Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 8 de 9 · parte 3/4

Páginas do PDF

Patriarcas e Profetas

O Primeiro Rei de Israel

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Gostava de ouvir Davi tocar harpa, e o espírito mau parecia afastar-se como por encanto durante aquele tempo; um dia, porém, quando o jovem estava a servir perante ele, e de seu instrumento arrancava música suave, acompanhando sua voz a cantar os louvores de Deus, subitamente arremessou Saul a lança

Pág. 651

contra o músico com o intuito de dar fim à sua vida. Davi foi preservado pela intervenção de Deus, e ileso fugiu da ira do enfurecido rei.

Aumentando o ódio de Saul contra Davi, tornou-se ele cada vez mais atento para encontrar uma oportunidade a fim de lhe tirar a vida; mas nenhum de seus planos contra o ungido do Senhor foi bem-sucedido. Saul entregou-se ao domínio do espírito mau que o governava, ao passo que Davi confiava nAquele que é poderoso em conselho, e forte para livrar. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Prov. 9:10) e a oração de Davi era continuamente dirigida a Deus, para que pudesse andar diante dEle de uma maneira perfeita.

Desejando libertar-se da presença de seu rival, o rei "o desviou de si, e o pôs por chefe de mil. ... Porém todo o Israel e Judá amava a Davi". I Sam. 18:13 e 16. O povo bem depressa viu que Davi era pessoa competente, e que os negócios entregues às suas mãos eram dirigidos com sabedoria e perícia. Os conselhos do moço eram de caráter sábio e discreto, e demonstraram a conveniência de segui-los, enquanto o juízo de Saul era por vezes indigno de confiança, e não prudentes as suas decisões. Posto que Saul estivesse sempre alerta procurando uma oportunidade para destruir a Davi, tinha receio dele, visto ser evidente que o Senhor estava com ele. O caráter irrepreensível de Davi suscitou a ira do rei; ele imaginava que a própria vida e presença de Davi lançavam opróbrio sobre ele, visto que contrastadamente apresentavam com desvantagem o seu caráter. Era a inveja o que infelicitava a Saul, e punha em risco o humilde súdito de seu trono. Que mal indescritível tem feito em nosso mundo este mau traço de caráter! A mesma inimizade que moveu o coração de Caim contra seu irmão Abel, porque as obras de Abel eram justas, e Deus o honrava, e as suas eram más, e o Senhor o não podia abençoar, essa mesma inimizade existiu no coração de Saul. A inveja é filha do orgulho, e, se é alimentada no coração, determinará o ódio, e finalmente a vingança e o assassínio. Satanás mostrou seu próprio caráter, incitando o furor de Saul contra aquele que nunca lhe fizera mal. O rei mantinha estrita vigilância sobre Davi, esperando encontrar-lhe alguma ocasião de indiscrição ou precipitação que pudesse servir como desculpa para acarretar-lhe a desonra. Entendia que não poderia ficar satisfeito antes que tirasse a vida do moço e ainda assim estivesse justificado perante a nação pelo Pág. 652

seu mau ato. Pôs uma cilada para os pés de Davi, instando com ele para que dirigisse a guerra contra os filisteus com um vigor ainda maior, e prometendo, como recompensa ao seu valor, casamento com a filha mais velha da casa real. A resposta modesta de Davi a esta proposta foi: "Quem sou eu, e qual é a minha vida e a família de meu pai em Israel, para vir a ser genro do rei?" O rei manifestou sua insinceridade, dando a princesa em casamento a outro. Uma afeição a Davi por parte de Mical, a filha mais moça de Saul, proporcionou ao rei outra oportunidade para tramar contra seu rival. A mão de Mical foi oferecida ao moço sob condição de ser apresentada a prova de derrota e morticínio de certo número de seus adversários nacionais: "Saul tentava fazer cair a Davi pela mão dos filisteus"; Deus, porém, protegeu o Seu servo. Davi voltou vitorioso da batalha, para tornar-se genro do rei. "Mical, filha de Saul, o amava" (I Sam. 18:18, 25 e 20), e o rei, enraivecido, viu que suas tramas haviam resultado no engrandecimento daquele a quem procurava destruir. Estava ainda mais certo de que este era o homem que o Senhor dissera ser melhor do que ele, e que reinaria no trono de Israel, em seu lugar. Arremessando de si todo o disfarce, expediu uma ordem a Jônatas e aos oficiais da corte para tirarem a vida daquele a quem odiava. Jônatas revelou a intenção do rei a Davi, e mandou-o que se escondesse, enquanto ele pleitearia com seu pai a fim de poupar a vida do libertador de Israel. Expôs ao rei o que Davi tinha feito para preservar a honra e mesmo a vida da nação, e que terrível crime repousaria sobre o assassino daquele que Deus usara para dispersar seus inimigos. Comoveu-se a consciência do rei, e abrandou-se-lhe o coração. "E jurou Saul: Vive o Senhor, que não morrerá." I Sam. 19:6. Davi foi trazido a Saul, e servia em sua presença, como havia feito anteriormente.

De novo foi declarada a guerra entre os israelitas e os filisteus, e Davi conduziu o exército contra os inimigos. Uma grande vitória foi ganha pelos hebreus, e o povo do reino louvou sua sabedoria e heroísmo. Isto serviu para instigar a anterior animosidade de Saul contra ele. Enquanto o moço tocava perante o rei, enchendo o palácio de suave harmonia, a paixão de Saul Pág. 653

venceu-o e ele arremessou um dardo contra Davi, julgando pregar o músico na parede; mas o anjo do Senhor desviou a arma mortífera. Davi escapou e fugiu para sua casa. Saul mandou espias para que o prendessem quando saísse pela manhã, e dessem fim à sua vida. Mical informou Davi do intuito de seu pai. Insistiu com ele para que fugisse para salvar a vida, e desceu-o pela janela, possibilitando-lhe assim escapar. Ele fugiu a Samuel em Ramá, e o profeta, sem temer o desagrado do rei, recebeu com satisfação o fugitivo. O lar de Samuel era um lugar pacífico em contraste com o palácio real. Foi ali, entre as colinas, que o honrado servo do Senhor continuou a sua obra. Um grupo de videntes estava com ele e estudavam minuciosamente a vontade de Deus, escutando com reverência as palavras de instrução que caíam dos lábios de Samuel. Preciosas foram as lições que Davi aprendeu do mestre de Israel. Davi acreditava que as tropas de Saul não receberiam ordem para invadir aquele local sagrado; mas lugar algum parecia sagrado à mente entenebrecida do desesperado rei. A ligação de Davi com Samuel suscitou o ciúme do rei, com o receio de que aquele que era por todo o Israel reverenciado como o profeta de Deus, emprestasse sua influência para a ascensão do rival de Saul. Quando o rei soube onde Davi se achava, enviou oficiais para o trazerem a Gibeá, onde tencionava executar seu intuito assassino.

