Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 8 de 9 · parte 4/4

Páginas do PDF

Patriarcas e Profetas

O Primeiro Rei de Israel

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Pág. 674

"E sucedeu naqueles dias que, juntando os filisteus os seus exércitos para a peleja, para fazer guerra contra Israel, disse Aquis a Davi: Sabe de certo que comigo sairás ao arraial, tu e os teus homens." Davi não tinha intenções de levantar a mão contra seu povo; mas não estava certo quanto ao que haveria de fazer, até que as circunstâncias indicassem seu dever. Respondeu ao rei evasivamente, e disse: "Assim saberás tu o que fará o teu servo." I Sam. 28:1 e 2. Aquis compreendeu estas palavras como uma promessa de auxílio na guerra que se aproximava, e comprometeu sua palavra a conferir a Davi grande honra, e dar-lhe elevado cargo na corte filistéia.

Mas, embora a fé de Davi tivesse vacilado um pouco nas promessas de Deus, ele ainda se lembrou de que Samuel o ungira rei de Israel. Recordou as vitórias que no passado Deus lhe havia dado sobre seus inimigos. Reviu a grande misericórdia de Deus, guardando-o das mãos de Saul, e resolveu não trair um encargo sagrado. Mesmo que o rei de Israel tivesse procurado tirar-lhe a vida, ele não uniria suas forças com os inimigos de seu povo.

66

A Morte de Saul

Pág. 675

De novo foi declarada guerra entre Israel e os filisteus. "Ajuntaram-se os filisteus, e vieram e acamparam-se em Suném", na extremidade norte da planície de Jezreel, enquanto Saul e suas forças se acamparam a poucos quilômetros, ao pé do Monte Gilboa, na extremidade sul da planície. Foi nesta planície que Gideão, com trezentos homens, pusera em fuga o exército de Midiã. Mas o espírito que animava o libertador de Israel era inteiramente diverso do que agora agitava o coração do rei. Gideão saíra forte em sua fé no poderoso Deus de Jacó; mas Saul sentia-se só e sem defesa, porque Deus o abandonara. Olhando para o exército filisteu, "temeu, e estremeceu muito o seu coração". I Sam. 28:4 e 5.

Saul soubera que Davi e sua força estavam com os filisteus, e esperava que o filho de Jessé aproveitasse esta oportunidade para vingar-se dos males que tinha sofrido. O rei estava em grande angústia. Fora a sua própria paixão incoerente, incitando-o a destruir o escolhido de Deus, que envolvera a nação em tão grande perigo. Ao mesmo tempo em que se ocupara na perseguição a Davi, negligenciara a defesa do seu reino. Os filisteus, tirando vantagem da condição desprotegida do reino, penetraram bem no centro do país. Assim, enquanto Satanás estivera a insistir com Saul para que empregasse toda a energia na caça a Davi, a fim de que o pudesse destruir, o mesmo espírito maligno inspirara os filisteus para que aproveitassem a oportunidade para levarem a efeito a ruína de Saul, e subverterem o povo de Deus. Quantas vezes é ainda o mesmo ardil empregado pelo adversário máximo! Ele instiga algum coração não consagrado para que acenda a inveja e a contenda na igreja, e então, tirando vantagem da condição dividida do povo de Deus, incita seus agentes a efetuar a sua ruína.

No dia seguinte, Saul deveria empenhar-se em batalha com os filisteus. As sombras de iminente condenação juntavam-se negras

Pág. 676

em redor dele; almejava auxílio e guia. Mas em vão procurou conselho da parte de Deus. "O Senhor lhe não respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas." O Senhor nunca Se desviou de uma alma que foi a Ele em sinceridade e humildade. Por que deixou Saul voltar sem resposta? O rei, por seu próprio ato, privara-se do benefício de todos métodos de inquirir a Deus. Rejeitara o conselho do profeta Samuel; exilara a Davi, o escolhido de Deus; matara os sacerdotes do Senhor. Poderia ele esperar ser atendido por Deus, quando interrompera os condutos de comunicação que o Céu determinara? Afastara pelo seu pecado o Espírito da graça, e poderia ser atendido por sonhos e revelações do Senhor? Saul não se voltou a Deus com humildade e arrependimento. Não era o perdão do pecado e a reconciliação com Deus, o que ele buscava, mas o livramento de seus adversários. Pela sua obstinação e rebelião, separara-se de Deus. Não poderia voltar a não ser por meio do arrependimento e contrição; mas o orgulhoso rei, em sua angústia e desespero, resolveu buscar auxílio de outra fonte. Então disse Saul aos seus servos: "Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiticeira, para que vá a ela e a consulte." I Sam. 28:6 e 7. Saul tinha completo conhecimento do caráter da necromancia. Tinha sido expressamente proibida pelo Senhor, e fora pronunciada sentença de morte contra todos os que praticassem suas artes profanas. Durante a vida de Samuel, Saul ordenara que todos os encantadores e os que tinham espírito de feitiçaria fossem mortos; mas agora, na precipitação do desespero, recorre àquele oráculo que ele condenara como uma abominação. Foi dito ao rei que uma mulher que possuía espírito de feitiçaria estava morando em um esconderijo, em En-Dor. Esta mulher entrara em concerto com Satanás, para entregar-se ao seu domínio, e cumprir seus propósitos; e, em troca, o príncipe do mal operava prodígios a ela, e revelava-lhe coisas secretas. Disfarçando-se, Saul saiu de noite apenas com dois auxiliares, a fim de buscar o retiro da feiticeira. Oh! que deplorável cena! o rei de Israel levado cativo por Satanás, à sua vontade. Que vereda tão tenebrosa, para palmilharem pés humanos, aquela que fora escolhida por quem persistira em ter seu próprio caminho, resistindo às santas influências do Espírito de Deus! Que cativeiro há tão terrível como o daquele que se acha entregue ao domínio do pior dos tiranos? A confiança em Deus e a obediência Pág. 679

à Sua vontade eram as únicas condições sob as quais Saul poderia ser rei de Israel. Se ele tivesse satisfeito estas condições durante todo o seu reinado, seu reino teria estado livre de perigo; Deus teria sido o seu guia, e seu escudo o Onipotente. Deus tivera muita paciência com Saul; e, embora sua rebelião e obstinação tivessem quase silenciado a voz divina na alma, havia ainda oportunidade para o arrependimento. Mas, quando em seu perigo se desviou de Deus para obter luz de um aliado de Satanás, rompera o último laço que o ligava ao seu Criador; colocara-se completamente sob o domínio daquele poder diabólico que durante anos tinha sido exercido sobre ele, e que o levara às bordas da destruição.

