Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 6 de 9 · parte 4/4

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Patriarcas e Profetas

Bíblia claramente posto diante deles, ou é…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Uma por uma foram tomadas as cidades, e Hazor, a fortaleza da confederação, foi queimada. A guerra continuou por vários

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anos, mas ao terminar achava-se Josué. senhor de Canaã. "E a terra repousou da guerra." Embora o poderio dos cananeus houvesse sido quebrado, não tinham eles sido totalmente desapossados. Ao oeste, os filisteus ainda conservavam uma planície fértil ao longo da costa marítima, enquanto ao norte deles estava o território dos sidônios. O Líbano também estava de posse deste último povo; e, ao sul, na direção do Egito, a terra estava ocupada pelos inimigos de Israel. Josué não devia entretanto continuar a guerra. Havia outro trabalho para o grande líder realizar, antes que deixasse o comando de Israel. A terra inteira, tanto as partes já conquistadas, como as que ainda não se achavam subjugadas, devia ser repartida entre as tribos. E era o dever de cada tribo conquistar completamente sua própria herança. Se o povo se mostrasse fiel a Deus, Ele repeliria seus inimigos de diante deles; e prometeu-lhes ainda maiores possessões se tão-somente fossem fiéis ao Seu concerto. A Josué, juntamente com Eleazar, o sumo sacerdote, e aos chefes das tribos, foi confiada a distribuição da terra, sendo a localização de cada tribo determinada por sorte. O próprio Moisés fixara os limites do país, conforme devia ser dividido entre as tribos, ao entrarem elas em posse de Canaã; e designara um príncipe de cada tribo para auxiliar na distribuição. A tribo de Levi, sendo dedicada ao serviço do santuário, não deveria ser contada neste aquinhoamento; porém, quarenta e oito cidades nas diferentes partes do país foram designadas aos levitas como sua herança. Antes que entrasse em vigor a distribuição das terras, Calebe, acompanhado pelos chefes de sua tribo, veio à frente com um pedido especial. Com exceção de Josué, Calebe era agora o homem mais velho em Israel. Calebe e Josué eram os únicos entre os espias que haviam trazido uma boa notícia da terra da promessa, animando o povo a subir e possuí-la em nome do Senhor. Calebe lembrou então a Josué a promessa feita naquela ocasião, como recompensa de sua fidelidade: "A terra que pisou o teu pé será tua, e de teus filhos, em herança perpetuamente; pois perseveraste em seguir o Senhor." Jos. 14:6-15. Apresentou portanto o pedido de que o Hebrom lhe fosse dado em possessão. Ali haviam habitado durante muitos anos Abraão, Isaque e Jacó; e, ali, na caverna de Macpela, foram sepultados. Hebrom era a sede dos temidos enaquins, cuja aparência formidável tanto Pág. 512

havia aterrorizado os espias, e por meio destes destruíra a coragem de todo o Israel. Este lugar, de preferência a todos os outros, foi o que Calebe, confiando na força de Deus, escolheu para sua herança.

"Eis que o Senhor me conservou em vida", disse ele; "quarenta e cinco anos há agora, desde que o Senhor falou esta palavra a Moisés. ... E agora eis que já hoje sou de idade de oitenta e cinco anos. E ainda estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual a minha força então era, tal é agora a minha força, para a guerra, e para sair e para entrar. Agora pois dá-me este monte de que o Senhor falou aquele dia; pois naquele dia tu ouviste que os enaquins estão ali, grandes e fortes cidades há ali. Porventura o Senhor será comigo para os expelir, como o Senhor disse." Este pedido foi apoiado pelos principais homens de Judá. O próprio Calebe, sendo um dos indicados daquela tribo para repartir a terra, escolhera esses homens para que a ele se unissem ao apresentar seu pedido, para que não houvesse a aparência de ter ele empregado sua autoridade para proveito próprio. Seu pedido foi imediatamente satisfeito. A ninguém poderia a conquista daquela gigantesca fortaleza ser com mais segurança confiada. "Josué o abençoou, e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança", "porquanto perserverara em seguir ao Senhor Deus de Israel." A fé de Calebe era agora precisamente o que fora quando seu testemunho havia contradito o mau relato dos espias. Acreditara na promessa de Deus de que Ele poria Seu povo na posse de Canaã, e nisto seguira inteiramente ao Senhor. Suportara juntamente com Seu povo a longa peregrinação no deserto, participando assim dos desapontamentos e trabalhos dos culpados; não apresentou contudo queixa contra isto, mas exaltou a misericórdia de Deus que o preservara em vida no deserto, quando foram eliminados seus irmãos. Entre todas as dificuldades, perigos e pragas, nas vagueações pelo deserto, e durante os anos de guerra desde que entraram em Canaã, preservara-o o Senhor; e agora, passados os oitenta anos, não se encontrava abatido o seu vigor. Ele não pedia para si uma terra já conquistada, mas o lugar que mais do que todos, os outros espias haviam julgado impossível subjugar. Com a ajuda de Deus ele arrancaria essa fortaleza daqueles mesmos gigantes, cujo poder fizera abalar a fé de Israel. Não foi o desejo de honras ou engrandecimento próprio que determinou o pedido de Calebe. O bravo e velho guerreiro Pág. 513

