Os Sofrimentos do Jovem Werther
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Convidei-a para a segunda contradança, e ela me aceitou para a terceira, afirmando com a franqueza mais amável desse mundo que
gostava muito de dançar a alemã. [21] “É costume por aqui”, prosseguiu ela, “que cada par ajustado permaneça junto durante a
alemã, mas o meu chapeau[22] valsa mal e agradecer-me-á se o dispensar. A dama que faz par convosco também não dança melhor, e por isso não se importará. Reparei, nas inglesas, que valsais bem; e se desejais ser meu durante a alemã, ide pedir-me ao meu cavalheiro, que eu vou fazer o mesmo a vossa dama.” Dei-lhe a mão depois disso, e convimos que o par de Carlota conversaria com
o meu durante a valsa.
E assim começou! Entretivemo-nos a princípio com mil passagens de braços. Com que graça, com que agilidade ela fazia seus movimentos! E quando chegamos à valsa e começamos a girar uns ao redor dos outros como esferas celestes, houve, a princípio, certa confusão, pois poucos pares sabiam dançá-la. Fomos bastante prudentes e esperamos que eles se soltassem, e quando os menos conhecedores deixaram a pista, tomamos conta do salão e, juntando-nos a outro par, formado por Audran e sua companheira, recomeçamos com entusiasmo redobrado.
Nunca me senti tão solto. Já nem mais humano era. Ter nos braços a mais encantadora das criaturas, voar com ela como um furacão até perder a noção de tudo que nos circundava, vendo tudo se desvanecer... Guilherme, para ser franco, foi naquele momento que fiz o juramento de que a moça que eu amasse, aquela que eu pretendesse, jamais valsaria senão comigo, ainda que isso me custasse tudo o que há neste mundo. Tu me compreendes!
Demos algumas voltas pela sala para tomar ar. Depois ela sentou-se, e as laranjas que eu pusera de lado, as únicas que ainda restavam, surtiram excelente efeito. Mas a cada gomo que a vizinha pegava da tigela, aproveitando-se da minha e da cortesia de Carlota, uma flecha trespassava meu coração.
À terceira contradança inglesa, éramos o segundo par. Ao passar dançando por entre as filas – só Deus sabe com quanto deleite eu segurava seu braço e fitava seus olhos, nos quais brilhava o mais puro e mais inocente prazer –, eis que vejo aparecer diante de nós uma mulher que me impressionou por sua fisionomia agradável, ainda que já não estivesse no verdor dos anos. Ela olha para Carlota a sorrir, levanta um dedo ameaçador e pronuncia duas vezes o nome de Alberto ao cruzar conosco, em tom mui significativo.
“Quem é esse Alberto”, disse eu a Carlota, “se não é muita indiscrição perguntar?” Ela estava a ponto de me responder quando
tivemos de nos separar para formar o grande oito.[23]
Ao tornar a passar diante dela, pareceu-me notar uma ruga de preocupação em sua testa. “Para que deveria negá-lo?”, disse-me ela, oferecendo-me o braço para passearmos. “Alberto é um bom homem, com o qual estou, poder-se-ia dizer, comprometida.” Com efeito, aquilo não era novidade para mim, pois as moças já mo haviam dito no caminho, e contudo me pareceu tão absolutamente novo de repente... É que até aquele momento eu ainda não havia estabelecido uma relação direta entre aquilo que me fora contado e a bela jovem, que em tão breves instantes se me tornara tão querida. Foi o que bastou, eu me desconcertei, me esqueci de tudo e me meti entre o par errado, atrapalhando a todos aqui e acolá, de sorte que Carlota precisou de toda sua presença de espírito para,
puxando daqui e dali, conseguir restabelecer a ordem.[24]
Não havia ainda terminado a dança, quando os relâmpagos que já há muito víamos brilhar no horizonte, e que eu seguia empenhado em não levar a sério, começaram a tornar-se mais fortes, até que os trovões dominaram a música. Três damas saíram das filas e os seus cavalheiros seguiram-nas; a desordem generalizou-se e a orquestra parou. É natural que, quando um acidente ou um terror súbito nos surpreende no meio do divertimento, a impressão causada seja maior do que em qualquer outra ocasião, um pouco por causa do contraste, outro tanto – e esse viés é mais significativo – por estarem todos os nossos sentidos vivamente excitados e suscetíveis
a receber tanto mais rápido uma impressão. [25] É a isso que atribuo as estranhas caretas que vi desabrocharem no rosto de muitas damas. A mais prudente foi
refugiar-se num canto, de costas para a janela e tapando os ouvidos. Outra, de joelhos diante dela, escondia a cabeça no colo da primeira. Uma terceira se meteu entre as duas e envolveu sua irmãzinha num mar de lágrimas. Algumas queriam voltar para casa; outras, que sabiam ainda menos o que fazer, já nem sequer tinham forças para reprimir os atrevimentos de nossos jovens estouvados, bastante ocupados em interceptar, nos lábios das belas aflitas, as ardentes súplicas que faziam ao céu. Uma parte dos homens havia descido para fumar com tranqüilidade o seu cachimbo. Já a parte restante dos convivas andava indecisa, quando ocorreu à nossa anfitriã a sábia idéia de indicar-nos um quarto onde as janelas eram protegidas por cortinas. Mal havíamos chegado lá, e Carlota já se pôs a formar um círculo de cadeiras. Depois de todos se sentarem a seu pedido, propôs um jogo.
