Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 6 de 9 · parte 3/4

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Patriarcas e Profetas

Bíblia claramente posto diante deles, ou é…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

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revolvi de sobre vós o opróbrio do Egito" (Jos. 5:9), e em alusão a isto o lugar de seu acampamento foi chamado Gilgal, que é "círculo" ou "roda".

Nações gentílicas tinham vituperado ao Senhor e Seu povo porque os hebreus não puderam tomar posse de Canaã, como era sua expectativa, logo depois de saírem do Egito. Seus inimigos tinham triunfado porque Israel vagueara tanto tempo no deserto, e zombeteiramente haviam declarado que o Deus dos hebreus não era capaz de os levar à Terra Prometida. O Senhor manifestara agora de maneira assinalada o Seu poder e favor, abrindo o Jordão diante de Seu povo; e os inimigos deste não mais os podiam exprobrar.

"No dia catorze do mês, à tarde", a Páscoa foi celebrada nas planícies de Jericó. "E comeram do trigo da terra do ano antecedente, ao outro dia depois da Páscoa, pães asmos e espigas tostadas, no mesmo dia. E cessou o maná no dia seguinte depois que comeram do trigo da terra do ano antecedente; e os filhos de Israel não tiveram mais maná; porém, no mesmo ano comeram das novidades da terra de Canaã." Jos. 5:9-12. Os longos anos de suas vagueações pelo deserto haviam-se findado. Os pés de Israel estavam finalmente a pisar na Terra Prometida.

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A Queda de Jericó

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Os hebreus tinham entrado em Canaã, mas não a haviam sujeitado; e quanto às aparências humanas, a luta para obterem posse da terra deveria ser longa e difícil. Era habitada por uma raça poderosa, que se encontrava pronta para opor-se à invasão de seu território. As várias tribos se achavam coligadas pelo receio de um perigo comum. Seus cavalos e férreos carros de batalha, seu conhecimento do território, e seu adestramento na guerra dar-lhes-iam grande vantagem. Além disso, o território era guardado por fortalezas - "cidades grandes, e muradas até aos céus". Deut. 9:1. Unicamente na certeza de uma força que não lhes era própria, poderiam os israelitas esperar êxito no conflito que estava iminente.

Uma das mais poderosas fortalezas da Terra - a grande e rica cidade de Jericó - encontrava-se precisamente diante deles, a pouca distância apenas de seu acampamento em Gilgal. Nas bordas de uma planície fértil, abundante de ricas e variadas produções tropicais, com seus palácios e templos como habitação de luxo e do vício, apresentava esta orgulhosa cidade, por trás de suas sólidas muralhas, desafio ao Deus de Israel. Jericó era uma das principais sedes do culto idólatra, sendo dedicada especialmente a Astarote, a deusa da Lua. Ali se centralizava tudo que era mais vil e degradante na religião dos cananeus. O povo de Israel, em cuja mente se achavam frescas as lembranças dos resultados terríveis de seu pecado em Bete-Peor, apenas poderia olhar para esta cidade gentílica com repugnância e horror.

Submeter Jericó era considerado por Josué o primeiro passo na conquista de Canaã. Mas antes de tudo procurou certeza de guia divina; e esta lhe foi concedida. Retirando-se do acampamento a fim de meditar e orar para que o Deus de Israel fosse adiante de Seu povo, viu um guerreiro armado, de grande estatura e presença imponente, "que tinha na mão uma espada nua." À intimação de Josué: "És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos?" deu-se

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esta resposta: "Venho agora como Príncipe do Senhor." A mesma ordem dada a Moisés em Horebe: "Descalça os sapatos de teus pés, porque o lugar em que estás é santo" (Jos. 5:13-15.), revelou o verdadeiro caráter do estranho misterioso. Era Cristo, o exaltado Ser, que estava em pé diante do chefe de Israel. Tomado de assombro Josué caiu sobre seu rosto e adorou; e ouviu esta segurança: "Tenho dado na tua mão a Jericó e ao seu rei, os seus valentes e valorosos" (Jos. 6:2); e recebeu instruções para a tomada da cidade.

Em obediência à ordem divina Josué arregimentou os exércitos de Israel. Nenhum assalto se deveria fazer. Apenas deviam fazer o circuito da cidade, levando a arca de Deus, e tocando trombetas. Em primeiro lugar iam os guerreiros, uma corporação de homens escolhidos, não para fazer agora a conquista pela sua própria habilidade e proeza, mas pela obediência às orientações a eles dadas por Deus. Seguiam-se sete sacerdotes com trombetas. Então a arca de Deus, rodeada de uma auréola de glória divina, era levada pelos sacerdotes vestidos nos trajes que denotavam seu sagrado ofício. Seguia-se o exército de Israel, estando cada tribo sob a sua bandeira. Tal foi o cortejo que circundou a cidade condenada. Nenhum som se ouvia a não ser o tropel daquela grande hoste e o estrondo solene das trombetas, ecoando pelas colinas, e ressoando através das ruas de Jericó. Concluído o circuito, o exército voltou em silêncio às suas tendas, e a arca foi de novo posta em seu lugar no tabernáculo. Admiradas e alarmadas, as sentinelas da cidade notavam cada movimento, e o referiam às autoridades. Não sabiam a significação de toda esta manifestação; mas, quando viram aquela potente hoste a marchar em redor de sua cidade uma vez em cada dia, juntamente com a arca sagrada e os sacerdotes assistentes, o mistério da cena aterrorizou o coração de sacerdotes e povo. De novo inspecionaram suas fortes defesas, sentindo-se certos de que poderiam com êxito resistir ao mais poderoso ataque. Muitos punham a ridículo a idéia de que qualquer mal lhes pudesse advir por meio daquelas singulares demonstrações. Outros estavam aterrados contemplando o séquito que cada dia volteava a cidade. Lembravam-se de que o Mar Vermelho uma vez se abrira perante este povo, e que acabava de se lhes abrir uma passagem pelo rio Jordão. Não sabiam que mais prodígios Deus poderia operar por eles. Durante seis dias, a hoste de Israel fez o circuito da cidade. Pág. 491

Veio o sétimo dia, e com o primeiro alvor da manhã, Josué arregimentou os exércitos do Senhor. Determinou-se-lhes agora marchar sete vezes em redor de Jericó, e a um forte estrondo das trombetas dar uma aclamação em alta voz, pois Deus lhes havia entregue a cidade.

