Patriarcas e Profetas
Bíblia claramente posto diante deles, ou é…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Antes de deixar sua posição como líder visível de Israel, determinou-se a Moisés repetir-lhes a história de seu libertamento do Egito, e suas viagens no deserto, e também recapitular-lhes a lei proferida do Sinai. Quando a lei fora dada, apenas poucos da presente congregação tinham idade suficiente para compreenderem a terrível solenidade da ocasião. Como devessem logo passar o Jordão, e tomar posse da Terra Prometida, Deus queria apresentar-lhes as reivindicações de Sua lei, e estipular-lhes a obediência como condição para a prosperidade.
Moisés ficou em pé perante o povo para fazer suas últimas advertências e admoestações. Seu rosto foi iluminado de uma santa luz. Tinha os cabelos brancos pela idade; mas o corpo estava ereto, o rosto exprimia o vigor não abatido da saúde, e os olhos eram claros e fortes. Era uma ocasião solene, e com profundo sentimento descreveu ele o amor e misericórdia do Protetor todo-poderoso:
"Pergunta agora aos tempos passados, que te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a Terra, desde uma extremidade do céu até a outra, se sucedeu jamais coisa tão grande como esta, ou se se ouviu coisa como esta? Ou se algum povo ouviu a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu a ouviste, ficando vivo? Ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo com provas, com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão forte, e com braço estendido, e com grandes espantos, conforme a tudo quanto o Senhor vosso Deus vos fez no Egito aos vossos olhos? A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há senão Ele." Deut. 4:32-35.
Pág. 464
"O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que jurara a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de faraó, rei do Egito. Saberás pois que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel que guarda o concerto e a misericórdia até mil gerações aos que O amam e guardam os Seus mandamentos." Deut. 7:7-9.
O povo de Israel estivera pronto para atribuir suas dificuldades a Moisés; mas agora foram removidas suas suspeitas de que ele era governado pelo orgulho, ambição ou egoísmo, e escutavam com confiança as suas palavras. Moisés expôs-lhes fielmente os seus erros e as transgressões de seus pais. Haviam eles muitas vezes se sentido impacientes e revoltados, por causa de sua longa peregrinação pelo deserto; mas o Senhor não era o culpado por esta demora em possuírem Canaã; Ele Se afligia mais do que eles por não poder levá-los à posse imediata da Terra Prometida, e mostrar assim perante todas as nações Seu grande poder no libertamento de Seu povo. Com sua falta de confiança em Deus, com seu orgulho e incredulidade, não estavam preparados para entrarem em Canaã. De nenhuma maneira representariam o povo cujo Deus era o Senhor; pois não tinham o Seu caráter de pureza, bondade e benevolência. Se seus pais houvessem se entregado pela fé à direção de Deus, sendo governados pelos Seus juízos, e andando em Suas ordenações, teriam desde muito tempo se estabelecido em Canaã, como um povo próspero, santo e feliz. Sua demora para entrarem na boa terra desonrou a Deus, e desmereceu a Sua glória à vista das nações circunjacentes.
Moisés, que compreendia o caráter e valor da lei de Deus, assegurou ao povo que nenhuma outra nação tinha preceitos tão sábios, justos e misericordiosos, como os que foram dados aos hebreus. "Vedes aqui", disse ele, "vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus, para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar. Guardai-os pois, e fazei-os, porque esta será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo só é gente sábia e entendida." Deut. 4:5 e 6. Pág. 465
Moisés chamou sua atenção para o "dia em que estiveste perante o Senhor em Horebe". Interpelou as hostes hebréias: "Que gente há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que O chamamos? E que gente há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje dou perante vós?" Hoje poderia repetir-se esta interpelação a Israel. As leis que Deus deu a Seu antigo povo eram mais sábias, melhores e mais humanas, do que as das nações mais civilizadas na Terra. As leis das nações trazem os indícios das debilidades e paixões do coração não renovado; mas a lei de Deus traz o cunho divino. "O Senhor vos tomou, e vos tirou do forno de ferro do Egito", declarou Moisés, "para que Lhe sejais por povo hereditário." Deut. 4:10, 7, 8 e 20. A terra em que logo entrariam, e que deles deveria ser sob condição de obediência à lei de Deus, foi-lhes assim descrita, e, quanto não deveriam estas palavras ter comovido os corações de Israel, ao lembrarem-se eles de que aquele que tão resplendentemente descrevia as bênçãos da boa terra, fora, por causa do pecado deles, excluído da participação da herança de seu povo:
"O Senhor teu Deus te mete numa boa terra"; "não é como a terra do Egito, donde saístes, em que semeavas a tua semente, e a regavas com o teu pé, como a uma horta. Mas a terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas"; "terra de ribeiros de águas, de fontes, e de abismos, que saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, e de vides, e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, abundante de azeite e mel; terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre"; "terra de que o Senhor teu Deus tem cuidado; os olhos do Senhor teu Deus estão sobre ela continuamente, desde o princípio até o fim do ano". Deut. 8:7-9; Deut. 11:10-12. "Havendo-te pois o Senhor teu Deus introduzido na terra que jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificaste, e casas cheias de todo o bem, que tu não encheste, e poços cavados, que tu não cavaste, vinhas e olivais que tu não plantaste, e comeres e te fartares, guarda-te,
Pág. 466
e que te não esqueças do Senhor." Deut. 6:10-12. "Guardai-vos de que vos esqueçais do concerto do Senhor vosso Deus... porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso." Deut. 4:23 e 24. Se fizessem mal à vista do Senhor, então, disse Moisés: "Certamente perecereis depressa da terra, a qual, passado o Jordão, ides possuir." Deut. 4:25 e 26. Depois da repetição pública da lei, Moisés completou o trabalho de escrever todas as leis, estatutos e juízos que Deus lhe dera, e todas as regras relativas ao cerimonial dos sacrifícios. O livro que continha estas coisas foi posto sob os cuidados de oficiais competentes, e para ser guardado com segurança foi depositado ao lado da arca. Achava-se ainda o grande líder tomado de receio de que o povo se afastasse de Deus. Em um discurso mui sublime e palpitante expôs-lhes as bênçãos que seriam deles sob condição de obediência, e a maldição que seguiria à transgressão: "Se ouvires a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os Seus mandamentos que eu te ordeno hoje", "bendito serás tu na cidade, e bendito serás no campo", no "fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais; ... bendito o teu cesto e a tua amassadeira; bendito serás ao entrares, e bendito serás ao saíres. O Senhor entregará os teus inimigos que se levantarem contra ti, feridos diante de ti. ... O Senhor mandará que a bênção esteja contigo, nos teus celeiros, e em tudo o que puseres a tua mão." Deut. 28:1-8.
