Os Hereges de Duna
— Schwangyu acaba de saber quem o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Autotreinamento.”
Num modo distante, ele sentiu a memória oferecer-lhe uma conversa que tivera muito tempo atrás com Taraza. Como lhe parecia familiar agora. Sentiu-se deslocado para aquele momento, capturado pela própria capacidade de memória.
Taraza e ele estavam muito cansados depois de tomarem as decisões e agirem para evitar um confronto sangrento — o incidente Barandiko. Nada senão um mero soluço na história, assim parecia agora, mas naquela ocasião tinha exigido todas as suas energias combinadas.
Taraza convidara-o para uma saleta em seus alojamentos na não-nave depois que se assinara o acordo. Ela falava de modo informal, admirando sua sagacidade, o modo como ele tinha percebido e explorado as fraquezas que forçariam o acordo.
Os dois estavam acordados e ativos havia quase 36 horas e Teg estava feliz pela oportunidade de se sentar com Taraza, enquanto ela discava, fazendo um pedido ao aparelho produtor de drinques e refeições. A coisa produziu dois copos grandes de um líquido marrom cremoso.
Teg reconheceu o cheiro quando ela lhe passou o copo. Era uma fonte de energia rápida que a Bene Gesserit raramente compartilhava com gente de fora. Mas Taraza não mais o considerava gente de fora.
Com a cabeça inclinada para trás, Teg tomou um longo gole da bebida, enquanto seu olhar se perdia no teto decorado do pequeno aposento. Essa não-nave era de um modelo antigo, construída na época em que se dedicava maior cuidado à decoração — cornijas cuidadosamente esculpidas, figuras barrocas talhadas em cada superfície.
O gosto da bebida lançou sua memória de volta à infância, a espessa infusão de melange.
— Minha mãe me preparava isso sempre que eu estava muito fatigado — disse ele, olhando para o copo na mão.
Já podia sentir o tranqüilizador fluxo de energia percorrendo o seu corpo.
Taraza levou seu drinque para uma cadeira-cão oposta a ele. A peça fofa de mobília animada, de cor branca, ajustou-se a ela com a facilidade de uma longa familiaridade. Para Teg ela providenciara uma poltrona tradicional, com estofado verde, mas percebeu o olhar dele voltar-se para a cadeira-cão e sorriu.
— Os gostos diferem, Miles. — Tomou um gole da bebida e suspirou. — Foi um trabalho árduo, mas foi um bom trabalho. Houve momentos em que me senti à beira de me tornar muito malcriada.
Teg sentiu-se tocado pela tranqüilidade dela. Não havia mais pose, nenhuma expressão para separá-los e definir seus papéis na hierarquia da Bene Gesserit. Ela estava sendo obviamente amistosa, sem qualquer indício de sedução. Isso era exatamente o que parecia ser — até onde se pudesse pensar tal coisa num encontro com uma Reverenda Madre.
Sentindo-se rapidamente descontraído, Teg percebeu que se tornara muito hábil em perceber as intenções de Alma Mavis Taraza, mesmo quando ela adotava uma de suas máscaras faciais.
— Sua mãe lhe ensinou muito mais do que lhe dissemos para ensinar —
comentou Taraza. — Uma mulher sábia, mas outra herege. É tudo o que parecemos criar hoje em dia.
— Herege?
Teg sentiu certo ressentimento.
— É uma piada que corre na Irmandade — explicou Taraza. — Nós devemos
seguir as ordens da Madre Superiora com devoção absoluta. E é o que fazemos, exceto quando discordamos dela.
Teg sorriu e tomou outro gole da bebida.
— É curioso — continuou Taraza —, mas quando estávamos envolvidos naquele confronto eu me vi reagindo a você como reagiria a uma de minhas Irmãs.
Teg sentiu a bebida aquecendo-lhe o estômago. Sentiu um formigar nas narinas. Colocou o copo vazio numa mesa ao lado da cadeira e disse enquanto olhava para ela:
— Minha filha mais velha. .
— Dimela. Devia tê-la deixado vir para a Irmandade, Miles.
— A decisão não foi minha.
— Mas uma palavra sua... — Taraza encolheu os ombros. — Bem, isso é passado. Que tem Dimela?
— Ela pensa que eu freqüentemente me pareço muito com uma de vocês.
— Se parece muito?
— Ela é muito leal a mim, Madre Superiora. Realmente não entende o nosso relacionamento e...
— Qual é o nosso relacionamento?
— Vocês ordenam e eu obedeço.
Taraza olhou para ele por cima da borda do copo. Quando colocou o copo sobre a mesinha. disse:
— Sim, você nunca foi verdadeiramente herético, Miles... Talvez um dia...
Ele falou rapidamente, tentando afastar o pensamento de Taraza de tais idéias:
— Dimela acha que o uso da melange faz muitas pessoas se parecerem com vocês.
— É mesmo? Não é curioso, Miles, que a poção geriátrica tenha tantos efeitos colaterais?
— Eu não acho isso estranho.
— Não, é claro que não acha. — Ela acabou de esvaziar o copo e o colocou de lado. — Eu estava me referindo ao modo como um significativo prolongamento da vida produz em algumas pessoas, especialmente em você, um profundo conhecimento da natureza humana.
— Nós vivemos mais tempo, observamos mais.
— Não creio que seja assim tão simples. Existem pessoas que nunca observam coisa alguma. Para elas, a vida apenas acontece. Elas sobrevivem com pouco mais que uma teimosa persistência, e resistem com raiva e ressentimento a qualquer coisa que possa erguê-los acima dessa falsa serenidade.