O vasto exército marchou solenemente em redor das condenadas muralhas. Tudo estava em silêncio - apenas o passo cadenciado de muitos pés, e o som ocasional da trombeta, rompiam a quietude das primeiras horas da manhã. Os sólidos muros de pedra maciça pareciam desafiar o cerco dos homens. Os vigias sobre os muros olhavam com temor crescente, quando, ao terminar o primeiro circuito, seguiu-se um segundo, então um terceiro, quarto, quinto, sexto. Qual poderia ser o objetivo desses movimentos misteriosos? Que grande acontecimento se achava iminente? Não tiveram muito tempo a esperar. Completando-se a sétima volta, deteve-se a longa procissão. As trombetas, que durante um intervalo estiveram silenciosas, prorrompem agora em um som que sacode a própria terra. As muralhas de pedra sólida, com suas torres e seteiras maciças, cambaleiam e levantam-se de seus fundamentos, e com fragor caem em ruínas por terra. Os habitantes de Jericó ficam paralisados de terror, e as hostes de Israel entram e tomam posse da cidade.

Os israelitas não haviam ganho a vitória pela sua própria força; a conquista fora inteiramente do Senhor; e, como as primícias da terra, a cidade, com tudo que continha, deveria ser votada como sacrifício a Deus. Israel devia impressionar-se com o fato de que na conquista de Canaã não deveriam combater por si mesmos, mas simplesmente como instrumentos para executarem a vontade de Deus; não para buscarem riquezas ou exaltação própria, mas a glória de Jeová, o seu Rei. Antes da tomada havia sido dada esta ordem: "A cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela". "Guardai-vos do anátema, para que vos não metais em anátema... e assim façais maldito o arraial de Israel, e o turbeis." Jos. 6:17 e 18.

Todos os habitantes da cidade, com todo o ser vivo que nela se continha, "desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento", passaram ao fio da espada. Apenas a fiel Raabe, com sua casa, foi poupada, em cumprimento da promessa dos espias. A cidade foi queimada; seus palácios e templos, suas magnificentes moradas com todos os seus luxuosos pertences, ricas cortinas e

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custosos vestuários, foram entregues às chamas. Aquilo que não pôde ser destruído pelo fogo, "a prata, e o ouro, e os vasos de metal, e de ferro", foi dedicado ao serviço do tabernáculo. O próprio local da cidade foi maldito; Jericó nunca deveria ser reconstruída como fortaleza; ameaçaram-se juízos sobre qualquer que pretendesse restabelecer os muros que o poder divino havia derribado. Esta solene declaração foi feita na presença de todo o Israel: "Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó; perdendo o seu primogênito a fundará, e sobre seu filho mais novo lhe porá as portas." Jos. 6:21, 24 e 26.

A destruição total do povo de Jericó não era senão um cumprimento das ordens previamente dadas por intermédio de Moisés, concernentes aos habitantes de Canaã: "Quando... o Senhor Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás." "Das cidades destas nações... nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida." Deut. 7:2; 20:16. Para muitos estas ordens parecem ser contrárias ao espírito de amor e misericórdia estipulado em outras partes da Bíblia; mas eram na verdade os ditames da sabedoria e bondade infinitas. Deus estava para estabelecer Israel em Canaã, desenvolver entre eles uma nação e governo que fossem uma manifestação de Seu reino na Terra. Não somente deveriam ser os herdeiros da verdadeira religião, mas deveriam disseminar seus princípios por todo o mundo. Os cananeus haviam-se entregado ao mais detestável e aviltante paganismo; e era necessário que a terra fosse limpa daquilo que de maneira tão certa impediria o cumprimento dos graciosos propósitos de Deus.

Aos habitantes de Canaã havia sido concedida ampla oportunidade para o arrependimento. Quarenta anos antes, a abertura do Mar Vermelho e os juízos sobre o Egito haviam testificado do poder supremo do Deus de Israel. E agora a destruição dos reis de Midiã, de Gileade e Basã, tinha ainda mostrado que Jeová era superior a todos os deuses. A santidade de Seu caráter e Sua aversão à impureza haviam sido demonstradas nos juízos que recaíram sobre Israel pela sua participação nos ritos abomináveis de Baal-Peor. Todos estes fatos eram conhecidos dos habitantes de Jericó, e muitos havia que participavam da convicção de Raabe, embora se recusassem a obedecer à mesma, convicção esta de que o Deus de Israel "é Deus em cima nos Céus e embaixo na Terra". Semelhantes aos homens antediluvianos, os cananeus apenas viviam para blasfemar do Céu e contaminar a Terra. E tanto o amor como a justiça exigiam a imediata execução destes rebeldes a Deus, e adversários do homem. Pág. 493