Os mensageiros partiram, decididos a tirarem a vida a Davi; mas Alguém, que era maior do que Saul, dirigiu-os. Encontraram-se com anjos invisíveis, como se deu com Balaão quando estava a caminho para amaldiçoar Israel. Começaram a proferir dizeres proféticos sobre o que ocorreria no futuro, e proclamavam a glória e majestade de Jeová. Assim Deus governou a ira do homem, em prol de Seus intuitos, e manifestou Seu poder para restringir o mal, enquanto entrincheirou Seu servo com uma guarda de anjos.

A notícia chegou a Saul enquanto avidamente esperava ter Davi em seu poder; mas, em vez de sentir a repreensão de Deus, ficou ainda mais exasperado, e enviou outros mensageiros. Estes também foram superados pelo Espírito de Deus, e uniram-se aos primeiros a profetizar. Terceira embaixada foi enviada pelo rei; mas, quando chegaram aos profetas, a influência divina caiu sobre eles, também, e profetizavam. Saul então resolveu ir ele próprio, pois que sua atroz inimizade se tornara ingovernável. Pág. 654

Decidiu-se a não esperar outra oportunidade para matar a Davi; logo que ele estivesse ao seu alcance tencionava matá-lo com sua própria mão, quaisquer que fossem as conseqüências. Mas um anjo de Deus encontrou-o no caminho, e tomou domínio dele. O Espírito de Deus continha-o em Seu poder, e ele prosseguiu a dizer orações a Deus, entremeadas de predições e melodias sagradas. Profetizava a respeito do Messias vindouro, como o Redentor do mundo. Quando chegou à casa do profeta em Ramá, tirou as vestes de cima, que indicavam a sua posição social, e todo o dia e toda a noite manteve-se diante de Samuel e seus discípulos, sob a influência do Espírito divino. O povo juntou-se para ver esta cena estranha, e a experiência do rei foi relatada por toda parte. Assim, de novo, perto do final de seu reino, tornou-se um provérbio em Israel que Saul também estava entre os profetas. Novamente fracassou o perseguidor em seus intuitos. Afirmou a Davi que estava em paz com ele; mas Davi tinha pouca confiança no arrependimento do rei. Aproveitou esta oportunidade para escapar, receoso de que a disposição de ânimo do rei mudasse, como anteriormente. Seu coração estava ferido dentro de si, e anelava ver mais uma vez seu amigo Jônatas. Cônscio de sua inocência, procurou o filho do rei, e fez um apelo muitíssimo tocante. "Que fiz eu?" perguntou ele; "qual é o meu crime? e qual é o meu pecado diante de teu pai, que procura tirar-me a vida?" Jônatas acreditava que seu pai tinha mudado de propósito, e não mais tencionava tirar a vida de Davi. E lhe disse: "Tal não seja; não morrerás. Eis que meu pai não faz coisa nenhuma grande, nem pequena, sem primeiro me dar parte; por que pois meu pai me encobriria este negócio? não é assim." Jônatas não podia crer que, depois da notável exibição do poder de Deus, seu pai ainda faria mal a Davi, visto que tal ato seria manifesta rebelião contra Deus. Mas Davi não estava convencido. Com grande veemência declarou a Jônatas: "Vive o Senhor, e vive a tua alma, que apenas há um passo entre mim e a morte." I Sam. 20:1 e 2. Por ocasião da lua nova, celebrava-se uma festividade sagrada em Israel. Esta festa ocorreu no dia seguinte ao da entrevista de Davi e Jônatas. Esperava-se que neste festim ambos os moços comparecessem à mesa do rei; mas Davi receou estar presente, e tomaram-se disposições para que ele fosse visitar seus

Pág. 655

irmãos em Belém. À sua volta devia esconder-se em um campo não longe da sala do banquete, ausentando-se durante três dias da presença do rei; e Jônatas notaria o efeito disto sobre Saul. Se este perguntasse sobre o paradeiro do filho de Jessé, Jônatas devia dizer que ele tinha ido à sua casa a fim de assistir ao sacrifício oferecido pela casa de seu pai. Se nenhuma demonstração de ira fosse dada pelo rei, mas respondesse ele: "Está bem", não haveria então perigo a Davi em voltar à corte. Mas, se ficasse irado com sua ausência, isto resolveria a questão da fuga de Davi. No primeiro dia da festa o rei não fez pergunta alguma quanto à ausência de Davi; mas, quando seu lugar se achou vago no segundo dia, perguntou: "Por que não veio o filho de Jessé nem ontem nem hoje a comer pão? E respondeu Jônatas a Saul: Davi me pediu encarecidamente que o deixasse ir a Belém, dizendo: Peço-te que me deixes ir, porquanto a nossa linhagem tem um sacrifício na cidade, e meu irmão mesmo me mandou ir; se pois agora tenho achado graça em teus olhos, peço-te que me deixes partir, para que veja meus irmãos. Por isso não veio à mesa do rei." I Sam. 20:7, 27-29. Quando Saul ouviu estas palavras, sua ira foi indomável. Declarou que, enquanto Davi vivesse, Jônatas não poderia subir ao trono de Israel, e exigiu que imediatamente se mandasse buscar a Davi a fim de que fosse morto. Jônatas de novo intercedeu por seu amigo, rogando: "Por que há de ele morrer? Que tem feito?" Este apelo ao rei apenas o tornou mais satânico em seu furor, e a lança que ele destinava a Davi arremessou-a contra seu filho.

O príncipe ficou magoado e indignado, e deixando a presença do rei, não mais foi conviva no festim. Sua alma estava abatida de tristeza, quando, na ocasião aprazada, compareceu ao local em que Davi saberia das intenções do rei em relação a ele. Caíram ao pescoço um do outro, e choraram amarguradamente. A negra paixão do rei lançava sombra à vida dos jovens, e seu pesar era por demais intenso para que se pudesse exprimir. As últimas palavras de Jônatas caíram aos ouvidos de Davi, ao separarem-se eles para seguirem seus caminhos diferentes: "Vai-te em paz. O que nós temos jurado ambos em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja entre mim e ti, e entre a minha semente e a tua semente, seja perpetuamente." I Sam. 20:32 e 42.