— Nunca fui capaz de desenvolver uma folha de equilíbrio aceitável para a especiaria — comentou Teg, referindo-se a um processo de organização de dados comum aos Mentat.
Taraza assentiu com a cabeça. Obviamente, ela encontrava a mesma
dificuldade.
— Nós da Irmandade tendemos a ser mais direcionadas num único caminho do que os Mentats — admitiu. — Temos procedimentos para nos sacudir para fora dessa rotina, mas a condição persiste.
— Nossos ancestrais tiveram esse problema por longo tempo.
— Era diferente antes da especiaria — ela disse.
— Mas eles viviam vidas muito curtas.
— Cinqüenta, 100 anos, isso não parece muito para nós, mas ainda assim...
— Eles comprimiam mais experiências em seu tempo disponível?
— Ah, a época deles era frenética.
Ela estava lhe fornecendo observações de suas Outras Memórias, percebeu ele.
Não era a primeira vez que compartilhava desse conhecimento antigo. Sua mãe tinha produzido tais memórias em certas ocasiões, mas sempre para servir a alguma lição.
Estaria Taraza fazendo a mesma coisa agora? Ensinando-lhe algo?
— A melange é um monstro de muitas mãos — comentou ela.
— Algumas vezes deseja que nós nunca a tivéssemos encontrado? — A Bene Gesserit não existiria sem ela.
— Nem a Corporação.
— Mas não teria havido Tirano nem Muad'Dib. A especiaria dá com uma das mãos e tira com todas as outras.
— Que mão contém aquilo que desejamos? — perguntou ele — Não é sempre essa a pergunta?
— Você é uma singularidade, sabia, Miles? É muito raro Mentats mergulharem na filosofia. Acho que isso é uma de suas forças. Você tem uma capacidade suprema para duvidar.
Ele encolheu os ombros. Esse tipo de assunto o perturbava.
— Você não achou graça — ela disse. — Mas é bom agarrar-se às suas dúvidas, de qualquer modo. A dúvida é necessária ao filósofo.
— Assim dizem os Zensunni.
— Todos os místicos concordam com isso, Miles. Nunca subestime o poder da dúvida. É muito persuasivo. O s'tori guarda a dúvida e a certeza em uma só mão.
Muito surpreso ele perguntou:
— As Reverendas Madres praticam rituais Zensunni?
Jamais esperara tal coisa.
— Só uma vez — respondeu ela. — Nós atingimos uma forma exaltada de s'tori, uma forma total que envolve cada célula do nosso corpo.
— A agonia da especiaria — ele disse.
— Tenho certeza de que sua mãe lhe contou. Obviamente, ela nunca explicou a afinidade com o Zensunni.
Teg engoliu em seco, sentindo uma constrição na garganta. Fascinante! Isso lhe fornecia uma nova compreensão da Bene Gesserit, mudando todo o seu conceito,
inclusive a imagem de sua mãe. Elas estavam apartadas dele, colocadas numa posição que jamais poderia alcançar. Podiam tratá-lo como camarada em determinadas ocasiões, mas ele seria incapaz de penetrar no seu círculo mais íntimo. Podia simular, não mais que isso. Nunca seria como o Muad'Dib ou o Tirano.
— Presciência — comentou Taraza.
A palavra desviou-lhe a atenção. Ela mudara o assunto sem realmente mudá-lo.
— Eu estava pensando no Muad'Dib — disse ele.
— Você pensa que ele previa o futuro?
— Esse é o ensinamento Mentat.
— Percebo a dúvida em sua voz, Miles. Será que ele previa ou será que ele criava? A presciência pode ser uma coisa mortal. As pessoas que exigem que o oráculo lhe faça previsões querem saber o preço da pele de baleia no próximo ano ou alguma outra coisa igualmente mundana. Nenhuma quer uma previsão, instante por instante, de sua vida.
— Não haveria surpresas — comentou Teg.
— Exatamente. Se você possuísse tal conhecimento do amanhã, sua vida se tornaria insuportavelmente tediosa.
— Acha que a vida do Muad'Dib era tediosa?
— E a do Tirano também. Acreditamos que as vidas deles foram inteiramente dedicadas à tentativa de quebrar as correntes nas quais eles mesmos se haviam prendido.
— Mas eles acreditavam...
— Lembre-se de suas dúvidas filosóficas, Miles. Cuidado! A mente do crente torna-se estagnada. Ela deixa de crescer para fora, em direção a um universo infinito e ilimitado.
Teg sentou-se em silêncio por um momento. Sentia a fadiga que fora impulsionada para além de sua consciência imediata pelo efeito da bebida, sentia o modo como os seus pensamentos eram agitados pela introdução de novos conceitos.
Essas eram coisas que, tinham lhe ensinado, enfraqueceriam um Mentat, e no entanto se sentia fortalecido por elas.
“Ela está me ensinando”, pensou. “Existe uma lição nisto”
Como se fosse projetado em sua mente, delineando-se em fogo, ele encontrou toda a sua atenção de Mentat fixada na advertência Zensunni ensinada a cada aluno principiante na escola de Mentats:
Por sua crença em singularidades granulares, você nega todo o movimento —
seja ele evolutivo ou involutivo. A crença fixa um universo granular e faz com que esse universo passe a existir. Não se pode permitir a mudança porque esta faria seu universo imóvel desaparecer. Não obstante ele se move por si mesmo quando você fica parado. Ele evolui à sua volta e se torna inacessível.
