olhos uma da outra.

Teg aproveitou o momento e disse:

— Lucilla, leve o Duncan para a minha sala de estar.

Indicou uma porta atrás.

Lucilla obedeceu, mantendo seu corpo entre Duncan e Schwangyu o tempo todo.

Uma vez atrás da porta fechada, Duncan disse:

— Ela quase me chamou de ghola. Está mesmo perturbada.

— Schwangyu deixou muitas coisas escaparem à sua guarda — disse Lucilla.

Ela olhou a sala de estar de Teg, a primeira visão que tinha dessa parte dos alojamentos dele. A intimidade do Bashar lembrou-lhe de seus próprios alojamentos

— a mesma mistura de ordem e desordem. Rolos de leitura aglomeravam-se sobre uma mesinha ao lado de uma cadeira antiga com um estofado cinza-claro. O leitor de rolos fora colocado para o lado, como se o usuário tivesse saído por um momento pretendendo voltar num instante. Uma jaqueta negra do uniforme de Bashar fora deixada sobre o recosto de uma cadeira próxima, com material de costura numa caixa aberta ao lado. O punho da jaqueta mostrava um buraco cuidadosamente costurado.

“Ele cuida de suas roupas pessoalmente.”

Essa era uma faceta do famoso Miles Teg que ela não tinha esperado. Se tivesse pensado a respeito, teria julgado que Patrin cuidaria dessas tarefas.

— Schwangyu deixou os atacantes entrarem, não foi? — perguntou Duncan.

— O pessoal dela deixou — respondeu Lucilla sem esconder a irritação. —

Ela foi longe demais. Um pacto com os Tleilaxu!

— Patrin vai matá-la?

— Não sei nem me importo!

Do lado de fora da porta, Schwangyu falava com raiva, sua voz alta e muito clara:

— Vamos ficar esperando aqui, Bashar?

— Você pode sair a hora que quiser.

— Mas não posso entrar no túnel sul!

Schwangyu parecia petulante. Lucila sabia que isso era alguma coisa que a velha estava fazendo deliberadamente. Que estaria ela planejando? Teg devia ser muito cauteloso agora. Tinha sido muito hábil lá fora, revelando a Lucilla as falhas no controle de Schwangyu, mas eles ainda não tinham dominado todos os recursos desta última. Lucilla se perguntou se não devia deixar o Duncan e voltar para junto de Teg.

Ele disse:

— Você pode ir agora, mas eu a aviso para que não volte aos seus alojamentos.

— E por que não?

Schwangyu parecia surpresa, realmente surpresa, e não escondia isso muito bem.

— Só um momento — disse Teg.

Lucilla tornou-se consciente de gritos distantes. A pancada pesada de uma explosão soou em algum lugar próximo, seguida por outra mais distante. A poeira levantou-se da cornija acima da porta da sala de estar de Teg.

— Que foi isso?

Era Schwangyu novamente, sua voz excessivamente alta.

Lucilla postou-se entre Duncan e a parede que os separava do corredor.

Duncan olhou para a porta, o corpo posicionado para a defesa.

— Aquela primeira explosão é a que eu esperava que eles provocassem —

disse a voz de Teg. — A segunda, creio, é a que eles não esperavam.

Um apito soou próximo, suficientemente alto para cobrir alguma coisa que Schwangyu disse.

— Foi isso, Bashar — confirmou Patrin.

— Que está acontecendo? — quis saber Schwangyu.

— A primeira explosão, cara Reverenda Madre, foram os seus alojamentos sendo destruídos por nossos atacantes. A segunda explosão éramos nós destruindo os atacantes.

— Acabo de receber o sinal, Bashar — disse a voz de Patrin. — Pegamos todos eles. Eles desceram de flutuador de uma não-nave, exatamente como esperava que fizessem.

— E quanto à nave?

A voz de Teg transmitia uma exigência cheia de fúria.

— Destruída no instante em que saiu da dobra espacial. Sem sobreviventes.

— Seus tolos! — gritou Schwangyu. — Sabem o que fizeram?

— Eu cumpri minhas ordens de proteger o rapaz de qualquer ataque. — disse Teg. — A propósito, você não devia estar nos seus alojamentos a esta hora?

— O quê?

— Eles estavam atrás de você quando explodiram seu quarto. Os Tleilaxu são muito perigosos, Reverenda Madre.

— Eu não acredito em você!

— Sugiro que dê uma olhada. Patrin, deixe-a passar.

Enquanto ouvia, Lucila percebia a discussão implícita. O Bashar Mentat recebera um voto de confiança maior do que a Reverenda Madre, e Schwangyu sabia disso. Ela devia estar desesperada. Fora um movimento muito hábil afirmar que os alojamentos dela tinham sido destruídos. Mas ela podia não acreditar. À frente de tudo mais na consciência de Schwangyu devia estar agora a compreensão de que Teg e Lucilla reconheciam a cumplicidade dela no ataque. E não havia modo de avaliar quantos já saberiam disso. Patrin, é claro, sabia.

Duncan olhava para a porta fechada, a cabeça inclinada para um dos lados.

Havia uma expressão curiosa em seu rosto, como se ele pudesse enxergar realmente através da porta, vigiando as pessoas lá fora.

Schwangyu disse, com o controle mais cuidadoso de sua voz.

— Não acredito que meus alojamentos tenham sido destruídos.

Ela sabia que Lucilla devia estar ouvindo.