Quão facilmente os exércitos do Céu derribaram os muros de Jericó, daquela cidade orgulhosa, cujos baluartes, quarenta anos antes, tinham lançado pânico aos espias incrédulos! O Poderoso de Israel havia dito: "Tenho dado na tua mão a Jericó." Contra aquela palavra, a força humana era impotente. "Pela fé caíram os muros de Jericó." Heb. 11:30. O Capitão do exército do Senhor comunicou-Se apenas com Josué; Ele não Se revelou a toda a congregação, e tocava a esta crer nas palavras de Josué ou duvidar das mesmas, obedecer às ordens por ele dadas em nome do Senhor, ou negar-lhe a autoridade. Não podiam ver a hoste de anjos que os acompanhava sob a chefia do Filho de Deus. Poderiam ter raciocinado: "Que movimentos sem significação são esses, e quão ridícula é a realização de uma marcha diária em torno dos muros da cidade, tocando trombetas de chifres de carneiro! Isto não pode ter efeito algum sobre aquelas proeminentes fortificações." Mas o próprio plano de continuar esta cerimônia durante tanto tempo antes da subversão final dos muros, proporcionou oportunidade para o desenvolvimento da fé entre os israelitas. Deveriam impressionar-se com o fato de que sua força não estava na sabedoria do homem, nem em seu poder, mas unicamente no Deus de sua salvação. Deviam assim acostumar-se a depositar inteira confiança em seu divino Líder. Deus fará grandes coisas por aqueles que nEle confiam. A razão pela qual Seu povo professo não tem maior força, é que confiam tanto em sua própria sabedoria, e não dão ao Senhor oportunidade para revelar Seu poder em favor deles. Ele auxiliará os Seus filhos crentes em toda a emergência, se nEle puserem toda a confiança, e fielmente Lhe obedecerem. Logo depois da queda de Jericó, Josué decidiu atacar Ai, pequena cidade entre barrancos a poucos quilômetros ao oeste do vale do Jordão. Espias enviados àquele lugar trouxeram a notícia de que poucos eram os habitantes, e que unicamente uma pequena força seria necessária para vencê-la. A grande vitória que Deus lhes havia ganho, tornara os israelitas confiantes em si mesmos. Porque Ele lhes tivesse prometido a terra de Canaã, achavam-se livres de perigo, e deixaram de compenetrar-se de que só o auxílio divino lhes poderia dar êxito. Mesmo Josué fez seus planos para a conquista de Ai, sem procurar conselho da parte de Deus.

Os israelitas tinham começado a exaltar sua própria força, e a olhar com desdém para os seus adversários. Esperava-se uma

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vitória fácil, e acharam-se suficientes três mil homens para tomarem o lugar. Arremessaram-se ao ataque sem a segurança de que Deus estaria com eles. Avançaram quase até às portas da cidade, apenas para encontrarem a mais decidida resistência. Tomados de pânico ante o número e completo preparo de seus inimigos, fugiram em confusão pela escarpada descida abaixo. Os cananeus puseram-se em feroz perseguição; "seguiram-nos desde a porta. ... e feriram-nos na descida". Posto que a perda fosse pequena quanto ao número, tendo sido mortos apenas trinta e seis homens, foi a derrota desanimadora para toda a congregação. "O coração do povo se derreteu e se tornou como água." Esta foi a primeira vez que se defrontaram com os cananeus em combate efetivo; e, se foram postos em fuga diante dos defensores desta pequena cidade, qual seria o resultado nos maiores conflitos que se achavam perante eles? Josué encarou o mau êxito como expressão do desagrado de Deus, e, angustiosamente, apreensivamente, "rasgou os seus vestidos, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até a tarde, ele e os anciãos de Israel, e deitaram pó sobre as suas cabeças". "Ah Senhor Jeová!" exclamou ele, "por que, com efeito, fizeste passar a este povo o Jordão, para nos dares nas mãos dos amorreus, para nos fazerem perecer ? ... Ah Senhor! que direi? pois Israel virou as costas diante dos seus inimigos! Ouvindo isto, os cananeus e todos os moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e então que farás ao Teu grande nome?" A resposta de Jeová foi: "Levanta-te; por que estás prostrado assim sobre o teu rosto? Israel... transgrediu o Meu concerto que lhes tinha ordenado." Era este um momento para ação pronta e decidida, e não para desespero e lamentação. Havia pecado secreto no acampamento, e este devia ser descoberto e removido, antes que a presença e a bênção do Senhor pudessem estar com o Seu povo. "Não serei mais convosco, se não desarraigardes o anátema do meio de vós." A ordem de Deus tinha sido desatendida por um dos encarregados de executar Seus juízos. E a nação foi considerada responsável pelo crime do transgressor: "Tomaram do anátema, e também furtaram, e também mentiram." Deram-se instruções a Josué para a descoberta e castigo do criminoso. Dever-se-ia empregar a sorte para descobri-lo. O pecador não foi diretamente indicado, ficando a questão em dúvida por algum tempo, a fim de que

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o povo pudesse sentir sua responsabilidade pelos pecados existentes entre eles, e assim fosse levado ao exame de coração, e humilhação perante Deus.

De manhã bem cedo, Josué reuniu o povo, "segundo as suas tribos", e iniciou-se a cerimônia solene e impressionante. Passo a passo prosseguiu a investigação. Mais e mais minuciosa se tornava a terrível prova. Primeiro a tribo, depois a família, depois a casa, a seguir o homem, foram passados pela prova, e Acã, filho de Carmi, da tribo de Judá, foi indicado pelo dedo de Deus como o perturbador de Israel. Para confirmar seu crime, fora de toda a dúvida, não deixando base para a acusação de que fora condenado injustamente, Josué, de modo solene, conjurou a Acã a reconhecer a verdade. O miserável homem fez ampla confissão de seu crime: "Verdadeiramente pequei contra o Senhor Deus de Israel. ... Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda." Expediram-se imediatamente mensageiros para a tenda, onde removeram a terra no lugar indicado, e "eis que tudo estava escondido na sua tenda, e a prata debaixo dela. Tomaram pois aquelas coisas do meio da tenda, e as trouxeram a Josué... e as deitaram perante o Senhor". Pronunciou-se a sentença, e imediatamente foi executada. "Por que nos turbaste?" disse Josué; "o Senhor te turbará a ti este dia." Como o povo houvesse sido responsabilizado pelo pecado de Acã, e tivesse sofrido pelas suas conseqüências, deveria, mediante seus representantes, tomar parte no castigo àquele pecado. "Todo o Israel o apedrejou com pedras." Então ergueu-se sobre ele um grande montão de pedras - testemunho ao pecado e seu castigo. "Pelo que se chamou o nome daquele lugar o vale de Acor", isto é, "perturbação." No livro das Crônicas está escrita a sua memória: "Acar, o perturbador de Israel." I Crôn. 2:7. O pecado de Acã foi cometido em desafio às advertências mais diretas e solenes e às mais grandiosas manifestações do poder de Deus. "Guardai-vos do anátema, para que vos não metais em anátema", tinha sido a proclamação a todo o Israel. A ordem fora dada imediatamente depois da passagem miraculosa do Jordão, e do reconhecimento do concerto de Deus pela circuncisão do povo - após a observância da Páscoa, e o aparecimento do