estava desejoso de dar ao povo um exemplo que honraria a Deus, e incentivaria as tribos a subjugar completamente a terra que seus pais haviam imaginado invencível. Calebe obteve a herança na qual tinha o coração durante quarenta anos; e, confiando em que Deus estava consigo, "expeliu Calebe dali os três filhos de Enaque". Jos. 15:14. Havendo assim conseguido posse para si e sua casa, o zelo não se lhe abateu; não se estabeleceu a fim de desfrutar a herança, mas levou avante novas conquistas para o benefício da nação e para a glória de Deus. Os covardes e rebeldes haviam perecido no deserto; mas os espias justos comeram das uvas de Escol. A cada um deles foi dado segundo sua fé. Os incrédulos viram cumprir-se seus temores. Apesar da promessa de Deus, declararam que era impossível herdar Canaã, e não a possuíram. Mas aqueles que confiaram em Deus, não olhando tanto para as dificuldade a se encontrarem, como para a força de seu Auxiliador todo-poderoso, entraram na boa terra. Foi pela fé que os antigos heróis "venceram reinos, ... escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fugida os exércitos dos estranhos". Heb. 11:33 e 34. "Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé." I João 5:4.

Outro pedido com relação à divisão da terra, revelou um espírito grandemente diverso do de Calebe. Foi apresentado pelos filhos de José, da tribo de Efraim juntamente com a meia tribo de Manassés. Em consideração ao seu número superior, essas tribos pediram uma porção dupla de território. O quinhão a eles designado era o mais rico da terra, incluindo a fértil planície de Sarom; porém muitas das cidades principais do vale estavam ainda de posse dos cananeus, e as tribos temiam executar a perigosa tarefa de conquistar suas possessões, e desejavam uma porção adicional de território já conquistado. A tribo de Efraim era uma das maiores em Israel, bem como aquela a que o próprio Josué pertencia; e seus membros naturalmente se julgavam com direito a consideração especial. "Por que me deste por herança só uma sorte e um quinhão", disseram eles, "sendo eu um tão grande povo?" Jos. 17:14-18. Mas nenhum desvio da estrita justiça poder-se-ia obter do inflexível líder. Sua resposta foi: "Se tão grande povo és, sobe ao bosque e corta para ti ali lugar na terra dos ferezeus e dos refains, pois que as montanhas de Efraim te são tão estreitas." Jos. 17:15. Pág. 514

Sua réplica mostrou a causa real da queixa. Faltavam-lhe fé e coragem para expulsar os cananeus. "As montanhas nos não bastariam", disseram; "também carros ferrados há entre todos os cananeus que habitam na terra do vale." Jos. 17:16.

O poder do Deus de Israel tinha sido empenhado em favor de Seu povo; e, caso possuíssem os efraimitas a coragem e a fé de Calebe, nenhum inimigo lhes teria feito frente. Seu desejo evidente de excluir dificuldades e perigos, foi com firmeza defrontado por Josué. "Grande povo és e grande força tens", disse ele; "expelirás os cananeus, ainda que tenham carros ferrados, ainda que sejam fortes." Jos. 17:17 e 18. Assim, seus próprios argumentos voltaram-se contra eles. Sendo um povo grande, como alegavam, eram perfeitamente capazes de seguir seu próprio caminho, como fizeram seus irmãos. Com o auxílio de Deus, não necessitavam temer os carros de ferro. Até ali Gilgal fora o quartel-general da nação e a sede do tabernáculo. Agora, porém, o tabernáculo devia ser removido ao lugar escolhido para a sua localização permanente. Este foi Silo, cidadezinha na porção de Efraim. Achava-se perto do centro do país, e era de fácil acesso a todas as tribos. Ali, parte do território havia sido completamente subjugada, de maneira que os adoradores não seriam incomodados. "E toda a congregação dos filhos de Israel se ajuntou em Siló, e ali armaram a tenda da congregação." Jos. 18:1. As tribos que ainda estavam acampadas quando o tabernáculo foi removido de Gilgal, seguiram-no, e armaram suas tendas próximo de Silo. Ali permaneceram essas tribos até que se dispersaram às suas possessões.

A arca ficou em Silo, durante trezentos anos, até que, por causa dos pecados da casa de Eli, caiu nas mãos dos filisteus, e Silo foi arruinada. A arca nunca mais voltou ao tabernáculo ali; o cerimonial do santuário transferiu-se finalmente para o templo em Jerusalém, e Silo tornou-se decadente. Apenas ruínas existem para assinalar o local em que se erguera. Muito tempo mais tarde fez-se uso de sua sorte como advertência a Jerusalém. "Ide agora ao Meu lugar, que estava em Silo", declarou o Senhor pelo profeta Jeremias, "onde, a princípio, fiz habitar o Meu nome, e vede o que lhe fiz, por causa da maldade de Meu povo Israel. ... Farei também a esta casa que se chama pelo Meu nome, na qual Pág. 515