Vi mais de um que, na esperança de alguma saborosa prenda, lambeu os beicinhos e se empertigou na cadeira. “Vamos jogar com os números”, disse ela. “Atenção! Vou andar à volta no círculo da direita para a esquerda, e vós ireis cantando, cada qual o número que lhe tocar; mas isso tem de ser rápido como um rastilho de pólvora e quem hesitar ou se enganar receberá uma bofetada, e assim até mil.” Era um encanto ver aquilo. Ela andava à roda com o braço estendido. Um, disse o primeiro; dois, o vizinho; três, o seguinte, e assim os demais, por sua ordem. Ela logo apertou o passo, cada vez mais depressa. Até que um errou e páf!, uma bofetada, e, à risada do seguinte, também páf! E assim cada vez mais rápido. Eu mesmo recebi dois tabefes, e pareceu-me notar, com secreto prazer, que mos dava com mais força que a qualquer outro. Gargalhadas e uma barulheira geral puseram fim ao jogo antes de se ter contado até mil. Os mais chegados se reuniram em grupos, a tempestade passara, e eu segui Carlota à sala. “As bofetadas”, disse-me ela no caminho, “fizeram com que esquecessem trovoadas e tudo!” Não pude responder-lhe nada. “Eu era”, prosseguiu ela, “uma das mais medrosas. Mas, afetando coragem para a dar aos outros, fiz-me eu mesma corajosa.”
Chegamos à janela. Ainda trovejava ao longe e uma chuva esplêndida caía sobre a terra em doces murmúrios, o ar refrescara-se e trazia-nos em haustos o perfume que as plantas exalavam. Ela estava parada, apoiando os cotovelos ao parapeito; seu olhar passeou pela paisagem, elevou-se ao céu e dirigiu-se a mim, e vi os seus olhos cheios de lágrimas quando pôs sua mão sobre a minha e
disse: “Klopstock!” Lembrei-me logo da ode sublime[26] que lhe ocupava o pensamento e mergulhei na torrente de sentimentos que ela derramava sobre mim naquele momento. Não pude suportá-lo, inclinei-me para a sua mão e beijei-a sob o impulso de lágrimas deleitosas, voltando a contemplar os seus olhos em seguida... Nobre poeta! Oh, se tivesses visto tua apoteose naquele olhar! E se eu pudesse não voltar a ouvir jamais teu nome tantas vezes profanado em outros lábios!
19 de junho
Já não sei mais por onde fiquei em minha narrativa. Tudo o que sei é que eram duas horas da madrugada quando me deitei à cama, e que se pudesse conversar contigo ao invés de escrever, teria talvez te mantido acordado até de manhã.
O que se passou durante o regresso do baile ainda não te contei e nem tenho tempo de fazê-lo hoje.
Era a mais esplêndida das alvoradas! O bosque coalhado de rocio e o campo tão fresco à nossa volta... Nossas vizinhas dormitavam. Ela perguntou-me se eu não queria fazer o mesmo, já que por ela eu não precisava me preocupar. “Enquanto eu vir esses olhos abertos”, disse eu, e olhei-a fixamente, “não posso fechar os meus.” Assim permanecemos até a porta de sua casa e ali nos detivemos. A criada abriu-a em silêncio e ela, com algumas perguntas, certificou-se de que seu pai e as crianças estavam bem e continuavam dormindo. Deixei-a pedindo licença para tornar a vê-la nesse mesmo dia; ela consentiu e eu fui. Desde esse momento, sol, lua, estrelas podem seguir tranqüilas a sua órbita, que para mim já não há mais dia nem noite, e o mundo inteiro dissipou-se à minha volta.
21 de junho
Vivo dias tão felizes como só são aqueles que Deus reserva a seus eleitos. Aconteça o que acontecer, jamais poderei dizer que não experimentei a felicidade, a felicidade mais pura da vida! Tu conheces o meu Wahlheim. Ali estou estabelecido a gosto; e dali a Carlota é apenas meia hora... Ali sinto-me eu próprio... e gozo toda a felicidade que é concedida ao homem.