— Só há um meio de se certificar — disse Teg.

“Muito esperto!”, pensou Lucilla Schwangyu não poderia tomar uma decisão até que tivesse certeza de que os Tleilaxu tinham agido traiçoeiramente.

— Vocês vão me esperar aqui, então! Isso é uma ordem!

Lucilla ouviu suas palavras, seguidas do ruído dos mantos da mulher em movimento. A Reverenda Madre saiu.

“Controle emocional muito ruim”, pensou Lucilla. O que isso revelava a respeito de Teg era igualmente perturbador. “Ele fez isso com ela!” Teg tinha feito uma Reverenda Madre perder o equilíbrio.

A porta em frente de Duncan se abriu. Teg apareceu com uma das mãos na maçaneta.

— Rápido! — ele disse. — Devemos estar longe do Castelo antes que ela volte.

— Longe do Castelo?

Lucilla não escondeu o choque.

— Rápido, faça o que eu digo! Patrin tem uma rota de fuga preparada para nós.

— Mas eu devo...

— Você não deve fazer nada! Venha como está. Siga-me ou serei obrigado a forçá-la.

— Você pensa realmente que pode forçar...

Lucilla não completou a frase. Era um novo Teg que estava diante de si, e ela percebia que ele não teria feito semelhante ameaça se não tivesse condições de cumpri-la.

— Muito bem.

Ela obedeceu. Pegou Duncan pela mão e seguiu Teg para fora de seus alojamentos.

Patrin estava no corredor, olhando para a direita.

— Ela se foi — disse o velho. Olhou para Teg. — Sabe o que fazer, Bashar?

— Pat!

Lucilla nunca tinha ouvido Teg chamar seu ajudante pelo diminutivo.

Patrin sorriu, revelando dentes brancos e perfeitos.

— Desculpe Bashar, mas toda essa excitação, sabe como é. Deixo por sua conta, então. Tenho que fazer a minha parte.

Teg fez sinal para que Lucilla e Duncan seguissem pelo corredor à direita. Ela obedeceu e ouviu Teg seguindo-a logo atrás. A mão de Duncan parecia escorregadia de suor em sua mão. Ele se soltou dela e caminhou livremente ao seu lado, sem olhar para trás.

A queda sustentada por suspensores, no final do corredor, estava guarnecida

por dois guardas de confiança de Teg. Ele fez sinal para eles:

— Ninguém deve seguir-nos.

Os dois responderam ao mesmo tempo

— Certo, Bashar.

Ao entrar na queda junto com Teg e Duncan, Lucilla percebeu ter tomado partido numa disputa que ela mesma não entendia totalmente. Podia sentir os movimentos ditados pela política da Irmandade como se fosse uma corrente de água fluindo em torno dela. Em geral o movimento permanecia como uma onda suave, lavando a areia da praia, mas agora ela sentia uma vaga imensa, destruidora, preparando-se para afogá-la em espuma.

Quando eles saíram para a câmara de interconexão da casamata do sul, Duncan disse:

— Nós devíamos estar todos armados.

— Logo estaremos — disse Teg. — E espero que você esteja preparado para matar qualquer um que tente nos deter.

O fato mais significativo é este: nenhuma fêmea Bene Tleilax jamais foi vista longe da proteção de seu núcleo planetário. (Os Dançarinos Faciais que assumem a identidade de mulheres não contam para esta análise. Eles são híbridos estéreis, não podendo ser contados como reprodutores.) Os Tleilaxu conservam suas mulheres segregadas para mantê-las fora do nosso alcance.

Essa é nossa dedução primária. Deve ser nos óvulos que os Mestres Tleilaxu escondem seus segredos mais preciosos.

— Análise da Bene Gesserit, Arquivos XOXTM99...041

— Então nos encontramos, afinal — disse Taraza.

Olhava através dos dois metros de espaço que separavam sua cadeira da de Tylwyth Waff. Suas analistas tinham garantido que esse homem era o Mestre de todos os Mestres Tleilaxu. Que uma figura tão frágil pudesse ter tanto poder era difícil de acreditar. Mas os estereótipos gerados pela aparência deviam ser abandonados, lembrou ela a si mesma.

— Há quem não acredite que isto fosse possível — disse ele.

A voz dele era fraca, meio cantada, notou Taraza. Mais uma coisa para ser avaliada por padrões diferentes.

Ambos encontravam-se na neutralidade de uma não-nave da Corporação, com naves monitoras da Bene Gesserit e dos Tleilaxu agarradas ao casco do imenso vaso espacial como pássaros predadores pousados sobre uma carcaça. (A Corporação mostrara-se superansiosa em aplacar a Bene Gesserit. “Vocês vão pagar”, sabia a Corporação. E eles já tinham pago outras vezes.) O pequeno aposento oval no qual o

encontro era realizado fora convencionalmente revestido de cobre e se tornara “à prova de espionagem”. Taraza não acreditava nisso nem por um instante. Também presumia que os laços de união entre a Corporação e os Tleilaxu, laços forjados com melange, ainda permaneciam plenamente atados.

Waff não se iludia com Taraza. Essa mulher era muito mais perigosa do que qualquer Honrada Madre. E se matasse Taraza ela seria imediatamente substituída por outra tão perigosa quanto ela. Alguém que possuiria todas as informações atualmente na posse dessa Madre Superiora.

— Achamos seus novos Dançarinos Faciais muito interessantes — disse Taraza.

