Os Segredos do Casarão
O encontro no casarão
Elizabeth Artmann
O
Encontro no
Casarão
A data combinada para fazer a reunião no
casarão foi o sábado seguinte, e seria à noite.
Valdomiro e Rose não gostaram, a princípio;
porém não falaram nada, pois Adalberto deve-
ria ter um bom motivo para ter escolhido aquela
data, e como era em benefício da jovem, prefe-
riram acatar sem qualquer comentário.
No sábado, bem antes do horário programa-
do para irem ao casarão, Valdomiro já estava na
casa de Adalberto. Todos sabiam o motivo de
tanto entusiasmo, que era ficar perto de Rose.
Ficaram os dois conversando na varanda. Quan-
do faltava pouco para o horário combinado,
Adalberto saiu e falou:
98
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
– Vamos indo, no caminho passaremos na
casa de Fina.
Ao chegarem no casarão, por volta das
dezenove horas, o sol já estava quase desapare-
cendo, iluminando com uma beleza monumen-
tal as nuvens, proporcionando um espetáculo
fantástico que só a natureza pode nos oferecer.
Adalberto fez questão de dar uma paradi-
nha, olhar para as nuvens e dar um suspiro de
felicidade, elevando o pensamento, agradecen-
do pela oportunidade de poder presenciar aque-
la maravilha.
– Que lindo, não é, seu Adalberto? – Falou
Valdomiro, também admirando os raios solares
banhando as nuvens.
– Sim, é maravilhoso – respondeu simples-
mente o senhor. – Poderia ficar horas admiran-
do que não me cansaria.
Valdomiro concordou com um sorriso e saiu
da porta do carro, porque Rose e Fina já esta-
vam ficando incomodadas com a demora.
Desceram todos do carro e se dirigiram para
o casarão. Rose estava visivelmente preocupa-
da. Desde que tinha saído daquela casa, não ti-
nha retornado mais e não sabia como se com-
portar e agir. Com certeza, Gerônimo, Josafá e
Joaninha estavam lá dentro, e ela não saberia a
reação deles quando entrasse na casa. Com re-
ceio foi ficando para trás, torcendo a blusa que
tinha nas mãos e com os olhos lacrimejantes e
apavorados.
Valdomiro notou o drama da garota e cha-
mou por Adalberto, que voltou e abraçou Rose
com carinho.
99
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
– Não tem nada com que se preocupar, que-
rida, com nossa presença eles não poderão fa-
zer nada. Mantenha o pensamento elevado, pen-
se em Jesus que tudo dará certo. Não estamos
sós, bons companheiros do plano espiritual es-
tão conosco e nos ajudarão no que for necessá-
rio. Confie e ore.
– Está bem, desculpe – respondeu Rose.
Entraram devagarinho. Valdomiro foi até a
caixa de luz ligar a chave geral. A casa estava
limpa, pois Adalberto havia providenciado a lim-
peza logo depois que Rose foi retirada dali, mas
como tinha ficado algum tempo fechada, persis-
tia um cheiro desagradável. Fina procurou abrir
as janelas e a corrente de ar se encarregou de
purificar o ambiente, tornando-o mais respirável.
De imediato não se notava nada. Adalberto não
conseguia “ver” nenhum dos espíritos, mas sen-
tia a presença deles. Estavam na casa, provavel-
mente no andar de cima.
– É muita ousadia! – Dizia Josafá, com ódio,
batendo com sua varinha contra a mão. – Como
eles têm coragem de vir até aqui? Dá vontade
de torcer o pescoço daquela idiota.
– Tenha cal... – tentou recomendar Joaninha,
mas foi interrompida.
– Cale a boca! Não me interessa a sua opi-
nião. Se não fosse aquele velhote, bem que eu
ia lá dar umas varetadas naquela cínica!
– O que você acha que vieram fazer aqui? –
Perguntou Gerônimo, sentado no chão.
