Os Segredos do Casarão

Elizabeth Artmann · Capítulo 10 de 10

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Os Segredos do Casarão

O encontro no casarão

Elizabeth Artmann

 

O

 

Encontro no

 

Casarão

 

A data combinada para fazer a reunião no

casarão foi o sábado seguinte, e seria à noite.

Valdomiro e Rose não gostaram, a princípio;

porém não falaram nada, pois Adalberto deve-

ria ter um bom motivo para ter escolhido aquela

data, e como era em benefício da jovem, prefe-

riram acatar sem qualquer comentário.

No sábado, bem antes do horário programa-

do para irem ao casarão, Valdomiro já estava na

casa de Adalberto. Todos sabiam o motivo de

tanto entusiasmo, que era ficar perto de Rose.

Ficaram os dois conversando na varanda. Quan-

do faltava pouco para o horário combinado,

Adalberto saiu e falou:

 

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– Vamos indo, no caminho passaremos na

casa de Fina.

Ao chegarem no casarão, por volta das

dezenove horas, o sol já estava quase desapare-

cendo, iluminando com uma beleza monumen-

tal as nuvens, proporcionando um espetáculo

fantástico que só a natureza pode nos oferecer.

Adalberto fez questão de dar uma paradi-

nha, olhar para as nuvens e dar um suspiro de

felicidade, elevando o pensamento, agradecen-

do pela oportunidade de poder presenciar aque-

la maravilha.

– Que lindo, não é, seu Adalberto? – Falou

Valdomiro, também admirando os raios solares

banhando as nuvens.

– Sim, é maravilhoso – respondeu simples-

mente o senhor. – Poderia ficar horas admiran-

do que não me cansaria.

Valdomiro concordou com um sorriso e saiu

da porta do carro, porque Rose e Fina já esta-

vam ficando incomodadas com a demora.

Desceram todos do carro e se dirigiram para

o casarão. Rose estava visivelmente preocupa-

da. Desde que tinha saído daquela casa, não ti-

nha retornado mais e não sabia como se com-

portar e agir. Com certeza, Gerônimo, Josafá e

Joaninha estavam lá dentro, e ela não saberia a

reação deles quando entrasse na casa. Com re-

ceio foi ficando para trás, torcendo a blusa que

tinha nas mãos e com os olhos lacrimejantes e

apavorados.

Valdomiro notou o drama da garota e cha-

mou por Adalberto, que voltou e abraçou Rose

com carinho.

 

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– Não tem nada com que se preocupar, que-

rida, com nossa presença eles não poderão fa-

zer nada. Mantenha o pensamento elevado, pen-

se em Jesus que tudo dará certo. Não estamos

sós, bons companheiros do plano espiritual es-

tão conosco e nos ajudarão no que for necessá-

rio. Confie e ore.

– Está bem, desculpe – respondeu Rose.

Entraram devagarinho. Valdomiro foi até a

caixa de luz ligar a chave geral. A casa estava

limpa, pois Adalberto havia providenciado a lim-

peza logo depois que Rose foi retirada dali, mas

como tinha ficado algum tempo fechada, persis-

tia um cheiro desagradável. Fina procurou abrir

as janelas e a corrente de ar se encarregou de

purificar o ambiente, tornando-o mais respirável.

De imediato não se notava nada. Adalberto não

conseguia “ver” nenhum dos espíritos, mas sen-

tia a presença deles. Estavam na casa, provavel-

mente no andar de cima.

– É muita ousadia! – Dizia Josafá, com ódio,

batendo com sua varinha contra a mão. – Como

eles têm coragem de vir até aqui? Dá vontade

de torcer o pescoço daquela idiota.

– Tenha cal... – tentou recomendar Joaninha,

mas foi interrompida.

– Cale a boca! Não me interessa a sua opi-

nião. Se não fosse aquele velhote, bem que eu

ia lá dar umas varetadas naquela cínica!

– O que você acha que vieram fazer aqui? –

Perguntou Gerônimo, sentado no chão.

Josafá olhou com ironia o companheiro alei-

jado e deu uma gargalhada.

 

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– Eles vieram aqui para nos provocar, mas

não deixarei que levem a melhor... Estranho,

estou sentindo tonteira. Que droga está aconte-

cendo comigo?

– Eu também estou tonta – disse Joaninha,

sentando-se na cama.

E s p í r i t o s d e l u z , q u e a c o m p a n h a v a m

Adalberto, já estavam no quarto, preparando os

três espíritos rebeldes, pois eles seriam “convi-

dados” a participar da reunião15.