— A coisa mais curiosa — disse Taraza, ajustando-se ao estado de espírito que
ela mesma tinha criado — é que os cientistas de Ix não percebem o quanto suas crenças dominam seu universo.
Teg olhou para ela, silencioso e receptivo.
— As crenças dos Ixianos são totalmente submissas às escolhas que eles fizeram no seu modo de encarar o universo — explicou Taraza. — O universo deles não age por si mesmo, mas de acordo com o tipo de experiências que eles escolhem.
Repentinamente, Teg escapou de suas memórias, assustado, e acordou no Castelo Gammu. Ainda se encontrava sentado na cadeira familiar de sua sala de trabalho. Um olhar pelo aposento mostrou que nada tinha saído do lugar. Somente alguns minutos se haviam passado naquele gabinete e seu conteúdo não lhe era mais estranho. Ele mergulhara e saíra do transe Mentat: “Restaurado.”
O cheiro e o gosto da bebida que Taraza lhe oferecera há tanto tempo ainda podia ser sentido em sua língua e em suas narinas. Num piscar Mentat, ele sabia que poderia reviver a cena uma vez mais — a luz mortiça dos globos luminosos, o sentimento da cadeira embaixo dele, os sons de suas vozes. Tudo estava lá para ser repetido, congelado numa cápsula de tempo de memória isolada.
Chamar de volta aquela memória era como criar um universo mágico onde suas habilidades eram ampliadas além de seus sonhos mais loucos. Não havia átomos naquele universo mágico, somente ondas e espantosos movimentos à sua volta. Ele era forçado a voltar lá para se libertar de todas as barreiras erguidas pela crença e pelo entendimento. Esse universo era transparente. Ele poderia ver através dele sem a interferência de telas sobre as quais tivesse que projetar aquelas formas. O universo mágico o reduzia a um núcleo de imaginação ativa em que suas próprias habilidades de criação de imagens constituíam a única tela sobre a qual se podia sentir uma projeção.
“Lá, eu sou o executor e a execução.”
O gabinete de trabalho ao redor de Teg ondulou para fora de sua realidade sensorial. Sentia sua consciência reduzindo-se a um único propósito, e esse propósito preenchia o universo. Encontrava-se aberto ao infinito.
“Taraza fez isso deliberadamente!”, pensou. “Ela me ampliou!”
O sentimento de espanto o ameaçava. Reconheceu como sua filha, Odrade, tinha recorrido a tais poderes a fim de criar para Taraza o Manifesto Atreides. Seus próprios poderes de Mentat encontravam-se submersos num grande padrão.
Taraza estava exigindo um terrível desempenho da parte dele. A necessidade de tal coisa desafiava-o e o aterrorizava. Podia muito bem significar o fim da Irmandade.
A regra básica é: nunca apóie a fraqueza; sempre apóie a força.
— Código da Bene Gesserit
— Como é que você dá ordens aos sacerdotes? — perguntou Sheeana. —
Este lugar é deles.
Odrade respondeu com aparente superficialidade, mas escolheu as palavras de modo a se ajustarem ao conhecimento que ela sabia que Sheeana já possuía:
— Os sacerdotes têm origens Fremen. Sempre tiveram Reverendas Madres por perto. Além disso, criança, você também lhes dá ordens.
— Isso é diferente.
Odrade controlou um sorriso.
Pouco mais de três horas tinham transcorrido desde que sua força de assalto interrompera o ataque ao complexo do templo. Nesse período Odrade estabelecera um centro de comando nos alojamentos de Sheeana e realizara o trabalho necessário de avaliação dos resultados e da retaliação preliminar, tudo isso enquanto estimulava e observava Sheeana.
“Simulfluxo.”
Odrade olhou para o aposento que tinha escolhido como centro de comando.
Um fragmento das roupas rasgadas de Stiros ainda restava junto à parede diante dela.
“Baixas.” O aposento tinha uma forma curiosa. Não havia duas paredes paralelas. Ela cheirou o ar. Ainda restava um perfume residual de ozônio dos farejadores com que sua gente havia assegurado a privacidade desse quarto.
Por que a forma estranha? O prédio era antigo, fora remodelado e ampliado em muitas ocasiões, mas isso não explicava esse quarto. Havia uma textura agradável no reboco áspero, cor de creme, sobre as paredes e o teto. Belas cortinas de fibra de especiaria flanqueavam as duas portas. Era o início da tarde e a luz do sol filtrada por gelosias manchava a parede oposta à janela. Globos luminosos de cor amarelo-prata flutuavam perto do teto, todos sintonizados para igualarem a luz do sol. Sons abafados da rua chegavam pelos ventiladores embaixo das janelas. No piso, um suave padrão de tapetes cor de laranja e azulejos cinzentos revelava riqueza e segurança, mas repentinamente Odrade não se sentiu segura.
Uma Reverenda Madre de elevada estatura entrou da sala adjacente, onde ficara o centro de comunicações.
— Madre Comandante — ela disse —, as mensagens foram enviadas à Corporação, a Ix e aos Tleilaxu.
Odrade respondeu com a mente distante.
— Entendido.
A mensageira voltou às suas tarefas.
— Que está fazendo? — perguntou Sheeana.
— Estudando uma coisa.
Odrade comprimiu os lábios, pensando. Seus guias através do complexo do templo a tinham levado até ali através de um labirinto de corredores, escadarias com vislumbres de pátios através de arcadas e um esplêndido sistema de tubo-suspensores Ixiano que os conduzira silenciosamente até outro corredor, mais escadarias, outro corredor curvo... e finalmente esse aposento.
