Os Segredos do Casarão
Na padaria
Na
Padaria
Era um daqueles dias cujo calor estava insu-
portável, beirando os 40 graus. Mesmo à som-
bra era incômodo, o sol quente parecia derreter
tudo. O vento soprava, porém também era quen-
te e não refrescava nada. Mas cada um buscava
a sua maneira de passar por aquele dia, pedindo
por uma chuva abençoada para amenizar o calor.
Rose parecia não estar incomodada, pois
continuava com seu passo arrastado, o corpo li-
geiramente inclinado para a frente, como se car-
regasse um fardo às costas, apoiada em uma ben-
gala improvisada, seguindo em direção à pada-
ria. Fizesse sol, como naquele dia, ou debaixo
de chuva, até mesmo no frio, todos os dias ela
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fazia aquela caminhada dolorosa, parecia peni-
tência.
Chegando à porta da padaria, era pratica-
mente impossível não chamar a atenção das pes-
soas presentes. Todos a olhavam, cada um à sua
maneira, uns com repulsa, outros com pena;
havia também os indiferentes, mas ninguém che-
gava perto, uma força estranha os repelia.
Rose não era feia, também não era linda;
tinha uma aparência comum, mas seu estado de-
plorável a transformava num monte de trapos
sujos, repugnante, parecia não tomar banho ha-
via muito tempo. Sua postura inclinada, apesar
de ela não ser corcunda, deixava os presentes
espantados. Tudo aquilo era incomum e ninguém
tentaria dar uma explicação para a situação em
que se encontrava a jovem. Sim, apesar da es-
tranha aparência, era jovem ainda, talvez uns
26 anos. Ela apenas havia parado de se cuidar e
com isso adquirido aquele desagradável aspecto.
Vivia sozinha em um casarão de esquina e
não permitia a aproximação de ninguém. Qual-
quer tentativa de aproximação era repelida com
grunhidos, resmungos, xingamentos e ameaças
com sua bengala.
Margareth, moradora antiga da cidade, es-
tava encostada no balcão, distraída, esperando
sua vez de ser atendida, quando sentiu nas cos-
tas uma espécie de espetada, transmitindo um
mal-estar horrível por toda a coluna, como se
estivesse sendo perfurada por um estilete. Com
sua sensibilidade e levada pelo instinto, olhou
para trás e deu de cara com Rose e aquele seu
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olhar de peixe morto, sem graça. Margareth le-
vou um susto, saindo imediatamente para o lado,
deixando passagem livre para a jovem encur-
vada, que se aproximou do balcão estendendo
a mão com o dinheiro.
Joaquim, velho padeiro, também havia mui-
to instalado na cidade, já estava acostumado
com Rose e procurou atendê-la rapidamente,
pois sua presença causava incômodo a todos que
ali estavam. Depois de lhe entregar os pães e
um litro de leite, deu-lhe o troco, despedindo-se,
sem, no entanto, obter resposta.
Rose deu meia-volta e buscou a saída, pou-
cos metros que pareciam não terminar, ignoran-
do as pessoas que estavam à sua volta, como se
estivesse isolada num mundo só dela. Todos, no
entanto, a acompanhavam com o olhar; alguns
chegaram até a porta para ver melhor. Ninguém
se atreveu a fazer nenhum comentário. Valdo-
miro, o ajudante e aprendiz de padeiro, rapaz
inteligente e observador, veio de lá de dentro e
foi entendendo logo o que estava acontecendo,
pois vira Rose já na rua, quase se arrastando,
sob o olhar de todos.
– É esquisito mesmo – disse ele, logo atrás
do patrão, Joaquim, que limpava o balcão com
um pano que provavelmente não limpava nada
de tão sujo que estava.
– Esquisito por quê? – Respondeu com uma
pergunta o velho padeiro, sem olhar o rapaz.
– Lembro-me bem de quando ela chegou à
cidade – disse Valdomiro.
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Valdomiro juntou-se aos outros para acom-
panhá-la com o olhar. Ela já estava a uma certa
distância.
– Lembro-me de quando ela chegou – con-
tinuou ele. – Andava normalmente, como qual-
quer pessoa; depois de algum tempo foi se encur-
vando, encurvando, até ficar assim. O que é es-
quisito mesmo é que algumas vezes eu a vi cami-
nhando normalmente. Alguma coisa muito, mui-
to estranha está atormentando essa moça. Eu
não entendo como pôde chegar a uma situação
tão deplorável, coitada.