O filho do rei voltou a Gibeá, e Davi apressou-se a chegar em Nobe, cidade poucos quilômetros distante, e também pertencente à tribo de Benjamim. O tabernáculo tinha sido levado de Silo Pág. 656

a este lugar, e ali ministrava Aimeleque, sumo sacerdote. Davi não sabia para onde fugir em busca de refúgio, a não ser para o servo de Deus. O sacerdote olhou para ele com espanto, ao chegar à pressa, e aparentemente só, com o rosto assinalado pela ansiedade e tristeza. Indagou o que o levava ali. O moço estava com receio constante de ser descoberto, e em sua perplexidade recorreu ao engano. Davi disse ao sacerdote que fora enviado pelo rei com uma incumbência secreta, a qual exigia a máxima diligência. Nisto manifestou falta de fé em Deus, e seu pecado resultou em ocasionar a morte do sumo sacerdote. Tivesse declarado plenamente os fatos, e teria Aimeleque sabido o que fazer para lhe preservar a vida. Deus exige que a veracidade distinga Seu povo, mesmo no maior perigo. Davi pediu ao sacerdote cinco pães. Nada havia senão pão consagrado em poder do homem de Deus; mas Davi conseguiu remover seus escrúpulos e obteve os pães para matar a fome. Um novo perigo apresentava-se agora. Doegue, o principal do pastores de Saul, que professara a fé dos hebreus, estava agora a pagar seus votos no lugar do culto. À vista deste homem, Davi resolveu arranjar à pressa outro lugar de refúgio, e obter alguma arma com que defender-se, caso se tornasse necessária a defesa. Pediu a Aimeleque uma espada, e foi-lhe dito não ter ele nenhuma, a não ser a de Golias, a qual fora guardada como uma relíquia no tabernáculo. Davi respondeu: "Não há outra semelhante; dá-ma." I Sam. 21:9. Sua coragem reviveu quando tomou a espada que uma ocasião usara para destruir o campeão dos filisteus.

Davi fugiu para Aquis, rei de Gate; pois achava que havia mais segurança no meio dos inimigos de seu povo do que nos domínios de Saul. Mas, referiu-se a Aquis que Davi era o homem que matara o campeão filisteu anos antes; e agora aquele que procurara refúgio entre os adversários de Israel, achou-se em grande perigo. Fingindo, porém, loucura, enganou seus inimigos, e assim escapou. O primeiro erro de Davi foi sua falta de confiança em Deus, em Nobe, e o segundo seu engano diante de Aquis. Davi havia ostentado nobres traços de caráter, e seu valor moral conquistara-lhe favor entre o povo; mas, quando lhe sobreveio a provação, sua

Pág. 657 fé se abalou, e apareceu a fraqueza humana. Via em cada homem um espião e traidor. Em uma difícil emergência Davi olhara a Deus, com os olhos perseverantes da fé, e vencera o gigante filisteu. Acreditava em Deus, e avançou em Seu nome. Mas, ao ser perseguido, a perplexidade e angústia quase lhe esconderam da vista o Pai celestial.

Contudo, esta experiência estava servindo para ensinar sabedoria a Davi; pois levava-o a compenetrar-se de sua fraqueza, e da necessidade de constante dependência de Deus. Oh! quão preciosa é a doce influência do Espírito de Deus vindo ela às almas deprimidas e desesperançadas, encorajando os desfalecidos, fortalecendo os fracos, e comunicando coragem e auxílio aos provados servos do Senhor! Oh! que Deus é nosso Deus, o qual trata mansamente com os que erram, e manifesta Sua paciência e ternura na adversidade e quando somos vencidos por alguma grande tristeza! Todo o fracasso por parte dos filhos de Deus é devido à sua falta de fé. Quando sombras rodeiam a alma, quando precisamos de luz e guia, devemos olhar para cima; há luz além das trevas. Davi não devia ter perdido a confiança em Deus por um momento sequer. Tinha motivos para confiar nEle: era o ungido do Senhor, e em meio de perigo havia sido protegido pelos anjos de Deus; fora armado de coragem para fazer coisas maravilhosas; e, se tão-somente afastasse seu espírito da situação angustiosa em que se achava colocado, e tivesse a lembrança do poder e majestade de Deus, teria estado em paz mesmo em meio das sombras da morte; podia com confiança ter repetido a promessa do Senhor: "As montanhas se desviarão, e os outeiros tremerão; mas a Minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da Minha paz não mudará." Isa. 54:10. Entre as montanhas de Judá, procurou Davi refúgio da perseguição de Saul. Escapou para a caverna de Adulão, lugar este que, com uma pequena força, poderia ser mantido contra um grande exército. "E ouviram-no seus irmãos e toda a casa de seu pai, e desceram ali para ele." A família de Davi não podia considerar-se livre de perigo, sabendo que em qualquer ocasião as desarrazoadas suspeitas de Saul poderiam dirigir-se contra eles por causa de sua relação com Davi. Tinham agora sabido - o que aliás estava sendo geralmente conhecido em Israel - que Deus escolhera a Davi para futuro governante de Seu povo; e acreditavam que com ele estariam mais livres de perigos, embora fosse um Pág. 658

fugitivo numa solitária caverna, do que poderiam estar enquanto expostos à fúria doida de um rei invejoso.

Na caverna de Adulão a família estava unida em simpatia e afeto. O filho de Jessé tangia a harpa e cantava melodiosamente: "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!" Sal. 133:1. Ele tinha provado o amargor da desconfiança por parte de seus próprios irmãos; e a harmonia que tomara o lugar da discórdia trouxe alegria ao coração do exilado. Foi ali que Davi compôs o Salmo cinqüenta e sete.

Não demorou muito tempo que ao grupo de Davi se juntassem outras pessoas que desejavam escapar das exigências do rei. Havia muitos que tinham perdido a confiança no governante de Israel, pois podiam ver que não mais era ele guiado pelo Espírito do Senhor. "Todo o homem que se achava em aperto, e todo o homem endividado, e todo o homem de espírito desgostoso", recorreu a Davi, "e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens." I Sam. 22:2. Ali tinha Davi um pequeno reino, que lhe era próprio, e neste prevaleciam a ordem e a disciplina. Mas, mesmo em seu retiro nas montanhas, estava longe de se sentir livre de perigo; pois que recebia prova contínua de que o rei não havia abandonado seus propósitos homicidas.