Josafá olhou com ironia o companheiro alei-
jado e deu uma gargalhada.
100
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
– Eles vieram aqui para nos provocar, mas
não deixarei que levem a melhor... Estranho,
estou sentindo tonteira. Que droga está aconte-
cendo comigo?
– Eu também estou tonta – disse Joaninha,
sentando-se na cama.
E s p í r i t o s d e l u z , q u e a c o m p a n h a v a m
Adalberto, já estavam no quarto, preparando os
três espíritos rebeldes, pois eles seriam “convi-
dados” a participar da reunião15.
Na sala, todos já estavam acomodados.
Adalberto fez a abertura da reunião e pediu que
Fina fizesse uma prece, no que foi atendido pron-
tamente.
– Deus-Pai – falava ela com profundo reco-
lhimento e meditação –, agradecemos a oportu-
nidade de poder servi-Lo, de estarmos encarna-
dos resgatando nossos débitos e também de po-
der ajudar irmãos menos esclarecidos. Temos
consciência do compromisso de nossa missão
como médiuns e sabemos que isso não é um
privilégio, mas sim uma oportunidade de resga-
tar nossos débitos perante Vós. Dai-nos forças para
alcançarmos nossos propósitos imediatos e os
que estão por vir, enviai Vossos mensageiros para
nos auxiliar, se isso for do nosso merecimento.
Humildes e servidores, faremos o máximo que
15 - Os três obsessores não percebiam a presença dos trabalhadores do plano espiritual devido à diferença de vibração. Os espíritos elevados têm uma energia mais pura e por isso não foram vistos nem sentidos pelos perseguidores de Rose, possuidores de uma energia mais densa. Porém, quando há necessidade, os espí-ritos de luz podem se fazer enxergar pelos espíritos de vibração inferior.
101
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
está ao nosso alcance para atingir os propósitos
almejados. Graças!
– Valdomiro, abra o Evangelho aleatoriamen-
te e leia a mensagem – pediu Adalberto.
– Sim, senhor – respondeu o rapaz, abrindo
o livro e, surpreso, leu a mensagem:
– “Os inimigos desencarnados.” O espírita
tem ainda outros motivos de indulgência para
com seus inimigos. Primeiramente, sabe que a
maldade não é o estado permanente dos ho-
mens, mas que é devida a uma imperfeição mo-
mentânea e, do mesmo modo que a criança se
corrige dos seus defeitos, o homem mau um dia
reconhecerá seus erros e se tornará bom.
“Sabe também que...” 16
Valdomiro leu o texto emocionado e trans-
mitiu emoção a todos.
– A lição vem mesmo a calhar – disse
Adalberto. – Temos aqui um caso de vingança
vinda do passado, em que o ódio tem predomi-
nado, endurecendo corações, não permitindo a
entrada de luz e, conseqüentemente, de amor.
Mas, como disse a mensagem, não existe cora-
ção tão perverso que não seja tocado por bons
sentimentos. Assim, podemos dizer que ninguém
é mau e que a bondade é uma semente que ain-
da está dormente nesses corações e de uma hora
para outra pode desabrochar, mudando o traje-
to desses espíritos, antes envoltos nas trevas, ago-
ra iluminados, pois esse é o desejo do Pai, pois,
enquanto estivermos no caminho da ignorân-
16 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, capítulo 12, Petit Editora.
102
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
cia, estaremos estacionados na evolução. No mo-
mento em que passamos a praticar a caridade,
retomamos o caminho para o alto. Perdoar é
um dos mais sublimes atos de caridade, por-
que aquele que carrega ódio no coração sofre
muito, não conhece a felicidade e só a carida-
de é capaz de proporcionar a verdadeira feli-
cidade.