Sob o manto das trevas, Saul e seus auxiliares se encaminharam através da planície, e, passando com segurança pelas hostes filistéias, atravessaram o cume das montanhas, em direção à morada solitária da pitonisa de En-Dor. Ali a mulher com espírito de feitiçaria escondera-se para que pudesse secretamente continuar com seus profanos encantamentos. Embora disfarçado como estava, a alta estatura e porte real de Saul declararam que ele não era um soldado comum. A mulher suspeitou que seu visitante era Saul, e seus ricos presentes fortaleceram-lhe as suspeitas. Ao seu pedido: "Peço-te que me adivinhes pelo espírito de feiticeira, e me faças subir a quem eu te disser", respondeu a mulher: "Eis aqui tu sabes o que Saul fez, como tem destruído da terra os adivinhos e os encantadores; por que, pois me armas um laço à minha vida, para me fazer matar?" Então "Saul lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Vive o Senhor, que nenhum mal te sobrevirá por isso". E, quando ela disse: "A quem te farei subir?" ele respondeu: "a Samuel".

Depois de praticar seus encantamentos, ela disse: "Vejo deuses que sobem da terra. ... Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou." I Sam. 28:8-14.

Não foi o santo profeta de Deus que veio com o poder dos encantamentos de uma pitonisa. Samuel não estava presente naquele antro de espíritos maus. A aparência sobrenatural apenas foi produzida pelo poder de Satanás. Ele poderia tão facilmente tomar a forma de Samuel como pôde tomar a de um anjo de luz quando tentou a Cristo no deserto.

Pág. 680

As primeiras palavras da mulher sob o poder de seu encantamento foram dirigidas ao rei: "Por que me tens enganado? Pois tu mesmo és Saul." I Sam. 28:12. Assim, o primeiro ato do espírito mau que personificou o profeta, foi comunicar-se secretamente com aquela ímpia mulher, para avisá-la do engano que fora praticado para com ela. A mensagem a Saul do pretenso profeta foi: "Por que me desinquietaste, fazendo-me subir? Então, disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus Se tem desviado de mim e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso, te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer." I Sam. 28:15.

Quando Samuel vivia, Saul desprezara seu conselho, e ressentira-se de suas reprovações. Agora, porém, na hora de sua angústia e calamidade, sentia que a guia do profeta era sua única esperança; e, a fim de comunicar-se com o embaixador do Céu, recorreu em vão ao mensageiro do inferno! Saul se colocara inteiramente no poder de Satanás; e agora aquele cujo único deleite consiste em ocasionar miséria e destruição, prevaleceu-se da oportunidade para efetuar a ruína do infeliz rei. Em resposta ao agoniado rogo de Saul veio a terrível mensagem, que, pretendia-se, provinha dos lábios de Samuel: "Por que, pois, a mim me perguntas, visto que o Senhor te tem desamparado e se tem feito teu inimigo? Porque o Senhor tem feito para contigo como pela minha boca te disse, e o Senhor tem rasgado o reino da tua mão, e o tem dado ao teu companheiro Davi. Como tu não deste ouvidos à voz do Senhor e não executaste o fervor da Sua ira contra Amaleque, por isso, o Senhor te fez hoje isso. E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus." I Sam. 28:16-19. Em toda a sua conduta de rebelião, Saul fora lisonjeado e iludido por Satanás. É a obra do tentador fazer do pecado coisa insignificante, tornar o caminho da transgressão fácil e convidativo, cegar a mente às advertências e ameaças do Senhor. Satanás, pelo seu poder sedutor, levara Saul a justificar-se em desafio às reprovações e advertências de Samuel. Mas agora, em sua situação extrema, voltou-se a ele, apresentando a enormidade de seu pecado e a desesperança de perdão, para que o oprimisse até o ponto de chegar ao desespero. Nada poderia ter sido melhor Pág. 681

escolhido para lhe destruir o ânimo e confundir o juízo, ou para o impelir ao desespero e destruição de si mesmo.

Saul estava debilitado pelo cansaço e jejum; estava aterrorizado e com a consciência ferida. Caindo a terrível predição aos seus ouvidos, o corpo cambaleou como um carvalho diante da tempestade, e caiu prostrado por terra.

A bruxa encheu-se de espanto. O rei de Israel jazia perante ela como morto. Caso ele perecesse em seu retiro, quais seriam as conseqüências para ela? Suplicou-lhe que se levantasse e tomasse alimento, insistindo que, visto haver corrido perigo de vida para lhe satisfazer o desejo, deveria ele ceder ao seu pedido, para a preservação de sua própria vida. Rogando-lhe o mesmo os seus servos, Saul cedeu finalmente e a mulher pôs diante dele a bezerra cevada, e bolos asmos preparados à pressa. Que cena! Na rústica caverna da feiticeira, em que poucos momentos antes haviam ecoado palavras de condenação, na presença do mensageiro de Satanás, aquele que fora ungido por ordem de Deus como rei sobre Israel sentava-se para comer, preparando-se para a luta mortífera do dia. Antes do romper do dia voltou com seus auxiliares ao acampamento de Israel, para dispor-se ao conflito. Consultando aquele espírito das trevas, Saul destruíra a si mesmo. Opresso pelo terror do desespero, ser-lhe-ia impossível inspirar coragem ao seu exército. Separado da Fonte de força, não poderia guiar as mentes de Israel a olharem a Deus como seu auxiliador. Assim a predição de males operaria o seu próprio cumprimento.