Encontrou um refúgio para seus pais junto ao rei de Moabe, e então, advertido de perigo por um profeta do Senhor, fugiu de seu esconderijo para o bosque de Herete. A experiência por que Davi estava a passar, não era desnecessária ou infrutífera. Deus estava a proporcionar-lhe um curso disciplinar que o habilitaria a tornar-se um sábio general bem como um rei justo e misericordioso. Com seu grupo de fugitivos estava a adquirir preparo para assumir a obra que Saul, por causa de sua paixão assassina e cega indiscrição, estava se tornando inteiramente inapto a fazer. Os homens não podem afastar-se do conselho de Deus e conservarem ainda aquela calma e sabedoria que os habilitarão a agirem com justiça e discrição. Não há loucura tão terrível, tão sem esperanças, como a de seguir a sabedoria humana, sem a guia da sabedoria de Deus.

Saul estivera preparando-se para armar cilada a Davi, e capturá-lo na caverna de Adulão; e, quando foi descoberto que Davi havia deixado aquele lugar de refúgio, o rei ficou grandemente irado. A fuga de Davi era um mistério para Saul. Podia explicá-lo apenas pela crença de que tinha havido traidores no Pág. 659

seu acampamento, os quais informaram o filho de Jessé quanto à sua aproximação e intuitos.

Afirmou a seus conselheiros que uma conspiração se formara contra ele, e, com o oferecimento de ricos presentes e cargos de honra, subornou-os para que revelassem a pessoa que entre seu povo favorecera a Davi. Doegue, o idumeu, fez-se informante. Movido pela ambição e cobiça, bem como pelo ódio ao sacerdote, que havia reprovado os seus pecados, relatou Doegue a visita de Davi a Aimeleque, apresentando isto sob uma luz tal que acendeu a ira de Saul contra o homem de Deus. As palavras daquela língua perniciosa, postas sobre o fogo do inferno, instigaram as piores paixões no coração de Saul. Enlouquecido de raiva, declarou que a família toda do sacerdote pereceria. E o terrível decreto foi executado. Não somente Aimeleque, mas os membros da casa de seu pai - "oitenta e cinco homens que vestiam o éfode de linho" - foram mortos por ordem do rei, pela mão assassina de Doegue. "Também a Nobe, cidade destes sacerdotes, passou a fio de espada, desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de mama, e até os bois, jumentos e ovelhas." I Sam. 22:18 e 19. Isto foi o que Saul pôde fazer sob o domínio de Satanás. Quando Deus dissera que a iniqüidade dos amalequitas estava completa, e lhe mandara destruí-los inteiramente, ele se julgou demasiadamente compassivo para executar a sentença divina, e poupou aquilo que estava votado à destruição; mas agora, sem ordem de Deus, sob a guia de Satanás, matou os sacerdotes do Senhor, e acarretou a destruição aos habitantes de Nobe. Tal é a perversidade do coração humano que recusa a guia de Deus. Esta ação encheu de horror todo o Israel. Fora o rei que eles tinham escolhido que cometera tal afronta; e fizera-o unicamente segundo a maneira dos reis de outras nações que não temiam a Deus. A arca estava com eles; mas os sacerdotes por meio de quem haviam feito indagação foram mortos com a espada. O que aconteceria a seguir?

65

A Magnanimidade de Davi

Pág. 660

Depois do atroz morticínio dos sacerdotes do Senhor, ordenado por Saul, "escapou um dos filhos de Aimeleque, filho de Aitube, cujo nome era Abiatar, o qual fugiu atrás de Davi. E Abiatar anunciou a Davi que Saul tinha matado os sacerdotes do Senhor. Então Davi disse a Abiatar: Bem sabia eu naquele dia que, estando ali Doegue, o idumeu, não deixaria de o denunciar a Saul. Eu dei ocasião contra todas as almas da casa de teu pai. Fica comigo, não temas, porque quem procurar a minha morte, também procurará a tua, pois estarás salvo comigo". O Sam; 22:20-23. Ainda perseguido pelo rei, Davi não encontrou lugar de descanso ou segurança. Em Queila, seu bravo grupo salvou a cidade de ser tomada pelos filisteus; mas não estavam livres de perigo, mesmo entre o povo que haviam livrado. De Queila dirigiram-se ao deserto de Zife. Naquela ocasião, em que havia tão poucos pontos claros no caminho de Davi, ele se regozijou ao receber a visita inesperada de Jônatas, que soubera do lugar de seu refúgio. Preciosos foram os momentos que estes dois amigos passaram na companhia um do outro. Relataram suas variadas experiências, e Jônatas fortaleceu o coração de Davi, dizendo: "Não temas, que não te achará a mão de Saul, meu pai; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo; o que também Saul, meu pai, bem sabe." Conversando eles acerca do trato maravilhoso de Deus para com Davi, o aflito fugitivo ficou grandemente encorajado. "E ambos fizeram aliança perante o Senhor; Davi ficou no bosque, e Jônatas voltou para a sua casa." I Sam. 23:17 e 18.

Depois da visita de Jônatas, Davi animou a sua alma com cânticos de louvor, acompanhando a sua voz com a harpa, ao entoar:

Pág. 661

"No Senhor confio;

Como dizeis, pois, à minha alma:

Fugi para a vossa montanha como pássaro?

Porque eis que os ímpios armam o arco,

Põem as frechas na corda,

Para com elas atirarem, a ocultas, aos retos de coração. Na verdade que já os fundamentos se transtornam:

Que pode fazer o justo?

O Senhor está no Seu santo templo,

O trono do Senhor está nos Céus;

Os Seus olhos estão atentos,

E as Suas pálpebras provam os filhos dos homens.

O Senhor prova o justo;

Mas a Sua alma aborrece o ímpio e o que ama a violência." Sal. 11:1-5.

Os zifeus, para cujas regiões ermas Davi fora de Queila, enviaram uma comunicação a Saul, em Gibeá, de que sabiam onde Davi se encontrava escondido, e de que guiariam o rei ao seu retiro. Davi, porém, avisado das intenções deles, mudou sua posição, procurando refúgio nas montanhas que ficavam entre Maom e o Mar Morto.

Foi de novo enviada comunicação a Saul: "Eis que Davi está no deserto de En-Gedi. Então tomou Saul três mil homens, escolhidos entre todo o Israel, e foi à busca de Davi e de seus homens, até aos cumes das penhas das cabras monteses." Davi tinha apenas seiscentos homens em sua companhia, ao passo que Saul avançava contra ele com um exército de três mil. Em uma caverna isolada o filho de Jessé e seus homens aguardavam a direção de Deus quanto ao que deveria fazer-se. Estando Saul fazendo a ascensão das montanhas, desviou-se para um lado, e entrou, sozinho, na mesma caverna em que Davi e seu grupo estavam escondidos. Quando os homens de Davi viram isto, insistiram com seu chefe para que matasse Saul. O fato de que o rei estava agora em seu poder, era por eles interpretado como prova certa de que Deus mesmo entregara o inimigo em suas mãos, para que pudessem destruí-lo. Davi foi tentado a assumir esta opinião a tal respeito; mas a voz da consciência falou-lhe, dizendo: "Não toques no ungido do Senhor."