— Por que está estudando este quarto? — perguntou Sheeana.
— Quieta, criança!
O aposento era um poliedro irregular com o lado menor para a esquerda.
Tinha cerca de 35 metros de comprimento, com metade dessa medida de largura, muitos divãs baixos e muitas cadeiras que ofereciam graus variados de conforto.
Sheeana estava sentada, com o esplendor de uma rainha, numa poltrona de amarelo brilhante com braços amplos e macios. Não havia cadeiras-cães nesse lugar. Muito tecido marrom e azul. Odrade olhou para o trançado de um gradil branco, uma entrada de ventilação acima de uma pintura de montanhas na parede maior do canto.
Uma brisa fresca vinha dos ventiladores abaixo das janelas e subia para o gradil acima da pintura...
— Este é o quarto de Hedley — disse Sheeana.
— Por que o aborrece usando o primeiro nome dele, criança?
— Isso o aborrece?
— Não faça jogos de palavras comigo, menina! Você sabe que isso o aborrece e é por isso que o faz.
— Então por que perguntou?
Odrade ignorou a resposta enquanto prosseguia seu estudo minucioso do aposento. A parede oposta à pintura mantinha um ângulo obliquo com relação á parede externa. Podia entender agora. “Muito hábil!” Esse aposento fora construído de modo a que cada sussurro lá dentro pudesse ser ouvido por alguém colocado atrás da grade de ventilação. Sem dúvida a pintura devia ocultar outro duto de ar para transportar os sons produzidos lá dentro. Nenhum farejador ou qualquer outro instrumento poderia detectar semelhante disposição. Nada daria sinal de ouvido ou olho espião. Somente os sentidos aguçados de uma pessoa treinada em camuflagens pudera descobrir isso.
Um sinal com a mão chamou uma acólita que esperava. Os dedos de Odrade sinalizaram de modo silencioso: “Descubra quem está escutando atrás daquele ventilador” Fez sinal com a cabeça para a grade acima da pintura. “Deixe-os continuar. Devemos saber para quem passam a informação.”
— Como soube que devia vir me salvar? — perguntou Sheeana.
“A criança tinha uma voz adorável, mas precisava de treinamento”, pensou Odrade. Havia nela uma firmeza que poderia ser transformada num instrumento poderoso.
— Responda-me! — ordenou Sheeana.
O tom imperioso surpreendeu Odrade, produzindo uma rápida irritação que
ela foi forçada a suprimir. Correções deviam ser feitas imediatamente!
— Acalme-se, criança — disse Odrade.
Ela moldou a ordem num tenor preciso e viu que fizera efeito. Novamente Sheeana a surpreendeu:
— Isso é outro tipo de Voz. Você está tentando me acalmar. Kipuna me contou tudo sobre a Voz.
Odrade ficou de frente para Sheeana e olhou para a menina. Sua tristeza inicial já tinha passado, mas ainda havia ódio quando ela falava de Kipuna.
— Estou ocupada estruturando nossa resposta àquele ataque — explicou Odrade. — Por que você fica me distraindo? Pensava que você queria que eles fossem punidos.
— Que vai fazer com eles? Diga-me. Que vai fazer?
Uma criança surpreendentemente vingativa, pensou Odrade. Isso teria que ser dominado. O ódio era uma emoção tão perigosa quanto o amor. A capacidade de odiar equivalia à capacidade de amar.
Odrade explicou:
— Eu enviei para a Corporação, para Ix e para os Tleilaxu a mensagem que sempre despachamos quando ficamos aborrecidas. Três palavras: “Vocês vão pagar”
— E como eles vão pagar?
— Uma adequada punição Bene Gesserit esta sendo elaborada. Eles vão sentir as conseqüências de seu comportamento.
— Mas o que vão fazer?
— No devido tempo você poderá aprender. Pode até aprender como preparamos nossas punições. Por ora não há necessidade de que saiba.
Uma expressão aborrecida surgiu na face de Sheeana. Ela disse:
— Vocês não estão nem mesmo zangadas. Aborrecidas, foi isso que falou.
— Domine sua impaciência, criança! Existem coisas que você não entende.
A Reverenda Madre da sala de comunicações retornou, olhou para Sheeana e disse a Odrade:
— A sede da Irmandade acusa o recebimento do seu relatório. Elas aprovam sua resposta.
Como a Reverenda Madre das comunicações permanecesse de pé esperando, Odrade perguntou:
— Mais alguma coisa?
Um rápido olhar para Sheeana revelou as reservas da mulher. Odrade ergueu a palma direita, sinal para a comunicação silenciosa.
A Reverenda Madre respondeu, seus dedos dançando com a excitação liberada: “Mensagem de Taraza — Os Tleilaxu são o pivô da trama. A Corporação deve ser levada a pagar caro por sua melange. Feche o seu acesso ao fornecimento Rakiano. Lance juntos a Corporação e Ix. Eles irão esgotar-se diante da esmagadora competição da Dispersão. Ignore as Oradoras Peixes por enquanto. Elas estão com
Ix. O Mestre dos Mestres responde a nós de Tleilaxu. Ele vai para Rakis. Pegue-o.”
Odrade deu um leve sorriso para indicar que havia entendido. Observou a outra mulher deixar a sala. Não somente a Irmandade concordava com as ações executadas em Rakis como uma adequada punição Bene Gesserit seria preparada com uma velocidade fascinante. Obviamente, Taraza e suas assessoras tinham antecipado esse momento.