Na planície de Suném e nas encostas do Monte Gilboa, os exércitos de Israel e as hostes dos filisteus empenharam-se em combate mortal. Embora a cena terrível na caverna de En-Dor lhe tivesse repelido do coração toda a esperança, Saul combateu com arrojada bravura em favor de seu trono e de seu reino. Mas foi em vão. "Os homens de Israel fugiram de diante dos filisteus, e caíram atravessados na montanha de Gilboa." Três bravos filhos do rei morreram ao seu lado. Os frecheiros apertaram Saul. Tinha visto seus soldados caírem em redor de si, e seus filhos príncipes cortados pela espada. Ele próprio, estando ferido, não podia nem combater nem fugir. Escapar era impossível; e, resolvido a não ser tomado vivo pelos filisteus, ordenou a seu pajem de armas: "Arranca a tua espada, e atravessa-me com ela." I Sam. 31:1 e 4. Recusando-se o homem a erguer a mão contra o ungido do Senhor, Saul tirou sua própria vida, lançando-se sobre a espada.

Pág. 682

Assim pereceu o primeiro rei de Israel, com o crime de suicídio em sua alma. A vida fora-lhe um fracasso, e sucumbira com desonra e em desespero, porque pusera sua vontade própria e perversa contra a vontade de Deus.

A notícia da derrota espalhou-se larga e extensamente, levando o terror a todo o Israel. O povo fugia das cidades, e os filisteus tomavam posse destas, sem serem incomodados nisso. O reino de Saul, independente de Deus, se tinha quase mostrado a ruína de seu povo. No dia seguinte ao da luta, os filisteus, examinando o campo da batalha para roubar aos mortos, descobriram os corpos de Saul e de seus três filhos. Para completarem seu triunfo, deceparam a cabeça de Saul e o despojaram de suas armas; então a cabeça e a armadura, exalando o cheiro de sangue, foram enviadas ao país dos filisteus como troféu de vitória, "a anunciá-lo no templo dos seus ídolos e entre o povo". A armadura finalmente foi posta no "templo de Astarote", enquanto a cabeça foi fixa no templo de Dagom. Assim a glória da vitória foi atribuída ao poder desses falsos deuses, e o nome de Jeová foi desonrado.

Os cadáveres de Saul e seus filhos foram arrastados a Bete-Se, cidade não distante de Gilboa, e próxima do rio Jordão. Ali foram suspensos com correntes, para serem devorados pelas aves de rapina. Mas os bravos homens de Jabes-Gileade, lembrando-se do livramento de sua cidade por Saul, em seus primeiros e felizes anos, manifestaram agora sua gratidão, retirando os corpos do rei e dos príncipes, e dando-lhes honrosa sepultura. Atravessando o Jordão à noite, "tiraram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos do muro de Bete-Se e, vindo a Jabes os queimaram e tomaram os seus ossos, e os sepultaram debaixo de um arvoredo, em Jabes, e jejuaram sete dias". I Sam. 31:9-13. Assim a nobre ação, praticada quarenta anos antes, assegurou a Saul e seus filhos o sepultamento por mãos ternas e piedosas, na hora tenebrosa da derrota e desonra.

67

Feitiçaria Antiga e Moderna

Pág. 683

O relato escriturístico da visita de Saul à mulher de En-Dor, tem sido uma fonte de perplexidade a muitos estudiosos da Bíblia. Há alguns que assumem a posição de que Samuel estava efetivamente presente na entrevista com Saul; mas a própria Bíblia oferece base suficiente para uma conclusão contrária. Se, como alguns pretendem, Samuel estava no Céu, ele deveria ter sido chamado dali, ou pelo poder de Deus, ou pelo de Satanás. Ninguém poderá crer por um momento sequer que Satanás tivesse poder para chamar do Céu o santo profeta de Deus para honrar os enganos de uma mulher perdida. Tampouco podemos concluir que Deus o chamasse à caverna da feiticeira; pois o Senhor já Se havia recusado a comunicar-Se com Saul, por meio de sonhos, por Urim, ou por profetas. I Sam. 28:6. Tais eram os meios indicados por Deus para a comunicação, e Ele os não preteriria para transmitir a mensagem pela operação de Satanás.

A própria mensagem traz prova suficiente de sua origem. Seu objetivo não foi levar Saul ao arrependimento, mas impeli-lo à ruína; e isto não é a obra de Deus, mas a de Satanás. Ademais, o ato de Saul ao consultar uma pitonisa é citado nas Escrituras como um motivo por que ele foi rejeitado por Deus e abandonado à destruição: "Morreu Saul por causa da sua transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do Senhor, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar. E não buscou ao Senhor, pelo que o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé." I Crôn. 10:13 e 14. Aqui declara-se distintamente que Saul consultou o espírito de adivinhação, e não ao Senhor. Ele não se comunicou com Samuel, o profeta de Deus; mas, mediante a feiticeira, entreteve comunicação com Satanás. Este não podia apresentar o verdadeiro Samuel, mas apresentou um falsificado, que serviu ao seu objetivo de enganar. Pág. 684

Quase todas as formas da antiga feitiçaria e encantamentos baseavam-se na crença da comunicação com os mortos. Aqueles que praticavam as artes da necromancia pretendiam ter relações com os espíritos dos mortos, e obter por meio deles conhecimento de acontecimentos futuros. A este costume de consultar os mortos se faz referência na profecia de Isaías: "Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; - não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?" Isa. 8:19. Esta mesma crença na comunicação com os mortos formou a pedra fundamental da idolatria gentílica. Os deuses dos gentios acreditava-se que eram os espíritos deificados dos heróis mortos. Assim a religião dos gentios era um culto aos mortos. Isto se evidencia pelas Escrituras. No relato do pecado de Israel em Bete-Peor, declara-se: "E Israel deteve-se em Sitim, e o povo começou a prostituir-se com as filhas dos moabitas. E convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. Juntando-se pois Israel a Baal-Peor." Núm. 25:1-3. O salmista nos diz a que espécie de deuses estes sacrifícios eram oferecidos. Falando da mesma apostasia dos israelitas, diz ele: "Juntaram-se com Baal-Peor, e comeram os sacrifícios dos mortos", isto é, sacrifícios que tinham sido oferecidos aos mortos. Sal. 106:28.

A deificação dos mortos tem tido lugar preeminente em quase todo sistema de paganismo, como também tem a suposta comunicação com os mortos. Acreditava-se que os deuses comunicavam sua vontade aos homens, e davam-lhes também conselhos, quando consultados. Desta natureza eram os famosos oráculos da Grécia e de Roma.

