Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 8 de 9 · parte 2/4

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Patriarcas e Profetas

O Primeiro Rei de Israel

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

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A Rejeição de Saul

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Saul deixara de resistir à prova da fé na situação probante em Gilgal, e acarretara a desonra ao serviço de Deus; mas seus erros ainda não eram irreparáveis, e o Senhor lhe concederia outra oportunidade para aprender a lição da fé implícita em Sua Palavra e obediência aos Suas ordens. Quando foi repreendido pelo profeta em Gilgal, Saul não viu grande pecado na conduta que adotara. Entendeu que fora tratado injustamente, e esforçou-se por reivindicar suas ações, e apresentou desculpas pelo seu erro. Desde aquele tempo pouca comunicação teve com o profeta. Samuel amava a Saul como seu próprio filho, e este, ousado e ardoroso em seu temperamento, tinha tido o profeta em elevada consideração; mas ressentiu-se da censura de Samuel, e dali em diante o evitava quanto possível.

Mas o Senhor enviou o Seu servo com uma outra mensagem a Saul. Pela obediência poderia ainda provar fidelidade para com Deus, e dignidade para andar diante de Israel. Samuel veio ao rei e apresentou a palavra do Senhor. A fim de que o rei pudesse compenetrar-se da importância de atender à ordem, Samuel declarou expressamente que falava por determinação divina, pela mesma autoridade que chamara Saul ao trono. Disse o profeta: "Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai pois agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de mama, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos." I Sam. 15:3. Os amalequitas foram os primeiros a fazerem guerra a Israel no deserto; e por este pecado, juntamente com seu desafio a Deus e sua aviltante idolatria, o Senhor, por meio de Moisés, pronunciara sentença sobre eles. Por determinação divina, a história de sua crueldade para com Israel fora

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registrada, com a ordem: "Apagarás a memória de Amaleque de debaixo do céu; não te esqueças." Deut. 25:19. Por quatrocentos anos a execução desta sentença fora adiada; mas os amalequitas não se desviaram de seus pecados. O Senhor sabia que este povo ímpio eliminaria da terra, se possível fora, o Seu povo e o Seu culto. Agora era chegada a ocasião para ser executada a sentença, durante tanto tempo retardada.

A paciência que Deus tem exercido para com os ímpios, torna audazes os homens na transgressão; mas o seu castigo não será menos certo e terrível por ser tanto tempo retardado. "O Senhor Se levantará como no monte de Perazim, e irará, como no vale de Gibeom, para fazer a Sua obra, a Sua estranha obra, e para executar o Seu ato, o Seu estranho ato." Isa. 28:21. Para o nosso misericordioso Deus, o ato de punir é um ato estranho. "Vivo Eu, diz o Senhor Jeová, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva." O Senhor é "misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade; ... que perdoa a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado". Ezeq. 33:11. Contudo Ele "ao culpado não tem por inocente". Êxo. 34:6 e 7. Conquanto Ele não Se deleite na vingança, executará juízo sobre os transgressores de Sua lei. É obrigado a fazer isto, para preservar os habitantes da Terra da depravação e ruína totais. A fim de salvar alguns deverá Ele eliminar os que se tornaram endurecidos no pecado. "O Senhor é tardio em irar-Se, mas grande em força, e ao culpado não tem por inocente." Naum 1:3. Por meio de terríveis coisas em justiça, reivindicará Ele a autoridade de Sua lei espezinhada. E o próprio fato de Sua relutância em executar justiça, testifica da enormidade dos pecados que reclamam os Seus juízos, e severidade da paga que aguarda ao transgressor.

Mas, ao mesmo tempo em que infligia o juízo, Deus Se lembrava da misericórdia. Os amalequitas deviam ser destruídos, mas os queneus, que habitavam entre eles, foram poupados. Este povo embora não estivesse inteiramente livre da idolatria, eram adoradores de Deus, e mantinham amistosas relações com Israel. Dessa tribo era o cunhado de Moisés, Hobabe, que acompanhara os israelitas em suas viagens através do deserto, e, pelo seu conhecimento do território, prestara-lhes valioso auxílio. Desde a derrota dos filisteus em Micmas, Saul tinha feito guerra contra Moabe, Amom e Edom, e contra os amalequitas e filisteus; e, para onde quer que volvesse suas armas, ganhava novas Pág. 629

vitórias. Recebendo a incumbência contra os amalequitas, proclamou imediatamente a guerra. À sua própria autoridade foi acrescentada a do profeta, e ao chamado para a batalha os homens de Israel congregaram-se sob seu estandarte. Esta expedição não deveria ser iniciada com o propósito de engrandecimento próprio; não deveriam os israelitas receber quer a honra da vitória quer o despojo de seus inimigos. Deviam empenhar-se na guerra unicamente como um ato de obediência a Deus, a fim de executar Seu juízo sobre os amalequitas. Era intuito de Deus que todas as nações vissem a condenação daquele povo que desafiara a Sua soberania, e notassem que foram destruídos pelo mesmo povo que haviam desprezado.

"Feriu Saul os amalequitas desde Havilá até chegar a Sur, que está defronte do Egito. E tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas; porém a todo o povo destruiu ao fio da espada. E Saul e o povo perdoaram a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e às da segunda sorte, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruíram totalmente." I Sam. 15:7-9.

Esta vitória sobre os amalequitas foi a mais brilhante que Saul alcançou, e serviu para suscitar novamente o orgulho de coração que era o seu maior perigo. O decreto divino que votava os inimigos de Deus à completa destruição, não foi cumprido senão em parte. Ambicionando aumentar a honra de sua volta triunfal, mediante a presença de um cativo real, Saul aventurou-se a imitar o costume das nações em redor, e poupou Agague, o cruel e belicoso rei dos amalequitas. O povo reservou para si o melhor que havia dos rebanhos, das vacas e das bestas de carga, desculpando o seu pecado sob o fundamento de que o gado era reservado para ser oferecido como sacrifício ao Senhor. Era, entretanto, seu propósito fazer uso do mesmo meramente como substituto, a fim de poupar o seu próprio gado. Saul havia agora sido submetido à prova final. Sua arrogante desconsideração pela vontade de Deus, mostrando sua determinação de governar como um rei independente, provou que não se lhe poderia confiar poder real como representante do Senhor. Enquanto Saul e seu exército marchavam para casa no entusiasmo da vitória, havia profunda angústia no lar do profeta Samuel. Ele havia recebido uma mensagem do Senhor, denunciando o procedimento do rei: "Arrependo-Me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de Me seguir, e não executou

