Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 2 de 10

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Os Segredos do Casarão

O casarão

Elizabeth Artmann

 

O

 

Casarão

 

Após atravessar a rua, Rose continuou a

difícil caminhada em direção à sua casa. Sentia

um incômodo terrível, não só pelo calor, mas

principalmente pelo fardo que tinha de carregar

nas costas. Ela não conseguia entender por que

aquela tristeza não ia embora, seu coração vivia

constantemente apertado, uma depressão estra-

nha que não sabia entender, mesmo em compa-

nhia dos seus “parentes”. Está certo que carre-

gar aquele marmanjão nas costas era terrivel-

mente cansativo, mas ela estava convicta de que

era o que tinha de fazer. Não sabia bem por quê,

mas tinha que carregar o Gerônimo nas costas

na maioria das vezes em que saía de casa. Afinal,

 

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ele não podia ficar preso dentro de casa o tempo

todo e já que não tinha pernas para caminhar,

ela tinha de fazer esse sacrifício pelo seu “primo”.

Rose vinha de uma família rica, de grandes

posses. Herdou uma grande fortuna e duas em-

presas depois que seus pais desencarnaram em

um acidente e, como era filha única, resolveu

mudar de ares, na tentativa de esquecer o terrí-

vel acontecimento.

“Senhor Venâncio”, este era o nome do cor-

retor, “por que não me mostrou logo este casa-

rão? Teríamos poupado tempo, é bem o que es-

tou procurando”, falou Rose, toda entusiasmada

com o achado.

Algo a atraía naquele casarão, não sabia ex-

plicar o que exatamente, e acabou comprando-o,

fazendo planos de reformá-lo e ali ficar por al-

gum tempo, talvez investir em algo na cidade ou

na região. Mas, como a vida nos reserva gran-

des surpresas e, às vezes, terríveis segredos, no

mesmo dia em que pôs os pés no casarão sua

vida começou a mudar, e para pior.

A casa foi comprada junto com os móveis do

final do século XIX, à época do Brasil-Colônia, e

apesar de estar maltratada, com certeza havia

sido muito bonita, pois havia sinais da beleza de

outrora.

Enfurnada num quarto caindo aos pedaços,

ela foi piorando. Sua vontade já não lhe perten-

cia; sem entender o que realmente estava acon-

tecendo, ela foi se entregando cada vez mais

àquele envolvimento mórbido, estranho, corro-

sivo, que ia minando suas forças. Tinha planos

 

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de procurar um médico, mas quando “falava”

no assunto, Josafá, um dos “primos”, virava uma

fera. O coitado do Gerônimo não ligava; a úni-

ca coisa que ele queria era ficar perto dela, pois

se sentia bem ao seu lado. Joaninha, a “prima”,

não permitia qualquer tentativa no sentido de

Rose se embelezar, colocar roupas novas ou qual-

quer enfeite, tais como brincos, broches, etc. Para

Rose ficar em paz com ela era só estar com aquele

vestido preto, surrado, que já pedia outro havia

muito tempo e que só era tirado do corpo para

uma rápida lavada, que Joaninha permitia so-

mente com a interferência de Gerônimo. Mas o

que intrigava Rose era o fato de seus primos se-

rem negros. Como eles podiam ser seus primos

se ela era branca? E não conhecia parente ne-

gro na família. Outra coisa que a deixava confu-

sa era não conseguir se lembrar de quando ha-

via se encontrado com seus parentes. Na verda-

de, o tempo já não era mais contado, pois ela já

não fazia idéia de quando havia começado aque-

la situação. Sua vida era comandada totalmente

pelos primos.

A escada de entrada da casa era a pior parte

da caminhada até a padaria. Cada degrau era

um verdadeiro suplício. Sorte que não eram

muitos, só cinco. A cada um que era vencido um

suspiro soava, sem trazer, no entanto, qualquer

alívio. Alívio mesmo Rose sentia quando se in-

clinava em frente ao altar erguido a mando dos

primos e fazia o sinal-da-cruz, momento em que

Gerônimo aproveitava para escorregar para o

sofá e ela podia voltar à posição normal.