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Anjo do concerto, o Capitão da hoste do Senhor. A ela se seguira a subversão de Jericó, dando provas da destruição que certo surpreenderá todos os transgressores da lei de Deus. O fato de que somente o poder divino dera a vitória a Israel, de que não entraram na posse de Jericó pela sua própria força, dava um peso solene à ordem que lhes proibia participar dos despojos. Deus, pelo poder de Sua palavra, vencera aquela fortaleza; a conquista era Sua, e a Ele, unicamente, a cidade com todas as coisas que nela se continham devia ser devotada.

Dentre os milhões de Israel apenas um homem houve que, naquela hora solene de triunfo e juízo, ousara transgredir a ordem de Deus. A cobiça de Acã foi despertada à vista daquela custosa capa de Sinear; mesmo quando ela o levou em face da morte, ele a chamou "uma boa capa babilônica". Um pecado arrastara outro, e ele se apropriou do ouro e da prata dedicados ao tesouro do Senhor - roubou a Deus as primícias da terra de Canaã.

O mortal pecado que determinara a ruína de Acã teve suas raízes na cobiça, um dos mais comuns e mais levianamente considerados dentre todos os pecados. Enquanto outras faltas são descobertas e castigadas, quão raramente apenas desperta censura a violação do décimo mandamento. A enormidade deste pecado, e seus terríveis resultados, são a lição da história de Acã. A cobiça é um mal de desenvolvimento gradual. Acã havia acariciado a avidez ao ganho até que isto se tornou um hábito, atando-o em grilhões quase impossíveis de quebrar. Enquanto alimentava este mal, ter-se-ia enchido de horror ao pensamento de acarretar desgraça sobre Israel; mas suas percepções se amorteceram pelo pecado, e, quando sobreveio a tentação, caiu como fácil presa. Não são ainda cometidos pecados semelhantes em face de advertências tão solenes e explícitas? Proíbe-se-nos tão diretamente condescender com a cobiça como a Acã foi proibido apropriar-se dos despojos de Jericó. Deus declarou ser isto idolatria. Somos advertidos: "Não podeis servir a Deus e a Mamom." Mat. 6:24. "Acautelai-vos e guardai-vos da avareza." Luc. 12:15. "Nem ainda se nomeie entre vós." Efés. 5:3; Col. 3:5. Temos diante de nós a sorte terrível de Acã, de Judas, de Ananias e Safira. Antes de todos estes, temos a de Lúcifer, aquele "filho da alva", que, cobiçando mais elevada Pág. 497

condição, perdeu para sempre o brilho e ventura do Céu. E, contudo, apesar de todas estas advertências, impera por toda a parte a cobiça.

Por toda parte se vê o seu rastro viscoso. Cria o descontentamento e a dissensão nas famílias; provoca a inveja e ódio dos pobres contra os ricos; inspira a opressão cruel do rico ao pobre. E este mal não existe somente no mundo, mas na igreja também. Quão comum é achar mesmo ali o egoísmo, a avareza, a ganância, a negligência da caridade, e o roubo a Deus "nos dízimos e ofertas"! Entre membros da igreja, considerados idôneos e cumpridores do dever existem, triste é dizer, muitos Acãs! Muito homem vem majestosamente à igreja, e senta-se à mesa do Senhor, enquanto entre as suas posses se acham ocultos lucros ilícitos, coisas que Deus amaldiçoou. Por uma boa capa babilônica multidões sacrificam a aprovação da consciência e sua esperança do Céu. Multidões permutam sua integridade e capacidade para o que é útil por um saco de siclos de prata. Os clamores dos pobres que sofrem são desatendidos; a luz do evangelho é estorvada em seu caminho; instiga-se o escárnio dos mundanos pelas práticas que desmentem a profissão cristã; e no entanto o cobiçoso que professa a religião continua a amontoar tesouros. "Roubará o homem a Deus? todavia vós Me roubais", diz o Senhor. Mal. 3:8.

O pecado de Acã trouxe revés a toda a nação. Pelo pecado de um homem, o desprazer de Deus repousará sobre Sua igreja até que a transgressão seja descoberta e removida. A influência que mais temida deve ser pela igreja não é a dos francos oponentes, incrédulos e blasfemos, mas dos que incoerentemente professam a Cristo. Estes são os que impedem as bênçãos de Deus de virem a Israel, e acarretam fraqueza ao Seu povo.

Quando a igreja se acha em dificuldade, quando existem a frieza e o declínio espiritual, dando ocasião a que os inimigos de Deus triunfem, então, em vez de cruzar os braços e lamentar sua infeliz condição, investiguem os membros se não há um Acã no acampamento. Com humilhação e exame de coração, procure cada qual descobrir os pecados ocultos que excluem a presença de Deus. Acã reconheceu sua culpa, quando era demasiado tarde para que a confissão o beneficiasse. Vira os exércitos de Israel voltarem de Ai derrotados e desanimados; contudo não se apresentou para confessar seu pecado. Vira Josué e os anciãos de Israel curvados em terra, com uma dor demasiado grande para exprimir-se com palavras. Houvesse feito então confissão, e teria dado alguma Pág. 498

prova de verdadeiro arrependimento; mas guardou ainda silêncio. Ouvira a proclamação de que um grande crime fora cometido, e ouvira mesmo especificar-se o caráter daquele crime. Seus lábios, porém, estavam fechados. Veio então a investigação solene. Como lhe fremiu a alma de terror, ao ver indicada sua tribo, a seguir sua família e depois sua casa! Mas ainda não proferiu confissão alguma, até que o dedo de Deus se pôs sobre ele. Então, quando o seu pecado não mais poderia ser escondido, admitiu a verdade. Quão freqüentemente se fazem confissões semelhantes! Há uma grande diferença entre admitir fatos depois que os mesmos foram provados, e confessar pecados apenas conhecidos por nós mesmos e Deus. Acã não teria confessado seu crime se não tivesse esperado com isso evitar as conseqüências do mesmo. Mas sua confissão apenas serviu para mostrar que seu castigo era justo. Não havia genuíno arrependimento do pecado, nem contrição, nem mudança de propósito, nem aversão ao mal.