"Será porém que, se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus, para não cuidares em fazer todos os Seus mandamentos e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, então sobre ti virão todas estas maldições", "e serás por pasmo, por ditado, e por fábula entre todos os povos a que o Senhor te levará."
"E o Senhor vos espalhará entre todos os povos, desde uma extremidade da Terra até a outra extremidade da Terra; e ali servirás a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; ao pau e à pedra. E nem ainda entre as mesmas gentes descansarás, nem a planta de teu pé terá repouso; porquanto o Senhor ali te dará coração tremente, e desfalecimento dos olhos, e desmaio da alma. E a tua vida como suspensa estará diante de ti; e estremecerás de noite e de dia, e não crerás na tua própria vida. Pela manhã dirás: Ah!
Pág. 467
quem me dera ver a noite! e à tarde dirás: Ah! quem me dera ver a manhã! Pelo pasmo de teu coração, com que pasmarás, e pelo que verás com os teus olhos." Deut. 28:15, 37, 64-67. Pelo Espírito de inspiração, olhando através dos séculos, Moisés descreveu as terríveis cenas da subversão final de Israel como nação, e a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Roma: "O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da Terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não atentará para o rosto do velho, nem se apiedará do moço." Deut 28:49 e 50.
A completa devastação da terra, os horríveis sofrimentos do povo durante o cerco de Jerusalém por Tito, séculos mais tarde, foram vividamente descritos: "Comerá o fruto dos teus animais, e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; ... e te angustiará em todas as tuas portas, até que venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas em toda a tua terra. ... Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o Senhor teu Deus, no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão." "E quanto à mulher mais mimosa e delicada entre ti, que de mimo e delicadeza nunca tentou pôr a planta de seu pé sobre a terra, será maligno o seu olho contra o homem de seu regaço, ... e por causa de seus filhos que tiver; porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas portas." Deut. 28:51-53, 56 e 57. Moisés terminou com estas palavras impressionantes: "Os céus e a Terra tomo hoje por testemunhas contra vós, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas tu e a tua semente, amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à Sua voz, e te achegando a Ele; pois Ele é a tua vida, e a longura dos teus dias, para que fiques na terra que o Senhor jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que lhes havia de dar." Deut. 30:19 e 20. A fim de mais profundamente gravar em todos os espíritos estas verdades, o grande chefe incorporou-as em poesia sacra. Este cântico não era somente histórico, mas também profético. Ao mesmo tempo em que de novo referia o maravilhoso trato de Deus para com Seu povo no passado, prefigurava também os grandes acontecimentos do futuro, a vitória final dos fiéis quando Cristo vier a segunda vez, com poder e glória. Ordenou-se ao povo
Pág. 468
que confiasse à memória esta história poética, e a ensinasse a seus filhos, e filhos de seus filhos. Deveria ser cantada pela congregação quando se reunia para o culto, e ser repetida pelo povo ao saírem eles para o seu labor cotidiano. Era dever dos pais gravar estas palavras na mente sensível de seus filhos, de tal maneira que nunca pudessem ser esquecidas. Visto que os israelitas deveriam ser, em sentido especial, os guardas e conservadores da lei de Deus, deveriam eles especialmente impressionar-se com a significação dos preceitos da mesma, e com a importância da obediência, e por meio deles os seus filhos, e filhos de seus filhos. O Senhor ordenou com relação aos seus estatutos: "E as intimarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. ... E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas." Deut. 6:7-9.
Quando seus filhos perguntassem no futuro: "Quais são os testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor nosso Deus vos ordenou?" deviam os pais então repetir a história do trato de Deus, cheio de graça, para com eles: como o Senhor agira para o seu livramento, a fim de que pudessem obedecer à Sua lei; e declarar-lhes: "O Senhor nos ordenou que fizéssemos todos estes estatutos, para temer ao Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça quando tivermos cuidado de fazer todos estes mandamentos perante o Senhor nosso Deus, como nos tem ordenado." Deut. 6:20-25.
43
A Morte de Moisés
Pág. 469
Em todo o trato de Deus com o Seu povo, há, de mistura com Seu amor e misericórdia, a mais notável evidência de Sua justiça estrita e imparcial. Isto se exemplifica na história do povo hebreu. Deus conferira grandes bênçãos a Israel. Sua amorável bondade para com eles é descrita desta maneira tocante: "Como a águia desperta o seu ninho, se move sobre os seus filhos, estende suas asas, toma-os, e os leva sobre as suas asas, assim só o Senhor o guiou." Deut. 32:11 e 12. E, contudo, que castigo rápido e severo caiu sobre eles pela sua transgressão!
