Senhor das sombras

Cassandra Clare · Capítulo 14 de 35

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Senhor das sombras

10. Assim Deseja o Seu Rei

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Assim Deseja o Seu Rei

Eles estavam no escritório de Diana. Através da janela, o oceano parecia alumínio ondulado, iluminado por luz negra.

— Sinto muito que tenham tido que descobrir isso sobre seu tio — disse Diana. Ela estava apoiada na mesa. Vestia jeans e suéter, e mesmo assim tinha aparência imaculada. Seus cabelos estavam presos em uma massa de cachos por uma presilha de couro. — Eu tinha esperança... Julian tinha esperança... de que vocês nunca soubessem.

Kit estava apoiado na parede oposta; Ty e Livvy permaneciam sentados na escrivaninha de Diana. Ambos pareciam em choque, como se estivessem se recuperando após terem o fôlego arrancado do peito. Kit nunca tinha tido tanta consciência de que eram gêmeos, apesar da diferença de tons.

— Então esse tempo todo foi o Julian — disse Livvy. — Comandando o Instituto. Fazendo tudo. Dando cobertura a Arthur.

Kit pensou na ida de carro com Julian até o Mercado das Sombras. Ele não tinha passado tanto tempo assim com o segundo mais velho dos meninos Blackthorn, mas Julian sempre pareceu assustadoramente adulto para ele, como se tivesse muitos anos a mais do que sua certidão dizia.

— Deveríamos ter adivinhado. — A mão de Ty enrolava e desenrolava o fio branco do fone de ouvido no pescoço. — Eu devia ter concluído.

— Não vemos as coisas mais próximas de nós — disse Diana. — É a natureza das pessoas.

— Mas Jules — murmurou Livvy. — Ele só tinha doze anos. Deve ter sido tão difícil para ele.

O rosto dela reluziu. Por um instante, Kit achou que fosse luz refletida da janela. E então percebeu — eram lágrimas.

— Ele sempre os amou demais — falou Diana. — Era o que ele queria.

— Precisamos dele aqui — disse Ty. — Precisamos dele aqui agora.

— É melhor eu ir — concluiu Kit. Ele nunca tinha se sentido tão desconfortável. Bem, talvez não nunca; teve o incidente com os cinco lobisomens bêbados e a jaula de anfíbios no Mercado das Sombras, mas raramente.

Livvy olhou para cima, seu rosto cruel sujo de lágrimas.

— Não, não é melhor. Você tem que ficar aqui e nos ajudar a explicar a Diana sobre Zara.

— Eu não entendi metade do que ela disse — protestou Kit. — Sobre diretores de Institutos, registros...

Ty respirou fundo.

— Eu explico — falou. Recitar os acontecimentos pareceu acalmá-lo: a marcha regular dos fatos, um depois do outro. Quando terminou, Diana atravessou o recinto e trancou a porta com duas voltas na chave.

— Algum de vocês se lembra de mais alguma coisa? — perguntou, voltando-se novamente para eles.

— Uma coisa — disse Kit, surpreso por ter alguma contribuição a fazer. — Zara comentou que a próxima reunião de Conselho será em breve.

— Suponho que vão falar sobre Arthur nela — disse Livvy. — E vão tentar pegar o Instituto. — A Tropa é uma facção poderosa na Clave — disse Diana. — São um bando horroroso. Eles

acreditam em interrogar e torturar qualquer integrante do Submundo que viole os Acordos. Eles apoiam a Paz Fria incondicionalmente. Se eu soubesse que o pai de Zara era um deles... — Ela balançou a cabeça.

— Zara não pode assumir o Instituto — disse Livvy. — Ela não pode. Essa é a nossa casa. — Ela não liga para o Instituto — disse Kit. — Ela e o pai querem o poder que vem com o

Instituto. — Ele pensou nos habitantes do Submundo que conhecia do Mercado das Sombras, pensou neles reunidos, forçados a usarem alguma espécie de sinal, marcados ou carimbados com números de identificação...

— Mas a Tropa tem a vantagem — disse Livvy. — Ela sabe sobre Arthur, e não podemos

correr o risco de que alguém descubra. Ela tem razão: vão entregar o Instituto para outra pessoa.

— Você sabe alguma coisa sobre os Dearborn, ou sobre a Tropa? Alguma coisa que os

desmoralize? — perguntou Kit. — Que impeça que consigam o Instituto, caso ele fique disponível?

— Mas perderíamos assim mesmo — disse Ty.

— É — afirma Kit. — Mas eles não poderiam registrar quem é do Submundo. Pode não soar

tão ruim, mas nunca para por aí. Zara claramente não se importa se os integrantes do Submundo vivem ou morrem; quando ela souber onde todos estão, quando todos tiverem que se reportar a ela, a Tropa terá poder sobre eles. — O menino suspirou. — Vocês deveriam ler alguns livros de história mundana.

— Talvez pudéssemos ameaçar dizendo que vamos contar para Diego — falou Livvy. — Ele

não sabe, e eu sei que ele foi babaca com Cristina, mas não posso acreditar que ele vá ficar bem com isso. Se ele soubesse, terminaria com Zara, e ela não quer isso.

Diana franziu o rosto.

— Não é nossa melhor posição, mas é alguma coisa. — Ela voltou para a mesa, pegou uma

caneta e um bloco. — Vou escrever para Alec e Magnus. Eles lideram a Aliança entre Caçadores de Sombras e Submundo. Se alguém sabe sobre a Tropa, ou sobre qualquer estratégia de combate são eles.

