Os Sofrimentos do Jovem Werther

Johann Wolfgang Goethe · Capítulo 2 de 8 · parte 3/3

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Os Sofrimentos do Jovem Werther

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Estou demasiado perto da sua atmosfera... A sua vizinhança me atrai e num vu estou junto a ela! A minha avó contava-me a história

de uma montanha de imã: [35] os navios que se aproximavam por demais, perdiam de repente suas ferragens, os pregos voavam para a montanha e os pobres marinheiros naufragavam entre as tábuas do navio, que desabavam sob seus pés.

30 de julho

Alberto chegou e eu vou partir. Ainda que fosse o melhor, o mais generoso dos mortais, cuja superioridade sobre mim em todos os sentidos eu estivesse pronto a reconhecer, e com todo o respeito, ser-me-ia insuportável vê-lo dono de tanta perfeição ante minhas próprias barbas. Dono! Basta, Guilherme, o noivo chegou! É um homem honesto e bom, que merece toda a simpatia.

Felizmente eu não estava presente a sua chegada. Meu coração se despedaçaria. E olha que Alberto é muito comedido e ainda não beijou Carlota uma só vez em minha presença.

Deus lhe pague! Basta o respeito que ele manifesta por aquela moça para me forçar a gostar dele. Ele parece me olhar com bons olhos, se bem que isso pode ser muito antes obra de Carlota do que resultado de suas próprias disposições, pois nestas coisas as mulheres são muito espertas, e fazem bem, já que sempre redunda em seu proveito manter dois galanteadores em boas relações, por mais estranho que isso possa parecer.

De resto, não posso recusar minha atenção a Alberto. Seu porte fleumático contrasta vivamente com a inquietude de meu gênio, que não consegue permanecer oculta. É homem sensível e reconhece o valor de Carlota. Parece pouco sujeito a maus humores, e tu sabes que este é, entre todos os defeitos do homem, o que eu mais detesto.

Ele tem-me por pessoa de bom senso; e meu apego por Carlota, o vivo interesse que tenho por tudo que lhe diz respeito, aumenta seu triunfo e faz com que a ame ainda mais. Se ele a aflige alguma vez com ligeiros acessos de ciumeira eu não sei; eu, pelo menos, não me consideraria de todo salvo deste demônio se estivesse em seu lugar.

De qualquer forma e seja como for, a alegria que eu sentia em estar junto de Carlota se foi! Devo chamar isso de loucura ou de cegueira? Que importa o nome! A coisa fala por si mesma... Eu sabia de tudo que agora sei antes de Alberto chegar; sabia que não podia abrigar pretensões em relação a ela, e não abrigava nenhuma... Ou seja, enquanto não é possível abrigá-las à vista de tanta coisa amável... E agora o palhaço arregala os olhos porque o outro de fato vem e lhe arrebata a dama...

Ranjo os dentes e faço troça de minha própria miséria, e faria dupla, e até tripla troça, daqueles que dizem que eu deveria ter me resignado, já que as coisas sabidamente não seriam diferentes... Livrai-me destes espantalhos grudados ao meu pescoço!...

Corro por aí nas matas e quando chego a Carlota e encontro Alberto sentado junto a ela no jardim sob o caramanchão, e já não posso seguir adiante, fico doido varrido e começo a soltar mil disparates e inconveniências...

“Pelo amor de Deus!”, disse-me Carlota ainda hoje, “eu vos peço, nada de cenas como a

de ontem à noite! Sois terrível quando estais tão alvoroçado!” Cá entre nós, fico à espera dos momentos em que ele tem o que fazer e vai embora. É zás!, e eu corro para lá. Que alegria quando a encontro só!

08 de agosto

Rogo-te, caro Guilherme! Não falava de ti quando tratava de insuportáveis os homens que exigem de nós resignação ante os males inevitáveis. Na verdade, eu não pensava que pudesses ser dessa opinião. Mesmo que, no fundo, tenhas razão. Mas só uma coisa, meu caro!

Raras são as vezes neste mundo em que as opções se mostram claras entre o isto e o aquilo.

Há nos sentimentos e nas maneiras de proceder tantas gradações quantas há entre o nariz adunco e o chato.

Não levarás a mal, tampouco, que eu invalide toda tua argumentação e trate, de qualquer forma, de fugir ao dilema do isto ou aquilo.

“Ou tens alguma esperança em relação à Carlota, ou não tens,” dizes tu. “Bem! No primeiro caso procura realizá-la, alcançando êxito em relação a teus desejos; no segundo, faz das tripas coração e livra-te de um sentimento que acabará por consumir as tuas forças...” Mui amigo! Isso é fácil dizer... fazer é que são elas...

Podes tu exigir deste desgraçado, cuja vida se apaga minada por um lento e incurável mal, que ponha fim aos seus tormentos com uma punhalada? E esse mal que lhe devora as forças não lhe roubará, ao mesmo tempo, a força para se libertar dele?