Como poderia eu ter imaginado, quando elegi esse mesmo Wahlheim para fazer os meus passeios, que ele estava tão perto do céu! Quantas vezes, nas minhas longas caminhadas, ora do alto da montanha, ora da planície do outro lado do rio, descortinei esse pavilhão que encerra hoje todos os meus sonhos e desejos!
Caro Guilherme, fiz toda sorte de reflexões sobre a ânsia inata do homem de se expandir, de fazer novas descobertas, de errar aqui e acolá; e também sobre esse íntimo pendor de se entregar à limitação voluntariamente, de seguir deslizando pelos trilhos costumeiros, seguindo o ramerrão do hábito, sem voltar a vista para a direita ou para a esquerda.
É singular! Como me sentia atraído por tudo que jazia em derredor quando aqui vinha, e da colina contemplava aquele belo vale! Ali o bosquezinho! Oh, se um dia tu pudesses mergulhar em sua sombra! E mais além o cume de uma montanha! Oh, se pudesses contemplar dali toda essa vasta região! Essa cadeia de colinas e esses pacíficos vales! Ah, se eu pudesse me perder neles... Voava para ali! E regressava sem ter encontrado aquilo que procurava. Dá-se com a distância o mesmo que com o futuro. Um horizonte imenso, misterioso, repousa diante de nossa alma; o sentimento nele mergulha como o nosso olhar, e desejamos, ah! como desejamos, entregar todo o nosso ser para nos consubstanciarmos num só, grande e magnífico sentimento... Mas, ah!, corremos, voamos e quando lá chegamos, quando o longe se faz perto, nada se alterou, e nós encontramo-nos com nossas mesmas misérias, com os mesmos e estreitos limites, e de novo a nossa alma suspira pelo mesmo bálsamo que acabou de se esvair.
Assim o mais turbulento dos vagamundos suspira afinal por sua própria pátria, e acha na sua cabana, no regaço de sua esposa e em meio a seus filhos, nos cuidados que tem para ganhar seu pão, o deleite que em vão procurava pelo vasto mundo.
Quando, pela manhã, logo que nasce o sol, vou para o meu querido Wahlheim, quando eu
próprio colho as ervilhas no quintal de minha hospedeira, quando me sento para as descascar e de passagem ler Homero... E depois, quando vou escolher uma panela na pequena cozinha, quando me sirvo da manteiga, ponho as ervilhas ao fogo, tapo o cozido e me sento ao pé do fogão para as mexer de vez em vez... Ah, é então que sinto com intensidade como os magníficos e atrevidos amantes
de Penélope sacrificam, retalham e fazem assar bois e porcos![27] Não há nada que me encha de uma sensação mais plácida e verdadeira do que esses quadros da vida patriarcal, com os quais eu posso, sem afetação graças a Deus!, pintar o meu modo de viver atual.
Como me sinto feliz por ter um coração feito para sentir as alegrias simples e inocentes do homem que põe na sua mesa a cabeça de repolho que ele mesmo cultivou. E não apenas o repolho, mas também os bons dias, as belas manhãs em que o plantou, as deliciosas tardes em que o regou, e de novo volta a gozar em um momento todas aquelas alegrias que experimentou ao ver o paulatino crescimento da planta!
29 de junho Anteontem o médico da cidade veio ver o bailio e encontrou-me no chão, cercado pelos irmãozinhos de Carlota. Alguns deles engatinhavam sobre mim, outros me beliscavam, enquanto eu lhes fazia cócegas e todos juntos aprontávamos um grande alvoroço. O doutor, que é uma marionete sumamente dogmática e, em seus discursos, está sempre ocupado em arranjar as pregas dos punhos e estufar o peito como um galo de quintal, achou aquilo abaixo da dignidade de um homem sensato. Notei-o em seu nariz empinado. Mas eu não me desconcertei, deixei-o palrar a respeito das coisas mais profundas, e levantei o castelo de cartas que as crianças haviam destruído. E assim, de regresso à cidade, ele com certeza não deixou de contar, a quem quisesse ouvi-lo, que as crianças do bailio, já de per si tão mal-educadas, as acabava de estragar por completo esse tal Werther.
Sim, meu caro, é pelas crianças que meu coração mais se interessa neste mundo. Quando me ponho a examiná-las, e vejo nessas criaturinhas o gérmen de todas as virtudes, de todas as energias que logo haverão de lhes ser tão necessárias; quando descubro na sua pertinácia a futura inteireza e solidez de caráter; quando verifico na sua petulância, e até nas suas astúcias, o humor jovial e a agilidade para saltar por cima dos perigos do mundo, e tudo isto de modo tão incorrupto, tão íntegro... ah, então acabo sempre, mas sempre mesmo, repetindo as áureas palavras do Mestre dos
homens: “Se não fordes como um destes pequeninos”.. .[28] E pensar que, caríssimo, logo a eles, que são nossos iguais, a quem deveríamos tomar por modelos, tratamos como se fossem nossos vassalos. Não, eles não devem ter vontades! Não temos nós as nossas? E onde reside nosso privilégio? No fato de sermos mais velhos e sensatos?!