Os homens de Davi ainda não estavam dispostos a deixar Saul em paz, e lembraram ao seu comandante as palavras de Deus: "Eis que te dou o teu inimigo nas tuas mãos, e far-lhe-ás como te parecer bem aos teus olhos. E levantou-se Davi, e mansamente cortou a orla do manto de Saul." I Sam. 24:2-4 e 6. Mas sua consciência o acusou depois, porque mesmo com isto deformara a veste do rei. Pág. 662

Saul levantou-se e saiu da caverna para continuar com suas pesquisas, quando uma voz atingiu seus ouvidos surpresos, dizendo: "Rei, meu senhor!" Voltou-se para ver quem se dirigia a ele, e, eis que era o filho de Jessé, o homem a quem havia tanto tempo desejava ter em seu poder, para que o pudesse matar. Davi inclinou-se ante o rei, reconhecendo-o como seu senhor. Então se dirigiu a Saul nestes termos: "Por que dás tu ouvidos às palavras dos homens que dizem: Eis que Davi procura o teu mal? Eis que este dia os teus olhos viram, que o Senhor hoje te pôs em minhas mãos nesta caverna, e alguns disseram que te matasse; porém a minha mão te poupou; porque disse: Não estenderei a minha mão contra o meu senhor, pois é o ungido do Senhor. Olha, pois, meu pai, vê aqui a orla do teu manto na minha mão; porque, cortando-te eu a orla do manto, te não matei. Adverte, pois, e vê que não há na minha mão nem mal nem prevaricação nenhuma, e não pequei contra ti; porém tu andas à caça da minha vida, para ma tirares." I Sam. 24:8-11.

Quando Saul ouviu as palavras de Davi, ficou humilhado, e não pôde senão admitir a veracidade das mesmas. Seus sentimentos foram profundamente abalados, ao compenetrar-se de quão completamente estivera em poder do homem cuja vida procurava. Davi estava em pé diante dele, cônscio de sua inocência. Com um espírito abrandado, Saul exclamou: "É esta a tua voz, meu filho Davi? Então Saul alçou a sua voz e chorou." Declarou agora a Davi: "Mais justo és do que eu, pois tu me recompensaste com bem, e eu te recompensei com mal. ... Por que, quem há que, encontrando o seu inimigo, o deixaria ir por bom caminho? O Senhor pois te pague com bem, pelo que hoje me fizeste. Agora, pois, eis que bem sei que certamente hás de reinar, e que o reino de Israel há de ser firme na tua mão." I Sam. 24:16-20. E Davi fez um concerto com Saul, para que quando isto tivesse lugar ele considerasse favoravelmente a casa de Saul, e não suprimisse o seu nome. Sabedor que era da conduta passada de Saul, Davi não podia depositar confiança nas afirmações do rei, tampouco esperar que sua condição penitente demorasse muito. Assim, voltando Saul para sua casa, permaneceu Davi nas fortalezas das montanhas. A inimizade que é alimentada para com os servos de Deus por aqueles que se renderam ao poder de Satanás, modifica-se por vezes em um sentimento de reconciliação e favor; mas a mudança nem sempre se mostra duradoura. Depois que homens mal-intencionados se empenharam em fazer e dizer coisas ruins

Pág. 663

contra os servos do Senhor, a convicção de que estiveram em erro apodera-se algumas vezes profundamente de seu espírito. O Espírito do Senhor trabalha com eles, humilham seus corações diante de Deus e diante daqueles cuja influência procuram destruir, e podem modificar sua conduta em relação aos mesmos. Mas, abrindo novamente a porta às sugestões do maligno, revivem as velhas dúvidas, desperta-se a velha inimizade, e eles voltam a empenhar-se na mesma obra de que se arrependeram e que por algum tempo abandonaram. Novamente falam mal, acusando e condenando da maneira mais cruel os mesmos a quem fizeram a mais humilde confissão. Satanás pode usar tais almas com muito maior poder, depois que tal conduta haja sido seguida, do que o poderia antes, pois que pecaram contra uma luz maior.

"E faleceu Samuel, e todo o Israel se ajuntou, e o prantearam, e o sepultaram na sua casa, em Ramá." I Sam. 25:1. A morte de Samuel foi considerada uma perda irreparável pela nação de Israel. Um grande e bom profeta e juiz eminente sucumbira; e a dor do povo foi profunda e sentida. Desde sua mocidade Samuel andara diante de Israel na integridade de seu coração; embora Saul tivesse sido o rei reconhecido, Samuel exercera uma influência mais poderosa do que ele, porque o registro de sua vida era de fidelidade, obediência e devoção. Lemos que ele julgou Israel todos os dias de sua vida. Contrastando o povo a conduta de Saul com a de Samuel, viam o erro que haviam cometido, desejando um rei para que não fossem diferentes das nações em redor deles. Muitos olhavam alarmados para as condições da sociedade, em que rapidamente se estendia o fermento da irreligião e da impiedade. O exemplo de seu governante estava exercendo uma dilatada influência, e bem poderia lamentar Israel que Samuel, o profeta do Senhor, fosse morto.

