Senhor das sombras

Cassandra Clare · Capítulo 13 de 35

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Senhor das sombras

9. Estas Terras

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Estas Terras

Kit logo pôde acrescentar um novo item à sua lista das coisas de que não gostava nos Caçadores de Sombras. Eles me acordam no meio da noite.

Foi Livvy especificamente quem o acordou, sacudindo-o e tirando-o de um sonho com demônios Mantis. Ele se sentou, arfando, com uma faca na mão — uma das adagas que ele tirara da sala das armas. Estava em sua cabeceira e ele não se lembrava de tê-la pego.

— Nada mal — disse Livvy. Ela estava zanzando pela cama dele, os cabelos presos, o uniforme de combate pouco visível na escuridão. — Reflexos rápidos.

A faca estava a mais ou menos dois centímetros do peito dela, mas ela não se mexeu. Kit deixou que ela caísse de volta na cabeceira.

— Você só pode estar brincando.

— Levante-se — falou ela. — Ty acabou de ver Zara saindo sorrateiramente pela porta da frente. Estamos Rastreando.

— Estão o quê? — Kit se levantou da cama bocejando, apenas para receber de Livvy uma pilha de roupas. Ela ergueu as sobrancelhas ao ver a cueca dele, mas não fez nenhum comentário.

— Vista o uniforme — falou. — Explicamos no caminho.

Ela saiu do quarto, deixando Kit se trocar. Ele sempre imaginou como seria vestir uniforme de Caçador de Sombras. As botas, calça, camisa, o casaco de tecido resistente escuro e o cinto pesado de armas pareciam desconfortáveis, mas… não eram. O uniforme era leve e flexível, apesar de tão resistente que, quando ele pegou a adaga da cabeceira e tentou cortar a manga do casaco, a lâmina sequer afetou o tecido. As botas pareciam ser do tamanho dele, assim como o anel, e o cinto de armas era leve e se ajustava no quadril.

— Ficou bom? — perguntou, aparecendo no corredor. Ty fitava, pensativo, a mão direita fechada, que tinha um símbolo brilhando nas costas.

Livvy fez sinal de positivo para Kit.

— Você definitivamente poderia ter sido rejeitado do Calendário de Caçadores de Sombras Gostosos.

— Rejeitado? — repetiu Kit enquanto desciam as escadas.

Os olhos dela estavam dançando.

— Por ser jovem demais, é claro.

— Não existe Calendário de Caçadores de Sombras Gostosos — disse Ty. — Vocês dois, fiquem quietos; precisamos sair da casa sem sermos notados.

Eles saíram pelos fundos e seguiram o caminho até a praia, com cuidado, para evitar a patrulha noturna. Livvy sussurrou para Kit que Ty estava segurando uma presilha de cabelo que Zara tinha deixado em cima da mesa: funcionava como uma espécie de farol de destino, puxando-o para a direção dela. Parecia que ela tinha ido à praia e, depois, caminhado pela areia. Livvy apontou para as pegadas, que eram apagadas pela maré que subia.

— Pode ter sido um mundano — disse Kit, só para constar.

— Seguindo esse exato caminho? — retrucou Livvy. — Olha, estamos até ziguezagueando onde ela ziguezagueou.

Kit não tinha como discutir. Ele se concentrou em acompanhar Ty, que estava praticamente

voando sobre as dunas, os pedregulhos e as pedras irregulares que marcavam a costa cada vez mais, conforme eles seguiam para o norte. Ele escalou uma parede assustadoramente alta de pedra esburacada e saltou do outro lado; Kit, que ia atrás, quase tropeçou e ia cair de cara na areia.

Ele conseguiu recuperar o equilíbrio e ficou aliviado. Não sabia ao certo se seria pior fazer

papel de bobo na frente de Livvy ou Ty. Talvez fosse ruim com qualquer um.

— Ali — disse Ty com um sussurro, apontando para onde um buraco escuro fora aberto em

uma parede rochosa da falésia que se erguia, separando a praia da estrada. Pilhas de pedras caídas se estendiam até o mar, e as ondas quebravam em volta, lançando uma espuma branca e prateada no ar.

A areia tinha dado lugar a um recife rochoso. Eles atravessaram com cuidado, incluindo Ty,

que se abaixou para examinar alguma coisa em uma piscina formada pela maré. Ele se esticou com um sorriso e uma estrela do mar na mão.

— Ty — disse Livvy. — Devolva, a não ser que esteja planejando jogá-la em Zara. — Desperdício de uma bela estrela do mar — murmurou Kit, e Ty riu. O ar salgado tinha

embaraçado seus cabelos pretos perfeitamente lisos, e os olhos brilhavam como a lua na água. Kit apenas o encarou, incapaz de pensar em outra coisa inteligente para dizer enquanto Ty devolvia gentilmente a estrela do mar à sua piscina.

Eles chegaram à abertura da caverna sem mais nenhuma parada para observar a natureza.

Livvy entrou primeiro, com Ty e Kit logo atrás. Kit parou quando a escuridão da caverna o envolveu.

— Não estou enxergando nada — falou, tentando lutar contra o pânico crescente. Ele

detestava locais escuros, mas, pensando bem, quem não detestava?

Luz explodiu em volta dele como o aparecimento súbito de uma estrela cadente. Era uma

pedra de luz enfeitiçada; Ty a segurava.

— Você quer um símbolo de Visão Noturna? — perguntou Livvy, com a mão na estela. Kit balançou a cabeça.

— Nada de símbolos — falou. Não sabia ao certo por que estava insistindo. O iratze não o

machucara. Mas parecia o obstáculo final, a última admissão de que ele era um Caçador de Sombras, não apenas um menino com sangue de Caçador de Sombras que tinha decidido se hospedar no Instituto até bolar um plano melhor.

Qualquer que fosse o plano. Kit tentou não pensar no assunto enquanto avançava pelas

profundezas do túnel.

— Você acha que isso é parte da convergência? — Ele ouviu Livvy sussurrar. Ty balançou a cabeça.

— Não. As falésias da costa são cheias de cavernas, sempre foram. Quero dizer, pode ter

qualquer coisa aqui... ninhos de demônios, vampiros... mas acho que não tem nada a ver com Malcolm. E as Linhas Ley não passam nem perto daqui.

— Queria muito que você não tivesse dito “ninhos de demônios”— disse Kit. — Faz com que

eles soem como aranhas.

— Alguns demônios são aranhas — disse Ty. — O maior já registrado tinha seis metros de

altura e mandíbulas de quase um metro.