confiais, e a este lugar que vos dei a vós e a vossos pais, como fiz a Silo." Jer. 7:12 e 14. "Acabando pois de repartir a terra", e tendo todas as tribos sido aquinhoadas com sua herança, Josué apresentou seu pedido. A ele, bem como a Calebe, fora feita uma promessa especial de herança; contudo não pediu uma província extensa, mas tão-somente uma simples cidade. "Deram-lhe a cidade que pediu, ... e reedificou aquela cidade, e habitou nela." Jos. 19:49 e 50. O nome dado à cidade foi: Timnate-Sera, "a porção que resta", e isto em testemunho permanente do caráter nobre e espírito abnegado do vencedor, que, em vez de ser o primeiro a apropriar-se dos despojos da conquista, adiou seu pedido até que os mais humildes de seu povo houvessem sido servidos. Seis das cidades designadas aos levitas, sendo três de cada lado do Jordão, foram indicadas como cidades de refúgio, às quais os que matavam um homem poderiam fugir em busca de segurança. A designação dessas cidades fora ordenada por Moisés, "para que ali se acolha o homicida que ferir alguma alma por erro. E estas cidades vos serão por refúgio", disse ele, "para que o homicida não morra, até que esteja perante a congregação no juízo". Núm. 35:11 e 12. Esta misericordiosa disposição tornou-se necessária por causa do antigo costume da vingança particular, pelo qual incumbia ao parente mais próximo, ou ao herdeiro imediato do morto, o castigo do assassínio. Nos casos em que claramente se provava a culpa, não era necessário esperar processo dos magistrados. O vingador podia perseguir o criminoso a qualquer parte, e matá-lo onde quer que fosse encontrado. O Senhor não achou conveniente abolir este costume naquela ocasião; mas tomou providências para garantir a segurança dos que, acidentalmente, tirassem a vida.

As cidades de refúgio achavam-se distribuídas de tal maneira que ficavam dentro do raio de meio dia de viagem, a partir de qualquer lugar da terra. As estradas que a elas se dirigiam deviam sempre ser conservadas em bom estado; ao longo de todo o caminho deviam ser erguidos postes com placas, trazendo em caracteres claros e flagrantes a palavra - "Refúgio", a fim de que o fugitivo não tivesse de deter-se por um momento sequer. Qualquer pessoa - hebreu, estrangeiro ou peregrino - poderia aproveitar-se desta disposição. Mas, ao mesmo tempo em que o inocente não devia ser precipitadamente morto, tampouco deveria o culpado escapar do castigo. O caso do fugitivo cumpria ser Pág. 516

devidamente julgado pelas autoridades competentes; e, unicamente quando se verificasse não ter o fugitivo culpa de assassínio voluntário, devia ele ser protegido na cidade de refúgio. O que era culpado era entregue ao vingador. E aqueles que tinham direito à proteção, apenas a poderiam receber sob condição de ficar dentro do refúgio indicado. Se alguém andasse fora dos limites prescritos, e fosse encontrado pelo vingador do sangue, sua vida pagaria a pena de seu desrespeito à disposição do Senhor. Por ocasião da morte do sumo sacerdote, entretanto, todos os que haviam buscado abrigo nas cidades de refúgio ficavam em liberdade para voltar às suas possessões. No processo de assassínio o acusado não devia ser condenado pelo depoimento de uma testemunha, mesmo que as evidências circunstanciais fossem fortes contra ele. A instrução do Senhor era: "Todo aquele que ferir a alguma pessoa, conforme ao dito das testemunhas, matarão o homicida; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra." Núm. 35:30. Foi Cristo que deu a Moisés aquelas determinações para Israel; e, quando Ele esteve em pessoa com Seus discípulos na Terra, ao ensinar-lhes como tratar os que erram, repetiu o grande Ensinador a lição de que o testemunho de um só homem não deve livrar ou condenar. As idéias e opiniões de um homem não devem resolver questões controvertidas. Em todos estes assuntos, dois ou mais devem estar associados, e juntos encarar a responsabilidade, "para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada". Mat. 18:16.

Se aquele que era julgado por motivo de assassínio se verificava culpado, nenhuma expiação ou resgate o poderia livrar. "Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado." Gên. 9:6. "Não tomareis expiação pela vida do homicida, que culpado está de morte; antes certamente morrerá", "tirá-lo-ás do Meu altar para que morra" Núm. 35:31 e 33), foi a ordem de Deus; "nenhuma expiação se fará pela terra por causa do sangue que se derramar nela, senão com o sangue daquele que o derramou". Êxo. 21:14. A segurança e pureza da nação exigiam que o pecado de homicídio fosse severamente punido. A vida humana, que apenas Deus podia dar, devia, de maneira sagrada, ser guardada.

As cidades de refúgio designadas ao antigo povo de Deus, eram símbolo do refúgio provido em Cristo. O mesmo Salvador misericordioso que designara aquelas cidades temporais de refúgio, Pág. 517

proveu pelo derramamento de Seu próprio sangue aos transgressores da lei de Deus um retiro seguro, aonde podem eles fugir em busca de garantia contra a segunda morte. Nenhuma força pode tirar de Suas mãos as almas que a Ele recorrem em busca de perdão. "Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus." "Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós" (Rom. 8:1 e 34); para que "tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta." Heb. 6:18.

Aquele que fugia para a cidade de refúgio não se podia demorar. Família e emprego atrás ficavam. Não havia tempo para dizer adeus aos queridos. Sua vida estava em jogo, e todos os outros interesses deviam ser sacrificados a um único propósito - chegar ao lugar de segurança. O cansaço era esquecido, desatendidas as dificuldades. O fugitivo não ousava por um momento moderar seu passo antes que estivesse dentro dos muros da cidade.