Odrade permitiu-se um suspiro de alívio. A mensagem para a Irmandade fora sucinta: um resumo do ataque, a lista das baixas entre as Irmãs, a identificação dos atacantes e uma nota confirmando a Taraza que Odrade já transmitira o aviso aos culpados: “Vocês vão pagar”
Sim, aqueles tolos atacantes agora conheceriam o ninho de vespas que tinham agitado. Isso iria criar o medo — parte importante de qualquer punição.
Sheeana remexeu-se na cadeira. Sua atitude revelava que ela iria tentar uma nova abordagem.
— Uma das suas disse que havia Dançarinos Faciais. — Ela indicou o teto com o queixo.
“Que vasto reservatório de ignorância é essa criança”, pensou Odrade. Esse vazio teria que ser preenchido. “Dançarinos Faciais!” Odrade pensou nos corpos que tinha examinado. Os Tleilaxu tinham finalmente colocado em ação seus novos Dançarinos Faciais. Era um teste para a Bene Gesserit, é claro. Esses novos eram extremamente difíceis de detectar. Mas ainda deixavam escapar o cheiro característico de seus feromônios, algo que lhes era único. Odrade enviara esse dado em sua mensagem à Irmandade.
O problema agora era manter secreto o conhecimento da Bene Gesserit. Odrade chamou a acólita mensageira e, indicando o ventilador com um rápido movimento dos olhos, disse na linguagem silenciosa dos dedos: “Mate aqueles que estão ouvindo!”
— Você está muito interessada na Voz, criança — disse ela, falando com Sheeana, ainda na poltrona. — O silêncio é a ferramenta mais valiosa para o aprendizado.
— Mas eu poderia aprender a usar a Voz? Eu quero aprender.
— Estou lhe dizendo para ficar calada e aprender com o silêncio.
— Eu lhe ordeno que me ensine a Voz!
Odrade refletiu a respeito dos relatórios de Kipuna. Sheeana tinha estabelecido um efetivo controle da Voz sobre a maioria das pessoas à sua volta. A criança tinha aprendido sozinha. Um nível intermediário de Voz para uma audiência limitada. Ela era uma criatura natural assustando Tuek, Cania e os outros. Fantasias religiosas contribuíam para esse temor, é claro, mas o domínio que Sheeana tinha do tom e da freqüência da Voz exibia uma admirável seletividade inconsciente.
A resposta indicada para tratar com Sheeana era óbvia. Odrade sabia que teria que usar de honestidade. Era o engodo mais poderoso e servia a mais de um
propósito.
— Eu estou aqui para lhe ensinar muitas coisas — disse Odrade. — Mas não vou fazer isso sob ordem sua.
— Todos me obedecem! — disse Sheeana.
“Mal entrou na puberdade e já é uma Aristocrata”, pensou Odrade. “Deuses que criamos! Que será que ela pode tornar-se?”
Sheeana levantou-se da poltrona e ficou olhando para Odrade com uma expressão questionadora. Os olhos da criança estavam no mesmo nível dos ombros de Odrade. Sheeana ia ser alta, uma presença dominadora. Se sobrevivesse.
— Você responde algumas de minhas perguntas, mas não responde outras —
ela disse. — Diz que estava esperando por mim, mas não me explica por quê. Por que não me obedece?
— Uma pergunta tola, criança.
— Por que fica me chamando de criança?
— Você não é uma criança?
— Já estou menstruando.
— Mas ainda é uma criança.
— Os sacerdotes me obedecem.
— Eles têm medo de você.
— E você não tem?
— Não, eu não.
— Ótimo! É chato as pessoas terem medo de você.
— Os sacerdotes pensam que você foi enviada por Deus.
— E você não pensa isso?
— Por que deveria? Nós...
Odrade interrompeu-se com a chegada da acólita mensageira. Os dedos dela dançaram em silenciosa comunicação: “Quatro sacerdotes escutavam. Eles foram mortos. Todos serviam a Tuek.”
Odrade mandou embora a mensageira.
— Ela fala a você com os dedos — comentou Sheeana. — Como é que ela faz isso?
— Você faz muitas perguntas erradas, criança. E ainda não me disse por que devo considerá-la um instrumento de Deus.
— Shaitan me poupa. Eu caminho pelo deserto e, quando Shaitan vem, eu converso com ele.
— Por que o chama de Shaitan e não de Shai-hulud?
— Todo o mundo me faz essa mesma pergunta estúpida!
— Então me dê sua resposta estúpida.
A expressão aborrecida retornou ao rosto de Sheeana.
— E devido ao modo como nos conhecemos.
— E como se conheceram?
Sheeana inclinou a cabeça para um lado, olhou para Odrade por um momento e então disse:
— Isso é segredo.
— E você sabe como conservar segredos?
Sheeana endireitou-se e fez sinal de que sim com a cabeça, mas Odrade percebeu a incerteza nos movimentos. A criança sabia quando estava sendo conduzida a uma posição impossível de manter!
— Excelente! — exclamou Odrade. — Manter segredos é um dos ensinamentos mais essenciais de uma Reverenda Madre. Fico feliz por não termos que incomodá-la quanto a esse detalhe.
— Mas eu quero aprender tudo!
Havia petulância naquela voz. Controle emocional muito pobre.
— Você deve me ensinar tudo! — insistiu Sheeana.
“Hora do chicote”, pensou Odrade. Sheeana tinha falado e gesticulado o suficiente para que até uma acólita do quinto grau se sentisse confiante em sua capacidade de controlá-la agora.
Usando todo o poder da Voz, Odrade disse:
— Não use esse tom de voz comigo, criança! Não se quiser aprender tudo!
