Os Segredos do Casarão
O tratamento
Os Segredos do Casarão
O
Tratamento
Na semana seguinte, Tonico levou a esposa
e o filho ao Centro Espírita. Já havia combina-
do com Valdomiro, na padaria, de se encontra-
rem na porta do Centro. Não teve problemas
para convencer a esposa a ir, mas o filho ofere-
ceu uma certa resistência, não propriamente de
sua parte, mais pelas companhias invisíveis que
estavam com ele, pois para elas não havia inte-
resse algum naquele tratamento. Pelo contrário,
se pudessem evitar, o fariam por todos os mei-
os, porém não eram somente os companheiros in-
felizes que estavam ali; estava também o pai de
Tonico, que com sua presença conseguiu desfa-
zer a resistência do grupo. Assim, os companhei-
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ros infelizes não puderam evitar que o garoto
fosse ao Centro Espírita.
Adalberto chegou primeiro que Valdomiro.
Depois de estacionar o carro, seguiu para a en-
trada do Centro junto com Rose, que estava hos-
pedada em sua casa desde que saíra do hospital.
Adalberto, avistando Tonico, foi cumpri-
mentá-lo:
– Boa noite, Tonico, como tem passado?
– Muito bem, seu Adalberto, tirando os pe-
pinos e os abacaxis, está tudo perfeito. – Riram. –
Esta é minha esposa, Mariazinha, e este é meu
filho José, o Zezinho.
– Ah! Que ótimo que vocês vieram – disse
Adalberto, depois de cumprimentar os dois. –
Espero que possamos ajudá-los.
– Agradecemos pela sua bondade – respon-
deu Mariazinha, timidamente.
Ele respondeu com um sorriso amigável e
foi entrando no Centro com Rose. Na porta ele
voltou-se para Tonico e perguntou:
– Vocês estão esperando o Valdomiro?
– Estamos sim – respondeu Tonico.
– Ótimo, mas se quiserem entrar e se aco-
modar, não tem problema nenhum.
– Obrigado, seu Adalberto. Vamos esperar
mais um pouquinho aqui fora.
– Pessoa simpática este senhor, não é Tonico?
– comentou Mariazinha.
– É verdade, ele é o presidente do Centro
Espírita.
– Tonico, você não acha que o pastor Tadeu
vai achar ruim de a gente ter vindo a um Centro
Espírita? – Perguntou Mariazinha, preocupada.
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– Achar ruim ele pode até achar, mas quem
decide o que fazer somos nós, afinal estamos
aqui para tentar encontrar uma solução para o
problema do Zezinho. Já que ele não tem res-
posta para os nossos problemas, temos de ir
buscá-la em outros lugares. E depois daquela
mensagem espiritual do meu pai, não tenho mais
nenhuma dúvida de que aqui iremos ser auxi-
liados.
– Só quero ver o falatório dos irmãos lá da
igreja quando souberem que viemos a um Cen-
tro Espírita – disse Mariazinha, antevendo o “es-
cândalo”.
Nisso chegou Valdomiro, um pouco cansa-
do, pois tinha vindo a pé e a distância da sua
casa ao Centro não era pequena.
– Oi, companheirão – disse Tonico, dando
um abraço em seu amigo. – Aqui estamos nós.
– Estou feliz de ver a família aqui, unida. Te-
nho orgulho de tê-los como amigos – disse Valdo-
miro, emocionado.
– Você é um grande bajulador – disse Maria-
zinha, brincando.
– Vocês viram se seu Adalberto chegou? –
Perguntou Valdomiro.
– Chegou sim, já está lá dentro – respondeu
Tonico.
– Você viu se havia mais alguém com ele?
– Tinha, sim.
– Uma garota?
– É.
Tonico e Mariazinha se olharam e sorriram.
– Ah, ah! Quer dizer que o coração do rapaz
está enamorado? – Brincou Tonico.
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– Pare com isso – disse Valdomiro, encabula-
do, emendando para disfarçar: – Vamos entrar?
Lá dentro, Adalberto, vendo-os entrar, veio
ao encontro deles e recomendou que fossem di-
reto para a salinha de entrevistas, onde um mé-
dium iria analisar o caso de cada um e recomen-
dar o tratamento ideal.
Depois da entrevista, o óbvio se confirmou:
Tonico e Mariazinha fariam um tratamento espi-
ritual simples, porém Zezinho, além do tratamen-
to espiritual, seria atendido pela equipe de
desobsessão 13, pois tinha angariado companhei-
ros muito infelizes, desconhecedores das verda-
des evangélicas e que seriam orientados nessa
reunião.
Às vezes, o simples fato de seguir uma reli-
gião não é o suficiente. O lar, apesar de muitos
desconhecerem, é o verdadeiro templo. Pensa-
mentos e atitudes devem ser vigiados. Bem que
Jesus nos aconselhou, muito tempo atrás, “orai
e vigiai”. Verdades pouco seguidas, trazendo in-
felicidade e tragédias para o seio da família.