Kit pensou nos demônios Mantis gigantes que tinham destruído seu pai. Era difícil pensar em qualquer coisa espertinha para se dizer sobre uma aranha gigante quando você já tinha visto a parte branca das costelas de seu pai.

— Shh. — Livvy levantou a mão. — Estou ouvindo vozes.

Kit prestou atenção, mas não escutou nada. Ele desconfiava de que havia mais um símbolo que ele não tinha, algo que lhe desse a audição do Super-Homem. Contudo, ele conseguia enxergar as luzes se movendo à frente, na curva do túnel.

Eles avançaram, e Kit se manteve atrás de Ty e Livvy. O túnel dava para uma enorme câmara, uma sala com paredes de granito rachadas, chão de terra batida, e cheiro de mofo e coisas velhas. O teto se erguia até a escuridão.

Havia uma mesa de madeira e duas cadeiras no centro da sala. A única luz vinha de pedras Marcadas dispostas sobre a mesa; Zara ocupava uma das cadeiras. Kit instintivamente colou as costas na parede; do outro lado do túnel, Livvy e Ty fizeram o mesmo.

Zara estava examinando alguns papéis que espalhara sobre a mesa. Havia uma garrafa de vinho e um copo perto do cotovelo dela. Ela não estava com o uniforme de Caçadora de Sombras, mas vestia um terninho preto simples, e os cabelos estavam presos em um coque impossivelmente apertado.

Kit se esforçou para enxergar o que ela estava estudando, mas ele estava muito longe. No entanto, ele conseguia ler algumas palavras marcadas na mesa: fogo quer queimar. Ele não fazia ideia do que aquilo queria dizer. E Zara não parecia estar fazendo nada de interessante também; talvez ela só viesse até aqui para ter privacidade e ler. Talvez estivesse secretamente cansada do Diego Perfeito e estivesse se escondendo. Quem poderia culpá-la?

Zara levantou o olhar, e as sobrancelhas franziram. Alguém estava vindo. — Kit ouviu o barulho rápido de passos, e um vulto de cabelos emaranhados vestindo jeans apareceu no canto oposto da sala.

— É Manuel — murmurou Livvy. — Quem sabe eles estão tendo um caso?

— Manu — falou Zara, franzindo o rosto. Ela não soou apaixonada. — Você está atrasado.

— Desculpe. — Manuel deu um sorriso desconcertante e pegou a cadeira livre, virando-a para que pudesse se sentar com os braços cruzados sobre o encosto. — Não se irrite, Zara. Tive que esperar Rayan e Jon dormirem; eles estavam falantes, e eu não queria correr o risco de deixar que alguém me visse saindo do Instituto. — Ele apontou para os papéis. — O que você tem aí?

— Atualizações para o meu pai — respondeu Zara. — Ele ficou decepcionado com o resultado do último Conselho, obviamente. A decisão de permitir que aquele mestiço Mark Blackthorn permanecesse entre Caçadores de Sombras decentes ofenderia qualquer um.

Manuel pegou a taça de vinho dela. Luzes vermelhas brilhavam em sua profundeza.

— Mesmo assim, temos que olhar para o futuro — falou. — Nos livrarmos de Mark não era o objetivo dessa viagem para cá, afinal. Ele é uma pequena pedra no caminho, assim como seus irmãos.

Ty, Kit e Livvy trocaram olhares confusos. O rosto de Livvy estava rijo de ódio. Ty estava sem expressão, mas suas mãos se mexiam inquietas nas laterais do corpo.

— É verdade. O primeiro passo é o Registro — disse Zara. Ela bateu nos papéis, e eles farfalharam. — Meu pai disse que a Tropa está forte em Idris, e ele acredita que o Instituto de Los Angeles esteja maduro para ser colhido. O incidente com Malcolm semeou considerável dúvida sobre a habilidade da Costa Oeste de tomar decisões. E o fato de que foi revelado que o Alto Feiticeiro de Los Angeles e o líder do clã local de vampiros estavam envolvidos com magia negra...

— Não foi culpa nossa — murmurou Livvy. — Não tínhamos como saber... Ty fez sinal para que se calasse, mas Kit perdeu o final da frase de Zara. Ele só conseguiu

registrar o sorriso dela, como um rasgo vermelho no rosto.

— A confiança não é muito alta — concluiu ela.

— E Arthur? — disse Manuel. — O suposto diretor? Não que eu o tenha visto alguma vez. — Um lunático — disse Zara. — Meu pai me disse que desconfiava disso. Ele o conheceu na

Academia. Eu mesma conversei com Arthur. Ele achou que eu fosse uma pessoa chamada Amatis.

Kit olhou para Livvy, que deu de ombros, confusa.

— Será fácil o suficiente colocá-lo na frente do Conselho e provar que ele é louco — disse

Zara. — Não sei dizer quem tem comandado o Instituto por ele, Diana, imagino, mas se ela quisesse a posição de diretora, já teria assumido.

— Então seu pai intervém, a Tropa se certifica de que ele tem os votos, e o Instituto é dele —

disse Manuel.

— Nosso — corrigiu Zara. — Eu vou comandar o Instituto ao lado dele. Ele confia em mim.

Seremos um time.

Manuel não pareceu impressionado. Ele provavelmente já tinha ouvido isso antes. — E, depois, o Registro.

— Com certeza. Poderemos propor como Lei imediatamente, e depois que for aprovada,

começamos as identificações. — Os olhos de Zara brilharam. — Todo membro do Submundo usará o sinal.

O estômago de Kit revirou. Isso era parecido o suficiente com história mundana para que ele

sentisse o gosto de bile no fundo da garganta.

— Podemos começar pelo Mercado das Sombras — disse Zara. — As criaturas se congregam

lá. Se levarmos muitos deles em custódia, deveremos conseguir reunir o restante para registro logo.

— E, se não estiverem inclinados a serem registrados, podem ser facilmente convencidos com

um pouco de dor — disse Manuel.

Zara franziu o rosto.

— Acho que você gosta da tortura, Manu.

Ele se inclinou para a frente, com os cotovelos sobre a mesa, o rosto aberto, bonito e

charmoso.

— Acho que você também, Zara. Já te vi admirando meu trabalho. — Ele dobrou os dedos. —

Você só não quer admitir na frente do Diego Perfeito.

— Sério? Eles também o chamam assim? — murmurou Kit, baixinho. Zara balançou a cabeça, mas Manuel estava sorrindo.

— Uma hora você vai ter que contar para ele sobre os planos completos da Tropa — falou. —

Sabe que ele não vai aprovar. Ele é um amante do Submundo, se é que já houve algum.