O amor infinito de Deus foi manifesto no dom de Seu unigênito Filho, para redimir uma raça perdida. Cristo veio à Terra para revelar aos homens o caráter de Seu Pai, e Sua vida foi repleta de ações de ternura e compaixão divina. E no entanto Cristo mesmo declara: "Até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei." Mat. 5:18. A mesma voz que com um rogo paciente e amante convida o pecador a vir a Ele e encontrar perdão e paz, ordenará no Juízo aos que rejeitaram Sua misericórdia: "Apartai-vos de Mim, malditos." Mat. 25:41. Em toda a Bíblia Deus é representado não somente como um terno Pai, mas também como um justo Juiz. Posto que Ele Se deleite em mostrar misericórdia, e a perdoar a iniqüidade, a transgressão e o pecado, de nenhuma maneira, todavia, terá por inocente o culpado. Êxo. 34:7.
O grande Governador das nações havia declarado que Moisés não deveria conduzir a congregação de Israel à boa terra, e os rogos fervorosos do servo de Deus não puderam obter a revogação de sua sentença. Sabia que devia morrer. Todavia, nem por um momento sequer vacilou em seus cuidados por Israel. Procurara fielmente preparar a congregação para entrar na herança prometida. Por ordem divina Moisés e Josué se dirigiram ao
Pág. 470
tabernáculo, enquanto a coluna de nuvem veio e ficou sobre a porta. Ali o povo foi solenemente confiado aos cuidados de Josué. A obra de Moisés como dirigente de Israel estava terminada. Mas ainda ele se esquecia de si mesmo em seu interesse pelo povo. Na presença da multidão congregada, Moisés, em nome de Deus, dirigiu ao seu sucessor estas palavras de santa animação: "Esforça-te e anima-te; porque tu meterás os filhos de Israel na terra que lhes jurei; e Eu serei contigo." Deut. 31:23. Volveu-se então aos anciãos e oficiais do povo, dando-lhes a solene incumbência de obedecer fielmente às instruções que ele lhes havia comunicado da parte de Deus. Ao olhar o povo para o idoso homem, que tão em breve deles seria retirado, lembrava-se, com uma nova e mais profunda apreciação, de sua ternura paternal, de seus sábios conselhos, e de seus incansáveis labores. Quantas vezes, quando seus pecados haviam atraído os justos juízos de Deus, as orações de Moisés prevaleceram junto dEle para os poupar! Seu pesar acrescia pelo remorso. Amargamente lembravam-se de que sua própria perversidade havia provocado Moisés a cometer o pecado pelo qual devia morrer.
O desaparecimento de seu amado líder seria para Israel uma repreensão muito maior do que qualquer que pudessem haver recebido, caso tivesse sua vida e missão continuado. Deus queria levá-los a compreender que não deveriam tornar a vida de seu futuro chefe tão cheia de provações como fizeram a de Moisés. Deus fala a Seu povo pelas bênçãos concedidas; e, quando estas não são apreciadas, Ele lhes fala pelas bênçãos que lhes remove, a fim de que sejam levados a ver seus pecados, e voltem a Ele de todo o coração.
Naquele mesmo dia veio a Moisés a ordem: "Sobe... ao Monte Nebo, ... e vê a terra de Canaã, que darei aos filhos de Israel por possessão. E morre no monte, ao qual subirás; e recolhe-te aos teus povos." Deut. 32:49 e 50. Moisés havia muitas vezes deixado o acampamento, em obediência aos chamados divinos, a fim de ter comunhão com Deus; mas agora deveria partir para um novo e misterioso propósito. Devia sair para entregar a vida nas mãos de seu Criador. Moisés sabia que iria morrer só; a nenhum amigo terrestre seria permitido atendê-lo em suas últimas horas. Havia um mistério e espanto em torno da cena que perante ele estava, da qual seu coração se retraía. A mais severa prova era sua separação do povo de seus cuidados e amor, povo Pág. 471
este com o qual seu interesse e sua vida haviam tanto tempo estado unidos. Mas ele aprendera a confiar em Deus, e com implícita fé confiou-se e ao povo a Seu amor e misericórdia. Pela última vez, Moisés achou-se na assembléia de seu povo. Novamente o Espírito de Deus repousou sobre ele, e na linguagem mais sublime e tocante pronunciou uma bênção sobre cada uma das tribos, finalizando com uma bênção sobre todas elas:
"Não há outro, ó Jesurum, semelhante a Deus!
Que cavalga sobre os céus para a tua ajuda,
E com a Sua alteza sobre as mais altas nuvens.
O Deus eterno te seja por habitação,
E por baixo sejam os braços eternos;
E Ele lance o inimigo de diante de ti,
E diga: Destrói-o.
Israel pois habitará só, seguro,
Na terra da fonte de Jacó,
Na terra de grão e de mosto;
E os seus céus gotejarão orvalho.
Bem-aventurado tu, ó Israel!
Quem é como tu? um povo salvo pelo Senhor,
O escudo do teu socorro." Deut. 33:26-29.
Moisés volveu da congregação, e em silêncio pôs-se, sozinho, a subir a encosta da montanha. Foi "ao Monte Nebo, ao cume de Pisga". Deut. 34:1. Naquela solitária elevação pôs-se em pé, e com vista clara olhou para o cenário que se espalhava diante dele. Longe, do lado do ocidente, estendiam-se as águas azuis do Mar Grande; ao norte, o Monte Hermom levantava-se de encontro ao céu; ao oriente achava-se o tabuleiro de Moabe, e para além estava Basã, cenário da vitória de Israel; e afastado ao sul estendia-se o deserto de suas longas peregrinações.