É certo que poderias replicar-me com uma comparação análoga: quem não preferirá amputar seu braço a arriscar a vida através de

seus medos e dúvidas? [36] Não sei... Mas também chega de morder-nos com comparações. Basta... Sim, Guilherme, sinto às vezes um acesso de coragem exaltada, selvagem, e então... se eu ao menos soubesse para onde... iria com gosto.

À noite

Meu diário, que abandonei há algum tempo, voltou a cair-me em mãos hoje e fiquei surpreso ao ver quão conscientemente, e passo a passo, vim a parar no estado em que estou; com quanta clareza sempre vi a minha situação e, de qualquer forma, segui procedendo como uma criança; agora mesmo sigo vendo tudo tão claro e não vislumbro indício algum de emenda!

10 de agosto Poderia levar a vida mais sossegada e mais feliz do mundo se não fosse um doido.

Circunstâncias tão favoráveis como aquelas em que me encontro raramente se reúnem para tornar um homem feliz. Oh! Tanto é verdade que é o nosso coração, ele só, o artífice de sua própria sorte... Ser membro da família mais respeitável, ver-me estimado pelo velho como um filho, pelos pequenos como um pai, e por Carlota!... E o honrado Alberto, então, que não

perturba minha felicidade com nenhuma nota de mau humor, que me acolhe tão cordialmente, para quem eu sou, depois de Carlota, o que ele mais estima no mundo!... Guilherme, é uma alegria ouvir-nos quando passeamos juntos e não fazemos mais do que falar de Carlota; nada pode ser mais cômico neste mundo do que a nossa situação, e todavia mais de uma vez as lágrimas brotam de meus olhos.

Quando me fala da respeitável mãe de Carlota, quando me conta como ela, em seu leito de morte, entregou sua filha, a casa e as crianças, recomendando Carlota a ele próprio...

Como, desde então, Carlota parece animada por um novo espírito e como, no cuidado de sua casa e na seriedade, parece ser uma verdadeira mãe... Como nem um só momento passa debalde para ela, sem solicitude amorosa e sem labor... E tudo isso sem perder um tiquinho de sua vivacidade, de sua jovialidade...

E eu sigo sem mais nem menos ao seu lado, e vou colhendo flores pelo caminho, junto-as com cuidado num ramalhete... e jogo-as à torrente, seguindo-as com os olhos para ver submergi-las pouco a pouco... Não sei se te escrevi que Alberto vai ficar aqui, e que vai obter da Corte, onde é muito bem visto, um emprego cujo rendimento é bastante razoável. Encontrei poucas pessoas que se possam comparar a ele em ordem e aptidão para os negócios.

12 de agosto Não há dúvida de que Alberto é o melhor homem da face da terra. Vivi com ele uma cena singular no dia de ontem. Havia ido vê-lo para me despedir dele, porque me veio à telha o desejo de dar uma volta a cavalo pelos montes, donde agora te escrevo, e tanto andei pelo quarto que suas pistolas me caíram aos olhos. “Empreste-me as pistolas para a viagem”, disse eu. “Por mim”, respondeu ele, “se quiseres te dar ao trabalho de carregá-las. Estão penduradas aí apenas pro forma.” Peguei uma delas e ele prosseguiu: “Desde que a minha previdência me pregou uma peça, não quero mais contatos com essas coisas”. Eu estava curioso para saber da história.

“Havia eu ido”, continuou ele, “passar três meses no campo, na casa

de um de meus amigos. Tinha comigo um par de tercerolas[37] descarregadas e dormia tranqüilamente. Numa tardinha, estando o tempo chuvoso e eu sem nada a fazer, não sei como me veio a idéia de que poderíamos ser assaltados, que poderíamos precisar das tercerolas e que necessitaríamos...

Tu sabes como são as coisas.... Dei-as ao criado para as limpar e carregar. Ele pôs-se a chacotear com as criadas querendo pregar-lhes um susto e, sabe Deus como, a pistola que tinha nas mãos disparou. A vareta, que ainda estava no cano, foi acertar na mão direita de uma das criadas, esmagando-lhe o polegar. Tive de agüentar as lamentações e ainda por cima pagar o tratamento, e desde então deixo as minhas pistolas descarregadas. Querido amigo, de que serve a previdência? O perigo está sempre à espreita! Todavia...”

Tu sabes o quanto gosto desse homem, inclusive dos seus todavias... Mas não é, por acaso, evidente que toda regra tem sua exceção? Pois esse homem é tão reto que quando julga ter afirmado algo de maneira muito genérica e apenas parcialmente precisa, não se cansa de atenuar, de modificar, acrescentar ou suprimir, até que nada mais reste de sua proposição inicial! E nessa ocasião mergulhou demais no texto; logo eu já não escutava mais o que ele dizia e caí em devaneios, empunhando a pistola com gesto solene e apertando a boca do cano contra a testa, sobre o olho direito. “Arre!”, exclamou Alberto, arrancando-me a arma. “Que significa isso?”