Zara emitiu um ruído enojado.

— Bobagem. Ele não é nada como aquele nojento Alec Lightwood, sua estúpida Aliança e o

repulsivo namorado filho de demônio. Os Blackthorn podem ser idiotas amantes de fadas, mas Diego só é... confuso.

— E Emma Carstairs?

Zara começou a reunir as páginas da carta do pai. Não olhou para Manuel.

— O que tem ela?

— Todo mundo diz que ela é a melhor Caçadora de Sombras desde Jace Herondale — disse Manuel. — Um título que eu sei que você há muito cobiça para si.

— Vanessa Ashdown diz que ela é uma piranha — respondeu Zara, e as palavras terríveis pareceram ecoar pelas paredes de pedra. Kit pensou em Emma com sua espada, Emma salvando sua vida, Emma abraçando Cristina e olhando para Julian como se ele tivesse superpoderes, e ficou imaginando se poderia se safar pisando no pé de Zara na próxima vez em que a visse. — E eu não me impressionei muito com ela pessoalmente. Ela é bem, bem comum.

— Tenho certeza de que sim — disse Manuel enquanto Zara se levantava, com os papéis na mão. — Eu ainda não entendo o que você vê no Diego.

— Não entenderia. É uma aliança familiar.

— Um casamento arranjado? Que coisa mais mundana e medieval. — Manuel pegou as pedras Marcadas da mesa, e por um instante a luz no recinto pareceu dançar, um desenho estranho de brilho e sombra. — Então, estamos voltando?

— É melhor. Se alguém nos vir, podemos dizer que estávamos verificando as barreiras. — Zara dobrou as páginas da carta do pai e guardou no bolso. — O Conselho se reúne em breve. Meu pai vai ler minha carta lá, declarando a incapacidade de Arthur Blackthorn de comandar o Instituto, e depois vai anunciar a própria candidatura.

— Eles não vão nem saber o que os atingiu — disse Manuel, enfiando as mãos nos bolsos. — E quando tudo acabar, é claro...

— Não se preocupe — falou Zara irritadiça. — Você vai ter o que quer. Mas seria melhor se você fosse um pouco mais comprometido com a causa.

Ela já tinha virado as costas; Kit viu os olhos de Manuel brilhando sob os cílios quando ele olhou para ela. Havia alguma coisa em sua expressão — uma espécie de fome desagradável, mas Kit não sabia dizer se era desejo por Zara ou alguma coisa mais misteriosa.

— Ah, eu sou comprometido — disse Manuel. — E gostaria de ver o mundo livre de habitantes do Submundo tanto quanto você, Zara. Só não acredito em fazer algo por nada.

Zara olhou para trás por cima do ombro ao avançar pelo corredor que Manuel tinha usado como entrada.

— Não será nada, Manu — disse ela. — Posso garantir.

E eles saíram, deixando Kit, Ty e Livvy amontoados na boca do túnel, calados.

O barulho que acordou Cristina foi tão fraco que inicialmente ela achou que tivesse imaginado. Ficou deitada, ainda cansada, piscando os olhos contra a luz nebulosa do sol. Imaginou quanto tempo faltaria para o pôr do sol, quando pudessem voltar a se guiar pelas estrelas.

Cristina ouviu o som novamente, um grito doce e distante, e ela se sentou, jogando o cabelo para trás. Estava molhado de orvalho. Ela passou os dedos por ele, desejando ter alguma coisa para prendê-lo. Quase nunca usava o cabelo solto assim, e o peso no pescoço a incomodava.

Estava vendo Julian e Emma, ambos dormindo, vultos encolhidos no chão. Mas onde estava Mark? Sua coberta estava jogada, com as botas ao lado. A visão das botas a fez se levantar: todos dormiram de sapatos, por via das dúvidas. Por que ele tiraria os dele?

Ela pensou em acordar Emma, mas provavelmente estava sendo ridícula: na certa, ele tinha ido dar uma volta. Ela esticou o braço para pegar o canivete do cinto de armas e começou a descer a colina, passando por Emma e Jules. E viu com uma espécie de pontada no coração que as mãos deles, entre os corpos, estavam dadas: de algum jeito tinham encontrado um caminho entre eles durante o sono. Ficou imaginando se deveria abaixar e separá-los gentilmente. Mas não, não poderia fazer isso. Não havia como separar Jules e Emma gentilmente. A mera ação de separá-los era como um ato de violência, um rasgo no tecido do mundo.

Ainda havia bruma pesada por todos os lados, e o sol a perfurava singelamente em diversos

pontos, criando um véu branco brilhante através do qual ela só conseguia enxergar em certos trechos.

— Mark? — chamou suavemente. — Mark, cadê você?

Cristina detectou o som que tinha ouvido antes, e agora estava mais claro: música. O som de

uma gaita, o barulho de uma corda de harpa. Ela se esforçou para ouvir mais — depois quase gritou quando algo a tocou no ombro. Ela girou e viu Mark na sua frente, levantando as mãos como se quisesse afastá-la.

— Não quis assustar você — falou.

— Mark — murmurou, depois parou. — Você é o Mark? Fadas criam ilusões, não criam? Ele inclinou a cabeça para o lado. Seus cabelos louros caíram sobre a testa. Ela se lembrou de

quando ele batia nos ombros, como se ele fosse a ilustração de um príncipe fada em um livro. Agora estava curto, macio e cacheado. Ela tinha dado a ele um corte moderno, e, de repente, parecia estranho, deslocado no Reino das Fadas.

— Não consigo ouvir meu coração ou o que ele me diz — falou. — Só ouço o vento. Foi uma das primeiras coisas que ele disse a ela.

— É você — falou Cristina, respirando aliviada. — O que está fazendo? Por que não está

dormindo? Precisamos descansar, se quisermos chegar à Corte Unseelie antes do nascer da lua.

— Não está ouvindo a música? — perguntou ele. Estava mais alta agora, o som claro de

violinos e instrumentos de sopro, e o barulho de danças também, risos e pés. — É uma festa.

O coração de Cristina tremeu. Festas de fadas eram lendárias. O Povo das Fadas dançava

músicas encantadas, bebia vinho encantado, e às vezes passava dias assim. A comida que as fadas comiam deixava a pessoa delirante, perdidamente apaixonada ou louca... podia entrar em seus sonhos...

— É melhor você voltar a dormir — disse Mark. — Festas podem ser perigosas. — Eu sempre quis ver uma. — Uma onda de rebeldia a atingiu. — Vou chegar mais perto. — Cristina, não. — Ele pareceu sem fôlego quando ela se virou e desceu a colina mais para

perto do som. — É a música... está fazendo com que você queira dançar...

