Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 1 de 10

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Na padaria

Na

 

 

Padaria

 

Era um daqueles dias cujo calor estava insu-

portável, beirando os 40 graus. Mesmo à som-

bra era incômodo, o sol quente parecia derreter

tudo. O vento soprava, porém também era quen-

te e não refrescava nada. Mas cada um buscava

a sua maneira de passar por aquele dia, pedindo

por uma chuva abençoada para amenizar o calor.

Rose parecia não estar incomodada, pois

continuava com seu passo arrastado, o corpo li-

geiramente inclinado para a frente, como se car-

regasse um fardo às costas, apoiada em uma ben-

gala improvisada, seguindo em direção à pada-

ria. Fizesse sol, como naquele dia, ou debaixo

de chuva, até mesmo no frio, todos os dias ela

 

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fazia aquela caminhada dolorosa, parecia peni-

tência.

Chegando à porta da padaria, era pratica-

mente impossível não chamar a atenção das pes-

soas presentes. Todos a olhavam, cada um à sua

maneira, uns com repulsa, outros com pena;

havia também os indiferentes, mas ninguém che-

gava perto, uma força estranha os repelia.

Rose não era feia, também não era linda;

tinha uma aparência comum, mas seu estado de-

plorável a transformava num monte de trapos

sujos, repugnante, parecia não tomar banho ha-

via muito tempo. Sua postura inclinada, apesar

de ela não ser corcunda, deixava os presentes

espantados. Tudo aquilo era incomum e ninguém

tentaria dar uma explicação para a situação em

que se encontrava a jovem. Sim, apesar da es-

tranha aparência, era jovem ainda, talvez uns

26 anos. Ela apenas havia parado de se cuidar e

com isso adquirido aquele desagradável aspecto.

Vivia sozinha em um casarão de esquina e

não permitia a aproximação de ninguém. Qual-

quer tentativa de aproximação era repelida com

grunhidos, resmungos, xingamentos e ameaças

com sua bengala.

Margareth, moradora antiga da cidade, es-

tava encostada no balcão, distraída, esperando

sua vez de ser atendida, quando sentiu nas cos-

tas uma espécie de espetada, transmitindo um

mal-estar horrível por toda a coluna, como se

estivesse sendo perfurada por um estilete. Com

sua sensibilidade e levada pelo instinto, olhou

para trás e deu de cara com Rose e aquele seu

 

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olhar de peixe morto, sem graça. Margareth le-

vou um susto, saindo imediatamente para o lado,

deixando passagem livre para a jovem encur-

vada, que se aproximou do balcão estendendo

a mão com o dinheiro.

Joaquim, velho padeiro, também havia mui-

to instalado na cidade, já estava acostumado

com Rose e procurou atendê-la rapidamente,

pois sua presença causava incômodo a todos que

ali estavam. Depois de lhe entregar os pães e

um litro de leite, deu-lhe o troco, despedindo-se,

sem, no entanto, obter resposta.

Rose deu meia-volta e buscou a saída, pou-

cos metros que pareciam não terminar, ignoran-

do as pessoas que estavam à sua volta, como se

estivesse isolada num mundo só dela. Todos, no

entanto, a acompanhavam com o olhar; alguns

chegaram até a porta para ver melhor. Ninguém

se atreveu a fazer nenhum comentário. Valdo-

miro, o ajudante e aprendiz de padeiro, rapaz

inteligente e observador, veio de lá de dentro e

foi entendendo logo o que estava acontecendo,

pois vira Rose já na rua, quase se arrastando,

sob o olhar de todos.

– É esquisito mesmo – disse ele, logo atrás

do patrão, Joaquim, que limpava o balcão com

um pano que provavelmente não limpava nada

de tão sujo que estava.

– Esquisito por quê? – Respondeu com uma

pergunta o velho padeiro, sem olhar o rapaz.

– Lembro-me bem de quando ela chegou à

cidade – disse Valdomiro.

 

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Valdomiro juntou-se aos outros para acom-

panhá-la com o olhar. Ela já estava a uma certa

distância.

– Lembro-me de quando ela chegou – con-

tinuou ele. – Andava normalmente, como qual-

quer pessoa; depois de algum tempo foi se encur-

vando, encurvando, até ficar assim. O que é es-

quisito mesmo é que algumas vezes eu a vi cami-

nhando normalmente. Alguma coisa muito, mui-

to estranha está atormentando essa moça. Eu

não entendo como pôde chegar a uma situação

tão deplorável, coitada.

