Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 5 de 10

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Os Segredos do Casarão

O passado

Elizabeth Artmann

 

O

 

Passado

 

O ano era 1840, o Brasil dos cafeicultores,

poderosos fazendeiros que faziam e desfaziam,

em uma época em que a vida de uma pessoa

não tinha valor nenhum, principalmente se fos-

se negra e, pior ainda, se, além de negra, fosse

idosa ou doente.

No interior de Minas Gerais, na fazenda Três

Marias, a expectativa para a chegada de uma

leva de escravos vinda diretamente da África era

grande. O trabalho havia aumentado muito e es-

tava difícil conseguir novos escravos. A saída era

negociar diretamente com os navios negreiros.

A jovem Rose6 tinha, nessa época, apenas

15 anos. Era quem fazia mais festa. Seu pai, Dom

 

6 - Utilizamos os mesmos nomes para melhor identificar os personagens.

 

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Alcântara, havia prometido uma escrava só para

ela. Estava ansiosa para começar a dar ordens.

Sua irmã, Marina, já tinha uma escrava, que foi

seu presente de 15 anos.

Rose fazia seus planos. Não iria permitir ne-

nhuma desobediência, como fazia Marina.

“Ela é uma tola – pensava Rose. – A escrava

dela é muito relaxada”.

O pai não queria saber o que estava aconte-

cendo, só se preocupava com o bem-estar da

moça. Rose, por sua vez, planejava ser muito

exigente com sua escrava.

O sol já cruzava o meio do céu quando al-

guém tocou o sino do portão principal, avisan-

do da chegada da caravana que apontava no

horizonte. Todos se agitaram. Rose largou ime-

diatamente o bordado que estava fazendo e cor-

reu para a varanda.

– Finalmente, estão chegando. Há tantas

coisas para a “minha” escrava fazer – falou Rose,

olhando para Marina, que estava logo atrás.

– Acho que você deveria deixá-la descansar

pelo menos essa noite – disse Marina. – Não se

esqueça de que ela está aqui obrigada, que foi

tirada do seu lar à força, só para lhe servir.

– Ah! Não me aborreça! – Respondeu Rose,

descendo a escada e dirigindo-se para o grande

portão, a fim de se encontrar com a caravana.

Marina ficou olhando sua irmã se afastar.

Não entendia sua arrogância. Tão jovem e tão

cheia de prepotência. Já sentia pena da nova

escrava, mesmo antes de conhecê-la. A pobre

 

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não sabia o que a esperava. Marina não enten-

dia nem o porquê de escravizar os negros. No

seu íntimo achava muito errado, por isso sua es-

crava era tratada de forma diferente, como ami-

ga. Isso irritava muito seu pai, que dizia ter per-

dido dinheiro pago pela negra, já que a filha a

tratava como alguém da família.

O grande portão se abriu, dando passagem

à fileira de negros, uns amarrados nos outros,

tendo à frente Gerônimo, feitor da fazenda que,

montado num cavalo junto com mais alguns

empregados, fazia a guarda da fileira.

Rose esticava o pescoço à procura da escra-

va que se tornaria sua serviçal, mas não simpa-

tizou com nenhuma. Ficou emburrada e voltou

correndo para casa.

Mais tarde, quando seu pai chegou, ela foi

imediatamente ao seu encontro.

– Papai, o senhor viu as negras que chega-

ram? São horríveis!

– Agora não, filha, depois conversaremos so-

bre isso – respondeu o fazendeiro, dirigindo-se

ao escritório da fazenda acompanhado de perto

por Gerônimo.

– Mas, pai... – Rose tentou argumentar.

O velho fazendeiro voltou-se para a filha, de

punhos cerrados e com o semblante irado. Como

já havia passado na senzala e visto a “mercado-

ria” recebida, estava com os nervos à flor da pele.