 

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Mais aliviada, Rose foi para a cozinha, le-

vando o pão e o leite e encontrando lá, sentado

à mesa, a figura repugnante de Josafá, com seus

enfeites pendurados no pescoço, pulseiras em

forma de correntes, anéis exageradamente gran-

des a enfeitar mãos igualmente grandes. Usava

uma camisa com estampas enormes, toda aber-

ta, mostrando o tórax; calça preta agarrada,

acompanhada de um par de botas, e na mão

uma vareta que era usada para agredir qualquer

oponente. Seu rosto não era realmente algo a

ser apreciado, parecia mais um homem das

cavernas, com o nariz e o queixo ligeiramente

avançados, e o crânio, de dimensões reduzidas,

davam uma má impressão. Seu olhar era diferen-

te, penetrante, provocava calafrios em quem

o mirasse. Rose o evitava, mantendo a cabeça

baixa.

Josafá estava nervoso, as saídas de Rose es-

tavam ficando cada vez mais longas e sua pa-

ciência já estava se esgotando. Principalmente

quando notou que ela não havia trazido o que

ele esperava. Soltou toda a sua ira, golpeando-a

com sua vareta e berrando como um louco.

– Não me bata mais, Josafá – implorava

Rose, acuada em um canto da cozinha. – Está

muito calor e as pessoas ficam me olhando o

tempo todo; e, depois, o Gerônimo é muito pe-

sado. Eu vou buscar a sua carne, tenha paciên-

cia, só mais um pouquinho.

– ...

– Está bem, mas fale você com ele; se eu

falar, ele vai querer ir de qualquer forma, aí eu

 

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demoro porque ele pesa muito – se desculpava

Rose.

– ...

– É melhor, assim você mesmo escolhe a car-

ne de que mais gosta – disse Rose.

Se houvesse alguém presenciando a cena,

teria a certeza de que Rose estava louca, mas,

na verdade, Josafá dialogava com ela, inclusive

agredindo-a fisicamente1.

Estavam saindo quando Gerônimo gritou lá

de dentro que queria ir também. Bastou um olhar

de Josafá para que ele mudasse de idéia. Josafá

impunha respeito aos três, sua vontade era sem-

pre obedecida, não havia como retrucar. Seu

“poder” amedrontava a todos.

Já na rua, Rose andava normalmente desta

vez, mas sempre cabisbaixa. Inconscientemente

ela sentia vergonha de andar junto com aquela

figura aterradora, mas como desobedecer Josa-

fá? Ele, por sua vez, ia ao seu lado, todo garbo-

so, e fazia questão de cumprimentar todos que

passavam por eles. É lógico que nunca recebia

resposta. Mas ele não ligava, até se divertia. Al-

guns metros à frente, Josafá avistou um senhor

diferente e, em vez de cumprimentá-lo, passou

para o outro lado de Rose, quase num salto. Ela

notou e perguntou o que havia acontecido.

– ...

Rose espantou-se com a resposta dele:

– Como? Você é tão valente, como pode te-

mer aquele homem tão franzino?

 

1 - Nos casos mais graves de obsessão, o obsediado pode se sentir agredido fisicamente pelo seu obsessor e ter dores, escoriações e outros efeitos diversos (veja O Livro dos Médiuns, capítulo 23).

 

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– ...

– Energia o quê? Agora você está fugindo

de energias cósmicas. Nem sei o que é isso.

– ...

– Saiba você que já estudei muito, mas nun-

ca ouvi falar de alguém que possa emanar ener-

gias como você está falando. Estou achando que

você está amolecendo.

Por que Rose foi dizer aquilo? Josafá deu-

lhe uma varetada, fazendo com que ela camba-

leasse, precisando apoiar-se no muro para não

cair. Ficou ali por alguns segundos a fim de re-

cobrar as forças.