Margareth, que ainda estava perto do bal-
cão, não pôde deixar de ouvir o comentário e
arriscou um palpite:
– Com certeza ela está envolvida com “coi-
sas” que não são deste mundo. Não sabemos o
que essa moça andou aprontando. Tudo o que é
sobrenatural é muito complexo...
Valdomiro pensou em retrucar, mas se con-
teve, sentiu que talvez ela estivesse mesmo com
razão. Intuitivamente Margareth estava certa:
graças a sua sensibilidade ela conseguia captar
no ar algumas coisas que pessoas comuns não
conseguiam. Ele, pessoalmente, tinha a sensa-
ção de ter algo a ver com aquela moça, uma
estranha atração por ela. Não sabia como, nem
por quê, mas, como era praticamente impossível
se aproximar dela, ficava a esperar por uma
oportunidade. Quem sabe um dia ele poderia,
de alguma forma, entendê-la e ajudá-la?
Enquanto isso, lá fora, Luiz Antonio, um ra-
paz que não era muito dado ao trabalho, filho
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de um fazendeiro da região, pedia mais uma cer-
veja, sentado num banquinho à volta de uma
mesinha, acompanhado de mais dois compa-
nheiros: Miguel, o sapateiro, e Anibal, dono da
pequena gráfica da cidade. O berro de Luiz Anto-
nio, já com um leve sintoma de embriaguez, fez o
clima pesado da padaria mudar e todos voltaram
aos seus afazeres e ao assunto do dia: o calor.
Rose, já livre dos olhares das pessoas da pa-
daria, ia enfrentar outros olhares. Já próximo à
sua casa, quando passava em frente à casa de
Rosália, a fofoqueira da cidade, como era conhe-
cida, foi inevitável ouvir o cumprimento, acom-
panhado como sempre de um ar de provocação.
– Boa tarde, dona Rose, não melhorou ain-
da de suas costas?
Rose não deu atenção, cruzou a rua e se-
guiu para casa. Naquele instante chegava a vizi-
nha da direita de Rosália, Matilde, senhora dis-
creta que não nutria grande simpatia, para não
dizer nenhuma, pela sua vizinha fofoqueira, que
não se incomodava nem perdia a oportunidade
de atazanar a vida alheia, fosse de quem fosse,
além de não se importar de forma alguma com
as conseqüências.
– Viu, dona Matilde, quem passou neste ins-
tante por aqui?
– Não, não reparei – respondeu Matilde, sem-
pre educada, não alongando mais a resposta
para poder se desvencilhar daquela situação.
Buscando assim o refúgio de seu lar, fugindo do
calor e para não ficar ali por um assunto que
poderia se prolongar e que não as levaria a nada.
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– Aquela moça que mora sozinha no casa-
rão da esquina. Tô achando que ela tá ficando
cada vez mais louca. Acho até que a gente devia
fazer alguma coisa.
– Acredito que deva ser feita alguma coisa,
mas não serei eu nem a senhora que iremos fa-
zer. Com licença, pois tenho deveres a cumprir.
Passe bem, dona Rosália – respondeu Matilde,
entrando em casa.
– Dona uma pinóia. Senhorita, ouviu? Se-
nho-ri-ta. – Rosália fez questão de soletrar seu
estado civil, como se isso fosse alguma vanta-
gem. Na verdade, por trás desse aparente orgu-
lho havia arrependimento, pois ela se sentia
muito só. Quando ainda era jovem, chegou a
ter alguns namorados, mas eles acabaram não
suportando suas grosserias.
Porém, já não havia como responder, pois
Matilde já tinha entrado, sem se preocupar com
os arroubos de sua vizinha inconseqüente, cuja
fisionomia demonstrava que já não era mais ne-
nhuma jovem, apesar de ela não querer assu-
mir, e que o título de senhorita já não lhe caía
bem. A vida que levara até aquele momento não
trouxera grandes conquistas no campo sentimen-
tal. Com aquela forma de se relacionar com os
semelhantes e a fama que adquiriu, poucos ami-
gos haviam ficado e, provavelmente, estes não
eram sinceros. Os frutos dependem de uma boa
plantação, quem quer colher bons frutos tem de
começar a plantar boas sementes desde cedo.
Se bem que nunca é tarde para começar. Uma
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boa reforma íntima ajuda muito em qualquer
época de nossa vida.
O futuro certamente cobra a plantação; cabe
a cada um colher o que plantou.
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