O médium que entrevistou Tonico recomen-
dou que fizesse o Evangelho no Lar14, pois esta
prática iria ajudar muito no tratamento. Tonico
e Mariazinha gostaram da idéia e pretendiam
colocá-la em prática com a ajuda de Adalberto,
13 - Desobsessão: reunião realizada no Centro Espírita para esclarecer o espíri-to obsessor, pois este geralmente tem pouco conhecimento evangélico. O obje-tivo é que ele desista dos seus propósitos de vingança. 14 - Evangelho no Lar: reunião feita para oração e estudo de O Evangelho Se-gundo o Espiritismo. É realizada sempre no mesmo dia da semana e no mesmo horário para facilitar a presença dos amigos espirituais e para a proteção do lar.
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que se prontificou a auxiliá-los nas primeiras se-
manas.
Depois da reunião, encontraram-se todos na
livraria, Adalberto, Rose, Tonico, Mariazinha e
Zezinho, menos Valdomiro, que conversava com
Fina sobre os vários tipos de mediunidade exis-
tentes.
Rose já estava a par dos fatos. Adalberto ex-
plicou-lhe por alto os acontecimentos que ocor-
reram naquela encarnação tão conturbada, em
que ela, por desconhecimento, tinha “conquis-
tado” três ferrenhos perseguidores. Agora era
preciso fazer a reconciliação para que a vida con-
tinuasse com naturalidade, buscar o aperfeiçoa-
mento de todos, porque é assim que evoluímos,
um ajudando o outro.
– Seu Adalberto, será que conseguiremos
sensibilizar Josafá? Ele me parece estar tão en-
durecido. Tenho muito medo de que ele não me
perdoe – dizia Rose, entristecida.
– Por mais duro que seja o coração, sempre
é possível encontrar uma brecha, e por aí vamos
tentar fazê-lo entender que a vingança não leva
a nada e que perdoar é mais gratificante. E de-
pois, Josafá já está há muito tempo nessa situa-
ção infeliz, acredito que não será difícil convencê-
lo, mesmo porque ele é um espírito inteligente e
compreenderá nossos argumentos.
– Deus te ouça – disse Rose, num suspiro,
com uma pontinha de preocupação.
Nisso entrou Valdomiro todo sorridente.
– Oi, gente! Como estão todos? – Perguntou
alegre. Porém, ao ver a carinha triste de Rose,
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o sorriso que trazia estampado se apagou. – Que
aconteceu? Pensei que estivesse tudo bem. Você
saiu do hospital, está hospedada melhor do que
ninguém e já está bem. Por que essa carinha de
tristeza?
– Ela está preocupada com Josafá, acha que
ele não poderá perdoá-la pelo que aconteceu –
explicou Adalberto.
– Mas, pelo que entendi, quem sofreu mais
foi o Gerônimo. Esse sim poderá dar preocupa-
ções. – Valdomiro foi falando e inconscientemen-
te pegou na mão de Rose com carinho.
Os olhos de ambos se encontraram, com ter-
nura. Não foi preciso palavras. Por alguns mo-
mentos ficaram parados, ali, um olhando para o
outro, como que hipnotizados pelo amor. Aque-
le instante mágico, segundos apenas, parecia
eterno. Essa é a magia do tempo que só o amor
puro é capaz de realizar. Suas almas se afina-
ram, se reencontraram como duas notas musi-
cais, formando uma bela melodia.
Como a realidade é outra, e não de sonhos,
Adalberto deu uma pigarreada, acordando os
dois jovens do transe. Disfarçaram e, encabula-
dos, tentaram voltar à normalidade.
– Como você estava falando... – Adalberto
deu uma paradinha de propósito. – Gerônimo é
o que menos me preocupa. Ele aceitará qual-
quer situação que seja melhor que a atual. Josafá
irá questionar tudo, não será fácil convencê-lo.
– Quando iremos saber realmente? – Quis
saber Valdomiro.
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– Precisamos ir ao casarão. Lá faremos uma
reunião para esclarecermos. Tentarei então o
contato com os três e vamos ver se conseguimos
convencê-los a virem ao Centro. Se conseguir-
mos, eles darão comunicação e, se possível, se-
rão doutrinados.
– Voltar ao casarão?! – Rose se espantou com
a idéia.
– Não se preocupe, estaremos acompanha-
dos de espíritos amigos que irão nos auxiliar.
– Pode ser, mas que dá arrepios, isso dá –
falou Rose, preocupada.
– Também não fico à vontade naquele casa-
rão – disse Valdomiro.
– Vamos só marcar um dia, precisamos com-
binar com Fina, para que ela vá com a gente –
completou Adalberto.
Na saída, Valdomiro tomou coragem, se
aproximou de Rose e perguntou:
– Não quer dar uma voltinha? Depois eu a
levo para casa.
– Eu gostaria – falou Rose, entusiasmada.
– Vejam se não ficam até tarde na rua, hem?
– Disse Adalberto. Os dois riram e saíram.
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