Ela girou, um cacho de cabelo preto grudado à bochecha úmida. — Você nos trouxe aqui — falou, e depois continuou, em direção à música, que aumentou e a

cercou, e ela podia ouvir Mark, xingando, mas seguindo-a.

Cristina chegou a um campo ao pé da colina e parou para observar. O campo estava cheio de

movimentos borrados e coloridos. Ao redor dela, a música ecoava, extremamente doce.

E por todo canto, é claro, havia fadas. Um grupo estava no meio dos dançarinos, tocando

seus instrumentos, com a cabeça para trás, os pés batendo no chão. Havia fadas dos bosques, com a pele verde, dançando, com mãos nodosas e olhos que brilhavam amarelos como seiva. Fadas azuis e verdes, brilhando como água, com cabelos que pareciam redes transparentes caindo em cascata até os pés. Belas meninas com flores presas nos cabelos, amarradas na cintura e pescoço, cujos pés eram cascos: meninos bonitos com roupas rasgadas e olhos brilhantes seguravam suas mãos enquanto giravam.

— Venha dançar — chamaram. — Venha dançar, bela moça, chica bella, venha dançar conosco.

Cristina começou a ir em direção a eles, em direção à música e à dança. O campo ainda estava cheio de névoa, talhando linhas brancas pelo chão e escondendo o azul do céu. A bruma brilhava enquanto ela se aproximava, carregada com cheiros estranhos: fruta, vinho e fumaça tipo incenso.

Ela começou a dançar, mexendo o corpo ao ritmo da música. A alegria parecia preenchê-la a cada vez que respirava. De repente, não era mais a menina que tinha deixado Diego Rosales enganá-la não uma, mas duas vezes, não era a garota que respeitava regras e confiava nas pessoas até que elas quebrassem essa confiança com a mesma casualidade de quem derrubava um copo da mesa. Não era mais a garota que ficava para trás, deixava seus amigos enlouquecer e esperava para segurá-los quando caíssem. Agora era ela que estava caindo.

Mãos a seguraram e giraram. Mark. Os olhos dele brilhavam. Ele a puxou para perto de si, envolvendo-a com os braços, mas o aperto era firme por causa da raiva.

— O que você está fazendo, Cristina? — perguntou com a voz baixa. — Você sabe sobre as fadas, sabe que é perigoso.

— É por isso que estou fazendo, Mark. — Ela não o via tão furioso desde que Kieran tinha vindo para o Instituto com Iarlath e Gwyn. Ela sentiu uma pulsação secreta no peito por causa de sua agitação, por conseguir enfurecê-lo.

— Eles detestam Caçadores de Sombras aqui, não lembra? — perguntou ele.

— Não sabem que sou Caçadora de Sombras.

— Acredite em mim — disse Mark, se aproximando de modo que ela pôde sentir o hálito quente em sua orelha. — Eles sabem.

— Então não ligam — respondeu Cristina. — É uma festa. Eu já li sobre isso. As fadas se perdem na música, como os humanos. Elas dançam e esquecem, assim como nós.

As mãos de Mark se curvaram em torno da cintura dela. Era um gesto de proteção, ela disse a si mesma. Não significava nada. Mas seu pulso acelerou assim mesmo. Quando Mark chegou ao Instituto, ele estava muito magro e com olheiras. Agora ela sentia músculos sobre seus ossos, a força dele contra o corpo dela.

— Nunca perguntei — começou ele, ao se moverem entre a multidão. Eles estavam perto de duas garotas dançando juntas; ambas estavam com os cabelos negros presos em elaboradas coroas de frutas e sementes. Usavam vestidos em tons de castanho-avermelhado e marrom, com laços em volta do pescoço fino, e balançavam a saia para longe de Mark e Cristina, rindo do casal desengonçado. Cristina não se importou. — Por que fadas? Por que as escolheu como seu tema de estudo?

— Por sua causa. — Ela inclinou a cabeça para trás para olhar para ele e viu a surpresa que passou por seu rosto expressivo. O princípio das curvas suaves de espanto nos cantos da boca. — Por sua causa, Mark Blackthorn.

Eu?, seus lábios formaram a palavra.

— Eu estava no jardim de rosas da minha mãe quando soube o que tinha acontecido com você — falou. — Eu só tinha treze anos. A Guerra Maligna estava acabando, e a Paz Fria tinha sido anunciada. O mundo inteiro dos Caçadores de Sombras sabia do exílio da sua irmã, e que você tinha sido abandonado. Meu tio-avô saiu para me contar. Minha família sempre brincava que eu tinha o coração mole, que era fácil me fazer chorar, e ele sabia que eu estava preocupada com você, então ele me contou... ele disse “o seu garoto perdido nunca mais vai ser encontrado agora.”

Mark engoliu em seco. Emoções passaram como uma tempestade de nuvens por trás de seus

olhos; não eram para ele a guarda de Julian, seus escudos.

— E você?

— Eu o quê?

— Você chorou? — perguntou ele. Ainda estavam se movendo juntos, na dança, mas era

quase mecânico agora: Cristina tinha se esquecido dos passos que os pés estavam fazendo, ela só tinha consciência da respiração de Mark, dos seus dedos entrelaçados na nuca dele, de Mark nos seus braços.

— Não chorei — disse Cristina. — Mas decidi que ia dedicar a minha vida a erradicar a Paz

Fria. Não foi uma Lei justa na época. Nunca será uma Lei justa.

Os lábios dele se abriram.

— Cristina...

Uma voz como pombas os interrompeu. Suave, aveludada e leve, cantarolou: — Bebidas, senhora e senhor? Um refresco depois da dança? Uma fada com um rosto parecido com o de um gato — peludo e com bigodes — estava

diante deles vestindo os retalhos de um terno eduardiano. Ele trazia uma bandeja dourada sobre a qual havia diversos pequenos copos contendo líquidos de diferentes cores: azul, vermelho e âmbar.

— É encantado? — perguntou Cristina, sem fôlego. — Vai me fazer ter sonhos estranhos? — Vai refrescar a sua sede, senhorita — disse a fada. — E em troca tudo que eu pedirei será

um sorriso dos seus lábios.

Cristina pegou um copo cheio de líquido âmbar. Tinha gosto de maracujá, doce e azedo —

ela tomou um gole, e Mark arrancou o copo de sua mão. Caiu tilintando aos seus pés, espirrando líquido na mão dele. Ele lambeu o líquido da pele, o tempo todo a encarando com expressão séria.