Bom Deus que estás no céu! Vês crianças velhas e crianças novas, e nada mais, e há muito que o teu Filho nos deu a conhecer aqueles que mais te aprazem. Mas os homens crêem nele e não o ouvem – e isto também é coisa velha! – e formam os seus filhos segundo eles próprios e... Adeus, Guilherme, não quero seguir batendo na mesma tecla.
1o de julho
O que Carlota deve ser para um enfermo, sinto-o no meu próprio e pobre coração, que anda pior que o de alguém a definhar em seu leito de tísico. Ela vai passar alguns dias na cidade, na casa de uma boa mulher que, segundo a opinião dos médicos, se aproxima do fim e, nestes últimos momentos, quer ter Carlota junto de si.
Fui, na semana passada, visitar com ela o pastor de Santo..., um lugarejo situado na montanha, há sessenta minutos daqui. Chegamos pelas quatro horas. Carlota levou consigo a irmã mais velha, aquela que vem depois dela em idade. Assim que entramos no pátio do presbitério, sombreado por duas corpulentas nogueiras, achamos o bom velho sentado num banco em frente à porta. Logo que viu Carlota pareceu recobrar nova vida, esqueceu de seu bordão nodoso, levantou-se e arriscou ir ao encontro dela. Ela correu para ele, obrigou-o a sentar-se de novo e, sentando-se ao seu lado, externou-lhe os cumprimentos de seu pai e acarinhou o estropiado e sujo filho mais novo do pastor, o mimalho de sua velhice. Tu tinhas de ver como ela se ocupava do velho, como levantava a voz para que ele a ouvisse, posto que era meio surdo. Como lhe falava de pessoas que, jovens e robustas, morreram quando menos se esperava; como gabava as virtudes das águas de Karlsbad, aprovando a resolução que ele havia tomado de ir para lá no próximo verão; como achava que ele mostrava melhor cara e um ar mais animado desde a última vez em que o vira... Enquanto isso, eu havia apresentado meus respeitos à senhora do pastor. O velho estava radiante, e como eu não pude me conter no elogio daquelas formosas nogueiras que nos davam uma sombra tão agradável, pôs-se, ainda que com certa dificuldade, a contar-nos a história das árvores. “Quanto à mais velha”, disse ele, “não sabemos quem a plantou. Uns falam que foi um pastor, outros que foi outro. Mas a mais nova tem a idade da minha mulher, completa cinqüenta anos no mês de outubro. Foi plantada pelo pai dela na manhã do dia em cuja tarde ela veio a nascer. Era o meu predecessor, e não há palavras suficientes para dizer o quanto ele amava esta árvore. É verdade que a mim mesmo ela não é menos querida. À sombra dela é que estava sentada minha mulher, sobre uma trave, tecendo, quando eu, então um pobre estudante, vim aqui pela primeira vez, há vinte e sete anos.” Carlota perguntou-lhe pela filha: ele respondeu que ela havia ido ao campo com o senhor Schmidt ver os trabalhadores. E o velho prosseguiu sua narrativa, contando-nos como o seu predecessor se tinha afeiçoado a ele, como ele agradou à menina, e como começara sendo seu ajudante para acabar sucedendo-o no posto. A história mal tinha terminado, quando a filha, acompanhada pelo referido senhor Schmidt, voltou pelo jardim. Ela deu as boas-vindas à Carlota, cordial e acaloradamente, e eu devo dizer que não me desagradou; era uma morena desenvolta e bem-feita, que faria a gente passar de modo mui agradável o curto tempo no campo. O seu namorado, logo percebemos que era este o título que o senhor Schmidt merecia, era um homem fino, mas taciturno, e não quis se meter na nossa conversa, por mais que Carlota o atraísse a ela.
O que mais me intrigou foi crer advertir em seu rosto que era antes por birra e mau humor do que por falta de espírito que ele fugia a tomar parte na conversa. Logo depois isso lamentavelmente veio a se tornar ainda mais claro, pois, tendo Frederica se juntado a Carlota, e de quando em quando também a mim, o semblante do senhor Schmidt – que já de si era bastante escuro – obscureceu-se tanto que Carlota não tardou em me puxar pela manga, dando-me a entender que estava me excedendo nas atenções que dava a Frederica. Pois bem: nada me
incomoda tanto como ver os homens se atormentarem mutuamente, sobretudo quando são jovens e estão à flor da idade e, ao invés de gozar com a maior franqueza as alegrias que a vida proporciona, ficam a deteriorar os poucos dias agradáveis que lhes são reservados com tolices, para só perceberem demasiado tarde como é irreparável tudo o que perderam sem desfrutar. Aquilo me mortificou e quando, ao anoitecer, já de volta ao presbitério, tomávamos leite à uma mesa, tendo a conversa recaído sobre as mágoas e os prazeres da vida, não pude impedir-me de agarrar a ocasião pelos cabelos e falar fervorosamente contra o mau humor.