Na sala, todos já estavam acomodados.

Adalberto fez a abertura da reunião e pediu que

Fina fizesse uma prece, no que foi atendido pron-

tamente.

– Deus-Pai – falava ela com profundo reco-

lhimento e meditação –, agradecemos a oportu-

nidade de poder servi-Lo, de estarmos encarna-

dos resgatando nossos débitos e também de po-

der ajudar irmãos menos esclarecidos. Temos

consciência do compromisso de nossa missão

como médiuns e sabemos que isso não é um

privilégio, mas sim uma oportunidade de resga-

tar nossos débitos perante Vós. Dai-nos forças para

alcançarmos nossos propósitos imediatos e os

que estão por vir, enviai Vossos mensageiros para

nos auxiliar, se isso for do nosso merecimento.

Humildes e servidores, faremos o máximo que

 

15 - Os três obsessores não percebiam a presença dos trabalhadores do plano espiritual devido à diferença de vibração. Os espíritos elevados têm uma energia mais pura e por isso não foram vistos nem sentidos pelos perseguidores de Rose, possuidores de uma energia mais densa. Porém, quando há necessidade, os espí-ritos de luz podem se fazer enxergar pelos espíritos de vibração inferior.

 

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está ao nosso alcance para atingir os propósitos

almejados. Graças!

– Valdomiro, abra o Evangelho aleatoriamen-

te e leia a mensagem – pediu Adalberto.

– Sim, senhor – respondeu o rapaz, abrindo

o livro e, surpreso, leu a mensagem:

– “Os inimigos desencarnados.” O espírita

tem ainda outros motivos de indulgência para

com seus inimigos. Primeiramente, sabe que a

maldade não é o estado permanente dos ho-

mens, mas que é devida a uma imperfeição mo-

mentânea e, do mesmo modo que a criança se

corrige dos seus defeitos, o homem mau um dia

reconhecerá seus erros e se tornará bom.

“Sabe também que...” 16

Valdomiro leu o texto emocionado e trans-

mitiu emoção a todos.

– A lição vem mesmo a calhar – disse

Adalberto. – Temos aqui um caso de vingança

vinda do passado, em que o ódio tem predomi-

nado, endurecendo corações, não permitindo a

entrada de luz e, conseqüentemente, de amor.

Mas, como disse a mensagem, não existe cora-

ção tão perverso que não seja tocado por bons

sentimentos. Assim, podemos dizer que ninguém

é mau e que a bondade é uma semente que ain-

da está dormente nesses corações e de uma hora

para outra pode desabrochar, mudando o traje-

to desses espíritos, antes envoltos nas trevas, ago-

ra iluminados, pois esse é o desejo do Pai, pois,

enquanto estivermos no caminho da ignorân-

 

16 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, capítulo 12, Petit Editora.

 

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cia, estaremos estacionados na evolução. No mo-

mento em que passamos a praticar a caridade,

retomamos o caminho para o alto. Perdoar é

um dos mais sublimes atos de caridade, por-

que aquele que carrega ódio no coração sofre

muito, não conhece a felicidade e só a carida-

de é capaz de proporcionar a verdadeira feli-

cidade.

Gerônimo e Joaninha, que estavam acomo-

dados na sala, apesar de levemente atordoados,

tinham consciência do que estava ocorrendo e

ficaram emocionados com as palavras de

Adalberto. Não eram espíritos ruins, apenas eram

vitímas das circunstâncias, influenciados pelo

poder de persuasão de Josafá, que não permitia

qualquer iniciativa, tornando-os quase que es-

cravos.

Josafá, por sua vez, continuava irredutível,

olhava com ar zombeteiro e de provocação para

Adalberto.

Os espíritos de luz, vendo que seria difícil

convencê-lo naquele momento, tornaram-se vi-

síveis aos três. Um deles aproximou-se de Josafá

de forma carinhosa e abraçou-o sem sofrer re-

sistência, fazendo-o adormecer. Em seguida,

pediu a Adalberto que encerrasse a reunião, pois

os três seriam levados ao Centro para tentarem

lá a doutrinação deles.

 

*

Às segundas-feiras, havia sempre reuniões de

desobsessão, em que espíritos eram esclarecidos

da sua nova situação e, se possível, doutrinados

e socorridos.