“Não está carregada”, disse eu.

“Mesmo assim, que significa isso?”, acrescentou ele, com impaciência.“Não posso compreender como um homem poderá ser tão louco a ponto de se estourar os miolos; só o ato de pensar nisso me excita a repugnância.”

“É lamentável que vós, os homens”, exclamei, “não podeis falar de nada sem dizer primeiro: Isto é louco, aquilo é prudente, isto é bom, aquilo é mau! E o que significa tudo isso? Por acaso buscastes alguma vez, antes disso, as íntimas circunstâncias de um ato? Sabeis precisar com certeza as razões por que ele ocorreu, por que ele teve de ocorrer? Se tivésseis feito isso não seríeis tão prontos em vossos juízos.”

“Concordarás comigo”, disse Alberto, “que certos atos são e continuarão sendo criminosos, sejam quais forem os motivos.”

Dei de ombros e concordei. “Mas, meu caro”, prossegui, “mesmo aí há algumas exceções. É verdade que o roubo é um crime; mas e o homem que, para livrar a si e aos seus de morrer de fome, vai e comete um roubo; merece compaixão ou castigo? Quem lançará a primeira pedra ao marido ultrajado que, com justa cólera, abate uma mulher infiel e seu vil sedutor? E a essa moça que num momento de delírio se abandona às alegrias arrebatadoras do amor? Até mesmo as nossas leis, essas senhoras pedantes com sangue de lagarto, se deixam comover e contêm suas sanções.”

“Isso é bem outra coisa”, replicou Alberto, “porque um homem que se deixa arrastar por uma paixão violenta perde a faculdade de refletir e deve ser considerado como um ébrio, como um demente.”

“Oh, aí estais vós, os razoáveis!”, exclamei, terminando num sorriso. “Paixão!

Embriaguez! Demência! E permaneceis tão impassíveis, tão indiferentes, vós, os homens morais! Censurais o bêbado, detestais o insensato, passais ao largo como o padre e agradeceis a Deus

como o fariseu[38] por não vos ter feito semelhantes nem a um nem a outro. Mais de uma vez me embebedei, minhas paixões nunca estiveram longe da demência, e não me arrependi de nenhuma das coisas que fiz, pois graças a elas pude compreender, por experiência própria, como todos os homens extraordinários que levaram a cabo alguma coisa grande, alguma coisa reputada impossível, desde sempre foram declarados ébrios e dementes... Mas também na vida cotidiana resulta algo intolerável ouvir todo mundo gritar, sempre que alguém pratica um ato um tantinho mais livre, honrado, inesperado: ‘Aquele homem está bêbado, está louco!’

Tende vergonha na cara, vós, os pacatos! Tende vergonha na cara, vós, os discretos!”

“Essas são mais algumas das tuas extravagâncias”, disse Alberto. “Exageras tudo e, por certo, cometes pelo menos o erro de aceitar o suicídio, que é do que estamos falando agora, como se fosse uma grande ação, quando não é nada mais do que simplesmente fraqueza. Pois, para ser sincero, é mais fácil morrer do que suportar com firmeza uma vida de tormentos.”

Estava a ponto de terminar com a conversa, pois nada me faz perder tanto as estribeiras como ver alguém me espicaçando com lugares-comuns dos mais insignificantes quando estou falando do fundo de meu coração. Mas contive-me, já ouvira aquilo tantas vezes e tantas vezes

me irritara, que repliquei com certa vivacidade: “Chamais a isto de fraqueza? Peço-te que não te deixes enganar pelas aparências. Um povo que geme sob o jugo insuportável de um tirano, ousareis taxá-lo de fraco quando enfim se levanta e rompe os grilhões? Um homem que, no susto de ver as labaredas consumindo sua casa, distende os músculos e levanta com facilidade fardos que a sangue-frio mal poderia mexer; um outro que, encolerizado por um ultraje, ataca seis homens e os subjuga, seríeis capaz de chamá-lo de fraco? E, meu caro, se o esforço é força, porque a energia extrema seria o contrário?”

Alberto olhou para mim e disse: “Não me leve a mal, mas os exemplos que acabais de citar não me parecem aplicáveis a este caso”.

“É possível!”, disse eu. “Já por várias vezes me acusaram de que meu modo de discorrer beira o despropósito. Vejamos então se não podemos representar de maneira diferente o que tem de ocorrer na alma do homem que se determina a arriar o fardo da vida, em outros casos tão querido. Porque só quando nos pomos na pele de alguém assim é que podemos ter a honra de falar de uma coisa dessas.”

