Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 6 de 10

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Os Segredos do Casarão

O problema de Tonico

Elizabeth Artmann

 

O

 

Problema de

 

Tonico

 

Terminada a narrativa, Adalberto deu um

suspiro e olhou para o mentor espiritual Geral-

do, como que perguntando por que havia sido

interrompido o “relato”.

– Já é tarde, Adalberto, você tem de voltar

para o seu corpo.

– Obrigado pela ajuda – agradeceu, menta-

lizou o corpo e numa fração de segundos já es-

tava nele.

Eram seis horas da manhã quando o des-

pertador soou a campainha, acordando o mé-

dium. Levantou-se, fez sua higiene, tomou o café

da manhã que sua esposa já havia preparado e

saiu para mais uma de suas caminhadas mati-

 

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nais. Por ser aposentado, procurava manter a

forma física andando.

Na padaria, Valdomiro terminava uma for-

nada de pãezinhos cheirosos e quentinhos, dei-

xando no ar aquele aroma delicioso. Tonico, mais

uma vez, não havia aparecido para o trabalho e

seu Joaquim voltou a falar em despedi-lo. Em

conversas anteriores, Tonico contara mais ou

menos o seu problema para Valdomiro. Zezi-

nho, único filho, estava andando com compa-

nhias não muitos recomendáveis, embriagan-

do-se e, algumas vezes, quando estava sóbrio,

dizia ver um vulto que parecia ser seu avô. Seu

pai também suspeitava de que ele estava usan-

do drogas.

Valdomiro resolveu passar na casa do ami-

go na hora do almoço, para tentar ajudá-lo de

alguma forma; no mínimo, tentar fazer com que

ele não faltasse tanto ao trabalho, pois isso iria

prejudicá-lo ainda mais.

Era mais de meio-dia e meia quando Valdo-

miro chegou à casa de Tonico. Bateu palmas e

gritou:

– Ó de casa! Tem alguém aí?

Tonico saiu sorridente. Apesar dos proble-

mas enfrentados, ele sempre mantinha o bom

humor.

– O padeiro de araque está perdido? – Disse

ele, brincando com Valdomiro. – Vá entrando

que a casa é sua.

Valdomiro entrou e foi logo sentando no sofá.

– Valdomiro, quer um cafezinho? – Pergun-

tou a esposa de Tonico.

 

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– Não, obrigado, Mariazinha.

– Qual o motivo de sua visita, há algum pro-

blema na padaria? – Quis saber Tonico. – Seu

Joaquim falou alguma coisa de mim?

– Falou, e está ficando difícil contornar a si-

tuação. Você precisa dar um jeito para não fal-

tar tanto. Logo o “homem” perde totalmente a

paciência e acaba mandando você embora. Ele

só não fez isso ainda porque você é bom funcio-

nário e eu estou sempre dando um jeito.

– É, e eu agradeço muito. Meu filho ficou

a noite toda fora de casa e eu não conseguia

dormir.

– É por isso que eu vim aqui. Houve uma

época em que você me criticava, me chamando

de ateu, só porque eu não seguia nenhuma reli-

gião. Na verdade eu experimentei seguir várias,

e você até mesmo me levou algumas vezes na

sua igreja para participar do culto. Mas nunca

encontrava respostas para minhas perguntas. Só

que agora encontrei, sou feliz e por isso estou

aqui para tentar ajudá-los, vai depender só de

vocês.

– E que religião é essa que conseguiu cati-

var você? – Perguntou Tonico.

– Espiritismo – respondeu Valdomiro, com

bastante convicção.

Tonico e sua esposa entreolharam-se e fica-

ram boquiabertos, com uma tremenda cara de

espanto.

– Espiritismo?! Você está maluco? Isso é

coisa do demo! – Gritou Tonico, ficando de

 

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pé em frente a Valdomiro, que continuava tran-

qüilo.

– Não é, não – respondeu ele. – É a melhor

coisa que poderia ter acontecido comigo. E tem

mais: você me levou umas três vezes para assis-

tir ao culto em sua igreja, agora vou levar você

para participar de uma reunião espírita.

– Vai? E quando vai ser isso? – Perguntou

Tonico, tentando zombar e desafiar o amigo.

– Hoje.

– Hoje?!!!

– É, sim, você está surdo ou está dando uma

de mané, hem?

Tonico olhou para a esposa, como quem pro-

curasse defesa para sair daquela situação, po-

rém ela só encolheu os ombros e fez biquinho,

como quem dissesse: “Você é quem decide”.

Afinal, o amigo estava ali apenas tentando aju-

dar e dizer não seria, no mínimo, indelicado.

Além disso, Tonico ia ao culto apenas por hábi-

to, pois não encontrava todas as respostas para

suas dúvidas, mas, como se sentia bem indo lá,

continuava a freqüentar.

– Não sei, não – falou Tonico, coçando o

queixo.

Valdomiro se ajeitou na poltrona, tomou um

ar mais sério e falou num timbre de voz mais

forte, diferente do jeito que costumava falar.