 

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Estavam todos presentes na reunião. Adal-

berto fez a abertura com uma prece e em segui-

da um dos presentes leu uma passagem de O

Evangelho Segundo o Espiritismo que diz: “Aque-

le dentre vós que estiver sem pecado atire a pri-

meira pedra” 17. Depois de meditarem sobre o

ensinamento do perdão, deram início às comu-

nicações.

Josafá, Gerônimo e Joaninha estavam dor-

mindo num quarto no plano espiritual, logo aci-

ma do salão onde acontecia a reunião. Quando

os trabalhos de incorporação começaram, eles

foram levados para lá, ainda meio atordoados.

Josafá estava sempre acompanhado por um

mentor, que se mantinha abraçado a ele. Quan-

do chegaram, o espírito de luz fez com que ele

despertasse do torpor em que se encontrava e

falou-lhe com muito carinho, pedindo que se

aproximasse de Fina para que ela lhe permitisse

uma incorporação. Josafá não pôde recusar. Ta-

manho era o bem-estar que aquele espírito lhe

proporcionava que tocou seu espírito rebelde.

Ele se aproximou de Fina, que já estava em tran-

se, e ficou a seu lado.

– Fale, irmão – disse o espírito de luz –, abra

o seu coração.

– Não entendo o que está acontecendo... –

disse Josafá, espantando-se ao ver a médium

repetir as suas palavras.

– Continue, irmão, você está entre amigos

– incentivou Adalberto.

 

17 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10, Petit Editora.

 

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– Amigos!!! Não sei do senhor, por quem

tenho muito respeito, mas nunca serei amigo

desta trapaceira, quero mesmo é que ela derre-

ta no fogo do inferno!!! – Bradou Josafá com

ódio, apontando para Rose.

– Compreendemos sua revolta – disse

Adalberto –, mas Rose já sofreu muito e hoje

compreende que o ódio não leva a nada. Ela

sabe também que lhe fez maldades num passa-

do já distante e hoje pede que você a perdoe.

– Perdoar?! O senhor está delirando, jamais

perdoarei!!!

– Tenho certeza de que Gerônimo a perdoa-

ria, e ele foi o que mais sofreu, até mais do que

você, pois foi ele quem teve as pernas queima-

das em conseqüência da fragilidade de Rose.

Você sofreu um castigo injusto, foi morto em con-

seqüência disso. Mas lembre-se de que nada nos

acontece por acaso. Gerônimo está cansado de

se arrastar, vamos liberá-lo para poder caminhar

novamente.

– Como o senhor sabe dessas coisas? Elas

aconteceram há muito tempo – disse Josafá,

olhando para Gerônimo. – Este traste não vai

andar nunca mais.

– Libere-o simplesmente, o resto nós fare-

mos – pediu Adalberto, tentando convencê-lo.

– Por mim, tudo bem, já estou cheio de tê-

lo por perto mesmo.

– Não querendo abusar da sua bondade,

pediria que liberasse também a Joaninha.

– Não, assim já é demais! Ela ficará comigo.

 

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– Está bem, voltemos então ao caso de Rose.

Se você perdoá-la, poderá acompanhar os ir-

mãos a esferas mais elevadas, onde será atendi-

do com muito amor, e no futuro poderá até es-

tudar. Você irá se sentir muito melhor que ago-

ra, perdoe para sentir-se melhor.

– Já ouvi falar de lugares que dizem ser ma-

ravilhosos – Josafá já demonstrava um certo

cansaço e inclinado a aceitar o convite –, mas

sempre achei que eu não seria digno desses lu-

gares, pois sou muito ignorante, estúpido e ne-

gro ainda por cima. Com certeza não iriam me

aceitar lá.

– Todos somos dignos desses lugares, você

só precisa se arrepender dos seus erros e per-

doar àqueles que você acha que são seus inimi-

gos, pois, na verdade, não temos inimigos, somos

todos irmãos. Perdoe e comece uma nova trilha

na sua existência – disse Adalberto com muito

carinho, o que foi o suficiente para minar as for-

ças do espírito rebelde.

Nesse instante o espírito de luz que estava

ao lado de Josafá abraçou-o com carinho. Josafá

olhou para ele e chorou como criança, pois na-

quele momento pôde reconhecer o espírito que

estivera sempre ali. Era sua mãe. Numa fração

de minutos, recordou o tempo em que estive-

ram juntos na encarnação passada, quando ele

era apenas um rapazola e estava frente a um

futuro não muito promissor, que era a vida de

escravo, e sua mãe lhe falava com carinho da

necessidade de resignação, de não cultivar o ódio

e de buscar sempre ser amigo de todos.