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as Minhas palavras." I Sam. 15:11. O profeta ficou profundamente magoado pela conduta do rei rebelde, e chorou e orou a noite toda pedindo uma revogação da terrível sentença. O arrependimento de Deus não é como o do homem. "Aquele que é a Força de Israel não mente nem Se arrepende; porquanto não é um homem para que Se arrependa." I Sam. 15:29. O arrependimento do homem implica uma mudança de intuitos. O arrependimento de Deus implica uma mudança de circunstâncias e relações. O homem pode mudar sua relação para com Deus, conformando-se com as condições sob as quais pode ser levado ao favor divino; ou pode, de moto próprio, colocar-se fora da condição favorável; mas o Senhor é o mesmo "ontem, e hoje e eternamente". Heb. 13:8. A desobediência de Saul mudou sua relação para com Deus; mas as condições de aceitação por parte de Deus ficaram inalteradas - as reivindicações de Deus eram ainda as mesmas; pois nEle "não há mudança nem sombra de variação". Tia. 1:17.

Com coração dolorido o profeta partiu na manhã seguinte para encontrar-se com o rei, que procedia erradamente. Samuel acariciava a esperança de que, refletindo, pudesse Saul ter consciência de seu pecado, e, pelo arrependimento e humilhação, ser de novo restabelecido ao favor divino. Quando, porém, o primeiro passo é dado no caminho da transgressão, este caminho se torna fácil. Saul, aviltado por sua desobediência, veio ao encontro de Samuel com uma mentira nos lábios. Exclamou: "Bendito tu do Senhor; executei a palavra do Senhor."

Os sons que vinham aos ouvidos do profeta desmentiram a declaração do desobediente rei. À incisiva pergunta: "Que balido, pois, de ovelhas é este nos meus ouvidos, e o mugido de vacas que ouço?" Saul respondeu: "De Amaleque as trouxeram; porque o povo perdoou ao melhor das ovelhas e das vacas, para as oferecer ao Senhor seu Deus; o resto porém, temos destruído totalmente." I Sam. 15:13-15. O povo havia obedecido às determinações de Saul; mas, a fim de defender-se, queria este atribuir a eles o pecado de sua desobediência.

A mensagem da rejeição de Saul trouxe indizível pesar ao coração de Samuel. Tinha ela de ser transmitida perante todo o exército de Israel, quando estava cheio de orgulho e regozijo triunfal por uma vitória que se atribuía ao valor e às aptidões de general de seu rei, pois que Saul não havia relacionado com Deus o êxito de Israel nesse conflito; mas, quando o profeta viu a prova da Pág. 631

rebelião de Saul, foi tomado de indignação pelo fato de que aquele que fora tão altamente favorecido por Deus, transgredisse o mandamento do Céu, e levasse Israel ao pecado. Samuel não foi enganado pelo subterfúgio do rei. Com um misto de dor e indignação, declarou: "Espera, e te declararei o que o Senhor me disse esta noite. ... Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos, não foste por cabeça das tribos de Israel? e o Senhor te ungiu rei sobre Israel." Repetiu a ordem do Senhor com relação a Amaleque, e perguntou os motivos da desobediência do rei.

Saul persistiu na justificação de si mesmo: "Antes dei ouvidos à voz do Senhor, e caminhei no caminho pelo qual o Senhor me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente. Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao Senhor teu Deus em Gilgal."

Com severas e solenes palavras o profeta varreu o refúgio de mentiras, e pronunciou a irrevogável sentença: "Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, Ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei."

Ao ouvir o rei esta terrível sentença, exclamou: "Pequei, porquanto tenho traspassado o dito do Senhor e as tuas palavras; porque temi ao povo, e dei ouvidos à sua voz." Aterrorizado pela acusação do profeta, Saul reconheceu a sua falta, que antes pertinazmente negara; mas ainda persistia em lançar a culpa ao povo, declarando que pecara por medo deles. Não era a tristeza pelo pecado, mas o temor pelo castigo ao mesmo, o que influía no rei de Israel, ao rogar ele a Samuel: "Agora, pois, te rogo, perdoa-me o meu pecado; e volta comigo, para que adore ao Senhor." I Sam. 15:16, 17, 20-25. Se Saul tivesse tido o verdadeiro arrependimento, teria feito confissão pública de seu pecado; era, porém, sua maior ansiedade manter a autoridade, e conservar a fidelidade do povo. Desejava a honra da presença de Samuel a fim de fortalecer sua própria influência junto à nação. "Não tornarei contigo", foi a resposta do profeta; "porquanto rejeitaste a palavra do Senhor, já te rejeitou o Senhor, para que não sejas rei sobre

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Israel". Volvendo-se Samuel para partir, o rei, na agonia do medo, lançou mão de seu manto para o fazer voltar, mas este rasgou-se em suas mãos. Com isto, o profeta declarou: "O Senhor tem rasgado de ti hoje o reino de Israel, e o tem dado ao teu próximo, melhor do que tu." I Sam. 15:26 e 28. Saul ficou mais perturbado com o afastamento de Samuel do que com o desagrado de Deus. Sabia que o povo tinha mais confiança no profeta do que nele mesmo. Se um outro fosse agora por ordem divina ungido rei, entendia Saul que seria impossível manter sua autoridade. Ele temia uma revolta imediata, caso Samuel o abandonasse inteiramente. Saul rogou ao profeta que o honrasse diante dos anciãos e do povo, unindo-se publicamente a ele em um serviço religioso. Por determinação divina, Samuel cedeu ao pedido do rei, para que se não desse ocasião a uma revolta. Mas ele ficou apenas como uma testemunha silenciosa daquele serviço religioso.

