Os Segredos do Casarão
O casarão
Elizabeth Artmann
O
Casarão
Após atravessar a rua, Rose continuou a
difícil caminhada em direção à sua casa. Sentia
um incômodo terrível, não só pelo calor, mas
principalmente pelo fardo que tinha de carregar
nas costas. Ela não conseguia entender por que
aquela tristeza não ia embora, seu coração vivia
constantemente apertado, uma depressão estra-
nha que não sabia entender, mesmo em compa-
nhia dos seus “parentes”. Está certo que carre-
gar aquele marmanjão nas costas era terrivel-
mente cansativo, mas ela estava convicta de que
era o que tinha de fazer. Não sabia bem por quê,
mas tinha que carregar o Gerônimo nas costas
na maioria das vezes em que saía de casa. Afinal,
16
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
ele não podia ficar preso dentro de casa o tempo
todo e já que não tinha pernas para caminhar,
ela tinha de fazer esse sacrifício pelo seu “primo”.
Rose vinha de uma família rica, de grandes
posses. Herdou uma grande fortuna e duas em-
presas depois que seus pais desencarnaram em
um acidente e, como era filha única, resolveu
mudar de ares, na tentativa de esquecer o terrí-
vel acontecimento.
“Senhor Venâncio”, este era o nome do cor-
retor, “por que não me mostrou logo este casa-
rão? Teríamos poupado tempo, é bem o que es-
tou procurando”, falou Rose, toda entusiasmada
com o achado.
Algo a atraía naquele casarão, não sabia ex-
plicar o que exatamente, e acabou comprando-o,
fazendo planos de reformá-lo e ali ficar por al-
gum tempo, talvez investir em algo na cidade ou
na região. Mas, como a vida nos reserva gran-
des surpresas e, às vezes, terríveis segredos, no
mesmo dia em que pôs os pés no casarão sua
vida começou a mudar, e para pior.
A casa foi comprada junto com os móveis do
final do século XIX, à época do Brasil-Colônia, e
apesar de estar maltratada, com certeza havia
sido muito bonita, pois havia sinais da beleza de
outrora.
Enfurnada num quarto caindo aos pedaços,
ela foi piorando. Sua vontade já não lhe perten-
cia; sem entender o que realmente estava acon-
tecendo, ela foi se entregando cada vez mais
àquele envolvimento mórbido, estranho, corro-
sivo, que ia minando suas forças. Tinha planos
17
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
de procurar um médico, mas quando “falava”
no assunto, Josafá, um dos “primos”, virava uma
fera. O coitado do Gerônimo não ligava; a úni-
ca coisa que ele queria era ficar perto dela, pois
se sentia bem ao seu lado. Joaninha, a “prima”,
não permitia qualquer tentativa no sentido de
Rose se embelezar, colocar roupas novas ou qual-
quer enfeite, tais como brincos, broches, etc. Para
Rose ficar em paz com ela era só estar com aquele
vestido preto, surrado, que já pedia outro havia
muito tempo e que só era tirado do corpo para
uma rápida lavada, que Joaninha permitia so-
mente com a interferência de Gerônimo. Mas o
que intrigava Rose era o fato de seus primos se-
rem negros. Como eles podiam ser seus primos
se ela era branca? E não conhecia parente ne-
gro na família. Outra coisa que a deixava confu-
sa era não conseguir se lembrar de quando ha-
via se encontrado com seus parentes. Na verda-
de, o tempo já não era mais contado, pois ela já
não fazia idéia de quando havia começado aque-
la situação. Sua vida era comandada totalmente
pelos primos.
A escada de entrada da casa era a pior parte
da caminhada até a padaria. Cada degrau era
um verdadeiro suplício. Sorte que não eram
muitos, só cinco. A cada um que era vencido um
suspiro soava, sem trazer, no entanto, qualquer
alívio. Alívio mesmo Rose sentia quando se in-
clinava em frente ao altar erguido a mando dos
primos e fazia o sinal-da-cruz, momento em que
Gerônimo aproveitava para escorregar para o
sofá e ela podia voltar à posição normal.