O pecador está exposto à morte eterna, até que encontre esconderijo em Cristo; e, como a perda de tempo e o descuido poderiam despojar o fugitivo de sua única oportunidade de vida, assim a demora e a indiferença podem mostrar-se ruína para a alma. Satanás, o grande adversário, está no encalço de todo o transgressor da santa lei de Deus, e aquele que não for sensível ao seu perigo e não buscar ansiosamente abrigo no refúgio eterno, será uma presa do destruidor. O prisioneiro que em qualquer ocasião saía da cidade de refúgio, era abandonado ao vingador do sangue. Assim o povo foi ensinado a aderir aos métodos que a sabedoria infinita indicava para a sua segurança. Da mesma forma, não basta que o pecador creia em Cristo, para obter o perdão do pecado; deve, pela fé e obediência, permanecer nEle. "Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários." Heb. 10:26 e 27. Duas das tribos de Israel, Gade e Rúben, com meia tribo de Manassés, haviam recebido sua herança antes de atravessarem o Jordão. Para um povo pastoril, os vastos planaltos e ricas florestas de Gileade e Basã, oferecendo extensas terras de pastagens para seus rebanhos e gado, tinham atrações que se não encontravam na própria Canaã; e as duas e meia tribos, desejando Pág. 518

fixar-se ali, comprometeram-se a fornecer sua proporção de homens armados para acompanharem seus irmãos através do Jordão, e participar de suas batalhas até que entrassem também para a sua herança. Desobrigaram-se fielmente deste dever. Quando as dez tribos entraram em Canaã, quarenta mil dos "filhos de Rúben, e os filhos de Gade, e a meia tribo de Manassés, ... armados passaram diante do Senhor para batalha, às campinas de Jericó". Jos. 4:12 e 13. Durante anos haviam combatido com bravura ao lado de seus irmãos. Chegado era agora o tempo para virem à terra de sua posse. Visto como se uniram com seus irmãos nos conflitos, partilharam dos despojos; e voltaram "com grandes riquezas, e com muitíssimo gado, com prata, e com ouro, e com metal, e com ferro, e com muitíssimos vestidos", coisas que deviam repartir com os que tinham ficado com as famílias e rebanhos. Deviam agora morar distante do santuário do Senhor, e foi com o coração apreensivo que Josué assistiu à sua partida, sabendo quão fortes seriam as tentações, em sua vida isolada e errante, para caírem nos costumes das tribos gentílicas que habitavam nas suas fronteiras. Enquanto a mente de Josué e as de outros chefes ainda estavam oprimidas pelos maus pressentimentos, notícias estranhas lhes chegavam. Além do Jordão, próximo do lugar da passagem miraculosa de Israel pelo rio, as duas e meia tribos haviam construído um grande altar, semelhante ao altar dos holocaustos em Silo. A lei de Deus proibia, sob pena de morte, o estabelecimento de outro culto, afora o que se efetuava no santuário. Se tal era o objetivo daquele altar, desviaria ele o povo da verdadeira fé, caso fosse permitida sua permanência.

Os representantes do povo, reunidos em Silo, e no calor de sua exaltação e indignação, propuseram fazer guerra imediata aos transgressores. Pela influência dos mais cautelosos, foi entretanto, decidido enviar primeiramente uma delegação para obter das duas e meia tribos explicação de sua conduta. Escolheram-se dez príncipes, sendo um de cada tribo. À sua frente achava-se Finéias, que se distinguira por seu zelo nos acontecimentos de Peor.

As duas e meia tribos haviam estado em falta, cometendo um ato que dava lugar a tão graves suspeitas, sem que dessem explicações para tal. Os embaixadores, tomando como coisa certa que seus irmãos estavam em culpa, a eles se dirigiram com ásperas censuras. Acusaram-nos de rebelar-se contra o Senhor, e

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mandaram que se lembrassem como juízos haviam sobrevindo a Israel por se unir a Baal-Peor. Em favor de todo o Israel, Finéias declarou aos filhos de Gade e Rúben que, se eles não desejavam habitar naquela terra sem um altar para sacrifício, seriam bem-vindos na participação das posses e privilégios de seus irmãos do outro lado.

Em resposta, os acusados explicaram que seu altar não se destinava a sacrifícios, mas simplesmente a ser uma testemunha de que, embora separados pelo rio, eram eles da mesma fé que seus irmãos de Canaã. Tinham receado que nos anos futuros pudessem seus filhos ser excluídos do tabernáculo, como que não tendo parte em Israel. Então, esse altar, construído segundo o modelo do altar do Senhor em Silo, seria uma testemunha de que seus construtores eram também adoradores do Deus vivo. Com grande alegria os embaixadores aceitaram essa explicação, e imediatamente trouxeram de volta a notícia àqueles que os haviam enviado. Dissiparam-se todos os pensamentos de guerra, e o povo uniu-se em regozijo e louvor a Deus.

Os filhos de Gade e Rúben puseram agora em seu altar uma inscrição indicando o propósito pelo qual foi o mesmo construído; e disseram: "Para que seja testemunho entre nós que o Senhor é Deus." Assim se esforçaram por evitar equívocos futuros, e remover o que pudesse ser causa de tentação. Quantas vezes sérias dificuldades surgem de uma simples má compreensão, mesmo entre aqueles que são impelidos pelos mais dignos intuitos; e, sem o exercício da cortesia e paciência, que resultados sérios e mesmo fatais podem seguir-se! As dez tribos lembraram como no caso de Acã, Deus repreendera a falta de vigilância para se descobrirem os pecados existentes entre eles. Agora resolveram agir pronta e seriamente; mas, procurando evitar seu primeiro erro, foram para o extremo oposto. Em vez de fazerem uma indagação cortês a fim de conhecerem os fatos reais, defrontaram seus irmãos com censura e condenação. Houvessem os homens de Gade e Rúben retorquido no mesmo espírito, a guerra teria sido o resultado. Ao mesmo tempo que é importante que de um lado seja evitada a frouxidão ao tratar com o pecado, é igualmente de importância que do outro se evite um juízo ríspido e infundada suspeita.