Um ato de justiça, severo e terrível, seria ainda realizado. Samuel devia publicamente reivindicar a honra de Deus, e repreender a conduta de Saul. Ordenou que o rei dos amalequitas fosse trazido perante ele. Dentre todos os que haviam sido vencidos pela espada de Israel, Agague era o mais criminoso e implacável; ele foi o que havia odiado e procurado destruir o povo de Deus, e cuja influência fora mais forte para promover a idolatria. Veio ele pela ordem do profeta, lisonjeando-se com a idéia de que o perigo de morte havia passado. Samuel declarou: "Assim como a tua espada desfilhou as mulheres, assim ficará desfilhada a tua mãe entre as mulheres. Então Samuel despedaçou a Agague perante o Senhor em Gilgal." I Sam. 15:33. Isto feito, Samuel voltou à sua casa em Ramá, e Saul à sua em Gibeá. Apenas uma vez depois disso encontraram-se o profeta e o rei. Quando foi chamado ao trono, Saul tinha uma opinião humilde de suas aptidões, e estava disposto a ser instruído. Era deficiente em conhecimentos e experiência, e tinha graves defeitos de caráter. Mas o Senhor concedeu-lhe o Espírito Santo como guia e auxiliador, e o colocou em uma posição em que poderia desenvolver as qualidades indispensáveis a um governador de Israel. Houvesse ele se conservado humilde, procurando constantemente ser guiado pela sabedoria divina, e ter-se-ia habilitado a desempenhar os deveres de seu elevado cargo, com êxito e honra. Sob a influência da graça divina, toda boa qualidade estaria a ganhar

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força, enquanto as más tendências teriam perdido o seu poder. Tal é a obra que o Senhor Se propõe fazer por todos os que se consagram a Ele. Há muitos a quem chamou para desempenhar cargos em Sua obra, porque possuem um espírito humilde e dócil. Em Sua providência Ele os coloca onde podem aprender dEle. Revelar-lhes-á seus defeitos de caráter, e a todos os que Lhe buscam o auxílio Ele dará força para corrigir seus erros.

Mas Saul atreveu-se em sua exaltação, e desonrou a Deus pela incredulidade e desobediência. Embora quando a princípio chamado ao trono fosse humilde e não tivesse confiança em si mesmo, o êxito tornou-o confiante em si próprio. Mesmo a primeira vitória de seu reino suscitara aquele orgulho de coração que foi o seu maior perigo. O valor e a habilidade militar ostentados no livramento de Jabes-Gileade, despertaram o entusiasmo da nação inteira. O povo honrou a seu rei, esquecendo-se de que ele não era senão o agente pelo qual Deus operara; e, posto que a princípio Saul atribuísse a glória a Deus, tomou mais tarde a honra para si. Perdeu de vista sua dependência de Deus, e em seu coração afastou-se do Senhor. Assim se preparou o caminho para o seu pecado de arrogância e sacrifício em Gilgal. A mesma cega confiança levou-o a rejeitar a reprovação de Samuel. Saul reconhecia que Samuel era um profeta enviado de Deus; portanto deveria ter aceitado a reprovação, ainda que não pudesse ver que havia pecado. Se ele estivesse disposto a ver e confessar o seu erro, esta amarga experiência se teria demonstrado uma salvaguarda para o futuro. Se o Senhor tivesse então Se separado inteiramente de Saul, não lhe teria de novo falado pelo Seu profeta, confiando-lhe uma obra definida para a realizar, a fim de que pudesse corrigir os erros do passado. Quando alguém que professa ser filho de Deus, se torna descuidado ao fazer a Sua vontade, influenciando deste modo a outros a serem irreverentes, e a se esquecerem das ordens expressas do Senhor, é possível ainda que seus fracassos se tornem em vitórias se tão-somente aceitar a reprovação com verdadeira contrição de alma, e voltar-se a Deus com humildade e fé. A humilhação da derrota demonstra-se muitas vezes uma bênção, mostrando-nos a nossa incapacidade para fazer a vontade de Deus sem o Seu auxílio.

Quando Saul se desviou da reprovação a ele enviada pelo Espírito Santo de Deus, e persistiu em sua contumaz justificação própria, rejeitou o único meio pelo qual Deus poderia agir a fim Pág. 634

de o salvar de si mesmo. Voluntariosamente ele se separara de Deus. Não poderia receber auxílio ou guia divina, antes que voltasse a Deus pela confissão de seu pecado. Em Gilgal, Saul tinha tido a aparência de ser muito consciencioso, achando-se perante o exército de Israel a oferecer um sacrifício a Deus. Sua piedade, porém, não era genuína. Uma cerimônia religiosa realizada em oposição direta à ordem de Deus, servia apenas para enfraquecer as mãos de Saul, colocando-o fora do auxílio que Deus estava tão disposto a conceder-lhe. Na expedição contra Amaleque, Saul julgara ter feito tudo que era essencial daquilo que o Senhor lhe ordenara; mas o Senhor não Se agradara da obediência parcial, nem estava disposto a revelar o que fora negligenciado por um motivo tão aceitável. Deus não deu aos homens liberdade para se afastarem de Seus mandados. O Senhor declarou a Israel: "Não fareis... cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos"; mas "guarda e ouve todas estas palavras que te ordeno." Deut. 12:8 e 28. Ao resolver sobre qualquer caminho a seguirmos em nossos atos, não devemos indagar se podemos ver que resultará mal do mesmo, mas se está de acordo com a vontade de Deus. "Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte." Prov. 14:12. "O obedecer é melhor do que o sacrificar." As ofertas sacrificais não tinham em si mesmas nenhum valor à vista de Deus. Destinavam-se a exprimir da parte do ofertante o arrependimento do pecado e a fé em Cristo, e o compromisso de futura obediência à lei de Deus. Mas sem arrependimento, fé e um coração obediente, as ofertas eram inúteis. Quando, em violação direta ao mando de Deus, Saul se propôs a oferecer sacrifício daquilo que Deus votara à destruição, mostrou franco desdém pela autoridade divina. Tal adoração teria sido um insulto ao Céu. No entanto, com o pecado de Saul e seu resultado diante de nós, quantos não estão adotando uma conduta semelhante! Enquanto se recusam a crer e obedecer a alguma ordem do Senhor, perseveram em apresentar a Deus sua formal adoração. Não há nenhuma simpatia da parte do Espírito de Deus a semelhante culto. Não importa quão zelosos os homens possam ser em sua observância de cerimônias religiosas, o Senhor não pode aceitá-los se persistirem em deliberada violação de um de Seus mandamentos. Pág. 635

"A rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria." I Sam. 15:23. A rebelião originou-se com Satanás, e toda rebelião contra Deus é devida diretamente à influência satânica. Aqueles que se põem contra o governo de Deus entraram em aliança com o máximo apóstata, e este exercerá seu poder e engano para cativar os sentidos e desencaminhar o entendimento. Ele fará todas as coisas aparecerem sob uma luz falsa. Semelhantes aos nossos primeiros pais, os que se acham sob sua fascinação mágica vêem apenas os grandes benefícios a serem recebidos pela transgressão.