Quando ela deparou com aquele olhar de ódio,

deu meia-volta numa disparada e subiu a esca-

da que dava para a parte superior da casa, onde

 

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ficavam os quartos. O fazendeiro entrou no es-

critório, jogou-se na sua cadeira e foi berrando:

– Pode falar!

– Desculpe, Dom Alcântara – Gerônimo fa-

lou, torcendo o chapéu entre as mãos e com a

cabeça baixa, sem coragem de encarar o patrão –,

mas a culpa não foi minha. Quando chegamos

ao Rio de Janeiro, o safado do capitão do navio

já havia vendido os melhores negros para um fa-

zendeiro de São Paulo, e restaram esses que trou-

xe comigo.

– O que vamos fazer com esses negros, Ge-

rônimo? Vamos fazer churrasco com eles? – Bra-

dou o fazendeiro, esmurrando a mesa. – E o di-

nheiro que você levou para trazer bons escravos?

– Como ele tinha vendido quase todos por

uma quantia maior do que a que o senhor havia

oferecido, ele cobrou barato pelos que eu trou-

xe. O resto do dinheiro está aqui, senhor.

– É nisso que dá trabalhar com incompeten-

tes – resmungou o fazendeiro.

– Como? O que disse, senhor? – Gerônimo

não entendeu.

– Nada, nada. Vá cuidar da sua vida, depois

vamos ver o que dá para aproveitar do que você

trouxe.

– Com licença – Gerônimo saiu.

Dom Alcântara ficou por alguns minutos pen-

sativo, olhando pela janela. A culpa era toda dele

mesmo. Se tivesse liberado o feitor uns dias an-

tes, talvez aquilo não tivesse acontecido. “Mal-

dito fazendeiro paulista, se tivesse idéia do pre-

juízo que me causou...” – Remoía ele. Agora só

 

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teria outra oportunidade de adquirir novos es-

cravos dali a três meses. Lamentava, mas não

adiantava chorar sobre o leite derramado, o im-

portante era tirar o máximo proveito do que

havia recebido. Levantou-se e foi para a senzala

examinar melhor a “mercadoria”. Gerônimo foi

acompanhá-lo assim que o viu aproximar-se.

Depois de olhar com bastante atenção os ne-

gros recém-chegados, disse ao feitor:

– Leve aquela negra para ajudar na cozinha –

apontou para uma outra que estava num canto.

– Aquela magrela. Leve-a para a casa-grande,

será o presente de Rose. Aqueles dois negros,

você põe para trabalhar na roça, os outros vão

para o cafezal. Tenho a impressão de que você

veio catando os escravos pelo caminho e nem

foi ao Rio de Janeiro – falou Dom Alcântara,

irônico.

Gerônimo não gostou do que o patrão dis-

se, mas não falou nada porque alguns dos ne-

gros ele realmente havia comprado durante a

viagem, só para não chegar de mão abanando.

No final da tarde, já quase noitinha, Dom

Alcântara reuniu a família para presenciar a en-

trega do presente à Rose.

– Rose – disse o fazendeiro, dirigindo-se à

filha –, queria dar o presente que você pediu,

mas os negócios não saíram como eu esperava.

Fique com essa negrinha mesmo, depois eu dou

outro presente para você.

– Está bem, papai – respondeu Rose, não

muito contente.

 

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– Vamos jantar, pois, como diz o dito popu-

lar, “saco vazio não pára em pé” – disse ele, sa-

tisfeito com a aceitação da filha.

Passaram-se alguns dias. Rose não se acostu-

mava com sua escrava, que não conseguia apren-

der a nova língua. Como não tinha paciência, já

havia mandado chicoteá-la no tronco três vezes,

só porque ela não entendia suas ordens.

No oitavo dia em que a escrava estava na

casa-grande, deixou cair comida no quarto.

Como não conseguiam se entender, foi manda-

da mais uma vez para o tronco. Dessa vez a or-

dem foi extrema: ficar no tronco três dias sem

comer.