Waff fez uma careta involuntária. Sim, muito mais perigosas que as Honradas Madres, que ainda nem culpavam os Tleilaxu pela perda de toda uma não-nave.

Taraza olhou para o pequeno relógio digital de face dupla colocado sobre a mesa baixa à sua direita, de onde o relógio podia ser visto pelos dois. O mostrador voltado para Waff fora sincronizado com o relógio interno dele. Ela notou que as duas leituras de relógio biológico encontravam-se a 10 segundos de sincronia com o meio-dia arbitrário. Era uma das sofisticações desse confronto, onde até a posição e o espaço entre as duas cadeiras tinham sido especificados no acordo.

Waff e ela estavam sozinhos na sala. O espaço oval ao redor tinha seis metros no eixo maior e metade dessa distância de largura. Ambos ocupavam cadeiras-fundas de madeira coberta por um tecido laranja, sem qualquer parte de metal ou de material estranho. O único móvel no aposento era a mesinha com o relógio, uma superfície de plaz negro sobre três pés de madeira tipo palito. Cada um dos participantes do encontro fora examinado com detectores. Cada um tinha três guardas pessoais montando guarda fora da única entrada. Taraza não acreditava que os Tleilaxu fossem tentar uma troca com Dançarinos Faciais, não nas atuais circunstâncias!

“Vocês vão pagar”

Os Tleilaxu também estavam conscientes de sua vulnerabilidade, especialmente agora que tinham o conhecimento de que as Reverendas Madres podiam expor os novos Dançarinos Faciais.

Waff pigarreou.

— Eu não espero que cheguemos a um acordo.

— Então por que veio?

— Busco uma explicação para essa mensagem curiosa que recebemos de seu Castelo em Rakis. Pelo que devemos pagar?

— Eu lhe peço, Sr. Waff, que abandone os fingimentos e dissimulações tolas nesta sala. Existem fatos que ambos conhecemos e que não podemos evitar.

— Tais como?

— Nenhuma fêmea Bene Tleilax jamais nos foi fornecida para procriação.

E ela pensou: “Deixe-o suar com isso!” Era terrivelmente frustrante não dispor de uma linha de Outras Memórias Tleilaxu para ser investigada pela Bene

Gesserit, e Waff devia saber disso.

Waff olhou, carrancudo.

— Certamente não pensa que pode barganhar com uma linha de... — Ele se interrompeu, sacudindo a cabeça. — Não posso crer que esse seja o pagamento que estão pedindo.

Como Taraza não respondesse, ele acrescentou:

— Aquele estúpido ataque ao templo Rakiano foi realizado independentemente, por pessoas que se encontravam no local. Elas já foram punidas.

“Movimento esperado numero três”, pensou Taraza.

Ela participara de numerosas sessões de instruções-análise antes desse encontro, se é que se poderia chamá-las de sessões de instrução. Havia análises em excesso. Muito pouco se sabia a respeito desse Mestre Tleilaxu, esse Tylwyth Waff.

Algumas projeções opcionais extremamente importantes tinham sido obtidas por inferência (mas ainda era preciso provar que eram verdadeiras). O problema é que alguns dos dados mais interessantes vinham de fontes não muito confiáveis. Mas num fato se podia confiar: essa figura de duende sentada diante dela era uma criatura mortalmente perigosa.

O movimento número três de Waff chamou sua atenção. Era hora de responder. Taraza deu um sorriso:

— Esse era precisamente o tipo de mentira que esperávamos de vocês — ela disse. — Vamos começar com os insultos? — perguntou ele calmamente.

— Vocês estabeleceram o padrão. Mas me permita adverti-lo de que não vai nos tratar da maneira como tratou aquelas prostitutas da Dispersão.

A expressão de Waff gelou, convidando Taraza a um movimento ousado. As deduções da Irmandade, baseadas parcialmente no desaparecimento de uma nave de conferência Ixiana, eram precisas! Mantendo o mesmo sorriso, ela seguiu uma linha de conjectura opcional como se fosse um fato conhecido.

— Eu acho — ela disse — que as prostitutas gostariam de saber que existem Dançarmos Faciais no meio delas.

Waff dominou sua raiva. “Essas malditas bruxas! Elas sabem, de algum modo elas sabem!” Seus conselheiros tinham manifestado dúvidas quanto a esse encontro. E

uma minoria substancial fora contra ele. As bruxas eram tão.. diabólicas. E suas retaliações!

“Hora de mudar a atenção para Gammu”, pensou Taraza. “Deixá-lo desequilibrado”. Ela disse:

— Mesmo quando vocês subvertem uma de nós, como fizeram com Schwangyu em Gammu, não aprendem coisa alguma que seja de valor!”

Waff deixou transparecer a irritação:

— Ela pensou em... contratar-nos como se fôssemos um bando de assassinos!

Nós lhe ensinamos uma lição!

“Ah, seu orgulho começa a aparecer”, pensou Taraza. “Interessante. As implicações de uma estrutura moral atrás de tal orgulho devem ser exploradas.”

— Vocês nunca penetraram realmente em nossas fileiras — comentou Taraza.

— E vocês nunca penetraram entre os Tleilaxu!

Waff conseguiu passar essa ostentação com extraordinária calma. “Ele precisa de tempo para pensar! Para planejar!”