Conquanto muitos sejam bastante sensíveis à menor censura com relação à sua conduta, são demasiadamente severos ao tratar com aqueles que supõem estar em erro. Ninguém foi jamais Pág. 520

recuperado de uma situação errônea, pela censura e acusação; mas muitos são assim mais repelidos do caminho direito, e levados a endurecer o coração contra a convicção. Um espírito de bondade, uma conduta cortês, paciente, podem salvar os que erram, e cobrir uma multidão de pecados. A sabedoria mostrada pelos rubenitas e seus companheiros é digna de imitação. Ao mesmo tempo em que procuravam honestamente promover a causa da verdadeira religião, eram julgados falsamente e censurados com severidade; não manifestaram, todavia, ressentimento. Escutaram com cortesia e paciência as acusações de seus irmãos, antes de tentarem fazer sua defesa, e, então, explicaram amplamente seus intuitos e mostraram sua inocência. Assim a dificuldade que ameaçara conseqüências tão sérias, foi resolvida amigavelmente. Mesmo sob uma acusação falsa, aqueles que estão com a razão podem estar calmos e ponderados. Deus está a par de tudo que é malcompreendido e mal-interpretado pelos homens, e podemos com segurança deixar nosso caso em Suas mãos. Tão certamente reivindicará Ele a causa dos que nEle põem sua confiança, como investigou o crime de Acã. Aqueles que são compelidos pelo Espírito de Cristo, possuirão a caridade que é longânima e benévola. É vontade de Deus que a união e o amor fraternal existam entre Seu povo. A oração de Cristo, precisamente antes de Sua crucifixão, foi para que Seus discípulos fossem um como Ele é um com o Pai, a fim de que o mundo pudesse crer que Deus O enviara. Essa oração mui tocante e maravilhosa atravessa os séculos, até mesmo aos nossos dias; pois Suas palavras foram: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em Mim." João 17:20. Conquanto não devamos sacrificar um único princípio da verdade, deve ser nosso constante objetivo atingir este estado de unidade. Esta é a prova de nosso discipulado. Disse Jesus: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." João 13:35. O apóstolo Pedro exorta a igreja: "Sede todos de um mesmo sentimento, compassivos, amando os irmãos, entranhavelmente misericordiosos e afáveis, não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção." I Ped. 3:8 e 9. 49

As Últimas Palavras de Josué

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As guerras de conquista terminaram, e Josué se retirara ao pacífico remanso de seu lar, em Timnate-Sera. "E sucedeu que, muitos dias depois que o Senhor dera repouso a Israel de todos os seus inimigos em redor, ... chamou Josué a todo o Israel, aos seus anciãos, e aos seus cabeças, e as seus juízes, e aos seus oficiais."

Alguns anos haviam-se passado desde que o povo se estabelecera em suas posses, e já se podiam ver aparecendo os mesmos males que até então acarretaram juízos sobre Israel. Sentindo Josué as debilidades da idade a assaltarem-no, e compreendendo que sua obra logo deveria encerrar-se, encheu-se de ansiedade pelo futuro de seu povo. Foi com um interesse maior do que o de um pai que ele lhes falou, reunindo-se eles mais uma vez em redor de seu idoso chefe. "Vós já tendes visto", disse ele, "tudo quanto o Senhor vosso Deus fez a todas estas nações por causa de vós, porque o Senhor vosso Deus é o que pelejou por vós." Posto que os cananeus tivessem sido subjugados, ainda possuíam uma porção considerável da terra prometida a Israel; e Josué exortou o seu povo a não ficar em sossego, e esquecer-se da ordem do Senhor de desapossar inteiramente aquelas nações idólatras. O povo em geral era vagaroso no completar a obra de expulsar os gentios. As tribos haviam-se dispersado às suas posses, o exército se debandara, e considerava-se uma empresa difícil e duvidosa renovar a guerra. Mas Josué declarou: "O Senhor vosso Deus as impelirá de diante de vós, e as expelirá de diante de vós; e vós possuireis a sua terra, como o Senhor vosso Deus vos tem dito. Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e para fazerdes tudo quanto está escrito no livro da lei de Moisés, para que dele não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda." Pág. 522

Josué apelou para o próprio povo como testemunha de que, tanto quanto satisfizeram as condições, Deus havia fielmente cumprido Sua promessa para com eles. "Vós bem sabeis, com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma", disse ele, "que nem uma só palavra caiu de todas as boas palavras que falou de vós o Senhor vosso Deus; todas vos sobrevieram, nem delas caiu uma só palavra." Declarou-lhes que, como o Senhor cumprira Suas promessas, assim deveria cumprir Suas ameaças. "E será que, assim como sobre vós vieram todas estas boas coisas, que o Senhor vosso Deus vos disse, assim trará o Senhor sobre vós todas aquelas más coisas. ... Quando traspassardes o concerto do Senhor vosso Deus, ... então a ira do Senhor sobre vós se acenderá, e logo perecereis de sobre a boa terra que vos deu."