“Queixamo-nos muitas vezes”, principiei eu, “de que temos tão poucos dias bons e tantos dias maus, e parece-me que na maior parte delas nos queixamos sem razão. Se o nosso coração estivesse sempre aberto para gozar o bem que Deus nos manda todos os dias, teríamos força mais do que suficiente para suportar o mal quando ele aparece.”
“Mas nós não somos senhores de nosso temperamento”, observou a mulher do pastor.
“Quanto não depende do estado de nosso corpo! Quando não estamos bem de saúde, tudo anda mal conosco.”
Eu dei-lhe razão. “Pois consideremo-lo”, prossegui eu, “como se fosse uma doença, e procuremos um remédio para ela.”
“Assim está bem”, disse Carlota; “eu creio, pelo menos, que muito depende de nós, da posição que adotamos em relação aos momentos de tristeza. Sei-o por mim mesma. Quando algo me aflige e quer me fazer sentir molestada, me ponho a saltitar, canto duas ou três modinhas de dança, subindo e descendo pelo jardim, e logo tudo se dissipa.”
“Era o que eu queria dizer”, repliquei eu, “dá-se com o mau humor o mesmo que com a preguiça. Ele é, inclusive, uma espécie de preguiça. Nossa natureza é propensa à indolência, mas quando fazemos um esforço para livrar-nos dela, o trabalho fica mole e encontramos no labor um verdadeiro prazer.”
Frederica estava assaz atenta e o moço objetou-me que não somos senhores de nós mesmos, e ainda menos estava em nossas mãos comandar os nossos sentimentos.
“Trata-se aqui”, objetei eu, “de uma sensação desagradável, da qual cada um de nós gostaria de se ver livre; e ninguém conhece a extensão de nossas forças sem tê-las posto à prova. Por certo um doente consultará todos os médicos e não recusará o regime mais austero, os remédios mais amargos, para recobrar a sua desejada saúde.”
Vi que o bom velho tentava tomar parte em nossa discussão e ergui a voz dirigindo-lhe a palavra. “Prega-se contra tantos vícios”, disse-lhe eu, “mas não me consta que alguém se tenha ocupado do mau
humor no púlpito.” [29]
“Isso os pregadores da cidade têm de fazer”, respondeu ele, “a gente do campo não conhece o mau humor; mas também não faria nenhum mal dizer qualquer coisa a respeito disso de tempos em tempos; seria uma lição para as nossas mulheres, pelo menos, e para o senhor bailio.”
Todos os convivas riram, ele mesmo o fez de bom grado, até lhe sobrevir um acesso de tosse que interrompeu por algum tempo a nossa conversa. Depois disso, o moço retomou a palavra e disse: “Dissestes que o mau humor é um vício; e isso me parece ser um exagero”.
“Nada disso”, repliquei. “E olha que sou ameno e não sei se merece tal nome algo com o que causamos tanto dano a nós mesmos e ao próximo. Não basta o fato de não podermos nos
tornar mutuamente felizes? Temos ainda de nos privar um ao outro do prazer que cada qual pode gozar no íntimo do seu coração? Citai-me um só homem que, adoecendo de mau humor, seja, não obstante, bravo o suficiente para dissimulá-lo, guardá-lo só para si, sem acabar com a festa dos que o rodeiam! Não será o mau humor muito antes uma insatisfação íntima com a nossa própria indignidade, um descontentamento com nós mesmos, que sempre vem atado a uma inveja, fomentada por uma vaidade insana? Vemos homens felizes cuja felicidade não é obra nossa e isso nos resulta insuportável.”
Carlota pôs-se a rir, pois viu a emoção com que eu falava; e uma lágrima nos olhos de Frederica serviu-me de acicate para continuar. “Desgraçados aqueles”, exclamei eu, “que se servem do poder que têm sobre um coração para lhe roubar as inocentes alegrias que brotam dele espontaneamente! Não há presente nem atenção no mundo que bastem para compensar um momento de prazer em si mesmo, envenenado pelo despeito invejoso de um tirano!”
Todo meu coração transbordava, inundado, nesse instante; mil recordações oprimiam a minha alma e lágrimas assomavam aos meus olhos.