— Talvez queiram saber o preço do nosso silêncio — sugeriu Taraza. Ela tomou a expressão imutável de Waff por um sinal de concordância e acrescentou: —

Uma coisa: vocês vão compartilhar conosco tudo que aprenderam sobre aquelas prostitutas criadas pela Dispersão, aquelas que se chamam de Honradas Madres.

Waff estremeceu. Muita coisa fora confirmada através do assassinato das Honradas Madres. As sutilezas sexuais! Somente a psique mais forte poderia resistir ao envolvimento em tamanhos êxtases. O potencial de tal ferramenta era enorme! Devia ser compartilhado com essas bruxas?

— Tudo que aprendeu a partir delas — insistiu Taraza.

— Por que as chama de prostitutas?

— Elas tentam imitar-nos e no entanto se vendem em troca de poder, criando uma farsa a partir de tudo o que representamos. Honradas Madres!

— Elas superam vocês em número, pelo menos na proporção de 10 mil a um!

Vimos a evidência.

— Uma de nós poderia derrotar todas elas — disse Taraza.

Waff ficou em silêncio, observando-a. Seria isso mera ostentação? Nunca se podia ter certeza no que dizia respeito às bruxas Bene Gesserit. Elas faziam coisas. O

lado sombrio do universo mágico pertencia-lhes. Em mais de uma ocasião, as bruxas tinham derrotado o Shariat. Seria a vontade de Deus que os verdadeiros crentes passassem por outra provação?

Taraza deixou o silêncio continuar construindo suas próprias tensões. Sentia o redemoinho na mente de Waff. Isso lembrava-lhe a conferência preliminar na Irmandade que a preparara para esse encontro. Bellonda tinha feito uma pergunta aparentemente simples:

— Que é que realmente sabemos a respeito dos Tleilaxu?

Taraza sentira a resposta inundar cada mente em torno da mesa de conferência no planeta da Irmandade: “Só podemos saber com certeza o que eles querem que saibamos.”

Nenhuma de suas analistas podia evitar a suspeita de que os Tleilaxu tinham criado deliberadamente uma imagem falsa de si mesmos. A inteligência Tleilaxu tinha que ser avaliada diante do fato de que somente eles controlavam o segredo dos tanques axlotl. Seria um acidente fortuito, como alguns sugeriam? Então por que os outros tinham sido incapazes de duplicar esse feito em todos esses milênios?

“Gholas.”

Estariam os Tleilaxu usando o processo de criação de gholas para obter seu

próprio tipo de imortalidade? Ela podia ver indícios sugestivos nas ações de Waff...

nada definido, mas altamente suspeito.

Nas conferências na Irmandade, Bellonda retornara seguidamente às suas suspeitas básicas, martelando:

— Tudo isso... tudo isso que está em nossos arquivos, eu digo, pode não passar de lixo, comida de lorcos!

Essa menção tinha feito algumas das Reverendas Madres mais descontraídas, em torno da mesa, estremecerem.

“Lorcos!”

Essas criaturas lentamente rastejantes, produto do cruzamento de lesmas com porcos, forneciam carne para alguns dos pratos mais caros de todo o universo, mas as criaturas em si representavam tudo aquilo que a Irmandade achava mais repugnante a respeito dos Tleilaxu. Os lorcos tinham sido uma das primeiras ofertas comerciais dos Tleilaxu, produto cultivado em seus tanques e formado com o núcleo helicoidal de que todos os tipos de vida tomavam suas formas. O fato de os Bene Tleilaxu terem criado tais criaturas aumentava a aura de obscenidade desses seres cujas bocas múltiplas comiam incessantemente qualquer tipo de lixo, transformando-o rapidamente num excremento que não apenas cheirava a chiqueiro, mas também era gosmento.

— A melhor carne deste lado do céu — citara Bellonda, repetindo um anúncio da CHOAM.

— E vem de uma obscenidade — acrescentara Taraza.

“Obscenidade”

Taraza pensava nisso enquanto olhava para Waff. Por que motivo possível essa gente poderia ter criado em torno de si uma máscara de obscenidade? A explosão de orgulho de Waff não se encaixava muito bem em tal imagem.

Waff tossiu na mão. Sentia a pressão dos invólucros onde escondera seus dois potentes lança-dardos. A minoria entre seus conselheiros tinha advertido:

— Como no caso das Honradas Madres, o vencedor desse encontro com a Bene Gesserit será aquele que sair carregando a informação mais secreta a respeito do outro. E a morte do oponente é a garantia desse sucesso.

“Eu poderia mata-la, mas e aí?”

Havia mais três Reverendas Madres esperando do lado de fora daquela comporta. Sem dúvida Taraza tinha algum tipo de sinal preparado para o instante em que a comporta fosse aberta. Sem o sinal, a violência e o desastre seriam instantâneos.

Waff não acreditava nem por um instante que mesmo os seus novos Dançarinos Faciais pudessem dominar aquelas Reverendas Madres lá fora. As bruxas estariam totalmente alertas. Elas deviam ter reconhecido a natureza dos guardas de Waff.

— Nós vamos compartilhar — disse Waff.

A admissão implícita nisso o magoava, mas ele sabia não ter alternativa. A afirmação de Taraza quanto a habilidades relativas podia ser imprecisa, devido ao que afirmava, mas ele sentia a verdade ali, não obstante o exagero. Não tinha ilusões

quanto ao que aconteceria se as Honradas Madres descobrissem o que realmente acontecera com suas enviadas. A perda da não-nave ainda não podia ser atribuída aos Tleilaxu. Naves desaparecem. Já o assassinato deliberado era outra coisa. As Honradas Madres certamente tentariam exterminar um adversário tão impetuoso, ainda que apenas como um exemplo para os outros. Tleilaxu retornados da Dispersão tinham falado em coisas assim. E, tendo visto as Honradas Madres, Waff agora acreditava nas histórias que se contavam.