Não se pode dar prova maior do poder enganador de Satanás do que o fato de que muitos, que assim são levados por ele, enganam-se com a crença de que estão ao serviço de Deus. Quando Coré, Datã e Abirã se rebelaram contra a autoridade de Moisés, pensaram que apenas estavam se opondo a um dirigente humano, um homem como eles mesmos; e chegaram a crer que estavam em verdade a fazer o serviço de Deus. Mas, rejeitando o instrumento escolhido de Deus, rejeitaram a Cristo; insultaram o Espírito de Deus. Assim, nos dias de Cristo, os escribas e anciãos judeus, que professavam ter grande zelo pela honra de Deus, crucificaram a Seu filho. O mesmo espírito existe ainda nos corações daqueles que se põem a seguir sua própria vontade em oposição à de Deus. Saul tivera a mais ampla prova de que Samuel era divinamente inspirado. O aventurar-se ele a desrespeitar a ordem de Deus dada por intermédio do profeta, era contra os ditames da razão e do são juízo. Sua fatal arrogância deve ser atribuída à feitiçaria satânica. Saul tinha manifestado grande zelo ao suprimir a idolatria e a feitiçaria; no entanto, em sua desobediência à ordem divina fora movido pelo mesmo espírito de oposição a Deus, e inspirado por Satanás tão realmente como são os que praticam a feitiçaria; e, ao ser reprovado, acrescentou a teimosia à rebelião. Não poderia ter oferecido maior insulto ao Espírito de Deus, se abertamente se tivesse unido aos idólatras. É um perigoso passo menosprezar as reprovações e advertências da Palavra de Deus ou de Seu Espírito. Muitos, como Saul, rendem-se à tentação até que se tornam cegos ao verdadeiro caráter do pecado. Lisonjeiam-se de que tiveram em vista algum bom objetivo, e não fizeram mal por se afastarem dos mandados do Senhor. Assim descontentam o Espírito da graça até que Sua voz não mais é ouvida, e são abandonados às ilusões que escolheram.

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Na pessoa de Saul Deus dera a Israel um rei segundo o coração deles, conforme Samuel dissera quando o reino se confirmou a Saul, em Gilgal: "Vedes aí o rei que elegestes, e que pedistes." I Sam. 12:13. Garboso em sua aparência pessoal, de nobre estatura e porte principesco, seu parecer estava de acordo com as concepções que tinham da dignidade real; e seu valor pessoal e sua habilidade para dirigir exércitos eram qualidades que consideravam mais bem calculadas para conseguirem o respeito e a honra de outras nações. Pouca solicitude experimentavam quanto a possuir o seu rei aquelas qualidades mais elevadas que unicamente poderiam habilitá-lo a governar com justiça e eqüidade. Não pediram alguém que tivesse a verdadeira nobreza de caráter, que possuísse o amor e o temor de Deus. Não procuraram o conselho de Deus quanto às qualidades que um governante deveria possuir, a fim de preservar o caráter distintivo e santo deles como Seu povo escolhido. Não estavam a procurar o caminho de Deus, mas o seu próprio caminho. Portanto Deus lhes deu um rei tal como desejavam - rei este cujo caráter era o reflexo do deles. Seus corações não estavam em submissão a Deus, e seu rei também não era dominado pela graça divina. Sob o governo deste rei, obteriam a experiência necessária para poderem ver seu erro, e voltarem à sua fidelidade para com Deus. Contudo, tendo o Senhor posto sobre Saul a responsabilidade do reino, não o deixou entregue a si mesmo. Fez com que o Espírito Santo repousasse sobre Saul para revelar-lhe suas fraquezas, e sua necessidade de graça divina; e, se Saul tivesse depositado confiança em Deus, teria Deus estado com ele. Enquanto sua vontade foi dirigida pela vontade de Deus, enquanto se entregou à disciplina de Seu Espírito, Deus pôde coroar de êxito os seus esforços. Mas, quando Saul preferiu agir independentemente de Deus, o Senhor não mais pôde ser seu guia, e foi obrigado a pô-lo de parte. Então Ele chamou ao trono "um homem segundo o Seu coração" (I Sam. 13:14); não um que fosse irrepreensível em seu caráter, mas que, em vez de confiar em si, confiaria em Deus, e seria guiado por Seu Espírito; que, ao pecar, sujeitar-se-ia à reprovação e correção. 62

A Unção de Davi

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A alguns quilômetros ao sul de Jerusalém, "a cidade do grande Rei", acha-se Belém, onde nasceu Davi, filho de Jessé, mais de mil anos antes que o menino Jesus tivesse por berço uma manjedoura, e fosse adorado pelos magos do Oriente. Séculos antes do advento do Salvador, Davi, no frescor da meninice, vigiava seus rebanhos enquanto pastavam nas colinas próximas a Belém. O singelo pastorzinho cantava as canções de sua própria composição, e a música de sua harpa lhe fazia um suave acompanhamento à melodia da límpida voz juvenil. O Senhor escolhera a Davi, e o estava preparando, em sua vida solitária com os seus rebanhos, para a obra que era Seu desígnio confiar-lhe nos anos posteriores.

Enquanto Davi estava assim a viver no retiro de sua vida humilde de pastor, o Senhor Deus estava a falar a respeito dele ao profeta Samuel. "Então disse o Senhor a Samuel: Até quando terás dó de Saul, havendo-o Eu o rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche o teu vaso de azeite, e vem, enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque dentre os seus filhos Me tenho provido de um rei. ... Toma uma bezerra das vacas em tuas mãos, e dize: Vim para sacrificar ao Senhor. E convidarás a Jessé ao sacrifício, e Eu te farei saber o que hás de fazer, e ungir-Me-ás a quem Eu te disser. Fez, pois, Samuel o que dissera o Senhor, e veio a Belém; então os anciãos da cidade saíram ao encontro, tremendo, e disseram: De paz é a tua vinda? E ele disse: É de paz." I Sam. 16:5. Os anciãos aceitaram o convite ao sacrifício, e Samuel chamou também Jessé e seus filhos. O altar foi construído, e o sacrifício estava pronto. Toda a casa de Jessé estava presente, com exceção de Davi, o filho mais moço, que ficara a guardar as ovelhas, pois que não era seguro deixar os rebanhos sem proteção. Pág. 638

