Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 9 de 10

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Os Segredos do Casarão

O tratamento

Os Segredos do Casarão

 

O

 

Tratamento

 

Na semana seguinte, Tonico levou a esposa

e o filho ao Centro Espírita. Já havia combina-

do com Valdomiro, na padaria, de se encontra-

rem na porta do Centro. Não teve problemas

para convencer a esposa a ir, mas o filho ofere-

ceu uma certa resistência, não propriamente de

sua parte, mais pelas companhias invisíveis que

estavam com ele, pois para elas não havia inte-

resse algum naquele tratamento. Pelo contrário,

se pudessem evitar, o fariam por todos os mei-

os, porém não eram somente os companheiros in-

felizes que estavam ali; estava também o pai de

Tonico, que com sua presença conseguiu desfa-

zer a resistência do grupo. Assim, os companhei-

 

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ros infelizes não puderam evitar que o garoto

fosse ao Centro Espírita.

Adalberto chegou primeiro que Valdomiro.

Depois de estacionar o carro, seguiu para a en-

trada do Centro junto com Rose, que estava hos-

pedada em sua casa desde que saíra do hospital.

Adalberto, avistando Tonico, foi cumpri-

mentá-lo:

– Boa noite, Tonico, como tem passado?

– Muito bem, seu Adalberto, tirando os pe-

pinos e os abacaxis, está tudo perfeito. – Riram. –

Esta é minha esposa, Mariazinha, e este é meu

filho José, o Zezinho.

– Ah! Que ótimo que vocês vieram – disse

Adalberto, depois de cumprimentar os dois. –

Espero que possamos ajudá-los.

– Agradecemos pela sua bondade – respon-

deu Mariazinha, timidamente.

Ele respondeu com um sorriso amigável e

foi entrando no Centro com Rose. Na porta ele

voltou-se para Tonico e perguntou:

– Vocês estão esperando o Valdomiro?

– Estamos sim – respondeu Tonico.

– Ótimo, mas se quiserem entrar e se aco-

modar, não tem problema nenhum.

– Obrigado, seu Adalberto. Vamos esperar

mais um pouquinho aqui fora.

– Pessoa simpática este senhor, não é Tonico?

– comentou Mariazinha.

– É verdade, ele é o presidente do Centro

Espírita.

– Tonico, você não acha que o pastor Tadeu

vai achar ruim de a gente ter vindo a um Centro

Espírita? – Perguntou Mariazinha, preocupada.

 

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– Achar ruim ele pode até achar, mas quem

decide o que fazer somos nós, afinal estamos

aqui para tentar encontrar uma solução para o

problema do Zezinho. Já que ele não tem res-

posta para os nossos problemas, temos de ir

buscá-la em outros lugares. E depois daquela

mensagem espiritual do meu pai, não tenho mais

nenhuma dúvida de que aqui iremos ser auxi-

liados.

– Só quero ver o falatório dos irmãos lá da

igreja quando souberem que viemos a um Cen-

tro Espírita – disse Mariazinha, antevendo o “es-

cândalo”.

Nisso chegou Valdomiro, um pouco cansa-

do, pois tinha vindo a pé e a distância da sua

casa ao Centro não era pequena.

– Oi, companheirão – disse Tonico, dando

um abraço em seu amigo. – Aqui estamos nós.

– Estou feliz de ver a família aqui, unida. Te-

nho orgulho de tê-los como amigos – disse Valdo-

miro, emocionado.

– Você é um grande bajulador – disse Maria-

zinha, brincando.

– Vocês viram se seu Adalberto chegou? –

Perguntou Valdomiro.

– Chegou sim, já está lá dentro – respondeu

Tonico.

– Você viu se havia mais alguém com ele?

– Tinha, sim.

– Uma garota?

– É.

Tonico e Mariazinha se olharam e sorriram.

– Ah, ah! Quer dizer que o coração do rapaz

está enamorado? – Brincou Tonico.

 

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– Pare com isso – disse Valdomiro, encabula-

do, emendando para disfarçar: – Vamos entrar?

Lá dentro, Adalberto, vendo-os entrar, veio

ao encontro deles e recomendou que fossem di-

reto para a salinha de entrevistas, onde um mé-

dium iria analisar o caso de cada um e recomen-

dar o tratamento ideal.

Depois da entrevista, o óbvio se confirmou:

Tonico e Mariazinha fariam um tratamento espi-

ritual simples, porém Zezinho, além do tratamen-

to espiritual, seria atendido pela equipe de

desobsessão 13, pois tinha angariado companhei-

ros muito infelizes, desconhecedores das verda-

des evangélicas e que seriam orientados nessa

reunião.

Às vezes, o simples fato de seguir uma reli-

gião não é o suficiente. O lar, apesar de muitos

desconhecerem, é o verdadeiro templo. Pensa-

mentos e atitudes devem ser vigiados. Bem que

Jesus nos aconselhou, muito tempo atrás, “orai

e vigiai”. Verdades pouco seguidas, trazendo in-

felicidade e tragédias para o seio da família.