Na solidão Moisés reviu sua vida de vicissitudes e dificuldades, desde que se retirou das honras da corte e de um reino que poderia ter em perspectiva no Egito, a fim de lançar sua sorte com o povo escolhido de Deus. Evocou à mente aqueles longos anos no deserto, com os rebanhos de Jetro, o aparecimento do Anjo na sarça ardente, e sua própria vocação para libertar Israel. Viu de novo os grandes prodígios do poder de Deus manifestos em prol do povo escolhido, e Sua longânima misericórdia durante os anos
Pág. 472
de sua peregrinação e rebelião. Apesar de tudo que Deus havia operado por eles, apesar das suas próprias orações e labores, apenas dois de todos os adultos do vasto exército que deixou o Egito, foram achados dignos de entrar na Terra Prometida. Revendo Moisés os resultados de seus trabalhos, sua vida de provações e sacrifícios parecia ter sido quase em vão. Contudo não se lamentava dos encargos que havia assumido. Sabia que sua missão e trabalho foram designados pelo próprio Deus mesmo. Quando chamado a princípio para tirar Israel do cativeiro, arreceou-se desta responsabilidade; mas, visto que assumira o trabalho, não rejeitara o encargo. Mesmo quando o Senhor propusera desobrigá-lo, e destruir o rebelde Israel, não pôde Moisés consentir nisso. Se bem que tivessem sido grandes as suas provações, havia ele fruído sinais especiais do favor de Deus; obtivera uma rica experiência durante a permanência no deserto, testemunhando as manifestações do poder e glória de Deus, e tendo a comunhão de Seu amor; entendia haver feito uma sábia decisão preferindo sofrer aflição com o povo de Deus, a desfrutar por algum tempo o prazer do pecado.
Olhando retrospectivamente para suas experiências como chefe do povo de Deus, uma ação errada mareava a relação das mesmas. Se se pudesse apagar aquela transgressão, sentia que não se arrecearia da morte. Assegurou-se-lhe que o arrependimento, e a fé no sacrifício prometido, eram tudo que Deus exigia, e de novo Moisés confessou seu pecado, e implorou perdão em nome de Jesus. Foi-lhe agora apresentada uma vista panorâmica da terra da promessa. Todas as partes do território estenderam-se diante dele, não desmaiadas e vagas à turva distância mas mostrando-se claras, distintas e belas à sua visão deleitada. Naquele quadro foi ela apresentada, não como então se mostrava, mas como se tornaria com a bênção de Deus, sob a posse de Israel. Parecia estar a olhar para um segundo Éden. Havia montanhas revestidas dos cedros do Líbano, colinas pardacentas pelos olivais, e olentes pelo perfume das vinhas; amplas e verdes planícies a brilhar com flores, e abundantes em frutos; aqui as palmeiras dos trópicos, ali os campos ondulantes de trigo e cevada; vales ensolarados, melodiosos com o murmúrio dos regatos e o cântico dos pássaros, boas cidades e belos jardins, lagos profusos na "abundância dos mares", rebanhos a pascerem nas colinas, e mesmo entre as rochas os acumulados tesouros da abelha silvestre. Era na verdade uma Pág. 475
terra como a que Moisés, inspirado pelo Espírito de Deus, descrevera a Israel: "Bendita do Senhor... com o mais excelente dos céus, com o orvalho, e com o abismo que jaz abaixo, e com as mais excelentes novidades do Sol, ... e com o mais excelente dos montes antigos, ... e com o mais excelente da terra, e com a sua plenitude." Deut. 33:13-16.
Moisés viu o povo escolhido estabelecido em Canaã, estando cada tribo em sua própria possessão. Teve uma perspectiva de sua história depois do estabelecimento na Terra Prometida; estendeu-se diante dele a história longa e triste de sua apostasia, e punição desta. Viu-os, por causa de seus pecados, dispersos entre os gentios, estando afastada a glória de Israel, em ruínas a sua bela cidade, e o povo desta cativo em terras estranhas. Viu-os restabelecidos na terra de seus pais, e finalmente trazidos sob o domínio de Roma.
Permitiu-se-lhe olhar através da corrente do tempo, e ver o primeiro advento de nosso Salvador. Viu Jesus como uma criancinha em Belém. Ouviu as vozes da hoste angélica romper em alegre cântico de louvor a Deus e paz na Terra. Viu no céu a estrela guiando os magos do Oriente a Jesus, e uma grande luz lhe inundou a mente ao recordar estas palavras proféticas: "Uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá de Israel." Núm. 24:17. Contemplou a humilde vida de Cristo em Nazaré, Seu ministério de amor e simpatia e Suas curas, Sua rejeição por uma nação orgulhosa e incrédula. Com espanto ouviu a jactanciosa exaltação da lei de Deus por parte deles, ao mesmo tempo em que desprezavam e rejeitavam Aquele por quem a lei foi dada. Viu Jesus sobre o Monte das Oliveiras ao despedir-Se com prantos da cidade que Ele amava. Quando Moisés contemplou a rejeição final daquele povo tão altamente abençoado pelo Céu, povo por quem havia labutado, orado e se sacrificado, por amor do qual estivera disposto a que seu próprio nome fosse riscado do livro da vida; quando ouviu aquelas terríveis palavras: "Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta" (Mat. 23:38), seu coração contorceu-se de angústia, e lágrimas amargas lhe caíram dos olhos, compartilhando da tristeza do Filho de Deus.