Cristina recuou. Ela sentia um calor agradável se espalhando pelo peito. O vendedor de

bebida discutia com Mark, que o afastou com uma moeda — um centavo de dinheiro mundano — e foi atrás de Cristina.

— Pare — falou. — Cristina, devagar, você está indo para o centro da festa; a música só vai

ficar mais forte lá...

Ela parou e estendeu a mão para ele. Sentia-se destemida. Ela sabia que deveria estar

apavorada: tinha engolido uma bebida de fadas, e qualquer coisa podia acontecer. Mas em vez disso ela só se sentia como se estivesse voando. Estava voando livre, e só Mark aqui a segurava no chão.

— Dance comigo — pediu.

Ele a segurou. Parecia furioso, ainda, mas a segurou firme ainda assim. — Você já dançou o suficiente. E bebeu.

— Dançou o suficiente? — Eram as meninas de castanho-avermelhado de novo; bocas

vermelhas rindo. Exceto pelos olhos de cores diferentes, elas pareciam quase idênticas. Uma delas puxou o laço que tinha em volta do pescoço. Cristina a observou; seu pescoço tinha cicatrizes horríveis, como se a cabeça dela quase tivesse sido arrancada do pescoço. — Dancem juntos — disse a menina, quase cuspindo, como se fosse um xingamento, e amarrou o laço nos pulsos de Mark e Cristina, unindo-os. — Aproveite a união, Caçador. — Ela sorriu para Mark, e seus dentes eram pretos, como se tivessem sido pintados, e afiados como agulhas.

Cristina engasgou, cambaleando para trás, puxando Mark junto, o laço os conectando. Esticou como um elástico, sem rasgar ou desfiar. Mark a alcançou, segurando a mão dela na dele, entrelaçando os dedos dos dois.

Ele a arrastou, rápido e firme pelo solo irregular, encontrando aberturas na bruma pesada. Passaram entre casais dançando até a grama sob eles não estar mais esmagada, e a música soar baixinho aos ouvidos.

Mark foi para o lado, na direção de um bosque. Ele se ajeitou sob os galhos, empurrando os mais baixos para deixar Cristina se ajeitar ao seu lado. Depois que ela se ajeitou, ele os soltou, fechando-os em um espaço de terra abaixo das árvores, escondidos do resto do mundo por galhos longos, carregados de frutas que tocavam o chão.

Mark se sentou e tirou uma faca do cinto.

— Vem aqui — falou, e quando Cristina veio sentar ao lado dele, ele pegou a mão dela e cortou o laço que os prendia.

A fita deu um gritinho magoado, como um animal ferido, mas desfiou e cedeu. Ele soltou Cristina e largou a faca. Luz do sol, bem fraca, entrava pelos galhos acima, e, sob a pouca luminosidade, o laço ainda em torno do pulso parecia sangue.

O laço também envolvia o pulso de Cristina, que não mais queimava, tocando a ponta solitária na terra. Ela o puxou com as unhas até soltar e cair no chão. Seus dedos escorregavam. Provavelmente era efeito da bebida de fada, ainda em seu sistema, ela pensou.

Ela olhou para Mark. O rosto dele estava exaurido, seus olhos azuis e dourados fundos.

— Isso poderia ter acabado muito mal — disse ele, descartando o resto do laço. — Um feitiço de ligação como esse pode amarrar duas pessoas e fazer uma delas enlouquecer, se afogar e puxar a outra junto.

— Mark — disse Cristina. — Sinto muito. Eu devia ter escutado o que você falou. Você conhece mais sobre festas do que eu. Tem experiência. Eu só tenho os livros que li.

— Não — retrucou ele inesperadamente. — Eu também queria ir. Gostei de dançar com você. Foi bom estar lá com alguém...

— Humano? — completou Cristina.

O calor no peito dela tinha se transformado em um estranho incômodo, uma pressão quente que aumentava quando ela olhava para ele. Para as curvas das maçãs do rosto, as concavidades nas têmporas dele. A camisa larga e cor de trigo estava aberta no pescoço de Mark, e ela podia ver aquele ponto que ela sempre achou o mais bonito no corpo de um homem, o músculo liso sobre a clavícula e a parte oca vulnerável.

— Sim, humano — falou ele. — Somos todos humanos, eu sei. Mas quase nunca encontrei ninguém tão humano quanto você.

Cristina se sentiu sem fôlego. A bruma de fadas tinha roubado seu fôlego, ela pensou, isso e o encanto que os cercava.

— Você é gentil — falou ele —, uma das pessoas mais gentis que já conheci. Na Caçada, não havia muita gentileza. Quando penso que quando a sentença da Paz Fria foi aprovada havia alguém a milhares de quilômetros de Idris, alguém que nunca me conheceu, mas que chorou por um menino que tinha sido abandonado...

— Eu disse que não chorei. — A voz de Cristina falhou.

A mão de Mark era um borrão pálido. Ela sentiu os dedos dele em seu rosto. Eles voltaram

molhados, brilhando à luz da bruma.

— Está chorando agora — falou.

Quando ela pegou a mão dele, estava molhada pelas lágrimas dela. E quando Cristina se

inclinou sobre ele através da bruma e o beijou, ela sentiu gosto de sal.

Por um instante, Mark ficou espantado, imóvel, e Cristina sentiu uma pontada de horror

passar por ela, pior do que a visão de qualquer demônio. Que Mark pudesse não querer isso, que ele pudesse ficar horrorizado...

— Cristina — falou ele, quando ela se afastou, e se ajoelhou, colocando o braço em volta dela,

um pouco sem jeito, passando a mão no cabelo dela. — Cristina — repetiu ele, com a voz falhando, o som cru do desejo.

Ela colocou as mãos nas laterais do rosto dele, com as palmas nas concavidades das

bochechas, e ficou maravilhada com a suavidade onde Diego tinha um esboço de barba, áspera contra sua pele. Ela o deixou vir até ela dessa vez, fechando-a no arco do seu braço esquerdo, encaixando a boca na dela.

Estrelas explodiram por trás das pálpebras de Cristina. E não foram estrelas quaisquer, mas as

estrelas multicoloridas do Reino das Fadas. Ela viu nuvens e constelações; sentiu o gosto do ar noturno na boca de Mark. Os lábios dele se moveram freneticamente sobre os dela. Ele ainda sussurrava o nome de Cristina, incoerente entre os beijos. A mão livre de Mark deslizou para a cintura dela e subiu pela lateral do corpo. Ele gemeu quando os dedos dela entraram pelo colarinho da sua camisa e roçaram sua clavícula, tocando a pulsação em sua garganta.