“Oh, se cada um de nós”, exclamei, “fosse capaz de dizer todos os dias: tu não tens nada melhor a fazer por teus amigos do que respeitar suas alegrias e acrescer à sua felicidade, participando dela! Poderás tu, acaso, quando uma angustiosa paixão atormenta o mais íntimo de suas almas, brindar-lhes uma gota de consolo? Ai de ti quando a derradeira e mais sinistra enfermidade vier cevar-se na criatura que, na flor da idade, conduziste ao sepulcro, e que jaz agora em prostração lastimosa, com os olhos voltados ao céu insensível e os mortais suores secando em sua fronte lívida; ai de ti quando em pé diante do seu leito, como um condenado, sentires que nada podes fazer com todo o teu poder, e estiveres lacerado de angústias por dentro, de sorte que de bom grado darias tudo para infundir àquela moribunda uma gota de conforto, um raio de coragem!”
A recordação de uma cena semelhante, de que eu fui testemunha, assaltou-me com todo o seu poder ao proferir essas palavras. Levei o lenço aos olhos e deixei o grupo, e só a voz de Carlota, chamando-me para regressarmos juntos, fez-me voltar a mim. Como ela me ralhou no caminho por botar tanto fogo nas coisas das quais tomava parte, fazendo-me ver que isso acabaria comigo! Que eu me poupasse!... Oh, meu anjo! E é por ti que devo viver!
06 de julho Ela continua junto de sua amiga moribunda, e é sempre a mesma, sempre a mesma criatura solícita e benfazeja que, para onde olha, acalma as dores e traz felicidade. Ontem à tarde saiu a passeio com Mariana e a pequena Amélia; eu sabia, fui encontrá-las e caminhamos juntos. Depois de passear por uma hora e meia, voltamos para a cidade e chegamos àquela fonte que já me era tão querida e daquele momento em diante seria mil vezes mais querida. Carlota sentou-se sobre o murinho e nós ficamos de pé diante dela. Olhei em volta e, ah!, os tempos em que meu coração estava tão solitário voltaram a viver em mim de repente. “Querida fonte”, disse eu, “de há muito não descanso em teu frescor, e por vezes, ao passar rapidamente perto de ti, nem sequer te olhei!” Lancei os olhos para baixo e vi subir a pequena Amélia, muito atarefada, trazendo um copo de água... Contemplei Carlota e senti nela
tudo aquilo que eu lhe dedicava.
Neste momento, Amelinha chegou com o copo, Mariana quis pegá-lo: “Não”, exclamou a pequena com a mais doce das expressões, “não, Lotinha, tu é que deves beber primeiro”.
Fiquei tão encantado com a convicção, com a bondade com que ela dizia aquilo, que não pude manifestar o que sentia senão pegando a pequena e beijando-a com tanta força que ela pôs-se a chorar e a gritar.
“Vós fizestes mal”, disse Carlota. Eu estava consternado. “Vem, Amelinha!”, continuou ela, pegando-lhe na mão para descer os degraus, “lava-te na água fresca. Rápido, rápido. Não é nada.” Fiquei a olhar com que cuidado a pequena esfregava as bochechas com suas mãozinhas molhadas, e com que boa fé ela acreditava que aquela fonte maravilhosa tirava toda a nódoa de cima de si e evitava a vergonha de lhe nascer uma barba assaz horrível. Por mais que Carlota dissesse basta, a pequena continuava a esfregar-se, como se muita água resolvesse mais do que pouca... Em verdade eu te afirmo, Guilherme, nunca assisti com tanto fervor a um batismo, e quando Carlota subiu, ter-me-ia de boa vontade prostrado diante dela como diante de um profeta que acaba de apagar as iniqüidades todas de uma nação inteira.
À noite, não pude conter-me e contei, com o coração cheio de alegria, aquela cena a um homem que eu supunha sensível porque tem inteligência... Mas a quem eu me dirigi! Ele disse que Carlota tinha feito muito mal, que nunca se devia iludir as crianças, pois isso significava dar origem a uma infinidade de enganos e abrir caminho à superstição, contra a qual era preciso precavê-las desde o começo... Lembrei-me que ele tinha batizado um dos seus filhos há oito dias, deixei-o falando sozinho e mantive-me fiel à verdade: devemos fazer com as crianças como Deus faz conosco, Ele que nunca nos deixa tão felizes como quando nos permite vaguear em nossas doces ilusões.
08 de julho
Como a gente é criança! Quanto não creditamos a um simples olhar! Como a gente é criança!
Tínhamos ido a Wahlheim. As senhoras saíram na frente e, durante o nosso passeio, pareceu-me ver nos olhos negros de Carlota... Eu sou um doido, perdoa-me... Tinhas de vê-los, esses olhos! Para ser breve, pois estou caindo de sono, observe que quando as mulheres subiram ao coche estavam em volta dele o jovem W..., Selstadt, Audran e eu. Junto ao estribo elas palravam com os rapagões que, por certo, se mostravam bastante levianos e alegres.