Seguiu o Salvador ao Getsêmani, e viu a agonia no horto, a traição, a zombaria e os açoites - e a crucifixão. Moisés viu que assim como levantara a serpente no deserto, do mesmo modo o Filho de Deus deveria ser levantado, para que quem quer que nEle cresse, não perecesse mas tivesse a vida eterna. João 3:15.
Pág. 476
Mágoa, indignação e horror encheram o coração de Moisés, ao ver a hipocrisia e ódio satânico manifestados pela nação judaica contra seu Redentor, o poderoso Anjo que havia ido diante de seus pais. Ouviu o grito agonizante de Cristo: "Meu Deus, Meu Deus, por que Me desamparaste?" Mar. 15:34. Viu-O jazendo no túmulo novo de José. As trevas da aflição sem esperanças pareciam rodear o mundo. Mas olhou de novo, e viu-O saindo como vencedor, e subindo ao Céu acompanhado por anjos em adoração, e levando uma multidão de cativos. Viu as portas resplendentes abrirem-se para O receberem, e a hoste celestial com cânticos de triunfo dar as boas-vindas ao seu Comandante. E aí foi-lhe revelado que ele mesmo seria um dos que serviriam ao Salvador, e abrir-Lhe-iam as portas eternas. Olhando para aquela cena, seu rosto resplandeceu com um santo brilho. Quão pequenas pareciam as provações e sacrifícios de sua vida, comparados com os do Filho de Deus! quão leves em contraste com o "peso eterno de glória mui excelente"! II Cor. 4:17. Regozijou-se de que se lhe tivesse permitido, mesmo em pequena medida, ser participante dos sofrimentos de Cristo. Moisés contemplou os discípulos de Jesus ao saírem para levar Seu evangelho ao mundo. Ele viu que, embora o povo de Israel "segundo a carne" (Rom. 9:3) houvesse deixado de alcançar o elevado destino a que Deus os chamara, e tivessem pela sua incredulidade deixado de tornar-se a luz do mundo; embora tivessem desprezado a misericórdia de Deus, e se despojado de suas bênçãos como povo escolhido, viu Moisés que Deus, todavia, não rejeitara a semente de Abraão; os gloriosos projetos que Ele empreendera realizar por meio de Israel seriam cumpridos. Todos os que por meio de Cristo devessem tornar-se filhos da fé, seriam contados como semente de Abraão; eram herdeiros das promessas do concerto; como Abraão eram chamados a guardar e tornar conhecidos ao mundo a lei de Deus e o evangelho de Seu Filho. Moisés viu a luz do evangelho a resplandecer, por intermédio dos discípulos de Jesus, àqueles que estavam assentados em trevas (Mat. 4:16), e milhares nas terras dos gentios a arrebanhar-se sob o resplendor daquela luz que se erguia. E, vendo, regozijou-se no crescimento e prosperidade de Israel.
E agora uma outra cena passa diante dele. Havia-se-lhe mostrado a obra de Satanás levando os judeus a rejeitarem a Cristo, enquanto professavam honrar a lei de Seu Pai. Vê agora o mundo cristão sob um engano idêntico, professando aceitar a Cristo
Pág. 477
enquanto rejeitam a lei de Deus. Ouvira dos sacerdotes e anciãos o grito frenético: "Fora", "Crucifica-O, crucifica-O" (João 19:15), e agora ouve dos professos ensinadores cristãos este brado: "Fora com a lei!" Viu o sábado pisado a pés, e uma instituição espúria estabelecida em seu lugar. Novamente Moisés se encheu de espanto e horror. Como poderiam aqueles que criam em Cristo rejeitar a lei proferida por Sua própria voz sobre o santo monte? Como poderia qualquer que tema a Deus pôr de lado a lei que é o fundamento de Seu governo no Céu e na Terra? Com alegria Moisés viu a lei de Deus ainda honrada e exaltada por uns poucos fiéis. Viu a última grande luta dos poderes terrestres para destruir os que guardam a lei de Deus. Olhou antecipadamente para o tempo em que Deus Se levantaria para punir os habitantes da Terra, pela sua iniqüidade, e os que temeram o Seu nome estarão cobertos e ocultos no dia de Sua ira. Ouviu o concerto de paz de Deus com os que guardaram Sua lei, ao emitir Ele Sua voz de Sua santa habitação, e tremerem os céus e a Terra. Viu a segunda vinda de Cristo em glória, os justos mortos ressuscitados para vida imortal, e os santos vivos trasladados sem ver a morte, e juntos ascendendo com cânticos de alegria para a cidade de Deus. Ainda outra cena se desdobrara à sua vista - a Terra livre da maldição, mais linda do que a bela terra da promessa, que tão poucos momentos antes se estendera perante ele. Não há pecado, e a morte não pode entrar ali. Encontram, ali, as nações dos salvos o seu lar eterno. Com indizível alegria Moisés olha para a cena - a realização de um livramento mais glorioso do que jamais esboçaram as suas mais radiosas esperanças. Passada para sempre sua peregrinação terrestre, entrou finalmente o Israel de Deus na boa terra.
Desvanece-se de novo a visão, e seus olhos repousam sobre a terra de Canaã, que se estende a distância. Então, como um guerreiro cansado, deita-se para repousar. "Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme ao dito do Senhor. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; ninguém tem sabido até hoje a sua sepultura." Deut. 34:5 e 6. Muitos que não estiveram dispostos a atender os conselhos de Moisés enquanto se achava com eles, estariam em perigo de cometer idolatria com o seu cadáver, caso soubessem o lugar de seu sepultamento. Por esta razão foi oculto
Pág. 478
aos homens. Anjos de Deus, porém, sepultaram o corpo de Seu fiel servo, e vigiavam a solitária sepultura.
"Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera cara a cara; nem semelhante em todos os sinais e maravilhas, que o Senhor enviou para fazer... em toda a mão forte, e em todo o espanto grande, que obrou Moisés aos olhos de todo o Israel." Deut. 34:10-12. Não houvesse a vida de Moisés sido maculada por aquele único pecado, deixando de dar a Deus a glória de tirar água da rocha, em Cades, e teria entrado na Terra Prometida, e seria trasladado para o Céu sem ver a morte. Mas não ficou muito tempo no túmulo. O próprio Cristo, com os anjos que sepultaram a Moisés, desceu do Céu para chamar o santo que dormia. Satanás exultara com seu êxito, fazendo Moisés pecar contra Deus, e vir assim sob o domínio da morte. O grande adversário declarou que a sentença divina - "És pó, e em pó te tornarás" (Gên. 3:19) - lhe dava posse dos mortos. O poder da sepultura nunca havia sido quebrado, e todos os que se achavam no túmulo reclamava como cativos seus, para jamais serem libertos da tenebrosa prisão.
Pela primeira vez estava Cristo para dar a vida aos mortos. Como o Príncipe da vida e os seres resplandecentes se aproximassem da sepultura, Satanás ficou apreensivo pela sua supremacia. Com seus anjos maus levantou-se para contestar a invasão do território que alegava ser de sua posse. Ufanava-se de que o servo de Deus se houvesse tornado seu prisioneiro. Declarou que mesmo Moisés não foi capaz de guardar a lei de Deus; que tomara para si a glória devida a Jeová - o mesmo pecado que determinara o banimento de Satanás do Céu - e viera pela transgressão sob o domínio de Satanás. O maior dos traidores reiterou as acusações originais que fizera contra o governo divino, e repetiu suas queixas da injustiça de Deus para com ele.
Cristo não Se rebaixou a entrar em controvérsia com Satanás. Poderia apresentar contra ele a obra cruel que seus enganos haviam operado no Céu, causando a ruína de um número enorme de seus habitantes. Poderia ter apontado às falsidades proferidas no Éden, as quais haviam determinado o pecado de Adão e acarretado a morte ao gênero humano. Poderia ter lembrado a Pág. 479
Satanás que foi sua obra de tentar Israel à murmuração e à rebelião o que esgotara a longânima paciência de seu dirigente, e em um momento de descuido o surpreendera no pecado pelo qual caíra sob o poder da morte. Mas Cristo remeteu tudo isto a Seu Pai, dizendo: "O Senhor te repreenda." Jud. 9. O Salvador não entrou em discussão com Seu adversário, mas naquele momento, ali mesmo, iniciou a obra de quebrar o poder desse adversário decaído, e de trazer o morto à vida. Ali estava uma prova que Satanás não podia contestar, relativa à supremacia do Filho de Deus. Tornou-se para sempre certa a ressurreição. Satanás foi despojado de sua presa; os justos mortos de novo viveriam. Em conseqüência do pecado, Moisés viera sob o poder de Satanás. Em seus próprios méritos era o legítimo cativo da morte; mas foi ressurgido para a vida imortal, mantendo este título em nome do Redentor. Moisés saiu do túmulo glorificado, e ascendeu com seu Libertador à cidade de Deus. Nunca, antes que fossem exemplificados no sacrifício de Cristo, foram a justiça e o amor de Deus mais notavelmente demonstrados do que em Seu trato com Moisés. Deus excluiu Moisés de Canaã, a fim de ensinar uma lição que jamais deveria ser esquecida - de que Ele exige estrita obediência, e de que os homens devem acautelar-se em não tomarem para si a glória que é devida a seu Criador. Ele não podia atender a oração de Moisés, de que lhe fosse dado partilhar da herança de Israel; mas não Se esqueceu de Seu servo, nem o abandonou. O Deus do Céu compreendia os sofrimentos que Moisés havia suportado; notara cada ato de serviço fiel durante aqueles longos anos de conflito e provações. No cume de Pisga, Deus chamou Moisés a uma herança infinitamente mais gloriosa do que a Canaã terrestre.
No monte da transfiguração Moisés estava presente com Elias, que fora trasladado. Foram enviados como portadores de luz e glória da parte do Pai a Seu Filho. E assim a oração de Moisés, proferida havia tantos séculos antes, finalmente se cumpriu. Estava ele na "boa montanha" (Deut. 3:25), dentro da herança de seu povo, dando testemunho dAquele em quem se centralizavam todas as promessas de Israel. Tal é a última cena revelada aos olhos mortais na história daquele homem tão altamente honrado pelo Céu.
Pág. 480
Moisés foi um tipo de Cristo. Ele próprio declarou a Israel: "O Senhor teu Deus te despertará um Profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a Ele ouvireis." Deut. 18:15. Deus achou conveniente disciplinar a Moisés na escola da aflição e pobreza, antes de poder preparar-se para guiar as hostes de Israel para a Canaã terrestre. O Israel de Deus, jornadeando para a Canaã celestial, tem um Capitão que não necessitou de ensino humano para O preparar para a Sua missão de divino Chefe; contudo Ele foi aperfeiçoado pelos sofrimentos; e, "naquilo que Ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados". Heb. 2:18. Nosso Redentor não manifestou nenhuma fraqueza ou imperfeição humana; contudo morreu para obter-nos entrada na Terra Prometida. "E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar; mas Cristo, como Filho sobre a Sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão-somente conservamos firmes a confiança e a glória da esperança até ao fim." Heb. 3:5 e 6. V. A Conquista de Canaã
44
A Travessia do Jordão
Pág. 481
Os israelitas prantearam sentidamente seu finado líder, e trinta dias foram dedicados a cerimônias especiais em honra à sua memória. Nunca, até que fosse retirado dentre eles, se compenetraram tanto do valor de seus conselhos sábios, de sua paternal ternura, e de sua fé inabalável. Com uma apreciação nova e mais profunda, recordaram-se das preciosas lições que dera enquanto ainda com eles se encontrava.