— E se eles não souberem?

— Tentamos Diego — disse Diana. — Gostaria de acreditar que podia confiar nele mais do

que confio, mas... — Ela suspirou. — Gosto dele. Mas eu também gostava de Manuel. As pessoas não são o que parecem.

— E vamos continuar dizendo para todo mundo que Julian e os outros foram até a

Academia? — perguntou Livvy, deslizando para fora da mesa. Estava com os olhos escuros de exaustão. Os ombros de Ty despencaram. O próprio Kit tinha a sensação de ter levado uma surra. — Se alguém descobrir que eles foram para o Reino das Fadas, não vai fazer diferença o que fizermos em relação a Zara: vamos perder o Instituto de qualquer jeito.

— Torçamos para que eles voltem logo — disse Diana, olhando para o reflexo da lua na água

do mar. — E se torcer não funcionar, vamos rezar.

O bosque tinha ficado para trás, à medida que o crepúsculo se intensificava e virava noite, os quatro Caçadores de Sombras caminhavam por uma terra espectral de campos verdes, dividida por muros baixos de pedra. De vez em quando eles viam outro trecho afetado pela estranha praga através da bruma. Às vezes, viam a forma de uma cidade ao longe e caíam em silêncio, sem querer atrair atenção.

Tinham comido o que havia sobrado da comida na colina, mas não tinha muita coisa. No entanto, Emma não estava com fome. Um ronco de tristeza tinha se alojado em seu estômago.

Ela não conseguia se esquecer do que tinha visto quando acordou, sozinha na grama.

Ao se levantar, ela olhou em volta procurando Julian. Ele tinha sumido, e até a impressão dele na grama onde havia deitado estava desaparecendo.

O ar era pesado e cinza-dourado, deixando-a tonta enquanto ela subia até a borda, prestes a chamar o nome de Julian.

Então ela o viu, na metade da descida, o ar úmido levantando suas mangas, as bordas do cabelo. Ele não estava sozinho. Uma menina fada de vestido preto e rasgado estava com ele. O cabelo dela tinha cor de pétalas de rosa queimadas, uma espécie de cinza-rosado, caindo nos ombros.

Emma teve a impressão de que a menina olhou para ela por um instante e sorriu. No entanto, ela pode ter imaginado. Ela sabia que o que aconteceu em seguida não tinha sido imaginação, quando a menina se inclinou para Jules e o beijou.

Ela não sabia ao certo o que achava que ia acontecer; parte dela esperava que Jules afastasse a garota. Ele não afastou. Em vez disso, colocou os braços em volta dela e a puxou para perto, passando as mãos pelo cabelo brilhante. O estômago de Emma se revirou quando ele a puxou para perto. Ele segurou a menina fada com firmeza, as bocas se mexendo juntas, as mãos dela deslizando pelos ombros e pelas costas dele.

Havia algo quase lindo na imagem, de um jeito terrível. Ela apunhalou Emma com a lembrança de como era beijar Jules. E não havia hesitação nele, nenhuma relutância; nada o segurou, como se ele reservasse algum pedaço de si para Emma. Ele se entregou totalmente ao beijo, e ao fazê-lo era tão lindo quanto era horrível a constatação de que ela realmente o tinha perdido.

Ela teve a impressão de ter sentido seu coração de fato partir, como uma louça frágil.

A menina fada tinha se afastado, e depois apareceram Mark e Cristina, e Emma não conseguiu ver o que estava acontecendo: ela tinha virado de costas, se abaixando na grama, tentando não vomitar.

Suas mãos se cerraram em punhos no chão. Levante-se, ela disse ferozmente a si mesma. Ela devia isso a Jules. Ele tinha escondido toda a dor que sentiu quando Emma terminou com ele, e ela devia o mesmo a ele.

De algum jeito, ela conseguiu se levantar, forçar um sorriso, falar normalmente ao descer a colina para se juntar aos outros. Concordar com a cabeça enquanto eles dividiam comida, as estrelas apareciam e Mark decidia que conseguia se guiar por elas. Parecer despreocupada quando partiram, Julian ao lado do irmão, e ela e Cristina atrás deles, seguindo Mark pelas trilhas sinuosas e sem identificação do Reino das Fadas.

O céu agora estava radiante com estrelas multicoloridas, e cada uma delas iluminava uma trilha individual de pigmentos pelo céu. Cristina estava estranhamente quieta, chutando pedras com a ponta do sapato enquanto caminhava. Mark e Julian estavam à frente, longe o bastante para ouvirem alguma coisa.

— ¿Qué onda? — perguntou Cristina, olhando de lado para Emma.

O espanhol de Emma era ruim, mas até ela entendia o que houve? — Nada. — Ela se sentiu péssima por mentir para Cristina, mas pior ainda por seus

sentimentos. Compartilhá-los só os tornaria mais reais.

— Que bom — acrescentou Cristina. — Porque eu tenho uma coisa para contar. Ela respirou

fundo. — Eu beijei Mark.

— Uau — disse Emma, distraída. — Uau, uau, uau. — Você acabou de dizer “uau uau uau”?

— Foi. — Emma admitiu. — Então, essa é uma situação tipo toca-aqui-uhu ou é mais meu-

Deus-do-céu-o-que-vamos-fazer?

Cristina puxou o cabelo, nervosa.

