Os Segredos do Casarão
No Centro Espírita
Elizabeth Artmann
No
Centro Espírita
Já eram mais de dezenove horas e quase
todos os trabalhadores do Centro Espírita já ha-
viam chegado. Valdomiro chegou com Tonico,
que vinha atrás, observando tudo com olhar des-
confiado.
– Tem certeza de que não tem nenhum peri-
go aqui? – Perguntou.
– Tenho, você só vai encontrar amigos por
aqui – respondeu Valdomiro com firmeza. – São
pessoas normais como você e eu.
– Eu posso ajudar os companheiros? –
Perguntou uma senhora simpática, se aproxi-
mando.
– Obrigado, precisamos falar com seu
Adalberto. Ele já chegou? – Indagou Valdomiro.
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– Sim, está na livraria.
Valdomiro agradeceu, fez sinal para Tonico
acompanhá-lo e foi em direção à livraria. Lá,
Adalberto conversava com uma das voluntárias
que cuidava da venda dos livros.
– Então, Tereza, está gostando do seu novo
trabalho? – Perguntava ele.
– Nossa! Seu Adalberto, nunca me senti tão
bem em minha vida! É tão maravilhoso! Quan-
do é o meu dia de dar plantão aqui, eu não vejo
a hora de vir. Gosto muito de ler, leio quase to-
dos os lançamentos e quando as pessoas vêm
aqui precisando de ajuda, na busca de algum
livro, procuro orientá-las para levarem o que
possa lhes dar as respostas de que precisam. E
sabe que interessante, quando acabam de ler
vêm me procurar para agradecer o bem que a
leitura lhes fez.
– Ótimo, vamos torcer para que esse seu en-
tusiasmo perdure por muito tempo e, se as pes-
soas estão gostando, continue assim, não é?
– Eu acho que sim. Estou até planejando for-
mar um clube do livro espírita. O que o senhor
acha? – Perguntou a moça.
– Toda iniciativa é válida, porém você preci-
sa tomar cuidado para não se sobrecarregar e
acabar perdendo o ânimo. É preciso administrar
bem o seu tempo para que nenhum dos traba-
lhos seja prejudicado. Procure reunir mais auxi-
liares para os novos projetos. Assim você pode-
rá executá-los com mais segurança e estará dan-
do oportunidade de outras pessoas também se-
rem úteis.
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– Obrigada pela dica, seu Adalberto. É sem-
pre bom ouvir alguém com mais experiência. É
verdade, a gente fica muito entusiasmada e pode
acabar estragando tudo.
Adalberto sorriu. Nesse instante, Valdomiro
e Tonico entraram na livraria.
– Vejo que você conseguiu trazer o seu ami-
go – disse, dirigindo-se aos rapazes.
– É, aqui está o Tonico.
Como Adalberto já sabia da história do amigo
de Valdomiro, apertou a mão de Tonico e disse
a Valdomiro:
– Ainda temos tempo antes de começar a reu-
nião. Por que você não leva o Tonico para to-
mar um passe?
– Certo. Então, até já – respondeu Valdomiro.
– Venha, Tonico.
Depois de saírem da livraria, Tonico puxou
o braço do amigo e disse:
– Que negócio é esse de tomar passe?
– Relaxa, amigo, você vai gostar. E depois,
você nunca ouviu falar de imposição de mãos?
É a mesma coisa.
E foram para a sala de passes.
Às oito horas em ponto, Adalberto deu por
iniciada a reunião pública do Centro Espírita. Foi
feita a prece inicial por um dos participantes da
mesa. Em seguida, foi lido um trecho de O Evan-
gelho Segundo o Espiritismo. Adalberto fez o co-
mentário do texto lido. Falou, emocionando, à
platéia, sobre a passagem em que, estando Je-
sus crucificado entre dois ladrões, um deles pe-
diu ao Mestre:
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“Senhor, quando entrardes no vosso reino,
lembrai-vos de mim.”
Jesus, então, respondeu:
“Ainda hoje estaremos na casa do Pai.”
Valdomiro, por um gesto inconsciente, olhou
para Tonico. Este, envolto em profunda emoção,
deixou uma lágrima rolar pelo rosto. Valdomiro
sentiu uma felicidade muito grande. Fechou os
olhos e agradeceu mentalmente aos amigos es-
pirituais por aquele momento tão maravilhoso.
Terminado o comentário feito por Adalberto,
um outro senhor fez uma palestra sobre um tema
atual, enquanto os médiuns psicografavam.
No final, foi feita uma vibração e, em segui-
da, a prece final. Aquela senhora simpática que
os havia recebido na entrada aproximou-se de
Tonico e entregou-lhe um papel. Ele olhou para
Valdomiro e fez um gesto, como que perguntan-
do o que era aquilo.