A crença na comunicação com os mortos é ainda mantida, mesmo nos países professos cristãos. Sob o nome de Espiritismo, a prática de comunicar-se com os seres que pretendem ser os espíritos dos mortos, tem-se espalhado largamente. É ela calculada a ganhar as simpatias daqueles que depuseram seus queridos na sepultura. Seres espirituais algumas vezes aparecem a pessoas sob a forma de seus amigos falecidos, e relatam incidentes ligados com sua vida, e efetuam atos que realizavam quando vivos. Deste modo levam os homens a crerem que seus amigos mortos são anjos que pairam sobre eles, e com eles se comunicam.

Pág. 685

Aqueles que assim pretendem ser espíritos dos mortos, são considerados com certa idolatria, e para muitos sua palavra tem maior valor do que a Palavra de Deus. Muitos há contudo, que consideram o espiritismo como um simples engano. As manifestações pelas quais ele apóia suas pretensões a um caráter sobrenatural, são atribuídas à fraude por parte do médium. Mas, conquanto seja verdade que os resultados da velhacaria tenham sido muitas vezes apresentados como manifestações genuínas, tem havido também provas notáveis de poder sobrenatural. E muitos que rejeitam o espiritismo como resultado da esperteza ou astúcia humana, quando defrontados com manifestações que não possam explicar sob este ponto de vista, serão levados a reconhecer suas pretensões.

O espiritismo moderno, e as formas da antiga feitiçaria e adoração de ídolos - tendo todos a comunicação com os mortos como seu princípio vital - fundam-se naquela primeira mentira pela qual Satanás seduziu Eva no Éden: "Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes... sereis como Deus." Gên. 3:4 e 5. Baseados na falsidade e perpetuando esta, são semelhantemente oriundos do pai da mentira.

Aos hebreus era expressamente proibido empenhar-se, sob qualquer forma, em pretensa comunicação com os mortos. Deus fechou eficazmente esta porta quando disse: "Os mortos não sabem coisa nenhuma. ... E já não têm parte alguma neste século, em coisa alguma do que se faz debaixo do Sol." Ecl. 9:5 e 6. "Sai-lhes o espírito, e eles tornam-se em sua terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos." Sal. 146:4. E o Senhor declarou a Israel: "Quando uma alma se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir após deles, Eu porei a Minha face contra aquela alma, e a extirparei do meio do seu povo." Lev. 20:6.

Os "espíritos familiares" não eram espíritos dos mortos, mas anjos maus, mensageiros de Satanás. A antiga idolatria, que, como vimos, compreende tanto o culto aos mortos como a pretensa comunicação com eles, declara-se na Bíblia ter sido culto aos demônios. O apóstolo Paulo advertindo seus irmãos contra o participarem de qualquer maneira da idolatria de seus vizinhos pagãos, diz: "As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios." I Cor. 10:20. O salmista, falando de Israel, Pág. 686

diz que "sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios"; e no versículo seguinte explica que os sacrificaram "aos ídolos de Canaã". Sal. 106:37 e 38. Em seu suposto culto aos mortos, estavam na realidade adorando demônios.

O espiritismo moderno, repousando sobre a mesma base, não é senão um reavivamento, sob uma nova forma, da feitiçaria e culto aos demônios que Deus condenou e proibiu na antiguidade. Acha-se ele predito nas Escrituras, que declaram que "nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios". I Tim. 4:1. Paulo, em segunda carta aos tessalonicenses, indica a operação especial de Satanás pelo espiritismo, como um acontecimento a ocorrer imediatamente antes do segundo advento de Cristo. Falando da segunda vinda de Cristo, declara que ela é "segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira". II Tess. 2:9. E Pedro, descrevendo os perigos a que a igreja estaria exposta nos últimos dias, diz que, assim como houve falsos profetas que levaram Israel ao pecado, haverá falsos ensinadores "que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou. ... E muitos seguirão as suas dissoluções". II Ped. 2:1 e 2. Aqui o apóstolo indicou uma das mais assinaladas características dos ensinadores espíritas. Eles se recusam a reconhecer a Cristo como o Filho de Deus. Com relação a tais instrutores o amado João declara: "Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho. Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai." I João 2:22 e 23. O espiritismo, negando a Cristo, nega tanto ao Pai como ao Filho, e a Bíblia denuncia-o como manifestações do anticristo. Pela predição da sorte de Saul, dada mediante a mulher de En-Dor, planejava Satanás enredar o povo de Israel. Esperava que se lhes inspirasse confiança na feiticeira, e fossem levados a consultar a mulher. Assim se desviariam de Deus como seu conselheiro, e colocar-se-iam sob a guia de Satanás. O engodo pelo qual o espiritismo atrai as multidões é o seu pretenso poder de descerrar o véu do futuro, e revelar aos homens o que Deus ocultou. Deus desvendou em Sua Palavra diante de nós os grandes acontecimentos do futuro - tudo que nos é essencial sabermos; e deu-nos um guia seguro para nossos pés por entre todos os seus perigos; é, porém, intuito de Satanás destruir a confiança dos homens Pág. 687

em Deus, torná-los descontentes com sua condição na vida, e levá-los a procurar conhecimento daquilo que Deus sabiamente lhes encobriu, e desprezar o que Ele revelou em Sua santa Palavra. Há muitos que se tornam inquietos quando não podem saber o desfecho definido das questões. Não podem suportar a incerteza, e em sua impaciência recusam-se a esperar para verem a salvação de Deus. A apreensão de males impele-os quase à loucura. Dão lugar aos seus sentimentos de rebelião, correm de um lado para outro, com mágoa intensa, procurando entendimento a respeito daquilo que não foi revelado. Se tão-somente confiassem em Deus, e vigiassem e orassem, encontrariam consolo divino. Seu espírito se acalmaria pela comunhão com Deus. Os cansados e oprimidos encontrariam descanso para suas almas, se tão-somente fossem a Jesus; mas, quando rejeitam os meios que Deus ordenou para o seu conforto, e recorrem a outras fontes, esperando saber o que Deus recusou revelar, cometem o erro de Saul, e deste modo apenas obtêm conhecimento do mal. Deus não Se agrada com esta conduta, e Ele o exprimiu nos termos mais explícitos. Esta impaciente pressa de rasgar o véu do futuro revela falta de fé em Deus, e deixa a alma aberta às sugestões do máximo enganador. Satanás leva os homens a consultar os que têm espíritos familiares; e, revelando coisas ocultas do passado, inspira confiança em seu poder para predizer coisas vindouras. Pela experiência adquirida através dos longos séculos, ele pode raciocinar partindo das causas aos efeitos, e predizer muitas vezes, com certo grau de precisão, alguns dos acontecimentos futuros da vida do homem. Assim está ele habilitado a enganar pobres almas transviadas, e levá-las sob seu poder, e conduzi-las cativas à sua vontade.