 

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– Perdoe-me, mãe – pediu Josafá, em pran-

tos, nos braços de sua mãe –, por ter sido mau

por tanto tempo, perdoe-me.

– Eu não tenho o que lhe perdoar, querido,

você é que precisa perdoar para poder se liber-

tar deste peso que está carregando por tanto tem-

po. Perdoe Rose para irmos a um lugar maravi-

lhoso, onde sempre o quis levar.

– Está bem, mãezinha, perdôo Rose e quero

tê-la como amiga.

Naquele instante o ambiente se transformou.

Do teto começaram a cair pétalas de flores per-

fumando o ambiente, raios de luz maravilhosos

vinham do teto, de uma fonte desconhecida, de-

monstrando que a espiritualidade se rejubilava

com o acontecido. Havia festa no céu.

Josafá, Gerônimo e Joaninha adormeceram

e foram levados com facilidade para um posto

de socorro espiritual.

Adalberto acompanhou tudo, admirando o

mecanismo espiritual e dando graças novamen-

te, pois naquele momento mais uma corrente de

ódio havia se rompido, dando lugar à fraterni-

dade, e mais corações poderiam usufruir das

benesses do bem e da caridade.

Rose, envolta em muita emoção, estava cho-

rando, só que dessa vez não era de medo, e sim

de felicidade inexplicável e maravilhosa, senti-

mento tão bom e tão pouco experimentado. Es-

tava aliviada, como se um fardo houvesse sido

retirado de seus ombros, sentindo que realmen-

te havia sido perdoada.

 

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– Vamos dar graças a Deus por tudo ter dado

certo – disse Adalberto. – Vamos orar para que

nossos irmãos possam se adaptar o mais breve

possível à nova trilha que sabiamente escolhe-

ram nesta noite, e que de agora em diante eles

possam transformar o ódio que tinham em seus

corações em virtudes elevadas, alcançar benefí-

cios para si e para todos aqueles que com eles

tiverem contato. E que Deus nosso Pai os ilumine,

graças.

Todos acompanharam a prece mentalmente

e, quando terminou, retiraram-se do salão.

Já fora do Centro, Valdomiro abraçou Rose

com carinho. Ela encostou sua cabeça no om-

bro do rapaz e seguiram juntos para casa.

No dia seguinte, Rosália saiu para dar sua

costumeira varrida no quintal. Estava distraída

quando, de repente, olhou para o casarão e es-

tranhou, pois ele estava diferente. Não sabia

como, antes não gostava de olhar para ele por-

que sentia como se uma nuvem escura o envol-

vesse, transmitindo sensações ruins, mas agora

estava diferente. Com o sol iluminando-o todo,

as plantas estavam mais vivas e não havia mais

aquele ambiente ruim envolvendo-o, simplesmen-

te estava lindo como nunca. Rosália ficou ali

parada por alguns minutos, admirando a casa.

Nunca havia notado os detalhes, que só agora

lhe pareciam visíveis.

Matilde estava saindo quando viu sua vizi-

nha, não gostou de encontrá-la, mas mudou de

opinião quando notou que ela estava parada,

como que hipnotizada, olhando para o casarão.

 

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Aproximou-se do muro que separava as duas

casas e chamou:

– Dona Rosália, algum problema? – Per-

guntou.

– Não... não... – Disse ela, se assustando. –

Está tudo bem. A senhora viu como o casarão

está diferente?

Só nesse instante Matilde prestou atenção ao

casarão e também ficou admirada com o novo

visual.

– O que a senhora acha que aconteceu? –

Perguntou Rosália.

– Acho que vieram fazer alguma reunião es-

pírita, pois no sábado à noite vi seu Adalberto e

alguns colegas do Centro entrarem junto com a

Rose no casarão – esclareceu Matilde, que tam-

bém freqüentava o Centro Espírita.

– Cruz-credo! Deve ser macumba.

– Não é, uma das pessoas que esteve aí eu

conheço. É o senhor Adalberto, ele é dirigente

do Centro Espírita, pessoa boa, ajuda muita

gente que está necessitada. Acredito que vieram

ajudar os espíritos que estavam nessa casa, e,

pelo que estamos vendo hoje, tenho certeza de

que conseguiram.

– A senhora quer me dizer que tinha espíri-

tos naquela casa e que eram eles que assusta-

vam as pessoas?

– Sim, a solução do problema seria uma boa

notícia para começarmos o dia, não é? – Disse

Matilde, saindo e sorrindo.