Busquei os olhos de Carlota... Ah, eles passeavam de um rosto a outro! Mas a mim, a mim... A mim, o único que estava ali só por causa dela, eles não se dirigiam! Meu coração dizia a ela milhares de adeuses! E ela não me olhava! O coche arrancou e uma lágrima brincou em meus olhos. Segui-a com o olhar! E eis que vi assomar na portinhola o penteado de Carlota, que se voltava para me ver... Ah! Seria para mim? Meu caro! Debato-me nessa incerteza! E ela é o meu consolo. Talvez tenha se voltado para me olhar! Talvez... Boa-noite! Oh, como eu sou criança!
10 de julho
Devias ver o papel de bobo que eu faço quando me falam dela em alguma reunião. E
quando perguntam se ela me agrada, então... Agradar! Odeio esta palavra até a morte! Qual seria o homem a quem Carlota faria tão-somente agradar? Que não se deixaria dominar e encher em todos os sentidos e sentimentos por sua pessoa? Agradar! Não faz muito
alguém me perguntou se Ossian[30] me agradava!
11 de julho
A senhora M... está muito mal. Rezo por sua vida, porque sofro com Carlota. De quando em quando vou vê-la junto com minha amiga, e hoje ela me contou um episódio singular... O
velho M... é um tipo mofino e avaro que atormentou a mulher a vida toda, mantendo-a enclausurada e restringindo sua liberdade; mas ela sempre soube, apesar de tudo, livrar-se da prisão muito bem. Há poucos dias, quando o médico a declarou condenada, mandou chamar seu marido – Carlota estava no quarto – e falou-lhe o seguinte: “Tenho de confessar-te uma coisa que depois de minha morte poderia vir a causar confusão e mágoa. Governei a casa até agora com tanta ordem e economia quanto me foi possível, mas tens de me perdoar por ter te enganado durante trinta anos. No começo de nosso casamento fixaste uma soma demasiado módica para a mesa e as outras despesas da casa. A nossa vida melhorou, nossos gastos aumentaram e eu nunca pude conseguir que tu aumentasses a soma fixada no começo... Para ser breve, tu sabes que nos tempos em que nossas despesas eram maiores, exigias que elas fossem satisfeitas com sete florins por semana. Submeti-me, mas a cada sete dias tirava o que faltava da gaveta, sem recear que as suspeitas do furto caíssem sobre a própria dona da casa. Nada dissipei e, mesmo que não tivesse feito a confissão, iria tranqüila ao encontro da eternidade se não temesse que aquela que cuidar da casa depois de mim não saiba arranjar-se com o pouco que lhe darias, e de quebra te defenderias afirmando sempre que tua primeira mulher não havia necessitado de mais do que isso.”
Conversei com Carlota sobre a inacreditável cegueira da alma humana, de como um homem não chega a desconfiar que há alguma coisa por trás do fato de alguém conseguir sustentar com sete florins uma despesa que não custaria pelo menos o dobro do dinheiro. Mas, que fazer, eu mesmo conheci pessoas capazes de acreditar que tinham em sua casa a bilha de azeite inesgotável do
profeta. [31]
13 de julho
Não, não me engano! Leio em seus olhos negros o sincero interesse que tem por mim e por meu destino. Sim, sinto, e nisso posso apelar ao meu coração, sinto que ela... Oh, devo, ou melhor, sequer posso fazer o céu inteiro caber nessas palavras... e dizer que ela me ama?
Me ama! E tanto mais me estimo por isso! Quanto eu me... A ti eu posso dizê-lo sem perigo, tu compreendes bem essas coisas... Sim, quanto eu me adoro desde que ela me ama!
Perguntarás se isso é presunção ou apenas o sentimento das verdadeiras circunstâncias em que me encontro? Não conheço o homem que eu temia encontrar no coração de Carlota e, todavia... quando ela fala de seu noivo com tanto calor, com tanto amor... acontece comigo o
que acontece àquele do qual arrancam todos os títulos e todas as honras, para ao fim obrigá-lo a entregar a espada.
16 de julho
Oh, como o sangue corre quente em minhas veias quando os meus dedos tocam os dela por acaso, quando os nossos pés se encontram debaixo da mesa! Puxo-os de volta como se tivesse tocado o fogo, mas uma força secreta os atrai de novo... e meus sentidos se turvam tanto! Ah! E sua inocência, sua pureza de alma não lhe permitem perceber o quanto suas mais fugazes confianças me fazem sofrer! Quando está falando e põe sua mão na minha, quando se aproxima de mim no ânimo da conversa a ponto de me fazer sentir o divino hálito de sua boca em meus lábios... creio que serei arrojado à terra como se ferido por um raio... E, Guilherme, meu caro! Se eu alguma vez me atrevesse àquele céu, àquela confiança... Tu me entendes. Não, meu coração não está deteriorado a esse ponto! Mas fraco... Fraco ele está! Mas e a fraqueza já não é uma espécie de corrupção?