Assim pelos culpados serão feitas confissões quando se encontrarem eles perante o tribunal de Deus, depois de haver sido decidido todo o caso, ou para a vida ou para a morte. As conseqüências que lhes resultarão, arrancarão de cada um o reconhecimento de seu pecado. Será extorquido da alma por um senso terrível de condenação e medonha expectativa de juízo. Mas tais confissões não poderão salvar o pecador.

Enquanto podem esconder suas transgressões, de seus semelhantes, muitos, como Acã, sentem-se livres de perigo, e lisonjeiam-se de que Deus não será severo ao notar a iniqüidade. Demasiado tarde seus pecados pô-los-ão a descoberto naquele dia em que para sempre não serão purificados com sacrifício nem com ofertas. Quando se abrirem os registros do Céu, o Juiz não declarará com palavras ao homem a sua culpa, mas lançará um olhar penetrante, convincente, e toda ação, todo cometimento da vida, gravar-se-á vividamente na memória do malfeitor. Não será necessário como nos dias de Josué que a pessoa seja pesquisada da tribo à família, mas seus próprios lábios confessarão sua vergonha. Os pecados ocultos ao conhecimento dos homens serão então proclamados ao mundo todo. 46

As Bênçãos e as Maldições

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Depois da execução da sentença de Acã, Josué teve ordem de arregimentar todos os homens de guerra, e de novo avançar contra Ai. O poder de Deus estava com Seu povo, e logo ficaram de posse da cidade.

As operações militares agora foram suspensas, para que todo o Israel pudesse empenhar-se em um solene serviço religioso. O povo estava ansioso por estabelecer-se em Canaã; ainda não tinham casas nem terras para as suas famílias, e a fim de adquiri-las deveriam expulsar os cananeus; mas este importante trabalho devia ser adiado, pois que um dever maior reclamava sua primeira atenção. Antes de tomarem posse de sua herança, deviam renovar seu concerto de fidelidade a Deus. Nas últimas instruções de Moisés, por duas vezes haviam sido dadas ordens para uma convocação das tribos nos montes Ebal e Gerizim, em Siquém, para o reconhecimento solene da lei de Deus. Em obediência a essas ordens expressas, todo o povo, não somente homens, mas mulheres, crianças e estrangeiros que andavam no meio deles (Jos. 8:30-35), deixaram seu acampamento em Gilgal, e marcharam através do território de seus inimigos, ao vale de Siquém, próximo do centro daquela terra. Posto que cercados de adversários não vencidos, estavam seguros sob a proteção de Deus, enquanto Lhe fossem fiéis. Agora, como nos dias de Jacó, "o terror de Deus foi sobre as cidades que estavam ao redor deles" (Gên. 35:5), e os hebreus não foram incomodados. O lugar indicado para este serviço solene já era sagrado pela sua ligação com a história de seus pais. Ali foi que Abraão levantou seu primeiro altar a Jeová na terra de Canaã. Foi ali que Abraão e Jacó armaram suas tendas. O último comprara ali o campo em que as tribos deveriam sepultar o corpo de José. Ali, também,

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estava o poço que Jacó cavara, e o carvalho sob o qual sepultara os ídolos de sua casa. O local escolhido era um dos mais belos de toda a Palestina, e digno de ser o teatro em que aquela grandiosa e impressionante cena deveria ser levada a efeito. O lindo vale, com seus campos verdejantes pontilhados de bosques de oliveiras, regados de riachos oriundos de fontes vivas, e adornado de flores silvestres, estendia-se de um modo convidativo entre as colinas áridas. Ebal e Gerizim, nos lados opostos do vale, quase se aproximam uma da outra, parecendo seus contrafortes inferiores formar um púlpito natural, sendo audíveis em uma delas distintamente todas as palavras proferidas na outra, ao mesmo tempo em que os lados da montanha, recuando, proporcionam um espaço para a vasta congregação.

Segundo as instruções dadas por Moisés, um monumento de grandes pedras foi construído no Monte Ebal. Sobre essas pedras, previamente preparadas por uma cobertura de argamassa, foi inscrita a lei - não somente os dez preceitos proferidos no Sinai e gravados em tábuas de pedras, mas as leis comunicadas a Moisés, e por ele escritas em um livro. Ao lado deste monumento foi construído um altar de pedras não lavradas, sobre o qual foram oferecidos sacrifícios ao Senhor. O fato de ter construído o altar no Monte Ebal, monte este sobre o qual fora posta a maldição, era significativo, denotando que, por causa de sua transgressão à lei de Deus, Israel incorrera com justiça em Sua ira, e que esta cairia de pronto sobre eles, não fosse a obra expiatória de Cristo, representada pelo altar de sacrifício. Seis das tribos, todas descendentes de Léia e Raquel, ficaram estacionadas no monte Gerizim, enquanto as que descenderam das servas, juntamente com Rúben e Zebulom, tomaram posição em Ebal, ocupando o vale entre elas os sacerdotes com a arca. Foi proclamado silêncio mediante o som da trombeta que dava os sinais; e, então, em profundo silêncio, e na presença desta vasta assembléia, Josué, em pé ao lado da arca sagrada, leu as bênçãos que deveriam seguir-se à obediência à lei de Deus. Todas as tribos em Gerizim responderam por um Amém. Então ele leu as maldições, e as tribos em Ebal, de modo semelhante, deram seu assentimento, unindo-se como a voz de um homem em resposta solene milhares de milhares de vozes. Em seguida teve lugar a leitura da lei de Deus, juntamente com os estatutos e juízos que lhes haviam sido entregues por Moisés. Israel havia recebido a lei diretamente da boca de Deus, no Sinai; e os sagrados preceitos da mesma, escritos pela Sua própria