Gerônimo e Joaninha, que estavam acomo-
dados na sala, apesar de levemente atordoados,
tinham consciência do que estava ocorrendo e
ficaram emocionados com as palavras de
Adalberto. Não eram espíritos ruins, apenas eram
vitímas das circunstâncias, influenciados pelo
poder de persuasão de Josafá, que não permitia
qualquer iniciativa, tornando-os quase que es-
cravos.
Josafá, por sua vez, continuava irredutível,
olhava com ar zombeteiro e de provocação para
Adalberto.
Os espíritos de luz, vendo que seria difícil
convencê-lo naquele momento, tornaram-se vi-
síveis aos três. Um deles aproximou-se de Josafá
de forma carinhosa e abraçou-o sem sofrer re-
sistência, fazendo-o adormecer. Em seguida,
pediu a Adalberto que encerrasse a reunião, pois
os três seriam levados ao Centro para tentarem
lá a doutrinação deles.
*
Às segundas-feiras, havia sempre reuniões de
desobsessão, em que espíritos eram esclarecidos
da sua nova situação e, se possível, doutrinados
e socorridos.
103
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
Estavam todos presentes na reunião. Adal-
berto fez a abertura com uma prece e em segui-
da um dos presentes leu uma passagem de O
Evangelho Segundo o Espiritismo que diz: “Aque-
le dentre vós que estiver sem pecado atire a pri-
meira pedra” 17. Depois de meditarem sobre o
ensinamento do perdão, deram início às comu-
nicações.
Josafá, Gerônimo e Joaninha estavam dor-
mindo num quarto no plano espiritual, logo aci-
ma do salão onde acontecia a reunião. Quando
os trabalhos de incorporação começaram, eles
foram levados para lá, ainda meio atordoados.
Josafá estava sempre acompanhado por um
mentor, que se mantinha abraçado a ele. Quan-
do chegaram, o espírito de luz fez com que ele
despertasse do torpor em que se encontrava e
falou-lhe com muito carinho, pedindo que se
aproximasse de Fina para que ela lhe permitisse
uma incorporação. Josafá não pôde recusar. Ta-
manho era o bem-estar que aquele espírito lhe
proporcionava que tocou seu espírito rebelde.
Ele se aproximou de Fina, que já estava em tran-
se, e ficou a seu lado.
– Fale, irmão – disse o espírito de luz –, abra
o seu coração.
– Não entendo o que está acontecendo... –
disse Josafá, espantando-se ao ver a médium
repetir as suas palavras.
– Continue, irmão, você está entre amigos
– incentivou Adalberto.
17 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10, Petit Editora.
104
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
– Amigos!!! Não sei do senhor, por quem
tenho muito respeito, mas nunca serei amigo
desta trapaceira, quero mesmo é que ela derre-
ta no fogo do inferno!!! – Bradou Josafá com
ódio, apontando para Rose.
– Compreendemos sua revolta – disse
Adalberto –, mas Rose já sofreu muito e hoje
compreende que o ódio não leva a nada. Ela
sabe também que lhe fez maldades num passa-
do já distante e hoje pede que você a perdoe.
– Perdoar?! O senhor está delirando, jamais
perdoarei!!!
– Tenho certeza de que Gerônimo a perdoa-
ria, e ele foi o que mais sofreu, até mais do que
você, pois foi ele quem teve as pernas queima-
das em conseqüência da fragilidade de Rose.
Você sofreu um castigo injusto, foi morto em con-
seqüência disso. Mas lembre-se de que nada nos
acontece por acaso. Gerônimo está cansado de
se arrastar, vamos liberá-lo para poder caminhar
novamente.
– Como o senhor sabe dessas coisas? Elas
aconteceram há muito tempo – disse Josafá,
olhando para Gerônimo. – Este traste não vai
andar nunca mais.
– Libere-o simplesmente, o resto nós fare-
mos – pediu Adalberto, tentando convencê-lo.
– Por mim, tudo bem, já estou cheio de tê-
lo por perto mesmo.
– Não querendo abusar da sua bondade,
pediria que liberasse também a Joaninha.