Como o pai não interferia nas decisões de

sua filha, o castigo foi cumprido. No terceiro dia,

bem cedo, Rose foi acordada por alguém que a

chamava pela janela do quarto. Era Gerônimo,

preocupado, olhando para os lados como se es-

tivesse com medo de alguém vê-lo ali.

– O que foi, Gerônimo? – Perguntou Rose.

– Por favor, venha até aqui, sinhazinha Rose,

preciso contar-lhe algo urgente.

– Não pode deixar para mais tarde?

– Não. É melhor que a sinhazinha saiba logo.

– Está bem. Aguarde um minuto.

Rose se arrumou apressadamente, desceu

com cuidado para não acordar os outros e não

ser vista pelos escravos que já estavam na cozi-

nha preparando o café, e encontrou o feitor no

lado de fora.

– Fale logo, Gerônimo – falou, já irritada.

 

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– Sinhazinha Rose, a negrinha que a senho-

ra mandou para o tronco está morta.

Rose empalideceu por alguns instantes. Mas

logo recobrou o domínio de si e ficou a pensar

um pouco. Seu rosto iluminou-se com uma idéia

e sorriu para Gerônimo.

– Vá à cozinha, pegue uma das facas e enfie

nela. Quando papai perguntar quem foi que es-

faqueou a moça, diga que foi o Josafá. Não pos-

so deixar que descubram que eu fui a culpada.

Gerônimo não gostou da idéia, primeiro por-

que Josafá gostava da moça e já tinham plane-

jado ficar juntos; segundo, o patrão não iria acre-

ditar naquela história.

– Sinhazinha Rose, seu pai não vai acreditar.

– Eu sustento o que você disser, digo até que

vi o vulto de Josafá se aproximar do tronco e

esfaquear a negrinha.

– Não sei... – Retrucou Gerônimo, meio

desconfiado.

– Faça isso. Eu dou para você aquele anel

com diamante. Você pode ganhar um bom di-

nheiro com ele. O que acha?

Assim melhorou. Gerônimo ficou animado

com a idéia. Correu para a cozinha e, disfarçada-

mente, pegou uma faca; em seguida, foi em dire-

ção ao tronco para executar o plano.

Quando o sol já estava completamente ex-

posto no horizonte, banhando o vale onde se

situava a fazenda com aquele alaranjado majes-

toso que só a natureza é capaz de produzir, ou-

viu-se um grito angustiado de mulher vindo do

terreiro. Foi uma correria, todos querendo saber

o que estava acontecendo.

 

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Viram então a moça presa ao tronco, com uma

enorme faca cravada até o cabo em seu peito.

Na sua frente, uma escrava com as mãos cobrindo

a boca e olhar assustado. Os demais negros se ache-

garam, fazendo um roda em volta do tronco. Gerô-

nimo chegou abrindo caminho. Aproximou-se do

corpo inerte, fazendo de conta que nada sabia.

Em seguida chegou o patrão, Dom Alcântara.

– Quem fez isso? – Perguntou o fazendeiro.

Gerônimo afastou-se devagarinho e olhou

em volta. Não viu Josafá e disse:

– Foi Josafá, patrão.

– Por que ele faria isso? Ele tinha algum mo-

tivo?

– Eu também não sei, patrão – disse Gerôni-

mo –, mas o vi rondando, de madrugada, o tronco.

– Está bem, retire esse corpo daí rapidamen-

te, antes que minha filha veja, depois procure

pelo criminoso. Não o deixe escapar.

Não foi difícil encontrar Josafá. Estava caído

atrás de uma moita, com uma garrafa na mão,

completamente vazia. Havia acordado cedo para

levar escondido água e um pouco de comida

para a moça que estava no tronco e a encontrou

morta. Ficou transtornado, voltou para a senzala,

pegou uma garrafa de aguardente que havia

escondido e foi para a mata. A perda de sua ama-

da foi para ele um golpe duro.

Foi levado e amarrado no tronco, o mesmo

de onde a escrava acabara de ser retirada.