18
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
Mais aliviada, Rose foi para a cozinha, le-
vando o pão e o leite e encontrando lá, sentado
à mesa, a figura repugnante de Josafá, com seus
enfeites pendurados no pescoço, pulseiras em
forma de correntes, anéis exageradamente gran-
des a enfeitar mãos igualmente grandes. Usava
uma camisa com estampas enormes, toda aber-
ta, mostrando o tórax; calça preta agarrada,
acompanhada de um par de botas, e na mão
uma vareta que era usada para agredir qualquer
oponente. Seu rosto não era realmente algo a
ser apreciado, parecia mais um homem das
cavernas, com o nariz e o queixo ligeiramente
avançados, e o crânio, de dimensões reduzidas,
davam uma má impressão. Seu olhar era diferen-
te, penetrante, provocava calafrios em quem
o mirasse. Rose o evitava, mantendo a cabeça
baixa.
Josafá estava nervoso, as saídas de Rose es-
tavam ficando cada vez mais longas e sua pa-
ciência já estava se esgotando. Principalmente
quando notou que ela não havia trazido o que
ele esperava. Soltou toda a sua ira, golpeando-a
com sua vareta e berrando como um louco.
– Não me bata mais, Josafá – implorava
Rose, acuada em um canto da cozinha. – Está
muito calor e as pessoas ficam me olhando o
tempo todo; e, depois, o Gerônimo é muito pe-
sado. Eu vou buscar a sua carne, tenha paciên-
cia, só mais um pouquinho.
– ...
– Está bem, mas fale você com ele; se eu
falar, ele vai querer ir de qualquer forma, aí eu
19
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
demoro porque ele pesa muito – se desculpava
Rose.
– ...
– É melhor, assim você mesmo escolhe a car-
ne de que mais gosta – disse Rose.
Se houvesse alguém presenciando a cena,
teria a certeza de que Rose estava louca, mas,
na verdade, Josafá dialogava com ela, inclusive
agredindo-a fisicamente1.
Estavam saindo quando Gerônimo gritou lá
de dentro que queria ir também. Bastou um olhar
de Josafá para que ele mudasse de idéia. Josafá
impunha respeito aos três, sua vontade era sem-
pre obedecida, não havia como retrucar. Seu
“poder” amedrontava a todos.
Já na rua, Rose andava normalmente desta
vez, mas sempre cabisbaixa. Inconscientemente
ela sentia vergonha de andar junto com aquela
figura aterradora, mas como desobedecer Josa-
fá? Ele, por sua vez, ia ao seu lado, todo garbo-
so, e fazia questão de cumprimentar todos que
passavam por eles. É lógico que nunca recebia
resposta. Mas ele não ligava, até se divertia. Al-
guns metros à frente, Josafá avistou um senhor
diferente e, em vez de cumprimentá-lo, passou
para o outro lado de Rose, quase num salto. Ela
notou e perguntou o que havia acontecido.
– ...
Rose espantou-se com a resposta dele:
– Como? Você é tão valente, como pode te-
mer aquele homem tão franzino?
1 - Nos casos mais graves de obsessão, o obsediado pode se sentir agredido fisicamente pelo seu obsessor e ter dores, escoriações e outros efeitos diversos (veja O Livro dos Médiuns, capítulo 23).
20
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
– ...
– Energia o quê? Agora você está fugindo
de energias cósmicas. Nem sei o que é isso.
– ...
– Saiba você que já estudei muito, mas nun-
ca ouvi falar de alguém que possa emanar ener-
gias como você está falando. Estou achando que
você está amolecendo.
Por que Rose foi dizer aquilo? Josafá deu-
lhe uma varetada, fazendo com que ela camba-
leasse, precisando apoiar-se no muro para não
cair. Ficou ali por alguns segundos a fim de re-
cobrar as forças.