O médium que entrevistou Tonico recomen-

dou que fizesse o Evangelho no Lar14, pois esta

prática iria ajudar muito no tratamento. Tonico

e Mariazinha gostaram da idéia e pretendiam

colocá-la em prática com a ajuda de Adalberto,

 

13 - Desobsessão: reunião realizada no Centro Espírita para esclarecer o espíri-to obsessor, pois este geralmente tem pouco conhecimento evangélico. O obje-tivo é que ele desista dos seus propósitos de vingança. 14 - Evangelho no Lar: reunião feita para oração e estudo de O Evangelho Se-gundo o Espiritismo. É realizada sempre no mesmo dia da semana e no mesmo horário para facilitar a presença dos amigos espirituais e para a proteção do lar.

 

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que se prontificou a auxiliá-los nas primeiras se-

manas.

Depois da reunião, encontraram-se todos na

livraria, Adalberto, Rose, Tonico, Mariazinha e

Zezinho, menos Valdomiro, que conversava com

Fina sobre os vários tipos de mediunidade exis-

tentes.

Rose já estava a par dos fatos. Adalberto ex-

plicou-lhe por alto os acontecimentos que ocor-

reram naquela encarnação tão conturbada, em

que ela, por desconhecimento, tinha “conquis-

tado” três ferrenhos perseguidores. Agora era

preciso fazer a reconciliação para que a vida con-

tinuasse com naturalidade, buscar o aperfeiçoa-

mento de todos, porque é assim que evoluímos,

um ajudando o outro.

– Seu Adalberto, será que conseguiremos

sensibilizar Josafá? Ele me parece estar tão en-

durecido. Tenho muito medo de que ele não me

perdoe – dizia Rose, entristecida.

– Por mais duro que seja o coração, sempre

é possível encontrar uma brecha, e por aí vamos

tentar fazê-lo entender que a vingança não leva

a nada e que perdoar é mais gratificante. E de-

pois, Josafá já está há muito tempo nessa situa-

ção infeliz, acredito que não será difícil convencê-

lo, mesmo porque ele é um espírito inteligente e

compreenderá nossos argumentos.

– Deus te ouça – disse Rose, num suspiro,

com uma pontinha de preocupação.

Nisso entrou Valdomiro todo sorridente.

– Oi, gente! Como estão todos? – Perguntou

alegre. Porém, ao ver a carinha triste de Rose,

 

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o sorriso que trazia estampado se apagou. – Que

aconteceu? Pensei que estivesse tudo bem. Você

saiu do hospital, está hospedada melhor do que

ninguém e já está bem. Por que essa carinha de

tristeza?

– Ela está preocupada com Josafá, acha que

ele não poderá perdoá-la pelo que aconteceu –

explicou Adalberto.

– Mas, pelo que entendi, quem sofreu mais

foi o Gerônimo. Esse sim poderá dar preocupa-

ções. – Valdomiro foi falando e inconscientemen-

te pegou na mão de Rose com carinho.

Os olhos de ambos se encontraram, com ter-

nura. Não foi preciso palavras. Por alguns mo-

mentos ficaram parados, ali, um olhando para o

outro, como que hipnotizados pelo amor. Aque-

le instante mágico, segundos apenas, parecia

eterno. Essa é a magia do tempo que só o amor

puro é capaz de realizar. Suas almas se afina-

ram, se reencontraram como duas notas musi-

cais, formando uma bela melodia.

Como a realidade é outra, e não de sonhos,

Adalberto deu uma pigarreada, acordando os

dois jovens do transe. Disfarçaram e, encabula-

dos, tentaram voltar à normalidade.

– Como você estava falando... – Adalberto

deu uma paradinha de propósito. – Gerônimo é

o que menos me preocupa. Ele aceitará qual-

quer situação que seja melhor que a atual. Josafá

irá questionar tudo, não será fácil convencê-lo.

– Quando iremos saber realmente? – Quis

saber Valdomiro.

 

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– Precisamos ir ao casarão. Lá faremos uma

reunião para esclarecermos. Tentarei então o

contato com os três e vamos ver se conseguimos

convencê-los a virem ao Centro. Se conseguir-

mos, eles darão comunicação e, se possível, se-

rão doutrinados.

– Voltar ao casarão?! – Rose se espantou com

a idéia.

– Não se preocupe, estaremos acompanha-

dos de espíritos amigos que irão nos auxiliar.

– Pode ser, mas que dá arrepios, isso dá –

falou Rose, preocupada.

– Também não fico à vontade naquele casa-

rão – disse Valdomiro.

– Vamos só marcar um dia, precisamos com-

binar com Fina, para que ela vá com a gente –

completou Adalberto.

Na saída, Valdomiro tomou coragem, se

aproximou de Rose e perguntou:

– Não quer dar uma voltinha? Depois eu a

levo para casa.

– Eu gostaria – falou Rose, entusiasmada.

– Vejam se não ficam até tarde na rua, hem?

– Disse Adalberto. Os dois riram e saíram.

 

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