Deus nos deu esta advertência pelo Seu profeta: "Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; - não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos? À Lei e ao Testemunho! se eles não falarem segundo esta Palavra, não haverá manhã para eles." Isa. 8:19 e 20. Aqueles que têm um Deus santo, infinito em sabedoria e poder, irão aos adivinhos, cujo saber vem de sua intimidade com o inimigo de nosso Senhor? Deus mesmo é a luz de Seu povo; Ele Pág. 688

lhes manda fixar os olhos, pela fé, nas glórias que estão veladas à vista humana. O Sol da justiça envia ao coração Seus brilhantes raios; eles têm luz do trono dos Céus, e não têm o desejo de desviar-se da fonte de luz aos mensageiros de Satanás.

A mensagem do demônio a Saul, posto que fosse uma denúncia de pecado e uma profecia de castigo, não visava corrigi-lo, mas instigá-lo ao desespero e à ruína. Muitas mais vezes, porém, presta-se melhor aos intuitos do tentador atrair os homens à destruição pela lisonja. O ensino dos deuses-demônios, nos antigos tempos, favorecia a mais baixa licenciosidade. Os preceitos divinos, que condenam o pecado e impõem a justiça, eram postos de lado; a verdade era considerada levianamente, e a impureza não somente era permitida como também ordenada. O espiritismo declara que não há morte, pecado, juízo, ou condenação; que "os homens são semideuses não decaídos"; que o desejo é a mais elevada lei; e que o homem é apenas responsável a si. As barreiras que Deus ergueu para proteger a verdade, a pureza e a reverência, são afastadas, e muitos assim se tornam audazes no pecado. Não sugere tal ensino uma origem semelhante à do culto aos demônios? O Senhor apresentou a Israel os resultados de entreterem comunicação com os espíritos maus, nas abominações dos cananeus: eles eram sem afeição natural, idólatras, adúlteros, homicidas e abomináveis por todo pensamento corrupto e prática revoltante. Os homens não conhecem seu próprio coração; pois "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso". Jer. 17:9. Mas Deus compreende as tendências da natureza depravada do homem. Naquele tempo, como agora, Satanás estava vigilante para acarretar condições favoráveis à rebelião, a fim de que o povo de Israel se tornasse tão aborrecível a Deus como foram os cananeus. O adversário das almas está sempre alerta para abrir canais à torrente livre de males sobre nós; pois deseja que sejamos arruinados e condenados diante de Deus.

Satanás estava decidido a conservar a posse da terra de Canaã; e, quando se tornou ela a habitação dos filhos de Israel, e a lei de Deus se fez a lei do país, ele odiou a Israel com ódio cruel e funesto, e tramou a sua destruição. Pela operação de espíritos maus, deuses estranhos foram introduzidos; e, por causa da transgressão, o povo escolhido foi finalmente disperso da terra da Pág. 689

promessa. Esta história Satanás está esforçando para repetir em nosso tempo. Deus está tirando Seu povo das abominações do mundo, a fim de que guardem Sua lei; e, por causa disto, a ira do "acusador de nossos irmãos" não tem limites. "O diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo." Apoc. 12:10 e 12. A terra antitípica da promessa está precisamente diante de nós, e Satanás está resolvido a destruir o povo de Deus, e separá-lo de sua herança. O aviso: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Mar. 14:38), nunca foi mais necessário do que hoje. A palavra do Senhor ao antigo Israel é também dirigida a Seu povo nesta época: "Não vos virareis para os adivinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles" (Lev. 19:31); "pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor." Deut. 18:12. 68

Davi em Ziclague

Pág. 690

Davi e seus homens não tinham tomado parte na batalha entre Saul e os filisteus, posto que tivessem marchado com estes ao campo de lutas. Preparando-se os dois exércitos para se empenharem em combate, encontrou-se o filho de Jessé em uma situação de grande perplexidade. Esperava-se que ele batalhasse em favor dos filisteus. Caso abandonasse na luta o posto a ele designado, e se afastasse do campo, não somente ficaria com o estigma de covardia, mas de ingratidão e traição a Aquis, que o protegera e nele confiara. Tal ato cobriria seu nome de infâmia, e o exporia à ira de inimigos mais temíveis do que Saul. Contudo, não poderia absolutamente consentir em combater contra Israel. Caso fizesse isto, far-se-ia traidor ao seu país - inimigo de Deus e de Seu povo. Tal lhe vedaria para sempre o caminho ao trono de Israel; e, se Saul fosse morto na luta, sua morte seria atribuída a Davi. Davi foi levado a compenetrar-se de que tinha errado seu caminho. Muito melhor ter-lhe-ia sido refugiar-se nas potentes fortalezas de Deus, nas montanhas, do que entre os declarados inimigos de Jeová e Seu povo. Mas o Senhor, em Sua grande misericórdia, não castigou este erro de Seu servo, deixando-o entregue a si mesmo em sua angústia e perplexidade; pois, embora Davi, perdendo seu apego ao poder divino, houvesse vacilado, e se desviado da senda da estrita integridade, era ainda o propósito de seu coração ser fiel a Deus. Enquanto Satanás e sua hoste estavam ocupados, auxiliando os adversários de Deus e de Israel a fazerem planos contra um rei que abandonara a Deus, os anjos do Senhor estavam agindo para livrarem Davi do perigo em que caíra. Mensageiros celestiais atuavam nos príncipes filisteus para que protestassem contra a presença de Davi e sua força no exército, no conflito que se aproximava.

Pág. 691

"Que fazem aqui estes hebreus?" exclamaram os príncipes filisteus, acercando-se de Aquis. Este, não querendo desfazer-se de um aliado tão importante, respondeu: "Não é este Davi, o criado de Saul, rei de Israel, que esteve comigo há alguns dias ou anos? e coisa alguma achei nele desde o dia em que se revoltou, até ao dia de hoje."