Rosália continuou parada, sua cabeça não

conseguia assimilar aquelas novidades, mas teve

 

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um “pensamento” interessante. Pediria o ende-

reço do Centro Espírita à sua vizinha e iria lá

conhecer. Quem sabe alguma coisa boa aconte-

ceria em sua vida?

Com esses pensamentos, continuou a varrer

o quintal e começou a cantarolar.

Pelos olhos do corpo não poderíamos ver o

que estava acontecendo naquele momento, mas

pelos olhos do espírito ficaríamos emocionados

em ver o espírito protetor de Rosália chorando

de felicidade por aquela iniciativa de sua prote-

gida. Havia muito tempo ele esperava por aquela

atitude. Quem sabe agora Rosália colocaria al-

gumas coisas boas em sua cabecinha e tomaria

um bom rumo na sua vida.

 

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E

 

Tudo Acabou

 

Bem

 

Tempos depois, no final de uma das reuniões

do Centro Espírita, encontraram-se todos no

salãozinho que ficava nos fundos.

– Parece que temos grandes novidades acon-

tecendo, não é, seu Valdomiro? – Perguntou

Adalberto em tom de brincadeira. – Além da me-

lhora considerável de Rose, a família do Tonico

está bem melhor, graças a Deus.

– Queremos agradecer imensamente o auxí-

lio que recebemos de vocês – disse Tonico em

tom cerimonioso. – Seu Adalberto, Valdomiro,

Fina e todos aqui do Centro, que modificaram

radicalmente nossas vidas, é impressionante as

melhorias que sentimos nesses últimos meses.

Vamos ser eternamente gratos.

 

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– O que fizemos, Tonico – disse Adalberto –,

não foi mais que nossa obrigação. E depois, nós

nos beneficiamos também com sua melhora,

pois, ajudando as pessoas, estamos nos ajudan-

do também. É assim que funciona a fraternidade,

é assim que construiremos um mundo melhor, é

assim também que evoluímos, objetivo princi-

pal da nossa existência. Portanto, não se preo-

cupe em agradecer ou pagar, seu pagamento será

o benefício que você fará a outros irmãos, aju-

dando-os sem esperar recompensas, ajudando

sempre, quanto mais, melhor.

– Mesmo assim, como não temos o conheci-

mento que o senhor tem, vamos ficar agradeci-

dos por enquanto, até estarmos prontos para

sermos úteis aos outros – respondeu Tonico, vi-

sivelmente emocionado.

– Vocês já estão prontos para ser úteis –

elucidou Adalberto. – Todos nós, desde o mo-

mento em que fomos fecundados no ventre de

nossa mãe, já nos tornamos úteis, ou seja, antes

de nascermos já começamos a ser úteis. E assim

vai vida afora, depende apenas de nós sermos

mais ou menos úteis.

– Como podemos ser úteis antes mesmo de

nascer? – Quis saber Valdomiro.

– Raciocine, Valdomiro, no momento em que

uma mulher fica grávida, ela tem de tomar de-

terminados cuidados, tem de rever atitudes, eli-

minar vícios para ajudar o bebê e conseqüente-

mente a si mesma. Assim, quando somos fecun-

dados, já começamos a ajudar, indiretamente.

Mas, voltando ao assunto, você não tem uma

 

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Os Segredos do Casarão

 

novidade para nos contar? – Perguntou Adal-

berto, sorridente.

– Temos sim. Eu e Rose marcamos nosso noi-

vado – disse Valdomiro, olhando com carinho

para Rose – e pretendemos nos casar o mais bre-

ve possível.

Todos bateram palmas de alegria e foram

abraçar os jovens.

Assim, uma obsessão chegou ao fim. Para

isso, além do trabalho espiritual, foi fundamen-

tal a colaboração de Rose, que rezou muito e

modificou seu campo mental, evitando fazer

queixas, ficar triste e afastando todo tipo de pen-

samento negativo18.

Assim, o que inicialmente era um problema

serviu para formar um novo grupo de pessoas

repleto de paz, que, com certeza, conseguiria

muitos outros bons resultados.

 

*

Rose havia voltado a morar no casarão, de-

pois de providenciar sua restauração. O prédio

havia de fato recuperado toda a beleza de ou-

trora. Foi transformado em um orfanato, pois era

muito grande e poderia abrigar muitas crian-

ças. Rose fora uma criança mimada e não dera

valor a nada, por isso pretendia agora recupe-

rar o tempo perdido e trabalhar em auxílio aos

carentes.