— Não sei... gosto muito dele, mas... primeiro, achei que estivesse beijando só por causa da

bebida de fada...

Emma engasgou.

— Você tomou vinho de fada? Cristina! É assim que você apaga e acorda no dia seguinte

embaixo de uma ponte com uma tatuagem que diz eu amo helicópteros.

— Não era vinho! Era só suco!

— Tudo bem, tudo bem. — Emma baixou a voz. — Quer que eu termine com ele? Quero

dizer, que eu avise a família que acabou?

— Mas Julian — disse Cristina, parecendo perturbada. — E ele? Por um instante, Emma não conseguiu falar — ela estava se lembrando de Julian enquanto a

fada bonita atravessava a grama em direção a ele, o jeito como ela colocou as mãos em seu corpo, a forma como os braços entrelaçaram nas suas costas.

Ela nunca tinha sentido um ciúme daqueles antes. Ainda doía nela, como a cicatriz de um

velho machucado. Ela recebia bem a dor, de um jeito estranho. Era uma dor merecida, pensava. Se Julian tinha sofrido, ela deveria sofrer também, e ela tinha terminado com ele — ele era livre para beijar fadas, procurar um amor e ser feliz. Ele não estava fazendo nada errado.

Ela se lembrou do que Tessa tinha dito a ela, que a forma de fazer com que Julian deixasse de

amá-la era fazê-lo pensar que ela não o amava. Convencê-lo. Parecia que tinha conseguido.

— Acho que toda a minha farsa com Mark já fez o que tinha que fazer — falou. — Então, se

quiser...

— Não sei — disse Cristina. Ela respirou fundo. — Tenho que te contar outra coisa. Eu e

Mark discutimos, e eu não tive a intenção, mas...

— Parem! — foi Mark, na frente. Ele girou, com Julian ao seu lado, e estendeu a mão para

elas. — Estão ouvindo isso?

Emma forçou os ouvidos. Ela queria poder se Marcar — estava sentindo falta dos símbolos

que melhoravam velocidade, audição e reflexo.

Ela balançou a cabeça. Mark tinha trocado de roupa para as que deviam ser as da Caçada,

mais escuras e rasgadas, e até tinha esfregado terra no cabelo e no rosto. Seus olhos bicolores brilhavam ao crepúsculo.

— Ouçam — falou. — Está ficando mais alto. — E, de repente, Emma escutou: música. Um

tipo de música que nunca tinha ouvido antes, misteriosa e dissonante, que fazia com que seus nervos parecessem se contrair sob a pele.

— A Corte está perto — disse Mark. — Esses são os músicos do Rei. — Ele foi para a parte

mais densa do bosque na borda da trilha, virando apenas para falar “venham junto!” para os outros.

Eles o seguiram. Emma tinha consciência de Julian logo à frente dela; ele tinha sacado uma espada curta e a estava utilizando para cortar o mato. Montes de folhas e galhos pintados com pequenas flores cor de sangue caíam aos pés dela.

A música estava mais alta agora, e ia aumentando à medida que eles atravessavam a floresta espessa, as árvores acima deles brilhando com luzes fosforescentes. Lampiões multicoloridos pendiam dos galhos, apontando para a parte mais escura da floresta.

De repente, a Corte Unseelie apareceu — uma explosão de música alta e luzes brilhantes que agrediram os olhos de Emma depois de tanto tempo no escuro. Ela não sabia ao certo o que tinha imaginado quando tentou visualizar a Corte. Um enorme castelo de pedra, talvez, com uma sala do trono sombria. Uma câmara escura e exuberante no topo de uma torre, com uma escada cinza em espiral. Ela se lembrava da escuridão sombria da Cidade dos Ossos, a quietude do lugar, o frio no ar.

Mas a Corte Unseelie era a céu aberto — diversas tendas e barracas, não muito diferentes das do Mercado das Sombras, aglomeravam-se em uma clareira em um círculo de árvores espessas. A parte principal era um enorme pavilhão com cortinas, bandeiras de veludo nas quais se via o emblema de uma coroa quebrada, marcado em ouro, voando de todas as partes da estrutura.

Um trono alto e solitário, feito de pedra preta lisa e brilhante, encontrava-se no pavilhão. Estava vazio. O encosto era talhado com as metades de uma coroa, desta vez sobre uma lua e um sol.

Algumas fadas nobres, com capas escuras, moviam-se pelo pavilhão perto do trono. Suas capas tinham o símbolo da coroa, e elas usavam luvas grossas como a que Cristina encontrou nas ruínas da casa de Malcolm. A maioria era jovem; algumas não pareciam ter mais do que catorze ou quinze anos.

— Os filhos do Rei Unseelie — sussurrou Mark. Eles estavam agachados atrás de pedregulhos, espiando pelas bordas, com as armas na mão. — Alguns deles, pelo menos.

— Ele não tem nenhuma filha? — murmurou Emma.

— Elas não têm utilidade para o Rei — falou Mark. — Dizem que ele matou as filhas no nascimento.

Emma não conseguiu conter uma pontada de fúria.

— Deixe eu chegar perto — sussurrou. — Vou mostrar para ele a utilidade das mulheres.

Houve uma súbita explosão de música. As fadas no local começaram a se mover na direção do trono. Brilhavam elegantes em suas roupas douradas, verdes, azuis e vermelhas, e os homens tinham roupas tão coloridas quanto as mulheres.

— Está quase na hora — disse Mark, se esforçando para enxergar. — O Rei está chamando a nobreza para perto dele.