– Não, assim já é demais! Ela ficará comigo.
105
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
– Está bem, voltemos então ao caso de Rose.
Se você perdoá-la, poderá acompanhar os ir-
mãos a esferas mais elevadas, onde será atendi-
do com muito amor, e no futuro poderá até es-
tudar. Você irá se sentir muito melhor que ago-
ra, perdoe para sentir-se melhor.
– Já ouvi falar de lugares que dizem ser ma-
ravilhosos – Josafá já demonstrava um certo
cansaço e inclinado a aceitar o convite –, mas
sempre achei que eu não seria digno desses lu-
gares, pois sou muito ignorante, estúpido e ne-
gro ainda por cima. Com certeza não iriam me
aceitar lá.
– Todos somos dignos desses lugares, você
só precisa se arrepender dos seus erros e per-
doar àqueles que você acha que são seus inimi-
gos, pois, na verdade, não temos inimigos, somos
todos irmãos. Perdoe e comece uma nova trilha
na sua existência – disse Adalberto com muito
carinho, o que foi o suficiente para minar as for-
ças do espírito rebelde.
Nesse instante o espírito de luz que estava
ao lado de Josafá abraçou-o com carinho. Josafá
olhou para ele e chorou como criança, pois na-
quele momento pôde reconhecer o espírito que
estivera sempre ali. Era sua mãe. Numa fração
de minutos, recordou o tempo em que estive-
ram juntos na encarnação passada, quando ele
era apenas um rapazola e estava frente a um
futuro não muito promissor, que era a vida de
escravo, e sua mãe lhe falava com carinho da
necessidade de resignação, de não cultivar o ódio
e de buscar sempre ser amigo de todos.
106
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
– Perdoe-me, mãe – pediu Josafá, em pran-
tos, nos braços de sua mãe –, por ter sido mau
por tanto tempo, perdoe-me.
– Eu não tenho o que lhe perdoar, querido,
você é que precisa perdoar para poder se liber-
tar deste peso que está carregando por tanto tem-
po. Perdoe Rose para irmos a um lugar maravi-
lhoso, onde sempre o quis levar.
– Está bem, mãezinha, perdôo Rose e quero
tê-la como amiga.
Naquele instante o ambiente se transformou.
Do teto começaram a cair pétalas de flores per-
fumando o ambiente, raios de luz maravilhosos
vinham do teto, de uma fonte desconhecida, de-
monstrando que a espiritualidade se rejubilava
com o acontecido. Havia festa no céu.
Josafá, Gerônimo e Joaninha adormeceram
e foram levados com facilidade para um posto
de socorro espiritual.
Adalberto acompanhou tudo, admirando o
mecanismo espiritual e dando graças novamen-
te, pois naquele momento mais uma corrente de
ódio havia se rompido, dando lugar à fraterni-
dade, e mais corações poderiam usufruir das
benesses do bem e da caridade.
Rose, envolta em muita emoção, estava cho-
rando, só que dessa vez não era de medo, e sim
de felicidade inexplicável e maravilhosa, senti-
mento tão bom e tão pouco experimentado. Es-
tava aliviada, como se um fardo houvesse sido
retirado de seus ombros, sentindo que realmen-
te havia sido perdoada.
107
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
– Vamos dar graças a Deus por tudo ter dado
certo – disse Adalberto. – Vamos orar para que
nossos irmãos possam se adaptar o mais breve
possível à nova trilha que sabiamente escolhe-
ram nesta noite, e que de agora em diante eles
possam transformar o ódio que tinham em seus
corações em virtudes elevadas, alcançar benefí-
cios para si e para todos aqueles que com eles
tiverem contato. E que Deus nosso Pai os ilumine,
graças.
Todos acompanharam a prece mentalmente
e, quando terminou, retiraram-se do salão.