– ...

– Desculpe, falei sem querer – disse Rose,

enxugando uma lágrima que corria pela sua face.

A pouca distância, o senhor que provocara

o ocorrido parou e ficou observando a jovem.

Viu-a cambalear, apoiando-se no muro. Quis ir

até lá para socorrê-la, mas conteve-se ao obser-

var que ela já se recuperava.

Adalberto, este era seu nome, era grande co-

nhecedor do mundo espiritual, era médium e di-

rigente de um Centro Espírita da cidade. Além

de dirigir o Centro, tinha um amplo trabalho de

assistência social, auxiliando familias necessita-

das. Ele conseguia, graças a sua vidência2, a vi-

são do espírito, ver o que as pessoas comuns não

conseguiam, e o que ele estava vendo naquele

instante o deixava profundamente triste. Aquela

figura grotesca que acompanhava a jovem era

 

2 - Vidência: faculdade mediúnica que permite aos médiuns ver os espíritos e o ambiente espiritual em que eles se encontram (veja O Livro dos Médiuns, capí-tulo 14).

 

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mesmo de arrepiar. No momento, infelizmente,

ele não podia fazer nada, a não ser orar por

aquela jovem e seu subjugador, pedindo o auxí-

lio de espíritos elevados.

Rose e Josafá chegaram ao açougue. Ele foi

direto para a vitrine ver a carne mais saborosa.

Rose, num canto, ficou só observando seu com-

panheiro, que parecia um lobo esfomeado dian-

te de sua presa 3.

– ...

– Tem certeza de que você quer tudo isso? –

Rose perguntou timidamente, não querendo pro-

vocar nova discussão. – A carne pode estragar.

– ...

– Está bem, está bem.

Do outro lado do balcão, o açougueiro, meio

espantado, ficava só observando a moça falar

com sua própria sombra. Já conhecia sua fama,

por isso não se arriscava a aproximar-se, prefe-

rindo manter uma certa distância. A moça era

conhecida como a louca do casarão. Rose, alie-

nada de tudo, não fazia idéia de que era a pes-

soa mais falada da cidade; a “cegueira” havia

tomado conta dela.

– Ei, moço, pese para mim cinco quilos desta

carne – Rose apontou para o pedaço desejado.

– Cinco quilos? Não é muito?

 

3 - Há espíritos que, devido a sua falta de conhecimento do mundo espiritual, ficam por muito tempo ligados a prazeres e hábitos terrenos, como vícios, fome, sede, etc. Josafá sentia falta de carne e necessitava de seus fluidos, aspi-rando-os para se satisfazer, já que não podia digeri-la. Esse fenômeno chama-se vampirismo (veja os capítulos 4 e 11 do livro Missionários da luz, de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, editora FEB.)

 

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Josafá, respondeu por ela, já irritado, usan-

do as cordas vocais da jovem 4:

– E daí, seu idiota! Você não está aqui para

vender carne?

O açougueiro olhou assustado para a moça.

Tratou de pesar logo a carne e pensou: “Quem

manda retrucar a uma louca! Assim aprende”.

Rose saiu com o pacote, e o açougueiro sus-

pirou aliviado. “Coisa mais esquisita, a moça

falou num tom tão brutal que me arrepiou e ar-

repiaria qualquer um” – pensou o rapaz, não con-

seguindo controlar a tremedeira.

 

4 - Quando Josafá usou as cordas vocais de Rose, ele estava, na verdade, incor-porado nela. A simbiose de tanto tempo tornou fácil para ele se manifestar dessa forma. A incorporação é utilizada nos Centros Espíritas para proporcionar aos espíritos uma comunicação com o mundo material e dessa forma possibilitar aos médiuns conversar com eles, doutrinando-os ou fazendo com que eles compre-endam que já não estão mais no corpo físico, ou seja, que já desencarnaram. É a bondade de Deus, que faz tudo pelos seus filhos.

 

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