– Tonico, somos amigos há muito tempo,

mais tempo do que você pode imaginar. Sem-

pre respeitei você, sempre procurei ser o seu

melhor amigo, porém o momento requer serie-

 

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dade para que consigamos resolver todos os nos-

sos problemas. Quando você pediu, eu o acom-

panhei para assistir ao culto da sua igreja. Não

era o que eu queria, mas em atenção à nossa

amizade, eu fui. Hoje estou pedindo apenas que

você vá só uma vez comigo à reunião no Centro

Espírita. Só uma vez. Apenas um pouquinho de

esforço, que, acredito, será muito recompensador.

Tonico ficou parado, meio espantado com a

forma de falar do amigo. Nunca o havia visto

falar daquele jeito e com aquela voz tão estra-

nha, mas que ao mesmo tempo parecia tão fa-

miliar, parecendo ser a voz de uma pessoa mui-

to próxima da família.

– Às dezenove horas passarei aqui para pegar

você. Esteja pronto – falou Valdomiro, saindo em

seguida, não dando tempo para o amigo retrucar.

Na rua, Valdomiro deu um suspiro e come-

çou a pensar no que havia acontecido. Nunca

tinha tido uma experiência tão estranha, nada

parecido com aquilo. Era como se alguém falas-

se por meio dele. E aquela dormência no cor-

po... Era tudo muito estranho. Estava tão distraí-

do que quase deu uma trombada em Adalberto,

que se encontrava no seu caminho.

– Olhe para onde vai, meu rapaz. Assim você

vai acabar atropelando alguém – brincou Adal-

berto.

Valdomiro contou em poucas palavras para

o amigo o que havia ocorrido na casa de Tonico.

Adalberto escutou com atenção e esclareceu o

rapaz:

 

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– Você deve ter uma mediunidade mais acen-

tuada. Teve uma experiência de incorporação

espontânea e precisa estudar a Doutrina Espíri-

ta8 e trabalhar para aperfeiçoar a sua mediuni-

dade e ter controle sobre isso9.

– Inco... o quê?! – Espantou-se Valdomiro.

– Incorporação é a comunicação de um espí-

rito por meio de um médium. Você ainda não

sabe nada sobre isso?

– Sim, sei, agora me lembro. Li sobre isso

num livro que o senhor me emprestou.

– Acho que você deveria fazer sua inscrição

no curso preparatório para o Espiritismo hoje

mesmo.

– Acha mesmo? – Perguntou Valdomiro.

– É lógico. Você, sendo um médium em po-

tencial, pode ter servido de intercâmbio. Veja,

talvez algum parente ou espírito protetor do seu

amigo estivesse lá tentando ajudá-lo e, ao ouvir

a conversa e perceber sua mediunidade acentua-

da, aproveitou para exprimir de forma mais di-

reta o seu conselho.

– Entendi. Mas não é necessário que o mé-

dium faça uma preparação antes que aconte-

ça uma incorporação? – Quis saber Valdo-

miro.

 

8 - Para conhecer a Doutrina Espírita é necessário o estudo dos livros básicos da Codificação de Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gê-nese, O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno. 9 - Mediunidade é a capacidade de nos comunicarmos com o mundo espiritual, seja em sonho, por meio de intuição ou de qualquer outra maneira. Todos somos médiuns, pois a influência dos espíritos se exerce sobre nós de alguma maneira.

 

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– Em condições normais, sim. Mas ali a ne-

cessidade da comunicação era urgente e o mé-

dium não precisa necessariamente estar saben-

do que vai haver uma comunicação. Isso ocorre

a todo instante, nós estamos constantemente em

contato com os espíritos, estamos muitas vezes

sendo intuídos. Basta só um pouco mais de sen-

sibilidade e o intercâmbio acontece.

– Que maravilha! Quer dizer que alguém co-

nhecido de Tonico me utilizou para convencê-lo

a ir ao Centro Espírita? Bem esperto! Que coisa

fascinante!

– Se convenceu eu não sei, só saberemos à

noite – disse Adalberto, colocando uma das mãos

no ombro de Valdomiro. – Pouco sabemos da

real grandeza do mundo em que vivemos, e,

além disso, ele tem o livre-arbítrio.

Valdomiro olhou para Adalberto, tentando al-

cançar o verdadeiro significado daquelas palavras,

quando deparou com o relógio da igreja.

– Caramba, já são quase duas horas! Seu

Joaquim deve estar subindo pelas paredes! – E

saiu correndo. – Até logo, seu Adalberto, e obri-

gado pelas explicações.

Adalberto abanou a mão em sinal de despe-

dida e voltou para o seu caminho, sorrindo e

meditando sobre a experiência de Valdomiro.

Como é interessante a espiritualidade trabalhan-

do sempre no auxílio dos encarnados! E estes

na maioria das vezes não têm a menor idéia do

que recebem, ignorando e não tirando proveito

desse precioso auxílio. Se ao menos o homem

 

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procurasse higienizar mais seus pensamentos,

imaginando coisas boas, procurando ver o lado

bom de tudo e de todos, com certeza receberia

muito mais ajuda.

 

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