Ninguém acreditou na história contada por

Gerônimo, acusando Josafá, mas nada podiam

fazer.

 

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Não adiantaria tentar arrancar uma confis-

são do escravo naquele momento, pois estava

completamente alcoolizado. Teriam de esperar

passar a embriaguez. Foi um dia de tristeza na

fazenda Três Marias.

Mais tarde, curado da bebedeira, Josafá iria

enfrentar a fúria do patrão.

Dom Alcântara, depois de tomar as provi-

dências para o andamento das tarefas na fazen-

da, chamou Gerônimo, mandou-o pegar um chi-

cote e foram em direção ao tronco. Lá chegan-

do, foi logo perguntando:

– Por que você matou a “negrinha”?

– Não fui eu, patrão.

Com um sinal, Dom Alcântara mandou

Gerônimo chicotear o escravo indefeso.

Depois de algumas chicotadas, o fazendeiro

mandou interromper e voltou a perguntar:

– Por que você matou a “negrinha”?

– Não fui eu, patrão... – Respondeu Josafá,

já com dificuldade.

Novo sinal e novas chicotadas foram dadas,

intensificando ainda mais os ferimentos.

– E então, negro fedorento, eu não tenho o

dia todo para ficar aqui esperando a sua von-

tade.

– Pelo amor de Deus, patrão, não fui eu... –

Gemia Josafá.

– Dê mais algumas chicotadas e deixe-o aí,

depois perguntaremos novamente. Este sol está

muito quente! Vou descansar um pouco – disse

o fazendeiro, dirigindo-se para a casa-grande.

 

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Marina, da janela do seu quarto, observava

tudo e não conseguia conter as lágrimas. Quan-

do iria acabar tanta injustiça?, perguntava-se ela.

Rose, por sua vez, não dava a mínima im-

portância aos fatos. Pelo menos a culpa da mor-

te da escrava não recairia sobre ela, pensava.

Logo o negro seria solto e tudo voltaria ao nor-

mal. Foi para a varanda, sentou-se no banco de

balanço e ficou observando ao longe o tronco

em que o escravo continuava amarrado. Nisso,

aproximou-se Gerônimo, meio desconfiado.

– Sinhazinha Rose, desculpe incomodá-la,

mas... a senhora poderia me dar o anel que me

prometeu?

Rose fez que não entendeu.

– Anel? Que anel? – Perguntou. – Não me

recordo de anel nenhum.

– Sinhazinha Rose, por favor, eu preciso do

anel – Gerônimo começou a ficar com medo de

que ela não cumprisse o trato.

– Você é um idiota, Gerônimo. Nem sei como

meu pai pôde empregar você como feitor, e você

ainda vem aqui me cobrar? Mais tarde eu dou o

anel – respondeu Rose, encerrando o assunto

com uma gargalhada.

Gerônimo tinha planejado ir no dia seguinte

até a cidade para vender o anel e precisava pegá-

lo naquele dia mesmo. Ficou rondando a janela

do quarto de Rose até o começo da noite. Ela, ao

perceber a atitude do feitor, deu um sorriso de

desprezo e jogou o anel pela janela.

Como ainda era cedo, Rose resolveu ir con-

versar com seu pai no escritório.

 

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– Papai, posso entrar? – Perguntou, com a

porta entreaberta.

– Sim, filha, entre – respondeu o fazendei-

ro. – Você não teve sorte com o seu presente,

não é?

– Não tem problema, papai, o que me deixa

triste é aquele homem amarrado naquele tron-

co, sofrendo. Por favor, liberte-o, papai. Quan-

do o senhor puder, me dê outro presente. Acho

que o Josafá matou a moça só para não deixá-

la sofrer mais 7. Era um grande amor.

Aquelas palavras amoleceram o coração do

velho fazendeiro. Ele não conhecia aquele lado

singelo e amoroso da filha. Mas também não

imaginava que era puro fingimento.

– Vou mandar soltar o negro – disse ele.

– Deixe-me fazer isso, papai?