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mão, ainda se encontravam preservados na arca. Agora foi escrita novamente onde todos a poderiam ler. Todos tinham o privilégio de ver por si mesmos as condições do concerto mediante o qual deveriam manter a posse de Canaã. Todos deveriam exprimir sua aceitação aos termos do concerto, e dar seu assentimento às bênçãos ou maldições pela sua observância ou negligência. A lei não somente foi escrita sobre as pedras que serviam de memória, mas foi lida pelo próprio Josué ao ouvido de todo o Israel. Não fazia muitas semanas que Moisés dera todo o livro de Deuteronômio, em discursos, ao povo, contudo, de novo lê Josué agora a lei.

Não somente os homens de Israel, mas todas as mulheres e crianças, ouviram a leitura da lei; pois era de importância que também estas conhecessem e cumprissem seu dever. Deus ordenara a Israel com relação aos Seus estatutos: "Ponde pois estas Minhas palavras no vosso coração, e na vossa alma, e atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por testeiras entre os vossos olhos; ensinai-as a vossos filhos, ... para que se multipliquem os vossos dias e os dias de vossos filhos na terra que o Senhor jurou a vossos pais dar-lhes, como os dias dos céus sobre a Terra." Deut. 11:18-21. Cada sétimo ano, a lei inteira devia ser lida na assembléia de todo o Israel, conforme Moisés ordenou: "Ao fim de cada sete anos, no tempo determinado do ano da remissão, na festa dos tabernáculos, quando todo o Israel vier a comparecer perante o Senhor teu Deus, no lugar que Ele escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel aos seus ouvidos. Ajunta o povo, homens, e mulheres, e meninos, e os teus estrangeiros que estão dentro das tuas portas, para que ouçam, e aprendam, e temam ao Senhor vosso Deus, e tenham cuidado de fazer todas as palavras desta lei; e que seus filhos, que a não souberem, ouçam e aprendam a temer ao Senhor vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra à qual ides, passando o Jordão, a possuir." Deut. 31:10-13. Satanás está sempre em atividade, esforçando-se por perverter o que Deus falou, por cegar a mente e obscurecer a compreensão, e levar desta maneira os homens ao pecado. É por isso que o Senhor é tão explícito, tornando Suas reivindicações tão claras que ninguém está no caso de errar. Deus está constantemente procurando trazer os homens sob Sua íntima proteção, a fim de que Satanás não possa exercer sobre eles o seu poder cruel e

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enganador. Deus condescendeu em falar com eles de viva voz, escrever com Sua própria mão os oráculos vivos. E estas benditas palavras, todas animadas de vida e luminosas de verdade, são confiadas aos homens como um guia perfeito. Visto que Satanás está tão pronto para se apoderar da mente e desviar das promessas e requisitos do Senhor as afeições, necessita-se da maior diligência para fixá-las no espírito e gravá-las no coração.

Maior atenção deve ser dada pelos ensinadores religiosos à instrução do povo nos fatos e lições da história bíblica e nas advertências e ordens do Senhor. Estas coisas devem ser apresentadas em linguagem simples, adaptada à compreensão das crianças. Deve ser uma parte da obra tanto dos pastores como dos pais providenciar para que os jovens sejam instruídos nas Escrituras. Os pais podem e devem interessar os filhos no conhecimento variado que se encontra nas páginas sagradas. Mas, se quiserem interessar seus filhos e filhas na Palavra de Deus, deverão eles próprios estar interessados na mesma. Devem estar familiarizados com seus ensinos, e, conforme Deus ordenou a Israel, falar a tal respeito "assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te". Deut. 11:19. Aqueles que desejam que seus filhos amem e reverenciem a Deus, devem falar de Sua bondade, Sua majestade e Seu poder, conforme se acham revelados em Sua Palavra e nas obras da criação.

Cada capítulo e cada versículo da Bíblia é uma comunicação da parte de Deus aos homens. Devemos ligar seus preceitos como sinais sobre nossas mãos, e como testeiras entre nossos olhos. Sendo estudada e obedecida, haveria de guiar o povo de Deus, como guiados foram os israelitas, pela coluna de nuvem durante o dia, e pela coluna de fogo à noite. 47

Aliança com os Gibeonitas

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De Siquém os israelitas voltaram ao seu acampamento em Gilgal. Aqui foram logo depois visitados por estranha delegação, que desejava entrar em um pacto com eles. Os embaixadores representavam ter vindo de um país distante, e isto parecia confirmar-se pela sua aparência. Suas vestes estavam velhas e gastas, remendadas as suas sandálias, bolorentas as suas provisões, e os couros que lhes serviam de odres de vinho, achavam-se rotos e atados, como que apressadamente reparados em viagem. Em seu longínquo país, que diziam estar além das fronteiras da Palestina, declararam eles, seus patrícios ouviram falar nos prodígios que Deus operara pelo Seu povo, e os enviaram para fazer uma aliança com Israel. Os hebreus haviam sido especialmente advertidos contra o fazerem qualquer acordo com os idólatras de Canaã, e surgiu no espírito dos dirigentes dúvida quanto à veracidade das palavras dos estrangeiros. "Porventura habitais no meio de nós", disseram. A isto os embaixadores apenas replicaram: "Nós somos teus servos." Mas quando Josué lhes perguntou diretamente: "Quem sois vós, e donde vindes?" reiteraram sua declaração anterior, e acrescentaram como prova de sua sinceridade: "Este nosso pão tomamos quente das nossas casas para nossa provisão, no dia em que saímos para vir a vós, e ei-lo aqui agora já seco e bolorento; e estes odres, que enchemos de vinho, eram novos, e ei-los aqui já rotos; e estes nossos vestidos e nossos sapatos já se têm envelhecido, por causa do mui longo caminho."