Já fora do Centro, Valdomiro abraçou Rose
com carinho. Ela encostou sua cabeça no om-
bro do rapaz e seguiram juntos para casa.
No dia seguinte, Rosália saiu para dar sua
costumeira varrida no quintal. Estava distraída
quando, de repente, olhou para o casarão e es-
tranhou, pois ele estava diferente. Não sabia
como, antes não gostava de olhar para ele por-
que sentia como se uma nuvem escura o envol-
vesse, transmitindo sensações ruins, mas agora
estava diferente. Com o sol iluminando-o todo,
as plantas estavam mais vivas e não havia mais
aquele ambiente ruim envolvendo-o, simplesmen-
te estava lindo como nunca. Rosália ficou ali
parada por alguns minutos, admirando a casa.
Nunca havia notado os detalhes, que só agora
lhe pareciam visíveis.
Matilde estava saindo quando viu sua vizi-
nha, não gostou de encontrá-la, mas mudou de
opinião quando notou que ela estava parada,
como que hipnotizada, olhando para o casarão.
108
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
Aproximou-se do muro que separava as duas
casas e chamou:
– Dona Rosália, algum problema? – Per-
guntou.
– Não... não... – Disse ela, se assustando. –
Está tudo bem. A senhora viu como o casarão
está diferente?
Só nesse instante Matilde prestou atenção ao
casarão e também ficou admirada com o novo
visual.
– O que a senhora acha que aconteceu? –
Perguntou Rosália.
– Acho que vieram fazer alguma reunião es-
pírita, pois no sábado à noite vi seu Adalberto e
alguns colegas do Centro entrarem junto com a
Rose no casarão – esclareceu Matilde, que tam-
bém freqüentava o Centro Espírita.
– Cruz-credo! Deve ser macumba.
– Não é, uma das pessoas que esteve aí eu
conheço. É o senhor Adalberto, ele é dirigente
do Centro Espírita, pessoa boa, ajuda muita
gente que está necessitada. Acredito que vieram
ajudar os espíritos que estavam nessa casa, e,
pelo que estamos vendo hoje, tenho certeza de
que conseguiram.
– A senhora quer me dizer que tinha espíri-
tos naquela casa e que eram eles que assusta-
vam as pessoas?
– Sim, a solução do problema seria uma boa
notícia para começarmos o dia, não é? – Disse
Matilde, saindo e sorrindo.
Rosália continuou parada, sua cabeça não
conseguia assimilar aquelas novidades, mas teve
109
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
um “pensamento” interessante. Pediria o ende-
reço do Centro Espírita à sua vizinha e iria lá
conhecer. Quem sabe alguma coisa boa aconte-
ceria em sua vida?
Com esses pensamentos, continuou a varrer
o quintal e começou a cantarolar.
Pelos olhos do corpo não poderíamos ver o
que estava acontecendo naquele momento, mas
pelos olhos do espírito ficaríamos emocionados
em ver o espírito protetor de Rosália chorando
de felicidade por aquela iniciativa de sua prote-
gida. Havia muito tempo ele esperava por aquela
atitude. Quem sabe agora Rosália colocaria al-
gumas coisas boas em sua cabecinha e tomaria
um bom rumo na sua vida.
110
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
E
Tudo Acabou
Bem
Tempos depois, no final de uma das reuniões
do Centro Espírita, encontraram-se todos no
salãozinho que ficava nos fundos.
– Parece que temos grandes novidades acon-
tecendo, não é, seu Valdomiro? – Perguntou
Adalberto em tom de brincadeira. – Além da me-
lhora considerável de Rose, a família do Tonico
está bem melhor, graças a Deus.
– Queremos agradecer imensamente o auxí-
lio que recebemos de vocês – disse Tonico em
tom cerimonioso. – Seu Adalberto, Valdomiro,
Fina e todos aqui do Centro, que modificaram
radicalmente nossas vidas, é impressionante as
melhorias que sentimos nesses últimos meses.