Quando terminou o sacrifício, e antes de participarem do banquete sacrifical, Samuel começou a sua inspeção profética dos filhos de Jessé, dotados de nobre aparência. Eliabe era o mais velho, e mais se parecia com Saul pela estatura e beleza do que os outros. Suas belas feições, e suas formas primorosamente desenvolvidas, atraíram a atenção do profeta. Ao olhar Samuel para o seu porte principesco, pensou: "Este é na verdade o homem que Deus escolheu para sucessor de Saul", e esperou a sanção divina para que o pudesse ungir. Mas Jeová não olhava para a aparência exterior. Eliabe não temia ao Senhor. Se ele tivesse sido chamado ao trono, teria sido um governante orgulhoso e opressor. A palavra do Senhor a Samuel foi: "Não atentes para a sua aparência, nem para a altura da sua estatura, porque o tenho rejeitado, porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração." Nenhuma beleza exterior pode recomendar a alma a Deus. A sabedoria e a excelência reveladas no caráter e comportamento exprimem a verdadeira beleza do homem; e é o valor íntimo, a excelência do coração o que determina nossa aceitação por parte do Senhor dos exércitos. Quão profundamente devemos sentir esta verdade no juízo a nós mesmos e a outrem! Podemos aprender pelo engano de Samuel quão vã é a apreciação que repousa na beleza do rosto ou no porte nobre da estatura. Podemos ver quão incapaz é a sabedoria do homem para compreender os segredos do coração, ou os conselhos de Deus, sem esclarecimento especial do Céu. Os pensamentos e caminhos de Deus em relação às Suas criaturas estão acima da nossa mente finita; mas podemos estar certos de que Seus filhos serão levados a preencher precisamente o lugar para que estão habilitados, e estarão aptos para cumprir o próprio trabalho confiado às suas mãos, se tão-somente sujeitarem sua vontade a Deus, a fim de que Seus planos beneficentes não sejam frustrados pela perversidade do homem. Eliabe saiu de sob a inspeção de Samuel, e os seis irmãos que estavam assistindo à cerimônia religiosa vieram a seguir, a ser observados sucessivamente pelo profeta; mas o Senhor não indicou a Sua escolha em favor de qualquer deles. Com uma incerteza dolorosa Samuel tinha olhado para o último dos moços; o profeta estava perplexo e confuso. Perguntou a Jessé: "Acabaram-se os mancebos?" O pai respondeu: "Ainda falta o menor, e eis que apascenta as ovelhas." Samuel determinou que ele fosse chamado, dizendo: "Não nos assentaremos em roda da mesa até que ele venha aqui." I Sam. 16:6, 7 e 11.

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O solitário pastor ficou sobressaltado com o inesperado chamado do mensageiro, que anunciou que o profeta viera a Belém e o mandara chamar. Com surpresa perguntou por que o profeta e juiz de Israel desejava falar com ele; mas sem demora obedeceu à chamada. "E era ruivo e formoso de semblante e de boa presença." Ao ver Samuel com prazer o pastorzinho formoso, viril e modesto, a voz do Senhor falou ao profeta, dizendo: "Levanta-te, e unge-o, porque este mesmo é." Davi havia-se mostrado bravo e fiel no humilde ofício de pastor, e agora Deus o escolhera para ser o capitão de Seu povo. "Então Samuel tomou o vaso do azeite, e ungiu-o no meio de [dentre] seus irmãos; e desde aquele dia em diante o Espírito do Senhor Se apoderou de Davi." I Sam. 16:12 e 13. O profeta tinha cumprido o trabalho que lhe havia sido designado, e com coração aliviado voltou a Ramá. Samuel não tinha dado a conhecer a sua missão, mesmo à família de Jessé, e a cerimônia da unção de Davi fora efetuada secretamente. Foi aquilo uma indicação ao jovem acerca do alto destino que o aguardava, a fim de que, por entre todas as experiências variadas e perigos de seus anos vindouros, tal conhecimento pudesse inspirá-lo a ser fiel ao propósito de Deus que deveria ser cumprido por sua vida. A grande honra conferida a Davi não teve como resultado ensoberbecê-lo. Apesar do elevado cargo que deveria ocupar, continuou silenciosamente com sua ocupação, contente com esperar o desenvolvimento dos planos do Senhor, no tempo e maneira que Lhe aprouvessem. Tão humilde e modesto como antes de sua unção, o pastorzinho voltou às colinas, e vigiava e guardava seus rebanhos com tanta ternura como sempre. Com nova inspiração, porém, compunha suas melodias, e tocava em sua harpa. Diante dele se estendia uma paisagem de rica e variada beleza. As videiras, com seus cachos, resplandeciam à luz solar. As árvores da floresta, com sua verde folhagem, inclinavam-se com a brisa. Via o Sol inundando os céus de luz, saindo como o noivo de sua câmara, e regozijando-se como um herói a percorrer o seu caminho. Havia os altivos cumes dos montes, dirigindo-se para os céus; a grande distância erguiam-se os áridos penhascos da muralha montanhosa de Moabe; por cima de tudo estendia-se o suave azul da abóbada dos céus. E além estava Deus. Ele não O podia ver, mas Suas obras estavam cheias de Seu louvor. A luz do dia, dourando a floresta e a montanha, prados e ribeiros, elevava a mente a ver o Pai das luzes, o Autor de toda a boa e perfeita dádiva. Pág. 642

Revelações diárias do caráter e majestade de seu Criador enchiam o coração do jovem poeta, de adoração e regozijo. Na contemplação de Deus e Suas obras, as faculdades do espírito e coração de Davi estavam a desenvolver-se e a fortalecer para a obra de sua vida posterior. Ele diariamente vinha a ter uma comunhão mais íntima com Deus. Sua mente estava constantemente a penetrar novas profundidades, à busca de novos assuntos para inspirar seus cânticos e despertar a música de sua harpa. A pujante melodia de sua voz, derramada no ar, ecoava nas colinas como que em resposta ao regozijo do cântico dos anjos no Céu.