“A natureza humana”, prossegui, depois de breve pausa, “tem seus limites; pode suportar até certo ponto a alegria, a mágoa, a dor, mas passando deste ponto ela sucumbe. A questão não é, pois, saber se um homem é fraco ou forte, mas se pode suportar o peso dos seus sofrimentos, quer morais, quer físicos. E eu acho tão espantoso que se chame de covarde ou de desgraçado àquele que se priva da vida, como acharia impertinente tachar de covarde ao que sucumbe a uma febre maligna.”

“Paradoxo! Aí há um grande paradoxo!”, exclamou Alberto.

“Não tão grande quanto tu imaginas”, repliquei eu. “Hás de convir

comigo que qualificamos de doença mortal[39] a todas aquelas que atacam com tanta violência as forças da Natureza a ponto de ou consumir as energias dessa mesma Natureza ou pô-la fora de ação, de maneira que uma revolução salutar já não possa mais restabelecer o curso ordinário da vida.

Pois bem, meu caro, apliquemos isso ao espírito. Olha para o homem em sua limitação e vê como as impressões atuam nele, como as idéias se fixam nele, até que enfim a paixão sempre crescente o priva de toda a força de vontade e o lança ao solo. Em vão o homem ajuizado e razoável contemplará o estado do infeliz, em vão lhe dará seus conselhos! Da mesma forma que um homem saudável, parado junto ao leito do enfermo, jamais poderá transmitir-lhe a parte mais insignificante de suas energias.”

Para Alberto isso parecia demasiado genérico. Lembrei-lhe o caso de uma moça que encontraram afogada havia algum tempo e contei sua história. Era uma boa criatura, toda entregue a suas ocupações domésticas, trabalhando a semana inteira, sem outro prazer além de se enfeitar aos domingos com os poucos trapos que ia arranjando a custo e ir passear com as companheiras pelos arrabaldes da cidade ou dançar, de quando em vez, nas festas jubilares, além de passar as horas de folga conversando, com toda a veemência e o mais cordial interesse, a propósito de uma rusga ou de uma discussão com a vizinha... Eis que com tempo essa natureza fogosa começa a sentir necessidades mais íntimas, que crescem com os galanteios dos homens... Todas as suas alegrias de antes tornam-se pouco a pouco insípidas, até que enfim ela encontra um homem, para o qual um desconhecido sentimento a arrasta irremediavelmente, no qual funda todas as suas esperanças, pelo qual esquece o mundo que a rodeia. Ela nada escuta, nada vê, nada sente a não ser ele, o único, e só por ele, o único, é que

anseia. Como não está corrompida pelos prazeres frívolos da vaidade e dos galanteios, os seus desejos vão direto ao alvo, quer ser sua, quer gozar em eterna união toda a felicidade que lhe falta, os prazeres a que aspira. Promessas repetidas que selam a certeza de todas suas esperanças, carinhos temerários que lhe aumentam os desejos, apoderam-se de toda a sua alma. Ela está suspensa em uma surda consciência, no antegozo de todos os prazeres subiu ao cume, e estende enfim os braços para cingir todos os seus desejos... e o seu amante a abandona... Ei-la em transe, privada dos sentidos, à beira do abismo; tudo é escuridão a sua volta, nenhuma perspectiva, nenhum consolo, nenhum vislumbre de esperança, porque a abandonou o único por quem e em quem ela sentia viver! Não vê o vasto mundo que diante dela se estende, e o número daqueles que poderiam substituir a perda que sofreu. Ela sente-se sozinha, abandonada por todos... e cega, oprimida pelo horrível aperto de seu coração, arroja-se ao abismo para sufocar todos os seus tormentos na morte que tudo abarca... Vê, Alberto, essa é a história de tantas pessoas! E não é esse o mesmo caso da enfermidade? A Natureza não encontra nenhuma saída desse labirinto de forças intrincadas e antagônicas, e o homem tem de morrer. Ai daquele que, à vista disso, fosse capaz de dizer: ‘Que louca! Se tivesse esperado, se houvesse deixado o tempo correr, o seu desespero ter-se-ia acalmado e em breve encontraria um outro que a consolasse’. É exatamente como se alguém dissesse: ‘O louco vai morrer de febre! Se tivesse esperado até que suas forças voltassem, até que se houvessem corrigido seus humores e apaziguado o tumulto de seu sangue, tudo se restabeleceria e estaria vivendo até hoje’.”

Alberto, que ainda não achava convincente a comparação, fez-me objeções, entre outras a de que eu acabava de contar a história de uma moça ingênua; não podia conceber como desculpar a um homem de bom senso, não tão limitado, e capaz de ver mais longe.

“Meu amigo!”, exclamei. “O homem é sempre homem, e a pequena dose de bom senso que este tem a mais do que aquela pouco pesa na balança quando as paixões fervilham e os limites do humano nos sufocam. Ou, muito antes... Em outra oportunidade falaremos disso”, disse eu pegando o chapéu. Oh, meu coração estava tão cheio... e nós nos separamos sem ternos entendido um ao outro. É tão raro duas pessoas se entenderem neste mundo!