Julian se ajeitou, ainda escondido atrás das pedras.

— Então temos que ir agora. Vou ver se consigo chegar mais perto do pavilhão. — Sua espada curta brilhava ao luar. — Cristina — falou. — Venha comigo.

Após um instante de espanto, Cristina fez que sim com a cabeça.

— Claro. — Ela sacou sua faca, lançando um breve olhar para Emma, como se pedisse desculpas, enquanto ela e Julian desapareciam em meio às árvores.

Mark se inclinou para a frente contra o enorme pedregulho que os bloqueava da vista da clareira. Ele não olhou para Emma, apenas falou com a voz baixa.

— Não posso fazer isso — falou. — Não posso mais mentir para o meu irmão. Emma congelou.

— Mentir sobre o quê? — perguntou ela, apesar de saber a resposta. — Sobre nós dois — retrucou ele. — A mentira de que estamos apaixonados. Temos que

parar.

Emma fechou os olhos.

— Eu sei. Você e Cristina...

— Ela me contou. — Mark interrompeu. — Que Julian está apaixonado por você. Emma não abriu os olhos, mas ainda conseguia enxergar a luz brilhante das lâmpadas que

cercavam o pavilhão e a clareira ardendo contra suas pálpebras.

— Emma — falou Mark. — Não foi culpa dela. Foi um acidente. Mas quando ela me falou as

palavras, eu entendi. Nada disso nunca teve a ver com Cameron Ashdown, teve? Você estava tentando proteger Julian dos próprios sentimentos. Se Julian te ama, você precisa convencê-lo de que é impossível amá-lo de volta.

A solidariedade dele quase a destruiu. Ela abriu os olhos — fechá-los era covardia, e Carstairs

não são covardes.

— Mark, você conhece a Lei — falou ela. — E conhece os segredos de Julian: sobre Arthur,

sobre o Instituto. Você sabe o que aconteceria se alguém descobrisse, o que fariam conosco, com a sua família.

— Eu sei — falou ele. — E não estou bravo com você. Eu ficaria ao seu lado se você

encontrasse outra pessoa com quem enganá-lo. Às vezes, temos que enganar as pessoas que amamos. Mas não posso ser o instrumento que causa dor a ele.

— Mas só pode ser você. Você acha que eu teria pedido a você se houvesse mais alguém? —

Ela conseguia ouvir o desespero na própria voz.

Os olhos de Mark ficaram nebulosos.

— Por que só eu?

— Porque não existe mais ninguém de quem Jules tenha ciúme — falou, e viu o espanto

brotar nos olhos dele exatamente quando um graveto estalou atrás dela. Ela girou, Cortana brilhando.

Era Julian.

— Você não deveria sacar aço para seu próprio parabatai — disse ele, com um sorriso torto. Ela abaixou a lâmina. Será que ele tinha ouvido alguma coisa que ela e Mark disseram? Não

parecia.

— Você não deveria fazer barulho quando anda.

— Não temos símbolos de Silêncio — disse Jules, e olhou dela para Mark. — Encontramos

uma posição perto do trono. Cristina já está...

Mas Mark tinha ficado imóvel. Ele olhava fixamente para alguma coisa que Emma não

conseguia enxergar. O olhar de Julian encontrou o dela, cheio de alarme sem reservas, e então Mark se moveu e passou pelo matagal.

Os outros dois se lançaram atrás dele. Emma sentiu o suor se acumulando nas costas

enquanto se esforçava para não pisar em algum galho que pudesse quebrar, uma folha que pudesse rachar. Era doloroso e um exercício de humildade se dar conta do quanto os Nephilim dependiam de seus símbolos.

Ela parou subitamente, quase dando um encontrão em Mark. Ele não tinha ido muito longe, só até a beira da clareira, onde ainda estava escondido do pavilhão por um arbusto de samambaias.

A vista da clareira estava desobstruída. Emma via as Fadas Unseelie reunidas em frente ao trono. Havia cerca de cem delas, talvez mais. Estavam muito bem-vestidas, muito mais elegantes do que ela imaginava. Uma mulher de pele escura trajava um vestido feito de penas de ganso, brancas, e um colar envolvia seu pescoço fino. Dois homens pálidos trajavam casacos de seda cor-de-rosa e coletes brilhantes azuis. Uma mulher com pele cor de trigo e cabelos feitos de pétalas de rosas se aproximou do pavilhão, seu vestido era feito de ossos de pequenos animais, amarrados com um fio feito de cabelo humano.

Mas Mark não estava olhando para nenhum deles, nem para o pavilhão onde se encontravam os príncipes Unseelie, claramente esperando. Em vez disso, ele encarava dois dos príncipes Unseelie, ambos vestindo seda preta. Um era alto e tinha pele bem escura, o crânio de um corvo banhado em ouro pendurado em seu pescoço. O outro era pálido e tinha cabelos pretos, o rosto magro e barbado. Entre eles, estava abaixado o vulto de um prisioneiro, suas roupas manchadas de sangue, seu corpo flácido. A multidão se abriu para eles, suas vozes eram murmúrios baixinhos.

— Kieran — sussurrou Mark. Ele começou a avançar, mas Julian pegou a parte de trás de sua camisa, agarrando o irmão com tanta força que suas juntas ficaram brancas.

— Ainda não — sibilou. Seus olhos estavam secos, brilhantes; neles Emma viu a crueldade que ela um dia disse a ele que a assustava. Não por ela, mas por ele.