Mas os príncipes iradamente persistiram em seu pedido: "Faze voltar a este homem, e torne ao seu lugar em que tu o puseste, e não desça conosco à batalha, para que não se nos torne na batalha em adversário; porque com que aplacaria este a seu senhor? porventura não seria com as cabeças destes homens? Não é este aquele Davi, de quem uns aos outros respondiam nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, porém Davi as suas dezenas de milhares?" A morte de seu famoso campeão e a vitória de Israel naquela ocasião ainda estavam vivos na memória dos príncipes filisteus. Não criam que Davi combatesse contra seu próprio povo; e, caso tomasse, no calor do combate, o lado deles, poderia infligir maior dano aos filisteus do que faria o exército todo de Saul. Assim Aquis foi obrigado a ceder, e, chamando a Davi, disse-lhe: "Vive o Senhor, que tu és reto, e que a tua entrada e a tua saída comigo no arraial é boa aos meus olhos; porque nenhum mal em ti achei, desde o dia em que a mim vieste, até ao dia de hoje; porém aos olhos dos príncipes não agradas. Volta, pois, agora, e volta em paz, para que não faças mal aos olhos dos príncipes dos filisteus." I Sam. 29:3-7.

Davi, receando trair seus verdadeiros sentimentos, respondeu: "Por quê? que fiz? ou que achaste no teu servo desde o dia em que estive diante de ti, até ao dia de hoje, para que não vá e peleje contra os inimigos do rei meu senhor?"

A resposta de Aquis deve ter produzido um estremecimento de vergonha e remorso no coração de Davi, ao pensar quão indignos de um servo de Jeová eram os enganos a que se rebaixara. "Bem o sei; e que na verdade aos meus olhos és bom como um anjo de Deus", disse o rei; "porém disseram os príncipes dos filisteus: Não suba este conosco à batalha. Agora, pois, amanhã de madrugada levanta-te com os criados do teu senhor, que têm vindo contigo; e, levantando-vos pela manhã de madrugada, e havendo luz, parti." I Sam. 29:8-10. Deste modo a cilada em que Davi se enredara, rompera-se e ele ficou livre. Pág. 692

Depois de três dias de viagem, Davi e seu grupo de seiscentos homens chegaram em Ziclague, sua residência entre os filisteus. Mas seus olhos encontraram uma cena de desolação. Os amalequitas, tirando vantagem da ausência de Davi e sua força, tinham-se vingado de suas incursões em seu território. Haviam surpreendido a cidade, enquanto esta não se encontrava guardada, e, tendo-a saqueado e queimado, partiram, levando todas as mulheres e crianças como cativos, juntamente com muito despojo.

Mudos de horror e espanto, Davi e seus homens por algum tempo olharam em silêncio para as ruínas enegrecidas e a queimar-se lentamente. Então, quando um senso de sua terrível desolação os assaltou, aqueles guerreiros cheios de cicatrizes recebidas em batalhas "alçaram a sua voz, e choraram, até que neles não houve mais força para chorar". I Sam. 30:4.

Com isto foi Davi de novo castigado pela falta de fé que o levara a colocar-se entre os filisteus. Teve oportunidade de ver quanta segurança poderia obter-se entre os adversários de Deus e de Seu povo. Os seguidores de Davi voltaram-se contra ele, como causa de suas calamidades. Ele tinha provocado a vingança dos amalequitas pelo seu ataque contra eles; todavia, demasiado confiante em sua segurança em meio de seus inimigos, deixara desguarnecida a cidade. Loucos de dor e raiva, seus soldados estavam agora prontos para quaisquer medidas extremas, e ameaçaram mesmo apedrejar seu líder. Davi parecia desligado de todo o apoio humano. Tudo que lhe era caro na Terra, dele havia sido arrebatado. Saul o expulsara de seu país; os filisteus o expulsaram do arraial; os amalequitas pilharam sua cidade; suas mulheres e filhos haviam sido feitos prisioneiros; e os próprios amigos de seu grupo ligaram-se contra ele, e o ameaçavam mesmo de morte. Nesta hora de extrema angústia, Davi, em vez de permitir que seu espírito se ocupasse com tais circunstâncias dolorosas, olhou com fervor a Deus à espera de auxílio. Ele "animou-se no Senhor". Reviu sua vida passada, cheia de peripécias. Em que o havia o Senhor abandonado? Sua alma refrigerou-se, lembrando-se das muitas provas do favor de Deus. Os seguidores de Davi, pelo seu descontentamento e impaciência, tornaram sua aflição duplamente atroz; mas o homem de Deus, tendo mesmo maior motivo de pesar, portou-se com coragem. "No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti" (Sal. 56:3) - era a expressão de seu coração. Embora ele mesmo

Pág. 693

não pudesse divisar um meio para sair da dificuldade, Deus podia vê-lo, e quis ensinar-lhe o que fazer. Mandando chamar Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque, "consultou Davi ao Senhor, dizendo: Perseguirei eu a esta tropa? alcançá-la-ei?" A resposta foi: "Persegue-a, porque decerto a alcançarás, e tudo libertarás." I Sam. 30:8.

A estas palavras o tumulto de mágoa e paixão cessou. Davi e seus soldados imediatamente se puseram em perseguição de seu adversário que fugia. Tão rápida foi a sua marcha que, em chegando ao ribeiro de Besor, que deságua perto de Gaza, no Mediterrâneo, duzentos do grupo foram obrigados pelo cansaço a ficar atrás. Mas Davi e os quatrocentos restantes avançaram impetuosamente, nada temendo.