– Está bem, procure o Gerônimo e mande

soltar o negro.

– Já estou indo.

Rose deu um beijo na face do fazendeiro e

saiu correndo, deixando-o pensativo, coçando

o queixo, incrédulo. Porém, a moça já tinha um

plano arquitetado. Antes de falar com Gerônimo,

ela falaria com Josafá.

– Josafá, está me ouvindo? – Perguntou bai-

xinho, agachada próxima ao escravo.

– Sim..., sinha... zinha Rose – respondeu

Josafá com dificuldade, entre gemidos.

 

7 - Há pessoas que pensam que ao abreviar a vida de alguém que está sofrendo (eutanásia) o estarão ajudando. Essa idéia é errada, conforme ensina a Doutrina Espírita, pois na verdade o estão privando de um último exame de consciência e de um possível arrependimento antes de seu desencarne. (Ver cap. 5, item 28º de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Petit Editora.)

 

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– Quem matou a negrinha foi o Gerônimo –

disse ela, olhando nos olhos do escravo.

Josafá virou a cabeça para o lado e chorou.

Seu coração estava muito apertado, a dor do

castigo no tronco não era nem a metade da dor

de ter perdido sua amada. Sua amargura era

muito grande.

Rose sentiu um pouco de remorso ao ver o

sofrimento do rapaz e as lágrimas escorrendo

pelo rosto dele. Talvez tivesse ido longe demais

com aquilo. Mas não dava mais para parar,

precisava reaver o anel. Levantou-se e foi pro-

curar o feitor. Deu-lhe a ordem para soltar o

negro e voltou para casa à espera dos acon-

tecimentos.

Gerônimo foi libertar Josafá. Levaram-no

para a senzala, a fim de tratar os ferimentos fei-

tos pelas chicotadas. Porém, o escravo ficou à

espreita. Na primeira oportunidade, juntou to-

das as forças que lhe restavam e, num salto, agar-

rou o pescoço do feitor. Rolaram pelo chão numa

luta feroz. Gerônimo, num esforço supremo –

pois apesar de Josafá estar bastante machucado

era forte e grande –, alcançou a faca que levava

à cintura e, num golpe, acertou a barriga do opo-

nente, que, ao ser ferido, retraiu-se. Aproveitan-

do o descuido, Gerônimo esfaqueou-o por várias

vezes, só parando quando o escravo já estava

morto.

Mais uma vez a paz na fazenda foi quebrada.

Mais uma morte em tão pouco tempo.

Um dos empregados correu até a casa-gran-

de e contou o ocorrido ao patrão.

 

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– Não é possível! Como essa gente dá traba-

lho! – Bradou o fazendeiro, correndo em dire-

ção à senzala.

Do alto da escada, Rose ria baixinho dos

acontecimentos. Agora o plano só iria continuar

no dia seguinte.

– Não tive culpa, patrão – dizia o feitor. – O

negro pulou no meu pescoço parecendo um lou-

co, era ele ou eu!

– O que fiz para merecer tudo isso? – La-

mentava Dom Alcântara, coçando a cabeça. –

Mande tirar o corpo daí. Bem que eu deveria

descontar do seu pagamento, não é?

Gerônimo não respondeu, mas pensou:

“Com o dinheiro que vou conseguir com

o anel, nem preciso trabalhar mais aqui, vou para

longe, vou cuidar da minha vida em outro lugar”.

Como o dia seguinte era a folga dele, juntou

suas coisas, que não eram muitas, com cuidado

para que ninguém percebesse, colocou no cava-

lo e saiu cedo.

Já era quase meio-dia quando Rose deu

prosseguimento ao seu plano. Entrou no escri-

tório de seu pai, forçando um choro.

– Pai, sumiu aquele anel de diamante que o

senhor me deu no ano passado, que era da ma-

mãe. E agora?

– Mais uma! – O velho fazendeiro jogou-se

na poltrona suspirando profundamente. – Quem

teria a ousadia de entrar na casa para roubar?