Os príncipes chegaram a uma árvore alta e de tronco branco à esquerda e à frente do pavilhão. O príncipe barbado jogou Kieran contra a árvore com força. O príncipe com colar de corvo falou duramente com ele, balançando a cabeça. O outro riu.

— O de barba é o Príncipe Erec — disse Mark. — O favorito do Rei. O outro é o Príncipe Adaon. Kieran disse que Adaon não gosta de ver pessoas machucadas. Mas Erec sim.

Parecia verdade. Erec produziu uma corda de espinhos e a estendeu para Adaon, que balançou a cabeça e se afastou em direção ao pavilhão. Dando de ombros, Erec começou a prender Kieran ao tronco da árvore. As mãos dele estavam protegidas por luvas grossas, mas Kieran usava apenas uma camisa rasgada e calça, e os espinhos perfuraram seus pulsos e calcanhares, e depois seu pescoço quando Erec puxou os fios da perversa corda contra a pele dele. Durante todo o tempo, Kieran ficou inerte, com os olhos semicerrados, claramente não se importando mais.

Mark ficou tenso, mas Julian o agarrou. Cristina tinha se juntado novamente a eles e estava pressionando a mão sobre a boca; ficou olhando enquanto Erec terminava com Kieran e recuava.

Sangue esguichou dos cortes onde os espinhos cortaram a pele de Kieran. A cabeça dele tinha caído para trás contra o tronco da árvore; Emma podia ver seu olho prateado, e o preto também, ambos semicerrados. Viam-se hematomas em sua pele pálida, na bochecha e acima do quadril, onde a camisa estava rasgada.

Houve uma comoção em cima do pavilhão, e a explosão solitária de um chifre calou os murmúrios baixinhos na clareira. A nobreza levantou o olhar. Um vulto alto tinha aparecido ao lado do trono. Estava todo de branco, branco como sal, com um gibão de seda branca e manoplas de osso branco. Chifres brancos se curvavam de ambos os lados da cabeça dele, contrastando com os cabelos pretos. Ele usava uma tiara de ouro na testa.

Cristina exalou.

— O Rei.

Emma pôde ver o perfil dele: era lindo. Claro, preciso, limpo como um desenho ou uma

pintura de algo perfeito. Emma não poderia descrever a forma dos olhos ou das maçãs do rosto, nem a curva da boca, e ela não tinha a habilidade de Jules de pintar, mas sabia que era inquietante e maravilhoso o fato de que se lembraria do rosto do Rei da Corte Unseelie por toda a vida.

Ele se virou, deixando o rosto todo à mostra. Emma ouviu Cristina arfar baixinho. O rosto do

Rei era dividido no meio. O lado direito era o rosto de um jovem, luminoso com beleza e elegância, mas o olho era vermelho como uma chama. O lado esquerdo era uma máscara inumana, pele cinza firme e espessa sobre o osso, a cavidade ocular vazia e preta, marcada por cicatrizes brutais.

Kieran, amarrado à árvore, olhou uma vez para a face monstruosa do pai e virou a cabeça, seu

queixo baixou e os cabelos pretos emaranhados caíram sobre os olhos. Erec se apressou para o pavilhão, se juntando a Adaon e a uma multidão de outros príncipes ao lado do pai.

Mark estava arfando.

— O rosto do Rei Unseelie — sussurrou. — Kieran falou dele, mas... — Firme. — Julian sussurrou de volta. — Espere para ouvir o que ele diz. Como se tivesse ouvido a deixa, o Rei falou:

— Membros da Corte, estamos aqui reunidos para um triste propósito: testemunhar a justiça

trazida contra um integrante do Povo das Fadas, que se armou e assassinou outro em um lugar de paz. Kieran Caçador foi condenado pelo assassinato de Iarlath, da Corte Unseelie, um dos meus cavaleiros. Ele o atacou com sua lâmina, aqui nas Terras Unseelie.

Um murmúrio atravessou a multidão.

— Pagamos um preço pela paz entre os nossos — disse o Rei. Sua voz era como um sino

ressonante, adorável e ecoante. Alguma coisa tocou o ombro de Emma. Foi a mão de Julian, a que não estava agarrando o braço de Mark. Emma o olhou surpresa, mas ele estava olhando para a frente, para a clareira. — Nenhuma fada Unseelie pode erguer a mão contra outra. O preço da desobediência é a justiça. Morte se paga com morte.

Os dedos de Julian se moveram rapidamente contra a pele de Emma sobre sua camisa, a

antiga língua da infância compartilhada. F-I-Q-U-E-A-Q-U-I.

Ela se virou para olhar para ele, mas ele já estava se afastando. Ela ouviu a respiração de Mark

sibilar em um engasgo e o segurou pelo pulso, impedindo que fosse atrás do irmão.

Sob a luz das estrelas, Julian caminhou para a clareira cheia de nobres Unseelie. Emma, com

o coração acelerado, segurou firme o pulso de Mark; tudo nela queria correr atrás de seu parabatai, mas ele tinha pedido para ela ficar, e ela ia ficar e segurar Mark. Porque Julian estava se movendo como se tivesse um plano, e, se ele tinha um plano, ela devia a ele a confiança de que podia funcionar.