Margareth, que ainda estava perto do bal-

cão, não pôde deixar de ouvir o comentário e

arriscou um palpite:

– Com certeza ela está envolvida com “coi-

sas” que não são deste mundo. Não sabemos o

que essa moça andou aprontando. Tudo o que é

sobrenatural é muito complexo...

Valdomiro pensou em retrucar, mas se con-

teve, sentiu que talvez ela estivesse mesmo com

razão. Intuitivamente Margareth estava certa:

graças a sua sensibilidade ela conseguia captar

no ar algumas coisas que pessoas comuns não

conseguiam. Ele, pessoalmente, tinha a sensa-

ção de ter algo a ver com aquela moça, uma

estranha atração por ela. Não sabia como, nem

por quê, mas, como era praticamente impossível

se aproximar dela, ficava a esperar por uma

oportunidade. Quem sabe um dia ele poderia,

de alguma forma, entendê-la e ajudá-la?

Enquanto isso, lá fora, Luiz Antonio, um ra-

paz que não era muito dado ao trabalho, filho

 

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de um fazendeiro da região, pedia mais uma cer-

veja, sentado num banquinho à volta de uma

mesinha, acompanhado de mais dois compa-

nheiros: Miguel, o sapateiro, e Anibal, dono da

pequena gráfica da cidade. O berro de Luiz Anto-

nio, já com um leve sintoma de embriaguez, fez o

clima pesado da padaria mudar e todos voltaram

aos seus afazeres e ao assunto do dia: o calor.

Rose, já livre dos olhares das pessoas da pa-

daria, ia enfrentar outros olhares. Já próximo à

sua casa, quando passava em frente à casa de

Rosália, a fofoqueira da cidade, como era conhe-

cida, foi inevitável ouvir o cumprimento, acom-

panhado como sempre de um ar de provocação.

– Boa tarde, dona Rose, não melhorou ain-

da de suas costas?

Rose não deu atenção, cruzou a rua e se-

guiu para casa. Naquele instante chegava a vizi-

nha da direita de Rosália, Matilde, senhora dis-

creta que não nutria grande simpatia, para não

dizer nenhuma, pela sua vizinha fofoqueira, que

não se incomodava nem perdia a oportunidade

de atazanar a vida alheia, fosse de quem fosse,

além de não se importar de forma alguma com

as conseqüências.

– Viu, dona Matilde, quem passou neste ins-

tante por aqui?

– Não, não reparei – respondeu Matilde, sem-

pre educada, não alongando mais a resposta

para poder se desvencilhar daquela situação.

Buscando assim o refúgio de seu lar, fugindo do

calor e para não ficar ali por um assunto que

poderia se prolongar e que não as levaria a nada.

 

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– Aquela moça que mora sozinha no casa-

rão da esquina. Tô achando que ela tá ficando

cada vez mais louca. Acho até que a gente devia

fazer alguma coisa.

– Acredito que deva ser feita alguma coisa,

mas não serei eu nem a senhora que iremos fa-

zer. Com licença, pois tenho deveres a cumprir.

Passe bem, dona Rosália – respondeu Matilde,

entrando em casa.

– Dona uma pinóia. Senhorita, ouviu? Se-

nho-ri-ta. – Rosália fez questão de soletrar seu

estado civil, como se isso fosse alguma vanta-

gem. Na verdade, por trás desse aparente orgu-

lho havia arrependimento, pois ela se sentia

muito só. Quando ainda era jovem, chegou a

ter alguns namorados, mas eles acabaram não

suportando suas grosserias.

Porém, já não havia como responder, pois

Matilde já tinha entrado, sem se preocupar com

os arroubos de sua vizinha inconseqüente, cuja

fisionomia demonstrava que já não era mais ne-

nhuma jovem, apesar de ela não querer assu-

mir, e que o título de senhorita já não lhe caía

bem. A vida que levara até aquele momento não

trouxera grandes conquistas no campo sentimen-

tal. Com aquela forma de se relacionar com os

semelhantes e a fama que adquiriu, poucos ami-

gos haviam ficado e, provavelmente, estes não

eram sinceros. Os frutos dependem de uma boa

plantação, quem quer colher bons frutos tem de

começar a plantar boas sementes desde cedo.

Se bem que nunca é tarde para começar. Uma

 

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boa reforma íntima ajuda muito em qualquer

época de nossa vida.

O futuro certamente cobra a plantação; cabe

a cada um colher o que plantou.

 

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