Avançando, chegaram a um escravo egípcio, que estava aparentemente a ponto de morrer de cansaço e fome. Recebendo, porém, alimento e água, reanimou-se, e souberam que fora deixado a morrer, pelo seu cruel senhor, um amalequita pertencente à força invasora. Ele narrou a história da incursão e pilhagem; e, então, tendo exigido a promessa de que não seria morto ou entregue ao seu senhor, consentiu em guiar o grupo de Davi ao acampamento de seus inimigos. Chegando à vista do arraial, defrontaram seus olhares uma cena de orgia. O exército vitorioso realizava uma grande festa. "Estavam espalhados sobre a face de toda a terra, comendo, e bebendo, e dançando, por todo aquele grande despojo que tomaram da terra dos filisteus e da terra de Judá." I Sam. 30:16. Ordenou-se um ataque imediato, e os perseguidores arremessaram-se ferozmente sobre sua presa. Os amalequitas ficaram surpresos e tomados de confusão. A batalha prolongou-se por toda aquela noite e o dia seguinte, até que quase todo o exército fosse morto. Apenas um grupo de quatrocentos homens, montados em camelos, conseguiram escapar. Cumpriu-se a palavra do Senhor. "Livrou Davi tudo quanto tomaram os amalequitas; também as suas duas mulheres livrou Davi. E ninguém lhes faltou, desde o menor até ao maior, e até os filhos e as filhas; e também desde o despojo até tudo quanto lhes tinham tomado, tudo Davi tornou a trazer." I Sam. 30:18 e 19.

Quando Davi invadira o território dos amalequitas, passara ao fio da espada todos os habitantes que caíram em suas mãos.

Pág. 694

Se não fosse o poder repressor de Deus, os amalequitas ter-se-iam desforrado da mesma maneira, destruindo o povo de Ziclague. Resolveram poupar os prisioneiros, desejando aumentar a honra do triunfo em virtude de levar para seu país um grande número deles, e tencionando mais tarde vendê-los como escravos. Assim, sem o saber, cumpriram o propósito de Deus, conservando os prisioneiros isentos de qualquer mal, para serem restituídos aos seus maridos e pais. Todos os poderes terrestres estão sob o domínio do Ser infinito. Ao mais poderoso governador, ao mais cruel opressor, diz Ele: "Até aqui virás, e não mais adiante." Jó 38:11. O poder de Deus é constantemente exercido para contrariar as forças do mal: Ele está sempre em ação entre os homens, não para os destruir, mas para corrigi-los e preservá-los. Com grande regozijo os vitoriosos iniciaram a marcha em direção à sua terra. Chegando aos seus companheiros que tinham ficado atrás, os mais egoístas e desregrados dos quatrocentos insistiram em que aqueles que não tinham tomado parte na batalha não participassem dos despojos; que lhes bastava cada um recuperar sua esposa e filhos. Mas Davi não quis permitir tal disposição. "Não fareis assim, irmãos meus", disse ele, "com o que nos deu o Senhor. ... Qual é a parte dos que desceram à peleja, tal também será a parte dos que ficaram com a bagagem; igualmente repartirão." I Sam. 30:23 e 24. Assim foi resolvida a questão, e mais tarde tornou-se uma lei em Israel que todos os que com honra estivessem ligados a uma campanha militar devessem participar dos despojos, do mesmo modo que os que se achavam empenhados no próprio combate.

Além de recuperar todo o despojo que fora tomado de Ziclague, Davi e seu grupo apreenderam extensos rebanhos de ovelhas e vacas pertencentes aos amalequitas. Estes foram chamados "o despojo de Davi" (I Sam. 30:20); e, voltando a Ziclague, enviou deste despojo presentes aos anciãos de sua própria tribo de Judá. Nesta distribuição foram lembrados todos os que ampararam a ele e seus seguidores nas fortalezas das montanhas, quando foi obrigado a fugir de um lugar para outro para conservar a vida. A bondade e a simpatia deles, tão preciosas ao perseguido fugitivo, foram desta maneira gratamente reconhecidas.

Era o terceiro dia depois que Davi e seus guerreiros voltaram a Ziclague. Enquanto trabalhavam para restaurar suas casas arruinadas, aguardavam com coração ansioso notícias da batalha Pág. 695

que sabiam dever ter sido ferida entre Israel e os filisteus. Subitamente um mensageiro entrou na cidade, "com vestidos rotos e com terra sobre a cabeça". II Sam. 1:2-12. Foi logo levado a Davi, diante de quem se curvou com reverência, exprimindo reconhecê-lo como um príncipe poderoso, cujo favor desejava. Davi indagou ansiosamente como tinha ido a batalha. O fugitivo referiu a derrota e morte de Saul, e a morte de Jônatas. Mas foi além de uma simples declaração dos fatos. Supondo evidentemente que Davi deveria alimentar inimizade para com o seu implacável perseguidor, o estrangeiro esperava conseguir honra para si como o matador do rei. Com um ar de vanglória, o homem pôs-se a relatar que durante a batalha encontrou o rei de Israel ferido, e mui assediado pelos seus adversários, e que pelo seu próprio pedido ele, o mensageiro, o matara. A coroa de sua cabeça e a pulseira de ouro que trazia no braço ele as trouxera a Davi. Confiantemente esperava que estas notícias fossem recebidas com alegria, e que receberia uma boa recompensa pela parte que desempenhara. Mas "apanhou Davi os seus vestidos, e os rasgou, como também todos os homens que estavam com ele. E prantearam, e choraram, e jejuaram até à tarde por Saul, e por Jônatas, seu filho, e pelo povo do Senhor, e pela casa de Israel, porque tinham caído à espada". Passado o primeiro abalo da terrível notícia, os pensamentos de Davi voltaram-se para o núncio estrangeiro, e para o crime de que, segundo sua própria declaração, ele era culpado. O líder perguntou ao moço: "Donde és tu?" E ele respondeu: "Sou filho de um homem estrangeiro, amalequita. E Davi lhe disse: Como não temeste tu estender a mão para matares ao ungido do Senhor?" Duas vezes Davi tivera Saul em seu poder; mas, quando insistiram para que o matasse, recusara-se levantar a mão contra aquele que fora consagrado por ordem de Deus para governar Israel. No entanto o amalequita não receara jactar-se de que matara o rei de Israel. Acusara a si mesmo de um crime digno de morte, e a pena foi infligida imediatamente. Disse Davi: "O teu sangue seja sobre a tua cabeça, porque a tua própria boca testificou contra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor." II Sam. 1:13-16. A dor de Davi pela morte de Saul era sincera e profunda, demonstrando a generosidade de uma natureza nobre. Não exultou com a queda de seu inimigo. O obstáculo que lhe impedia o acesso ao trono de Israel estava removido, mas ele não se

Pág. 696

regozijou com isto. A morte apaga a lembrança das desconfianças e crueldade de Saul, e agora em coisa alguma de sua história pensava a não ser naquilo que era nobre e digno de um rei. O nome de Saul estava ligado com o de Jônatas, cuja amizade fora tão fiel e tão abnegada. O cântico no qual Davi exprimiu os sentimentos de seu coração, tornou-se um tesouro para a sua nação, e para o povo de Deus em todas as eras subseqüentes: "Ah, ornamento de Israel! nos teus altos fui ferido.