– ...
– Desculpe, falei sem querer – disse Rose,
enxugando uma lágrima que corria pela sua face.
A pouca distância, o senhor que provocara
o ocorrido parou e ficou observando a jovem.
Viu-a cambalear, apoiando-se no muro. Quis ir
até lá para socorrê-la, mas conteve-se ao obser-
var que ela já se recuperava.
Adalberto, este era seu nome, era grande co-
nhecedor do mundo espiritual, era médium e di-
rigente de um Centro Espírita da cidade. Além
de dirigir o Centro, tinha um amplo trabalho de
assistência social, auxiliando familias necessita-
das. Ele conseguia, graças a sua vidência2, a vi-
são do espírito, ver o que as pessoas comuns não
conseguiam, e o que ele estava vendo naquele
instante o deixava profundamente triste. Aquela
figura grotesca que acompanhava a jovem era
2 - Vidência: faculdade mediúnica que permite aos médiuns ver os espíritos e o ambiente espiritual em que eles se encontram (veja O Livro dos Médiuns, capí-tulo 14).
21
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
mesmo de arrepiar. No momento, infelizmente,
ele não podia fazer nada, a não ser orar por
aquela jovem e seu subjugador, pedindo o auxí-
lio de espíritos elevados.
Rose e Josafá chegaram ao açougue. Ele foi
direto para a vitrine ver a carne mais saborosa.
Rose, num canto, ficou só observando seu com-
panheiro, que parecia um lobo esfomeado dian-
te de sua presa 3.
– ...
– Tem certeza de que você quer tudo isso? –
Rose perguntou timidamente, não querendo pro-
vocar nova discussão. – A carne pode estragar.
– ...
– Está bem, está bem.
Do outro lado do balcão, o açougueiro, meio
espantado, ficava só observando a moça falar
com sua própria sombra. Já conhecia sua fama,
por isso não se arriscava a aproximar-se, prefe-
rindo manter uma certa distância. A moça era
conhecida como a louca do casarão. Rose, alie-
nada de tudo, não fazia idéia de que era a pes-
soa mais falada da cidade; a “cegueira” havia
tomado conta dela.
– Ei, moço, pese para mim cinco quilos desta
carne – Rose apontou para o pedaço desejado.
– Cinco quilos? Não é muito?
3 - Há espíritos que, devido a sua falta de conhecimento do mundo espiritual, ficam por muito tempo ligados a prazeres e hábitos terrenos, como vícios, fome, sede, etc. Josafá sentia falta de carne e necessitava de seus fluidos, aspi-rando-os para se satisfazer, já que não podia digeri-la. Esse fenômeno chama-se vampirismo (veja os capítulos 4 e 11 do livro Missionários da luz, de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, editora FEB.)
22
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
Josafá, respondeu por ela, já irritado, usan-
do as cordas vocais da jovem 4:
– E daí, seu idiota! Você não está aqui para
vender carne?
O açougueiro olhou assustado para a moça.
Tratou de pesar logo a carne e pensou: “Quem
manda retrucar a uma louca! Assim aprende”.
Rose saiu com o pacote, e o açougueiro sus-
pirou aliviado. “Coisa mais esquisita, a moça
falou num tom tão brutal que me arrepiou e ar-
repiaria qualquer um” – pensou o rapaz, não con-
seguindo controlar a tremedeira.
4 - Quando Josafá usou as cordas vocais de Rose, ele estava, na verdade, incor-porado nela. A simbiose de tanto tempo tornou fácil para ele se manifestar dessa forma. A incorporação é utilizada nos Centros Espíritas para proporcionar aos espíritos uma comunicação com o mundo material e dessa forma possibilitar aos médiuns conversar com eles, doutrinando-os ou fazendo com que eles compre-endam que já não estão mais no corpo físico, ou seja, que já desencarnaram. É a bondade de Deus, que faz tudo pelos seus filhos.
23
2ª Revisão