Ele falou alguma coisa em uma língua que ela não conhecia, e, em seguida, estava deitado no

chão e ela por cima dele, e ele a puxava para baixo, com as mãos firmes nas costas e nos ombros dela, e ela ficou imaginando se para ele sempre tinha sido assim com Kieran, feroz e voraz. Ela se lembrava de tê-los visto se beijando no deserto atrás do Instituto, e de como tinha sido uma coisa frenética, uma colisão de corpos, e ela sentiu desejo na hora, e estava sentindo agora.

Ele arqueou para cima e Cristina o ouviu arfar enquanto deslizava por seu corpo, beijando o

pescoço dele e o peito sobre a camisa; depois ela estava com os dedos nos botões e o ouviu rir sem fôlego, dizendo o nome dela, e em seguida:

— Nunca achei que você fosse sequer olhar para mim, não alguém como você, a realeza dos

Caçadores de Sombras... uma princesa...

— É impressionante o que um pouco de bebida encantada de fada pode fazer. — Ela teve a

intenção de provocar com leveza. Mas Mark parou embaixo dela. Logo depois ele se moveu, rápida e graciosamente, e estava sentado a pelo menos trinta centímetros dela, com as mãos levantadas como se quisesse mantê-la afastada.

— Bebida de fada? — ele ecoou.

Cristina o olhou surpresa.

— A bebida doce que o homem com cara de gato me deu. Você provou. — Não tinha nada ali — falou Mark, com uma rispidez incomum. — Eu soube no instante

em que botei a boca na pele. Era só suco de amora silvestre, Cristina.

Cristina se encolheu levemente, tanto pela raiva dele quanto pela constatação de que não

houve nenhum véu de magia sobre as coisas que ela tinha acabado de fazer.

— Mas eu pensei...

— Você achou que estivesse me beijando por estar bêbada — disse Mark. — Não porque queria, ou porque, de fato, gosta de mim.

— Mas eu gosto de você. — Ela se ajoelhou, mas Mark já estava de pé. — Gosto desde que nos conhecemos.

— Foi por isso que voltou com Diego? — indagou Mark, e depois balançou a cabeça, recuando. — Talvez eu não consiga fazer isso.

— Fazer o quê? — Cristina se levantou cambaleando.

— Ficar com uma humana que mente — respondeu Mark, inabalado.

— Mas você também mentiu — disse Cristina. — Você mentiu sobre estar com Emma.

— E você participou da mesma mentira.

— Porque ela é necessária — falou Cristina. — Pelo bem deles dois. Se Julian não estivesse apaixonado por ela, ele não teria que pensar...

Ela então se interrompeu, quando Mark empalideceu sob as sombras.

— O que você disse?

Cristina colocou a mão na boca. O conhecimento sobre os sentimentos de Emma e Julian um pelo outro estava tão enraizado nela que era difícil se lembrar de que os outros não sabiam. Era tão claro em todas as palavras e gestos dos dois que, mesmo agora, como é que Mark podia não saber?

— Mas eles são parabatai — falou ele, espantado. — É ilegal. O castigo... Julian não faria isso. Ele simplesmente não faria.

— Eu sinto muito. Não devia ter dito nada. Eu só estava supondo...

— Não estava — disse Mark, e virou as costas para ela, saindo pelos galhos.

Cristina foi atrás dele. Ele tinha que entender que não podia falar nada para Julian. Sua traição pesava como pedra em seu coração, seu senso de humilhação esquecido em razão do medo por Emma, a constatação do que tinha feito. Ela atravessou em meio aos galhos, e as folhas secas arranharam sua pele. Um instante depois, estava na colina verde e viu Julian.

A música acordou Jules, a música e uma sensação de calor. Ele não se sentia aquecido havia muito tempo, nem mesmo à noite, enrolado em cobertores.

Ele piscou os olhos para abri-los. Conseguia ouvir a música ao longe, tentáculos ondulando pelo céu. Ele virou a cabeça e com uma sensação de familiaridade viu Emma ao seu lado, com a cabeça sobre o casaco. Estavam de mãos dadas sobre a grama entre eles, seus dedos bronzeados envolvendo os dela, menores.

Ele retirou a mão depressa, com o coração acelerado, e se levantou, cambaleando. Ficou imaginando se a teria alcançado enquanto dormia, ou se ela o tinha alcançado? Não, ela não teria feito isso. Ela tinha Mark. Ela podia tê-lo beijado, Julian, mas foi o nome de Mark que chamou.

Ele achou que ficaria bem, dormindo ao lado dela, dormindo perto dela, mas aparentemente tinha se enganado. A mão dele ainda parecia queimar, mas o resto do corpo estava frio outra vez. Emma murmurou e se virou, seus cabelos louros caindo em sua mão, agora curvada com a palma para cima na grama, como se estivesse procurando por ele.

Ele não suportava. Pegou seu casaco do chão, vestiu, e foi observar a colina. Talvez pudesse estimar a distância do pé das montanhas. Quanto tempo levariam para chegar à Corte Unseelie e terminar a missão louca. Não que ele culpasse Mark; não culpava. Kieran era como se fosse família para Mark, e Julian entendia família melhor do que entendia quase todo o resto.

Mas ele já estava preocupado com as crianças no Instituto, se estariam furiosas, em pânico,

incapazes de perdoá-lo. Ele jamais as tinha deixado sozinhas. Nunca.

O vento mudou e a música acelerou. Julian se flagrou na beira da colina olhando para uma

vista de grama verde, marcada em alguns pontos por bosques que desciam até um espaço vazio, onde um borrão de cores e movimentos era visível.

Dançarinos. Moviam-se no tempo da música que parecia brotar da terra. Era insistente,

exigente, e convocava a todos para que se juntassem a ela, se deixassem levar e fossem carregados como uma onda podia carregar do mar para a costa.

Julian sentiu o puxão, apesar de estar distante o suficiente para não ser desconfortável. Seus

dedos imploravam por pincéis, no entanto. Por todos os cantos que olhava via uma intensidade de cor e movimento que fazia com que desejasse estar em seu estúdio diante do cavalete. Parecia que estava olhando para fotos retocadas com a máxima saturação. As folhas e grama eram intensas de um verde quase venenoso. As frutas brilhavam mais do que joias. Os pássaros que mergulhavam no ar tinham plumas tão coloridas que Julian ficava imaginando se eles não eram caçados, se não tinham nenhum propósito além da beleza.