Tais afirmações prevaleceram. Os hebreus "não pediram conselho à boca do Senhor. E Josué fez paz com eles, e fez um concerto com eles que lhes daria vida; e os príncipes da congregação lhes prestaram juramento". Assim se estabeleceu o tratado. Três dias depois descobriu-se a verdade. "Ouviram que eram seus

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vizinhos, e que moravam no meio deles." Sabendo que era impossível resistir aos hebreus, os gibeonitas recorreram a esse artifício para conservar a vida.

Grande foi a indignação dos israelitas ao saberem do engano que lhes havia sido impingido. Esta indignação aumentou quando, após três dias de viagem, chegaram às cidades dos gibeonitas, próximas do centro do país. "Toda a congregação murmurava contra os príncipes"; mas estes recusaram-se a romper o tratado, embora conseguido pela fraude, porque lhes haviam jurado "pelo Senhor Deus de Israel". "E os filhos de Israel os não feriram." Os gibeonitas haviam-se comprometido a renunciar à idolatria, e aceitar o culto a Jeová; e a conservação de sua vida não era uma violação da ordem de Deus para destruir os idólatras cananeus. Portanto os hebreus não se comprometeram pelo seu juramento a perpetrar pecado. E, se bem que o juramento fosse conseguido pelo engano, não deveria ser desrespeitado. O dever a que fica empenhada a palavra de qualquer pessoa, deve ser considerado sagrado, caso não a obrigue à prática de um ato mau. Nenhuma consideração de lucro, desforra, ou de interesse próprio, pode de qualquer maneira afetar a inviolabilidade de um juramento ou compromisso. "Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor." Prov. 12:22. Aquele que "subirá ao monte do Senhor", e "estará no Seu lugar santo", é "aquele que, mesmo que jure com dano seu, não muda." Sal. 24:3; 15:4.

Permitiu-se aos gibeonitas que vivessem, mas ficaram como escravos ligados ao santuário, a fim de fazerem todo o trabalho servil. "E, naquele dia, Josué os deu como rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação, e para o altar do Senhor." Tais condições eles aceitaram com gratidão, cônscios de que haviam estado em falta, e alegres por adquirirem a vida fosse qual fosse o modo. "Eis que agora estamos na tua mão", disseram a Josué; "faze aquilo que te pareça bom e reto que se nos faça." Durante séculos seus descendentes estiveram ligados ao serviço do santuário. O território dos gibeonitas compreendia quatro cidades. O povo não estava sob o governo de um rei, mas eram governados por anciãos, ou senadores. Gibeom, a mais importante de suas cidades, "era uma cidade grande como uma das cidades reais", "e todos os seus homens valentes". Uma prova notável do terror que os israelitas haviam inspirado aos habitantes de Canaã consistia em que o povo de tal cidade tivesse recorrido a um expediente tão humilhante para salvar a vida. Pág. 507

Mas teria sido melhor aos gibeonitas se houvessem tratado honestamente com Israel. Conquanto sua submissão a Jeová lhes tivesse conseguido a conservação da vidas, a fraude acarretou-lhes somente desgraça e servidão. Deus havia tomado disposições para que todos os que renunciassem ao paganismo, e se unissem a Israel, partilhassem das bênçãos do concerto. Estavam incluídos na designação "o estrangeiro que peregrina entre vós", e com poucas exceções essa classe deveria desfrutar de favores e privilégios iguais aos de Israel. A instrução do Senhor foi: "E quando o estrangeiro peregrinar contigo na vossa terra, não o oprimireis. Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo." Lev. 19:33 e 34. Com relação à Páscoa e à oferta de sacrifícios, foi ordenado: "Um mesmo estatuto haja para vós, ó congregação, e para o estrangeiro que entre vós peregrina; como vós, assim será o peregrino perante o Senhor." Núm. 15:15.

Tal era a posição em que os gibeonitas poderiam ter sido recebidos, não fora o engano a que tinham recorrido. Não era pequena humilhação para aqueles cidadãos de uma "cidade real", sendo "todos os seus homens valentes", fazerem-se rachadores de lenha e carregadores de água por todas as suas gerações. Haviam eles, porém, adotado a aparência de pobreza com o fim de enganar, e esta se lhes fixou como distintivo de servidão perpétua. Assim, em todas as suas gerações, sua condição servil testificaria do ódio de Deus à falsidade.

A submissão de Gibeom aos israelitas encheu de pavor os reis de Canaã. Deram-se imediatamente passos para tirar-se uma desforra daqueles que fizeram paz com os invasores. Sob a chefia de Adonizedeque, rei de Jerusalém, cinco dos reis cananeus entraram em confederação contra Gibeom. Seus movimentos foram rápidos. Os gibeonitas não estavam preparados para a defesa, e enviaram uma mensagem a Josué, em Gilgal: "Não retires as tuas mãos dos teus servos; sobe apressadamente a nós, e livra-nos, e ajuda-nos, porquanto todos os reis dos amorreus, que habitam na montanha, se ajuntaram contra nós." Jos. 10:6. O perigo ameaçava não somente o povo de Gibeom, mas também Israel. Aquela cidade dominava as passagens para a Palestina central e do sul, e cumpria ser conservada, se se queria conquistar o território.