Taraza disse:

— O segundo item em minha agenda para este encontro é o nosso ghola.

Waff remexeu-se na cadeira funda.

Taraza sentia-se repelida pelos olhos pequeninos de Waff, a face redonda com o nariz arrebitado e os dentes muito aguçados.

— Vocês têm matado nossos gholas para controlar os movimentos de um projeto no qual não desempenham papel algum que não o de fornecer um único elemento — acusou Taraza.

Waff uma vez mais se perguntou se não devia matá-la. Será que não se podia ocultar nada dessas malditas bruxas? A hipótese de a Bene Gesserit contar com a ajuda de um traidor dentro do núcleo Tleilaxu não podia ser ignorada. De que outro modo poderiam elas saber?

Ele disse:

— Eu lhe asseguro, Reverenda Madre Superiora, que o ghola..

— Não me assegure nada! Nós mesmas nos asseguramos. — Uma expressão de tristeza surgiu no rosto de Taraza e ela sacudiu a cabeça.

— E pensa que não sabemos que nos tem vendido produtos danificados?

Waff respondeu rapidamente:

— Ele corresponde a cada exigência imposta por seu contrato! Novamente Taraza sacudiu a cabeça de um lado para o outro. Este pequenino mestre Tleilaxu não tinha idéia do que estava lhe revelando ali.

— Vocês imprimiram seus próprios esquemas em sua psique — ela disse —

Eu lhe aviso, Sr. Waff, que se suas alterações impedirem nossos objetivos nós vamos feri-los mais profundamente do que julgam possível

Waff passou a mão pelo rosto, sentindo a transpiração em sua testa. Malditas bruxas! Mas elas não conheciam tudo. Os Tleilaxu tornados da Dispersão e as Honradas Madres que ela odiava tão amargamente tinham fornecido aos Tleilaxu uma arma sexualmente carregada que não seria partilhada, não importavam as promessas feitas ali!

Taraza avaliou as reações de Waff em silêncio e decidiu partir para uma mentira ousada:

— Quando capturamos sua nave de conferências Ixiana, alguns de seus novos Dançarmos Faciais não morreram suficientemente rápido. Nós aprendemos um bocado.

Waff postou-se à beira da violência.

“Acertei no alvo”, pensou Taraza. A mentira corajosa tinha aberto um caminho de revelações a uma das sugestões mais preocupantes feitas por suas assessoras. Fora considerada uma idéia extravagante, mas não parecia mais assim.

— A ambição dos Tleilaxu é produzir uma completa mímica prana-bindu —

afirmara sua assessora.

— Completa?

Todas as irmãs presentes à mesa de conferências tinham ficado abismadas com a idéia. Ela implicava uma forma de cópia de memória que ia muito além da impressão mental a respeito da qual já sabiam.

A assessora, a Irmã Hesterion dos Arquivos, viera armada com uma lista muito bem-organizada de material em apoio à sua tese.

— Nós já sabemos que aquilo que uma sonda Ixiana faz mecanicamente, os Tleilaxu fazem com carne e nervos. O passo seguinte é muito óbvio.

Vendo a reação de Waff ante sua mentira ousada, Taraza continuou a observá-lo cuidadosamente. Ele se encontrava na sua condição mais perigosa nesse momento.

Uma expressão de ira surgiu no rosto de Waff. As coisas que as bruxas sabiam eram por demais perigosas! Não duvidava nem um pouco da afirmação de Taraza.

“Devo matá-la, não importa o que me aconteça! Devemos matar todas elas.

Abominações! É uma expressão delas e as descreve perfeitamente”

Taraza interpretou corretamente a expressão dele e falou depressa:

— O senhor não corre qualquer perigo de nossa parte, desde que não prejudique nossos projetos. Sua religião, seu modo de vida, isso é problema de vocês.

Waff hesitou. Não tanto pelo que Taraza dissera, e sim pela lembrança dos poderes dela. Que mais saberiam elas? Mas continuar numa posição subserviente!

Depois de rejeitar semelhante aliança com as Honradas Madres. E com ascendência tão próxima depois de tantos milênios. O desânimo o dominou. A minoria entre seus conselheiros estivera certa, afinal: “Não pode existir laço de união entre nossos povos.

Qualquer acordo com as forças dos powindah é uma união baseada no mal.”

Taraza ainda sentia a violência potencial em seu interlocutor. Será que o teria pressionado demais? Colocou-se em prontidão defensiva. Uma contração involuntária dos braços dele a alertou. “Armas em suas mangas!” Os recursos dos Tleilaxu não deviam ser subestimados. Seus detectores não tinham acusado coisa alguma.

— Sabemos sobre as armas que carrega — ela disse. Era outra mentira ousada, sugerida pelo comportamento dele. — Se cometer esse erro agora, as prostitutas também vão saber como usou essas armas.

Waff respirou três vezes. Quando falou, já se colocara sob controle:

— Não vamos ser satélites da Bene Gesserit!

Taraza respondeu numa voz calma, tranqüilizadora:

— Por palavra ou por ação, jamais lhes sugeri tal coisa.