Satanás engana a muitos com a plausível teoria de que o amor de Deus para com o Seu povo é tão grande que Ele desculpará o pecado neles; ele faz figurar que, conquanto as ameaças da Palavra de Deus devam servir para certo propósito em Seu governo moral, nunca se devem elas cumprir literalmente. Mas, em todo o Seu trato com Suas criaturas, Deus tem mantido os princípios da justiça, revelando o pecado em seu verdadeiro caráter - demonstrando que seu resultado certo é miséria e morte. Nunca houve nem nunca haverá perdão incondicional do pecado. Tal perdão mostraria o abandono dos princípios de justiça que constituem o próprio fundamento do governo de Deus. Isto encheria de consternação o universo dos seres não caídos. Deus indicou fielmente os resultados do pecado; e, se essas advertências não fossem verdadeiras, como poderíamos nós estar certos de que Suas promessas se cumpririam? A pretensa benevolência que quer pôr de parte a justiça, não é benevolência, mas fraqueza.

Deus é o doador da vida. Desde o princípio, todas as Suas leis foram ordenadas para toda a vida. Mas o pecado se intrometeu na ordem que Deus estabelecera, e seguiu-se a discórdia. Enquanto existir o pecado, sofrimento e morte serão inevitáveis. É unicamente porque o Redentor assimilou a maldição do pecado em nosso favor que o homem pode esperar livrar-se, em sua própria pessoa, dos horrendos resultados do pecado.

Antes da morte de Josué, os chefes e representantes das tribos, obedientes à sua convocação, congregaram-se de novo em Siquém. Nenhum lugar em todo o país possuía tantas recordações sagradas, transportando a mente para o concerto de Deus com Abraão e Jacó, e relembrando também seus próprios votos

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solenes por ocasião da entrada em Canaã. Ali estavam as montanhas de Ebal e Gerizim, testemunhas silenciosas daqueles votos que agora, na presença de seu chefe prestes a morrer, se reuniram para renovar. De cada lado havia evidências do que Deus operara por eles; como lhes dera uma terra para a qual não trabalharam, e cidades que não haviam construído, e vinhedos e olivais que não plantaram. Josué recordou mais uma vez a história de Israel, contando novamente as obras maravilhosas de Deus, para que todos pudessem ter uma intuição de Seu amor e misericórdia, e O servissem "com sinceridade e com verdade".

Por determinação de Josué, a arca fora trazida de Silo. A ocasião foi de grande solenidade, e este símbolo da presença de Deus aprofundaria a impressão que ele desejava produzir no povo. Depois de apresentar a bondade de Deus para com Israel, ele os convidou em nome de Jeová, a escolherem a quem serviriam. O culto aos ídolos era ainda até certo ponto praticado secretamente, e agora Josué se esforçou por levá-los à decisão de que baniriam de Israel este pecado. "Se vos parece mal aos vossos olhos servir ao Senhor", disse ele, "escolhei hoje a quem sirvais." Jos. 24:15. Josué desejava levá-los a servir a Deus, não constrangidamente, mas de livre vontade. O amor a Deus é a base mesma da religião. Empenhar-nos em Seu serviço meramente pela esperança de recompensa ou medo do castigo, de nada serviria. A apostasia declarada não seria mais ofensiva a Deus do que a hipocrisia e o mero culto por formalidade.

O idoso líder instou com o povo para considerar, em todos os seus aspectos, o que havia sido posto perante eles, e decidir se realmente desejavam viver como viviam as degradadas nações idólatras em redor deles. Se lhes parecia mal servir a Jeová, fonte de poder e de bênçãos, que escolhessem naquele dia a quem serviriam - se aos "deuses a quem serviram vossos pais", e do meio dos quais Abraão foi chamado a sair, "ou os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais". Estas últimas palavras foram uma censura veemente a Israel. Os deuses dos amorreus não tinham sido capazes de proteger seus adoradores. Por causa de seus pecados abomináveis e aviltantes, aquela ímpia nação fora destruída, e a boa terra que possuíam fora dada ao povo de Deus. Que loucura para Israel preferir as divindades por cuja adoração os amorreus haviam sido destruídos! "Porém eu e a minha casa", disse Josué, "serviremos ao Senhor." Jos. 24:15. O mesmo zelo santo que inspirava o coração do chefe, comunicou-se ao povo. Seus apelos

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provocaram a resposta decisiva: "Nunca nos aconteça que deixemos ao Senhor para servirmos a outros deuses."

"Não podeis servir ao Senhor", disse Josué, "porquanto é Deus santo, ... não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados." Antes que pudesse haver qualquer reforma permanente, o povo devia ser levado a sentir sua completa incapacidade de, por si mesmos, prestarem obediência a Deus. Haviam quebrantado a Sua lei; esta os condenava como transgressores, e não provia meio de livramento. Enquanto confiavam em sua própria força e justiça, era-lhes impossível conseguir o perdão de seus pecados; não podiam satisfazer as reivindicações da lei perfeita de Deus, e era em vão que se comprometiam a servi-Lo. Unicamente pela fé em Cristo é que poderiam conseguir o perdão do pecado, e receber força para obedecer à lei de Deus. Não mais deviam confiar em seus próprios esforços para alcançar a salvação; deviam confiar inteiramente nos méritos do Salvador prometido, se queriam ser aceitos por Deus.