Sheeana ficou rígida. levou mais de um minuto absorvendo o que lhe tinha acontecido e então relaxou. Daí a pouco sorriu com uma expressão meiga e aberta.
— Oh, ficou tão feliz por você ter vindo! Estava muito chato ultimamente.
Nada ultrapassa a complexidade da mente humana.
— Leto II: Registros de Dar-es-Balat
A noite de Gammu, que caía muito depressa nessa latitude, ainda se encontrava a duas horas no futuro. Uma formação crescente de nuvens lançava sua sombra sobre o Castelo e, ao comando de Lucilla, Duncan retornara ao pátio para uma sessão intensa de exercícios autodirigidos.
Lucilla observava do parapeito de onde o tinha visto pela primeira vez.
Duncan movia-se aos saltos e contorções do combate Bene Gesserit, lançando o corpo através do jardim, rolando, arremessando-se para o lado, correndo para a frente e para trás.
Era uma ótima exibição da maneira de se esquivar ao acaso, pensou Lucilla.
Ela não podia perceber qualquer padrão previsível nos movimentos dele, e a velocidade era atordoante. O rapaz já tinha quase 16 AP e atingira a plataforma de seu potencial prana-bindu.
Os movimentos cuidadosamente controlados de seus exercícios de
treinamento revelavam tanto! Ele tinha respondido rapidamente quando ela ordenara pela primeira vez essas sessões noturnas. O passo inicial nas instruções que recebera de Taraza tinha sido dado. O ghola a amava. Não havia dúvidas a respeito. Ela desempenhava um papel de fixação maternal e isso fora conseguido sem enfraquecê-lo, embora as ansiedades de Teg tivessem sido despertadas.
“Minha sombra encontra-se neste ghola, mas ele não é um seguidor suplicante nem dependente”, procurou tranqüilizar-se. “Teg preocupa-se sem motivo.”
Naquela manhã mesma ela tinha dito a Teg:
— Aonde suas forças o levam ele continua a se expressar livremente.
“Teg devia vê-lo agora”, ela pensou. Esses novos exercícios eram, em grande parte, criação do próprio Duncan.
Lucila conteve uma exclamação de entusiasmo ante um salto particularmente ágil que levou Duncan quase ao centro do pátio. O ghola estava desenvolvendo um equilíbrio neuromuscular que, no devido tempo poderia ser igualado por um equilibro psicológico pelo menos igual ao de Teg. O impacto cultural de semelhante conquista seria imenso. Bastava ver todos aqueles que ofereciam sua lealdade a Teg e, através dele, à Irmandade.
“Devemos agradecer ao Tirano por grande parte disso”, pensou ela. Antes de Leto II, nenhum sistema amplo de ajuste cultural tinha durado o suficiente para se aproximar do equilíbrio que a Bene Gesserit sustentava ser um ideal. Era esse equilíbrio
— “fluindo ao longo da lâmina de uma espada” — que fascinava Lucila. Era por isso que ela se entregava sem reservas a um projeto cujo objetivo final não conhecia, mas que lhe exigia um desempenho que seus instintos rotulavam de repugnante.
“Duncan é tão jovem!”
O que a Irmandade queria que fizesse em seguida fora enunciado explicitamente por Taraza: “Impressão Sexual.” Naquela mesma manhã Lucilla se observara nua diante de um espelho, moldando as atitudes e os movimentos de face e de corpo que sabia ter que usar para cumprir as ordens de Taraza. Num repouso artificial, Lucilla vira o próprio rosto aparecer como o de uma deusa do amor pré-histórica — opulenta de carne e de promessa de uma suavidade na qual um macho excitado poderia mergulhar.
Em seu processo de educação, Lucilla tinha visto estátuas muito antigas dos Primeiros Tempos, pequenas figuras de pedra de fêmeas humanas com quadris largos e seios pendentes, que asseguravam abundância a uma criança que estivesse sendo amamentada. À sua vontade, Lucilla poderia produzir uma jovem simulação daquela forma ancestral.
No jardim lá embaixo Duncan parou por um momento e pareceu estar pensando em seu próximo movimento. Daí a pouco ele assentiu para si mesmo, deu um salto alto com uma pirueta no ar e caiu sobre uma perna só, o que o lançou de lado em giros mais próximos da dança que do combate.
Lucilla comprimiu a boca numa linha de decisão.
“Impressão Sexual.”
O segredo do sexo não era segredo algum, pensou. Suas raízes estavam ligadas à própria vida. Isso explicava, logicamente, por que a primeira sedução que lhe fora ordenada pela Irmandade tinha plantado um rosto masculino em sua memória. A Madre Procriadora dissera-lhe para esperar algo assim e não ficar alarmada. Mas Lucilla percebia que a Impressão Sexual era uma faca de dois gumes. A pessoa pode aprender a fluir ao longo do fio da lâmina, mas também pode ser cortada por ele.
Algumas vezes, quando o rosto masculino daquela primeira sedução ordenada lhe voltava à mente sem ser solicitado, Lucilla sentia-se confundida por ele. A memória vinha com tanta freqüência no pico de um momento íntimo que a forçava a grandes esforços de dissimulação.
— Assim você ganha forças — dissera a Madre Procriadora, tranqüilizando-a.
E no entanto havia ocasiões em que ela sentia ter trivializado uma coisa que teria sido melhor guardar como mistério.