Ela esperou. Não houve mudança na expressão de Waff, nem o menor desvio

no olhar desfocado que ele lhe dirigia.

— Vocês nos ameaçam — murmurou ele. — Exigem que compartilhemos tudo que...

— Compartilhar! — retrucou ela. — Não se compartilha com parceiros desiguais.

— E que iriam vocês compartilhar conosco? — indagou ele.

Ela falou com o tom de voz que usaria para ralhar com uma criança: — Sr. Waff, pergunte a si mesmo por que, como membro governante de sua oligarquia, veio a este encontro?

Com a voz ainda firmemente controlada, Waff contra-atacou:

— E por que você, Madre Superiora da Bene Gesserit, veio até aqui?

Ela falou calmamente:

— Para nos fortalecer.

— Ainda não disse o que vai compartilhar — acusou ele. — Ainda espera obter vantagem.

Taraza continuou a observá-lo cuidadosamente. Raramente sentira tamanho ódio reprimido num ser humano.

— Diga-me abertamente o que quer.

— E vocês, com sua grande generosidade, darão?

— Negociaremos.

— Onde é que estava a negociação quando me ordenou... ME ORDENOU

que...

— Veio até aqui firmemente decidido a quebrar qualquer acordo que fizéssemos — ela disse. — Nem uma vez tentou negociar. Senta-se diante de alguém que quer negociar e só consegue...

— Negociar?

A memória de Waff trouxe-lhe a raiva da Honrada Madre ante essa palavra.

— Foi o que eu disse — insistiu Taraza. — Negociar.

Algo como um sorriso torceu os cantos da boca de Waff.

— Pensa que tenho autoridade para barganhar com vocês?

— Tenha cuidado, Sr. Waff — disse Taraza. — O senhor tem a autoridade final. Ela reside na derradeira habilidade de destruir completamente um oponente. Eu não ameacei tal coisa, mas o senhor o fez.

Ela olhou para as mangas dele.

Waff suspirou. Que dilema. Ela era uma powindah! Como se poderia negociar com uma powindah?

— Temos um problema que não pode ser resolvido por métodos racionais —

disse Taraza.

Waff escondeu sua surpresa. Aquelas eram as mesmas palavras que a Honrada Madre tinha usado! Ele estremeceu por dentro ante o que isso poderia significar.

Estariam as Bene Gesserit e as Honradas Madres unidas em uma causa comum? O ódio

de Taraza revelava o contrário, mas desde quando se podia confiar nas bruxas?

Uma vez mais, Waff se perguntou se deveria sacrificar-se para eliminar essa bruxa. Mas de que adiantaria? Outras delas certamente sabiam o mesmo que essa. Só iria precipitar o desastre. Havia uma luta interna entre as bruxas, mas isso, novamente, podia ser apenas outro ardil.

— O senhor nos pede que compartilhemos alguma coisa — continuou Taraza.

— Que tal se lhe oferecermos algumas de nossas preciosas linhagens genéticas?

Não havia dúvida agora, o interesse de Waff aumentava.

Ele disse:

— Por que lhes pediríamos tal coisa? Temos nossos tanques e podemos colher amostras genéticas em quase todo lugar.

— Por exemplo?

Waff suspirou. Não se podia escapar ao caráter incisivo das Bene Gesserit. Era como um golpe de espada. Supôs corretamente ter lhe revelado coisas que a levaram naturalmente ao assunto. O dano já fora feito. Ela deduzira corretamente (ou espiões lhe tinham contado) que o reservatório selvagem dos genes humanos tinha pouco interesse para os Tleilaxu, com seu conhecimento mais sofisticado da linguagem íntima da vida. Eles não podiam subestimar, entretanto, a Bene Gesserit ou os produtos do seu programa de procriação controlada. Deus sabia que elas tinham produzido o Muad'Dib e o Profeta!

— O que vocês pediriam em troca disso? — perguntou ele.

— Ah, estamos negociando, afinal! — exclamou Taraza. — Ambos sabemos, é claro, que estou lhe oferecendo madres procriadoras da linhagem Atreides.

E ela pensou: “Deixe-o acreditar nisso! Elas vão parecer Atreides, mas não o serão!”

Waff sentiu o pulso acelerar. Seria possível tal coisa? Será que ela teria a menor idéia do que os Tleilaxu poderiam aprender com o exame de semelhante fonte de material genético?

— Nós exigiríamos prioridade na seleção da prole — disse Taraza.

— Não!

— Uma prioridade alternada, então?

— Talvez.

— Que quer dizer com talvez?

Ela inclinou-se para a frente. As emoções de Waff diziam-lhe estar na pista certa. — Que mais pediriam de nós?

— Nossas madres procriadoras devem ter acesso irrestrito aos seus laboratórios genéticos.

— Está louca?

Waff sacudiu a cabeça, exasperado. Será que ela acreditava realmente que os Tleilaxu iriam entregar sua arma mais poderosa assim, desse modo?

— Então aceitamos um tanque axlotl totalmente operacional.

Waff ficou apenas olhando para ela.

Taraza encolheu os ombros.

— Eu tinha que tentar.

— Suponho que tivesse.

Taraza reclinou-se e reviu o que aprendera ali. A reação de Waff àquela sonda Zensunni fora interessante. “Um problema que não pode ser resolvido por meios racionais.” As palavras tinham produzido nele um efeito sutil. Ele tinha parecido erguer-se de algum lugar interior com uma aparência questionadora no olhar. “Deus nos preserva a todos! Seria Waff um Zensunni secreto?”