Moisés morrera, mas sua influência não desapareceu com ele. Deveria continuar a viver, reproduzindo-se nos corações de seu povo. A memória daquela vida santa, abnegada, durante muito tempo seria acariciada, modelando com um poder silencioso, persuasivo, a vida daqueles mesmos que haviam negligenciado suas palavras vivas. Assim como a luz do Sol poente ilumina os picos das montanhas muito tempo depois que o próprio Sol se haja imergido por trás das colinas, assim as obras dos puros, santos e bons derramam luz sobre o mundo muito tempo depois que os próprios atores se foram. Suas obras, suas palavras, seu exemplo, para sempre viverão: "O justo ficará em memória eterna." Sal. 112:6.
Conquanto estivessem cheios de pesar pela sua grande perda, o povo sabia que não fora deixado só. A coluna de nuvem repousava sobre o tabernáculo de dia, e à noite a coluna de fogo, como segurança de que Deus seria seu guia e auxiliador se andassem no caminho de Seus mandamentos. Josué era agora o reconhecido líder de Israel. Havia sido conhecido principalmente como guerreiro, e seus dotes e virtudes eram especialmente valiosos nesta etapa da história de seu povo. Corajoso, resoluto e perseverante, rápido, incorruptível, despreocupado de interesses egoístas em seus cuidados pelos que se achavam confiados à sua guarda, e, acima de tudo, inspirado por uma fé viva em Deus - tal era o caráter do homem divinamente escolhido para conduzir os exércitos de Israel em sua entrada na Terra Prometida. Durante a permanência no deserto agira Pág. 482
como primeiro-ministro de Moisés, e pela sua fidelidade serena, despretensiosa, sua perseverança quando outros vacilavam, sua firmeza para manter a verdade em meio do perigo, dera prova de sua aptidão para suceder a Moisés, mesmo antes que fosse pela voz de Deus chamado a esta posição. Foi com grande ansiedade e desconfiança em si mesmo que Josué encarou a obra que se achava diante de si; seus temores, porém, foram removidos pela segurança dada por Deus: "Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei. ... Tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria." "Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé vo-lo tenho dado, como Eu disse a Moisés." Até às montanhas do Líbano à grande distância, até às praias do Mar Grande, e, ao longe, até às margens do Eufrates no Oriente - tudo deveria ser deles. A esta promessa acrescentou-se a ordem: "Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a toda a lei que Meu servo Moisés te ordenou." A determinação do Senhor foi: "Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite"; "não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda"; "porque então farás prosperar o teu caminho, e então prudentemente te conduzirás." Jos. 1:5, 6, 3, 7 e 8.
Os israelitas estavam ainda acampados no lado oriental do Jordão, que apresentava a primeira barreira à ocupação de Canaã. "Levanta-te pois agora", fora a primeira mensagem de Deus a Josué, "passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que Eu dou aos filhos de Israel." Jos. 1:2. Nenhuma instrução foi dada quanto ao modo por que deveriam fazer a passagem. Josué sabia, entretanto, que o que quer que Deus mandasse, Ele daria os meios para que Seu povo o fizesse, e nesta fé o intrépido chefe de pronto iniciou os preparativos para avançarem.
Poucos quilômetros além do rio, precisamente defronte do lugar em que os israelitas estavam acampados, achava-se a cidade de Jericó, grande e solidamente fortificada. Esta cidade era virtualmente a chave de todo o território, e apresentaria formidável obstáculo ao êxito de Israel. Josué enviou portanto dois moços como espias a fim de visitarem essa cidade, e verificarem algo quanto à sua população, seus recursos, e a resistência de suas fortificações. Os habitantes da cidade, aterrorizados e cheios de suspeita, estavam constantemente alerta, e os mensageiros Pág. 483
estiveram em grande perigo. Foram contudo preservados por Raabe, mulher de Jericó, com perigo de sua própria vida. Como recompensa à sua bondade, deram-lhe a promessa de proteção quando a cidade fosse tomada.
Os espias voltaram sãos e salvos com a notícia: "Certamente o Senhor tem dado toda esta terra nas nossas mãos, pois até todos os moradores estão desmaiados diante de nós." Fora-lhes declarado em Jericó: "Temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Seom e a Ogue, que estavam de além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos Céus e embaixo na Terra." Jos. 2:10 e 11.
Expediram-se agora ordens a fim de se aprontarem para o avanço. O povo devia preparar um suprimento de alimentos para três dias, e o exército devia estar de prontidão para a batalha. Todos concordaram cordialmente aos planos de seu líder, e asseguraram-lhe sua confiança e apoio: "Tudo quanto nos ordenaste faremos, e onde quer que nos enviares iremos. Como em tudo ouvimos a Moisés, assim te ouviremos a ti; tão-somente que o Senhor teu Deus seja contigo, como foi com Moisés." Jos. 1:16 e 17.