Vamos ser eternamente gratos.
111
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
– O que fizemos, Tonico – disse Adalberto –,
não foi mais que nossa obrigação. E depois, nós
nos beneficiamos também com sua melhora,
pois, ajudando as pessoas, estamos nos ajudan-
do também. É assim que funciona a fraternidade,
é assim que construiremos um mundo melhor, é
assim também que evoluímos, objetivo princi-
pal da nossa existência. Portanto, não se preo-
cupe em agradecer ou pagar, seu pagamento será
o benefício que você fará a outros irmãos, aju-
dando-os sem esperar recompensas, ajudando
sempre, quanto mais, melhor.
– Mesmo assim, como não temos o conheci-
mento que o senhor tem, vamos ficar agradeci-
dos por enquanto, até estarmos prontos para
sermos úteis aos outros – respondeu Tonico, vi-
sivelmente emocionado.
– Vocês já estão prontos para ser úteis –
elucidou Adalberto. – Todos nós, desde o mo-
mento em que fomos fecundados no ventre de
nossa mãe, já nos tornamos úteis, ou seja, antes
de nascermos já começamos a ser úteis. E assim
vai vida afora, depende apenas de nós sermos
mais ou menos úteis.
– Como podemos ser úteis antes mesmo de
nascer? – Quis saber Valdomiro.
– Raciocine, Valdomiro, no momento em que
uma mulher fica grávida, ela tem de tomar de-
terminados cuidados, tem de rever atitudes, eli-
minar vícios para ajudar o bebê e conseqüente-
mente a si mesma. Assim, quando somos fecun-
dados, já começamos a ajudar, indiretamente.
Mas, voltando ao assunto, você não tem uma
112
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
novidade para nos contar? – Perguntou Adal-
berto, sorridente.
– Temos sim. Eu e Rose marcamos nosso noi-
vado – disse Valdomiro, olhando com carinho
para Rose – e pretendemos nos casar o mais bre-
ve possível.
Todos bateram palmas de alegria e foram
abraçar os jovens.
Assim, uma obsessão chegou ao fim. Para
isso, além do trabalho espiritual, foi fundamen-
tal a colaboração de Rose, que rezou muito e
modificou seu campo mental, evitando fazer
queixas, ficar triste e afastando todo tipo de pen-
samento negativo18.
Assim, o que inicialmente era um problema
serviu para formar um novo grupo de pessoas
repleto de paz, que, com certeza, conseguiria
muitos outros bons resultados.
*
Rose havia voltado a morar no casarão, de-
pois de providenciar sua restauração. O prédio
havia de fato recuperado toda a beleza de ou-
trora. Foi transformado em um orfanato, pois era
muito grande e poderia abrigar muitas crian-
ças. Rose fora uma criança mimada e não dera
valor a nada, por isso pretendia agora recupe-
rar o tempo perdido e trabalhar em auxílio aos
carentes.
18 - Caso Rose não tivesse orado e vigiado, provavelmente atrairia novamente para junto de si os obsessores, pois acabaria por desequilibrá-los por meio das energias negativas de seu pensamento. Se eles resistissem ao seu “chamado”, outras entidades desequilibradas poderiam se juntar a ela por afinidade de pensa-mento, causando nova obsessão.
113
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
Numa visita de surpresa, Adalberto encon-
trou Rose e Valdomiro cuidando do jardim.
– E aí, como está o casal? Pelo que estou
vendo, parece que os dois gostam de cuidar da
terra.
– Bom dia, seu Adalberto – falou Valdomiro.
– Mexer com a terra, além de ser uma boa tera-
pia, ajuda a descarregar as tensões do dia-a-dia.
– Concordo plenamente – disse Adalberto e,
dirigindo-se a Rose, que colocava uma estaca
para segurar uma muda de rosas, elogiou: – Que
bom, Rose, foi uma ótima idéia transformar o
casarão em orfanato. Mas como fará para sus-
tentar isso tudo? – Perguntou, curioso.