Não importavam os perigos, isso tinha que ser explorado. Odrade devia ser armada com toda a vantagem possível que pudesse usar em Rakis.

— Talvez já tenhamos feito tudo o que podíamos por ora — disse Taraza. —

Há tempo para completarmos nosso acordo. Somente Deus, em Sua infinita misericórdia, nos deu este universo infinito onde tudo pode acontecer.

Waff uniu as mãos sem pestanejar:

— A dádiva das surpresas é a maior de todas! — disse ele.

“Não apenas Zensunni.” pensou Taraza. “Sufi também. Sufi!” Começou a reajustar a visão que tinha dos Tleilaxu. “Há quanto tempo eles estarão guardando isso no peito?”

— O tempo em si não conta — disse ela, sondando. — Só precisamos olhar para os círculos.

— Os sóis são círculos — disse Waff. — Cada universo é um círculo.

Ele prendeu a respiração, esperando pela resposta.

— Os círculos são limitações — disse Taraza, colhendo a resposta adequada em suas Outras Memórias. — Tudo que fecha e limita deve expor-se ao infinito.

Waff ergueu as mãos para lhe mostrar as palmas e então deixou os braços caírem sobre o colo. Seus ombros tinham perdido um pouco da tensão.

— Por que não disse essas coisas logo no começo? — perguntou.

“Devo ter muito cuidado”, pensou Taraza. A confirmação nos modos e nas palavras de Waff exigia uma revisão cuidadosa.

— O que se passou entre nós nada revela, a menos que possamos falar abertamente — ela disse. — E mesmo então ainda estaríamos usando apenas palavras.

Waff estudou o rosto dela, tentando ler naquela máscara Bene Gesserit alguma confirmação das coisas que as palavras e as atitudes dela implicavam. Ela era uma powindah, lembrou a si mesmo. Nunca se deveria confiar nos powindah... mas se ela compartilhava da Grande Crença...

— Deus não enviou a Rakis Seu Profeta para testar nossa fé e nos ensinar? —

perguntou ele.

Taraza mergulhou profundamente em suas Outras Memórias. “Um Profeta em Rakis? Devia ser o Muad'Dib? Não.. isso não cruzava com as crenças dos Sufi ou dos

Zensunni em...

O Tirano! Ela comprimiu a boca numa linha.

— O que não se pode controlar, deve-se aceitar — disse ela.

— Pois certamente é um ato de Deus — completou Waff.

Taraza já tinha visto e ouvido o suficiente. A Missionaria Protectiva a tinha mergulhado em todas as religiões conhecidas. Ela sentia uma grande necessidade de escapar em segurança dessa sala. Odrade devia ser alertada!

— Posso fazer uma sugestão? — perguntou Taraza.

Waff assentiu polidamente.

— Talvez exista aqui a substância para um laço de união entre nós muito maior do que imaginamos — disse ela. — Ofereço-lhe a hospitalidade de nosso Castelo em Rakis e os serviços de nossa comandante naquele local.

— Uma Atreides? — perguntou ele.

— Não — mentiu Taraza. — Mas é claro que alertarei nossas Madres Procriadoras quanto as suas necessidades.

— E eu reunirei as coisas que exige em pagamento — ele disse. — Por que o acordo será finalizado em Rakis?

— Não é o lugar adequado? — perguntou ela. — Quem poderia faltar com a verdade no lar do Profeta?

Waff recostou-se na cadeira, os braços relaxados sobre o colo. Taraza certamente conhecia as respostas adequadas. Era uma revelação que jamais esperara.

Taraza levantou-se.

— Cada um de nós ouve a Deus pessoalmente — acrescentou ela. “E juntos estamos no kehl.” pensou ele. Olhou para ela, lembrando-se de que era uma powindah.

Não se podia confiar em nenhuma delas. “Cautela!” Essa mulher era, apesar de tudo, uma bruxa Bene Gesserit. Sabia-se que elas eram capazes de criar religiões para o seu próprio uso. “Powindah!”

Taraza foi até a comporta, abriu-a e fez o sinal de que tudo estava seguro.

Voltou-se novamente para Waff, que continuava sentado em sua cadeira. “Ele ainda não penetrou em nossos verdadeiros propósitos”, pensou. “Aquelas que lhe vamos enviar devem ser escolhidas com o maior cuidado. Ele nunca deve suspeitar de que é parte de nossa isca.

As feições de duende recompostas, Waff olhou para ela.

Como parecia inofensivo, pensou Taraza. Mas poderia ser capturado! Uma aliança entre a Irmandade e os Tleilaxu oferecia novas atrações. “Mas em nossos termos!”

— Até Rakis — ela disse.

Que tipo de fatores sociais se expandiram junto com a Dispersão? Conhecemos aqueles tempos intimamente Conhecemos ambos os cenários, o físico e o mental. Os Perdidos levaram consigo uma mentalidade confinada principalmente às questões de forca de trabalho e tecnologia. Havia uma necessidade desesperada de fronteiras para expansão, uma necessidade impulsionada pelo mito da Liberdade. A maioria não tinha aprendido a lição mais profunda do Tirano, de que a violência estabelece seus próprios limites. A Dispersão foi um movimento selvagem e ao acaso, interpretado como um crescimento (expansão). Algo estimulado pelo medo profundo (freqüentemente inconsciente) da estagnação e da morte.