Quem pode medir os resultados daqueles anos de labuta e vaguear entre as solitárias colinas? A comunhão com a Natureza e com Deus, o cuidado de seus rebanhos, os perigos e os livramentos, os pesares e as alegrias, coisas que eram próprias à sua humilde condição, não somente deviam modelar o caráter de Davi, e influenciar na sua vida futura, mas também deveriam, mediante os salmos do suave cantor de Israel, e em todas as eras vindouras, acender o amor e a fé nos corações do povo de Deus, levando-os mais perto do coração sempre amante dAquele em quem vivem todas as Suas criaturas. Davi, na beleza e vigor de sua jovem varonilidade, estava se preparando para assumir uma elevada posição, entre os mais nobres da Terra. Seus talentos, como dons preciosos de Deus, eram empregados para exaltar a glória do Doador divino. Suas oportunidades para a contemplação e meditação serviam para enriquecê-lo daquela sabedoria e piedade, que o tornavam amado de Deus e dos anjos. Contemplando ele as perfeições de seu Criador, mais claras concepções de Deus desvendavam-se perante sua alma. Eram iluminados assuntos obscuros, dificuldades eram explanadas, harmonizadas perplexidades, e cada raio de nova luz provocava novas expansões de transportes, e mais suaves antífonas de devoção, para a glória de Deus e do Redentor. O amor que o movia, as tristezas que o assediavam, os triunfos que o acompanhavam, tudo eram assuntos para o seu ativo pensamento; e, ao ver o amor de Deus em todas as providências de sua vida, seu coração palpitava com mais fervorosa adoração e gratidão, sua voz soava com mais magnificente melodia, sua harpa era dedilhada com alegria mais exultante; e o moço pastor ia de força em força, de conhecimento em conhecimento; pois o Espírito do Senhor estava sobre ele. 63

Davi e Golias

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Quando o rei Saul compreendeu que havia sido rejeitado por Deus, e quando sentiu a força das palavras de acusação que tinham sido dirigidas a ele pelo profeta, encheu-se de amargurada rebelião e desespero. Não era o verdadeiro arrependimento que curvava a cabeça orgulhosa do rei. Ele não tinha uma percepção clara do caráter ofensivo de seu pecado, e não se entregou ao trabalho de reformar sua vida, mas preocupava-se com o que julgava ser uma injustiça de Deus despojando-o do trono de Israel, e tirando de sua posteridade a sucessão. Estava sempre preocupado antevendo a ruína que havia sido acarretada sobre sua casa. Entendia que o valor que tinha ostentado no encontro com seus inimigos, removeria seu pecado de desobediência. Não aceitou com mansidão o castigo de Deus; mas desesperou-se o seu espírito altivo até que ele ficou a ponto de quase perder a razão. Seus conselheiros sugeriram-lhe procurar os serviços de um músico hábil, na esperança de que as notas calmantes de um instrumento suave lhe serenassem o espírito perturbado. Na providência de Deus, Davi, como hábil executor de harpa, foi trazido perante o rei. Seus acordes sublimes e de inspiração celestial tiveram o desejado efeito. A acalentada melancolia que, semelhante a uma nuvem negra, se fixara no espírito de Saul, desapareceu como por encanto. Quando seus serviços não eram exigidos na corte de Saul, Davi voltava aos seus rebanhos entre as colinas, e continuava a manter sua simplicidade de espírito e maneiras. Quando quer que fosse necessário, era novamente chamado para servir perante Saul, a fim de suavizar a mente do conturbado rei até que o espírito mau se afastasse dele. Mas, embora Saul exprimisse seu deleite pela presença de Davi e pela sua música, o jovem pastor ia da casa do rei aos campos e colinas de suas pastagens com uma sensação de alívio e alegria.

Davi crescia no favor de Deus e dos homens. Ele tinha sido instruído no caminho do Senhor, e agora dispusera seu coração

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a fazer a vontade de Deus, mais amplamente do que nunca. Tinha novos assuntos para meditação. Estivera na corte do rei, e vira a responsabilidade da realeza. Descobrira algumas das tentações que assediavam a alma de Saul, e penetrara alguns dos mistérios no caráter e trato do primeiro rei de Israel. Vira a glória da realeza ensombrada pela escura nuvem da tristeza, e compreendeu que a casa de Saul, em sua vida particular, estava longe de ser feliz. Todas estas coisas serviam para trazer pensamentos inquietadores àquele que fora ungido para ser rei de Israel. Mas, quando se achava absorto em profunda meditação, e perseguido por pensamentos de ansiedade, volvia à sua harpa, e arrancava acordes que elevavam seu espírito ao Autor de todo o bem, e dissipavam-se as negras nuvens que pareciam obscurecer o horizonte do futuro.

Deus estava a ensinar a Davi lições de confiança. Assim como Moisés foi preparado para o seu trabalho, assim o Senhor estava habilitando o filho de Jessé a tornar-se o guia de Seu povo escolhido. Em seu vigilante cuidado pelos seus rebanhos, estava a adquirir uma apreciação dos cuidados que o grande Pastor tem pelas ovelhas de Seu pasto.

As solitárias colinas e barrancos bravios onde vagueava Davi com seus rebanhos, eram o esconderijo de feras rapinantes. Freqüentemente o leão dos matagais ao lado do Jordão, ou o urso saindo de seu covil entre as colinas, vinham, ferozes e famintos, atacar os rebanhos. Segundo o costume de seu tempo, Davi estava armado apenas com sua funda e com o cajado de pastor; contudo, cedo deu ele provas de sua força e coragem ao proteger o que se achava sob sua guarda. Depois de descrever estes encontros, ele disse: "E vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha do rebanho; e eu saí após ele, e o feri, e livrei-a da sua boca; e, levantando-se ele contra mim, lancei-lhe mão da barba, e o feri, e o matei." I Sam. 17:34 e 35. Sua experiência nestas coisas provou o coração de Davi, e desenvolveu nele coragem, força e fé.

Mesmo antes que fosse chamado à corte de Saul, Davi se havia distinguido por ações de valor. O oficial que o levou ao conhecimento do rei, declarou ser ele "valente e animoso, e homem de guerra, e sisudo em palavras", e disse: "O Senhor é com ele." I Sam. 16:18. Quando Israel declarou guerra contra os filisteus, três dos filhos de Jessé tomaram parte no exército sob o comando de Saul;

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Davi, porém, ficou em casa. Depois de algum tempo, entretanto, foi visitar o arraial de Saul. Por determinação de seu pai devia levar uma mensagem e um presente a seus filhos mais velhos, e saber se ainda estavam livres de perigo e em saúde. Mas, sem que Jessé o soubesse, o jovem pastor tinha sido incumbido de uma missão mais alta. Os exércitos de Israel estavam em perigo, e por um anjo fora determinado a Davi salvar o seu povo.