Rose levantou-se, colocando as mãos na cin-
tura, forçando o corpo para trás, pois havia fica-
do muito tempo agachada. Olhou pensativa o
horizonte, como que relembrando o passado em
busca da resposta.
– Penso que o dinheiro que vem às nossas
mãos não deve servir apenas para nosso uso,
seu Adalberto – falou com tranqüilidade. – Gra-
ças a Deus meus pais me deixaram bem finan-
ceiramente, as empresas estão sólidas, meus tios
as administram bem e poderão auxiliar-me nes-
se projeto, pois são pessoas que visam também
a um mundo melhor e sei o que pensam, pois
costumam falar: “De que adianta o dinheiro, se
quando saímos para o trabalho ou a passeio en-
contramos crianças em faróis pedindo esmolas,
e sentimos medo ao saber que a qualquer mo-
mento poderemos ser assaltados por uma des-
sas crianças que se tornaram marginais?” Por-
114
2ª Revisão
Os Segredos do Casarão
tanto, eles ficarão felizes com a causa que abra-
çamos. Eu faço uma parte colocando a mão na
massa, e eles fazem a deles ajudando-me a
sustentá-la, cada um fazendo a parcela que lhe
cabe.
– Ótimo, quem dera todos pensassem assim.
Iríamos passar logo de mundo de expiação para
um mundo de regeneração – filosofou Adalberto,
feliz.
– Como é que é?! – Perguntou Valdomiro.
– Acontece que vivemos em um mundo de
expiação e provas, onde somos obrigados a con-
viver com misérias, crimes e todo tipo de
desajuste da sociedade, local perfeito para nos
aperfeiçoarmos. Mas como somos espíritos em
evolução, um dia venceremos todas essas fra-
quezas e então o amor, a fraternidade e a bene-
volência imperarão, e a Terra será um planeta
feliz.
– Planeta feliz! Quem me dera estar nele! –
Exclamou Valdomiro.
– Tudo depende de você mesmo, só precisa
fazer por merecer – concluiu Adalberto.
*
Anos mais tarde, encontramos Rose no pá-
tio do casarão, brincando com as crianças. A ma-
nhã estava clara, era primavera, e o jardim esta-
va todo florido, paraíso para as borboletas, bei-
ja-flores e todo tipo de ser vivo que possa usu-
fruir das flores. O ruído das vozes e risos das
crianças soavam como melodia.
Valdomiro, da sacada, tudo observava, feliz,
e intimamente agradecia a Deus por fazer parte
115
2ª Revisão
Elizabeth Artmann
daquela obra assistencial, em que ele era parte
importante. Sua mente voltou ao passado,
relembrando quando o amigo Adalberto falou de
um mundo feliz. Perguntou-se se aquelas crianças
já seriam as herdeiras do novo mundo.
Rose e Valdomiro já podiam se considerar
uma família, pois além das crianças que o lar
adotara, Rose já levava no ventre dois seres que
outrora foram seus companheiros de infortúnio
e tragédias, mas que, graças ao auxílio dos ami-
gos espirituais, Josafá e Gerônimo combinaram
vir como irmãos consangüíneos, filhos de Rose
e Valdomiro. Dentro desse programa estava pre-
vista também a vinda de Joaninha.
Assim, o amor tudo corrigirá, levando todos
a serem herdeiros do novo mundo. Um mundo
em que a felicidade realmente existirá.
FIM
Se você gostou desse livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente a literatura espírita. Entre nessa corrente!
116
2ª Revisão
Você terminou Os Segredos do Casarão
Elizabeth Artmann
Livros como este
-
Só o Amor Liberta
-
Inspiração
-
Uma Farsa com Benefícios
-
A Intrusa
-
Quando Chega a Hora
-
Quando a Vida Escolhe
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.