— O que ele está fazendo? — Cristina gemeu, na agonia do suspense. Emma só conseguiu balançar a cabeça. Algumas das fadas na beira da multidão o tinham

visto agora e estavam exclamando, recuando enquanto ele se aproximava. Ele não tinha feito nada para cobrir as Marcas pretas e permanentes na pele: o símbolo de Clarividência nas costas da mão era como um olho raivoso apontado para as fadas em suas belas roupas. A mulher do vestido de ossos soltou um gritinho:

— Caçador de Sombras!

O Rei se retesou no trono. Um instante depois, uma fileira de cavaleiros fadas vestindo armadura preta e prata — entre eles, viam-se os príncipes que tinham arrastado Kieran para a árvore — tinham cercado Julian, formando um círculo ao seu redor. Espadas de prata, bronze e ouro brilharam em volta dele como um tributo sombrio.

Kieran levantou a cabeça e encarou. O choque em seu rosto ao reconhecer Julian foi total.

O Rei se levantou. Seu sorriso dividido era sinistro e terrível.

— Traga o Caçador de Sombras espião para mim, para que eu possa matá-lo com minha própria mão.

— Não vai me matar. — A voz de Julian, calma e confiante, se elevou sobre as outras. — Não sou espião. A Clave me mandou, e, se me matar, a guerra estará declarada.

O Rei hesitou. Emma sentiu um impulso selvagem de rir. Julian tinha mentido com tanta calma e confiança que ela mesma quase acreditou. A dúvida passou pela expressão do Rei.

Meu parabatai, ela pensou, olhando para Jules, com as costas eretas e a cabeça erguida, o único menino de dezessete anos do mundo que poderia fazer o Rei da Corte Sombria duvidar de si mesmo.

— A Clave o enviou? Por que não uma escolta oficial? — perguntou o Rei.

Julian fez que sim com a cabeça, como se já esperasse pela pergunta. Provavelmente esperava mesmo.

— Não tinha tempo. Quando soubemos da ameaça a Kieran Caçador, entendemos que teríamos que agir imediatamente.

Kieran emitiu um ruído engasgado. Tinha uma corda de fio espinhoso na garganta. O sangue desceu pela clavícula.

— Que importância tem para a Clave ou o Cônsul a vida de um menino da Caçada Selvagem? — perguntou o Rei. — Criminoso, ainda por cima?

— Ele é seu filho — disse Julian.

O Rei sorriu. Uma imagem bizarra, quando a metade do rosto se iluminou e a outra exibiu uma careta fantasmagórica.

— E assim ninguém pode me acusar de favoritismo — falou. — A Corte Unseelie entrega a mão da justiça.

— Iarlath, que ele matou, era um assassino de semelhantes. Ele tramou com Malcolm Fade para assassinar outros do Povo das Fadas — retrucou Julian.

— Eram da Corte Seelie — disse o Rei. — Não são os nossos.

— Mas você se declara o governante de ambas as Cortes — insistiu Julian. — Não deveria, portanto, o povo que um dia será seu esperar sua justiça e clemência?

Ouviu-se um murmúrio na multidão, dessa vez em tom mais suave. O Rei franziu o rosto.

— Iarlath também matou Nephilim — disse Julian. — Kieran impediu que outras vidas de Caçadores de Sombras fossem perdidas. Portanto, devemos a ele e nós pagamos nossas dívidas. Não permitiremos que tire a vida dele.

— O que você pode fazer para nos impedir? — disparou Erec. — Sozinho, como está?

Julian sorriu. Apesar de Emma conhecê-lo desde sempre, apesar de ele ser como uma parte dela, a certeza fria daquele sorriso gelou suas veias.

— Eu não estou sozinho.

Emma soltou Mark. Ele avançou pela clareira sem olhar para trás, e ela e Cristina o seguiram. Nenhum deles sacou sua arma, mas Cortana estava presa nas costas de Emma, visível para todos. A multidão se abriu para deixar que passassem e se juntassem a Julian. Emma percebeu, ao entrarem no círculo dos guardas, que os pés de Mark continuavam descalços. Eram tão pálidos quanto as patas de um gato branco contra a grama comprida e escura.

Não que isso tivesse alguma importância. Mark era um grande guerreiro mesmo descalço.

Emma sabia bem.

O Rei olhou para eles e sorriu. Emma não gostou do aspecto do sorriso. — O que é isso? — falou. — Uma escolta de crianças?

— Somos Caçadores de Sombras — disse Emma. — Temos o mandato da Clave. — Assim disseram — falou o Príncipe Adaon. — Qual é a sua exigência? — Boa pergunta — disse o Rei.

— Exigimos um julgamento por combate — respondeu Julian. O Rei riu.

— Só um membro do Povo das Fadas pode entrar em um julgamento por combate nas Terras

Unseelie.

— Eu sou fada — disse Mark. — Posso entrar.

Ao ouvir isso, Kieran começou a forçar suas amarras.

— Não — falou violentamente, e sangue escorreu por seus dedos e pelo peito. — Não. Julian nem olhou para Kieran. Kieran podia ser a pessoa que estavam aqui para salvar, mas se

precisassem torturá-lo para salvá-lo, Julian torturaria. Você é o menino que faz o que tem que ser feito porque ninguém mais faz, Emma tinha dito a ele certa vez. Parecia que tinha sido há anos.

— Você é um Caçador Selvagem — disse Erec. — E metade Caçador de Sombras. Você não

está preso a nenhuma lei, e sua lealdade é a Gwyn, não à justiça. Não pode lutar. — Seu lábio contraiu. — E os outros não são fadas.