— O que foi? — Ele se virou e a viu logo atrás, na borda da colina. Emma. Seus cabelos

longos, soltos e voando ao seu redor como uma folha fina de metal. O coração dele saltou, sentindo um puxão muito mais insistente do que o da música das fadas.

— Nada. — A voz dele soou mais áspera do que ele pretendia. — Só estou procurando Mark e

Cristina. Depois que encontrá-los, é melhor irmos. Temos muito que caminhar.

Ela foi para perto dele, com a expressão melancólica. O sol raiava através das nuvens,

iluminando seus cabelos em ricas ondas de açafrão. Julian cerrou as mãos firmemente, não se permitindo levar os dedos para enterrá-los nos cabelos claros que Emma normalmente só soltava à noite. Isso lembrava a ele dos momentos de paz entre o crepúsculo e o anoitecer quando as crianças estavam dormindo e ele ficava sozinho com Emma, momentos de fala suave e intimidade que precederam qualquer percepção por parte dele de que eles eram mais do que parabatai. Na curva do rosto adormecido de Emma, nos cabelos caídos, nas sombras dos cílios sobre as bochechas, havia uma paz que ele pouco tinha.

— Está ouvindo a música? — perguntou ela, dando um passo para mais perto... o suficiente

para tocá-lo. Julian ficou imaginando se era assim que viciados se sentiam. Querendo o que sabiam que não deveriam ter. Pensando, só dessa vez não tem problema.

— Emma, não — falou ele. Não sabia o que estava pedindo, exatamente. Não fique perto de

mim, eu não aguento. Não me olhe assim. Não seja tudo que eu quero e não posso ter. Não me faça esquecer de que você é do Mark e jamais poderia ser minha.

— Por favor — falou. Ela o olhou com olhos arregalados e sofridos. — Por favor, eu preciso... A parte de Julian que jamais podia suportar ser necessário relaxou os punhos cerrados, os pés

fincados no solo. Em poucos segundos, ele estava na esfera de sua presença, seus corpos quase colidindo. Ele colocou uma das mãos na bochecha dela. Ela não trazia Cortana, ele notou com uma confusão distante. Por que a tinha deixado para trás?

Os olhos de Emma brilharam. Ela ficou na ponta dos pés, inclinando o rosto para cima. Seus

lábios se moveram, mas ele não conseguiu escutar o que diziam com o ruído em seus próprios ouvidos. Ele se lembrava de ter sido derrubado por uma onda uma vez, empurrado para o fundo do oceano, sem fôlego e incapaz de se levantar. Sentiu pavor, mas também sentiu uma sensação de desapego: algo mais poderoso do que ele o carregava, e ele não precisava mais lutar.

Os braços dela estavam em torno do seu pescoço, os lábios nos dele, e ele se entregou, rendendo-se. Seu corpo todo se contraiu, o coração acelerado, explodindo, veias pulsando com sangue e energia. Ele a puxou para si, pequena e forte em seus braços. Ele arfou, sem conseguir respirar, sentindo a agudeza doce do sangue.

Mas não Emma. Ele não sentiu o gosto de Emma, a familiaridade dela, e o cheiro também era diferente. Não havia a doçura da pele aquecida pelo sol, das ervas do sabonete e do xampu que ela usava, o cheiro do uniforme, do ouro e da garota.

Você não crescia com uma pessoa, sonhava com ela, permitia que ela mudasse sua alma e marcasse as digitais no seu coração, e não sabia que a pessoa que você estava beijando não era ela. Julian se afastou, passando a parte de trás da mão na boca. Sangue manchou suas juntas.

Ele estava olhando para uma fada, de pele lisa e pálida, uma tela sem rugas e limpa. Ela estava sorrindo, os lábios vermelhos. Seu cabelo tinha cor de teia de aranha — era teia de aranha, cinza, fina e esvoaçante. Ela poderia ter qualquer idade. Sua única roupa era um vestido preto rasgado. Ela era linda e, ao mesmo tempo, horrorosa.

— Você me agrada, Caçador de Sombras — cantarolou. — Não voltará aos meus braços para mais beijos?

Ela esticou o braço. Julian cambaleou para trás. Ele jamais havia beijado ninguém além de Emma; estava enjoado agora, no coração e nas entranhas. Queria alcançar uma lâmina serafim, queimar o ar entre eles, sentir o calor familiar correr pelo seu braço e pelas veias e cauterizar sua náusea.

Sua mão tinha acabado de fechar em torno do cabo da lâmina quando ele se lembrou: não funcionaria aqui.

— Deixe-o em paz! — Alguém gritou. — Afaste-se do meu irmão, leanansídhe!

Era Mark. Ele vinha de um bosque com Cristina logo atrás. Tinha uma adaga na mão.

A mulher fada riu.

— Suas armas não funcionam neste reino, Caçador de Sombras.

Ouviu-se um clique, e o canivete de Cristina se abriu em sua mão.

— Venha falar suas palavras desafiadoras para a minha lâmina, fada sanguessuga.

A fada recuou com um sibilo, e Julian viu seu próprio sangue nos dentes. Ele estava tonto de enjoo e raiva. Ela girou e desapareceu em um instante, um borrão cinza e preto correndo pela colina.

A música tinha parado. Os dançarinos também tinham começado a se espalhar: o sol estava se pondo, as sombras eram espessas pelo chão. Qualquer que tivesse sido o tipo de festa, aparentemente não era à prova do anoitecer.

— Julian, irmão. — Mark correu até ele, seus olhos preocupados. — Você parece doente... sente-se, beba um pouco de água...

Ouviu-se um assobio baixo, vindo de um pouco mais longe na colina. Julian virou. Emma estava na borda, prendendo Cortana. Ele notou o alívio no rosto dela quando o viu.

— Estava imaginando para onde teria ido — falou Emma, apressando-se pela colina. Seu sorriso ao olhar para ele era esperançoso. — Temi que tivesse comido fruta de fada e estivesse correndo nu pelo gramado.

— Sem nudez — disse Julian. — Sem gramado.

Emma apertou a alça de Cortana. Seu cabelo estava preso em uma trança comprida, apenas alguns fios claros escapando do penteado. Ela olhou em volta para os rostos tensos de todos, com os olhos castanhos arregalados.

— Está tudo bem?

Julian ainda estava sentindo as pontas dos dedos da leanansídhe por todo ele. Ele sabia o que

eram leanansídhe — fadas selvagens que assumiam a forma do que você desejasse ver, então o seduziam e se alimentavam do seu sangue e pele.