A nação havia perdido o fundador e diretor de suas escolas sagradas; mas isso não era tudo. Tinha perdido aquele a quem o povo se acostumara a ir com suas grandes dificuldades - perdido aquele que constantemente intercedera junto a Deus em prol dos maiores interesses de seu povo. A intercessão de Samuel proporcionara um sentimento de segurança; pois "a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos". Tia. 5:16. O povo sentia agora que Deus os estava abandonando. O rei parecia ser pouco menos que um louco. A justiça estava pervertida, e a ordem mudada em confusão. Pág. 664

Foi quando a nação era torturada por conflito interno, quando o conselho calmo e inspirado no temor de Deus, dado por Samuel, se mostrava mais necessário, foi então que Deus deu repouso ao seu idoso servo. Amargas foram as reflexões do povo, ao olharem para o seu silencioso lugar de descanso, e lembrarem-se de sua loucura rejeitando-o como seu governador; pois que ele tivera tão íntima ligação com o Céu que parecia ligar todo o Israel ao trono de Jeová. Fora Samuel que os ensinara a amar e a obedecer a Deus; mas, agora que ele estava morto, o povo sentia achar-se abandonado nas mãos de um rei que se unira a Satanás, e que de Deus e do Céu divorciaria o povo. Davi não pôde estar presente ao sepultamento de Samuel; mas chorou-o tão sentida e ternamente como um filho fiel o poderia fazer por um pai dedicado. Sabia que a morte de Samuel rompera um outro laço que restringia as ações de Saul, e sentiu-se menos livre de perigo do que quando o profeta vivia. Enquanto a atenção de Saul estava ocupada em lamentação pela morte de Samuel, Davi aproveitou o ensejo para procurar um lugar de maior segurança; assim, fugiu para o deserto de Parã. Foi ali que compôs os salmos cento e vinte e cento e vinte e um. Naquelas desoladas regiões incultas, compenetrado de que o profeta era morto, e que o rei era seu inimigo, cantou: "O meu socorro vem do Senhor,

Que fez o céu e a Terra.

Não deixará vacilar o teu pé;

Aquele que te guarda não tosquenejará.

Eis que não tosquenejará nem dormirá

O guarda de Israel. ...

O Senhor te guardará de todo o mal;

Ele guardará a tua alma.

O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída,

Desde agora e para sempre." Sal. 121:2-8.

Enquanto Davi e seus homens se encontravam no deserto de Parã, protegeram contra as depredações dos saqueadores os rebanhos e gado de um homem rico chamado Nabal, que tinha vastas posses naquela região. Nabal era descendente de Calebe, mas seu caráter era intratável e mesquinho. Era o tempo da tosquia das ovelhas, a ocasião da hospitalidade. Pág. 665

Davi e seus homens estavam em grande necessidade de provisões; e, de acordo com o costume daqueles tempos, o filho de Jessé enviou dez moços a Nabal, ordenando-lhes que o saudassem em nome de seu senhor; e acrescentou:

"Assim direis àquele próspero: Paz tenhas, e que a tua casa tenha paz, e tudo o que tens tenha paz! Agora, pois, tenho ouvido que tens tosquiadores. Ora os pastores que tens estiveram conosco; agravo nenhum lhes fizemos, nem coisa alguma lhes faltou todos os dias que estiveram no Carmelo. Pergunta-o aos teus mancebos, e eles to dirão; estes mancebos pois achem graça aos teus olhos, porque viemos em bom dia; dá pois a teus servos e a Davi, teu filho, o que achares à mão." I Sam. 25:6-8.

Davi e seus homens tinham sido como uma muralha protetora aos pastores e rebanhos de Nabal; e agora pedia-se àquele homem rico que fornecesse de sua abundância algum recurso à necessidade daqueles que lhe haviam prestado tão valioso serviço. Davi e seus homens poderiam ter-se servido dos rebanhos e gado; mas não o fizeram. Portaram-se honestamente. Sua bondade, entretanto, nada valera junto a Nabal. A resposta que este enviou a Davi indicava o seu caráter: "Quem é Davi, e quem o filho de Jessé? muitos servos há hoje, e cada um foge a seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus tosquiadores, e o daria a homens que eu não sei donde vêm?" I Sam. 25:10 e 11.

Quando os moços voltaram com as mãos vazias, e relataram o acontecido a Davi, este ficou cheio de indignação. Ordenou que seus homens se aparelhassem para um encontro; pois que resolvera castigar o homem que lhe negara o que era de seu direito, e que ao dano acrescentara o insulto. Este movimento impetuoso estava mais em harmonia com o caráter de Saul do que com o de Davi; o filho de Jessé, porém, tinha ainda de aprender lições de paciência na escola da aflição. Um dos servos de Nabal foi apressadamente a Abigail, esposa de Nabal, depois que este despedira os moços de Davi, e contou-lhe o que tinha acontecido. "Eis que Davi enviou mensageiros", disse ele, "desde o deserto a saudar o nosso amo, porém ele se lançou a eles. Todavia, aqueles homens têm-nos sido muito bons, e nunca fomos agravados deles, e nada nos faltou em todos os dias que conversamos com eles quando estávamos no campo. De muro em redor de nós nos serviram, assim de dia como de noite,

Pág. 666

todos os dias que andamos com eles apascentando as ovelhas. Olha pois, agora, e vê o que hás de fazer, porque já de todo determinado está o mal contra o nosso amo e contra toda a sua casa." I Sam. 25:14-17.

Sem consultar o esposo, ou contar-lhe sua intenção, Abigail fez um amplo suprimento de provisões, que, posto sobre jumentos, enviou adiante sob o cuidado de servos, e ela partiu para encontrar-se com o grupo de Davi. Encontrou-os no encoberto de um monte. "Vendo, pois, Abigail a Davi, apressou-se, e desceu do jumento, e prostrou-se sobre o seu rosto diante de Davi, e se inclinou à terra. E lançou-se a seus pés, e disse: Ah, senhor meu, minha seja a transgressão; deixa, pois, falar a tua serva aos teus ouvidos." I Sam. 25:23 e 24. Abigail dirigiu-se a Davi com tanta reverência como se falasse a um rei coroado. Nabal tinha escarnecedoramente exclamado: "Quem é Davi?" (I Sam. 25:10) mas Abigail chamara-o "senhor meu." Com amáveis palavras ela procurou abrandar-lhe os sentimentos irritados, e pleiteou com ele em favor de seu esposo. Nada tendo de ostentação ou orgulho, antes cheia da sabedoria e amor de Deus, Abigail revelou a força de sua devoção para com sua casa, e esclareceu a Davi que o procedimento indelicado de seu marido de nenhuma maneira fora premeditado contra ele como uma afronta pessoal, mas que simplesmente tinha sido a explosão de uma natureza infeliz e egoísta.

"Agora, pois, meu senhor, vive o Senhor, e vive a tua alma, que o Senhor te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor." Abigail não tomou para si o crédito deste raciocínio a fim de demover a Davi de seu precipitado propósito, mas deu a Deus a honra e o louvor. Ofereceu então sua rica provisão como oferta pacífica aos homens de Davi, e ainda pleiteou como se ela mesma fora quem tivesse provocado o ressentimento do líder.