Aproximando-se Davi do exército, ouviu o ruído de uma comoção, como se uma luta estivesse prestes a ter início. E "o arraial saía em ordem de batalha, e a gritos chamavam à peleja". I Sam. 17. Israel e os filisteus tomaram posição, exército contra exército. Davi correu para o exército, aproximou-se e saudou seus irmãos. Enquanto estava a conversar com eles, Golias, o campeão dos filisteus, veio à frente, e com uma linguagem insultante menosprezou a Israel, e desafiou-os a que arranjassem um homem dentre suas fileiras que o quisesse enfrentar em um combate individual. Repetiu o desafio, e, quando Davi viu que todo Israel estava cheio de medo, e soube que a afronta do filisteu lhes era atirada dia após dia, sem que despertasse um campeão para silenciar o jactancioso, seu espírito se agitou dentro dele. Inflamou-se de zelo para preservar a honra do Deus vivo, e o crédito de Seu povo. O exército de Israel estava abatido. Sua coragem faltara. Diziam uns aos outros: "Vistes aquele homem que subiu? pois subiu para afrontar a Israel." Com vergonha e indignação exclamou Davi: "Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?" I Sam. 17:25 e 26. Eliabe o irmão mais velho de Davi, quando ouviu estas palavras, bem compreendeu os sentimentos que agitavam a alma do jovem. Mesmo como pastor, Davi tinha manifestado ousadia, coragem e força, como raramente se vêem; e a visita misteriosa de Samuel à casa de seu pai, e sua partida silenciosa, haviam despertado na mente dos irmãos suspeitas do objetivo real de sua visita. Seu ciúme tinha sido suscitado, vendo Davi mais honrado do que eles; e não o consideraram com o respeito e amor devidos à sua integridade e ternura fraternal. Consideravam-no meramente como um rapaz pastor, e agora a pergunta que ele fez foi tida por Eliabe como uma censura à sua covardia por não fazer nenhuma tentativa para reduzir ao silêncio o gigante dos filisteus. O irmão mais velho exclamou com ira: "Por que desceste aqui? e a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? bem Pág. 646 conheço a tua presunção, e a maldade de teu coração, que desceste para ver a peleja." A resposta de Davi foi respeitosa, mas decidida: "Que fiz eu agora? porventura não há razão para isso?" As palavras de Davi foram referidas ao rei, que chamou o jovem diante de si. Saul ouviu com espanto as palavras do pastor, quando ele disse: "Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará contra este filisteu." Saul esforçou-se por demover a Davi de seu propósito, mas o jovem não podia ser abalado. Respondeu de maneira simples, despretensiosa, relatando suas experiências na guarda dos rebanhos de seu pai. E disse: "O Senhor me livrou da mão do leão e da do urso; Ele me livrará da mão deste filisteu. Então disse Saul a Davi: Vai-te embora, e o Senhor seja contigo."

Durante quarenta dias o exército de Israel havia tremido diante do altivo desafio do gigante filisteu. O coração desfalecia dentro deles ao olharem para suas formas sólidas, medindo de altura seis côvados e um palmo. Trazia à cabeça um capacete de bronze, e achava-se vestido de uma cota de malha que pesava cinco mil ciclos, e tinha grevas de bronze sobre as pernas. A cota era feita de lâminas de bronze que se sobrepunham umas às outras, semelhantes às escamas de um peixe, e estavam tão intimamente unidas que nenhum dardo, ou seta poderia de qualquer maneira penetrar na armadura. Às costas trazia o gigante um enorme dardo, ou lança, também de bronze. "A haste da sua lança era como o órgão do tecelão, e o ferro da sua lança de seiscentos siclos de ferro, e diante dele ia o escudeiro." Pela manhã e à tarde Golias havia se aproximado do acampamento de Israel, dizendo com grande voz: "Para que saireis a ordenar a batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça a mim. Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, seremos vossos servos; porém, se eu o vencer, e o ferir, então sereis nossos servos, e nos servireis. Disse mais o filisteu: Hoje desafio as companhias de Israel, dizendo: Dai-me um homem, para que ambos pelejemos." I Sam. 17:29, 37 e 10. Embora Sul tivesse dado a Davi permissão para aceitar o desafio de Goleias, o rei tinha pouca esperança que Davi fosse bem-sucedido em sua ousada empresa. Foi dada ordem para vestir o Pág. 647

jovem na própria armadura do rei. O pesado capacete de bronze foi-lhe posto na cabeça, e a cota de malha sobre o corpo; a espada do rei estava ao seu lado. Assim aparelhado saiu ele para desempenhar sua incumbência; mas não demorou muito para que começasse a retroceder. O primeiro pensamento na mente dos espectadores ansiosos, foi que Davi se resolvera a não arriscar sua vida enfrentando um antagonista em um encontro tão desigual. Mas isto estava longe do pensamento do bravo moço. Voltando a Saul, pediu permissão para tirar a pesada armadura, dizendo: "Não posso andar com isto, pois nunca o experimentei." Tirou a armadura do rei, e em lugar da mesma tomou apenas seu cajado, com seu alforje de pastor, e uma simples funda. Escolhendo cinco pedras lisas do ribeiro, pô-las no surrão, e, com a funda na mão, aproximou-se do filisteu. O gigante deu ousadamente grandes passos para a frente, esperando encontrar o mais poderoso dos guerreiros de Israel. Seu escudeiro ia adiante dele, e parecia como se nada lhe pudesse resistir. Ao aproximar-se mais de Davi, não viu senão um rapaz, que se podia dizer menino, pela sua idade. O rosto de Davi era rubro pela saúde, e seu talhe firme, desprotegido de armadura, mostrava-se exposto; contudo, entre seu perfil de moço e as sólidas proporções do filisteu havia um acentuado contraste.

Golias encheu-se de surpresa e ira. "Sou eu algum cão", exclamou ele, "para tu vires a mim com paus?" Então derramou sobre Davi as mais terríveis maldições por todos os deuses que conhecia. E bradou com escárnio: "Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo." Davi não fraqueou diante do campeão dos filisteus. Dando passos à frente, disse ao seu antagonista: "Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão, e ferir-te-ei, e te tirarei a cabeça, e os corpos do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves do céu e às bestas da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel. E saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e Ele vos entregará na nossa mão." I Sam. 17:39, 43-47.