– Não sei. Leia e veja o que é – respondeu
Valdomiro, também curioso.
Tonico começou a ler a mensagem, que co-
meçava assim:
“Querido filho, que a paz de Jesus sempre o
acompanhe. Sei que você está estranhando tudo,
mas mantenha a serenidade, que tudo dará cer-
to. Sua mãe, Clô, está muito bem, manda um
carinhoso abraço e pede para que você não...”
Tonico continuou a ler com profunda ansie-
dade. Mais uma vez as lágrimas voltaram a ro-
lar. Quando acabou de ler, olhou para Valdomiro
e disse:
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– Não compreendo, essas pessoas não sabem
nada sobre mim. Como podem falar de coisas tão
pessoais da minha vida? – Quis saber.
– De quem é a mensagem? – Indagou Val-
domiro.
– É de meu pai.
– Olha, Tonico, seu pai deve ser um grande
trabalhador no mundo dos espíritos e deve es-
tar tentando ajudá-lo. Você viu, o Espiritismo não
é nada daquilo que você pensava, não é?
– Tem razão, mas como vamos ajudar o meu
filho?
– Primeiramente, toda a família precisa vir
ao Centro Espírita e fazer um tratamento espiri-
tual. No caso do Zezinho, provavelmente será
necessário um tratamento mais cuidadoso. Com
o tempo veremos os resultados. É interessante
também que vocês leiam os livros espíritas, pois
esse conhecimento facilitará a solução dos pro-
blemas.
– Então vamos lá na livraria comprar alguns
livros – disse Tonico, entusiasmado.
– Calma! Por enquanto você precisa somen-
te de dois livros.
– Só dois?! E quais são eles?
– O primeiro é O Evangelho Segundo o Es-
piritismo, em que você vai se inteirar da parte
religiosa. O segundo é O Livro dos Espíritos. Por
meio dele você começará a entender o que é o
Espiritismo em sua parte filosófica. Mais para a
frente, vocês deverão ler O Livro dos Médiuns,
que explica como funcionam as várias espécies
de mediunidade. Tudo deve ser feito com muita
calma e sem pressa.
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– Você está bem por dentro dessas coisas,
hem? – Brincou Tonico.
– É interessante, a impressão que dá ao des-
cobrirmos o Espiritismo é que a gente perdeu
muito tempo e tenta-se quase que desesperada-
mente tirar o atraso. Seu Adalberto explicou que
essa sensação é natural, principalmente para
aqueles que vêm em busca de respostas, e que
isso acontece com as pessoas que estão mais ou
menos preparadas ou afins, mas que logo a gente
se acomoda e começa a fazer as coisas com mais
naturalidade. Eu ainda estou na fase eufórica,
já devorei uns sete livros.
Depois de comprarem os livros, saíram.
Adalberto conversava com Fina.
– E então, Tonico, qual foi sua primeira im-
pressão sobre o Espiritismo? – Perguntou Adal-
berto.
– Realmente não é nada daquilo que pintam
por aí – falava já num tom mais tranqüilo.
– Algumas pessoas falam mal por desconhe-
cimento. No momento em que se tem um conta-
to mais próximo, de alguma forma muda-se de
opinião. É a lógica de uma doutrina que não
deixa dúvidas em nada. Tudo é claro e direto.
– Ele até recebeu uma mensagem do pai
dele! – Interveio Valdomiro.
– Que maravilha, Tonico!
Tonico mostrou a mensagem para Adalberto,
que leu com atenção e explicou:
– Seria muito bom que na próxima reunião
você viesse com toda a família para iniciar os
tratamentos. Principalmente o seu filho.
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– É o que Valdomiro me falou; na próxima
reunião estaremos aqui – respondeu Tonico.
– É isso aí, você vai conseguir, tenha muita
fé e, principalmente, persevere.Você não tem
idéia de como o ter fé, o crer, nos traz transfor-
mações, e o plano espiritual sempre ajuda aque-
les que querem realmente ser ajudados – escla-
receu Adalberto.
Interrompendo a conversa, Valdomiro ques-
tionou Adalberto:
– Desculpe interromper, mas é que eu gosta-
ria de saber como está Rose, o senhor tem notí-
cias dela?
– Ela está se recuperando. A Fina estava di-
zendo que sentiu a presença dos “amiguinhos”
da Rose lá no quar to do hospital – disse
Adalberto.
– Puxa vida! Essa turma não perde tempo.
– Calma, são apenas espíritos desequilibra-
dos, que precisam também de ajuda. Vamos ter
de apressar o tratamento de Rose. Ela terá de
fazer um esforço para vir também na próxima
reunião. Assim tentaremos ajudar os “amigui-
nhos” dela também.
E assim despediram-se, indo cada um para
sua casa.
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