"Perdoa, pois, à tua serva esta transgressão", disse ela, "porque certamente fará o Senhor casa firme a meu senhor, porque meu senhor guerreia as guerras do Senhor, e não se tem achado mal em ti por todos os teus dias." I Sam. 25:26-28. Abigail apresentou por inferência a conduta que Davi deveria adotar. Ele faria as guerras do Senhor. Não deveria procurar vingança de ofensas pessoais, embora perseguido como um traidor. Ela continuou: "Levantando-se algum homem para te perseguir, e para procurar a tua morte, então a vida de meu senhor será atada no feixe dos que vivem com o Senhor teu Deus; ... há de ser que, usando o Senhor com

Pág. 667

o meu senhor conforme a todo o bem que já tem dito de ti, e te tiver estabelecido chefe sobre Israel, então, meu senhor, não te será por tropeço, nem por pesar no coração o sangue que sem causa derramaste, nem tão pouco o haver-se salvado meu senhor a si mesmo; e quando o Senhor Deus fizer bem ao meu senhor, lembra-te então da tua serva." I Sam. 25:29-31. Estas palavras poderiam apenas ter vindo dos lábios de quem tivesse participado da sabedoria do alto. A piedade de Abigail, semelhante ao perfume de uma flor, exalava de seu rosto, de suas palavras e ações, sem que disso ela se apercebesse. O Espírito do Filho de Deus habitava em sua alma. Seu discurso, adubado pela graça, e cheio de bondade e paz, derramava uma influência celestial. Melhores impulsos vieram a Davi, e ele tremeu ao pensar quais poderiam ser as conseqüências de seu intuito precipitado. "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus." Mat. 5:9. Oxalá houvesse muitos outros como esta mulher de Israel, que abrandassem os sentimentos irritados, obstassem impulsos temerários, e com palavras de calma e bem dirigida sabedoria aplacassem grandes males!

Uma vida cristã consagrada está sempre a derramar luz, consolação e paz. Caracteriza-se pela pureza, tato, simplicidade e utilidade. É dirigida por aquele amor abnegado que santifica a influência. Está repleta de Cristo, e deixa um rasto de luz aonde quer que seu possuidor vá. Abigail tinha sabedoria para reprovar e aconselhar. A paixão de Davi esvaiu-se, sob o poder de sua influência e raciocínio. Ele ficou convicto de que assumira uma conduta imprudente, e perdera o domínio de seu próprio espírito. Com humilde coração recebeu a repreensão em conformidade com suas próprias palavras: "Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo." Sal. 141:5. Ele deu graças e louvores porque ela o aconselhara retamente. Muitos há que, quando reprovados, julgam ser dignos de elogio se recebem a repreensão sem se tornarem impacientes; mas quão poucos recebem a reprovação com coração grato, e abençoam aqueles que os procuram salvar de seguirem por um mau caminho!

Quando Abigail voltou para casa, encontrou Nabal e seus hóspedes em um grande banquete, que tinham convertido em cenas de orgia e embriaguez. Não foi senão na manhã seguinte Pág. 668

que ela relatou a seu esposo o que ocorrera em sua entrevista com Davi. Nabal era de ânimo covarde; e, quando se compenetrou de quão perto de uma morte súbita o havia trazido a sua loucura, pareceu achar-se atacado de paralisia. Receoso de que Davi ainda prosseguisse com seus intuitos de vingança, encheu-se ele de terror, e prostrou-se em uma condição de irremediável insensibilidade. Dez dias depois, morreu. A vida que Deus lhe dera tinha sido apenas uma maldição para o mundo. Em meio a seu regozijo e alegria, Deus lhe dissera, como disse ao homem rico da parábola: "Esta noite te pedirão a tua alma." Luc. 12:20.

Davi mais tarde desposou Abigail. Já era marido de uma mulher; mas o costume das nações de seu tempo tinha-lhe pervertido o discernimento, influenciando-o em suas ações. Mesmo grandes homens, e bons, têm errado, seguindo os costumes do mundo. O amargo resultado de desposar muitas mulheres foi dolorosamente sentido durante toda a vida de Davi. Depois da morte de Samuel, Davi ficou em paz por alguns meses. Novamente se dirigiu à solidão dos zifeus; mas estes inimigos, esperando conseguir favor do rei, informaram a este do esconderijo de Davi. Tal conhecimento despertou o demônio da paixão que estivera a dormir no peito de Saul. Mais uma vez convocou seus homens de armas, e os levou à perseguição de Davi. Espias que lhe eram amigos, porém, levaram ao filho de Jessé a notícia de que Saul de novo o estava a perseguir; e com alguns de seus homens Davi partiu para saber o lugar em que estava seu inimigo. Era noite, quando, avançando cautelosamente, chegaram ao acampamento, e viram diante de si as tendas do rei e de seus auxiliares. Não foram notados; pois o arraial estava a dormir em silêncio. Davi chamou seus amigos, para irem com ele ao próprio meio de seus adversários. Em resposta à sua pergunta: "Quem descerá comigo a Saul ao arraial?" respondeu prontamente Abisai: "Eu descerei contigo." I Sam. 26:6. Ocultos pelas densas sombras das colinas, Davi e seu auxiliar entraram no arraial do inimigo. Procurando certificar-se do número exato de seus adversários, chegaram a Saul, adormecido, estando sua lança cravada no solo, e uma bilha de água a sua cabeceira. Ao lado deles estava deitado Abner, chefe do exército, e ao redor deles estavam os soldados, entregues ao sono. Abisai levantou sua lança e disse a Davi: "Deus te entregou hoje nas tuas mãos a teu inimigo; deixa-mo, pois, agora encravar com a lança duma vez na terra, e não o ferirei segunda vez." Esperou Pág. 671

a palavra que lhe desse permissão; caíram, porém, em seus ouvidos estas palavras cochichadas: "Nenhum dano lhe faças; porque quem estendeu a sua mão contra o ungido do Senhor, e ficou inocente? ... Vive o Senhor, que o Senhor o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou descerá para a batalha e perecerá; o Senhor me guarde, de que eu estenda a mão contra o ungido do Senhor; agora, porém, toma lá a lança que está à sua cabeceira e a bilha da água, e vamo-nos. Tomou, pois, Davi a lança e a bilha da água, da cabeceira de Saul, e foram-se; e ninguém houve que o visse, nem que o advertisse, nem que acordasse; porque todos estavam dormindo, pois havia caído sobre eles um profundo sono do Senhor." I Sam. 26:8-12. Quão facilmente o Senhor pode enfraquecer o mais forte, remover a prudência dos prudentes, e zombar da perícia do mais atento!