Josué se esforçou por levar os ouvintes a pesarem bem suas palavras, e absterem-se de votos que não estariam preparados para cumprir. Com profundo fervor repetiram a declaração: "Não, antes ao Senhor serviremos." Consentindo solenemente com o testemunho contra si mesmos de que escolheram a Jeová, mais uma vez reiteraram seu compromisso de fidelidade: "Serviremos ao Senhor nosso Deus, e obedeceremos à Sua voz."

"Assim fez Josué concerto naquele dia com o povo, e lho pôs por estatuto e direito em Siquém." Tendo escrito um relatório deste feito solene, colocou-o juntamente com o livro da lei ao lado da arca. E levantou uma coluna em memória, dizendo: "Eis que esta pedra nos será por testemunho; pois ela ouviu todas as palavras que o Senhor nos tem dito; e também será testemunho contra vós, para que não mintais a vosso Deus. Então Josué despediu o povo, cada um para a sua herdade." A obra de Josué em prol de Israel estava finalizada. Havia seguido inteiramente ao Senhor; e no Livro de Deus ele é chamado: "O servo do Senhor." O mais nobre testemunho em favor de seu caráter como líder público é a história da geração que fruíra seus labores: "Serviu, pois, Israel ao Senhor todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito depois de Josué." 50

Dízimos e Ofertas

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Na economia hebréia um décimo da receita do povo era separado para o custeio do culto público de Deus. Assim Moisés declarou a Israel: "Todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor." "Tocante a todas as dízimas de vacas e ovelhas, ... o dízimo será santo ao Senhor." Lev. 27:30 e 32.

Mas o sistema dos dízimos não se originou com os hebreus. Desde os primitivos tempos o Senhor reivindicava como Seu o dízimo; e tal reivindicação era reconhecida e honrada. Abraão pagou dízimos a Melquisedeque, sacerdote do altíssimo Deus. Gên. 14:20. Jacó, quando em Betel, exilado e errante, prometeu ao Senhor: "De tudo quanto me deres, certamente Te darei o dízimo." Gên. 28:22. Quando os israelitas estavam prestes a estabelecer-se como nação, a lei dos dízimos foi confirmada, como um dos estatutos divinamente ordenados, da obediência ao qual dependia a sua prosperidade. O sistema dos dízimos e ofertas destinava-se a impressionar a mente dos homens com uma grande verdade - verdade de que Deus é a fonte de toda bênção a Suas criaturas, e de que a Ele é devida a gratidão do homem pelas boas dádivas de Sua providência. Ele "dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas". Atos 17:25. O Senhor declara: "Meu é todo o animal da selva, e as alimárias sobre milhares de montanhas." Sal. 50:10. "Minha é a prata, e Meu é o ouro." E é Deus quem dá aos homens o poder de adquirir riquezas. Ageu 2:8. Como reconhecimento de que todas as coisas provêm dEle, o Senhor determinou que parte de Seus abundantes dons Lhe fosse devolvida em dádivas e ofertas para manterem o Seu culto. "As dízimas... são do Senhor." Lev. 27:30. É empregada aqui a mesma forma de expressão que se encontra na lei do sábado. "O sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus." Êxo. 20:10. Deus Pág. 526

reservou para Si uma porção especificada do tempo do homem e de seus meios, e ninguém poderia impunemente apropriar-se de qualquer dessas coisas para seus próprios interesses. O dízimo era dedicado exclusivamente ao uso dos levitas, a tribo que fora separada para o serviço do santuário. Mas este não era de nenhuma maneira o limite das contribuições para os fins religiosos. O tabernáculo, bem como mais tarde o templo, foi construído inteiramente pelas ofertas voluntárias; e, a fim de prover para os necessários reparos e outras despesas, Moisés determinou que todas as vezes que o povo fosse recenseado, cada um deveria contribuir com meio siclo para "o serviço do tabernáculo". No tempo de Neemias fazia-se anualmente uma contribuição para este fim. Êxo. 30:12-16; II Reis 12:4 e 5; II Crôn. 24:4-13; Nee. 10:32 e 33. De tempos em tempos eram trazidas a Deus ofertas pelo pecado e ofertas de gratidão. Estas eram apresentadas em grande número nas festas anuais. E fazia-se pelos pobres a mais liberal provisão.

Mesmo antes que o dízimo pudesse ser reservado, tinha havido já um reconhecimento dos direitos de Deus. Aquilo que em primeiro lugar amadurecia dentre todos os produtos da terra, era-Lhe consagrado. A primeira lã, quando as ovelhas eram tosquiadas; o primeiro trigo quando este era trilhado, o primeiro óleo e o primeiro vinho, eram separados para Deus. Assim também o eram os primogênitos de todos os animais; e pagava-se um resgate pelo filho primogênito. As primícias deviam ser apresentadas diante do Senhor no santuário, e eram então dedicadas ao uso dos sacerdotes. Assim, lembrava-se constantemente ao povo que Deus era o verdadeiro proprietário de seus campos, rebanhos e gado; que Ele lhes enviava a luz do Sol e a chuva para a semeadura e a ceifa, e que tudo que possuíam era de Sua criação, e Ele os fizera mordomos de Seus bens. Reunindo-se no tabernáculo os homens de Israel, carregados com as primícias do campo, dos pomares e dos vinhedos, fazia-se um reconhecimento público da bondade de Deus. Quando o sacerdote aceitava o donativo, o ofertante, falando como que na presença de Jeová, dizia: "Siro [Arameu] miserável foi meu pai" (Deut. 26:5); e descrevia a permanência no Egito, e a aflição de que Deus livrara Israel "com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres." E dizia: "E nos trouxe a este lugar, e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel. E eis que agora eu trouxe Pág. 527