Um sentimento de amargura pelo que devia fazer invadiu Lucilla. Esses crepúsculos, quando ela observava as sessões de treinamento do Duncan, tinham constituído sua hora favorita do dia. O desenvolvimento muscular do rapaz mostrava um progresso muito definido, com o crescimento de músculos e ligações nervosas sensíveis — todas as maravilhas da prana-bindu pelas quais a Irmandade era tão famosa. O próximo passo estava quase chegando, contudo, e ela não poderia mais mergulhar na vigilante apreciação de seu pupilo.
Miles Teg viria dai a pouco, ela sabia, e o treinamento do Duncan passaria novamente para o salão, com suas armas mais mortais.
“Teg”
Uma vez mais Lucilla pensou a respeito dele, admirada. Teg a tinha atraído mais de uma vez, num modo particular que ela reconhecera imediatamente. Uma Impressora dispunha de alguma liberdade para selecionar seus próprios parceiros de procriação, desde que não recebesse tarefas anteriores nem ordens contrárias. Teg era velho, mas seus registros sugeriam que ainda poderia ser viril. Ela não teria permissão para ficar com a criança, é claro, mas já tinha aprendido a lidar com isso.
“Por que não?”, perguntara a si mesma.
Seu plano era extremamente simples. Complete a Impressão do ghola e então, registrando sua intenção ante Taraza, conceba uma criança do formidável Miles Teg.
Uma sedução introdutória, prática, era indicada, mas Teg ainda não tinha sucumbido.
Seu cinismo Mentat a detivera numa tarde, na câmara vestuário da Sala de Armas.
— Meus dias como reprodutor estão terminados, Lucilla. A Irmandade já devia estar satisfeita com o que lhe dei.
Teg, vestido apenas com uma malha negra de exercício, terminou de enxugar o rosto suado com uma toalha e a jogou no cesto. Sem olhar para ela, disse:
— Quer por favor me deixar sozinho agora?
“Então ele percebeu minhas insinuações!”, pensou ela.
Devia ter previsto isso, sendo Teg quem era. Lucilla tinha certeza de que ainda poderia seduzi-lo. Nenhuma Reverenda Madre com o treinamento dela deveria fracassar, nem mesmo com um Mentat de poderes tão óbvios quanto Teg.
Lucilla permaneceu por um momento sem se decidir, sua mente planejando automaticamente um meio de superar essa rejeição preliminar. Alguma coisa a deteve.
Não era a raiva da rejeição nem a remota possibilidade de que ele poderia ser imune à sua astúcia. O orgulho e um possível fracasso (havia sempre essa possibilidade) pouco tinham a ver com isso.
“Dignidade.”
Havia em Teg uma dignidade tranqüila, e ela já tinha o conhecimento comprovado daquilo que sua coragem e sua perícia tinham fornecido à Irmandade.
Não inteiramente consciente de seus motivos, Lucilla afastou-se dele. Possivelmente era a gratidão subjacente que à Irmandade sentia com relação a Teg. Seduzi-lo agora seria humilhante, não apenas para ele, mas para ela própria. Não podia realizar tal ato, não sem ordem direta de uma superiora.
Enquanto permanecia no parapeito, algumas dessas memórias turvavam os sentidos de Lucilla. Havia um movimento nas sombras do portal rumo à Ala das Armas, e Teg podia ser vislumbrado por lá. Lucilla dominou suas reações e focalizou sua atenção no Duncan. O ghola havia interrompido seus rolamentos controlados pelo gramado. Ficou quieto, respirando profundamente, sua atenção voltada para Lucilla.
Ela notou a transpiração no rosto dele, as manchas escuras no macacão azul-claro.
Inclinando-se sobre o parapeito, Lucilla o chamou.
— Isso foi muito bom, Duncan. Amanhã vou começar a lhe ensinar mais algumas combinações de pés e punhos.
As palavras lhe escaparam espontaneamente e ela soube de imediato qual fora o motivo. Elas eram dirigidas a Teg, cuja sombra aparecia na porta, e não ao ghola. Ela estava dizendo a Miles: Está vendo? Você não é o único que lhe pode ensinar habilidades mortais.
Lucilla percebeu então que Teg se insinuara mais profundamente em sua psique do que deveria permitir. Aborrecida, voltou sua atenção para a figura alta, emergindo das sombras do portal. Duncan já corria em direção ao Bashar.
Enquanto Lucilla focalizava sua atenção em Teg, a mais elementar das reações Bene Gesserit relampejou pelo seu corpo. Os passos de sua reação poderiam ser definidos depois: “Algo está errado! Perigo! Teg não é Teg!” Naquele relâmpago de reação, nada disso, entretanto, tomou uma forma distinta. Ela respondeu empregando todo o volume da Voz que poderia usar:
— Duncan! Para o chão!
Duncan caiu esticado no gramado, sua atenção centrada na figura de Teg que emergia da Ala de Armas. Havia uma arma laser modelo de campo, nas mãos do homem.
“Dançarino Facial!”, pensou Lucilla. Somente os sentidos hiperalertas lhe
revelavam isso. “Um dos novos!”
— Dançarino Facial! — gritou Lucilla.
Duncan pulou de lado e depois saltou para cima, rodopiando no ar a pelo menos um metro do solo. A velocidade de sua reação deixou Lucilla chocada. Ela não sabia que um ser humano poderia mover-se tão depressa! O primeiro raio da arma laser cortou o ar embaixo de Duncan enquanto ele parecia flutuar antes da queda.
Lucilla pulou do parapeito e agarrou um apoio no peitoril da janela do nível inferior. Antes que sua queda fosse detida, sua mão direita disparou num movimento rápido, encontrando a calha que sua memória lhe dizia estar ali. Seu corpo arqueou para o lado e ela caiu no peitoril da janela mais abaixo. O desespero a impulsionava, muito embora soubesse que seria muito tarde.