Pelo menos, ele era o único que tinha visto Emma. Mark e Cristina tinham visto a

leanansídhe em sua verdadeira forma. Era uma humilhação e um perigo do qual seriam poupados.

— Está tudo bem — falou. — É melhor irmos. As estrelas estão surgindo, e ainda temos um

longo caminho a percorrer.

— Tudo bem — disse Livvy, parando em frente a uma porta estreita de madeira. Não parecia muito com o resto do Instituto, vidro, metal e modernidade. Parecia um alerta. — Vamos lá.

Ela não falava como se estivesse ansiosa.

Tinham decidido — com Kit basicamente como um observador silencioso — ir direto até o

escritório de Arthur Blackthorn. Mesmo que fossem duas da manhã, mesmo que ele não quisesse ser incomodado com assuntos dos Centuriões, ele precisava saber o que Zara estava planejando.

Ela estava atrás do Instituto, Livvy tinha explicado enquanto voltavam pela praia e as pedras,

o caminho que tinham vindo. Certamente foi por isso que ela disse o que disse sobre Arthur — claramente diria qualquer mentira.

Kit nunca tinha pensado muito nos Institutos — sempre pareceram delegacias de polícia para

ele, colmeias barulhentas de Caçadores de Sombras que deveriam ficar de olho em locais específicos. Parecia que eram mais como pequenas cidades-Estado: encarregados de certa área, mas administrados por uma família indicada pelo Conselho em Idris.

— Existe mesmo um país inteiro que é só de Caçadores de Sombras? — perguntou Kit

quando voltavam para o Instituto, que se erguia como uma sombra contra as montanhas atrás.

— Sim — respondeu Livvy brevemente. Em outras palavras, cale a boca e ouça. Kit tinha a

sensação de que ela estava processando o que estava acontecendo ao explicar para ele. Ele calou a boca e deixou que ela falasse.

Um Instituto era administrado por um diretor ou diretora, cuja família morava com ele ou

ela; também abrigavam famílias que tinham perdido parentes ou órfãos Nephilim — dos quais havia muitos. O diretor de um Instituto tinha bastante poder: a maioria dos Cônsules era escolhida entre eles, e podiam propor novas leis, que seriam aprovadas se a votação fosse favorável.

Todos os institutos eram tão vazios quanto o de Los Angeles, que, na verdade, estava

incomumente cheio no momento, com a presença dos Centuriões. Era para ser assim, caso precisassem abrigar um batalhão de Caçadores de Sombras a qualquer momento. Não havia funcionários, considerando que não havia necessidade para tal: Caçadores de Sombras que trabalhavam para o Instituto, chamados de Conclave, estavam espalhados por toda cidade e tinham as próprias casas.

Não que houvesse muitos destes também, Livvy acrescentou sombriamente. Muitos tinham

morrido na guerra, cinco anos atrás. Mas se o pai de Zara se tornasse diretor do Instituto de Los Angeles, ele não só poderia propor sua Lei preconceituosa, mas os Blackthorn seriam expulsos e não teriam para onde ir além de Idris.

— Idris é tão ruim assim? — perguntou Kit ao subirem as escadas. Não que ele quisesse ser mandado para Idris. Ele estava começando a se acostumar com o Instituto. Não que fosse querer ficar se o pai de Zara assumisse. Não se ele se parecesse minimamente com a filha.

Livvy olhou para Ty, que não a tinha interrompido durante a explicação.

— Idris é bom. Ótimo, até. Mas moramos aqui.

Eles chegaram à porta do escritório de Arthur, e estava tudo em silêncio. Kit ficou imaginando se deveria ir na frente. Ele não se importava se irritasse Arthur Blackthorn ou não.

Ty olhou para a porta com expressão confusa.

— Não podemos incomodar o tio Arthur. Prometemos a Jules.

— Precisamos — respondeu Livvy simplesmente, e abriu a porta.

Degraus estreitos levavam a um quarto escuro sob o telhado da casa. Havia um amontoado de mesas, cada uma com uma lâmpada em cima — tantas lâmpadas que o recinto estava claro. Cada livro, cada pedaço de papel escrito, cada prato com resto de comida era iluminado.

Um homem sentava a uma das mesas. Ele usava um roupão comprido sobre um casaco jeans rasgado; os pés estavam descalços. O roupão provavelmente foi azul um dia, mas agora tinha uma espécie de tom branco sujo após muitas lavadas. Era claramente um Blackthorn — seus cabelos predominantemente grisalhos ondulavam assim como os de Julian, e os olhos eram azul-esverdeados e brilhantes.

Eles passaram por Livvy e Ty e se fixaram em Kit.

— Stephen — falou ele e largou a caneta que segurava. Ela caiu no chão, entornando tinta e formando uma poça escura sobre os tacos.

A boca de Livvy estava semiaberta. Ty se encostara na parede.

— Tio Arthur, esse é Kit — explicou Livvy. — Kit Herondale.

Arthur riu secamente.

— Herondale, de fato — falou. Seus olhos pareciam arder: havia neles um olhar adoentado, como o calor de uma febre. Ele se levantou e foi até Kit, olhando fixamente para o seu rosto. — Por que você seguiu Valentim? — perguntou. — Você, que tinha tudo? “Sim, não é Apolo, com cabelos e harpa de ouro, um Deus amargo para seguir, um belo Deus para se contemplar?” — Ele tinha um cheiro amargo, de café velho. Kit deu um passo para trás. — Que tipo de Herondale você vai ser? — sussurrou Arthur. — William ou Tobias? Stephen ou Jace? Belo, amargo ou ambos?

— Tio — disse Ty. Ele levantou a voz, apesar de ter tremido um pouco. — Precisamos falar com você. Sobre os Centuriões. Eles querem tomar o Instituto. Não querem mais que você seja o diretor.

Arthur voltou-se para Ty com um olhar feroz — quase de raiva, mas não tanto. E então começou a rir.

— É verdade? É? — ele quis saber. O riso se intensificou e pareceu se interromper quase em um soluço. Ele se virou e sentou pesadamente na cadeira. — Que piada — falou vorazmente.

— Não é piada — começou Livvy.

— Querem tirar o Instituto de mim — disse Arthur. — Como se fosse meu! Eu nunca comandei um Instituto na vida, crianças. Ele faz tudo: escreve as correspondências, planejas as reuniões, fala com o Conselho.

— Quem faz tudo? — perguntou Kit, apesar de saber que não devia participar da conversa.

— Julian. — A voz era de Diana; ela estava no alto da escada do sótão, olhando em volta

como se a claridade da luz a surpreendesse. Sua expressão era de resignação. — Ele está falando de Julian.