– Talvez tenha sido um dos empregados –

Rose procurou direcionar a conversa. – O senhor

mandou o Gerônimo para a cidade hoje?

 

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– Não, se bem que hoje é dia de folga dele,

ele pode ir aonde quiser.

– É, mas a Rosália o viu saindo cedo, com

uma baita de uma trouxa no cavalo – reforçou a

garota.

– Vou até o dormitório dele verificar isso –

disse o pai, saindo do escritório.

No dormitório, com ajuda de Romildo, um

dos empregados, puderam verificar que o feitor

não tinha intenção de voltar mesmo, pois havia

levado todos os seus pertences. Imediatamente

o fazendeiro nomeou Romildo como o novo fei-

tor e logo ordenou que reunisse alguns homens

bem armados para que dentro de uma hora sa-

íssem à caça de Gerônimo.

Como Gerônimo havia comentado a inten-

ção de ir à cidade, foi para lá que o grupo se-

guiu. Chegando, Dom Alcântara procurou logo

o delegado, narrando o ocorrido em poucas pa-

lavras. Imediatamente o homem da lei reuniu os

seus ajudantes e deu a ordem de procurar o fu-

gitivo em todos os cantos.

Gerônimo viu quando o patrão chegou à ci-

dade, acompanhado dos empregados armados,

indo direto para a delegacia. Deduziu logo que

Dom Alcântara não tinha vindo passear.

“Aquela maldita menina, planejou tudo di-

reitinho – pensou ele. – Não vou deixar que ela

fique rindo de mim. Vou aproveitar que estão

todos na cidade e voltar à fazenda para dar uma

lição naquela sem-vergonha.”

E foi o que fez. Rápido, mas com cuidado,

deixou a cidade e foi para a fazenda e, esguei-

 

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rando-se para não ser visto, entrou na casa-gran-

de por uma das janelas. Subiu até o quarto de

Rose e entrou. Ela estava em frente à pentea-

deira e Marina alisava seu cabelo com uma es-

cova. Pelo espelho, Rose viu o ex-feitor entrar já

com uma arma em punho. Correu para um can-

to tentando fugir do perigo, porém não havia

saída, ficou encolhida num canto, acuada.

Marina tentou dialogar com Gerônimo.

– Calma, Gerônimo. Leve o que quiser, mas

não fira ninguém.

– Fique quieta, sinhazinha Marina – respon-

deu Gerônimo. – Esta maldita não tem o direito

de viver. Eu respeito a senhora porque sei que é

uma boa pessoa, mas sua irmã é pior que o de-

mônio!

– Piedade, Gerônimo! – Gritava Rose, pres-

sentindo o perigo.

– Piedade?! Você não teve piedade com a

moça nem com Josafá; por que acha que eu iria

ter com você, sua desgraçada?

Gerônimo apontou a arma para Rose e, quan-

do ia apertar o gatilho, Marina entrou na frente

para tentar impedir o disparo e recebeu um tiro

certeiro no peito, caindo no meio do quarto. Por

alguns instantes, Gerônimo e Rose ficaram pa-

rados, sem saber o que fazer. O ex-feitor, vendo

a gravidade da situação, esqueceu o que o tinha

levado ali. Saiu em uma louca disparada, atro-

pelando os negros que subiam a escada para ver

o que havia ocorrido. Já fora da casa, ele pulou

no cavalo e saiu a galope. Tentou saltar a cerca,

mas como ela era muito alta, o cavalo tropeçou

 

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e caiu em cima da perna do ex-feitor. O cavalo

quebrou o pescoço, vindo a morrer na hora. Sem

poder se livrar do animal, o ex-empregado da

fazenda foi cercado rapidamente pelos negros

que guardavam a casa.

– Vamos amarrá-lo no tronco – disse Romual-

do, um dos responsáveis pela segurança da fazen-

da. – Pedro, pegue um cavalo e vá até a cidade

avisar o patrão. Rápido!

 

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