Os Segredos do Casarão
O problema de Tonico
Elizabeth Artmann
O
Problema de
Tonico
Terminada a narrativa, Adalberto deu um
suspiro e olhou para o mentor espiritual Geral-
do, como que perguntando por que havia sido
interrompido o “relato”.
– Já é tarde, Adalberto, você tem de voltar
para o seu corpo.
– Obrigado pela ajuda – agradeceu, menta-
lizou o corpo e numa fração de segundos já es-
tava nele.
Eram seis horas da manhã quando o des-
pertador soou a campainha, acordando o mé-
dium. Levantou-se, fez sua higiene, tomou o café
da manhã que sua esposa já havia preparado e
saiu para mais uma de suas caminhadas mati-
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nais. Por ser aposentado, procurava manter a
forma física andando.
Na padaria, Valdomiro terminava uma for-
nada de pãezinhos cheirosos e quentinhos, dei-
xando no ar aquele aroma delicioso. Tonico, mais
uma vez, não havia aparecido para o trabalho e
seu Joaquim voltou a falar em despedi-lo. Em
conversas anteriores, Tonico contara mais ou
menos o seu problema para Valdomiro. Zezi-
nho, único filho, estava andando com compa-
nhias não muitos recomendáveis, embriagan-
do-se e, algumas vezes, quando estava sóbrio,
dizia ver um vulto que parecia ser seu avô. Seu
pai também suspeitava de que ele estava usan-
do drogas.
Valdomiro resolveu passar na casa do ami-
go na hora do almoço, para tentar ajudá-lo de
alguma forma; no mínimo, tentar fazer com que
ele não faltasse tanto ao trabalho, pois isso iria
prejudicá-lo ainda mais.
Era mais de meio-dia e meia quando Valdo-
miro chegou à casa de Tonico. Bateu palmas e
gritou:
– Ó de casa! Tem alguém aí?
Tonico saiu sorridente. Apesar dos proble-
mas enfrentados, ele sempre mantinha o bom
humor.
– O padeiro de araque está perdido? – Disse
ele, brincando com Valdomiro. – Vá entrando
que a casa é sua.
Valdomiro entrou e foi logo sentando no sofá.
– Valdomiro, quer um cafezinho? – Pergun-
tou a esposa de Tonico.
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– Não, obrigado, Mariazinha.
– Qual o motivo de sua visita, há algum pro-
blema na padaria? – Quis saber Tonico. – Seu
Joaquim falou alguma coisa de mim?
– Falou, e está ficando difícil contornar a si-
tuação. Você precisa dar um jeito para não fal-
tar tanto. Logo o “homem” perde totalmente a
paciência e acaba mandando você embora. Ele
só não fez isso ainda porque você é bom funcio-
nário e eu estou sempre dando um jeito.
– É, e eu agradeço muito. Meu filho ficou
a noite toda fora de casa e eu não conseguia
dormir.
– É por isso que eu vim aqui. Houve uma
época em que você me criticava, me chamando
de ateu, só porque eu não seguia nenhuma reli-
gião. Na verdade eu experimentei seguir várias,
e você até mesmo me levou algumas vezes na
sua igreja para participar do culto. Mas nunca
encontrava respostas para minhas perguntas. Só
que agora encontrei, sou feliz e por isso estou
aqui para tentar ajudá-los, vai depender só de
vocês.
– E que religião é essa que conseguiu cati-
var você? – Perguntou Tonico.
– Espiritismo – respondeu Valdomiro, com
bastante convicção.
Tonico e sua esposa entreolharam-se e fica-
ram boquiabertos, com uma tremenda cara de
espanto.
– Espiritismo?! Você está maluco? Isso é
coisa do demo! – Gritou Tonico, ficando de
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pé em frente a Valdomiro, que continuava tran-
qüilo.
– Não é, não – respondeu ele. – É a melhor
coisa que poderia ter acontecido comigo. E tem
mais: você me levou umas três vezes para assis-
tir ao culto em sua igreja, agora vou levar você
para participar de uma reunião espírita.
– Vai? E quando vai ser isso? – Perguntou
Tonico, tentando zombar e desafiar o amigo.
– Hoje.
– Hoje?!!!
– É, sim, você está surdo ou está dando uma
de mané, hem?
Tonico olhou para a esposa, como quem pro-
curasse defesa para sair daquela situação, po-
rém ela só encolheu os ombros e fez biquinho,
como quem dissesse: “Você é quem decide”.
Afinal, o amigo estava ali apenas tentando aju-
dar e dizer não seria, no mínimo, indelicado.
Além disso, Tonico ia ao culto apenas por hábi-
to, pois não encontrava todas as respostas para
suas dúvidas, mas, como se sentia bem indo lá,
continuava a freqüentar.
– Não sei, não – falou Tonico, coçando o
queixo.
Valdomiro se ajeitou na poltrona, tomou um
ar mais sério e falou num timbre de voz mais
forte, diferente do jeito que costumava falar.