— Não é bem verdade — disse Julian. — Diz-se frequentemente que crianças e loucos são

fadas. Que existe um laço que os liga. E somos crianças.

Erec bufou.

— Isso é ridículo. Vocês são adultos.

— O Rei nos chamou de crianças — disse Julian. — “Uma escolta de crianças”. Está

chamando seu líder de mentiroso?

Todos arfaram ao mesmo tempo. Erec empalideceu.

— Milorde... — Ele começou, voltando-se para o Rei. — Pai... — Silêncio, Erec, você já falou o suficiente — disse o Rei. Seu olhar estava em Julian, o olho

brilhante e a cavidade vazia e escura. — Interessante — falou, para ninguém em particular —, esse menino, que parece um Caçador de Sombras e fala como nobre. — Ele se levantou. — Você terá seu julgamento por combate. Cavaleiros, abaixem suas lâminas.

A parede cintilante de metal brilhante ao redor de Emma e de seus amigos desapareceu. Faces

rijas os encararam em seu lugar. Alguns eram príncipes, exibindo a marca distinta das feições delicadas e angulosas de Kieran. Outros eram cheios de cicatrizes de batalhas passadas. Uns poucos tinham os rostos escondidos por capuzes ou véus. Além deles, a nobreza da Corte vagava e exclamava, visivelmente empolgada. As palavras “julgamento por combate” espalhavam-se pela clareira.

— Você terá seu julgamento — repetiu o Rei. — Mas eu escolherei qual de vocês será o

campeão.

— Estamos todos prontos para isso — disse Cristina.

— Claro que estão. Essa é a natureza dos Caçadores de Sombras. Sacrifício voluntário tolo. —

O Rei se virou para olhar para Kieran, lançando a parte esquelética do seu rosto em alívio agudo. — Agora como escolher? Eu sei. Uma espécie de charada.

Emma sentiu Julian ficar tenso. Ele não gostaria da ideia de uma charada. Aleatório demais. Julian não gostava de nada que não pudesse controlar.

— Aproximem-se — disse o Rei, chamando-os com um dedo. Suas mãos eram claras como tronco branco. Um gancho como uma garra curta se estendia de cada dedo logo acima da junta.

A multidão se abriu para permitir que Emma e os outros se aproximassem do pavilhão. Enquanto iam, Emma notou um estranho cheiro que pairava sobre todos eles. Espesso e agridoce, como seiva de árvore. Foi se intensificando à medida que se aproximaram do trono até pararem e encararem o Rei, que se erguia acima deles como uma estátua. Atrás dele havia uma fileira de cavaleiros cujos rostos estavam cobertos por máscaras fundidas de ouro, prata e bronze. Algumas tinham forma de rato, outras, de leões dourados ou panteras prateadas.

— A verdade é encontrada em sonhos — disse o Rei, olhando para eles. Deste ângulo, Emma conseguia ver que a divisão estranha do rosto terminava no pescoço, onde a pele normal. — Digam-me, Caçadores de Sombras, vocês entram em uma caverna. Dentro da caverna, veem um ovo, iluminado por dentro e brilhando. Sabem que ele pulsa com seus sonhos; não os que vocês têm durante o dia, mas os sonhos dos quais não se lembram totalmente pela manhã. O ovo se abre. O que sai dele?

— Uma rosa — disse Mark. — Com espinhos.

Cristina fitou Mark com expressão surpresa, mas permaneceu imóvel.

— Um anjo — disse ela. — Com mãos sangrentas.

— Uma faca — disse Emma. — Pura e limpa.

— Barras — falou Julian baixinho. — As barras de uma cela.

A expressão do Rei não mudou. Os murmúrios da Corte ao redor soaram mais confusos do que raivosos ou intrigados. O Rei esticou uma mão longa branca e cheia de garras.

— Você aí, menina de cabelos luminosos — falou. — Você será a campeã dos seus.

Emma ficou aliviada. Seria ela; os outros não se arriscariam. Ela se sentiu mais leve, como se pudesse respirar outra vez.

Cristina virou na direção dela, parecendo assustada; Mark parecia se conter com toda a sua força. Julian pegou o braço dela, aproximando-se para sussurrar-lhe ao ouvido, exalando urgência por todas as linhas do seu corpo.

Ela ficou parada, os olhos fixos no rosto dele, permitindo que o caos da Corte fluísse ao seu redor. O frio da batalha já estava começando a recair sobre ela: o frio que encharcava emoções, deixando tudo, exceto a luta, sumir.

Julian era parte disso, do começo da batalha, do frio do meio e da ferocidade da luta. Não havia nada que ela quisesse ver mais do que o rosto dele. Nada que a fizesse se sentir mais à vontade nela mesma, mais como uma Caçadora de Sombras.

— Lembre-se — murmurou Julian. — Você já derramou sangue de fada antes, em Idris. Eles teriam te matado, teriam nos matado. Isso também é uma batalha. Não tenha compaixão, Emma.

— Jules. — Ela não sabia se ele a tinha ouvido falar seu nome. De repente, os cavaleiros os cercaram, separando-a dos outros. Seu braço escorregou da mão de Julian. Ela olhou uma última vez para os três, antes de ser conduzida para a frente. Um espaço estava sendo liberado diante do pavilhão.