Ela é sagrada para mim. Todo meu desejo emudece em sua presença. Não sei jamais o que se passa comigo quando estou a seu lado; parece que a minha alma se revolve em todos os meus nervos... Há uma melodia que ela toca ao piano com a força de um anjo, tão sensível e tão espirituosa! É sua ária favorita! E ela livra-me de todas as mágoas, de todas as confusões, de todas as manias, apenas ouço a primeira nota.
Estimo não ser inverossímil nada do que dizem a respeito do poder
mágico da música antiga.[32] Como me prende a mais simples das canções! E como ela sabe me fazer ouvi-la tantas vezes, justo nos momentos em que sinto vontade de meter-me uma bala na cabeça! Então a turvação e as trevas da minha alma se dissipam e volto a respirar com mais liberdade.
18 de julho
Guilherme, o que é o mundo para o nosso coração sem amor? O
mesmo que uma lanterna mágica[33] sem luz! Mal colocas dentro dela a lamparina e já se projetam imagens das mais coloridas na parede branca! E mesmo que todas não sejam mais do que efêmeros fantasmas, elas nos fazem felizes enquanto permanecemos ali, acordados, e como crianças nos extasiamos com suas aparições maravilhosas. Hoje não pude ir ver Carlota, uma visita inesperada me segurou em casa. Que havia a fazer? Mandei o meu criado ao encontro dela, só para ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença. Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos.
Falam que a pedra de Bolonha,[34] quando exposta ao sol, absorve os seus raios e reluz por algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença... Deus te livre de rir disso, Guilherme! Serão sempre fantasmas os responsáveis por nos sentirmos bem?
19 de julho
Vou vê-la!, exclamo pela manhã quando desperto e olho com serenidade em direção ao sol nascente. Vou vê-la! E já não tenho qualquer outro desejo para todo aquele dia! Tudo, tudo se afoga nessa perspectiva.
20 de julho
A vossa idéia de que eu partisse com o embaixador para ... não corresponde, pelo menos desta vez, aos meus planos mais íntimos. Não me agrada o fato de estar subordinado a alguém, e ademais todos sabemos que esse homem é um sujeito insuportável. Minha mãe gostaria de me ver em atividade, dizes tu; isso me faz rir. Não estou ativo agora por acaso? E não vem a ser igual, no final das contas, contar ervilhas ou lentilhas? Tudo nessa vida acaba em bagatela e aquele que, para agradar aos outros se mata trabalhando por dinheiro, honras ou o que for, sem que a isso o mova sua própria paixão ou necessidade, é, com certeza, um tolo.
24 de julho
Visto teres tanto empenho em que eu não deixe o desenho, faria melhor em calar-me sobre este ponto do que confessar-te que já há muito não me ocupo dele.
Nunca fui mais feliz, nunca a minha sensibilidade pela natureza, inclusive pela mais mísera das pedrinhas ou pelo fiozinho de erva mais insignificante, foi mais plena e mais viva do que agora. Todavia... não sei como me expressar... a minha imaginação tornou-se tão fraca; tudo ondula e vacila de tal maneira diante de minha alma que não consigo apanhar um simples contorno. Por vezes me parece que, se eu tivesse argila ou cera, poderia moldá-lo muito bem e, se isto se prolonga, pego na argila e amasso-a... ainda que de tudo não saia mais que um bolo disforme.
Já comecei por três vezes o retrato de Carlota, e três vezes me envergonhei; o que me magoa tanto mais, tendo em vista o fato de que há pouco conseguia dominar bem a semelhança.
Limitei-me a fazer um esboço e tenho de me contentar com ele.
Sim, querida Carlota, cuidarei de tudo e tudo farei; bem que poderias me dar alguns encargos por mais vezes, muito mais vezes. Peço-vos uma coisa: nada de areia nas cartas que me escreverdes! A de hoje eu levei aos lábios e logo os meus dentes rangiam.
26 de julho
Mais de uma vez fiz o propósito de não vê-la tão amiúde. Sim, mas quem poderia cumprir sua palavra? Sucumbo todos os dias à tentação e todas as noites volto a repetir solenemente a jura: amanhã não irás, e quando chega a manhã sempre encontro uma razão irresistível para ir vê-la e, antes de me dar por conta, estou ao pé dela. Ora é ela quem me diz à noite: “Amanhã virás, não é verdade?” Quem seria capaz de resistir... Ora me encarrega de um recado e acho conveniente ir eu mesmo dar-lhe a resposta. Ou então o dia está assim tão
belo que eu vou a Wahlheim, e quando eu estou lá, é apenas mais meia hora até a casa dela...