– Tonico, somos amigos há muito tempo,
mais tempo do que você pode imaginar. Sem-
pre respeitei você, sempre procurei ser o seu
melhor amigo, porém o momento requer serie-
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dade para que consigamos resolver todos os nos-
sos problemas. Quando você pediu, eu o acom-
panhei para assistir ao culto da sua igreja. Não
era o que eu queria, mas em atenção à nossa
amizade, eu fui. Hoje estou pedindo apenas que
você vá só uma vez comigo à reunião no Centro
Espírita. Só uma vez. Apenas um pouquinho de
esforço, que, acredito, será muito recompensador.
Tonico ficou parado, meio espantado com a
forma de falar do amigo. Nunca o havia visto
falar daquele jeito e com aquela voz tão estra-
nha, mas que ao mesmo tempo parecia tão fa-
miliar, parecendo ser a voz de uma pessoa mui-
to próxima da família.
– Às dezenove horas passarei aqui para pegar
você. Esteja pronto – falou Valdomiro, saindo em
seguida, não dando tempo para o amigo retrucar.
Na rua, Valdomiro deu um suspiro e come-
çou a pensar no que havia acontecido. Nunca
tinha tido uma experiência tão estranha, nada
parecido com aquilo. Era como se alguém falas-
se por meio dele. E aquela dormência no cor-
po... Era tudo muito estranho. Estava tão distraí-
do que quase deu uma trombada em Adalberto,
que se encontrava no seu caminho.
– Olhe para onde vai, meu rapaz. Assim você
vai acabar atropelando alguém – brincou Adal-
berto.
Valdomiro contou em poucas palavras para
o amigo o que havia ocorrido na casa de Tonico.
Adalberto escutou com atenção e esclareceu o
rapaz:
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– Você deve ter uma mediunidade mais acen-
tuada. Teve uma experiência de incorporação
espontânea e precisa estudar a Doutrina Espíri-
ta8 e trabalhar para aperfeiçoar a sua mediuni-
dade e ter controle sobre isso9.
– Inco... o quê?! – Espantou-se Valdomiro.
– Incorporação é a comunicação de um espí-
rito por meio de um médium. Você ainda não
sabe nada sobre isso?
– Sim, sei, agora me lembro. Li sobre isso
num livro que o senhor me emprestou.
– Acho que você deveria fazer sua inscrição
no curso preparatório para o Espiritismo hoje
mesmo.
– Acha mesmo? – Perguntou Valdomiro.
– É lógico. Você, sendo um médium em po-
tencial, pode ter servido de intercâmbio. Veja,
talvez algum parente ou espírito protetor do seu
amigo estivesse lá tentando ajudá-lo e, ao ouvir
a conversa e perceber sua mediunidade acentua-
da, aproveitou para exprimir de forma mais di-
reta o seu conselho.
– Entendi. Mas não é necessário que o mé-
dium faça uma preparação antes que aconte-
ça uma incorporação? – Quis saber Valdo-
miro.
8 - Para conhecer a Doutrina Espírita é necessário o estudo dos livros básicos da Codificação de Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gê-nese, O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno. 9 - Mediunidade é a capacidade de nos comunicarmos com o mundo espiritual, seja em sonho, por meio de intuição ou de qualquer outra maneira. Todos somos médiuns, pois a influência dos espíritos se exerce sobre nós de alguma maneira.
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– Em condições normais, sim. Mas ali a ne-
cessidade da comunicação era urgente e o mé-
dium não precisa necessariamente estar saben-
do que vai haver uma comunicação. Isso ocorre
a todo instante, nós estamos constantemente em
contato com os espíritos, estamos muitas vezes
sendo intuídos. Basta só um pouco mais de sen-
sibilidade e o intercâmbio acontece.
– Que maravilha! Quer dizer que alguém co-
nhecido de Tonico me utilizou para convencê-lo
a ir ao Centro Espírita? Bem esperto! Que coisa
fascinante!
– Se convenceu eu não sei, só saberemos à
noite – disse Adalberto, colocando uma das mãos
no ombro de Valdomiro. – Pouco sabemos da
real grandeza do mundo em que vivemos, e,
além disso, ele tem o livre-arbítrio.
Valdomiro olhou para Adalberto, tentando al-
cançar o verdadeiro significado daquelas palavras,
quando deparou com o relógio da igreja.
– Caramba, já são quase duas horas! Seu
Joaquim deve estar subindo pelas paredes! – E
saiu correndo. – Até logo, seu Adalberto, e obri-
gado pelas explicações.
Adalberto abanou a mão em sinal de despe-
dida e voltou para o seu caminho, sorrindo e
meditando sobre a experiência de Valdomiro.
Como é interessante a espiritualidade trabalhan-
do sempre no auxílio dos encarnados! E estes
na maioria das vezes não têm a menor idéia do
que recebem, ignorando e não tirando proveito
desse precioso auxílio. Se ao menos o homem
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procurasse higienizar mais seus pensamentos,
imaginando coisas boas, procurando ver o lado
bom de tudo e de todos, com certeza receberia
muito mais ajuda.
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