 

18 - Caso Rose não tivesse orado e vigiado, provavelmente atrairia novamente para junto de si os obsessores, pois acabaria por desequilibrá-los por meio das energias negativas de seu pensamento. Se eles resistissem ao seu “chamado”, outras entidades desequilibradas poderiam se juntar a ela por afinidade de pensa-mento, causando nova obsessão.

 

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Numa visita de surpresa, Adalberto encon-

trou Rose e Valdomiro cuidando do jardim.

– E aí, como está o casal? Pelo que estou

vendo, parece que os dois gostam de cuidar da

terra.

– Bom dia, seu Adalberto – falou Valdomiro.

– Mexer com a terra, além de ser uma boa tera-

pia, ajuda a descarregar as tensões do dia-a-dia.

– Concordo plenamente – disse Adalberto e,

dirigindo-se a Rose, que colocava uma estaca

para segurar uma muda de rosas, elogiou: – Que

bom, Rose, foi uma ótima idéia transformar o

casarão em orfanato. Mas como fará para sus-

tentar isso tudo? – Perguntou, curioso.

Rose levantou-se, colocando as mãos na cin-

tura, forçando o corpo para trás, pois havia fica-

do muito tempo agachada. Olhou pensativa o

horizonte, como que relembrando o passado em

busca da resposta.

– Penso que o dinheiro que vem às nossas

mãos não deve servir apenas para nosso uso,

seu Adalberto – falou com tranqüilidade. – Gra-

ças a Deus meus pais me deixaram bem finan-

ceiramente, as empresas estão sólidas, meus tios

as administram bem e poderão auxiliar-me nes-

se projeto, pois são pessoas que visam também

a um mundo melhor e sei o que pensam, pois

costumam falar: “De que adianta o dinheiro, se

quando saímos para o trabalho ou a passeio en-

contramos crianças em faróis pedindo esmolas,

e sentimos medo ao saber que a qualquer mo-

mento poderemos ser assaltados por uma des-

sas crianças que se tornaram marginais?” Por-

 

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Os Segredos do Casarão

 

tanto, eles ficarão felizes com a causa que abra-

çamos. Eu faço uma parte colocando a mão na

massa, e eles fazem a deles ajudando-me a

sustentá-la, cada um fazendo a parcela que lhe

cabe.

– Ótimo, quem dera todos pensassem assim.

Iríamos passar logo de mundo de expiação para

um mundo de regeneração – filosofou Adalberto,

feliz.

– Como é que é?! – Perguntou Valdomiro.

– Acontece que vivemos em um mundo de

expiação e provas, onde somos obrigados a con-

viver com misérias, crimes e todo tipo de

desajuste da sociedade, local perfeito para nos

aperfeiçoarmos. Mas como somos espíritos em

evolução, um dia venceremos todas essas fra-

quezas e então o amor, a fraternidade e a bene-

volência imperarão, e a Terra será um planeta

feliz.

– Planeta feliz! Quem me dera estar nele! –

Exclamou Valdomiro.

– Tudo depende de você mesmo, só precisa

fazer por merecer – concluiu Adalberto.

 

*

Anos mais tarde, encontramos Rose no pá-

tio do casarão, brincando com as crianças. A ma-

nhã estava clara, era primavera, e o jardim esta-

va todo florido, paraíso para as borboletas, bei-

ja-flores e todo tipo de ser vivo que possa usu-

fruir das flores. O ruído das vozes e risos das

crianças soavam como melodia.

Valdomiro, da sacada, tudo observava, feliz,

e intimamente agradecia a Deus por fazer parte

 

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daquela obra assistencial, em que ele era parte

importante. Sua mente voltou ao passado,

relembrando quando o amigo Adalberto falou de

um mundo feliz. Perguntou-se se aquelas crianças

já seriam as herdeiras do novo mundo.

Rose e Valdomiro já podiam se considerar

uma família, pois além das crianças que o lar

adotara, Rose já levava no ventre dois seres que

outrora foram seus companheiros de infortúnio

e tragédias, mas que, graças ao auxílio dos ami-

gos espirituais, Josafá e Gerônimo combinaram

vir como irmãos consangüíneos, filhos de Rose

e Valdomiro. Dentro desse programa estava pre-

vista também a vinda de Joaninha.

Assim, o amor tudo corrigirá, levando todos

a serem herdeiros do novo mundo. Um mundo

em que a felicidade realmente existirá.

 

FIM

 

Se você gostou desse livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente a literatura espírita. Entre nessa corrente!

 

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