— A Dispersão: Análise da Bene Gesserit (Arquivos) Odrade estava deitada de lado sobre a saliência formada pela sacada de uma janela curva, uma das faces tocando levemente o plaz morno através do qual podia ver a Grande Praça de Keen. Suas costas eram suportadas por almofadas vermelhas que cheiravam a melange, como a maioria das coisas em Rakis. Atrás delas havia três aposentos, pequenos mas adequados, bem afastados do Templo e do Castelo da Bene Gesserit. Esse afastamento fora conseqüência do acordo da Bene Gesserit com os sacerdotes.

— Sheeana deve ser guardada com mais segurança — insistira Odrade.

— Ela não pode ficar sob custódia apenas da Irmandade! — discordara Tuek.

— Nem dos sacerdotes — contra-atacara Odrade.

Seis andares abaixo do ponto de observação de Odrade, na janela curva, uma enorme feira se espalhava numa confusão pouco organizada, preenchendo quase todo o espaço da Grande Praça. A luz amarelo-prateada de um sol baixo no horizonte inundava a cena de brilho, destacando as cores brilhantes dos toldos das barracas e lançando longas sombras no calçamento irregular. Havia uma iluminação poeirenta nos pontos onde aglomerados de pessoas caminhavam em torno de guarda sóis remendados e do confuso alinhamento das mercadorias.

A Grande Praça não tinha forma quadrada. A partir da janela de Odrade, estendia-se por um quilômetro em torno da feira e tinha duas vezes essa distância para a esquerda e a direita — um gigantesco retângulo de pedras e terra compactada, empoeirado pelos fregueses que enfrentavam o calor do dia na esperança de obter uma pechincha.

À medida que a noite se aproximava, um sentimento diferente de atividade se desenvolvia lá embaixo — mais pessoas chegavam, acrescentando uma pulsação mais rápida, mais frenética, aos movimentos.

Odrade inclinou a cabeça para enxergar o solo logo abaixo, junto às paredes do prédio onde se encontrava. Alguns dos mercadores diretamente abaixo de sua janela tinham se afastado de seus pontos de venda. Iriam voltar logo, depois de uma refeição e uma breve sesta, prontos para aproveitar as horas mais lucrativas, quando

os compradores poderiam respirar um ar que não lhes queimasse as gargantas.

Sheeana estava atrasada, notou Odrade. Os sacerdotes não se atreveriam a retardá-la ainda mais. Deviam estar trabalhando freneticamente agora, disparando-lhe perguntas, advertindo-a para que se lembrasse de que era a própria emissária de Deus para a Sua Igreja, lembrando-lhe as muitas lealdades que Odrade teria que esmiuçar e tornar ridículas antes de colocar tais tolices em sua perspectiva adequada.

Odrade arqueou-se para trás e dedicou um minuto de seu tempo aos pequenos exercícios destinados a aliviar tensões. Admitia certa simpatia por Sheeana. Os pensamentos da garota deviam estar caóticos a essa altura. Sheeana sabia muito pouco ou nada do que deveria esperar quando se colocasse inteiramente sob a tutela de uma Reverenda Madre. Havia poucas dúvidas de que sua mente jovem não estivesse cheia de mitos e desinformação.

“Como a minha se encontrava”, pensou Odrade.

Não podia evitar tal lembrança num momento como esse. Seu dever imediato era claro: exorcismo, não apenas por Sheeana, mas por si mesma.

Pensou nos pensamentos de uma Reverenda Madre que assombrava suas memórias: “Odrade, idade cinco anos, casa confortável em Gammu. A estrada fora da casa apresenta uma sucessão de construções que passariam por mansões dos médios escalões nas cidades costeiras do planeta — prédios baixos, de um único andar, com amplas entradas. As casas curvam-se para baixo ao longo de um paredão à beira-mar onde elas são muito mais largas do que ao longo das fachadas. Somente no lado voltado para o mar é que elas se tornam extensas e menos ciumentas de cada centímetro quadrado.”

A memória de Odrade, aguçada pela Bene Gesserit, deslizou para a casa mais distante, seus ocupantes, a entrada, os companheiros de brincadeiras. Sentiu um aperto no peito a revelar que tais memórias se encontravam ligadas a eventos posteriores.

A creche da Bene Gesserit no mundo artificial de Al Dhanab, um dos planetas seguros da Irmandade original. (Mais tarde ela aprendeu que a Bene Gesserit considerara certa vez a possibilidade de tornar o planeta inteiro uma não-câmara. As exigências de energia tinham derrotado tal projeto.)

A creche era um mundo de variedades para uma criança que viera das amizades e dos confortos de Gammu. A educação da Bene Gesserit incluía intensos treinamentos físicos. Havia censuras freqüentes de que ela não poderia esperar tornar-se uma Reverenda Madre sem passar por muitas dores e por diversos períodos de exercícios musculares aparentemente inúteis.

Algumas de suas companheiras falharam nesse estágio. Tornaram-se enfermeiras, servas, operárias, até mesmo reprodutoras casuais. Preenchiam lacunas onde quer que a Irmandade julgasse necessário. Havia ocasiões em que Odrade sentia que um fracasso daqueles podia levar a uma vida melhor — com poucas responsabilidades e objetivos menos importantes. Mas isto fora antes de ela sair do