Josué preparou-se para ir logo em socorro de Gibeom. Os habitantes da cidade sitiada haviam receado que ele repelisse o seu

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apelo, por causa da fraude que haviam praticado; mas visto que se tinham submetido ao governo de Israel, e aceitaram o culto a Deus, ele se achou na obrigação de os proteger. Não agiu nesta ocasião sem o conselho divino, e o Senhor o animou àquele empreendimento. "Não os temas", foi a mensagem divina, "porque os tenho dado na tua mão; nenhum deles parará diante de ti." "Então subiu Josué de Gilgal, ele e toda a gente de guerra com ele, e todos os valentes e valorosos." Marchando toda a noite, trouxe suas forças diante de Gibeom pela manhã. Mal haviam os príncipes confederados reunido seus exércitos em redor da cidade, quando Josué se achou sobre eles. O ataque resultou na completa derrota dos assaltantes. A imensa hoste fugiu de diante de Josué pela garganta da montanha, acima, para Bete-Horom; e, havendo galgado a altura, lançaram-se do outro lado pela descida em precipício. Ali uma tremenda saraiva irrompeu sobre eles. "O Senhor lançou sobre eles, do céu, grandes pedras. ... E foram muitos mais os que morreram das pedras da saraiva do que os que os filhos de Israel mataram à espada."

Enquanto os amorreus continuavam na fuga precipitada, no intuito de encontrar refúgio nas fortalezas das montanhas, Josué, olhando do alto, viu que o dia seria curto demais para a realização de sua obra. Se não fossem inteiramente derrotados os seus inimigos, de novo se arregimentariam, e renovariam a luta. "Então Josué falou ao Senhor, ... e disse aos olhos dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeom, e tu, Lua, no vale de Aijalom. E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. ... O Sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro." Antes do cair da noite, a promessa de Deus a Josué fora cumprida. Toda a hoste do inimigo havia sido entregue em sua mão. Por longo tempo deviam os eventos daquele dia ficar na memória de Israel. "Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, ouvindo o Senhor assim a voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel." "O Sol e a Lua pararam nas suas moradas; andaram à luz das Tuas frechas, ao resplendor do relâmpago da Tua lança. Com indignação marchaste pela terra, com ira trilhaste as nações. Tu saíste para salvamento do Teu povo." Hab. 3:11-13. Pág. 509

O Espírito de Deus inspirou a oração de Josué, para que de novo se pudesse dar prova do poder do Deus de Israel. Portanto o pedido não ostentou arrogância, por parte do grande líder. Josué recebera a promessa de que Deus certamente subverteria aqueles inimigos de Israel; contudo, aplicou tão decididos esforços como se o êxito dependesse unicamente dos exércitos de Israel. Fez tudo que a energia humana podia fazer, e então pela fé clamou rogando auxílio divino. O segredo do êxito está na união do poder divino com o esforço humano. Aqueles que levam a efeito os maiores resultados são os que mais implicitamente confiam no Braço todo-poderoso. O homem que ordenou: "Sol, detém-te em Gibeom, e Tu, Lua, no vale de Aijalom", é o homem que durante horas jazeu prostrado em terra, em oração, no acampamento em Gilgal. Os homens de oração são os homens de poder. Este grande prodígio testifica que a criação está sob o governo do Criador. Satanás procura esconder dos homens a ação divina no mundo físico - a fim de conservar fora das vistas a incansável operação da primeira grande causa. Neste prodígio, são repreendidos todos os que exaltam a Natureza acima do Deus da Natureza.

Pela Sua própria vontade Deus convoca as forças da Natureza para transtornar o poder de Seus inimigos: "Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a Sua palavra." Sal. 148:8. Quando os gentios amorreus se dispuseram a resistir aos Seus propósitos, Deus interveio, lançando "do céu grandes pedras" sobre os inimigos de Israel. Estamos informados de uma maior batalha a ocorrer nas cenas finais da história da Terra, quando "o Senhor abriu o Seu tesouro, e tirou os instrumentos de Sua indignação". Jer. 50:25. "Entraste tu", pergunta Ele, "até aos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva, que Eu retenho até ao tempo da angústia, até ao dia da peleja e da guerra?" Jó 38:22 e 23. O Revelador descreve a destruição que terá lugar quando a "grande voz do templo do Céu" anunciar: "Está feito." Diz ele: "Sobre os homens caiu do céu uma grande saraiva, pedras do peso de um talento." Apoc. 16:17 e 21.

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A Divisão de Canaã

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A vitória em Bete-Horom foi rapidamente seguida pela conquista do sul de Canaã. "Feriu Josué toda aquela Terra, as montanhas, o sul, e as campinas. ... E de uma vez tomou Josué todos estes reis, e as suas terras; porquanto o Senhor Deus de Israel pelejava por Israel. Então Josué, e todo o Israel com ele, se tornou ao arraial em Gilgal." Jos. 10:40-43.

As tribos do norte da Palestina, aterrorizadas com o êxito que acompanhara os exércitos de Israel, entraram agora em aliança contra eles. À frente desta confederação estava Jabim, rei de Hazor, território que ficava ao oeste do lago Merom. "Saíram pois estes, e todos os seus exércitos com eles." Este exército era muito maior do que qualquer que os israelitas haviam encontrado antes em Canaã - "muito povo, como a areia que está na praia do mar em multidão, e muitíssimos cavalos e carros. Todos estes reis se juntaram e vieram e se acamparam junto às águas de Merom, para pelejarem contra Israel." Novamente foi dada a Josué uma mensagem de animação: "Não temas diante deles; porque amanhã a esta mesma hora Eu os darei todos feridos diante dos filhos de Israel." Perto do lago Merom caiu ele sobre o acampamento dos aliados, derrotando totalmente suas forças. "E o Senhor os deu na mão de Israel, e os feriram, e os seguiram, ... até não lhes deixarem nenhum." Dos carros e cavalos que haviam sido o orgulho e vanglória dos cananeus, Israel não se deveria apropriar. Ao mando de Deus os carros foram queimados, e aleijados os cavalos, e assim tornados impróprios para batalha. Os israelitas não deviam pôr a confiança em carros e cavalos, mas "no nome do Senhor seu Deus".

Continuar: parte 4 de 4