Partindo de seu acampamento nos bosques de acácia de Sitim, a hoste desceu à margem do Jordão. Todos sabiam, entretanto, que sem auxílio divino não poderiam esperar fazer a passagem. Nesta época do ano, na primavera, a neve que derretia das montanhas havia de tal maneira avolumado o Jordão que o rio transbordou, tornando-se impossível atravessá-lo nos vaus usuais. Deus queria que a passagem de Israel no Jordão fosse miraculosa. Josué, por indicação divina, ordenou ao povo que se santificasse; deveriam remover seus pecados, e livrar-se de toda a impureza exterior; pois "amanhã", disse ele, "fará o Senhor maravilhas no meio de vós". A "arca do concerto" deveria abrir o caminho diante das hostes. Quando vissem o sinal da presença de Jeová, levado pelos sacerdotes, mudar-se de seu lugar para o centro do acampamento, e avançar em direção ao rio, deveriam então partir de seu lugar e segui-la. As circunstâncias da passagem
Pág. 484
foram minuciosamente descritas; e disse Josué: "Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós, e que de todo lançará de diante de vós aos cananeus. ... Eis que a arca do concerto do Senhor de toda a Terra passa o Jordão diante de vós." Jos. 3:5, 6, 10 e 11. No momento aprazado, iniciou-se o movimento para a frente, indo a arca na vanguarda, aos ombros dos sacerdotes. Determinara-se ao povo ficar mais atrás, de modo que houvesse um espaço vazio de cerca de um quilômetro em redor da arca. Todos, com profundo interesse, estavam atentos ao avançarem os sacerdotes para a margem do Jordão. Viram-nos com a arca sagrada a moverem-se com firmeza para a frente, em direção à corrente encapelada, até que se mergulharam na água os pés dos portadores. Subitamente a correnteza estancou-se do lado de cima, enquanto a torrente continuou a fluir do lado de baixo; e o leito do rio ficou descoberto.
Ao mando divino os sacerdotes avançaram para o meio do canal, e ali ficaram de pé, enquanto descia a hoste inteira, e atravessava para o lado oposto. Assim impressionou as mentes de todo o Israel o fato de que o poder que deteve as águas do Jordão foi o mesmo que abrira o Mar Vermelho a seus pais, quarenta anos antes. Quando todo o povo havia passado, a arca mesma foi levada para a margem ocidental. Mal alcançara esta um lugar seguro, "e as plantas dos pés dos sacerdotes se puseram em seco" (Jos. 4:18), as águas represadas, sendo soltas, arremeteram-se para baixo, como uma inundação irresistível, no canal natural da torrente.
As gerações vindouras não deveriam ficar sem testemunho deste grande prodígio. Enquanto os sacerdotes que levavam a arca ainda se achavam no meio do Jordão, doze homens previamente escolhidos, um de cada tribo, apanharam cada um uma pedra do leito do rio onde os sacerdotes estavam em pé, e as levaram para a margem ocidental. Estas pedras deviam ser erguidas como um monumento no primeiro lugar de acampamento além do rio. Ordenava-se ao povo contar a seus filhos e filhos de seus filhos a história do livramento que Deus operara em prol deles, conforme disse Josué: "Para que todos os povos da terra conheçam a mão do Senhor, que é forte, para que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias." Jos. 4:24.
A influência deste prodígio, tanto sobre os hebreus como sobre seus inimigos, foi de grande importância. Foi uma segurança para Israel da presença e proteção contínua de Deus - prova Pág. 485
de que Ele agiria em prol deles por intermédio de Josué como operara por meio de Moisés. Tal certeza era necessária para fortalecer-lhes o coração, dando eles início à conquista da terra - estupenda tarefa que havia esmorecido a fé de seus pais quarenta anos antes. O Senhor declarara a Josué antes da travessia: "Este dia começarei a engrandecer-te perante os olhos de todo o Israel, para que saibam que assim como fui com Moisés assim serei contigo." Jos. 3:7. E cumpriu-se a promessa. "Naquele dia o Senhor engrandeceu a Josué diante dos olhos de todo o Israel; e temeran-no, como haviam temido a Moisés, todos os dias da sua vida." Jos. 4:14.
Este exercício do poder divino em favor de Israel destinava-se também a aumentar o temor com que eram olhados pelas nações circunjacentes, e assim preparar o caminho para o seu triunfo mais fácil e completo. Quando a notícia de que Deus detivera as águas do Jordão diante dos filhos de Israel, chegou aos reis dos amorreus e dos cananeus, seus corações tremeram de medo. Os hebreus já haviam matado os cinco reis de Midiã, o poderoso Seom, rei dos amorreus, e Ogue de Basã, e agora a passagem pelo Jordão, dilatado e impetuoso, encheu de terror todas as nações circunvizinhas. Para os cananeus, para todo o Israel, e para o próprio Josué, prova inequívoca fora dada de que o Deus vivo, o Rei do Céu e da Terra, estava entre Seu povo, e não os deixaria nem os desampararia. À pequena distância do Jordão os hebreus fizeram seu primeiro acampamento em Canaã. Ali Josué "circuncidou aos filhos de Israel"; e os filhos de Israel acamparam-se em Gilgal, e "celebraram a Páscoa". Jos. 5:3, 10 e 9. A suspensão do rito da circuncisão desde a rebelião de Cades fora um testemunho constante a Israel de que seu concerto com Deus, do qual era aquela o símbolo designado, estivera invalidado. E a interrupção da Páscoa, memorial de seu livramento do Egito, fora prova do desagrado do Senhor pelo seu desejo de voltarem à terra do cativeiro. Agora, porém, estavam terminados os anos da rejeição. Mais uma vez Deus reconhecia a Israel como Seu povo, e restabeleceu-se o sinal do concerto. O rito da circuncisão foi levado a efeito em todo o povo nascido no deserto. E o Senhor declarou a Josué: "Hoje