Como caíram os valentes!

Não o noticieis em Gate,

Não o publiqueis nas ruas de Ascalom,

Para que não se alegrem as filhas dos filisteus,

Para que não saltem de contentamento as filhas dos incircuncisos. Vós, montes de Gilboa,

Nem orvalho, nem chuva caia sobre vós,

Nem sobre vós, campos de ofertas alçadas.

Pois aí desprezivelmente foi arrojado o escudo dos valentes, O escudo de Saul, como se não fora ungido com óleo. ... Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida,

Também na sua morte se não separaram;

Eram mais ligeiros do que as águias,

Mais fortes do que os leões.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,

Que vos vestia de escarlata em delícias,

Que vos fazia trazer ornamentos de ouro sobre os vossos vestidos. Como caíram os valentes no meio da peleja!

Jônatas nos teus altos foi ferido.

Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas;

Quão amabilíssimo me eras!

Mais maravilhoso me era o teu amor

Do que o amor das mulheres.

Como caíram os valentes,

E pereceram as armas de guerra!" II Sam. 1:19-27.

69

Davi Chamado ao Trono

Pág. 697

A morte de Saul removeu os perigos que haviam feito de Davi um exilado. Estava agora aberto o caminho para ele voltar para a sua terra. Acabando-se os dias de lamentação por Saul e Jônatas, "Davi consultou ao Senhor, dizendo: Subirei a alguma das cidades de Judá? E disse-lhe o Senhor: Sobe. E disse Davi: Para onde subirei? E disse: Para Hebrom." II Sam. 2:1. Hebrom ficava a trinta quilômetros ao norte de Berseba, e a meio caminho entre esta cidade e o futuro local de Jerusalém. Chamava-se primitivamente Quiriate-Arba, a cidade de Arba, pai de Enaque. Mais tarde se chamou Manre, e ali foi o lugar em que foram sepultados os patriarcas, a "cova de Macpela" (Gên. 25:9). Hebrom tinha sido a possessão de Calebe, e era agora a cidade principal de Judá. Ficava em um vale rodeado de fértil região montesina e de terras produtivas. As mais belas vinhas da Palestina achavam-se em seus termos, juntamente com numerosas plantações de oliveiras e outras árvores frutíferas.

Davi e seus seguidores imediatamente se prepararam para obedecer à instrução que tinham recebido de Deus. Os seiscentos homens armados, juntamente com suas mulheres e filhos, seus rebanhos e vacas, logo se acharam em caminho para Hebrom. Entrando a caravana na cidade, os homens de Judá estavam esperando para darem as boas-vindas a Davi como futuro rei de Israel. Imediatamente se tomaram disposições para a sua coroação. "E ungiram ali a Davi rei sobre a casa de Judá." II Sam. 2:4. Mas não se fez nenhum esforço para estabelecer sua autoridade, pela força, sobre as outras tribos. Um dos primeiros atos do rei recém-coroado foi exprimir sua afetuosa consideração pela memória de Saul e Jônatas. Tendo conhecimento da ação heróica dos homens de Jabes-Gileade, retirando os corpos dos chefes mortos, e dando-lhes honrosa sepultura, enviou Davi uma embaixada a Jabes com esta mensagem:

Pág. 698

"Benditos sejais vós do Senhor, que fizestes tal beneficência a vosso senhor, a Saul, e o sepultastes! Agora, pois, o Senhor use convosco de beneficência e fidelidade; e também eu vos farei este bem. "II Sam. 2:5 e 6. E anunciou sua subida ao trono de Judá, e pediu fidelidade por parte daqueles que haviam mostrado tão sincera lealdade.

Os filisteus não se opuseram à ação de Judá, tornando a Davi rei. Eles o haviam favorecido em seu exílio, a fim de molestar e enfraquecer o reino de Saul; e agora esperavam que por causa de sua anterior bondade para com Davi, a extensão do poder deste resultaria, afinal, em proveito deles. Mas o reinado de Davi não estaria livre de dificuldades. Com a sua coroação começou o negro registro de conspirações e rebeliões. Davi não sentou no trono de um traidor. Deus o escolhera para ser rei de Israel, e não tinha havido motivo para desconfiança e oposição. No entanto, mal havia sido sua autoridade reconhecida pelos homens de Judá, quando, pela influência de Abner, foi Isbosete, filho de Saul, proclamado rei e posto sobre um trono rival em Israel. Isbosete não era senão um representante fraco e incompetente da casa de Saul, ao passo que Davi estava preeminentemente qualificado para assumir as responsabilidades do reino. Abner, o fator principal no levantamento de Isbosete ao poder real, tinha sido comandante-geral do exército de Saul, e era o homem mais distinto em Israel. Abner sabia que Davi tinha sido designado pelo Senhor ao trono de Israel; mas tendo-o tanto tempo afligido e perseguido, não estava agora disposto a que o filho de Jessé sucedesse no reino em que governara Saul.

As circunstâncias sob as quais Abner foi posto, serviram para desenvolver seu verdadeiro caráter, e mostraram ser ele ambicioso e sem escrúpulos. Tinha estado intimamente ligado a Saul, e fora influenciado pelo espírito do rei para desprezar o homem que Deus escolhera para reinar sobre Israel. Seu ódio aumentara pela censura incisiva que Davi lhe fizera na ocasião em que a bilha de água e a lança do rei foram tiradas de ao lado de Saul, enquanto ele dormia no acampamento. Lembrava-se de como Davi tinha bradado aos ouvidos do rei e do povo de Israel: "Porventura não és varão? e quem há em Israel como tu, por que, pois, não guardaste tu o rei teu senhor ? ... Não é bom isto, que fizeste; vive o Senhor, que sois dignos de morte, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do Senhor." I Sam. 26:15 e 16. Esta