Quando Davi se encontrou a uma distância do acampamento que o punha fora de perigo, pôs-se em pé no cimo de uma colina, e clamou com grande voz ao povo, e a Abner, dizendo: "Porventura não és varão? e quem há em Israel como tu, por que, pois, não guardaste tu o rei teu senhor? porque um do povo veio para destruir o rei teu senhor. Não é bom isto, que fizeste; vive o Senhor, que sois dignos de morte, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do Senhor; vede, pois, agora onde está a lança do rei, e a bilha da água, que tinha à sua cabeceira. Então conheceu Saul a voz de Davi, e disse: Não é esta a tua voz, meu filho Davi? E disse Davi: Minha voz é, ó rei meu senhor. Disse mais: Por que persegue meu senhor assim o seu servo? Pois que fiz eu? E que maldade se acha nas minhas mãos? Ouve, pois, agora, te rogo, rei meu senhor, as palavras de teu servo." De novo caiu dos lábios do rei o reconhecimento: "Pequei; volta, meu filho Davi, porque não mandarei fazer-te mal; porque foi hoje preciosa a minha vida aos teus olhos. Eis que procedi loucamente, e errei grandissimamente. Davi então respondeu, e disse: Eis aqui a lança do rei; passe cá um dos mancebos, e leve-a." Embora Saul fizesse a promessa: "Não mais te farei mal" (I Sam. 26:15-22), Davi não se pôs sob o seu poder. Este segundo exemplo do respeito de Davi pela vida de seu soberano, produziu impressão ainda mais profunda no espírito de Saul, e alcançou dele um reconhecimento mais humilde de sua falta. Ficou admirado e vencido com tal manifestação de bondade. Despedindo-se de Davi, Saul exclamou: "Bendito sejas tu, meu

Pág. 672

filho Davi; pois grandes coisas farás, e também prevalecerás." I Sam. 26:21. Mas o filho de Jessé não tinha esperança que o rei continuasse muito tempo nesta disposição de espírito. Davi não esperava uma reconciliação com Saul. Parecia inevitável que finalmente ele tombasse como vítima da malícia do rei; e resolveu de novo buscar refúgio na terra dos filisteus. Com os seiscentos homens sob o seu comando, passou-se para Aquis, rei de Gate. A conclusão de Davi, de que Saul certamente cumpriria seu intuito assassino, foi formulada sem o conselho de Deus. Mesmo quando Saul estava tramando e procurando levar a efeito a sua destruição, o Senhor agia com o fim de assegurar a Davi o reino. Deus efetua Seus planos, embora aos olhos humanos estejam velados em mistério. Os homens não podem compreender os caminhos de Deus; e, olhando às aparências, interpretam os transes, provações e experiências que Deus permite que venham sobre eles, como coisas que contra eles são, e que apenas farão a sua ruína. Assim Davi olhava para as aparências, e não para as promessas de Deus. Duvidava que algum dia viesse a ocupar o trono. Longas provações lhe tinham cansado a fé e esgotado a paciência. O Senhor não mandou Davi, à busca de proteção, aos filisteus, os piores adversários de Israel. Esta nação, precisamente, estaria entre seus piores inimigos, até ao fim; e no entanto fugira para eles à procura de auxílio em seu tempo de necessidade. Tendo perdido toda a confiança em Saul e nos que o serviam, lançou-se à disposição dos inimigos de seu povo. Davi era um bravo general, e tinha-se mostrado guerreiro prudente e bem-sucedido; mas estava a agir diretamente contra seus próprios interesses quando foi aos filisteus. Deus o havia designado para levantar Seu estandarte na terra de Judá, e foi a falta de fé que o levou a abandonar seu posto de dever sem ordem da parte do Senhor. Deus foi desonrado pela incredulidade de Davi. Os filisteus tinham temido a Davi mais do que a Saul e seus exércitos; e, colocando-se sob a proteção dos filisteus, Davi patenteara-lhes a fraqueza de seu povo. Assim ele animou esses implacáveis adversários a oprimirem Israel. Davi tinha sido ungido para ficar na defesa do povo de Deus; e o Senhor não queria que Seu servo animasse os ímpios, descobrindo-lhes a fraqueza de seu povo,

Pág. 673

ou dando uma aparência de indiferença pelo bem-estar do mesmo. Além disso, receberam seus irmãos a impressão de que ele fora aos gentios para servirem aos seus deuses. Por meio deste ato deu motivo a que fossem mal-interpretados os seus intuitos, e muitos foram levados a entreter preconceito contra ele. Davi foi levado a fazer exatamente o que Satanás desejava que ele fizesse; pois, procurando refúgio entre os filisteus, ele proporcionou grande exultação aos inimigos de Deus e de Seu povo. Davi não renunciou ao culto a Deus, nem cessou a devoção para com Sua causa; mas sacrificou a confiança nEle pela sua segurança pessoal, e assim maculou o caráter reto e fiel que Deus requer que Seus servos possuam.

Davi foi cordialmente recebido pelo rei dos filisteus. O calor desta recepção foi em parte devido ao fato de que o rei o admirava, e em parte ao fato de lisonjear à sua vaidade que um hebreu procurasse sua proteção. Davi sentia-se livre de perigo de traição nos domínios de Aquis. Levara sua família, sua casa e suas posses, e o mesmo fizeram seus homens; e segundo toda a aparência ali chegara ele a fim de fixar-se permanentemente na terra de Filístia. Tudo isto satisfazia a Aquis, que prometeu proteger os israelitas fugitivos.

Ao pedido feito por Davi para residir no campo, afastado da cidade real, concedeu o rei gentilmente Ziclague em possessão. Davi compenetrara-se de que seria perigoso para si e seus homens estarem sob a influência de idólatras. Em uma cidade inteiramente separada para si, poderiam adorar a Deus com mais liberdade do que se ficassem em Gate, onde os ritos pagãos não poderiam deixar de mostrar-se uma fonte de males e incômodos.

Enquanto morava naquela cidade isolada, Davi fez guerra aos gesuritas, aos gersitas e aos amalequitas, e a ninguém deixou vivo para levar a notícia a Gate. Quando voltou da batalha, deu a entender a Aquis que estivera a guerrear contra os de sua própria nação, os homens de Judá. Por esta dissimulação, ele serviu de meio para fortalecer a mão dos filisteus; pois disse o rei: "Fez-se ele por certo aborrecível para com o seu povo em Israel; pelo que me será por servo para sempre." I Sam. 27:12. Davi sabia que era a vontade de Deus que essas tribos gentílicas fossem destruídas, e sabia estar ele designado para fazer esta obra; mas não andava no conselho de Deus quando praticou o engano.

Continuar: parte 4 de 4