Alguma coisa estalou na parede acima dela. Viu uma linha de matéria derretida correndo em sua direção enquanto se jogava para a esquerda, girando e caindo no gramado abaixo. Seu olhar captou a cena à sua volta num instante, enquanto ela recuperava o equilíbrio.
Duncan corria para o atacante, esquivando-se e se contorcendo numa terrível repetição de sua sessão de prática de solo. A velocidade de seus movimentos era incrível!
Lucilla notou indecisão no rosto do falso Teg.
Ela correu em direção ao Dançarino Facial, sentindo os pensamentos da criatura: “Dois deles atrás de mim!'
Mas o fracasso era inevitável e Lucilla já sabia disso enquanto corria. O
Dançarino Facial só tinha que ajustar sua arma para força total a curto alcance e lancetar o ar, sacudindo a arma à sua frente. Nada penetraria tal defesa. Enquanto calculava suas opções, buscando desesperadamente algum meio de derrotar o atacante, Lucilla viu uma fumaça vermelha aparecer no peito do falso Teg. Uma linha vermelha subiu num ângulo oblíquo através da musculatura do braço que segurava a arma laser. O braço caiu como uma peça partida de uma estátua, o ombro soltando-se do torso num esguicho de sangue. A figura tombou e se dissolveu em mais fumaça vermelha e névoa sangrenta, desfazendo-se em pedaços nos degraus, uma mistura de fragmentos escuros e azuis, tintos de vermelho.
Lucilla sentiu o cheiro característico dos feromônios enquanto parava. Duncan parou ao lado dela, olhando para o movimento da porta, atrás do Dançarino Facial.
Outro Teg surgiu por trás do morto. Lucilla identificou a realidade: era o verdadeiro Teg.
— Este é o Bashar — disse Duncan
Lucilla experimentou um breve sentimento de prazer ao ver que Duncan aprendera tão bem suas lições de identificação: como reconhecer seus amigos mesmo que veja apenas uma parte deles. Ela apontou para o Dançarino Facial morto.
— Sinta o cheiro dele.
Duncan inalou.
— Sim, percebo. Mas não era uma cópia muito boa. Percebi o que ele era assim que você notou.
Teg saiu para o jardim carregando uma arma laser pesada apoiada sobre o braço esquerdo. A mão direita estava firme sobre a empunhadura e o gatilho. Olhou à volta, examinando o pátio, depois voltou sua atenção para o Duncan e finalmente para Lucilla.
— Traga o Duncan para dentro — ele disse.
Era a ordem de um comandante em batalha, dependente apenas de um conhecimento superior sobre o que fazer durante uma emergência. Lucilla obedeceu sem questionar.
Duncan não falou quando ela o puxou pela mão, passando pelo monte de carne sangrenta que fora o Dançarino Facial e o levando para a Ala das Armas. Uma vez lá dentro, ele olhou para a pilha úmida nos degraus lá fora e perguntou:
— Quem o deixou entrar?
Não “como ele entrou?”, observou ela. Duncan já ultrapassara os detalhes menos importantes para enxergar a raiz do problema.
Teg caminhava à frente deles em direção ao seu gabinete. Parou na porta, deu uma olhada lá dentro e fez sinal para que Duncan e Lucilla o seguissem.
O quarto de Teg estava cheio de um cheiro forte de carne queimada com fios de fumaça a exalarem aquele odor de churrasco passado que Lucilla tanto detestava: carne humana assada! Uma figura usando um dos uniformes de Teg estava caída de cara no chão, no ponto onde rolara de cima da cama.
Teg rolou o corpo com a ponta de uma das botas, expondo o rosto: olhos abertos fixos, sorriso fixo num esgar. Lucilla reconheceu um dos guardas do perímetro, um dos que tinham vindo para o Castelo com Schwangyu, assim diziam os registros.
— O homem deles aqui dentro — disse Teg. — Patrin deu cabo dele e nós o vestimos com um de meus uniformes. Foi o suficiente para confundir os Dançarinos Faciais, pois nós não os deixamos ver o rosto antes de atacarmos. Eles não tiveram tempo de fazer uma impressão de memória.
— Você sabe disso! — surpreendeu-se Lucilla.
— Bellonda instruiu-me completamente.
De repente, Lucilla percebeu o significado do que Teg tinha revelado.
Suprimiu um sentimento de raiva.
— Como deixou que um deles chegasse até o pátio?
Com a voz calma, Teg explicou:
— Havia coisas mais urgentes a serem feitas aqui. Tive que fazer uma escolha que se revelou certa.
Lucilla não ocultou a irritação:
— A decisão foi deixar o Duncan defender-se sozinho?
— Deixá-lo a seus cuidados ou deixar que outros atacantes se
entrincheirassem firmemente aqui dentro. Patrin e eu passamos maus bocados limpando esta ala. Tínhamos as mãos cheias. — Teg olhou para o Duncan. — Ele se saiu muito bem, graças ao nosso treinamento.
— Aquela... aquela coisa quase o pegou!
— Lucilla! — Teg sacudiu a cabeça. — Eu tinha tudo bem cronometrado.
Vocês dois poderiam defender-se durante pelo menos um minuto lá fora. Eu sabia que você ia jogar-se na frente daquela coisa e se sacrificar para salvar o Duncan. Mais 20 segundos.
Ante as palavras de Teg, Duncan voltou-se para Lucilla com olhos brilhantes.
— Você teria feito isso?