as primícias dos frutos da terra que Tu, ó Senhor, me deste." Deut. 26:5, 8-11. As contribuições exigidas dos hebreus para fins religiosos e caritativos, montavam a uma quarta parte completa de suas rendas. Uma taxa tão pesada sobre os recursos do povo poder-se-ia esperar que os reduzisse à pobreza; mas, ao contrário, a fiel observância destes estatutos era uma das condições de sua prosperidade. Sob a condição de sua obediência, Deus lhes fez esta promessa: "Por causa de vós repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; e a vide no campo vos não será estéril. ... E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o Senhor dos exércitos." Mal. 3:11 e 12.

Uma notável ilustração dos resultados da retenção egoísta, mesmo das ofertas voluntárias, para não serem usadas na causa de Deus, foi dada nos dias do profeta Ageu. Depois de sua volta do cativeiro em Babilônia, os judeus empreenderam a reconstrução do templo do Senhor; mas, defrontando-se com decidida oposição por parte de seus inimigos, interromperam a obra; e uma seca rigorosa, pela qual ficaram reduzidos a real necessidade, convenceu-os de que era impossível completar a construção do templo. "Não veio ainda o tempo", diziam, "o tempo em que a casa do Senhor deve ser edificada." Mas uma mensagem lhes foi enviada pelo profeta do Senhor: "É para vós tempo de habitardes nas vossas casas estucadas, e esta casa há de ficar deserta? Ora pois, assim diz o Senhor dos exércitos: Aplicai os vossos corações aos vossos caminhos. Semeais muito, e recolheis pouco; comeis, mas não vos fartais; bebeis, mas não vos saciais; vestis-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário, recebe salário num saco furado." Ageu 1:6. E então é dada a razão: "Olhastes para muito, mas eis que alcançastes pouco; e esse pouco, quando o trouxestes para casa, Eu lhe assoprei. Por que causa? disse o Senhor dos exércitos; por causa da Minha casa, que está deserta, e cada um de vós corre à sua própria casa. Por isso retêm os céus o seu orvalho, e a terra retém os seus frutos. E fiz vir a seca sobre a terra, e sobre os montes, e sobre o trigo, e sobre o mosto; e sobre o azeite, e sobre o que terra produz; como também sobre os homens, e sobre os animais, e sobre todo o trabalho das mãos." "Depois daquele tempo, veio alguém a um monte de vinte medidas, e havia somente dez; vindo ao lagar para tirar cinqüenta, havia somente vinte. Feri-vos com queimadura, e com Pág. 528

ferrugem, e com saraiva, em toda a obra das vossas mãos." Ageu 2:16 e 17. Despertado por estas advertências, o povo se pôs a construir a casa de Deus. Então lhes veio a palavra do Senhor: "Ponde pois, Eu vos rogo, desde este dia em diante, desde o vigésimo quarto dia do mês nono, desde o dia em que se fundou o templo do Senhor, ponde o vosso coração nestas coisas. ... Desde este dia vos abençoarei." Ageu 2:18 e 19.

Diz o sábio: "Alguns há que espalham, e ainda se lhes acrescenta mais; e outros que retêm mais do que é justo, mas é para a sua perda." Prov. 11:24. E a mesma lição é ensinada no Novo Testamento pelo apóstolo Paulo: "O que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará." "Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra." II Cor. 9:6 e 8. Era intuito de Deus que Seu povo Israel fosse portador de luz a todos os habitantes da Terra. Mantendo seu culto público estavam a dar testemunho da existência e soberania do Deus vivo. E era privilégio deles sustentar este culto, como expressão de sua fidelidade e amor para com Ele. O Senhor ordenou que a difusão da luz e verdade na Terra dependesse dos esforços e das ofertas daqueles que são participantes do dom celestial. Ele poderia ter feito dos anjos os embaixadores de Sua verdade; poderia tornar conhecida Sua vontade, assim como proclamara a lei do Sinai, com Sua própria voz; mas em Seu amor e sabedoria infinitos chamou os homens para se tornarem colaboradores Seus, escolhendo-os a fim de fazerem esta obra.

Nos dias de Israel os dízimos e as ofertas voluntárias eram necessários para manterem as ordenanças do culto divino. Deveria o povo de Deus dar menos neste tempo? O princípio estabelecido por Cristo é que nossas ofertas a Deus sejam em proporção à luz e privilégios recebidos. "A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou muito mais se lhe pedirá." Luc. 12:48. Disse o Salvador a Seus discípulos, quando os enviou: "De graça recebestes, de graça dai." Mat. 10:8. Aumentando-se as nossas bênçãos e privilégios - e, acima de tudo, tendo nós presente o sacrifício sem-par do glorioso Filho de Deus - não deveria a nossa gratidão ter expressão em dádivas mais abundantes a fim de levar a outros a mensagem da salvação? A obra do evangelho, ao ampliar-se, requer

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