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Havia um tom de intrepidez em sua voz, um aspecto de triunfo e regozijo em seu belo rosto. Tal discurso, feito com uma voz clara e melodiosa, repercutiu no ar, e foi ouvido distintamente pelos milhares que, arregimentados para a guerra, escutavam. A ira de Golias subiu até ao mais alto ponto. Em sua raiva empurrou o capacete que lhe protegia a testa, e lançou-se para a frente a fim de desforrar-se de seu oponente. O filho de Jessé preparava-se para o seu adversário. "E sucedeu que, levantando-se o filisteu, e indo encontrar-se com Davi, apressou-se Davi, e correu ao combate, a encontrar-se com o filisteu. E Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe cravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra." O espanto estendeu-se pelas fileiras dos dois exércitos. Estavam certos de que Davi seria morto; mas, quando a pedra saiu zunindo pelo ar, diretamente ao alvo, viram o grande guerreiro tremer, distender as mãos, como se estivesse ferido de súbita cegueira. O gigante vacilou, cambaleou, e, qual carvalho ferido, tombou ao chão. Davi não esperou um momento sequer. Saltou sobre o corpo prostrado do filisteu, e com ambas as mãos apoderou-se da pesada espada de Golias. Um momento antes o gigante se jactara de que com ela separaria dos ombros a cabeça do jovem, e daria seu corpo às aves do céu. Agora foi ela erguida ao ar, então a cabeça do fanfarrão rolou desligando-se do tronco, e um brado de exultação subiu do acampamento de Israel.

Os filisteus foram tomados de terror, e a confusão que se seguiu teve como resultado uma retirada precipitada. As aclamações dos hebreus triunfantes ecoavam pelos cumes das montanhas e alcançavam os inimigos que fugiam; e eles "seguiram os filisteus, até chegar ao vale, e até às portas de Ecrom; e caíram os feridos dos filisteus pelo caminho de Saaraim até Gate e até Ecrom. Então voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus, e despojaram os seus arraiais. E Davi tomou a cabeça do filisteu, e a trouxe a Jerusalém; porém pôs as armas dele na sua tenda." I Sam. 17:48 e 49, 52-54. 64

A Fuga de Davi

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Depois de matar Golias, Saul conservou Davi consigo, e não permitiu que voltasse à casa de seu pai. E aconteceu que "a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma". Jônatas e Davi fizeram um concerto para serem unidos como irmãos, e o filho do rei "se despojou da capa que trazia sobre si, a deu a Davi, como também os seus vestidos, até a sua espada, e o seu arco, e o seu cinto". A Davi foram confiadas importantes responsabilidades; todavia ele conservou sua modéstia, e ganhou a afeição do povo bem como da casa real. "Saía Davi aonde quer que Saul o enviava, e conduzia-se com prudência, e Saul o pôs sobre a gente de guerra." I Sam. 18:1, 4 e 5. Davi era prudente e fiel, e era evidente que a bênção de Deus estava com ele. Saul por vezes se compenetrava de sua própria inaptidão para o governo de Israel, e entendia que o reino estaria mais livre de perigo se pudesse haver ligado com ele alguém que recebesse instrução do Senhor. Saul esperava também que sua associação com Davi fosse uma salvaguarda para si mesmo. Visto que Davi era favorecido e defendido pelo Senhor, sua presença poderia ser uma proteção a Saul quando com ele saía a guerrear.

Foi a providência de Deus que ligou Davi a Saul. O cargo de Davi na corte dar-lhe-ia conhecimento dos negócios desta, em seu preparo para a sua futura grandeza. Habilitá-lo-ia a captar a confiança da nação. As vicissitudes e dificuldades que lhe ocorreram, em virtude da inimizade de Saul levá-lo-iam a sentir sua dependência de Deus, e a depositar nEle toda a sua confiança. E a amizade de Jônatas por Davi era também da providência de Deus, a fim de preservar a vida do futuro governante de Israel. Em todas estas coisas, Deus estava levando a efeito Seus propósitos de graça, tanto em favor de Davi como do povo de Israel.

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Saul, entretanto, não permaneceu muito tempo amigo de Davi. Quando Saul e Davi voltavam da batalha aos filisteus, "as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando, e dançando, com adufes, com alegria, e com instrumentos de música". Um grupo cantava: "Saul feriu os seus milhares", enquanto o outro grupo apanhava o estribilho, e respondia: "Porém Davi os seus dez milhares." O demônio da inveja entrou no coração do rei. Ficou irado porque Davi era mais exaltado que ele no cântico das mulheres de Israel. Em vez de subjugar estes sentimentos de inveja, manifestou a fraqueza de seu caráter, e exclamou: "Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta senão só o reino?" I Sam. 18:6-8. Um grande defeito no caráter de Saul era seu amor à aprovação. Esta característica tivera uma influência preponderante em suas ações e pensamentos; tudo se assinalava pelo seu desejo de louvor e exaltação própria. Sua norma para o que era reto e aquilo que o não era, consistia no baixo padrão do aplauso popular. A pessoa que vive para agradar aos homens, e não procura primeiramente a aprovação de Deus, não está livre de perigo. Era a aspiração de Saul ser o primeiro na estima dos homens; e, quando foi entoado este cântico de louvor, uma firme convicção entrou no espírito do rei, de que Davi ganharia o coração do povo, e reinaria em seu lugar. Saul abriu o coração ao espírito de inveja de que sua alma estava envenenada. Apesar das lições que havia recebido do profeta Samuel, dando-lhe a instrução de que Deus cumpriria o que quer que Ele desejasse, e que ninguém O poderia impedir, o rei demonstrou que não tinha verdadeiro conhecimento dos planos de Deus. O rei de Israel estava opondo sua vontade à do Ser infinito. Saul não tinha aprendido, enquanto governava o reino de Israel, que devia governar seu próprio espírito. Permitiu que os ímpetos lhe dirigissem o discernimento, até mergulhar-se no furor da paixão. Tinha ataques de raiva, ocasiões em que se dispunha a tirar a vida de qualquer que ousasse opor-se à sua vontade. Deste frenesi passava a um estado de desalento e desprezo de si mesmo, e o remorso se apoderava de sua alma.

Continuar: parte 3 de 4