15 de agosto

É certo, em todo caso, que neste mundo não há coisa mais necessária ao homem do que o amor. Sinto-o em Carlota, ela lamentaria muito me perder; e também nas crianças, que não têm outro pensamento que não o de me ver voltar todos os dias pela manhã. Hoje fui até lá para afinar o piano de Carlota, mas não pude fazê-lo porque os pequenos não me deixavam em paz, pedindo-me que lhes contasse uma historinha; até mesmo Carlota achou melhor satisfazer-lhes a vontade. Dividi-lhes o pão, que eles aceitaram quase com tanto gosto como se fosse distribuído por Carlota, e

contei a história da princesa servida por mãos encantadas.[40]

Aprendo muito com isso, posso te garantir, e estou pasmo com as impressões que a fábula lhes causa. Se me acontece de inventar um incidente, e esquecê-lo quando repito a história, exclamam logo que da primeira vez contei de outro jeito, de maneira que me esforço para contá-la toda num só fôlego, sem variar nada, com as mesmas cadências e inflexões de voz.

Daí, aprendi que um autor que faz alterações em segunda edição, mesmo que com o fito de melhorar a obra poeticamente, fatalmente a prejudica. A primeira impressão encontra-nos dóceis, e o homem é de tal modo constituído que podem persuadi-lo das coisas mais extraordinárias; mas logo em seguida isso fica arraigado de maneira tão sólida que, ai daquele que pretenda apagá-lo ou extirpá-lo!

18 de agosto

Por que é que as coisas têm de ser assim, e o que faz a felicidade do homem se transformar também na fonte de sua desgraça...

A plena e cálida sensibilidade do meu coração para com a Natureza viva, que me inundava de tantos deleites a ponto de fazer com que o mundo ao meu redor se tornasse um paraíso, transformou-se agora para mim num insuportável carrasco, num gênio torturador que me persegue por toda parte. Quando outrora contemplava, do alto do rochedo para além do rio, a fértil campina que se estende até aquela cordilheira; quando via tudo germinar e rebentar em volta de mim; quando olhava para as montanhas cobertas de espesso arvoredo da base ao topo, para os vales cheios de sombra em todos os seus recôncavos de bosquezinhos aprazíveis, e via como o manso riacho deslizava por entre os juncos oscilantes e refletia as amáveis nuvens que o vento leve da tarde espalhava pelo céu na forma de ondulações suaves; quando ouvia as aves animar a floresta a minha volta e os milhões de enxames de mosquitos dançarem alegres no último raio rubro do sol, cuja luz moribunda libertava das ervas o besouro zumbidor; quando o estridor e o bulício ao meu redor me faziam fixar a vista na terra e no musgo que arranca seu sustento da dura rocha e na giesta que cresce ao longo da árida duna de areia... Ah, aí então a vida interior e misteriosa que anima a Natureza, sempre ativa e potente, se desvelava inteira para mim... Como eu abraçava tudo aquilo no meu cálido coração e me sentia deificado por aquela torrente que me trespassava, enquanto as majestosas formas do mundo viviam e moviam-se em minha alma! Montanhas ingentes me rodeavam, abismos profundos estendiam-se a meus pés, as torrentes despenhavam-se para baixo, os rios fluíam sob meus olhos, mata e montanha troavam; e eu as via, todas essas forças inescrutáveis, atuarem e criarem-se mutuamente, uma dentro da outra, nas profundezas da terra; e logo, por cima da terra e debaixo do céu, formigavam as inumeráveis raças dos seres vivos; tudo, tudo povoado de mil formas diferentes; e depois os homens, recolhidos em suas casinholas, confortando-se e iludindo-se uns aos outros, reinando segundo seus princípios

sobre o vasto universo! [41] Pobre insensato, que julgas tudo tão insignificante por seres tão pequeno! Desde as montanhas inacessíveis do deserto, que nenhum pé humano logrou pisar, até ao extremo do oceano desconhecido, respira o espírito do eterno criador e o seu hálito deleita todo o grão de pó que o sente e que o vive... Ah, por quantas vezes desejei então ter as asas do grou que passava acima da minha cabeça, voar às praias do mar imenso, beber a vida na taça espumante do infinito e apenas por um instante sentir na estreita capacidade do meu seio uma gota da beatitude desse ser que tudo cria, em si e por si!

Meu irmão, tão só a recordação destes momentos me faz feliz. Mesmo os esforços que empreendo para me lembrar e traduzir esses inexprimíveis sentimentos elevam a minha alma

acima de si própria e fazem-me sentir em dobro os tormentos da situação em que me encontro agora.