Ouviu-se o som de um chifre, e o barulho agudo cortou a noite como uma faca. Um dos príncipes marchou de trás do pavilhão ao lado de um cavaleiro mascarado, que usava uma armadura cinza como o couro de um animal. Seu capacete cobria o rosto. Um desenho rústico fora pintado na frente do capacete: olhos arregalados, uma boca esticada em um sorriso. Alguém tinha tocado o capacete com mãos sujas de tinta e havia manchas vermelhas nas laterais, que davam um ar ameaçador ao que de outra forma poderia parecer palhaçada.

O príncipe guiou o cavaleiro mascarado para o seu lado do espaço aberto e o deixou ali,

encarando Emma. Ele portava uma espada longa fabricada por fadas, sua lâmina de prata com traços de ouro, o cabo cravejado com pedras. As bordas brilhavam afiadas como lâminas.

Uma espada forte, mas nada podia quebrar Cortana. A arma de Emma não falharia. Só ela

poderia falhar.

— Vocês conhecem as regras — disse o Rei em tom de tédio. — Depois que a batalha

começar, nenhum dos guerreiros pode ter ajuda de um amigo. A luta é até a morte. O vencedor é quem sobreviver.

Emma desembainhou Cortana. A espada brilhou como o sol poente logo antes de afogar no

mar.

Não houve reação do cavaleiro de capacete pintado. Emma se concentrou na postura dele. Ele

era mais alto do que ela, tinha mais alcance. Seus pés estavam cuidadosamente plantados. Apesar do capacete ridículo, era evidente que ele era um bom combatente.

Ela posicionou os pés: o pé esquerdo para a frente, pé direito para trás, curvando o lado

dominante do corpo para o oponente.

— Comecem — disse o Rei.

Como um cavalo de corrida saindo da baia, o cavaleiro correu para Emma, com a espada

saltando para frente. Surpreendida por sua velocidade, Emma desviou da lâmina. Mas começou atrasada. Ela deveria ter erguido Cortana antes. Estava contando com a velocidade do símbolo de Ataque Preciso, mas ele não estava funcionando. Um medo agudo que ela há muito não sentia a invadiu quando ela sentiu o sussurro da ponta da espada do cavaleiro passar a poucos centímetros dela.

Emma se lembrou das palavras de seu pai quando estava aprendendo. Ataque seu inimigo,

não a arma dele. A maioria dos lutadores ia para cima da lâmina. Um bom lutador mirava o corpo.

Este era um bom lutador. Mas ela estava esperando algo diferente? O Rei o tinha escolhido,

afinal. Agora ela só tinha que torcer para que o Rei a tivesse subestimado.

Dois giros rápidos a levaram a uma pequena elevação na grama. Talvez ela conseguisse

igualar a altura dele. A grama farfalhou. Emma não precisou olhar para saber que o cavaleiro estava vindo para cima dela outra vez. Ela deu meia-volta, movendo Cortana em um arco.

Ele mal recuou. A espada rasgou a armadura de couro espesso, abrindo um corte largo. Mas

ele não se mexeu, nem pareceu machucado. Certamente não perdeu velocidade. Atacou Emma, e ela se abaixou quando a lâmina do oponente passou assobiando por cima de sua cabeça. Ele atacou novamente e ela saltou para trás.

Ela pôde ouvir a própria respiração, irregular em virtude do ar frio da floresta. O cavaleiro

fada era bom, e ela não tinha a vantagem das Marcas, nem das lâminas serafim — ou de outro dos armamentos de um Caçador de Sombras. E se ela estivesse se cansando mais cedo? E se essa terra sombria estivesse sugando até mesmo o poder do seu sangue?

Ela se defendeu de um golpe, saltou para trás, e se lembrou, estranhamente, da voz desdenhosa de Zara, fadas jogam sujo. E Mark, fadas não jogam sujo, na verdade. Jogam notavelmente limpo. Elas têm um código severo de honra.

Ela já estava se curvando, atacando os calcanhares do cavaleiro — ele deu um salto, quase levitando, e avançou com a própria espada para baixo, justamente quando ela pegou um punhado de folhas e terra, e se levantou, jogando tudo nos buracos da máscara do guerreiro fada.

Ele engasgou e cambaleou para trás. Foi apenas um segundo, mas bastou; Emma atacou as pernas dele, um, dois, e depois o tronco. O sangue ensopou seu peito; as pernas fraquejaram e ele caiu no chão, com uma pancada das costas, como se fosse uma árvore derrubada.

Emma pisou na lâmina dele e a multidão rugiu. Ela ouviu Cristina chamar seu nome, além de Julian e Mark. Com o coração acelerado, ela ficou de pé sobre o cavaleiro imóvel. Mesmo agora, espalhado na grama, escurecido pelo próprio sangue, ele não fez barulho.

— Tire o capacete e finalize — disse o Rei. — É a nossa tradição.

Emma respirou fundo. Tudo que ela tinha de Caçadora de Sombras protestava contra isso, contra tirar a vida de uma pessoa deitada e desarmada aos seus pés.

Ela pensou no que Julian tinha dito a ela logo antes do combate. Não tenha compaixão.

A ponta de Cortana tilintou contra a borda do capacete. Ela a ajeitou sob a beira e empurrou.

O capacete caiu. O guerreiro deitado na grama embaixo de Emma era humano, e não fada. Seus olhos eram azuis, os cabelos louros com mechas grisalhas. Ele tinha um rosto mais familiar a Emma do que o dela própria.

A mão dela despencou para a lateral do corpo, e Cortana ficou pendurada por seus dedos fracos.

Era o pai dela.