É como se alguém tivesse arrancado a cortina que tapava a visão de minha alma... O

espetáculo da vida infinita metamorfoseou-se ante mim num túmulo eternamente aberto. Tu poderás dizer: É assim! Mas e quando tudo passa... E quando tudo roda com a celeridade do raio e não conseguimos segurar-nos com a plenitude de nossa energia vital, vendo tudo ser arrebatado pela corrente, e ai!, ser submerso e esmagado contra os rochedos... Então não há instante que não te devore, a ti e aos teus, não há instante em que não sejas, em que não devas ser um destruidor. O mais inocente dos teus passos custa a vida de milhares de pobres insetos, uma pisada tua destrói o penoso trabalho das formigas e impele um pequeno mundo à tumba ignominiosa. Ah, não são as vossas grandes e raras catástrofes, essas inundações que arrastam vossos vilarejos, esses tremores de terra que submergem vossas cidades, que me impressionam! O que me consome o coração é essa força dominadora que se oculta sob a totalidade da Natureza, e que nada produz que não destrua o que a rodeia, e por fim a si mesmo... E assim vagueio atormentado por aí. Céu, terra e suas forças ativas em volta de mim!

Nada vejo senão um monstro que engole eternamente e eternamente volta a mastigar e a engolir.

21 de agosto

Em vão estendo meus braços para ela, de manhã, ao despertar de um penoso sonho; em vão a procuro à noite em minha cama, quando um devaneio feliz e puro me iludiu, quando julgava estar sentado ao lado dela na relva, e lhe pegava na mão cobrindo-a de mil beijos.

Ah, quando, ainda meio tonto de sono, a procuro e a seguir desperto, uma torrente de lágrimas brota do meu coração e choro, desolado com o futuro sombrio a minha frente!

22 de agosto

É tanta a desdita, Guilherme! Minhas forças ativas degringolaram em inquieta indolência, não posso estar ocioso, mas também não consigo fazer nada. Não tenho nenhuma idéia, nenhuma sensibilidade pelas coisas e os livros me causam tédio. Quando

faltamos a nós mesmos, tudo nos falta. [42] Juro-te, cem vezes desejei ser um operário para ter, ao levantar pela manhã, uma perspectiva, um trabalho, uma esperança. Muitas vezes invejo a sorte de Alberto, que eu vejo enterrado em pergaminhos até os olhos, e penso que me sentiria feliz se estivesse em seu lugar! Mais de uma vez tive a idéia de te escrever e escrever ao ministro, solicitando-lhe aquele lugar na embaixada, lugar que, em tua opinião, ele não iria recusar-me. Também creio que assim seria. O ministro há muito manifesta afeto por mim, e muitas vezes me aconselhou a ocupar-me em qualquer emprego. Em certos momentos chego a dispor-me a isso, mas logo a seguir reflito e lembro-me da fábula do cavalo que, cansado da liberdade, deixa que coloquem sobre ele sela e bridão, e ao final é condenado à

desonra de ser montado.. .[43]

Não sei o que devo fazer... E, querido amigo, esse desejo de mudar de situação não virá de uma inquietação íntima e importuna que há de me perseguir por toda a parte?

28 de agosto

Na verdade, se o meu mal tivesse cura essas pessoas o curariam.

Hoje é o dia do meu aniversário[44] e logo de manhã recebi um presentinho de Alberto. Ao abri-lo, eis que a primeira coisa que me salta aos olhos é um laço vermelho-pálido que Carlota trazia ao peito quanto a conheci, e que eu mais de uma vez lhe pedi desde

então. [45] Havia também dois livretes in 12 junto. [46] Era o pequeno Homero de Wetstein, numa edição que eu havia procurado

muito para não carregar a de Ernesti em meus passeios. [47] Bem vês como eles vão ao encontro de meus desejos, como tratam de me proporcionar as pequenas atenções da amizade, mil vezes mais preciosas do que os presentes magníficos com os quais a vaidade daquele que os dá nos humilha. Beijo este laço mil vezes, e em cada beijo aspiro e saboreio a lembrança das delícias que me cumularam nesses dias tão curtos, tão rápidos e tão irreparáveis! Guilherme, assim é, e eu não resmungo. As flores da vida não passam de fantasmas. Quantas murcham sem deixar vestígio! Quão poucas dão frutos e quão poucas deixam esse fruto amadurecer! E, contudo, ainda há bastante, e até... Oh, meu irmão! E como podemos nós relegar, desprezar, deixar apodrecer sem provar esses frutos maduros?

Adeus! O verão está magnífico. Sento-me às vezes debaixo das árvores do pomar de Carlota e, armado de uma comprida vara com forquilha na ponta, busco as pêras da copa. Ela está de pé embaixo da árvore e vai colhendo as que derrubo.

30 de agosto

Desgraçado! Não serás um louco? Não te enganarás a ti próprio? O que é que esperas dessa paixão frenética e infinita? Não tenho mais outro culto que não ela; a minha imaginação apenas me mostra a sua fisionomia e, de tudo o que me rodeia no mundo, apenas distingo aquilo que com ela se relaciona. E isso me causa algumas horas de felicidade... até que de novo sou forçado a fugir dela. Oh, Guilherme! Até onde o coração me leva! Depois de passar sentado a seu lado duas ou três horas e saciar-me de sua figura, das suas maneiras, da expressão celeste das suas palavras, quando pouco a pouco todos os meus sentidos se incendeiam e os meus olhos obscurecem, eu até passo a escutar mal e sinto um nó na garganta, como se ali estivesse a mão de um assassino. É então que o meu coração procura, em rápidas palpitações, dar ação aos meus sentidos sufocados e não faz mais que aumentar a sua turvação... Guilherme, muitas vezes nem sei mais se ainda estou vivo! E... quando a melancolia volta a me vencer, e Carlota me permite o mesquinho consolo de desafogar, chorando sobre suas mãos, minha opressão... tenho de me afastar dali, tenho de ir embora... e vago sem rumo por campos e vales! Subir uma montanha escarpada é o meu prazer nessas horas, abrir caminho por uma floresta densa através das sebes que me machucam, através dos espinhos que me laceram! Então passo a me sentir um pouco melhor! Um pouco! E quando, vencido pela fadiga e pela sede, me deixo cair no caminho, com freqüência já é caída a noite e a lua cheia brilha alta sobre a minha cabeça. Me sento então sobre um tronco nodoso para aliviar um pouco meus pés esfolados e adormeço na penumbra, cedendo ao cansaço! Oh, Guilherme! A morada solitária de uma cela, a vestimenta de cilício e o cinturão de

pregos seriam os bálsamos aos quais minha alma aspira.[48] Adeus! Não vejo outro fim para esta

desgraça que não o túmulo.

03 de setembro

Tenho de partir! Eu te agradeço, Guilherme, por teres aprovado minha resolução vacilante. Há duas semanas medito no projeto de a deixar. Tenho de partir. Ela está mais uma vez na cidade em casa de uma amiga. E Alberto... e... tenho de partir!

10 de setembro

Que noite, Guilherme, que noite! E eu superei tudo. Não voltarei mais a vê-la! Oh, não poder voar ao teu pescoço, meu bom amigo, e exprimir-te com toda a minha comoção e torrentes de lágrimas os sentimentos que agitam meu coração! Eis-me sentado aqui, buscando com dificuldade o ar que me falta ao peito. Procuro me acalmar, espero a manhã, e ao nascer do sol os cavalos já estarão prontos à minha porta.

Ah, ela dorme sossegada e nem pensa que jamais voltará a me ver! Libertei-me dela e fui forte o suficiente para não revelar minhas intenções em duas horas de conversa. E, meu Deus, que conversa!

Alberto prometera estar no jardim com Carlota logo depois de cear. Eu estava no terraço, à sombra dos altos castanheiros, e olhava para o Sol que eu via pôr-se para além do belo vale pela derradeira vez, e agora refulgia no curso de um rio que seguia seu rumo tranqüilamente. Estive tantas vezes naquele lugar com ela!

Tantas vezes havíamos contemplado juntos aquele magnífico espetáculo e agora... Ia e vinha pela alameda que eu tanto amava; um quê de secreta simpatia tinha me levado para ali tantas vezes, antes mesmo de conhecer Carlota, e como nos alegramos quando descobrimos nosso afeto comum àquele lugarzinho, que realmente é um dos mais românticos que eu já vi ser pintados pela arte!

Primeiro tens a ampla perspectiva entre os castanheiros... Ah tá, agora me lembro que, pelo menos assim creio, já te escrevi longas páginas acerca disso, contando-te como as paredes de faias escurecem cada vez mais a alameda, até tudo terminar, ao final, num lugarzinho fechado que encerra todo o tremor da solidão. Sinto ainda a sensação de mistério que tomou conta de mim quando, sol a pino, entrei ali pela primeira vez; no fundo de minha alma já pressentia vagamente que cenário de felicidade e de dor ele haveria de ser um dia.

Já estava entregue há cerca de meia hora aos doces e cruéis pensamentos do instante da separação, que ia voltar a nos reunir, quando senti que os dois subiam para o terraço. Corri ao encontro dela, peguei-lhe a mão a tremer e beijei-a. Apenas havíamos subido, quando a lua assomou por detrás das moitas da colina; sempre a conversar, aproximávamo-nos irremediavelmente do gabinete escuro. Carlota entrou ali e sentou-se, Alberto ao lado dela e eu também; mas meu desassossego não me deixou ficar sentado por muito tempo, levantei-me e pus-me diante dela, dei algumas voltas e tornei a me sentar; aquela era uma situação angustiante. Ela chamou nossa atenção para o belo efeito da luz da lua que, na extremidade das paredes de faia, iluminava todo o terraço diante de nós; soberbo espetáculo, e tanto mais

impressionante por que em volta de nós reinava profunda escuridão. Permanecemos quietos algum tempo, mas Carlota interrompeu o silêncio dizendo: “Nunca saio a passear à luz da lua, nunca, sem que a lembrança de meus parentes mortos me acompanhe e a idéia do fim e do futuro me deixe abalada”.

“Existiremos!”, prosseguiu ela, na voz do mais magnífico dos sentimentos. “Mas, Werther, tornaremos a nos encontrar? A nos reconhecer? Que pensais disso?”

“Carlota”, disse eu, enquanto pegava sua mão e sentia meus olhos cheios de lágrimas,

“nós haveremos de nos reencontrar! Aqui e lá, nós haveremos de nos reencontrar!...” Não pude prosseguir... Guilherme! Tinha ela de me fazer semelhante pergunta no momento em que eu abrigava em mim a idéia de uma separação tão cruel!?

“E saberão nossos mortos queridos”, continuou ela, “sentirão se estamos bem nesse mundo, que nos lembramos deles com carinho afetuoso? Oh, o semblante de minha mãe está sempre diante de meus olhos quando, à noite, estou sentada e bem tranqüila no meio de seus filhos, que ali estão ao redor de mim como estavam ao redor dela. Ergo ao céu com ardor os meus olhos molhados de lágrimas e desejo que do alto ela possa ver num instante como cumpro a promessa que lhe fiz em sua derradeira hora: ser a mãe de seus filhos! Com que emoção exclamo: perdoa-me, mãe amantíssima, se não sou para eles o que tu eras! Ah, eu faço tudo o que posso: andam vestidos, alimentados e, mais que tudo isso, cuidados e queridos.

Pudesses tu ver a nossa união, minha santa! Que ações de graças darias a Deus, a quem pediste, derramando tuas derradeiras e amargas lágrimas, a felicidade para teus filhos...” Ela disse isso, oh, Guilherme! Quem pode repetir o que ela disse? Como é que letras frias e mortas lograrão alcançar e refletir essa celestial floração do espírito?

Alberto a interrompeu com doçura: “Isso vos impressiona em demasia, querida Carlota!

Já sei que vossa alma pende inteira dessa idéia, mas peço-vos que...”

“Oh, Alberto!”, exclamou ela. “Sei que não esqueceste aquelas noites em que estávamos sentados juntos em volta da mesinha redonda, quando meu pai andava em viagem, depois de mandarmos as crianças irem se deitar. Trazias às vezes um bom livro, mas era raro chegares a ler algo... Não valia mais que tudo a relação com aquela alma magnífica, com aquela bela, jovial, carinhosa e sempre ativa mulher? Deus sabe das lágrimas que eu derramo às vezes no meu leito, humilhando-me perante Ele para que me faça igual a minha mãe...”

“Carlota!”, exclamei, lançando-me aos seus pés, colhendo-lhe a mão e salpicando-a com miles de lágrimas. “Carlota! A bendição e o espírito de tua mãe pairam sobre ti!”

“Se vós a tivésseis conhecido!”, disse-me ela, apertando-me a mão. “Era digna de que a conhecêsseis.” Julguei que iria desmaiar. Nunca, jamais falaram em relação a mim palavras tão monumentais e elogiosas... e ela prosseguiu: “E aquela mulher viu a morte arrebatá-la na flor da vida, quando o último dos seus filhos tinha apenas seis meses! A sua doença não foi longa; ela estava tranqüila, resignada, só os seus filhos lhe causavam pena, sobretudo o menor.

Quando sentiu o fim se aproximando, disse-me: ‘Traga-os até mim’ e assim que acabei de levá-los até ela – os mais pequenos ainda não sabiam de nada, os maiores estavam consternados e tampouco sabiam direito o que se passava –, ela alçou as mãos e rezou por eles e beijou-os, um após outro. Depois disso mandou que se retirassem e disse a mim: ‘Sê a mãe deles!’ Eu apertei sua mão em juramento. ‘Prometes muito, minha filha’, disse ela. ‘O

coração de uma mãe e os olhos de uma mãe. Mais de uma vez pude ver em tuas lágrimas de

gratidão que sentes bem o que isso significa. Sê mãe para os teus filhos e com o teu pai tem a fidelidade e a obediência de uma esposa. Tu o consolarás.’ Ela perguntou por ele, mas ele havia saído, para poupar-nos da dor insuportável que sentia. O pobre tinha o coração em pedaços... Tu estavas no quarto, Alberto. Ela ouviu os passos de alguém, perguntou quem era e pediu que vos aproximásseis dela; e como ela olhou para ti e para mim, com que olhos tão consolados e tão serenos! Como se estivesse segura de que seríamos felizes, completamente felizes, juntos os dois...”